LAMPIÃO ENTRE DEUS E O DIABO NA MÚSICA POPULAR

cangaceiros

Racine Santos, diretor de teatro.

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE, Natal-RN, Domingo, 07 de Agosto de 1988.

No último dia 28 de julho fez cinquenta anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. O bandido, o facínora, o malaventurado cangaceiro que durante vinte anos espalhou medo e morte pelos caminhos do sertão. Há cinquenta anos foi degolado aquele que semeou o terror e se fez dono de um reino de fogo, rei de um mundo pardacento, povoado por cascavéis e gaviões, miséria e Injustiça.

Barreira Cangaceiro (2)

Mas, afinal, quem foi esse senhor da vida e da morte? Esse terror do Nordeste? Um Atila, em Espártaco, ou um assassino frio e covarde indigno do mito que hoje o envolve? A verdade é que, cometendo todas as atrocidades que cometeu, ele tornou-se depois de morto uma legenda, uma coisa viva na imaginação popular. Personagem maior no fabuloso romance popular nordestino. Matéria de cinema, ficção, poesia e teatro. Um símbolo do Nordeste, como o mandacaru, o sol e a caatinga. Presente no artesanato, na música, no folclore, e em todas as manifestações artísticas da região. Seu chapéu, “um céu de couro à cabeça com três estrelas fincadas”, no dizer de Carlos Pena Filho, é hoje símbolo de uma cultura.

Curiosamente é que o mesmo povo que dele fugia com medo, inconscientemente o tinha como herói. Não um herói medieval, cheio de virtudes e princípios, mas um herói diferente, com as cores da miséria e da ignorância de um povo que solenemente mastiga areia, pedras e sol enquanto os eternos coronéis se alimentam de seu trabalho mal pago. O medo que o povo conscientemente tinha de Lampião, transformava-se em admiração â nível do inconsciente. Isso a partir de uma identificação: a contida revolta do povo contra a miséria e injustiça, com a insurreição de Lampião contra a polícia, os coronéis e tudo que cheirasse ao poder massacrante. Lampião gritou o grito preso na garganta de muita gente.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

A revolta do cangaceiro contra o poder, representado pela polícia, os coronéis, os latifundiários, os políticos, os grandes comerciantes, incorporava o sonho sonhado do povo. Quando ele “botava prá correr” as volantes da polícia, os pobres do Nordeste que sofriam na pele a arbitrariedade policial, exultavam de alegria. Quando seu grupo incendiava uma fazenda, achavam ruins os moradores explorados? Claro que Lampião não tinha a menor consciência do que representava ou significava. Mas ele era a personificação da revolta da gente pobre do campo, do explorado, do faminto, do sem terra, do sem eira nem beira.

Lampião foi uma das mais brutais e primitivas formas de revolta ocorrida no país. Como, por outros caminhos, fora Canudos de Antônio Conselheiro.

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Quadro de Sérgio Azol – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Entre o céu e o Inferno

Depois de morto Lampião virou mito, lenda, história. Senhor do sonho e da imaginação popular. Mexeu tanto com a imaginação do povo que o romanceiro popular, cansado de cantar suas bravuras e bravatas pelos sertões a fora, pelo chão dos penitentes, passou a cantá-lo nos mais diversos lugares, oferecendo-lhe os mais diferentes e insólitos cenários. Para o romanceiro popular a morte não matou Lampião. Transportou-o para outros mundos, deixando uma macabra saudade na alma do povo, como mostra o poeta em seus versos:

“A viola tá chorando

tá chorando com razão

soluçando de saudade

gemendo de compaixão

degolaram Virgulino

acabou-se Lampião”

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Aquele que passou vinte anos saqueando, roubando e matando, pondo em sobressalto as populações sertanejas foi elevado a condição de herói pelo fato de ter incorporado, personificado, a revolta dos pobres do sertão. Embora as forças reacionárias não queiram admitir, Lampião foi um monstro gerado pela injustiça social.

Com sua morte, desaparecendo o perigo real, os poetas do povo, interpretando e liberando a contida admiração que as camadas pobres lhe tinham, as feiras e os alpendres sertanejos se encheram de versos que transformavam o bandido em herói.

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Lampião – Fonte – http://www.itribuna.com.br

E a imaginação dos poetas do povo não tem limites. Assim, Lampião, cansado de enfrentar batalhões de polícia e valentões pelos sertões a fora, foi parar na porta do céu. Claro que lá não entrou. Foi expulso por São Pedro e um batalhão de santos armados com paus e pedras. Em “A chegada de Lampião no céu e a discussão com São Pedro”, o poeta Manoel Camilo dos Santos empresta a seus personagens as cores de seu próprio ambiente e cultura, criando um céu deveras prosaico:

“Chegou no céu Lampião

a porta estava fechada

ele subiu a calçada

ali bateu com a mão

ninguém lhe deu atenção

ele tornou a bater

ouviu São Pedro dizer:

demore-se lá quem é

estou tomando café

só depois vou atender”.

Cópia de 13- Recompensa oferecida pelo cangaceiro
O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Expulso do céu por um São Pedro humano e pachorrento, Lampião, conduzido pelas mãos e pela pena do poeta José Pacheco, foi parar nas profundas do inferno, atanazando o próprio Satanás. Lá também não ficou. Depois de uma renhida luta com um batalhão de diabos soldados de Lúcifer, onde, feito Sansão contra os filisteus, chegou a usar como arma uma queixada de boi, o cangaceiro deixou o inferno em péssima situação:

“Houve grande prejuízo

no Inferno nesse dia

queimou-se todo o dinheiro

que Satanás possuía

queimou-se o livro de ponto

perdeu-se vinte mil contos

somente em mercadoria”

Reclamava Lúcifer:

“Horror maior não precisa

os anos ruins de safra

agora mais essa pisa

se não houver bom inverno

tão cedo aqui no inferno

não se compra uma camisa”.

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Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Batalha da Serra Grande, em 1926, na zona rural de Serra Talhada.

Lampião vive na imaginação do povo que o transformou nesse estranho herói. Isso no plano da cultura popular. Já no terreno da cultura erudita, a dita cultura de elite, o tema está ainda á espera de um grande escritor, como mereceu Canudos. Segundo Hermilo Borba Filho, o aventuroso amor de Maria Bonita pelo Rei do Cangaço é muito mais rico em situações dramáticas do que a traição sofrida pelo noivo de “Bodas de Sangue”. Mas, enquanto não aparece um Lorca, um Euclides da Cunha ou mesmo um Mario Vargas Llosa, o mito de Lampião voa solto pelas caatingas desafiando os talentos como desafiou o poder. É verdade que sobre ele muitos

escreveram, mas muito pouco disseram. Pois, mais uma vez lançando mão de Carlos Pena Filho…

“… dele mesmo não sabem

e nem nunca saberão,

pois ele nunca viveu,

não era sim, era não,

como essas coisas que existem

dentro da imaginação.

Quem puder que invente outro

Virgulino Lampião”.

SOBRE RACINE SANTOS 

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É um homem de teatro. Autor, produtor, diretor e editor. Tem toda uma vida dedicada ao teatro. Na juventude foi ator, mas um acidente de automóvel o afastou da cena, não do palco.

Nasceu em Natal (RN), em 1948. Boa parte de sua infância passou na pequena cidade de Macaíba (25 Km de Natal), onde teve seus primeiros e marcantes contatos com a cultura do povo, assistindo as brincadeiras de boi-de-reis, pastoril, João-redondo e lendo seus primeiros folhetos de poesia popular. De 1961 a 1965 estudou no Recife, onde conheceu Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e o artista plástico Abelardo da Hora, pessoas que considera importante para sua formação cultural e maneira de ver o Nordeste e sua gente.

De volta a  sua cidade liga-se ao Teatro de Amadores de Natal, grupo criado e dirigido por Sandoval Wanderley. Em 1976 escreve e dirige sua primeira peça: A Festa do Rei. Onde já se percebe um autor que trabalha a tradição popular assentada em bases eruditas.

Sua preocupação com o teatro da região o leva a fundar em 1992, juntamente com Luís Marinho, Luís Maurício Carvalheira, Altimar Pimentel, Tácito Borralho, Romildo Moreira e outros, a Associação dos Dramaturgos do Nordeste, da qual foi o presidente.

Autor de mais de uma dezena de peças, tem na cultura popular do Nordeste sua grande fonte, não para reproduzi-la, mas como meio de entender sua gente  e falar para ela de maneira direta, clara e viva. 

Além da três peças publicadas neste volume, são de sua autoria, entre outras: A Festa do Rei, A Farsa do Poder, Elvira do Ypiranga, A Ópera do Malazarte, Maria do Ó, Chico Cobra e Lazarino, O Voo do Cavalo do Cão, Bye Bye Natal ( Musical), O Autor do Boi de Prata e a infantil, O Congresso das Borboletas.

FONTE – http://www.ubern.org.br/canal.php?codigo=807

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