A HISTÓRIA DE VILMAR GAIA – VINGADOR, OU PISTOLEIRO A PREÇO FIXO?

Rostand Medeiros – IHGRN

1970 foi um ano de seca muito forte, onde pouco sobrou para o homem do sertão nordestino conseguir sobreviver. Na época, o Governo Federal procurou minimizar os impactos sociais decorrentes dessa estiagem e atender as grandes levas de flagelados. Em anos anteriores haviam sido criados programas que consistiam na utilização de trabalhadores rurais em obras de pequeno e médio porte, as chamadas “Frentes de Emergência”. Normalmente executadas em grandes propriedades privadas de lideranças políticas, a criação desses subempregos fomentou entre os pequenos agricultores do sertão do Nordeste brasileiro uma forte dependência política e financeira. Mas para muitos, em certos momentos, foi a principal fonte de sobrevivência.

Uma dessas “emergências”, como o sertanejo denominavam os locais onde ocorriam as obras desse programa, ficava localizada a cerca de trinta quilômetros ao norte da sede do município pernambucano de Serra Talhada, na região do Pajeú (412 km de Recife e então com 65 mil habitantes).

No final de dezembro de 1970 ali foi realizada a obra de melhoramento da estrada carroçável que seguia até o povoado de Santa Rita, passando pela comunidade de São João dos Gaia e o sítio Serrote Branco.

A maioria dos trabalhadores rurais alistados naquele setor eram membros da família Magalhães, cujos os integrantes eram considerados um clã familiar tradicional, tidos como pessoas honestas, trabalhadoras, com muitos deles possuindo pequenas propriedades rurais, mas recursos financeiros limitados. Até hoje na região são conhecidos como a família Gaia, ou simplesmente os Gaia. Mesmo sem comprovação, é possível que essa denominação exista por eles possuírem um antepassado oriundo do município de Vila Nova de Gaia, norte de Portugal.

Foto ilustrativa de uma Frente de Emergência no sertão nordestino.

O certo é que no dia 30 de dezembro de 1970, uma quarta-feira, esses trabalhadores estavam reunidos para receber de um funcionário da extinta SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) o pagamento pela semana trabalhada na Frente de Emergência. Fazendo a segurança desse funcionário estavam dois soldados da Polícia Militar do Estado de Pernambuco (PMPE), que se chamavam Adalberto Clementino de Moura e Alberto Alves de Oliveira, este último conhecido como Alberto Cipriano. O pagamento ocorreu na comunidade de São João dos Gaia, em um local onde hoje existe um Grupo Escolar.

Segundo a reportagem de primeira página do Diário de Pernambuco (edição de 17/01/1971), na hora de entregar o miserável salário, o funcionário público da SUDENE buscou organizar uma fila e houve algum tipo de alteração entre ele e Edmundo Gaia, tido como chefe da família e da turma de trabalhadores, pois na sequência o pagador mandou que o soldado Adalberto revistasse Edmundo para ver se ele trazia alguma arma de fogo e em caso positivo, que fosse preso.

A Serra Talhada.

O material do jornal informa, sem trazer detalhes, que o soldado Adalberto não gostava de Edmundo e para impor autoridade empurrou o rapaz, que reagiu empurrando o militar de volta. O soldado então revidou com um violento murro na cara do trabalhador rural.

Aí a coisa desandou!

Cícero Batista Gaia tentou apartar a briga entre Edmundo e o soldado Adalberto, quando o outro soldado baleou Cícero. Na época uma das testemunhas do fato foi uma mulher conhecida como Maria Barraqueira, que tinha montado no local uma banquinha e vendia algumas peças de roupas. Ela contou que no momento do tiro atendia Antônio, irmão de Edmundo, que ao ouvir o disparo disse “Valha-me Nossa Senhora… Briga com meus irmãos! Corra Enoque (outro irmão)”. Maria Barraqueira contou ao repórter do Diário de Pernambuco que “A essa altura eu me vali das pernas e me fiz no mato, de onde ouvia, somente, a saraivada de balas pelo ar”.

Outra testemunha do conflito, um trabalhador rural local, narrou que “Nossa Senhora valeu os irmãos Gaia, pois aguentar uma chuva de balas daquelas, foi um verdadeiro milagre”. Ainda segundo essa testemunha os Gaia, ao verem Cícero baleado, “lutaram como leões”. Um deles partiu para cima do soldado Alberto Cipriano, conseguiu tomar seu revólver e matá-lo. O soldado Adalberto também tombou sem vida. Uma versão aponta que Cícero, Edmundo, Tozinho, Antônio e Enoque Gaia reagiram apenas com facões e punhais aos dois policiais armados de revólveres. O menor Luiz Ferreira da Silva testemunhou tudo e afirmou à imprensa que também havia sido agredido por um dos policiais, cujo nome não sabia. Comentou também que os Gaia reagiram às arbitrariedades “como um homem deve fazer” e que os soldados “estavam pagando para morrer”.

Após as mortes, os membros da família Gaia envolvidos no conflito desapareceram.

Covardia

Em março de 1975, quando o caso Vilmar Gaia estava no auge, o então capitão da PMPE Jorge Luiz de Moura, que nessa época era o Assistente Policial Militar Adjunto a Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco, produziu um interessante relatório de onze páginas sobre o caso. Uma cópia foi entregue ao extinto DOPS (Delegacia de Ordem Política Social) de Recife e se encontra no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, cujo conteúdo utilizei para produzir esse artigo.

Neste material o capitão Jorge afirmou que a morte daqueles dois policiais “gerou a inimizade entre alguns elementos da Polícia Militar, destacados nesta cidade (Serra Talhada), que ficaram solidários com as famílias dos soldados assassinados”. O problema dessa “inimizade” foi a forma como os policiais agiram contra os membros da família Gaia que não fugiram. Um grupo formado basicamente de velhos, mulheres e crianças.

Um funcionário municipal de Serra Talhada, cuja identidade não foi revelada, comentou aos jornalistas do Diário de Pernambuco (edição de 17/01/1971) que “as sevícias”, que os familiares dos assassinos dos soldados sofreram da polícia, a fim de descobrirem o paradeiro dos mesmos, foi um “procedimento reprovável sob todos os pontos de vista”.

Francisca Maria Alves, seus filhos. Membros da família Gaia, atacados por policiais.

Os repórteres recifenses estiveram no casebre de Antônio Paes de Lima, sogro de Edmundo, onde viram as portas arrombadas pelos policiais ao iniciar as diligências para capturar os criminosos e ouviram do dono da casa que os soldados chegaram por volta da meia noite do dia 31 de dezembro de 1970. Antônio começou o Ano Novo “recebendo murros, pontapés, pancadas nos peitos com a coronha de um fuzil e empurrões”. O mesmo aconteceu com seu filho Joaquim Paes, que foi arrastado pelos cabelos e jogado em cima de um caminhão. Já a Senhora Virginal Vieira Alves, esposa de Edmundo, tentou fugir com os seus filhos, mas foi obrigada a retornar para sua casa em meio a muitas ameaças dos soldados, que mantiveram fuzis apontados para ela e suas crianças.

Já as jovens Maria José Paes de Lima, Lucinda Francisca Alves e Maria Ginave Alves, tiveram as mãos e os pescoços amarrados e foram violentamente açoitadas com cordas para revelarem o paradeiro dos parentes.

Mas não ficou só nisso!

A mãe de Edmundo, a Senhora Manuela Maria Cordeiro de Magalhães, então com 72 anos de idade, foi arrastada pelo chão, teve fuzis apontados para sua cabeça e foi ameaçada com sabres no pescoço. Nem o motorista da viatura policial aguentou ver o sofrimento daquela mulher e clamou pela sua defesa. Ainda segundo a reportagem do Diário de Pernambuco a tentativa de proteção não adiantou, pois seus companheiros de farda jogaram Dona Manuela em cima de um banco de madeira e, em janeiro de 1971, ela se encontrava entre a vida e a morte.

Já Francisca Maria Alves, mãe de dez filhos e que estava grávida na época dessa tragédia, foi ameaçada de ser sangrada se não informasse o paradeiro do seu marido Antônio Gaia. A experiência de Dona Francisca foi verdadeiramente terrível, pois sofreu violências na frente dos filhos e nada falou sobre o esposo.

No outro dia, por pura necessidade, essa mulher foi buscar água em uma cacimba nas proximidades. Nesse meio tempo seus filhos, já massacrados de tanto terror acontecido na noite anterior, ao escutarem um carro circulando pelas imediações de sua casa, correram desesperados para o meio do mato. Pensavam que a polícia retornava para uma nova seção de violências.

Ocorre que as crianças se perderam na caatinga e só foram encontrados já à noite. O mais novo dos filhos de Dona Francisca se achava doente e acabou morrendo por falta de assistência.

A Morte do Velho Batista Gaia

Aparentemente as notícias das arbitrariedades policias contra idosos, mulheres e crianças da família Gaia obtiveram certo nível de repercussão em Recife. Mas isso não significou o fim das violências.

Segundo uma reportagem da Revista Manchete, assinada por Laércio Vasconcelos (Edição 1568, 08/05/1982, págs. 118 a 121), quem passou a ajudar os membros da família Gaia envolvidos no conflito da “Frente de Emergência” foi um tio chamado João Batista de Magalhães, mais conhecido como João Batista Gaia. Ocorre que esse cidadão, guarda aposentado da Coletoria Estadual, era amigo de José Cipriano, pai do falecido soldado Alberto Alves de Oliveira, o Alberto Cipriano. Segundo o jornalista Laércio Vasconcelos, nas décadas de 1920 e 30 eles haviam participado de volantes que haviam caçado Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e seu bando de cangaceiros. Quando José Cipriano soube que seu velho amigo de correrias contra Lampião estava ajudando na defesa dos assassinos do seu filho, evidentemente que não gostou nem um pouco daquela situação.

Em 06 de julho de 1971, seis meses após os acontecimentos em São João dos Gaia, o velho Batista Gaia foi assassinado em Serra Talhada com cinco tiros, duas facadas e uma forte cacetada na cabeça. O fato se deu quando ele estava no quarto de uma prostituta, aparentemente denominada “Ina” e seu corpo foi então jogado ao lado da caixa d’agua da cidade, em um lugar conhecido como Alto do urubu, ou simplesmente Urubu.

O então delegado de Serra Talhada, o capitão João Virgílio Oliveira de Morais, instaurou um inquérito para saber quem matou João Batista Gaia. Este solicitou a Secretaria de Segurança Pública um Delegado Especial e quem assumiu a função foi o Bacharel Fernando José Pereira de Albuquerque. Essa autoridade afirmou, e consta do relatório do capitão Jorge (Pág. 02), que “dada as inimizades da vítima, neste município, as pessoas conhecedoras dos detalhes, se furtaram a prestar informações”.  

Ainda segundo esse relatório de 1975, logo surgiram três versões acerca da morte de Batista Gaia na cidade de Serra Talhada. A primeira dizia que os autores foram soldados da 17ª Companhia de Polícia Militar; a segunda que o autor foi José Cipriano; e a última versão era que o velho Batista Gaia desempenhara a função de guarda da Coletoria Estadual (atual Secretaria da Fazenda), onde conseguiu muitos inimigos e foi assassinado pelas suas ações como funcionário público. O relatório também informou que na época desse homicídio João Batista Gaia tinha 75 anos, mas era um homem que frequentava cabarés, bebia e arranjava confusões nesses ambientes.

Igreja de Nossa Senhora da Penha, em Serra Talhada.

Mesmo sem apontar autores, o inquérito foi então remetido à justiça. Durante a instrução criminal o promotor público de Serra Talhada, cujo nome não é informado, solicitou o arquivamento do processo, mas o pedido foi negado pelo juiz Ítalo José de Miranda Fonseca. Aí o processo foi encaminhado para o Procurador Geral, que acatou as alegações do juiz Ítalo Fonseca e mandou que o promotor público da cidade de Triunfo, distante 33 quilômetros de Serra Talhada, oferecesse denúncia.

O processo foi em seguida remetido para a Secretaria de Segurança Pública, para diligências complementares. Estas foram realizadas pelo Delegado de Homicídios da época, que concluiu pela participação do soldado da PMPE Natalício Nunes Nogueira. Ainda segundo o relatório do capitão Jorge em decorrência dessa conclusão, o soldado Natalício foi denunciado pelo promotor público (não é informado se foi o de Triunfo, ou de Serra Talhada) e enquadrado no crime de homicídio qualificado. Mas o soldado foi impronunciado pelo próprio promotor, alegando falta de provas.

O leitor deve levar em consideração que naqueles primeiros anos da década de 1970, a situação de violência na região de Serra Talhada alcançou um tal nível, que em 1975 existia naquela comarca 102 processos de homicídio, sendo que em dez constava o uso de tocaias para perpetrar os crimes e outros dez envolviam nada menos que quinze policiais (Revista Manchete, edição 1220, 06/09/1975, página 23). Já o relatório do capitão Jorge (Relatório, pág. 11), através de informações fornecidas pelo juiz Ítalo, nos três cartórios criminais de Serra Talhada havia 150 processos criminais em andamento, sendo 80 abertos entre abril de 1974 e março do ano seguinte. 

Foto antiga de Serra Talhada.

Ou seja, o caso da morte do velho Batista Gaia era mais um entre tantos.

Independentemente dessa questão, o certo é que os membros da família Gaia não viram ninguém ser preso, julgado e condenado pela morte de João Batista Gaia. Enquanto isso, alguns integrantes dessa família envolvidos no conflito da “Frente de Emergência” estavam detidos na Delegacia de Serra Talhada.

“Se Fosse Vivo Eu o Mataria Novamente”

Vilmar Alves Magalhães, o Vilmar Gaia, nasceu em 15 de maio de 1949 e era filho do velho Batista Gaia e de Dona Francisca Alves de Lima, que faleceu quando Vilmar tinha oito anos de idade. Esse rapaz era uma figura típica do meio rural da região do Pajeú. Nasceu na povoação de Santa Rita, estudou até o segundo ano primário, gostava de gado e jogar pião, trabalhou na roça e, na ausência de sua mãe, foi criado pela irmã mais velha, Maria de Lourdes. Esta enviuvou cedo e, sem filhos, deu todo carinho possível ao irmão mais novo. Não era uma criança de chorar por besteiras e cedo ganhava alguns trocados tangendo o gado de Seu Luís Inácio. Segundo a maioria das fontes, Vilmar Gaia se encontrava em São Paulo e após saber do assassinato do pai voltou para o Pajeú (Diário de Pernambuco, 22/08/1975).

Vilmar Gaia

Segundo o relatório do capitão Jorge Luiz de Moura, até a época do assassinato do seu pai, Vilmar Gaia não tivera problemas com a justiça. Inclusive o capitão Jorge descobriu que ele havia tentado ingressar na polícia em julho de 1970, no quartel do 5º Batalhão de Polícia Militar, quando este era sediado na cidade pernambucana de Salgueiro. Em uma reportagem assinada pelo jornalista Ricardo Noblat, na Revista Manchete (edição 1220, 06/09/1975, páginas 22 e 23), existe a informação que quando mataram seu pai, mesmo tendo ido para São Paulo, Vilmar estava inscrito em um novo exame de admissão na polícia do seu estado.

Mas agora, de volta ao sertão pernambucano e cheio de ódio, ele iria mostrar que era melhor com uma arma na mão do que com um lápis!

Novamente na Revista Manchete, Vilmar deu uma declaração a Ricardo Noblat onde buscou resumir sua vingança – “O processo não andava, nunca andou direito. A gente ia, pedia ao delegado, capitão Virgílio, comandante da 17ª Companhia de Polícia Militar, e não adiantava, e não fazia nada. E o que era pior: ainda passava os domingos na casa de José Cipriano, o homem que mandou matar meu pai. Aí compreendi que a justiça tinha que ser feita pela gente mesmo”.  

Evidentemente que Vilmar desejava colocar os assassinos do seu pai na alça de mira de sua arma. Para ele seus alvos prioritários eram José Cipriano, seus familiares e os policiais que ajudaram na morte do velho Batista Gaia.

Em uma entrevista o tenente reformado da polícia pernambucana David Gomes Jurubeba, ex-integrante das “volantes” que combateram o cangaceiro Lampião e seu bando na década de 1930, comentou que Vilmar Gaia descobriu que os soldados Natalício Nunes Nogueira e Luís Gonzaga Mendes estavam envolvidos na morte do velho Batista Gaia. Estes possuíam laços de parentesco com a família Ferraz e este clã foi acusado por Vilmar de protegê-los (Diário de Pernambuco, edição de 17/11/1975). Uma outra versão aponta que Vilmar soube que a prostituta que estava com seu pai no dia de sua morte e se chamaria “Ina”, teria traído seu cliente por CR$ 500,00, pagos pelos assassinos. Ela então teria se arrependido do que fez e narrou tudo ao filho de Batista Gaia.

Policiamento em Serra Talhada.

Somente em 13 de janeiro de 1973, um ano e meio depois da morte de seu pai, foi que Vilmar Gaia conseguiu matar com um tiro na testa Arnaldo Alves de Oliveira, o Arnaldo Cipriano, em um bar na cidade de Salgueiro, quando a vítima jogava bilhar. Este era filho de José Cipriano e irmão do soldado Alberto, o mesmo que morreu no penúltimo dia de 1970.

Vilmar nunca negou a autoria desse crime. Quando foi preso em 1975 ele afirmou para o juiz de Salgueiro, o Dr. Enéas Bezerra de Barros, que “Se Arnaldo Cipriano fosse vivo eu o mataria novamente. Ele foi um dos assassinos de papai e eu o escolhi para mandá-lo para o inferno em primeiro lugar” (Diário de Pernambuco, edição de 14/11/1975).

Logo Vilmar focava em outros alvos e angariava novos inimigos e amigos.

Se havia militares que Vilmar Gaia desejava ver diante da mira do seu revólver, outros lhe protegiam com “o braço forte” e estendiam a “mão amiga”.

Seu parente Lindauro Gaia comentou em um documentário com direção de Eduardo Coutinho e intitulado “O Pistoleiro de Serra Talhada”, que após a morte de Arnaldo Cipriano, Vilmar passou a circular livremente ao lado de policiais. Comentou que seu parente “ficou dentro da cidade, com a polícia com a mão por cima dele e até bebendo”.

Mas logo essa aproximação traria problemas.

Mais Problemas

Sentindo-se protegido, Vilmar Gaia foi a uma festa na comunidade do Jardim, próximo a São João dos Gaia. Era uma noite de sábado, 22 de junho de 1974, bem no período de festas juninas e ele foi acompanhado de amigos policiais e algumas mulheres.

Vilmar começou a dançar com uma dessas damas, considerada “de vida fácil” pelo povo da região. Seja pela forma de vestir, ou de agir, a dança de Vilmar e da parceira começou a incomodar os presentes. Estes foram até Pedro Inácio dos Santos, suplente de Comissário de Polícia, pedir que ele tomasse providências. Sem outro jeito, Pedro foi até Vilmar e mandou que ele e seus amigos se comportassem, ou fossem embora do ambiente.

Com o que aconteceu depois, teria sido melhor ter deixado o casal dançar do jeito que bem entendessem.

Logo estourou uma discursão, que gerou um tiroteio pesado, onde foram disparados mais de 40 tiros. O resultado foi a morte de Pedro Inácio, ferimento em três homens e duas mulheres. Segundo o relatório do capitão Jorge (Relatório, págs. 03 e 04), embora não conste nos autos do processo aberto sobre esse episódio, Vilmar Gaia também saiu ferido e recebeu tratamento médico no Hospital Barão de Lucena, em Recife.

Ao ler esse relatório, acredito que para o capitão Jorge o mais incrível desse episódio ocorreu cerca de quinze dias depois, na delegacia de Serra Talhada.

Vilmar Gaia esteve neste local para prestar depoimento sobre o tiroteio em Jardim. Ele foi acompanhado de outras pessoas, alguns de sua família, todos armados até os dentes. Ocorre que na hora do depoimento chegou de Salgueiro um cabo, três soldados e um motorista, com ordens do tenente Almir Ferreira de Morais, delegado daquela cidade, para levar Vilmar até sua presença, onde ele deveria prestar depoimento sobre a morte de Arnaldo Cipriano.

Mas o delegado de Serra Talhada, um subtenente, negou ao cabo que Vilmar Gaia estivesse naquele momento em sua delegacia, o que era mentira. Um soldado de Salgueiro sabia quem era Vilmar, o reconheceu e informou ao cabo. Este por sua vez, vendo a atitude de seu superior e a presença de pessoas armadas em favor de Vilmar Gaia, decidiu recuar.

Vilmar Gaia na Delegacia de Serra Talhada.

O capitão Jorge descreveu em seu relatório oficial que a atitude do militar que respondia pela delegacia de Serra Talhada foi classificada como “omissão”, além de “pura falta no cumprimento do dever” e “covardia”.

Com esse tipo de ação por parte das autoridades policiais junto a Vilmar Gaia, o que reservava o futuro?

Mais Mortes

Três meses depois, em 13 de outubro de 1974, por volta das sete ou oito da manhã de um domingo, mesmo estando respondendo ao processo sobre a morte de Pedro Inácio dos Santos, que tinha o número 2.746 e corria no 2º Cartório da Comarca de Serra Talhada, Vilmar circulava livre e solto em um carro, na povoação de Santa Rita. Então ocorreu na estrada a colisão do seu veículo com o do primo Antônio Augusto Batista. Ao invés de procurarem resolver o problema na conversa, logo surgiu uma discursão e o clima esquentou. Existe uma versão que durante a troca de palavras ásperas, Antônio Augusto teria ido até o seu carro pegar uma arma e por isso o “Vingador do sertão” atirou nele, matando-o na hora.

Vilmar, certamente buscando um fiapo de justificativa, comentou em uma entrevista para o Diário de Pernambuco (14/11/1975) que seu primo Antônio Augusto lhe protegia após o início dos problemas com seus inimigos, mas depois, com medo, passou para o lado da família de José Cipriano. Muita gente em Serra Talhada afirma que isso era mentira.

E quase que Vilmar Gaia mata outro primo nesse mesmo dia!

José Augusto Batista, irmão da vítima, se dirigiu para o local e foi recebido a tiros por Vilmar Gaia. Só não morreu por que entrou no seu carro e fugiu.

José Augusto veio até o quartel da 17ª Companhia de Polícia Militar e pediu auxílio. Foi organizada uma patrulha composta de um cabo e seis soldados a fim de capturar Vilmar Gaia, que descaradamente ainda se encontrava em Santa Rita. Consta que o cabo levou uma submetralhadora calibre 45, completamente municiada.

O pistoleiro estava no interior de uma casa, quando por volta das nove ou dez horas da manhã (algumas fontes apontam que foi a tarde) a polícia chegou. Ao Diário de Pernambuco Vilmar Gaia afirmou (14/11/1975) que “ao invés de lhe darem voz de prisão, começaram a atirar e, para não morrer, me defendi”.

O soldado Natalício Nunes Nogueira, seu inimigo implicado na morte de seu pai, entrou pela porta traseira e Vilmar o matou a tiros. Após isso tratou de fugir. Já o cabo armado com a submetralhadora continuou com a mesma nas mãos e não disparou um único tiro.

Vaqueiros do sertão do Pajeú – Foto Rostand Medeiros

Com esses homicídios, os ânimos se acirraram em Serra Talhada e a situação de Vilmar Gaia começou a se complicar. Depois de matar um primo e tentar contra a vida de outro, houve um rompimento na família Gaia, com uma parte querendo a cabeça do pistoleiro e outra o protegendo.

Com a morte do soldado Natalício a polícia novamente voltou a circular na região da família Gaia, agora com violência redobrada. Houve invasão de casas, pessoas apanharam e outras foram presas. Zuleide Alves de Magalhães, irmã de Vilmar, ficou detida nas dependências da 17ª Companhia de Polícia Militar.

Lindauro Gaia comentou ao diretor Eduardo Coutinho em 1977 que, a partir da morte do soldado Natalício, a perseguição contra Vilmar Gaia só fez crescer e ele deixou de circular por São José dos Gaia e Santa Rita.

Luta entre Famílias

Enquanto a polícia perseguia os integrantes da família Gaia e corria atrás de Vilmar, as violências se sucediam.

Consta que ainda em 1974, Vilmar Gaia participou da morte de um homem chamado Luiz Desidério, ou Luiz de Izidério, na cidade de Irecê, Bahia. Esse cidadão, quase octogenário, havia praticado um assassinato em Serra Talhada no ano de 1926 e, mesmo passados tantos anos, seu filho, conhecido como Baiãozinho, desejava a vingança. Esse era amigo de Vilmar Gaia e ele teria supostamente participado desse crime por amizade. Para outros a motivação foi apenas dinheiro. Vilmar afirmou apenas testemunhou a morte. O certo é que Baiãozinho assumiu toda a culpa, foi a julgamento e acabou absolvido pelo júri.

Em meio aos conflitos, não demorou para que outros membros da família Gaia pagassem com a vida pelo parentesco com Vilmar.

Em janeiro de 1975 foi assassinado o motorista de taxi Francisco Gaia Filho, o conhecido Batinha. Uma noite ele estava estacionado com seu fusca na porta do Cabaré de Nivalda, quando seus assassinos chegaram e o mataram. Quem socorreu Batinha para o hospital foram as prostitutas, mas nada pôde ser feito. Na Revista Manchete (edição 1220, de 1975) existe a informação que no dia de sua morte Batinha foi revistado três vezes pela polícia antes de ser assassinado.

Policiamento em Serra Talhada.

Vilmar não demorou para responder essa morte e partiu para ação.

Mais ou menos às cinco da tarde do dia 19 de março de 1975, o soldado Luiz Gonzaga Mendes, outro implicado na morte do pai de Vilmar, ao voltar de um roçado pertencente ao seu pai na fazenda São José, Distrito de Tauapiranga, foi inesperadamente alvejado no coração com um tiro de um rifle calibre 44. Ele caiu ferido, mas faleceu no outro dia. Segundo a documentação existente, o soldado Gonzaga era casado com Neomar de Araújo Ferraz Mendes, filha do comerciante serra-talhadense Irineu Gregório Ferraz, que prestou depoimento juntos as autoridades pelo assassinato do genro. Irineu afirmou que Antônio de Souza Mendes, irmão de Gonzaga, testemunhou o crime e apontou como autores da emboscada Vilmar e um soldado reformado da PMPE, que tinha o apelido de “Brucutu”. Vale frisar que além de sogro do soldado Gonzaga, Irineu Ferraz era primo do soldado Natalício Nunes Nogueira.

Um dia depois da morte do soldado Gonzaga, o comerciante Álvaro Batista Gaia, irmão de Batinha e casado com uma irmã de Vilmar Gaia, foi brutalmente assassinado em sua casa de comércio chamada “Aliança de Ouro”. O comerciante tombou ao lado da caixa registradora, após receber disparos de revólveres e rifles, desfechados por cinco ou seis homens armados. Segundo o escritor e pesquisador Valdir Nogueira, essa loja ficava no Alto de Bom Jesus, em Serra Talhada.

Na época suspeitou-se que os assassinos seriam comandados por Irineu Ferraz, acompanhado de vaqueiros, ou de colegas do soldado Gonzaga. Mas não consegui maiores informações sobre esse processo, ou se alguém foi preso.

Vilmar sendo entrevistado após sua prisão.

Famoso e Sendo Reconhecido

As notícias desses crimes ecoaram por toda parte. Eram difundidas pelas emissoras de rádio e logo circulavam por todo Nordeste. Segundo o relatório do capitão Jorge, essas mortes causaram impacto na opinião pública de Pernambuco, sendo bastante divulgados pela imprensa da capital e do sul do país. Consta que até repórteres da Rede Globo e do jornal O Estado de São Paulo estiveram na região (Relatório, pág. 06).

Vilmar, a quem as mulheres chamavam de “galã”, teve seu ABC cantado nas feiras sertanejas pelos poetas e violeiros, ou exposta através de folhetos de cordel. Em Recife seu nome era comentado desde o Mercado de São José, nas esquinas da Rua do Imperador, ou da Avenida Guararapes. Já o poeta popular Olegário Fernandes, da cidade pernambucana de Caruaru, produziu o folheto de cordel intitulado “Vilmar Gaia, o cangaceiro de Serra Talhada” e assim escreveu:

“Agora peguei a pena

Com divina inspiração

Para escrever uma história

Sobre o cavalo negro

Da Caatinga e do sertão.

Vira-se em cavalo preto

Corre-se dentro da campina

Vira-se em pau, ou pedra

Para cumprir sua sina

Come lagarta e besouro

Como ave de rapina”.

Mas essa exposição nos cordéis e na mídia, mesmo a televisiva ainda sendo limitada no sertão nordestino na primeira metade da década de 1970, trouxe um lado bastante negativo para Vilmar Gaia, pois ele foi visto e seu rastro seguido em vários locais. Essas informações chegaram aos policiais e após investigações o capitão Jorge listou em seu relatório onde ele se escondia e recebia abrigo.

Inicialmente Vilmar se homiziava em áreas onde predominavam membros de sua família, como Santa Rita, São João dos Gaia e Serrote Branco. Mas com o rompimento ele se afastou dessas áreas e passou a frequentar uma propriedade rural a 15 quilômetros de Serra Talhada, na altura onde se inicia a estrada que dá acesso ao Distrito de Bernardo Vieira e ao Estado da Paraíba.

Conforme a perseguição crescia ele passou a frequentar mais as terras paraibanas. Tinha “coitos”, esconderijo no linguajar sertanejo, em uma fazenda no município de Princesa Isabel (de um político local), uma casa de uma mulher afastada do centro da cidade de Teixeira, em uma fazenda de um ex-deputado estadual próximo a cidade de Piancó e em um sítio em Itaporanga, onde receberia apoio de um ex-policial.

Em Pernambuco foi visto circulando com os pistoleiros conhecidos como “Nunes” e “Pitu”, sendo o primeiro o ex-policial José Nunes da Silva. Vilmar também recebia apoios nas cidades de Salgueiro, Floresta, Tacaratu (onde um rico do lugar lhe fornecia dinheiro quando necessitava). Andou também por Serrita, Calumbi (na fazenda de um político local) e em Recife (na casa de amigos no bairro do Cordeiro). Segundo o capitão Jorge havia notícias que Vilmar estivera circulando em Alagoas, na cidade baiana de Feira de Santana, na cidade cearense de Juazeiro do Norte e até mesmo em Caxias, no Maranhão (Relatório, pag. 09).

A existência desses apoios, esconderijos e o fato de Vilmar andar com matadores conhecidos, foi visto por muitos em Serra Talhada e região que de “Vingador do Sertão” Vilmar Gaia não tinha nada. Ele seria apenas mais um pistoleiro que vagava pelo Nordeste destruindo vidas humanas em troca de dinheiro e já teria matado, dependendo das fontes, de 27, 32 e chega a até 35 pessoas.

Vilmar Gaia sempre negou essa situação. Diante das câmeras afirmou que matou o soldado Natalício Nunes Nogueira, seu primo Antônio Augusto Batista e o Comissário de Polícia Pedro Inácio dos Santos. Além deles, conforme ele narrou ao juiz Enéas Bezerra de Barros e está registrado no Diário de Pernambuco, edição de 14/11/1975, matou Arnaldo Alves de Oliveira, o Arnaldo Cipriano, na cidade de Salgueiro.

A Lei se Impõem

Em meio a tantas mortes em sequência, o aparato jurídico e policial do Estado de Pernambuco começou a agir. E a ação se incrementou por ordem direta do então governador pernambucano José Francisco de Moura Cavalcanti, certamente pressionado pela opinião pública.

De Recife veio o capitão Jorge Luiz de Moura, com a missão de “Oficial Observador”. Após inspecionar o setor e tomar conhecimento pormenorizado dos fatos, transferiu de Serra Talhada para a cidade de Petrolina os policiais suspeitos de estarem envolvidos nos crimes anteriormente narrados e os que tinham processos abertos. De Petrolina vieram militares para manter a ordem em Serra Talhada e o policiamento ostensivo foi intensificado.

Vilmar Gaia após sua prisão.

Outra ação do capitão Jorge que é digna de nota, é que após a sua chegada ele buscou os líderes da comunidade de Serra Talhada e chamou todos para uma reunião. Estavam presentes o prefeito, o delegado, comerciantes, profissionais liberais e outros. Nela o militar expôs as ordens recebidas, a forma de atuação do seu trabalho e ouviu as reclamações das lideranças locais. Nesse diálogo o capitão Jorge sentiu “certa falta de confiança na ação policial local, oriunda de acontecimentos anteriores” (Relatório, pág. 10).   

Em seu comentado relatório o capitão Jorge apontou para seus superiores a necessidade de se trazer para Serra Talhada um Delegado Especial, que fosse “imparcial e experiente e com total apoio da SSP e do Comando da PMPE”. Em abril de 1975 foi nomeado o capitão José Ferreira dos Anjos, um oficial tido como valente, operacional e campeão de tiro da polícia pernambucana na época.

O capitão Ferreira veio para a região conflituosa e trouxe uma equipe de 38 policiais. Consta que esse oficial arrochou geral para cima da família Gaia, sendo dez dos seus membros presos e houve denúncias de arbitrariedades por parte desse oficial. Em uma nota publicada no jornal carioca A Luta Democrática (18/04/1975, pág. 02), o capitão Ferreira foi acusado de deixar todos os integrantes da família Gaia detidos em uma única cela, algemados e passando fome. A ideia era forçar os membros da família a “abrir o bico”, como se diz no jargão policial, e informar o paradeiro de Vilmar para prendê-lo.

Vilmar preso e recebendo a visita de parentes.

Meses depois o capitão Ferreira recebeu a informação que Vilmar Gaia estava em uma fazenda chamada Quiterno, ou Quitéria, na cidade cearense de Ipaumirim, a 215 km de Fortaleza e a 27 da fronteira com a Paraíba. Vilmar foi encontrado trabalhando como um empregado da fazenda, era conhecido por “Tonho”, foi preso com apenas um revólver e cinco balas. Aceitou se render ao capitão Ferreira e sua equipe sem maiores problemas, pois para o fugitivo o oficial militar o “tratou muito bem e o respeitou como homem” (Diário de Pernambuco, 22/08/1975).

Vilmar Gaia se tornou notícia em todo país e era centro de atenções na Delegacia de Serra Talhada, onde muitas fãs iam lhe levar comida e carinho. Mas ele gostava mesmo de receber uma moça jovem, de boa família sertaneja, funcionária de um tribunal federal, que a tempos mantinha um relacionamento íntimo com Vilmar e que tinha gerado uma bela menina.

Uma noite, menos de três meses após sua prisão, Vilmar soube que o capitão Ferreira seria exonerado de suas funções em Serra Talhada e sairia da cidade. Então, utilizando uma vitrola que lhe foi presenteada por uma prima colocou um disco e abriu o volume no máximo com músicas de Waldick Soriano e Raul Sampaio. O prisioneiro aproveitou o barulho, abriu um buraco de 50 cm na parede da prisão e fugiu.

Três dias depois foi novamente capturado. Estava na fazenda Altinho, do primo Lindauro Gaia e não tinha armas de fogo. Se entregou ao capitão Ferreira e sua escolta com 30 soldados e lhe afirmou que não queria fugir, mas temeu que com a saída desse militar em pouco tempo seria trucidado pelos inimigos. Ficou decidido que Vilmar Gaia seria levado para a cadeia de Caruaru, onde acreditavam que ele poderia cumprir sua pena com segurança.

Vilmar e sua filha.

Reviravolta

Quase dois anos depois, no dia 8 de março de 1977, um veículo do tipo Chevette, cor azul, estava estacionado com quatro homens a somente 100 metros da cadeia de Caruaru. A polícia desconfiou daquela gente e um grupo deles foi até o carro de arma em punho. Descobriram que os ocupantes daquele carro estavam com dois rifles calibre 44, quatro revólveres, muita munição e quatro placas frias. Eles vieram de Serra Talhada e tinham uma missão – Matar Vilmar Gaia (Diário de Pernambuco, 09/03/1977).

Poucos dias antes o “Vingador do sertão”, depois de um ano e sete meses preso pelos quatro homicídios que havia confessado, estava prestes a deixar o cárcere. O fato havia sido bastante divulgado e isso motivou a vinda daqueles quatro homens para tentar liquidar Vilmar.

O advogado Juarez Viera da Cunha, que representava Vilmar Gaia, entrou com um habeas corpus em favor do seu cliente, alegando excesso de prazo durante o sumário de culpa. Cinco desembargadores do Tribunal de Justiça de Pernambuco concederam o habeas corpus por unanimidade, mas se pronunciaram afirmando que aquilo era um “desprestígio para a justiça pernambucana, que se demonstrou incapaz de cumprir os prazos mais elementares para o desenrolar dos processos” (O Fluminense, Rio de Janeiro, 04/03/1977).  

Após a saída de Vilmar Gaia da cadeia de Caruaru eu não encontrei mais nada referente a essa figura e nem o que aconteceu com ele. Sob todos os aspetos ele sumiu. Talvez em sua mente aquele ano e sete meses de cadeia já estavam de bom tamanho, ou ele soube de algo que o fez sumir.

Bem, com Vilmar solto pelo mundo, para quem quisesse eliminá-lo era só encontrá-lo e liquidá-lo. Mas encontrar Vilmar Gaia não era algo tão simples assim. Homem criado e vivido no sofrido sertão nordestino, sem os confortos da capital, ele poderia se esconder desde o Oiapoque ao Chuí, em qualquer vilazinha, recanto distante, ou pequeno sítio. O que sei é que entre 1977 e 1982, afora memórias esparsas sobre os acontecimentos ocorridos na primeira metade da década de 1970, Vilmar Gaia some dos jornais.

Mas algo aconteceu que mudou completamente toda a situação e, no meu entendimento, favoreceu enormemente essa figura!

Necessidade de Mitos

Assassinato do procurador da república Pedro Jorge, em 1982.

No dia 3 de março de 1982, na Padaria Panjá, no Jardim Atlântico, na cidade de Olinda, foi assassinado com seis tiros, três dos quais à queima-roupa, o procurador federal Pedro Jorge de Melo e Silva.

Três meses antes essa autoridade ofereceu denúncia contra dois oficiais da Polícia Militar de Pernambuco, um deputado estadual e outras 21 pessoas envolvidas no desvio de recursos federais para financiamento agrícola do Banco do Brasil da cidade de Floresta, no rumoroso caso que ficou conhecido nacionalmente como o Escândalo da Mandioca.

Entre os anos de 1979 e 1981, mais de 300 empréstimos foram feitos na  agência do Banco do Brasil daquela cidade pernambucana, onde os criminosos fraudaram empréstimos do PROAGRO (Programa de Crédito Agrícola Federal), com cadastros falsos de pequenos agricultores da região, que simulavam plantio de várias culturas, principalmente mandioca. Além de não plantarem o que foi acertado, os controladores do esquema declaravam as safras como perdidas por causa da seca e ainda recebiam o dinheiro do seguro. O desvio alcançou mais de Cr$ 1,5 bilhão de cruzeiros (quase R$ 68 milhões de reais em valores atualizados), configurando um dos maiores casos de corrupção daquele período. A maracutaia foi denunciada por um agricultor, investigada pela Polícia Federal e o procurador Pedro Jorge recebeu o inquérito e, mesmo tendo sido ameaçado, denunciou vários envolvidos, entre eles o militar José Ferreira dos Anjos, o homem que prendeu Vilmar Gaia e que tinha a patente de major em 1982.

Foi Ferreira quem contratou Elias Nunes Nogueira, o atirador que acabou com a vida de Pedro Jorge na Padaria Panjé. Elias era irmão do soldado Natalício Nunes Nogueira e um dos quatro homens que estiveram em Caruaru para tentar exterminar Vilmar Gaia em um Chevette azul no dia 8 de março de 1977. (Diário de Pernambuco, 06/05/1982). Vale frisar que no Chevette estava um outro irmão de Natalício, de nome Pedro Afonso da Silva, que, apesar dos sobrenomes distintos, eram dois dos sete filhos de Afonso Nunes da Silva, o Afonso Terto, e de Vitalina Nogueira da Silva.

E onde estes acontecimentos favoreceram Vilmar?

Simples, a partir do Escândalo da Mandioca as atenções e preocupações de muita gente em Serra Talhada e região focaram nas investigações da Polícia Federal e os problemas ligados a esse escândalo de proporções nacionais. Como vários inimigos de Vilmar estavam no meio desse problema todo e, se muitos ainda tinham a intenção de matá-lo, ela se tornou algo secundária.

O povo do Nordeste – Se não são as secas, a ação nefasta dos políticos, é a violência que aflige o povo dessa região a séculos.

Não sei se Vilmar Gaia está vivo? Ou se ele morreu? Mas percebi que sua história marcou muitos na região do Pajeú, principalmente diante da repercussão nacional do caso.

Sobre toda essa situação eu acredito que a pessoa que melhor definiu esse caso foi o Padre Afonso de Carvalho Sobrinho, de Serra Talhada, que comentou com Ricardo Noblat, em uma entrevista para a Revista Manchete sobre o caso – “O machismo expresso no desejo de vingança pela morte de parentes, na sua aparente infalibilidade no manejo das armas, na capacidade de escapar à prisão, identificava-se plenamente com uma linha de pensamento popular necessitada de mitos e heróis profundamente enraizada, principalmente no sertão”.

Uma última nota – Passados mais de 50 anos desde as primeiras mortes nesse conflito, me chamou atenção como alguns membros da família Gaia relembram esses episódios. Vários deles abraçaram a religião evangélica e alguns deles são até pastores que utilizam em seus processos de evangelização os problemas sofridos pelos mais velhos da família, as perseguições e como eles conseguiram, através da fé em Jesus Cristo, de alguma forma conviver com os traumas sofridos.

ENTRE PEDRAS E CAMINHOS – O SERTÃO NORDESTINO NA VISÃO DE SÉRGIO AZOL

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O pequeno resumo de uma ótima viagem.

Rostand Medeiros

Acho que foi em novembro de 2015 que a minha mãe, Creuza de França Medeiros, uma pessoa bastante interessada em artes e pinturas, me comentou sobre uma exposição que estava acontecendo em Natal, no velho e suntuoso Solar Bela Vista, no bairro da Ribeira.

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Ela me falou que um jovem pintor estava apresentando vários quadros sobre Lampião e o Cangaço, mas que estes eram criados de uma forma diferenciada, com uma apresentação bastante interessante e que certamente eu gostaria de ir lá ver.

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Bom, como eu frequentemente não sou de discordar da minha mãe e como estes temas nordestinos sempre me interessaram desde que me entendo por gente, eu não perdi tempo e fui lá visitar a exposição.

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Realmente para alguém muito pouco ligado aos pincéis, como é o meu caso, os quadros que encontrei no velho Solar eram bem diferentes do que eu já havia visto. Vi trabalhos de variadas dimensões, com muito colorido, pinceladas livres, que na minha visão possuíam algo de muito interessante, belo e poético.

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Logo fui apresentado ao artista plástico Sérgio Azol pelo jornalista Thiago Cavalcanti, que realizava a assessoria de imprensa do evento. Na conversa, para minha surpresa, descobri que Azol conhecia o nosso blog TOK DE HISTÓRIA, que era de Natal e que havíamos estudado em turmas deferentes no velho Salesiano da Ribeira, na época do ensino colegial.

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No contato soube que a família de Sérgio Azol possui profundas raízes sertanejas, que ele tem um forte sentimento de orgulho em relação a estas origens e a sua arte tem muito dessa ligação afetiva com a sua história familiar.

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Apesar disso ele me comentou que cedo deixou Natal, viveu em grandes cidades do sul do Brasil e nos Estados Unidos e pouco conhecia do sertão. Ele desejava ter um maior contato com a região, principalmente na área aonde o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, atuou mais fortemente junto com seus homens.

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Comentei-lhe que compartilhávamos origens parecidas e que tenho o mesmo sentimento de orgulho em relação ao fato de ser um nordestino. Daí o papo correu solto e logo estávamos planejando uma viagem que pudesse abranger, em um espaço determinado de tempo, o máximo de locais que lhe proporcionasse descortinar muito da intensa vida deste cangaceiro.

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Na estrada. Aqui realizando uma visita ao Museu do Artesanato de Bezerro e agradecendo o profissionalismo do pessoal.

Este planejamento ocorreu sem maiores alterações, pois, além de escritor e pesquisador de temas nordestinos, eu sou um Guia de Turismo credenciado pelo Ministério do Turismo, com mais de quinze anos de experiência e já possuo muitos quilômetros de estradas percorrendo o Nordeste.

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Neste sentido o objetivo ficou centrado principalmente na região do Pajeú Pernambucano, área de nascimento de Lampião. Depois seguiríamos para a cidade de Piranhas, no oeste do estado de Alagoas, as margens do Rio São Francisco e próximo da Grota do Angico, local da morte de Lampião e localizado no belo estado de Sergipe.

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Em Floresta estivemos juntos dos maravilhosos amigos (da esq. para dir.) Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, Djanilson Pedro e Marcos Antonio de Sá, o conhecido como “Marcos De Carmelita”.

Logo contatei pessoas maravilhosas, grandes amigos, que se colocaram a disposição para ajudar no que fosse necessário. Entre estes estava Carmelo Mandu, da cidade paraibana de Princesa Isabel e André Vasconcelos, em Triunfo, Pernambuco. Já da bela cidade de Floresta, também em Pernambuco, os escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado, se prontificaram a ajudar.

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Apesar deste contato extremamente positivo, por diversas razões o “OK” para iniciarmos esta viagem demorou um pouco mais do que planejamos. Mas finalmente a ordem de partida foi dada e caímos na estrada.

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Saí de Natal para me encontrar com Azol em uma segunda-feira de madrugada, seguindo para Recife, onde ele desembarcaria no Aeroporto dos Guararapes. Ocorre que cheguei na capital de todos os pernambucanos em um dia que esta cidade literalmente ficou debaixo d’água. Trechos que levaria 20 minutos para percorrer foram completados em uma hora e meia e era tanta água que cheguei a duvidar se conseguiria mesmo alcançar ao aeroporto. Graças a Deus deu tudo certo.

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Partimos com uma paisagem e um clima que mais lembravam a Serra Gaúcha, do que o agreste pernambucano. Mas foi legal para ambientar Azol e lhe contar aspectos da história da expansão da cultura canavieira e como se deu à ocupação do sertão pelos portugueses, a origem dos cangaceiros e vários outros temas.

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O papo ia rolando, a BR-232 se abrindo na nossa frente e isso tudo com o som do carro tocando o Mestre Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Quinteto Armorial e o Quinteto da Paraíba, Zé Ramalho, Elomar, Fagner, Genival Lacerda, Alceu Valença, Antônio Nóbrega, Mestre Ambrosio e muito mais.

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Inspirado, logo Azol foi pedindo para que eu realizasse várias paradas para executar muitas fotos. Muitas delas estão aqui para os leitores do TOK DE HISTÓRIA.

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Pelos dias seguintes estivemos nas cidades de Bezerros, Belo Jardim, Arcoverde, Serra Talhada, São José de Belmonte, no local da mística Pedra do Reino, na região da cidade de Floresta, nas ruínas da casa onde nasceu Lampião, em Piranhas, navegamos pelo Rio São Francisco, caminhamos pela trilha que leva até a Grota do Angico. Depois retornamos por Garanhuns, Caruaru e Recife. Infelizmente, devido ao tempo curto que dispúnhamos e da necessidade de realizar muitas paradas, não foi possível visitar Princesa Isabel e Triunfo. Peço desculpas aos amigos Carmelo Mandu e André Vasconcelos.

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Mas percorremos muitas estradas de barro em plena caatinga braba. Paramos para conversar com sertanejos, com vaqueiros e outros mais. Conversamos com pessoas que sabem transmitir, com narrativas extremamente dignas, várias histórias sobre Lampião, sobre outros cangaceiros, sobre as volantes policiais, as sangrentas guerras de famílias no sertão, sobre as secas, as enchentes e outros temas. Foi possível apresentar o rico artesanato, a culinária e a história desta região extremamente singular e representativa desta parte do Brasil.

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Para mim (e acredito que igualmente para Sérgio) os momentos particularmente mais interessantes foram em Floresta.

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Conhecendo o gosto do cacto “Coroa de frade”.

Maravilhosamente apoiados pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, percorremos inúmeros locais que foram palco de lutas entre valentes florestanos contra Lampião e seus cangaceiros.

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Marcos de Carmelita explicando a Sérgio Azol aspectos históricos da luta travada na Tapera dos Gilo em 1926.

Entre estes locais o mais significativo sem dúvida alguma foi à visita a propriedade da Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do Cangaço. Nesta propriedade conhecemos o nobre sertanejo Djanilson Pedro, o conhecido “Pané”, descendente dos membros da família Gilo.

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Cemitério onde descansam eternamente os membros da família Gilo massacrados por Lampião em 1926.

Em razão de um ardiloso e nefasto estratagema orquestrado por um inimigo, esta família foi atacada no dia 26 de agosto de 1926 pelo bando de Lampião e um grupo em torno de 120 cangaceiros. Neste dia sangrento mais de 10 pessoas foram mortas na propriedade e nas redondezas pelos bandoleiros das caatingas. Tivemos a oportunidade de ouvir a narrativa oral que é transmitida pela família de Djanilson sobre os episódios de 1926, sua opinião sobre aquele momento extremamente difícil para sua família, as consequências disso e foi possível visitar os locais de luta. Foi um dia muito positivo e produtivo, que só engrandeceu a nossa busca pelo conhecimento.

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Djailson relatando a tradição oral referente ao massacre da família Gilo.

Eu acredito que o mais importante em qualquer viagem não é o destino, mas o caminho e não existe coisa melhor na profissão de Guia de Turismo do que conhecer pessoas. Principalmente pessoas que amam aprender viajando e que gostam de transmitir aquilo que conhecem. E isso fica ainda melhor quando a estrada é percorrida junto de alguém que possui muita humildade, algo fundamental em um bom viajante.

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E por isso considero Sérgio Azol é um ótimo viajante…

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UM BARÃO NEGRO, SEU PALÁCIO E SEUS 200 ESCRAVOS

Francisco Paulo de Almeida, primeiro e único Barão de Guaraciaba
Francisco Paulo de Almeida, primeiro e único Barão de Guaraciaba – CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR

Autor – CAIO BARRETTO BRISO

RIO – Algumas páginas poderiam se desfazer em mãos descuidadas. São documentos guardados a sete chaves há mais de um século. Embora esmaecidas, as folhas mancham de tinta os dedos de quem as manuseia. “Aqui está a história da nossa família”, diz Mônica de Souza Destro, de 44 anos, na sala de sua casa, em Juiz de Fora. Ela tem muitas pastas empilhadas na sua frente, onde guarda fragmentos de uma história tão esquecida quanto fascinante.

Revirar esses papéis é voltar ao tempo do tataravô de Mônica, o mineiro Francisco Paulo de Almeida, primeiro e único Barão de Guaraciaba (Lagoa Dourada, 10 de janeiro de 1826 – Rio de Janeiro, 9 de fevereiro de 1901), foi proprietário rural e banqueiro brasileiro.um dos mais importantes barões do café do segundo reinado. Titulado como Barão de Guaraciaba pela própria princesa Isabel, acumulou um enorme patrimônio no Vale do Paraíba fluminense. Suas fazendas estendiam-se pelos estados do Rio e também de Minas Gerais, somando um vasto território estimado em 250 quilômetros quadrados — e uma fortuna de quase 700 mil contos de réis, coisa de bilionário. Mas um detalhe tornava o barão diferente dos outros nobres. Ele era negro em um país escravocrata. Reinou em um mundo dominado por brancos.

— Foi um gênio das finanças. Seu patrimônio era colossal, nem a queda do café o fez quebrar. As sedes de suas fazendas eram belíssimas, ele vivia no extremo luxo. Tinha investimentos diversificados, aplicava em ações, fundou bancos. Foi sócio fundador do Banco Territorial de Minas Gerais e do Banco Crédito Real de Minas Gerais. Por isso se tornou um dos homens mais ricos de seu tempo — afirma o historiador José Carlos Vasconcelos, especialista no passado do Vale do Paraíba.

Mônica de Souza Destro
Mônica de Souza Destro

Filho de António José de Almeida e de sua primeira esposa, Galdina Alberta do Espírito Santo. Foi casado com Brasília de Almeida (1844-1889).

Iniciou sua vida como ourives, especializado na confecção de botões de colarinho. Era exímio violinista e suplementava sua renda tocando em enterros. Depois tornou-se tropeiro e em 1860 comprou sua primeira fazenda no Arraial de São Sebastião do Rio Bonito.

Mônica é a guardiã dos documentos históricos que reconstroem a história do barão. Com a ajuda de Vasconcelos, ela está montando a árvore genealógica de sua família. É um trabalho hercúleo. Em um software de genealogia instalado em seu computador, já cadastrou 580 nomes de parentes. A lista começa com os 15 filhos que o barão teve com a mulher, dona Brasília, e chega até Marina, de 10 anos, caçula de Mônica. Quem começou a organizar o arquivo da família foi seu avô, o engenheiro Antônio Augusto de Almeida e Souza. Até os 98 anos, idade em que morreu, cuidou com esmero de todas as fotos, inventários, testamentos e certidões de nascimento e óbito dos parentes. Cada filho e neto do barão possui uma minibiografia, escrita à mão por seu Antônio.

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Embora fosse negro, o aristocrata estava longe de ser um abolicionista. Quando a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, tinha cerca de 200 escravos na fazenda Veneza, em Conservatória, onde possuía mais de 400 mil pés de café. Mesmo com a abolição, a maioria continuou trabalhando para o barão, e alguns foram incluídos no testamento — caso de Isabelinha, que trabalhava na sede da fazenda e ganhou, na divisão da herança, o mesmo valor em dinheiro que os filhos homens: quase 2.000 contos de réis.

Palácio Amarelo, Petrópolis, Rio de Janeiro, antiga residência do barão de Guaraciaba
Palácio Amarelo, Petrópolis, Rio de Janeiro, antiga residência do barão de Guaraciaba

Para desenvolver a árvore genealógica da família, Mônica, que trabalha como secretária em um consultório médico, foi atrás dos primos mais distantes. Conheceu diversos parentes de quem nunca ouvira falar, vários deles encontrados no Facebook — nem todos se interessaram em ajudá-la. Dos 13 filhos do barão, 12 casaram e aumentaram a família — a exceção é Serbelina, a primogênita, que só viveu até os 2 anos. Com a morte do patriarca, em 1901, em uma mansão no Catete — para onde se mudou após vender o Palácio Amarelo, em Petrópolis, à Câmara dos Vereadores —, sua família se espalhou por cidades do Rio e de Minas. A maioria dos descendentes não se parece mais nem de longe com o barão. Alguns, como Mônica, têm olhos claros — as filhas de Guaraciaba se casaram com portugueses, e os filhos, com mulheres brancas.

Barão de Guaraciaba
Barão de Guaraciaba

Familiares e historiadores acreditam que o barão tenha começado a vida como ouvires, especialista na confecção de abotoaduras de ouro. Também ganhava dinheiro tocando violino em enterros. Mas foi ao tornar-se tropeiro que ele teria lucrado o bastante para comprar sua primeira fazenda, em meados do século XIX.

O que ainda não se sabe sobre o barão, a tataraneta Mônica está tentando descobrir. Seu sonho é escrever um livro contando a saga do negro que conquistou o império.

— O ramo da minha família é um dos que possuem menos recursos. Mas a história está conosco. Para mim, é o que importa — afirma.

Fonte – http://oglobo.globo.com/rio/um-barao-negro-seu-palacio-seus-200-escravos-14573740#ixzz3dK1QNDVo

http://anpuh.org/anais/wp-content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S25.0718.pdf

https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Paulo_de_Almeida

CARNAVAL – A CORTE É DOS CUMCUBIS

No traço de Ângelo Agostini, a Rua do Ouvidor no carnaval de 1884. A passagem das sociedades organizadas de foliões por esta rua tinha como objetivo civilizar o carnaval carioca. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)
No traço de Ângelo Agostini, a Rua do Ouvidor no carnaval de 1884. A passagem das sociedades organizadas de foliões por esta rua tinha como objetivo civilizar o carnaval carioca. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional) – CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIAR

Às vésperas da Abolição, carnaval do Rio se torna palco para experiências de cidadania entre foliões negros

Eric Brasil

Fonte – http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/carnaval-por-liberdade

O cortejo tem cerca de 20 pessoas e avança dançando e cantando sem parar. São homens, mulheres e crianças negros, vestidos de “índios”: com cocares de penas, tacapes, lanças e escudos, levam cobras e lagartos – alguns vivos, outros empalhados. Carregada num andor vai a rainha, ricamente adornada, trajando manto e segurando cetro. Ao lado, vem o rei. Seus súditos tocam instrumentos pouco comuns para os habituais frequentadores da rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro: agogôs, chocalhos e tambores. Cantam numa língua ainda menos comum. Mas é carnaval! A Corte está passando e uma frase fica clara para todos os presentes: “A África sempre foi livre”, cantam os membros do grupo Cucumbis Africanos.

Quando o Jornal do Comércio descreveu esse episódio, ainda vigorava a escravidão no Brasil, mas por pouco tempo: era a segunda-feira de carnaval de 1888, e a Abolição viria três meses depois. Não era a primeira vez, no entanto, que os Cucumbis carnavalescos saíam às ruas. Desde 1884, sua presença se tornara cada vez mais significativa e impactante na cidade.

Os Cucumbis eram grupos compostos por foliões socialmente reconhecidos como negros. O enredo central de seus desfiles contava a história de uma embaixada do rei do Congo em visita a outro reino. No meio da viagem, o filho do rei é assassinado por um rival, muitas vezes representado por um “caboclo” brasileiro. Rei e rainha, desesperados, exigem que o mais famoso feiticeiro do reino devolva a vida ao pequeno príncipe. Após cenas de encantamento, batalhas e muitos versos referentes à África e aos seus costumes, o jovem príncipe renasce e dança em júbilo com sua família e súditos.

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Tanto quanto a celebração da alegria e da loucura, o carnaval carioca tornou-se, na década de 1880, um espaço de discussões políticas. As Grandes Sociedades Carnavalescas do período, surgidas em meados do século XIX, formadas em grande parte por membros da imprensa e dos setores mais abastados da sociedade carioca, estavam afinadas com os interesses de parte da imprensa e de muitos intelectuais: defendiam caminhos de modernização e “civilização” para a nação brasileira. Isso incluía a abolição da escravidão e a proclamação da República, mas também a reformulação das práticas festivas – consideradas “atrasadas” e incompatíveis com aqueles ideais de progresso. O carnaval de inspiração veneziana e parisiense deveria substituir o “bárbaro” entrudo e as demais brincadeiras populares, sobretudo as de matriz africana. Os préstitos das Grandes Sociedades Carnavalescas pretendiam “ensinar” ao povo como brincar: organizadamente, apenas assistindo ao desfile, como plateia e não mais como atores. A rua do Ouvidor seria o melhor espaço para tal empreitada, pois era considerada a “artéria da civilização” no Rio de Janeiro e concentrava inúmeras lojas de artigos de luxo, além das redações dos principais jornais e revistas.

Visão geral da folia de 1886, em O Mequetrefe. Através dos Cucumbis, setores da população negra se faziam presentes no debate sobre a participação dos ex-escravos na sociedade. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)
Visão geral da folia de 1886, em O Mequetrefe. Através dos Cucumbis, setores da população negra se faziam presentes no debate sobre a participação dos ex-escravos na sociedade. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)

Quando sociedades intituladas Cucumbis Carnavalescos, Lanceiros Cucumbis, Iniciadora dos Cucumbis, Filha da Iniciadora dos Cucumbis, Triunfo dos Cucumbis e Cucumbis Africanos disputavam espaço na estreita rua e paravam diante dos jornais para saudá-los, estavam utilizando práticas similares àquelas das Grandes Sociedades, mas com outros objetivos. Visavam conseguir destaque na imprensa, ter seu esforço e dedicação valorizados publicamente e ser elevadas ao rol dos grandes grupos do carnaval. Ao se tornarem mais visíveis e reconhecidos, diminuíam também as chances de serem silenciados ou perseguidos pelas autoridades. Para completar, expunham publicamente preferências, identidades e expressões criativas.

No carnaval de 1886, José do Patrocínio foi o grande homenageado da Iniciadora dos Cucumbis. O jornalista e escritor foi um dos mais atuantes abolicionistas do Rio. Fundador da Confederação Abolicionista, sediada no prédio da redação da Gazeta da Tarde – jornal que ele possuía desde 1881 – naquele ano Patrocínio foi eleito vereador e expandiu suas atividades para além dos limites do jornal: promovia meetings (reuniões), comícios em teatros e praças, além de auxiliar fugas e acoitamento de escravos. Ao dedicar parte de seu préstito numa saudação a José do Patrocínio, dançando em frente à redação de seu jornal, aquela sociedade carnavalesca queria transmitir uma mensagem. Associava-se à imagem do famoso abolicionista e fazia saber a todos que compartilhava de seus ideais.

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Cucumbi

Parece que a estratégia da Iniciadora dos Cucumbis funcionou bem, pois ela entrou no rol das sociedades que continuariam a figurar nos jornais pelos anos seguintes. Mais do que uma pauta meramente carnavalesca, os Cucumbis relacionavam-se com o momento político, social e cultural da Corte naquele período. O Rio de Janeiro vivia um momento de ebulição social, com a crescente força dos movimentos abolicionistas e a constante desautorização de senhores de escravos, explicitada por fugas, pelo número cada vez maior de escravos vivendo sobre si – longe da vigilância do senhor e conquistando autonomia – e pelo vertiginoso aumento no número de alforrias. Intensificavam-se os debates sobre os limites da liberdade, da cidadania e da participação dos ex-escravos e negros livres na sociedade como um todo.

O cortejo carnavalesco dos Cucumbis saía lado a lado com as demais sociedades, e assim como elas passava pela rua do Ouvidor e parava diante das redações dos jornais. Mas seu discurso era bem diferente. Ao carnavalizar a imagem da África, os Cucumbis deixavam claro para seus participantes e para o público que possuíam uma identidade cultural própria, compartilhada por alguns e vedada a outros sujeitos sociais. O rei do Cucumbi era Congo, seus personagens tinham nomes africanos e quem se sagrava vencedor ao final do cortejo era um reino da África. Assim, misturavam as brincadeiras carnavalescas de inspiração europeia com elementos das culturas negras da cidade, como congadas, reisados, festas das irmandades religiosas, cortejos fúnebres, embaixadas africanas, folias de reis e jongos.

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Os foliões dos Cucumbis poderiam ter escolhido outras formas de brincar, mas preferiram trazer às ruas uma manifestação prontamente associada ao passado africano – tanto pelas autoridades e pela imprensa quanto por seus pares. Representavam uma identidade africana positiva diante dos ideais de europeização do carnaval e das tentativas de controle e limitação da autonomia festiva. Por meio dos Cucumbis – cantando, dançando, vestindo-se “à moda africana” e manifestando o sentimento de pertencimento a um grupo – os negros cariocas encontraram no carnaval a possibilidade de testar os novos limites da liberdade que se discutia ao longo da década de 1880. Por isso batalharam para se fazer notar entre os grupos carnavalescos.

Com o advento da República, em 1889, os Cucumbis aos poucos desapareceram das páginas dos jornais do Rio. Não se sabe se sumiram ou se foram silenciados na imprensa, mas sua tradição carnavalesca manteve-se presente em ranchos, cordões e blocos espalhados pela cidade. Índios, cortejos, reis, cortes, imagens da África e expressões de grupos sociais não abandonam o carnaval. A festa abre espaço para que se recriem suas práticas de acordo com as novas necessidades apresentadas pela nascente República brasileira.

Eric Brasil é autor da dissertação “Carnavais da Abolição: Diabos e Cucumbis no Rio de Janeiro (1879-1888)”,(UFF, 2011).

Saiba mais

CUNHA, Maria Clementina Pereira (org.). Carnavais e outras f[r]estas: ensaios de história social da cultura. Campinas: Ed. da Unicamp/ Cecult, 2002.
CUNHA, Maria Clementina Pereira (org.). Ecos da Folia: uma história social do carnaval carioca entre 1880 e 1920. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
MORAIS, Eneida de. História do Carnaval carioca. Rio de Janeiro: Record, 1987.
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. O Carnaval das Letras: literatura e folia no Rio de Janeiro do século XIX. Campinas: Editora Unicamp, 2004.

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE

Cangaceiro, de Portinari
Cangaceiro, de Portinari

Autor – Rostand Medeiros

Desde que comecei a ler livros, a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular me chama muito atenção. Foram as circunstancias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.

Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto, ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.

O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural, ferido, ainda conseguiu em um primeiro momento fugir e só foi morto alguns dias depois, através de um emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais lhe ajudava no seu restabelecimento.

Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam os inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que no caso da história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.

Não sabia o quanto estava enganado.

AS ORIGENS DO CONFLITO 

Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.

Chico Pereira
Chico Pereira

As raízes deste ataque surgem a partir do desejo de vingança de um fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho. O nome deste homem sedento de retaliação era Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.

Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região fora que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa, dentre estes prováveis articuladores constava o nome de nome Otávio Mariz.

O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas, logo este membro da influente família Mariz se envolve em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.

Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba - Fonte - http://nazarezinho.informecapital.com.br
Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba – Fonte – http://nazarezinho.informecapital.com.br

Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira se exalta. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra os seus inimigos em Sousa. Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois dos seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.

O coronel José Pereira, no destaque de gravata.
O coronel José Pereira, no destaque de gravata.

Por esta época Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte. O mais importante cangaceiro brasileiro se recuperava na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.

Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas, em contrapartida os seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro,1974), afirma na sua página 273 que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque a esta cidade não traria problemas junto aos seus protetores e assim ficaria mantido o pretenso acordo.

Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro alto e forte, conhecido como Meia-Noite.

O cangaceiro Meia Noite
O cangaceiro Meia-Noite

Segundo o escritor Érico de Ameida, no livro “Lampeão-Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite se chamava Antonio Augusto Feitosa, teria em 1924 a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas e possuía a fama de ser extremamente valente.

Diante de uma horda composta de um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.

Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.
Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.

O saque foi tão desenfreado e até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a um ponto tal que durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para buscar controlar as feras que ele mesmo incentivou a atacar a cidade. João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor o livro “Lampião-Memórias de um soldado de volante” (Recife,1990), afirma na sua página 143 que Chico Pereira foi “Quem muito defendeu Sousa de Piores desatinos”.

Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história desta cidade. Em nossas pesquisas na região, em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, sem dúvida alguma é facilmente perceptível o desconforto destas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.

Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do fato se espalhava pela Paraíba e pelo Nordeste.

Logo após saber dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam lhe dando a mesma proteção e apoio de outrora.

Marcolino Diniz e seus cabras
Marcolino Diniz e seus cabras

Justamente nesta hora, em que o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu no seio do bando de Lampião a saída de um dos seus mais destemidos membros.

Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.

Logo se iniciava uma discussão. Sem medo de nada o cangaceiro enganado pelos companheiros, apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, estes por sua vez afirmavam inocência. O clima esquenta, Meia-Noite logo se coloca pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser. Lampião em pessoa intervêm no conflito, mas naturalmente se põem a favor dos irmãos e a situação quase chega a um desfecho trágico.

Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite
Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite

Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem ele conhecia já de alguns anos, Lampião decide então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.

Após a entrega do erário, Lampião impôs uma condição, que seu companheiro teria de entregar as suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que estando ele desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto. O valente negro não se fez de rogado, colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais lhe acompanhava a vir lhe tomar seu armamento.

Segundo relatos conseguidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit. Págs. 274 e 275), junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues, que anteriormente ouviu a história através do cangaceiro Lua Branca, que estava presente a cena, nesta hora todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião.  O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado ante a afronta, baixou a guarda. Além do mais não havia muito que fazer, pois se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali o seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não.

O cangaceiro negro é então expulso do bando e foi embora pelas estradas do sertão.

Região da Serra do Pau Ferrado - Foto - Rostand Medeiros
Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros

Meia-Noite segue para a região da fazenda Saco dos Caçulas, através das veredas existentes na grande serra do Pau Ferrado, outro local de esconderijos dos cangaceiros na região.

Teria sido melhor para Meia-Noite sair da região, pois a perseguição policial crescia ainda influenciada pela repercussão do assalto a Sousa. Volantes policiais paraibanas, acrescidas de homens armados do séquito do coronel José Pereira, estavam alertas e prontas para caçarem sem piedade Lampião e seus cangaceiros.

Mas o que movia Meia-Noite a retornar a esta área perigosa, nada tinha haver com dinheiro, armas e brigas. Ele desejava estar próximo de sua amante, de nome Zulmira.

A REGIÃO DE PRINCESA E SUAS HISTÓRIAS 

Antes de prosseguir neste relato tenho que comentar que a partir de 2006, ao buscar subsídios para uma pesquisa que realizo relativa a ação do cangaceiro Chico Pereira, conheci a interessante cidade de Princesa Isabel, a antiga Princesa e a sua região. A 23 quilômetros desta cidade, em Manaíra, conheci e fiz amizade com uma verdadeira biblioteca viva em relação a estes acontecimentos e se chama Antônio Antas Dias.

O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra
O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra – Foto – Rostand Medeiros

Na sua juventude conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antonio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, de Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e de outro conhecido como “Tocha”. Todos estes homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.

Altivo, tranqüilo, prestativo, através de Antonio Antas passei a conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões.

Em uma delas perguntei ao amigo Antonio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje, que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada e, o mais importante, havia pessoas, filhos daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta, aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.

Parti junto com Antonio Antas para visitar o local e buscar junto aos filhos das testemunhas, pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos, ainda lúcidos, a memória deste acontecimento. Estas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas deste acontecimento em um ambiente mais tranquilo, anterior a massificação do rádio e da televisão, mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos pudesse ser mais rica em detalhes.

O resultado foi muito animador.

A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS

Segundo o agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos a época de minha entrevista (2008), morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, me narrou que seu pai Manuel Moraes, assistiu de sua casa, onde até hoje Anastácio reside, todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio é calmo tranqüilo, calejado nas lides do campo, comentou que para as pessoas da região o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato dele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular na região sempre à noite.

Casa Grande dos Patos
Casa Grande dos Patos – Foto – Rostand Medeiros

Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isto ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa e a fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, à atual comunidade do Saco dos Caçulas, ou as casas da propriedade Tataíra.

São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase que fechada, um verdadeiro “saco”.

Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerado um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé Andre. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola, uma coronha. Anastácio e Antonio Antas o conheceram atuando e são unânimes em afirmar que Andre era um verdadeiro artista.

É conhecido na região que muitas vezes Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado dos seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz, no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica desta jogatina era de apostas com altas somas de dinheiro.

Os cangaceiros não ficavam fixos em uma casa, estavam sempre passando de um refúgio para outro. A casa que eles mais gostavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e muito ligado a Marcolino Diniz. Neste refúgio era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, onde bailes eram freqüentemente realizados e o agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas destas festas com outras pessoas da região.

Para ele sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que foi em um destes bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.

Igreja de Patos do Irerê
Igreja de Patos do Irerê – Foto – Rostand Medeiros

Sobre esta sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com a sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem se posicionaram contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo ela fugiu com o seu cangaceiro.

A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA

Mas depois do ataque a Sousa tudo mudou.

Lampião foi avisado a deixar a região do Saco dos Caçulas, logo ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e homens contratados por José Pereira.

Diante da nova situação e do seu retorno a região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local, seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque. Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, pistola e punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.

Manuel Moraes informou a seu filho que pela proteção e o silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro que satisfaziam aqueles que lhe acoitavam e deixavam outros se roendo de inveja. Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, que pertencia a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira, onde Meia-Noite se encontrava.

A antiga Pincesa Isabel
A antiga Princesa, atual Princesa Isabel

Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit. Pág. 280), o coronel ordena a um dos seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, com a ordem de “-Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”. Esta ordem significava ou trazê-lo amarrado vivo, ou amarrado morto em uma vara e transportado por dois homens.

Às nove da noite Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro, logo chegavam à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e homens batendo a sua porta. Ao abrir Zé Andre se assustou com os homens armados, que lhe perguntaram de forma ríspida se na sua casa Meia-Noite estava homiziado, ou se sabia onde ele estava. Ele negou conhecer o paradeiro do cangaceiro, eles aceitaram a informação e seguiram em direção as casas do sítio Tataíra.

Zé Andre não foi molestado, igualmente não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.

Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão.
Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão – Foto – Rostand Medeiros

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit. Pág. 280) informa que realmente a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas e que o grupo já estava desanimando com o resultado e prontos para retornarem a Princesa.

Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram casas muito grandes, possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “Duas Águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com maciços e grandes tijolos a aparente. Perceberam que uma das casas era para moradia e a outra servia como local e transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, onde os atacantes ficavam em desvantagem, pois quem estava no seu interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.

O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não tiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo uma voz de mulher se apresenta. Os membros da volante pedem para entrar e a voz feminina afirma ser uma mulher idosa, que está sozinha e que não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força a porta. A voz feminina pergunta “-Se são homens do coronel?”, diante da afirmativa Meia-Noite deixa de lado o disfarce e abre fogo em meio a toda uma série de impropérios, palavrões e baixarias.

Lateral da casa do sítio Tataíra
Lateral da casa do sítio Tataíra – Foto – Rostand Medeiros

Manoel Virgulino interpela o cangaceiro para que ele se entregue, pois eles vão pega-lo “-Vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu “-Nem morto nem vivo e quem entrar leva tiro”.

Tem início aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longo e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.

O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA

Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saiam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região, quanto à literatura existente, são taxativos em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.

O esperto Meia-Noite tinha certeza que os homens de José Pereira desconheciam a sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com a certeza que seus companheiros lhe atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que diante da possibilidade do seu grupo ser assim atacado, Manoel Virgulino tenha dividido o grupo atacante e esta atitude ajudou a prolongar o cerco.

Outra vista da casa
Outra vista da casa – Foto – Rostand Medeiros

O combate se prolongava, a madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.

Em dado momento, Meia-Noite pede garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira aquela zoada, aquela tensão era demais. Os homens de Manoel Virgulino informam que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também estava garantido para seguir para sua cela em Princesa. Valentão e ousado, ir para cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite e a sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.

Mas diante da situação da jovem e das palavras dos seus inimigos que diziam que ele era covarde por manter a mulher na casa, houve uma trégua e Zulmira deixou a casa de farinha com alguns poucos pertences. Após a saída da sua amada, Meia-Noite despeja fogo e novos insultos contra seus inimigos.

Tenente Manuel Benício
Tenente Manuel Benício

Já são quatro horas de troca de tiros quando ecoa na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit.Pág.66) era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado. Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Pág.284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros da Tataíra e próximo a fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades do grupo de policiais para alcançar a região do conflito e neste aspecto ele estava correto.

Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil de perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra. Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros, o grupo então desceu em torno de 400 a 450 metros, para o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornar a subir a uma cota superior a 800 metros, seguindo para a casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro, isto tudo em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.

Entrevistado apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo - Foto - Rostand Medeiros
Entrevistado apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente nesta hora o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma Força Policial, que segundo Érico de Almeida (Op. Cit.Pág.67) chegava a 84 homens. Para a população local o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite fica em torno de 100 a 120 homens. Independente do número exato, a desproporção era enorme e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.

Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais, o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo dois membros da polícia foram feridos.

Manuel Moraes informou a seu filho que depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que “-O negro tanto atirava, como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”. Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares, para aguentar o cansaço, a tensão e ter forças para continuar a luta.

A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente. Só tinha duas saídas; ou se entregar, ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas Meia-Noite sabia que iria morrer de qualquer jeito.

Outra área onde se posicionou as tropas policiais - Foto - Rostand Medeiros
Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros

Os atacantes atiravam incessantemente, quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente um frêmito de vitória correu no meio da tropa e possivelmente alguns até devem ter comemorado antecipadamente. Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas “-Que ele iria sair”. Durante cerca de dez a quinze minutos o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.

Existem duas versões para o que ocorreu a seguir: Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Págs.286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado, achando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, havia desaparecido. O autor afirma que a quantidade tiros era tão grande, que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”, que o cangaceiro aproveitou este momento e fugiu, deixando um rastro de sangue.

Já as pessoas da região, como Anastácio, Antonio Antas e outros, são categóricos em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala, para outros um caçuá e para outros um saco.

Região do Saco dos Caçulas - Foto - Rostand Medeiros
Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou enquanto o grupo de atacantes se municiava e partiu para fora da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele saiu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximando, abandonaram o posto onde estavam e fugiram.

Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Mesmo com a visibilidade limitada pela pouca luz, com seu alvo correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros tiros.

Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.

Para as pessoas da região o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite, se deveu a ele espertamente aproveitar o lusco fusco da manhã, àquela hora onde a visibilidade ainda não é plena. Houve igualmente um excesso de confiança dos atacantes em relação a sua superioridade numérica, fazendo com que ficassem desatentos. Outra possível causa pode estar no fato que o grupo de Manoel Virgulino, como as tropas de Benicio, Quelé e Oliveira, já estavam muito cansadas. Uns pelo cerco prolongado e os outros pelo sobe e desce de serras elevadas.

O certo é que mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, mesmo ele estando ferido.

BUSCA DE UM ABRIGO

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Págs.286 e 287) afirma que depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso ele se encontrou com um agricultor, a quem lhe entregou uma pequena soma de dinheiro para ser entregue a Zulmira.

Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família que realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, sendo proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira, considerado uma pessoa humilde e honrado. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse “-Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se voltar eu pego novamente e se não voltar é seu”, fugindo em seguida.

Zulmira em um primeiro momento foi transportada para Princesa, onde ficou presa.

Na seqüência, segundo a versão oficial, apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit.Pág.67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit.Pág.288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas e que iria preparar alguma coisa para cuidar do ferido. Mas ao invés desta buscar ajuda, ele foi atrás do Inspetor de Quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”. Este teria então vindo à casa do agricultor, acompanhando de mais quatro homens, dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e depois fora trucidado.

Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 - Foto - Aldo Lopes
Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes

Para Anastácio e Antonio Antas a história foi “-Mais ou menos assim”. Eles me aconselharam então a procurar falar com uma fonte mais categorizada e que foi muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes, o seu próprio filho.

Morando próximo da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem que se chama Manoel Lopes Filho. Este tem com mais de 1,80 de altura, magro, mas ágil de corpo, cara de poucos amigos, de bigode, com uma aparência onde não se percebe sua idade acima de 70 anos.

Em um primeiro momento me olhou de uma maneira que me pareceu estar desconfiado. Sua voz é de barítono, grave e forte, da mesma forma que seu pai. Conforme conversávamos e ele percebeu que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais a vontade. Minha sorte foi me encontrar na companhia de Antônio Antas, seu amigo de longa data, pois Lopes Filho me confessou depois que não gosta de falar sobre o pai a pessoas estranhas.

Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais a vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira, com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.

Manoel Lopes Filho e Antônio Antas - Foto - Rostand Medeiros
Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros

Ele adiantou que em várias ocasiões seu pai lhe narrou diversos acontecimentos, diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou de forma alguma que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, onde seu pai realizava “-O que fosse necessário” para o chefe. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.

Outra vista da região do Saco dos Caçulas - Foto - Rostand Medeiros
Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

No dia do tiroteio “Ronco Grosso” estava realizando tarefas na sua propriedade, logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio tempo o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sitio de Manuel Lopes que era relativamente próximo.

O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer do seu filho, era um “raizeiro”, logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez logo uma mistura de farinha, mastruz e pimenta malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando preto e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.

O FIM DE UM VALENTE

Logo Manuel Lopes toma conhecimento que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades rondando atrás do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades e localizada no alto de um serrote. Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra estava vivo com 102 anos.

Foto - Rostand Medeiros
Foto – Rostand Medeiros

Manuel Benicio soube através de outras pessoas que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite, seguiu para sua propriedade com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo. Antes de chegar a casa do homem de confiança de José Pereira, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem e ele “abriu o bico”, sobre o que estava fazendo. Entre seguir para o esconderijo onde estava Meia-Noite e pegar informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.

Lopes Filho informa que “Ronco Grosso” ao saber da aproximação da volante, deixou a sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo. Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas a quem seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.

Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe lhe informou de toda situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse que eles não lhe perturbariam. Mas em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico “-Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.

Manoel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano, até o admirava pela valentia e coragem. Mas desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como este, era o mesmo que praticar o suicídio. Sem outro jeito ele busca o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.

Foto - Rostand Medeiros
Foto – Rostand Medeiros

Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já à noite, os dois homens se encarregaram de levar a comida e a água do cangaceiro. Ao chegaram à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou mais ainda a presença daqueles dois homens armados e conhecendo quem eles eram ficou muito desconfiado. “Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda, levou uma bala a câmara do fuzil e ficou a espreita.

Os dois matadores se preparavam para sair, ou assim diziam, quando perceberam uma distração de Meia-Noite, sacaram suas armas e abriram fogo. Este ainda ensejou um salto com uma pistola na mão, mas novas descargas o abateram.

Sem muita cerimônia eles enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formam a pequena cavidade natural, mas antes cortam as orelhas como prova.  Antonio Antas disse que escutou muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” que havia realizado a primeira deflagração. Este por sua vez afirmava taxativamente que fora “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.

Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho, Antonio Antas, como outras pessoas na região afirmaram que na tarde posterior a morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa. Este estava em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre estes algumas senhoras. Os dois homens valentes, mas simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe com um pacote nas mãos. José Pereira manda que eles se aproximem e pergunta animadamente, diante de todos, o que eles desejam. Eles ficaram calados, um tanto acabrunhados. O dono da casa, imaginando ser o silêncio daqueles homens rudes resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentiva novamente para que eles falem, mesmo diante de todos.

A partir daí “Ronco Grosso” não se faz de rogado, abre o pacote retira um pano ensanguentado, que vai desenrolando e apresenta a todos as orelhas de Meia-Noite.

O espanto é geral, o embaraço de José Pereira é evidente. Mas eles cumpriram a risca aquilo que foi mandado conclusão.

CONCLUSÃO

Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929 seguiu para a Bahia e pouco retornou a Paraíba.

Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte deste ódio estava ligado a morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.

Foto - Rostand Medeiros
Foto – Rostand Medeiros

Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia uma raiva que José Pereira teve deste cangaceiro, por ele ter feito uma piada, ou observações baixas e indecorosas, sobre a esposa do líder política de Princesa.

Entretanto, o próprio Lopes Filho considera esta versão falsa, ou criada para encobrir as verdadeiras intenções do político José Pereira.

Para ele o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como a expulsão de Lampião da região, era afastar esta gente, para evitar que seus adversários na capital paraibana o tacharem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo e sua pretensa eliminação ser efetuada para evitar problemas futuros.

Já em relação a uma versão propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz se compactuaram com Lampião, lhe dando proteção e apoio, em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos, assaltos e outras ações por parte de Lampião, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão de Lampião da região, José Pereira e Marcolino ficaram com todo o dinheiro.

Lopes Filho já havia ouvido sobre esta versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada em relação a esta situação.

Ao longo dos anos a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados o cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nesta cidade em todo século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa.

Este foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionada basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.

Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, respectivamente Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas João Pessoa e pelo seu Chefe de Polícia, José Américo de Almeida.

Foto - Rostand Medeiros
Foto – Rostand Medeiros

Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana, formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha”, “Luiz do Triangulo” foram figuras de liderança e destaque dos combates. As narrativas conseguidas na região sobre a participação destes homens neste conflito dariam para escrever no mínimo três artigos como este.

Com a morte de João Pessoa em Recife, a deflagração da Revolução de 30, com a chegada ao poder de Getulio Vargas, a maré muda de lado e o conflito se encerra. Logo tropas do Exército ocupam Princesa e José Pereira foge e fica incomunicável durante anos. Anos depois chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.

Não deixa de ser interessante observar como estes fatos ainda se mantêm ativos na memória da população do lugar, mesmo entre os mais jovens. Mas fora desta região este conflito é praticamente desconhecido.

Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira, razão do seu retorno para uma região tão perigosa, onde veio a morrer, foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que a mesma estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, a sua relação com a família, com a gente do seu lugar e nem o nome do seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região e apenas apuramos que após o nascimento do seu filho, ela se mudou para Campina Grande, onde casou, teve outros filhos e já é falecida.

Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança do seu pai, o coronel Marçal e morreu na pobreza. Antes disso teve seu amor pela sua amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha” e interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.

Manuel Lopes, o “Ronco Grosso” viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antonio Antas afirmam que ele proliferou, teve vários filhos, os viu crescer, assistiu o nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.

Sobre “Tocha” sabemos que o mesmo seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.

Segundo Anastácio Moraes e Antonio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nesta história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu a risca o que Meia-Noite lhe pediu.

Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo
Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo

Dedicatória – Dedico este trabalho a André Vasconcelos, a quem tive oportunidade de convidar para participar do recente trabalho que realizamos junto ao pessoal da TV Brasil e que em 5 de setembro de 2013 estará na telinha. Desejo a ele igualmente um ótimo trabalho com a TV FUTURA. Parabéns.

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A BATALHA DO CASARÃO DOS PATOS

Um episódio da (quase) esquecida Guerra de Princesa, na Paraíba

Autor – Rostand Medeiros

Ao longo da história da região Nordeste do Brasil, não faltam ocorrências que perpetuam a valentia de alguns e a covardia de muitos. Onde muitas histórias são regadas a sangue, com muitos tiros, correrias e tropelias.

Em toda a região os relatos sobre estes fatos são continuamente passados as novas gerações, muitas vezes através da tradição oral, do folheto de cordel, sendo depois documentados em livros, servindo então de temas para teses acadêmicas, que contestam ou corroboram os fatos. Outras vezes o espectro é ampliado e estas sagas chegam ao teatro, a televisão e ao cinema. Mas a tônica é uma só; estes episódios são sempre conhecidos e repetidos pela região.

Localização de Patos do Irerê e Princesa Isabel no mapa da Paraíba, onde está o casarão

Neste sentido, é de se estranhar que atualmente na região ocorra um acentuado desconhecimento e uma estranha falta de informações sobre o conflito deflagrado no ano de 1930, na região da atual cidade paraibana de Princesa Isabel, próximo à fronteira com Pernambuco e conhecido como a “Guerra ou Sedição de Princesa”.

Um Cruel Momento da História Paraibana

Esta guerra (e não a nenhum exagero de assim chamá-la) foi pródiga de episódios interessantes e cruéis, onde tudo começou através de discórdias políticas e econômicas, envolvendo poderosos coronéis do interior do estado e o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.

Governador João Pessoa

João Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política paraibana, onde era valorizado o grande latifundiário de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo do algodão e na pecuária. Estes “coronéis” atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações as quais o novo governador não concordava.

Entre os embates ocorridos, podemos listar uma maior perseguição do governo estadual aos grupos de cangaceiros e a cobrança de taxas de exportação do algodão. Por esta época, os coronéis exportavam o produto principalmente através do principal porto de Pernambuco, em Recife, provocando enormes perdas de divisas tributárias para a Paraíba. Procurando evitar esta sangria financeira e efetivamente cobrar os coronéis, João Pessoa implantou diversos postos de fiscalização nas fronteiras da Paraíba, irritando de tal forma estes caudilhos, que pejorativamente passaram a chamar o governador de “João Cancela”.

O coronel José Pereira

Os embates políticos entre o governador e os coronéis foram crescendo. A maior liderança entre estes poderosos, sem dúvida foi o coronel José Pereira Lima, verdadeiro imperador da região oeste da Paraíba, na área da fronteira com Pernambuco, tendo como base, a cidade de Princesa. Do embate entre estes dois homens resultou em um dos maiores conflitos armados do Brasil Republicano.

Sertão em Armas

A contenda teve início em 28 de fevereiro de 1930, quando ocorreu a invasão da então vila do Teixeira (PB), por parte da polícia paraibana, com o aprisionamento da família Dantas, ligada por profundos laços de parentescos e interesses ao coronel José Pereira.

Apesar de governador João Pessoa não contar com o apoio do Palácio do Catete, onde o titular, Washington Luís, não viabilizou uma efetiva ajuda as forças policiais paraibanas, o mandatário paraibano foi à luta.

José Pereira e seus comandados durante a Guerra de Princesa

Com o apoio discreto, mas efetivo, do Presidente da República e dos governadores de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, e do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria, o coronel José Pereira decidiu criar o “Território Livre de Princesa” com absoluta autonomia, separando-se durante o período do conflito do restante do estado da Paraíba.

Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos desses lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana.

No lado do presidente João Pessoa, suas tropas estavam sob o comando do Coronel Comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, do então Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, e do Secretário de Interior e Justiça, José Américo de Almeida. Na tentativa de desbaratar os sediciosos de Princesa, estes comandantes dividiram os efetivos policiais, compostos por cerca de 890 homens, em colunas volantes.

Como a guerra era vista no Rio de Janeiro

No povoado de Olho D’Água, então pertencente ao município de Piancó (PB), estava aquartelado o comando geral de operações da polícia paraibana, que decidiu enviar à Princesa uma de suas colunas volantes, conhecida como “Coluna Oeste”. Esta coluna era comandada pelo Tenente Raimundo Nonato, que tinha entre seus principais comandados o valente sargento Clementino Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé, ou “Tamanduá Vermelho” (por ser branco e ficar “avermelhado” quando nervoso).

Clementino Quelé

Quelé era a valentia em pessoa, calejado nas lutas do sertão, podia se vangloriar de possuir no seu “currículo”, mais de vinte combates contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Foi a volante de policiais comandadas por Quelé, a primeira a entrar em Mossoró, em 13 de junho de 1927, perseguindo Lampião e seu bando, logo após este ter tentado invadir esta importante cidade potiguar.

Composta de valentes combatentes foi para a “Coluna Oeste”  que o comando designou uma missão especial.

Marcolino Diniz na época da Guerra de Princesa

Em Princesa, entre um dos mais importantes líderes das tropas locais estava o fazendeiro Marçal Florentino Diniz, poderoso e influente agropecuarista da região, que juntamente com seu filho, Marcolino Pereira Diniz, eram parentes e pessoas da inteira confiança do coronel José Pereira. O coronel Marçal Diniz possuía no então distrito de Patos de Princesa, a 18 quilômetros da cidade, uma fazenda localizada no sopé da grande serra do Pau Ferrado, o segundo ponto mais elevado da Paraíba, com cota máxima em torno de 1.120 metros de altitude e foi para esta fazenda que o comando da polícia paraibana ordenou que Clementino Quelé atacasse a casa grande do poderoso coronel.

O Assalto de Quelé

Este episódio é conhecido na região como o “Fogo ou Batalha do Casarão dos Patos”.

A ideia deste ataque visava dividir as forças do coronel José Pereira, que teria de retirar homens da frente de combate de Teixeira, para socorrer os familiares da família Diniz que estavam no casarão, bem como formar com as reféns uma espécie de cordão de isolamento, um escudo humano, que objetivava garantir a segurança dos militares. Pensavam que, agindo assim, nenhum defensor de Princesa ousaria atirar nos combatentes do governo paraibano.

A imprensa oficial potiguar e o próprio governo de Juvenal Lamartine eram contra João Pessoa e a favor de José Pereira

Outra teoria seria a de levar as mulheres como prisioneiras, ou reféns, para a cidade de Paraíba do Norte (atual João Pessoa) e forçar os comandantes de Princesa a alguma espécie de negociação.

No dia do ataque, 22 de março de 1930, Quelé e seus policiais, em número estimado entre sessenta para alguns, e entre setenta a cem homens para outros, seguiram atravessando a zona urbana da pequena vila de Alagoa Nova (atual MANAÍRA-PB) e daí subiram a grande Serra do Pau Ferrado. Ao passarem pela propriedade de Antônio Né, pessoa ligada à família Diniz, no homônimo Sítio Pau Ferrado, assassinaram um cidadão por nome Silvino, depois, desceram a serra.

Dona Xandu, imortalizada pelo grande Luís Gonzaga na música “Xandusinha”

Não havia muitos defensores pertencentes aos grupos do coronel José Pereira, ou de Marcolino Diniz e a força policial de Quelé ocupa o local sem maior oposição. Na casa estavam entre outras pessoas, às mulheres de Marcolino Diniz, Alexandrina Diniz (também conhecida como Dona Xandu, ou Xanduzinha) e a de Luís do Triângulo, Dona Mitonha. Luís do Triângulo era um dos mais valentes e destacados chefes dos combatentes de José Pereira.

Neste interregno, o grupo de combate comandando por Marcolino encontrou um soldado da polícia de nome Zeferino, o qual seguia com uma mensagem do Sargento Quelé ao Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, informando da ação contra o casarão.

O Casarão em 2006

José Pereira e Marcolino Diniz recebem a notícia da prisão de seus familiares. Eles tomam esta ação como um acinte, uma falta de respeito e preparam o contra ataque. Ordenam que uma parte de suas tropas que combatiam as forças policiais do governador João Pessoa na região de Tavares, se deslocasse para Patos de Princesa e ordenam que os homens levem farta munição. Outros combatentes conclamam moradores da região para o ataque, enaltecendo a covardia de Quelé, que usava mulheres como escudos. Este chamamento dos líderes de Princesa e de seus homens encontra eco entre membros das comunidades de Princesa e Alagoa Nova e estes decidem seguir com o grupo que vai retomar o “Casarão dos Patos”.

A Batalha Pela Reconquista do Casarão

Na noite do segundo dia após o bem sucedido ataque de Quelé, a situação permanece inalterada. Segundo relatos dos reféns, os soldados, com raras exceções, se portaram de forma vândala e arrogante durante a ocupação.

Na minha última visita a casa já praticamente coberta pelo mato

Enquanto isso os combatentes de Princesa vão discretamente fechando o cerco ao casarão. Aparentemente, por falta de comunicação com seus comandantes, Quelé não abandonou a posição e levou seus prisioneiros. Outros acreditam que ele logo percebeu que estava cercado e esperou o inevitável.

O certo é que na manhã do terceiro dia de ocupação, o céu se apresentava nublado, os defensores do casarão estavam tranquilos, apesar da tensão existente na região. Alguns esperavam o café, outros até jogavam uma improvisada partida de futebol (possivelmente com uma bola de meia), no pátio defronte a casa. É quando o primeiro tiro é detonado em um soldado que vinha do Sítio Pedra e trazia um carneiro para abate, aí tem início um inferno no “Casarão dos Patos”.

A polícia estava cercada na casa, se defendendo como podia, o sargento Quelé vai animando seus policiais em meio a uma intensa troca de tiros e insultos entre as forças combatentes.

Lateral do casarão, mostrando a construção maciça

Marcolino Diniz, à frente dos seus homens, está com o “cão no couro”, comandando, disparando e mandando buscar cachaça nas bodegas da pequena vila de Patos de Princesa para “esquentar” seus “cabras”. Esta cachaça era trazida em sacos, distribuída francamente entre seus combatentes. Até hoje se comenta na região como os distribuidores da bebida terminaram os combates totalmente embriagados e sem dispararem um só tiro.

O tiroteio é cerrado. Colocar a cabeça muito exposta nas janelas do casarão é motivo para que algum policial se torne um alvo fácil. Já os homens de Diniz continuam disparando sem cessar. Eles estão espalhados em todo o perímetro, protegidos por árvores, pedras, pelos muros e paredes das poucas casas vizinhas.

O combate prolongou-se até às dezesseis horas do mesmo dia, quando a polícia praticamente estava sem munição e seus disparos tornam-se esparsos. É quando os homens de Marcolino, aproveitando uma forte chuva que desabava e a existência de um canavial nas imediações do casarão, partem para o assalto final.

Sótão do casarão. Neste local, segundo os moradores da região, vários soldados paraibanos foram mortos. Até algum tempo atrás ainda haviam marcas de sangue nas paredes

Durante a invasão é travado um forte combate corpo a corpo em cada uma das dependências da casa. Gritos, pancadas, socos, pontapés, dentadas, tiros, facadas e sons de lutas ocupam o ambiente. Os homens de Quelé procuram à fuga, mas estando o casarão cercado, muitos são abatidos impiedosamente pelos combatentes de Marcolino.

Alguns policiais fugiam feridos ou não, pelo mesmo canavial que serviu de abrigo para os atacantes e de lá seguiam para a serra do Pau Ferrado. Nesta fuga, muitos combatentes se cruzavam, às vezes cara a cara, dentro do canavial e tiros ou facadas eram desferidas a curta distância.

O mato é tanto, que só derrubando algumas plantas para entrar no local

Marcolino, atiçado pela bebida e já dentro do casarão, prometia aos gritos “vou sangrar todo mundo, até Xandu” que no seu entendimento de valentão do sertão, com um pensamento extremamente machista, imaginava que a sua mulher já havia sido estuprada e aí só “sangrando para limpar o corpo”. Mas Xandu e as outras mulheres estavam bem e foram preservadas por Quelé e seus homens. Todas estavam em um quarto, acompanhadas de um soldado ferido na perna, que conseguira desarmar uma bomba (ou granada?), que o sargento Quelé colocara no recinto. O soldado salvou a vida das reféns, sendo igualmente salvo pelas mulheres de ser impiedosamente sangrado por Marcolino e seus “cabras”.

Marcas do passado

Após isto, Marcolino e seus homens seguiram pelos vários recintos do “Casarão dos Patos”, chacinando os policiais que não fugiram. Dos militares que lá dentro se encontravam, não sobrou nenhum vivo, pois até o soldado que havia salvado as mulheres, morreu no mesmo dia, devido aos ferimentos, quando era transportado para a vizinha cidade pernambucana de Triunfo.

Marcas Sangrentas

Segundo relatos dos moradores da região, havia até recentemente, em alguns quartos da casa, registros de mãos ensanguentadas nas paredes, mostrando a agonia deste dia terrível.

Um esquecido oratório dentro do casarão

Quanto a Quelé, vendo-se acossado pelos homens de Marcolino e escutando o próprio caudilho dos Patos de Princesa gritando dentro do casarão que “queria pegar Clementino e matá-lo sangrado”, pulou do andar superior, juntamente com dois soldados e juntos fugiram em direção ao canavial. Já era noite quando conseguiram chegar à serra do Pau Ferrado, depois seguem para Alagoa Nova e ao encontro das forças de João Pessoa. O restante dos militares que escapou com vida embrenhou-se em território pernambucano.

Uma dispensa aberta na parede, para guardar mantimentos

Das forças de José Pereira e Marcolino Diniz houve apenas uma baixa, um senhor de nome Sinhô Salviano, possivelmente sob efeito da cachaça, desprezou as ordens e ficou sob a mira dos soldados. Para alguns pesquisadores, as forças paraibanas perderam mais da metade do efetivo, mas segundo os relatos que se perpetuam na região, contados por aqueles que participaram do conflito e transmitidos para seus descendentes, foram mortos em torno de cinquenta policiais, sendo seus corpos enterrados em uma vala comum nas proximidades do casarão. Os equipamentos bélicos dos policiais mortos foram recolhidos pelos combatentes de Princesa para reforço de arsenal.

Fato comum; morador da região com um cartucho de fuzil Mauser intacto, encontrado ao arar o terreno próximo ao casarão.

Final da Guerra de Princesa

Houve outros episódios sangrentos e terríveis na Guerra de Princesa, mas após a morte, em Recife, do governador João Pessoa e a consequente eclosão da Revolução de 30, o conflito em Princesa acabou, era o dia 26 de julho de 1930.

O coronel José Pereira Lima organizou a defesa dos seus domínios de forma impressionante, provocando baixas estrondosas à força pública paraibana durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência.

A partir de um caminhão foi desenvolvido em Campina Grande um veículo blindado para combater os revoltosos de Princesa

Princesa não foi conquistada pela polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução de 30, tropas do exército, de forma tranquila, ocuparam a cidade.

O coronel José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região e a família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto. O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por José Pereira.

Com o fim da guerra, a fortuna da família Diniz ficou seriamente comprometida. O combate e, principalmente, a ira dos soldados, destruiu tudo. Canaviais, engenhos de rapadura, moendas, casas e outros bens foram alvo da vingança dos fardados, quase nada escapou.

Depois da Guerra

Mesmo com as perseguições sofridas após o fim da guerra, todos os anos Marcolino Diniz e sua gente, comemoravam o aniversário da retomada do casarão com muita festa.

Marcolino Diniz próximo a sua morte

Marcolino sempre foi um homem controverso, valente, prepotente, astuto e sagaz. Era proprietário das fazendas Saco dos Caçulas e Manga, onde diversas vezes Lampião descansava dos combates. Esta polêmica amizade entre Marcolino e Lampião é bem retratada em um episódio; em 30 de dezembro de 1923, Marcolino, juntamente com seu guarda-costas conhecido por “Tocha”, por conta de uma briga, matam o então magistrado da cidade de Triunfo (PE), o Dr. Ulisses Wanderley. Marcolino fica ferido e é feito prisioneiro na cadeia pública local. Seu pai, o coronel Marçal, recorreu aos préstimos do cangaceiro a fim de libertar o filho. Não demora muito e um grupo armado, com um número de homens estimado em torno de 100 a 150 homens, retira tranquilamente o prisioneiro ferido da cadeia.

Igreja de Patos do Irerê, onde está enterrado Marcolino Diniz

Marcolino e a sua adorável Xandu, continuaram unidos até a morte, tendo seu amor sido imortalizado em 1950, por Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, com a música “Xanduzinha”. Marcolino nasceu em 10 de agosto de 1894 e faleceu em Irerê, em 21 de dezembro de 1980, com 86 anos, conforme está inscrito em sua lapide, na igreja deste atraente lugarejo.

Casa de Marcolino e Xandu em Patos do Irerê

Já o sargento Clementino Quelé sobreviveu à Guerra de Princesa e ainda teria fôlego para perseguir, no ano de 1936, o bando do cangaceiro Virgínio Fortunato da Silva. Conhecido como “Moderno”, foi cunhado de Lampião, homem de sua mais alta confiança, que neste ano investiu contra a região conhecida como “Tigre paraibano”, atacando várias fazendas na área próxima a cidade de Monteiro. Quelé, possivelmente pelo analfabetismo, nunca passou da patente de sargento, tendo morrido idoso na cidade paraibana de Prata. Coincidentemente, Quelé também foi lembrado em uma música de Luís Gonzaga intitulada “No Piancó”.

Quem visita atualmente a antiga Patos de Princesa, atual Irerê, município de São José de Princesa, com suas casas antigas e bem preservadas, nem imagina que o carcomido e arruinado casarão existente no fim da rua principal, foi palco de tamanho conflito.

O grande amigo Antônio Antas apontando a área onde o pessoal de Princesa atacou as tropas de Quelé. Uma verdadeira memória viva da região

Mesmo em ruínas, o casarão impressiona pela imponência da sua estrutura, pela grandiosidade da sua construção. Nele existe um andar superior, com dois sótãos independentes, vários quartos e dependências, sendo um exemplo do poder emanado pelos coronéis da região. Em meio ao silêncio atual, se o visitante puxar pela imaginação, é possível ouvir os sons da batalha ali ocorrida no longínquo ano de 1930.

Nota – Especificamente sobre o “Fogo do Casarão dos Patos”, utilizo principalmente as lembranças de várias pessoas que vivem na região de Princesa Isabel, Irerê e Manaíra. Sendo as informações do senhor Antônio Antas Dias, residente na cidade de Manaíra, as narrativas mais utilizadas. Este senhor comentou sobre este momento histórico, em uma entrevista concedida no dia 14 de agosto de 2006. O Sr. Antônio Antas tinha 61 anos na época da entrevista, onde as informações que ele prestou lhe foram transmitidas principalmente por Marcolino Diniz, de quem era parente, pelo guarda costas deste último, Manoel “Ronco Grosso” Lopes, por José Florentino Dias, seu pai, e pelo senhor Sebastião Martins, morador do atual distrito de Irerê.

Igualmente utilizei os trabalhos do amigo e professor de geografia José Romero Araújo Cardoso, lotado na UERN-Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, em Mossoró. Estes artigos são “Marcolino Pereira Diniz e Xanduzinha: Imortalizados através da arte de Luiz “Lua” Gonzaga”, no link –

http://www.turismosertanejo.com.br/?target=artigos&id=69

Outro Trabalho do professor Romero, ao qual utilizei material para a confecção deste artigo, foi uma série de interessantes entrevistas realizadas entre 1989 e 1991, com diversas testemunhas sobre episódios do cangaço e da Guerra de Princesa, que está inserido no link –http://www.marcoslacerdapb.hpg.ig.com.br/romero/cangaco.htm

 – Este artigo já havia sido anteriormente publicado e reproduzido em sites de vários de amigos por este Nordeste afora, que colocam a devida referência em relação ao autor e vários outros sites que nem se preocupam com isso. Mas decidi colocar o meu próprio blog, com novas fotos para quem gosta destas antigas histórias do nosso sertão.

Um detalhe importante. Já faz um tempo que não vou por lá, nem sei se o casarão está mais de pé, mas se tiver, visite enquanto é tempo.

 Um abraço a todos

 Rostand 

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