Arquivo da categoria: História do Nordeste do Brasil

NAS “REBARBAS” DA FAZENDA TAPERA – CONHECENDO O MAIOR MASSACRE DA HISTÓRIA DO CANGAÇO

13332844_10153615168846935_9103971137831627242_n
Entrada do cemitério da Fazenda Gilo – Foto – Sérgio Azol

Autor – Sálvio Siqueira – São José do Egito, Pernambuco.

No tempo do cangaço, muitas mentiras foram ditas a fim de livrarem-se da morte ou, pior, para provocarem a de alguém. Interessante é que mais mentiras foram e são contadas em muito, das entrelinhas de autores que não estavam, nem estão comprometidos com a real história. Eles elaboraram suas obras, talvez pensando em que nunca surgissem pesquisadores descentes e de responsabilidades. Coisa que, felizmente, de um tempo para cá, apareceram.

O Covarde

Horácio Cavalcanti de Albuquerque, nascidos aos 23 dias do mês de agosto de 1891, que, ao longo da sua vida passa a ser conhecido por duas alcunhas: ‘Horácio Grande’, devido sua estatura, e ‘Horácio Novaes’. Seu casamento foi com a senhora Alice Cavalcanti Novaes. Horácio era de uma família grande e bem sucedida, porém, seguiu pelo caminho tortuoso do banditismo. Devido ao seu temperamento, ninguém nas redondezas de onde morava, e praticava seus crimes, tinha peito de denuncia-lo nem tão pouco enfrenta-lo num combate. Talvez pela força que a família nas redondezas demonstrava.

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 1 - Copy

Alguns familiares de Horácio, na tentativa de fazê-lo enveredar pelo caminho do bem, da honestidade, fizeram de tudo. Quando o mesmo vai ao Estado vizinho do Ceará, na cidade de Porteiras, eles conseguiram um cargo de Delegado, devido à influência que tinham naquela região. No entanto, em vez de exercer o ofício dignamente, ele passa a fazer pior, e dessa vez, acobertado pelo cargo. Não podendo mais ficar por lá, pois até em homicídio se envolve, retorna para o Pajeú das Flores.

Chegando às terras em que nascera, continua praticando vários delitos e, um deles, é roubar vários animais de uma propriedade rural no município de Floresta, PE, denominada de ‘Tapera’, pertencente a uma família por todos conhecido como ‘Os Gilo’, e vende-los em terras cearenses para o trabalho de carregar cana de açúcar. O proprietário sai em busca de seus animais e termina por achar e traze-los de volta. Ao retornar, comunica as autoridades locais o ocorrido. Horácio é condenado “In Absentia”. Depois disso, ele em vez de procurar corrigir-se, junta alguns companheiros bandidos, cangaceiros, e vão tentar matar o dono dos animais que o denunciou. Leva tromba, não consegue seu intento e, pior, perde alguns amigos na bala, outro foge e ele mesmo é baleado no “saco escrotal”, tendo que ir para a Capital pernambucana fazer o tratamento.

A (108)
Natureza árida da região da propriedade Tapera, zona rural do município de Floresta, Pernambuco – Foto – Rostand Medeiros

Ciente da disposição daquela família que ele tinha roubado os animais e que teve a coragem, não só de denunciá-lo, mas de trocar tiros com ele e os seus capangas, não abrindo de jeito nenhum, ele planeja um macabro plano para acabar com eles junto ao “Rei do Cangaço”, pois depois que retorna da viagem para o tratamento, passa a fazer parte do bando dele.

Sabedor do temperamento de Lampião, Horácio manda sua esposa escrever uma missiva como sendo o dono da fazenda Tapera endereçada ao chefe, e nela, além de o desaviar, coloca em dúvida sua coragem. Naquele tempo, homens da têmpera de Lampião não aguentavam certas provocações, e iriam tirar satisfações com a pessoa que as fizera, e isso, Horácio sabia de cor e salteado. Viu aí, uma forma, maneira, de colocar em prática uma vingança usando um artifício nefasto, mesquinha e covarde, que só os covardes usam, a mentira.

Carta Assassina

“(…) A carta foi endereçada a Lampião e seu conteúdo não só insultava como também colocava em dúvida a coragem do cangaceiro (…).” (“AS CRUZES DO CANGAÇO” – SÁ, Marcos Antonio de. E FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa. (nossos amigos Marcos de Carmelita e Cristiano Ferraz). Floresta, 2016)

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião

Esse ‘desaforo’ fora aceito pelo “Rei Vesgo” como planejara antecipadamente Horácio Novaes. A preparação, ao ataque à sede da fazenda, nós já contamos em outra matéria, e tornaremos a conta-la em outra oportunidade, pois sempre surgem detalhes que passam despercebidos. Nesse texto, nos limitaremos a tentar levar para os amigos os acontecimentos, não no local da principal batalha, luta, enfrentada pelos valorosos ‘Gilos’ contra a caterva sanguinária de Lampião, onde foram vítimas de uma chacina, no terreiro da sede da fazenda.

Como sempre, vemos as estratégias arquitetadas por Virgolino Ferreira em ação. O ‘Cego’ escolhe para o dia do ataque, um dia de ‘feira’ na sede do município, Floresta, PE, um sábado, 28 de agosto de 1926. Sabia que sendo o dia da ‘feira’, a maioria das pessoas que moravam na zuna rural iriam para a ‘rua’, cidade, venderem, trocarem e/ou comprarem mercadorias. Ficando assim, menos gente nas redondezas. Se os vizinhos dos ‘Gilo” estivessem na ‘rua’, não poderiam ajuda-los.

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 4 - Copy

Em toda estrada que levava a sede do município, Lampião distribuiu seus homens, e em cada vereda, estrada ou rodagem ficou um pequeno grupo de cangaceiros dando proteção. Aquelas pessoas que viriam à feira, ordenou que os ‘cabras’ as prendessem.
É costume das pessoas que moram nos sítios, nas propriedades rurais, nas fazendas, levantarem-se cedo, no quebrar da barra, ou mesmo antes, diariamente. No dia da ‘feira’, esse horário é antecipado para que, além de fazerem os costumeiros serviços como tirar leite, cortar ração, moer milho e etc., pegarem seus animais, darem um bornal de milho seco pra eles se alimentarem, os selarem, partirem e chegarem cedinho na ‘rua’, pegando a feira no começo.

 

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 3 - Copy

Nas últimas horas da madruga, já os galos cantando, dando suas bem vindas a claridade e despedindo-se da noite, prevendo o raiar de um novo dia, todo aquele roceiro que se dirigia para Floresta, para a feira, era aprisionado pelos cangaceiros dispostos nos ‘piquetes’ das estradas.

Em determinada estrada vinham alguns tropeiros com suas mercadorias nos lombos da burrarada. Esses foram pegos e seus animais amarrados por perto. Nada de ter começado, ainda, o fogaréu de balas na fazenda dos ‘Gilo’. Os tropeiros foram ‘detidos’ debaixo de uma quixabeira e um deles foi amarrado pelo pé. A ‘prisão’ desses tropeiros chama atenção por ter ocorrido com membros de uma família só. Muitos eram irmãos, primos e/ou amigos.

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 2 - Copy

“(…), um, a um, os viajantes iam ficando presos e embaixo de ordem no córrego do Arcanjo, em uma quixabeira, como é o caso dos irmãos “João do Monte” (João Pereira Lima), “Mestre Orcino do Monte” (Orcino Pereira Lima – era carpinteiro e pedreiro) e o amigo deles “Manoel Maria do Monte” ( Manoel Vicente de Sá), que percorreram cerca de vinte quilômetros tangendo uma tropa de animais (…).” (Ob. Ct.)

Desgraça

Após esse acontecido. Surge, de repente, um cavaleiros tangendo alguns jegues, e nos lombos desses, amarrados nas cangalhas, costais de rapaduras. Tudo fora apreendido pelos cangaceiros e a carga divida entre eles. Rapadura, alimento que eles levavam em seus bornais para as longas caminhas dentro da caatinga. Depois disso, um senhor, “Pedro Alexandre Gonçalves Torres”, que morava num povoado próximo, “Barra do Silva”, trazia uma carga de aguardente, cachaça, ‘cana de cabeça’, no lombo de um burro, que também fora parado pelos homens de Lampião…

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 9 - Copy

Assim, nas cercanias dos limites da fazenda Tapera, foram ocorrendo fatos, mesmo antes da deflagração do tiroteio ter início no terreiro da sua sede.

O clarão do dia vem surgindo, espantando para longe o manto escuro da noite, quando de repente, duas pessoas saem de dentro da casa da fazenda Tapera, e, tomando rumos diferentes, vão para o mato defecar e/ou urinarem. Um deles, aquele que segue para o riacho que passa ali perto, é avistado e feito alvo pelos cangaceiros, que estavam espalhados em volta da casa, e um dos lugares era a barreira do riacho, e é o primeiro a tombar sem vida. O outro, quando o tiro ecoou, fez finca pé e danou-se em direção uma cerca que tinha na frente. Na velocidade que ia, salta e agarra nas varas da cerca, porém, cai na besteira de olhar para trás, perdendo segundos preciosos, segundos que valeram sua vida. Também é atingido e cai por terra, morrendo em seguida.

Numa propriedade próxima, onde seus habitantes não tinham ido à feira, em determinado momento, alguns notam a aproximação dos cangaceiros. Essa propriedade também era denominada Tapera. Pois bem, procurando salvarem a ‘pele’, a vida, dois cidadãos procuram refúgio entre os porcos que estavam num chiqueiro. Perda de tempo, foram vistos e mortos.

A (114)
Marcas de bala em uma árvore no local do combate – Foto – Rostand Medeiros

“(…) vizinho da Tapera, em outra propriedade que tinha esse mesmo nome e pertencente a Ezequiel Damião(…) os sertanejos João Gabriel de barros (Janjão) e Francisco Damião de Souza ( Chico de Rufina)(…), ao verem os cangaceiros cercando a casa onde eles estavam, resolvem se esconder dentro de um chiqueiro de porcos, onde foram localizados e mortos (…).” Ob. Ct.)

Entre o pessoal que estava aprisionado debaixo da quixabeira, um que estava amarrado pelo pé, faz menção de querer fazer alguma necessidade fisiológica. Os cangaceiros não querem soltar ele. Dizem para ele fazer ‘as coisas’ mesmo amarrado. Nisso, um outro prisioneiro intercede e pede para que ele seja solto afim de ir fazer suas necessidades no mato. Os ‘cabras’ o soltam. Ele, se estava necessitado ou não, deu foi no pé, fugindo numa carreira danada. Não teve xique xique, mandacaru, favela, jurema, catingueira ou outra árvore do bioma caatinga que o fizesse parar, nem as balas dos cangaceiros conseguiram detê-lo. Pior para o senhor que pediu por ele. Quando os cangaceiros retornaram para a quixabeira, ele é executado friamente.

Fogo Cerrado

No terreiro da fazenda Tapera, dos “Gilo”, a coisa estava pegando fogo. O tiroteio estava cerrado. O som dos disparos era levado pelo vento, como um pedido de socorro a quem os escutassem… Num sítio próximo, na fazenda Lagoinha, morava Alexandre Ciríaco, que era amigo de Manoel Gilo, e tinha lhe prometido de que, se algum tiroteio começasse, ele iria em seu socorro. Quando escutou o som dos disparos, avexou-se, pegou as armas e um bisaco de balas, foi até junto de sua amada esposa, que estava grávida, e após fazer suas orações, despediu-se dela dizendo:

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 13 - Copy

 

“- Muié, eu tô indo mais num volto; os Gilo estão sendo atacados, mas eu dei minha palavra que ia e eu vô.”

A mulher ainda suplicou:

– Num vá não.” (Ob. Ct.)

Juntaram-se a Alexandre, seu irmão “Manoel Rosa” e um primo chamado ‘Antônio Inês’, pegaram as armas e os bisacos, bornais, com balas e desceram rumo à fazenda na esperança de salvar, socorrer, o amigo Manoel Gilo. Como dissemos antes, Lampião colocou um cerco nas redondezas da fazenda Tapera, quase que intransponível. Os três homens vão ligeiro por uma vereda que dava acesso a sede da fazenda Tapera dos Gilo, onde o que se escutava a todo o momento era estampidos de arma de fogo, quando, de repente, uns homens começam a fazer-lhes sinais para que se aproximassem. Essas pessoas que acenavam, estavam dentro de uma espécie de cercado, embaixo de um umbuzeiro, e a sombra nela impedia de Alexandre, seu irmão e o primo, visualizassem quem era. Para entrar no cercado, havia um passador, coisa que Alexandre logo transpôs. Nesse momento recebeu uma saraivada de balas que o mataram. O irmão e o primo, vendo o que aconteceu, não contaram conversa, deram meia volta, e bateram em retirada.

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 8 - Copy

Na cidade de Floresta, onde se realizava a feira, todos escutavam o som dos disparos. Não vendo atitude alguma tomada pelo comandante do Batalhão, capitão Antônio Muniz de Farias, que tinha prometido ao Patriarca dos “Gilo” ir a seu socorro se por acaso fossem atacados pelos cangaceiros e não se mexia do canto, várias pessoas vão pedir para que ele leve a tropa e salve os daquela família. O comandante ainda ordenou entrar em formação a tropa, porém, em seguida, ordena saírem de forma… E assim procedeu mais de uma vez. E os da fazenda Gilo vão perdendo suas vidas, um a um.

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 12 - Copy

Vendo que o comandante não tomaria a atitude de, pelo menos ordenar para eles irem em defesa daquela pobre gente, coisa que o capitão Muniz tinha prometido, Manoel Neto, que estava baleado num braço, inclusive usando tipoia, chega junto dele e pede para que dê a ordem aos soldados. Nada, o capitão não ordena. Acovarda-se. Toma então uma decisão maluca e diz que querendo ou não o comandante, ele iria tentar salvar as pessoas daquela fazenda.

Um Bravo e o Resultado

“(…) Diante do empecilho criado, surge um bravo. Um componente da afamada Volante dos Nazarenos, Manoel de Souza Neto, o “Mané Neto” (…).” (Ob. Ct.)

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 7 - Copy

Vendo a decisão tomada por Manoel Neto, dez soldados se determinam e dizem segui-lo, naquela empreitada. Os bravos soldados pegam suas armas e saem na direção da fazenda Tapera. No caminho, nas terras da fazenda Barra, encontram-se com alguns homens, e esses cedem ao bravo nazareno cinco homens que trabalhavam para eles. Já o outro, agrega-se a eles com seus jagunços. Formaram uma pequena tropa, mas, pelo som dos disparos, Manoel Neto sabia que seu contingente era muito inferior ao dos ‘cabras’ de Lampião. Seguiram com cautela a partir dali. “Mané Fumaça”, como era chamado por Lampião Manoel Neto, divide seus homens e vai em direção a casa.

Ao longe os disparos vão diminuindo e isso não era um bom sinal. Ao chegarem próximo à casa da fazenda, um corneteiro começa a cornetá. Os bandidos escutam e, alguns saem em retirada, outros pegam suas armas e começam a atirar em direção a volante que chega. Um dos soldados cai nos pés do comandante já sem vida. Cassimiro Gilo, ao aproximar-se da casa com seus homens, uma bala passa muito próximo ao seu ouvido. Ele cai desacordado. Manoel Neto o pega e o carrega nas costas, retirando-o da zona de tiro. A munição dos soldados e dos homens que estavam a darem combate à turba de cangaceiros vai diminuindo. Vendo que logo ficariam sem munição e seriam todos mortos pelos inimigos, resolvem bater em retirada e voltarem ao QG do comando, ao Batalhão em Floresta.

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 6 - Copy

 

O saldo das vidas ceifadas nessa brigada foram de muitas pessoas, dentre essas três eram cangaceiros, que além dos mortos, levavam três companheiros feridos. Dos mortos na sede da fazenda e em seu derredor, um era um soldado, os outros eram civis, roceiros, sertanejos que perderam a vida tentando defende-la, ou tentando defender a de amigos, fora os feridos, inclusive da Força Militar comandada por Manoel de Souza Neto.

Nomes daqueles que perderam a vida na chacina da fazenda Tapera:

“(…) Aos pés da quixabeira que ficava no terreiro, uma cena macabra, sete corpos espalhados pelo chão, entre eles: Gilo Donato e seus filho Manoel de Gilo, Evaristo Gilo, Joaquim Gilo, Henrique Damião ( genro), Permínio (parente), e José Pedro de Barros ( vizinho e parente). (…) perto dali, estavam os corpos de Chico de Rufina e Ezequiel Damião (Janjão). (…) na estrada que ligava Floresta ao povoado Barra do Silva, embaixo ( da sombra) de uma quixabeira estava (o corpo de) Pedro Alexandre.(…) (o corpo de ) Alexandre Ciríaco fora deixado no local onde morreu, a cerca de duzentos metros do epicentro da tragédia.(…) o soldado Volante João Ferreira de Paula tombou crivado de balas (…).” (Ob.Ct.)

A FOTO DA REBARBA DA TAPERA 10 - Copy

Outras obras literárias não trazem os nomes daqueles que tombaram na citada chacina. Outras até cita alguns, inclusive o nome de uma pessoa que não morreu na brigada… Porém, com o esforço, a perseverança de nossos amigos, a história vai se desvendando verdadeiramente. Depois de muito suar, os dois amigos conseguem trazer para nós, através de seu livro acima citado, a coisa como realmente ocorreu, nas terras rurais do município de Floresta, PE, na chacina da fazenda Tapera.

Fonte “AS CRUZES DO CANGAÇO” – SÁ, Marcos Antonio de. E FERRAZ, Cristiano Luiz Feitosa. (nossos amigos Marcos De Carmelita Carmelita e Cristiano Ferraz). Floresta, 2016
Foto Ob. Ct.
Revista O Malho

 

O VAGABUNDO DO MAR

MF (9) - Copia
Desenho de Carlos Arthur Thiré.

A HISTÓRIA DO NAVEGADOR SOLITÁRIO INGLÊS QUE NAUFRAGOU EM UMA REMOTA ILHA BRASILEIRA, FOI SALVO POR UM TRANSATLÂNTICO ITALIANO E ACABOU PRESO NO RIO SUSPEITO DE SER COMUNISTA

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Era uma terça feira, 28 de março de 1939, e o transatlântico italiano MS Augustus navegava tranquilo em pleno Oceano Atlântico, a cerca de 530 milhas náuticas a nordeste de Natal. A bela nave seguia em direção ao Mar Mediterrâneo em meio a um mar calmo, com poucas ondas e muito sol típico de uma zona tropical.

20170406_092202 - Copia - Copia (2)
O MS Augustus

Por volta de uma e meia da tarde muitos passageiros percorriam tranquilos os decks da nave de 215 metros de comprimento, descansando depois do almoço. Alguns estavam sentados em cadeiras dobráveis se dedicando a leitura, outros conversavam em pequenos grupos e muitos observavam o mar na expectativa de avistarem algum peixe, uma baleia e os Rochedos de São Pedro e São Paulo. Eles haviam sido informados que este remoto local surgiria em breve a estibordo, ou seja, a direita do navio.

Conhecido hoje como Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o local é uma parte pequena e bem isolada parte do território brasileiro, sendo um dos poucos lugares na Terra onde um cume oceânico subaquático rompe a superfície do mar. Formado por um pequeno grupo de ilhas que está apenas 18 metros acima das águas oceânicas e com uma extensão total de meros 4,5 hectares, era conhecido dos homens dos mares desde 1511, quando uma frota portuguesa com seis caravelas seguindo em direção as Índias, topou com o lugar sem querer. Deste encontro a caravela São Pedro bateu nas rochas e afundou e a caravela São Paulo salvou os sobreviventes do barco sinistrado e daí surgiu a sua denominação.

arq
Arquipélago de São Pedro e São Paulo na atualidade – Fonte – http://aurelioschmitt.blogspot.com.br

Perdidos no meio do grande Oceano Atlântico, ao longo dos séculos aquelas rochas não chamaram a atenção de exploradores, mas sim de grandes cientistas, entre eles o inglês Charles Darwin, que lá esteve na manhã de 16 de fevereiro de 1832, na primeira etapa de sua viagem ao redor do mundo a bordo do HMS Beagle.

Esquecidos e isolados em 1939 os então denominados Rochedos de São Pedro e São Paulo serviam, quando avistados durante o dia, como ponto de referência para verificação do posicionamento de navios através das cartas náuticas, bússolas e sextantes e, no caso de transatlânticos como o Augustus, um motivo de distração para seus normalmente entediados passageiros.

MF (16) - Copia

Logo o transatlântico ficou a menos de dez milhas náuticas de distância e as rochas negras surgiram no horizonte. Alguns passageiros munidos de lunetas e pequenos binóculos se colocaram na amurada para observar aquele amontoado de pedras batidos pelas ondas. Em pouco tempo um burburinho em diferentes idiomas surgiu e braços apontavam em direção aos rochedos. De lá sinais luminosos provocados por um espelho nas mãos de um homem nu, que também agitava os braços intensamente, chamaram atenção de várias pessoas.

Quem era aquela pessoa?

Perdido nos Rochedos dos Santos

Na ponte de comando do Augustus a figura solitária naquelas rochas também chamou atenção dos oficiais que estranharam o fato. Eles sabiam que dificilmente alguém estaria ali praticando naturismo em num ponto tão isolado do Globo e também sabiam que a última missão oficial de qualquer espécie ocorrida nos Rochedos de São Pedro e São Paulo fora realizada em 1930.

MF (17) - Copia

Naquele ano membros da Marinha do Brasil estiveram no local a bordo do navio tender Belmonte para a instalação de um pequeno farol aero marítimo e já fazia algum tempo que ele estava apagado. Tanto assim que a oficialidade do Augustus e de outros navios de cargas e passageiros que passavam pela região só se aproximavam do local durante o dia e com tempo bom, pois além de tudo as correntezas na área eram fortes.

Logo o comandante do Augustus enviou uma mensagem telegráfica para a Capitania dos Portos de Recife, para a Polícia Marítima e para o Presídio Político de Fernando de Noronha para informar sobre o fato.

O coronel Nestor Veríssimo, diretor do presídio, informou que nenhum detento havia se evadido da instituição que comandava e o comandante Humberto Areia Leão, capitão do porto de Recife, imediatamente comunicou ao então Ministério da Marinha. Mas foi Renato Medeiros, inspetor da Polícia Marítima, que conseguiu a informação de que o transatlântico italiano MS Conte Grande era esperado para os próximos dias em Recife e, como normalmente acontecia com os navios que faziam esta rota entre o Brasil e a Europa, passaria próximo aos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Através da ajuda de Etelvino Lins, então Secretário de Segurança Pública, o inspetor Renato Medeiros conseguiu enviar uma mensagem urgente ao Conte Grande para que investigasse o caso.

Mas foram os membros da imprensa recifense que conseguiram informações mais seguras sobre o solitário homem nos rochedos.

Conte_Grande-1
O transatlântico italiano MS Conte Grande

Um oficial do paquete nacional Santarém, da empresa Lloyd Brasileiro e que se encontrava há uma semana no porto de Recife, informou que na sua última travessia vindo de Lisboa havia encontrado no meio do mar um pequeno barquinho a vela, com pouco mais de cinco metros e meio de comprimento e uma pequena bandeira britânica no diminuto mastro. O capitão do Santarém parou sua nave mista de passageiros e cargas e procurou ajudar o navegador solitário. Este agradeceu o apoio, informou que se dirigia para Natal e alegou que nada lhe faltava naquela verdadeira casca de noz que enfrentava os mares. O velejador parecia com saúde, aparentava está com as faculdades mentais corretas e o Santarém continuou seu rumo em direção a capital pernambucana.

Seria o homem nos Rochedos de São Pedro e São Paulo o mesmo navegador solitário?

Salvo

O Conte Grande era uma nave muito conhecida no Brasil e extremamente respeitada pela nossa sociedade, que nessa época utilizava intensamente o transporte marítimo.

MF (18) - Copia
Saída do escaler para busca o náufrago.

A nave possuía muito luxo nos seus 200 metros de comprimento e desde 1932 fazia a linha entre a Itália e a América do Sul. A oficialidade do navio italiano acatou o recebimento das mensagens transmitidas pelas autoridades de Recife e pelo Augustus e informou que realizaria uma parada nos rochedos.

Por volta das cinco e meia da manhã de 31 de março os motores do Conte Grande ficaram girando em baixa rotação para manter a posição, enquanto um escaler era baixado com quatro marinheiros, um enfermeiro de bordo e sob o comando de um oficial do transatlântico.  Houve um fato narrado nos jornais que mostra bem as características das questões relativas ao pudor existente na época – Devido ao estado de nudez do náufrago o navio foi deixado a uma distância relativamente grande dos Rochedos de São Pedro e São Paulo e o pessoal a bordo do escaler teve de remar dobrado, mas conseguiram realizar a tarefa.

MF (2) - Copia
Retorno do escaler.

Para surpresa geral aquele homem jovem e cabeludo falou em perfeito italiano. Ele estava muito fraco e foi examinado, teve sua nudez coberta com um roupão branco e foi levado para o Conte Grande. Sua chegada causou verdadeiro frenesi a bordo, mas ele foi mantido isolado devido ao seu estado de saúde.

Logo se soube que o estranho se chamava Michel Formosa, era filho do inglês Francis Reynold Formosa e mãe italiana, havia nascido em Paris, morava na ilha mediterrânea de Malta, era técnico de rádio e falava fluentemente cinco idiomas. Formosa contou que havia feito economias para realizar o sonho de adquirir um pequeno barco e conhecer o mundo singrando os mares.

Sozinho no Atlântico

O solitário navegador conseguiu seu intento no ano anterior, batizando a pequena nave de O. K. e partiu da ilha de Malta, na época parte do Império Britânico, no dia 2 de outubro de 1938.

MF (5) - Copia - Copia

Percorreu com certa dificuldade a parte da costa africana banhada pelo Mar Mediterrâneo, mas ultrapassou o Estreito de Gibraltar e passou a navegar no Oceano Atlântico. Sua primeira parada foi na cidade marroquina de Tânger, depois Las Palmas, (Arquipélago das Canárias), na sequência Bathurst (Atual Banjul, capital da Gâmbia), Bissau (Atual capital da República da Guiné-Bissau) e outros locais da África Ocidental.

Partiu em março na direção do Brasil com a ideia de chegar a Natal, cidade que comumente aparecia em noticiários de jornais e revistas que comentavam feitos e realizações aeronáuticas na Europa.

MF (22) - Copia

Para Formosa o porto de Natal lhe aparecia como um ponto de apoio pequeno, limitado, mas muito bem localizado no extremo nordeste da América do Sul. Para ele pouco importava as dimensões do nosso porto, ou o tamanho de Natal. Para quem buscava atravessar o Oceano Atlântico em um veleiro com apenas cinco metros e meio de comprimento, o que importava era chegar vivo!

Durante sua travessia atlântica o navegador Formosa passou uma parte do tempo apreciando o mar, noutra dormindo, ou lendo livros sobre o Novo Mundo. Enfrentou dois dias de forte tempestade, mas o O. K.  suportou bem a pressão. Em outro momento um nevoeiro muito forte, acompanhado de uma calmaria intensa o deixou em meio a um mundo com poucas referências visuais e um intenso silêncio.

MF (6) - Copia

Um dia viu um navio brasileiro de carga e passageiros chamado Santarém, que veio em sua direção e aconteceu o contato narrado anteriormente. Para Formosa o melhor deste encontro no meio do mar foi saber que seguramente estava na rota certa. Mas no rápido encontro o navegador solitário britânico esqueceu-se de perguntar aos oficiais do Santarém se o farol dos Rochedos de São Pedro e São Paulo estava funcionando.

Queria Vir a Natal

Na madrugada de 26 de março o mar engrossou, e o vento se tornou mais e mais forte. As vagas invadiam continuamente o deck do barquinho a vela e tornava a navegação muito difícil. À noite a situação só piorou e a visibilidade se tornou mínima. Por volta da meia noite, já bastante cansado, Formosa vislumbra no meio da chuva o que lhe pareceu ser o cume de uma montanha. Ele sabia que o continente estava ainda muito longe e não havia visto a luz do farol de São Pedro e São Paulo. Logo escutou as ondas batendo nas pedras e tentou mudar o rumo, mas foi tarde demais.

Uma forte onde lhe arrancou o lema e o pequeno O. K. bateu forte em uma pedra e começou a afundar. Com o impacto Michel Formosa foi jogado para fora do veleiro e só não morreu por um impacto contra as rochas porque, de alguma forma, foi levado para um ponto no meio das pedras onde pode se agarrar e sobreviver sem maiores problemas. Ele saiu da água em meio a uma forte escuridão, muito frio e percebeu que estava nu.

MF (8) - Copia
O fim do O.K. nas pedras de São Pedro e São Paulo.

Horas depois a chuva e o vento amainaram e o sol começou a despontar no horizonte trazendo luz e calor. Logo começou a compreender a natureza hostil dos Rochedos de São Pedro e São Paulo, onde água doce só era encontrada em pequenas frestas. Havia muitos pássaros e seus ovos, mas isso não daria para muita coisa.

Conforme o sol foi subindo no horizonte ele conseguiu divisar através das águas muito transparentes, a cerca de 10 metros de profundidade, o casco do O. K. e achou que valia a pena mergulhar para trazer coisas que pudessem lhe ajudar a sobreviver. Conseguiu chegar ao casco, mas logo percebeu a presença de tubarões rondando a área e se assustou.

Na superfície começou a explorar a maior das ilhotas, denominada Belmonte em honra ao navio da Marinha do Brasil que trouxe os construtores do pequeno farol em 1930.

MF (3) - Copia
Michel Formosa com marcas no rosto das bicadas dos pássaros dos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Luta pela sobrevivência.

Encontrou alguma madeira podre e um interessante pedaço grosso de espelho do agora inútil farol, que se estivesse em funcionamento teria evitado em todo o problema que agora vivia. Refletindo raios do sol conseguiu fazer uma fogueira e assou algumas aves marinhas que capturou em meio a uma luta que lhe deixaram feias marcas no rosto. Comeu também alguns ovos destas aves e esta foi sua única alimentação.

Quatro dias depois de chegar aquele esquecido local, viu surgir no horizonte um grande navio de passageiros. Com o coração aos pulos foi atrás do espelho do velho farol e ficou refletindo a luz do sol em direção ao navio, que foi passando, passando, diminuindo de tamanho, até que sumiu. Nessa hora, já debilitado pela falta de alimentação adequada e do medo de morrer a míngua naquele fim de mundo, Formosa se desesperou.

MF (21) - Copia

O que ele não sabia era que seu esforço de visualização obteve êxito e sua presença nos rochedos desencadeou várias mensagens telegráficas que culminaram na chegada do Conte Grande e no seu salvamento.

No Rio e na Delegacia do Caçador de Comunistas

Depois de se recuperar, ser barbeado, ter o cabelo cortado, Michel Formosa foi contemplado com muito apoio e atenção a bordo do transatlântico italiano.

MF (14) - Copia

Ele recebeu roupas, cigarros e já passou a dar entrevistas a alguns jornalistas que estavam a bordo e retornavam da Europa. Como todo bon vivant europeu que se prezasse naquela época, Formosa passou a curtir o momento plenamente. Por conta da empresa de navegação passou a tomar uns drinkzinhos no restaurante do navio, conversou com meio mundo de pessoas que estavam a bordo narrando sua epopeia e dizendo que o objetivo de sua viagem solitária era “dar a volta ao mundo”, com ideias de chegar até no Japão. Apareceu sorridente em fotos, com um cigarro pendurado no canto da boca, em uma imagem típica de ator canastrão francês.

MF (1) - Copia

Logo, no dia 4 de abril, surgiu diante do Conte Grande a figura emblemática do Pão de Açúcar e a bela Baía da Guanabara.

Após o navio ancorar, já previamente avisados, subiram a bordo dois agentes da Polícia Marítima e Michel Formosa saiu escoltado para o conhecido Palácio da Polícia, na Rua da Relação, no centro da cidade. Ali ficava a sede da 2ª Delegacia Auxiliar, sob o comando do Dr. Linneu Chagas d’Almeida Cotta, muito conhecido por participar das investigações que culminaram na prisão de vários envolvidos na conhecida Intentona Comunista de 1935. Entre estes detidos figuravam os alemães Henry Berger e Olga Benário, além do então estudante baiano Carlos Marighella, este último detido em maio de 1936.

f

O estrangeiro Formosa não estava entendendo nada sobre a razão de está ali. Na sua mente, sem deixar de ter certa lógica, ele era um ex-náufrago, que havia perdido tudo que tinha nos Rochedos de São Pedro e São Paulo e não poderia resolver aqueles problemas burocráticos apresentando o que não tinha.

MF (11) - Copia
Michel Formose, já não tão sorridente, prestado declarações.

Para piorar a situação, certamente irritado com tudo aquilo, o inglês primeiramente se negou a responder qualquer coisa sobre si mesmo, falando apenas “No Entiendo” aos questionamentos feitos. Depois, sem saber o tamanho do perigo em que estava se metendo, partiu para responder com certa dose de ironia as perguntas do Dr. Linneu Cotta.

MF (19) - Copia
Michel Formosa entre policiais.

Um jornalista narrou que a muito custo o estrangeiro comentou que era inglês e o delegado, depois de participar das investigações contra Henry Berger e Olga Benário, estava considerando tudo que Formosa dizia como sendo mentira, já o enquadrando como “extremamente suspeito” de ser comunista e ele acabou preso.

Ao ser informado da situação do ex-náufrago, a Embaixada Britânica no Rio, que na época ficava na praça XV de novembro, através do Vice Consul Noel Cameron Robinson, tratou de enviar com extrema urgência um telegrama para a legação britânica em Bathurst e saber a real situação de Michel Formosa.

MF (4) - Copia
O ex-náufrago em liberdade.

Mesmo em uma época de comunicações limitadas, para sorte do súdito britânico preso, Bathurst confirmou no mesmo dia que o navegador solitário havia estado lá em 2 de fevereiro e que a sua situação era legal.

Sabedores do extremo perigo que o imprudente súdito de sua majestade corria se fosse acusado oficialmente de ser comunista no Brasil, os diplomatas britânicos prontamente entregaram um documento oficial sobre a situação do preso ao delegado Cotta, que soltou Formosa.

O Destino do “Vagabundo do Mar” na Guerra

Após sair do xilindró o navegador solitário inglês ainda foi notícia dos jornais cariocas por algum tempo, principalmente em “A Noite”. Inclusive durante semanas este periódico publicou uma serie de quadrinhos, produzidas pelo renomado cartunista Carlos Arthur Thiré, trazendo as aventuras de Michel Formosa.

MF (5) - Copia

Comentou-se que através da “Editora S.A. A Noite” seria publicado o livro “O Vagabundo do Mar”, onde Formosa narraria sua epopeia marítima.

Notícias posteriores sobre Michel Formosa, que muitos periódicos afirmaram se chamar Michel Formose, comentou que através da ajuda do pessoal da equipe de remo do Fluminense Football Club seria conseguido um barco para ele continuar sua viagem. Mas parece que tudo ficou só nas promessas, pois as notícias sobre Michel Formosa desapareceram dos jornais cariocas.

Certamente a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro de 1939, mudou tudo na vida deste homem. Em algum momento ele retornou a Europa, onde embarcou a serviço em navios de carga e em um deles, pouco mais de dois anos depois de sua aventura nos Rochedos de São Pedro e São Paulo, encontrou a morte.

KINGSTON HILL PRIMROSE HILL
S.S. Kingston Hill

No dia 8 de junho de 1941 o S.S. Kingston Hill seguia solitariamente no Oceano Atlântico. Com quase 130 metros de comprimento era um navio novo, lançado no mar pelo estaleiro escocês William Hamilton & Co. apenas seis meses antes. Transportava naquela viagem 8.300 toneladas de carvão e 400 toneladas de carga geral e pouco depois de uma da manhã este navio foi atingido por dois torpedos vindos do submarino alemão U-38.

u-38
O U-38 preparando-se para partir.

Esta nave de guerra era comandada pelo Korvettenkapitän (capitão de corveta) Heinrich Liebe, um dos quinze melhores comandantes de submarinos alemães, com um total de 34 navios afundados e um danificado durante seu tempo como comandante. Apenas para efeito de comparação em toda Segunda Guerra o Brasil teve 35 navios afundados e danificados por submarinos nazifascistas.

Kingston Hill
Placa com os nomes dos mortos do navio Kingston Hill.

O Kingston Hill levou quase uma hora e meia para afundar, onde catorze membros da tripulação morreram e 48 sobreviveram. Entre os mortos constavam o capitão do barco e os bombeiros de bordo Daniel Taylor e Michel Formosa, que lutaram arduamente para tentar extinguir o fogo e salvar a nave. O nome de Michel Formosa consta em uma placa de bronze no memorial de Tower Hill, em Londres, junto com outros treze companheiros do seu barco que tiveram o mar como túmulo.

Ironicamente este ataque ocorreu a cerca de 520 milhas náuticas ao norte dos Rochedos de São Pedro e São Paulo.

NOSSA NOVA ENTREVISTA SOBRE A SEGUNDA GUERRA EM NATAL

20170409_160853

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Recentemente eu tive a grata oportunidade de conceder uma entrevista a revista BZZZ (número 45, edição de março de 2017) sobre minhas opiniões a cerca De certos aspectos da história de Natal durante a Segunda Guerra Mundial.

Foi uma entrevista muito boa, muito positiva, conduzida pelo competente jornalista Rafael Barbosa, que para os esquecidos de plantão é o coautor, junto com o também jornalista Paulo Nascimento, do livro “Valdetário Carneiro: A essência da bala”. Trabalho que considero muito bom e informativo sobre os aspectos da violência recente no Rio Grande do Norte.

20170409_160910

Eu já era fã do Rafael e isso só ajudou muito o nosso contato. Basicamente nessa nova entrevista da BZZZ o Rafael procurou trazer para o leitor o que ficou deste contato entre os potiguares e os militares dos Estados Unidos que aqui estiveram.

Expressões novas, alterações no modo de falar do pessoal local, novos gestos introduzidos por este contato e muito mais. Quem também foi entrevistada foi a professora Flavia de Sá Pedreira, da UFRN, que deu um verdadeiro show de informações sobre o tema.  

Minha participação foi mais limitada, mas nem por isso deixei de gostar do resultado final. Valeu mesmo grande Rafael.

20170409_160824
Capa da revista BZZZ número 45, edição de março de 2017.

OS RASTEJADORES DO SERTÃO – PROFISSÃO DE CORAGEM E DE RISCO

I0011449-26(01208x01745)

Odiados e Respeitados, os Rastejadores Sertanejos Marcaram a História do Nordeste Desde a Época dos Escravos, Passando Pelos Cangaceiro e até na Morte do Pistoleiro Floro Gomes Novais

Rostand Medeiros – Escritor e Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Em poucas ocasiões no sertão do Nordeste eles foram ovacionados e na maioria das vezes intensamente odiados. Mas sempre foram muito respeitados pelo que sabiam fazer!

Para muitos estes homens nada mais eram do que uma sórdida escória, uma ralé, que pontuou de forma nefasta a História do sertão nordestino. Eles eram comparados a cães, que só serviam para caçar os que perturbavam a doce tranquilidade senhorial dos seus poderosos donos. Mas também poderiam está realizando seus serviços para o outro lado dessa moeda sangrenta.

I0011449-26(01208x01745) - Copia

Quando não estavam percorrendo as trilhas sertanejas em alguma missão, geralmente os rastejadores não recebiam por parte dos poderosos, do governo e de seus policiais a atenção merecida. Além de bem poucas benesses pecuniárias que lhes eram creditadas, ou de algum butim aferido quando abatiam um criminoso, pouco lhes era dado. Entretanto quando o serviço surgia, aqueles homens analfabetos, que nunca realizaram algum tipo de treinamento formal, eram extremamente requisitados e respeitados pelas suas capacidades no ambiente natural e de mostrarem aos “homens da lei” os caminhos para capturar aqueles que perturbavam a ordem vigente.

Os rastejadores do sertão não eram adivinhos e nem mágicos, porém, sertanejos com conhecimentos privilegiados. Se uma missão lhes era dada, procuravam com invulgar intensidade a sua “caça”. Inconscientes de suas capacidades técnicas atribuíam o próprio sucesso a algo sobrenatural, “coisa do outro mundo”. Dizia-se que os rastejadores sertanejos eram tão dedicados ao que faziam que “enquanto vivos” iriam procurar o seu alvo e recuperar o que havia sido levado. Fosse honra ou ouro!

imagem (35)
O famoso comandante de volantes Zé Rufino e a sua esquerda o rastejador conhecido como Juriti – Fonte – Coleção do autor

Para os que viviam à margem da lei naquele sertão arcaico, estes caçadores de bichos e de homens eram aqueles que prioritariamente deveriam ser abatidos. Se possível da forma mais cruel e sangrenta existente e imaginável.

Trabalho Atencioso

A classe dos rastejadores do sertão sempre foi formado por um grupo de pessoas provenientes dos extratos mais simples da sociedade brasileira, isso desde os tempos da Colônia, do Império e chegando até a República.

É quase certo que os primeiros rastejadores foram indígenas, os grandes conhecedores da natureza, grandes caçadores de animais e a mata não lhes tinha segredo. Quando aculturados, normalmente utilizavam suas técnicas especiais para capturar sua própria gente.

colerico1
Retirada da Laguna – Fonte – http://datasefatoshistoricos.blogspot.com.br/search?q=retirada+da+laguna&x=11&y=13

Na História do Brasil, durante a Guerra do Paraguai, no terrível episódio da Retirada da Laguna, ficou famoso o trabalho do Guia Lopes e do seu filho. Quem lê o clássico A Retirada da Laguna, de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, primeiro e único visconde de Taunay, percebe a atenção que este nobre militar deu a estes homens simples, que possuíam muito mais conhecimento da região onde se deu os episódios da retirada, do que os estrategistas do Exército Brasileiro. Em junho de 1868, com a ajuda dos Lopes, um efetivo com cerca de 700 homens, de um grupo original de 3.000, retornaram alquebrados pela doença e pela fome às linhas brasileiras em Coxim.

Os rastejadores do sertão não tinham letras, mas eram Mestres da natureza sertaneja, donos de uma capacidade invulgar, onde o mínimo graveto quebrado, ou uma pequena pedra deslocada por uma leve pisada, poderia apresentar a estes homens o caminho percorrido por toda sorte de gente considerada malfeitores.

desconhecido
Fonte – chickenorpasta.com.br

Normalmente era uma figura que realizava seu trabalho sozinho e que seguia por caminhos ermos e difíceis. Na hora de sua estranha labuta andava sempre meio curvado pelas veredas e no meio do mato, como que procurando algo no chão. Seus passos eram leves, macios, silenciosos. Em algumas ocasiões era seguido por outros, que estavam ali para ajudar no seu objetivo, mas que nada entendiam de sua odiada e, ao mesmo tempo, respeitada função.

Todos os sentidos de seu magro corpo, queimado pelo sol ardente do sertão funcionavam como verdadeiras antenas que captavam qualquer coisa que fosse estranha em relação à indolente natureza a sua volta. Caçavam vestígios. Procuravam quaisquer alterações na ressequida ecologia que o cercava. Ao se debruçarem sobre um rastro davam notícia se era novo, ou velho, de dias, e de quantos dias.

Vaqueiros - OpenBrasil.org
Foto: Carla Belke Paisagens do Seridó – OpenBrasil.org

Tinham os olhos quase sempre cerrados, com se estivesse mirando um alvo que só eles sabiam onde estava e vendo coisas que ninguém via e nem percebia. Quase nunca falavam e se assim fazia era baixinho, quase sussurrando. Os ouvidos estavam sempre atentos para o mínimo ruído, perscrutando tudo a sua volta e qualquer som estranho era devidamente analisado em átimos de segundos. Queria encontrar algum pequeno indício da passagem do mais violento de todos os seres viventes que andava na terra criada por Deus – O Homem!

Chico Sapateiro e o Escravo Assassino

No período da escravatura no Brasil não faltou trabalho para esses homens, que atuavam juntos aos capitães do mato na caça aos negros escravos fujões, ou quando estes cometiam algum crime.

O cearense Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso, o conhecido Gustavo Barroso, que assinava seus textos sobre a região Nordeste e os nordestinos com o pseudônimo de João do Norte, transcreveu na revista carioca Fon-Fon, em setembro de 1937, um texto sobre um trágico episódio ocorrido quase cem anos antes na cidade cearense de Sobral e que envolveu um afamado rastejador sertanejo[1].

SOBRAL ANTIGA
Foto da antiga Praça da Sé, Sobral, Ceará – Foto Joscel Vasconcel

Em 2 de maio de 1841, por volta das dez horas da noite, o negociante Joaquim Francisco do Rego foi assassinado pelo seu escravo Sebastião, que lhe desfechou certeiramente uma forte facada no estômago, que deixou a vítima com um mortal ferimento de polegada e meia de comprimento.

Joaquim era homem de posses em Sobral, sendo conhecido como “doutor Rego” por ter cursado até o terceiro ano da Academia de Direito em Pernambuco, seu estado natal.

Evidentemente que um crime como esse era algo inadmissível naquela sociedade escravocrata e mereceu intensa atenção das autoridades. O juiz de paz Miguel Francisco do Monte convocou Luciano e Sabino, dois respeitados capitães do mato da região para empreitada de caça ao escravo Sebastião. Já um compadre e conterrâneo do falecido, o major Manuel Francisco de Moraes, aparentemente pagou uma certa quantia para que o célebre rastejador Chico Sapateiro apoiasse com a sua capacidade de homem do mato os afamados “homens da lei”. Talvez o rastejador Chico Sapateiro fosse assim conhecido não por produzir calçados, mas por caminhar bem de leve e silenciosamente pelas trilhas.

14f3
A busca de escravos fugitivos foi um grande negócio para os rastejadores no período da escravatura no Brasil.

O major Manuel queria se garantir no serviço, reforçando o aparato que buscava o assassino de seu amigo.

O texto narra que os três homens ganharam os matos muito bem armados, certamente de punhais e armas de fogo de alma lisa. Palmilharam a região durante quatro dias até encontrarem Sebastião escondido na Lagoa das Pedras, perto do Riacho das Itans, e trouxeram o fugitivo amarrado.

Durante o interrogatório Sebastião afirmou que roubou um pouco de aguardente da dispensa de “doutor Rego” e estava bêbado quando esfaqueou e matou seu dono. E tudo ocorreu por medo de ser castigado em razão do seu delito, fato que ocorrera outras vezes. O escravo Sebastião foi condenado a forca e sua execução deveria ocorrer ás nove da manhã do dia 16 de junho do mesmo ano.

imagem_materia
Na execução, algoz subia nos ombros do condenado para acelerar morte. Parece que faltou alguém para fazer no escravo Sebastião isso que a ilustração apresenta.

No dia marcado o condenado saiu da cadeia de cabeça erguida, sendo assistido pelo Reverendíssimo Padre Antônio da Silva Fialho, com escolta de doze guardas nacionais formando alas e comandados por um tenente. Um oficial apregoava pelas ruas de Sobral o delito de Sebastião, sendo acompanhado pelo juiz de paz que seguia a cavalo.

Tudo ocorreu como mandava o figurino da época, mas em certo momento aconteceu uma situação um tanto estranha.

Começou que o carrasco, um outro condenado, não conseguiu executar a pena de tanto chorar e foi o próprio Sebastião, sem nenhuma demonstração de medo, que colocou a corda no pescoço e saltou do patíbulo. O problema foi que ele ficou “algumas horas” se contorcendo pendurado pelo pescoço, até morrer de uma asfixia agoniante.

Nunca mais aconteceu outra execução pública e oficial em Sobral.

O Primeiro Tiro Foi Para o Rastejador

No tempo que os cangaceiros percorriam as veredas das caatingas sertanejas, o rastejador era na maioria das vezes a figura mais importante de uma tropa policial volante e foi contra esses bandidos encourados que os rastejadores fizeram sua fama.

A SILVINO
Antônio Silvino

Não é a toa que os cangaceiros tinham extremado ódio aos rastejadores, que muitas vezes serviram de guias para as forças governamentais que combatiam os celerados nas caatingas. E eram para estes que os cangaceiros dirigiam as primeiras balas no meio de uma peleja.

Em 1910 o pernambucano Antônio Silvino, o conhecido “Rifle de Ouro”, atemorizava os sertões de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. No final de maio daquele ano o famoso chefe de bando seguia com seus cangaceiros pelo interior da Paraíba, na região da cidade de Taperoá, quando soube que em sua perseguição vinha o oficial de polícia Antônio Maurício Pereira de Mello e sua tropa volante[2].

Xilogravura de Antonio Silvino
Xilogravura com a figura de Antônio Silvino

O pesquisador e escritor potiguar Sérgio Dantas comenta em seu livro Antônio Silvino, O Cangaceiro, O Homem, O Mito, que o afamado chefe tinha nutrido ódio a este oficial, tido e havido como valente, cruel e perigoso.

E era para ter cuidado mesmo!

Em 25 de maio, após Maurício receber a notícia que os cangaceiros iriam invadir a pequena urbe de Taperoá, seguiu a caça de Silvino e seus cangaceiros com dezoito homens armados, sendo dois deles, Vicente Pedro Miguel e José do Couto, afamados rastejadores sertanejos. Maurício aparentemente partiu com muita confiança e bem armado, tendo até mesmo em seu poder um artefato explosivo, que seria uma granada militar, ou uma bomba de dinamite. Esperava sem dúvida vencer Antônio Silvino. Mas a notícia da invasão era na verdade uma isca que o cangaceiro espalhou na região, com a ideia de Maurício e sua volante partirem ao seu encalço e caírem em uma emboscada.

82683834
Cidade de Santo André na atualidade – Foto – Thiago Reis da Silva

Os policiais percorreram vários quilômetros até a pequena povoação de Santo André, onde compararam mantimentos e receberam a informação que os cangaceiros se encontravam em uma fazenda dois quilômetros adiante. Enquanto os homens da lei seguiam para o campo de luta, Silvino e seus homens armaram uma emboscada no local denominado Lagoa de Pedras, entre as povoações de Santo André e Timbaúba do Gurjão.

Mas, talvez por excesso de confiança, o oficial dividiu equivocadamente sua tropa, ficando apenas com mais cinco militares e o rastejador Vicente Pedro Miguel[3].

silvino

Em meio às caminhadas e a busca pelos rastros dos bandidos, Maurício e seus homens, mesmo com pouca água e alimentos, pernoitarem embaixo de um umbuzeiro e só retomaram a pista dos cangaceiros nos primeiros raios de sol do dia 26.

O rastejador, segundo reportagem publicada no Jornal Pequeno, seguia a frente de Maurício, do cabo Manoel Albido (ou Albino) e dos soldados Pedro Salustiano, Antônio Beduíno, Manoel Pereira e Antonio José d’Andrade. Enquanto isso, em meio a um local com pedras soltas e paredões transversais, Silvino espalhou seus homens e calmamente aguardou a volante. Quando a tropa ficou na alça de mira dos cangaceiros, foi o rastejador Vicente o primeiro que recebeu um balaço que atravessou sua cabeça. Em meio à fuzilaria na Lagoa de Pedras, o oficial Mauricio ainda tentou incitar a tropa, mas também acabou varado com um tiro na cabeça disparado por Antônio Silvino. A ação de emboscada dos bandidos foi de tal maneira bem feita e executada, que o oficial nem conseguiu lançar seu propalado artefato explosivo contra os inimigos.

I0011920-3Alt=004678Lar=003418LargOri=004558AltOri=006237 - Copia

Após a balaceira, que no entender do cangaceiro Cobra Verde foi “fogo grande”, o chefe do bando decidiu deixar um recado bem dado aos seus perseguidores. Munido de uma pesada pedra espatifou a cabeça do comandante da volante, cortou sua carótida e deixou várias perfurações de punhal em seu corpo.

Apesar das informações contidas sobre o episódio no ótimo livro de Sérgio Dantas e no texto do Jornal Pequeno nada comentarem, eu acredito que o corpo do rastejador Vicente deve ter recebido as mesmas “honrarias cangaceiras” prestadas ao oficial Maurício[4].

Lampião Sofre no Piancó com o rastejador João Montenegro

Seguindo por trilhas, “assuntando” o terreno com simples toques de seus dedos em seixos e cascalhos, apontando com segurança a um comandante de volante por onde seguiram os bandoleiros, muitas vezes eram estes rastejadores que poderiam trazer grandes problemas para os cangaceiros, inclusive para o maior deles – Lampião.

112301702

Alguns marcaram época perseguindo Lampião, como, por exemplo, José Felix dos Santos, que serviu na volante do tenente Menezes, da polícia baiana, ou o pernambucano Antônio Cassiano, comentados por Ranulfo Prata em seu livro Lampião[5].

Em julho de 1927, praticamente um mês após o fracassado ataque de Lampião a Mossoró, quando ele e seus homens aterrorizaram o Rio Grande do Norte, ele se encontrava em franca debandada, bastante acossado pelos policiais e com o bando reduzido de 80 e poucos cangaceiros para algo em torno de 30 homens.  Além dos combates que teve de travar após Mossoró, dos prejuízos financeiros, das traições, Lampião perdeu homens do quilate de um Sabino, de um Jararaca e muitos outros cangaceiros desertaram de suas fileiras. Tentando recompor o bando e lamber as feridas de suas derrotas, Lampião buscou refúgio na região onde as fronteiras da Paraíba, Pernambuco e Ceará se encontram e daí chegar no seu Pajeú natal. 

Na noite quase enluarada de 12 de julho, uma terça feira, o chefe vem à frente de um grupo composto que para alguns seria de 32, e para outros de 24 cangaceiros. Vinham todos montados em alimárias e chegaram ao sul da zona rural da cidade de Conceição de Piancó, mais precisamente na localidade de Santa Inês. No seu trajeto haviam passado nas proximidades da Serra da Pintada.

I0004477-3Alt=005620Lar=003764LargOri=005019AltOri=007493 - Copia

Não sabemos se houve alterações no povoado, mas aparentemente nada de errado aconteceu, pois a notícia corrente foi que o bando seguiu com suas montarias para se arrancharem ás margens de um riacho, que nas épocas de chuva formava uma corredeira conhecida como Cachoeira do Inferno. Os cangaceiros descansavam da verdadeira peregrinação para tentar chegar até o apoio de bons coiteiros[6].

Mas naqueles dias o que menos o grande chefe cangaceiro teria era tranquilidade!

Não sabemos se era por vingança, ou somente por dever de ofício, mas os jornais da época relatam que o rastejador João Montenegro foi quem levou José Leite, o delegado de Conceição do Piancó, o sargento Themistocles, da polícia paraibana, e Raimundo Quintino, o subdelegado da cidade, até a Cachoeira do Inferno. Além destes foi formado um grupo com cerca de 50 homens armados da região de Conceição para dá combate a Lampião e seus cangaceiros[7].

I0034160-3Alt=005413Lar=003714LargOri=004952AltOri=007217

O grupo partiu da cidade do extremo oeste da Paraíba por volta do meio dia de 13 de julho, percorrendo os 24 quilômetros até a região da Cachoeira do Inferno. Certamente seguiram com muito cuidado, atentos e nervosos com o que poderia acontecer. Por volta do meio da tarde os homens de Conceição chegaram no rancho dos cangaceiros e a bala comeu!

Sérgio Dantas aponta no seu livro Lampião no Rio Grande do Norte – A História da Grande Jornada que o grupo combateu os invasores com rara coragem. E deve ter sido mesmo, pois os cangaceiros fugiram deixando para trás todos os seus animais de montaria.  Mesmo entrincheirados os cangaceiros não aguentaram a força da investida. Depois de uma hora de renhido e feroz tiroteio, eles fugiram correndo no meio do mato. Fugiram para as Serras da Barrinha e do São Lourenço. Certamente a habilidade de João Montenegro também ajudou, pois colocou aquele grupo de homens valentes do Piancó em uma posição onde eles puderam surpreender os cangaceiros e atacar com sucesso[8].

I0030873-3Alt=005446Lar=003730LargOri=004974AltOri=007261 - Copia

No mesmo dia em Santa Inês, por volta das quatro da tarde, o grupo de paraibanos se encontrou com a volante do sargento José Alves, da polícia pernambucana. Os dois grupos uniram forças e subiram as serras em busca dos cangaceiros, mas eles conseguiram fugir[9].

Com o passar dos anos o Cangaço acabou. Com a evolução tecnológica, a melhoria das estradas e dos veículos de  transporte, das armas de fogo e do uso das comunicações via rádio no combate contra a criminalidade, muitos membros das forças policiais nordestinas deixaram de buscar os tradicionais saberes dos afamados rastejadores sertanejos para caçarem toda sorte de gente ruim.

Os Últimos Rastejadores – O Caso Floro Gomes Novais

Mas houve um caso em especial, ocorrido em 24 de fevereiro de 1971 , onde as forças policiais voltaram a utilizar os poucos rastejadores sertanejos ainda na ativa. O caso em questão foi a morte do mais famoso pistoleiro do Nordeste na época – Floro Gomes Novais.

20170317_172206

Este era para muitos dos seus aliados era um justiceiro, que só matava por vingança. Já para os inimigos era um cruel e frio pistoleiro de aluguel, com mais de 120 mortes nas costas.

Floro nasceu em 15 de janeiro de 1931, no distrito de Prata, em Garanhuns e sua vida de crimes realmente começou após o assassinato de seu pai, o marchante Ulisses Gomes Novais, ocorrida em 4 de dezembro de 1951, em uma emboscada no lugar Capelinha, em Santana do Ipanema, município vizinho a Olivença, Alagoas.

Enéas Vieira era o líder político de Olivença e desejava comandar a política no lugar onde Floro morava com sua família e isso levou a uma desavença com seu pai e um outro amigo da família chamado Manoel Roberto. Logo seu pai e Roberto foram assassinados. Para evitar morrer Floro foi para São Paulo, mas prometeu voltar.

20170317_222532
Floro Novais atirava muito bem e utilizava pequenos alvos, no caso da foto com uma lagartixa, para treinar sua destreza com um 38.

Não demorou muito o jovem retornou e foi logo matando dois dos assassinos de seu pai. Um deles – João José – morreu na bodega de seu primo Bida, em Capelinha. Em 1957 foi tocaiado por três pistoleiros e matou todos eles. Um dos atingidos por Floro, antes de morrer, confessou que o grupo havia sido contratado por Enéas Vieira. Floro chegou mesmo a atacar Enéas Vieira em uma feira, atingindo-o com um tiro e só não o retalhou a peixeradas pela intervenção do padre do lugar. Em outra ocasião emboscou Enéas e um irmão (alguns apontam que era um sobrinho) em uma estrada, mas errou o acusado de ser o mandante da morte de seu pai e matou seu parente que o acompanhava. Contudo foi seu irmão Antônio, o caçula da família, que em setembro de 1970 matou sozinho Enéas Vieira diante de uma barbearia em Olivença.

Mas na quarta feira de cinzas de 1971, Floro foi assassinado a tiros nas caatingas da sua fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco. Sabia-se que ele tinha sido convidado para uma caçada, mas a caça foi ele!

20170317_172413
Casa sede da fazenda Mamoeiro, em Itaíba, sertão de Pernambuco.

Ocorre que a morte de Floro causou extrema repercussão em Pernambuco e um delegado especial foi designado, era o Dr. Severino Torres Galindo. Em meio às investigações para a prisão dos assassinos de Floro, as polícias civis e militares de Pernambuco e Alagoas, em conjunto com vinte agentes da Polícia Federal sob o comando do inspetor David Sales, realizaram uma verdadeira “varredura no terreno” em busca de pistoleiros implicados em vários outros processos.

Muitas fazendas das zonas rurais de Itaíba, Águas Belas (Pernambuco), Santana do Ipanema e Jacaré dos Homens (Alagoas) foram extensivamente vasculhadas. Muitas destas fazendas eram verdadeiros “covis de pistoleiros” e os acessos a estes locais um inferno. Mas deu resultado positivo, com a prisão de trinta e tantos matadores de aluguel e seus coiteiros.

20170317_202155
Policiais civis, militares e federais, com o apoio de rastejadores, na caça aos assassinos de Floro Gomes Novais em 1971 no sertão de Pernambuco.

Setores da imprensa divulgaram, de maneira bem discreta, que os policiais estaduais e federais utilizaram os serviços de alguns dos velhos rastejadores pernambucanos. Mesmo com toda discrição, aparentemente o uso destes rastejadores chegou a imprensa do sul do país. Em dezembro de 1971 a extinta Revista Realidade publicou uma interessante reportagem produzida pelo jornalista José Leal da Silva, com fotografias do francês Jean Solari, onde trouxe a baila as histórias das pessoas que perseguiam bandidos com métodos bem peculiares e pitorescos. 

20170317_171751

Entre esses rastejadores se encontravam Serra Azul. Este era um octogenário índio da tribo Fulniô, que contou ter perseguido Lampião e quase foi morto pelo chefe cangaceiro, mas que um dia chegou a um acordo com ele e selaram a paz. Disse que era rastejador, mas também “tinha sido soldado, cangaceiro e criminoso”. Morava na aldeia Fulniô perto da cidade de Águas Belas, Pernambuco, e para conseguir pegar os fugitivos sempre rezava para Edjaú, a entidade máxima da religião de sua tribo.

20170317_221932

Outro rastejador famoso entrevistado foi José Gomes dos Santos, o João Bolandeira. Este era um orgulhoso pai de 27 filhos que “vingaram” (ou que sobreviveram a seca e a fome) e em 1971 morava em uma casa de chão batido no lugar Riacho das Lajes, também em Pernambuco. Bolandeira tinha fama de ter capturado mais de cem assassinos e ladrões. Entre seus métodos infalíveis para capturar os meliantes estava o de rezar para as almas do outro mundo em busca de orientação. Se o “causo” era complicado ele acendia sete velas, em sete encruzilhadas diferentes, sempre da última para primeira. E quando a situação era periclitante mesmo, pedia ajuda externa. João Bolandeira recorria então a amiga Liquinha, ou madrinha Lica, uma rezadeira de Garanhuns que considerada infalível e vivia em uma humilde casa nesta bela cidade serrana pernambucana.

20170317_202551

Outro dos famosos foi Manuel Matias, o conhecido Tôta. Este só seguia o rastro dos “cabras de peia” depois de limpar o corpo com um banho que incluía na sua composição água de colônia e alecrim. Além disso fazia a assepsia em um quarto com incenso e terminava o ritual vestindo roupas bem limpas. Dizia que tinha ao seu lado um guia de luz, do qual nunca declinou o nome e que o protegia durante o rastejo. O certo é que ele foi responsável pela prisão de muitos pistoleiros, entre estes o perigosíssimo Antônio do Algodão, que juntamente com seu filho Luís Marco, verdadeiramente tocaram o terror nas caatingas entre a Paraíba e Pernambuco. Pai e filho pistoleiros tinha assassinado o vaqueiro Manuel Mariano, no lugar Serra Queimada, perto do município de Iati, Pernambuco. O fato se deu no cabaré de Zé Cazuza e ocorreu apenas pelo fato do vaqueiro está bebendo em uma mesa junto a Luísa, mulher que o pistoleiro Antônio do Algodão considerava sua propriedade. Injuriado com uma morte tão covarde Tôta se armou de um Papo amarelo 44, rezou muito e foi à caça dos dois assassinos. E não deu outra, Tôta prendeu os dois e os levou para a delegacia do povoado de Santo Antônio do Tará, perto da cidade de Pedra, no Agreste Pernambucano.

20170317_222653

A reportagem de 1971 mostravam homens que pareciam deslocados do tempo, exercendo um ofício que parecia mais não se encaixar nos tempos modernos.

Sobre os rastejadores do sertão se criaram ideias fáceis e praticamente fixas sobre seu modo de ser e de viver. Pelo seu trabalho e sua condição de vida estes homens foram geralmente desprezados ao longo de décadas pelos estudiosos do sertão nordestino. Estes não perceberam que ao redor destas figuras existia um intenso manancial de impressionantes informações sobre a natureza, sobre a gente, a religiosidade e a História desta peculiar região do Brasil.

P.S. – Gostaria de esclarecer que as informações sobre o pistoleiro Floro Gomes Novais me foram transmitidas por pessoas da região do Pajeú, em Pernambuco.


NOTAS

[1] Ver Revista Fon-Fon, Rio de Janeiro-RJ, edição de 18 de setembro de 1937, pág. 36. O líder integralista e notório antissemita Gustavo Barroso copiou este texto, sem dar nenhum crédito, de um texto produzido pelo magistrado, jornalista, historiador e político Paulino Nogueira Borges da Fonseca. Intitulado “Execuções de pena de morte no Ceará”, foi publicado na Revista Trimestral do Instituto do Ceará, ano VIII, Tomo VIII, 1º e 2º trimestres de 1894. Apesar do tema ser pesado e difícil, o texto de Paulino Nogueira possui uma narrativa ágil e interessante, onde o autor, em mais de 150 páginas, enumera as execuções oficiais ocorridas no Ceará desde 1632. Diante de uma verdadeira praga de criminalidade que vivemos nos dias atuais o texto mostra que em um país chamado Brasil a pena de morte seria algo sem a mínima condição de funcionar corretamente.

[2] Com relação a história do munícipio paraibano de Taperoá, em 1873, por lei provincial nº 475, de 06 de outubro, a localidade de Batalhão foi elevada a categoria de Distrito de Paz. Já Herculano de Souza Bandeira, Presidente da Província da Parayba do Norte, através da Lei nº 829, de 06 de outubro de 1886, elevou a povoação à categoria de vila. Em 1905, através de Lei Municipal, a comunidade teve a denominação mudada para Taperoá. Em 31 de dezembro de 1943, o decreto-lei estadual nº 520, oficializou a antiga denominação de Batalhão. Mas a comunidade se insurgiu e menos de dois anos depois, em 07 de janeiro de 1945, a lei estadual nº 318 restabeleceu o topônimo Taperoá. O termo nitidamente bélico para esta comunidade estaria ligado a uma grande peleja ocorrida entre os remanescentes dos índios cariris e os primeiros brancos que penetraram na região, ou a uma batalha travada em 1824 entre os republicanos da Confederação do Equador, que tentavam uma retirada para o Ceará, e as forças legalistas. http://www.taperoa.pb.gov.br/a_cidade/historia

[3] Atualmente as cidades paraibanas de Santo André e Gurjão.

[4] Ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 141 a 145. Ver igualmente Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de sábado, 18 de junho de 1910, página 2. Este periódico recifense reproduziu a matéria publicada em 12 de junho daquele ano no jornal 15 de Novembro, de Campina Grande, Paraíba. Em um texto muito detalhista, é nítida a ideia de enaltecer o falecido oficial Maurício, mas percebe-se sem maiores problemas o seu grave erro ao dividir a tropa e a grande capacidade de combate de Antônio Silvino e seus homens.

[5] Ver Prata, Ranulfo. Lampião. São Paulo: Editora Traço, 1985, pág. 151.

[6] A cidade paraibana de Conceição de Piancó, atualmente é apenas conhecida como Conceição e se encontra na área da Região do Vale do Piancó e fica a 482 quilômetros da capital João Pessoa. Existe atualmente ao sul de Conceição o município de Santa Inês, emancipado Pela lei estadual nº 5908, de 29 de abril de 1994.

[7] Raimundo Quintino era um homem valente e brigador. Em junho de 1926 ele havia entrado em combate contra o grupo de Sabino nas proximidades de Conceição do Piancó, que deixou fora de combate três cangaceiros, entre estes João Mariano. A volante de Raimundo conseguiu alguns troféus interessantes dos bandoleiros, entre estes consta um ferro de marcar com as letras “J J” e que teria pertencido ao cangaceiro José Juriti. Outro material que chamou atenção foi um punhal de três quinas, com 35 centímetros de comprimento na lâmina, que teria sido um presente do próprio Lampião ao seu companheiro Sabino. O grande punhal trazia oito marcas na lâmina, que teria sido creditado a oito “sangramentos” praticados pelo temível e violento Sabino. Um jornal carioca reproduziu um texto publicado pelo Jornal do Commercio, de Recife, sobre estes materiais, suas procedências e a quem eles haviam pertencido. Consta na nota que este material ficou em exposição na sede do periódico na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio, centro da capital pernambucana. Ver O Imparcial, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feira, 25 de agosto de 1926, pág. 5.

[8] Sobre a narrativa do combate ver DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada. Natal: Cartgrat Gráfica Editora, 2005. Págs. 323 e 345. E o jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro-RJ, edição de terça feira, 19 de julho de 1927, pág. 2.

[9] O sargento Alves telegrafou ao seu comandante, o então major Theophanes Torres Ferraz, dando ciência do ocorrido. Sobre o telegrama ver o jornal A Província, Recife-PE, edição de sexta feira, 15 de julho de 1927, pág. 1.

A ESPIONAGEM EM NATAL E PARNAMIRIM FIELD NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – O CASO DO ENGENHEIRO PERNAMBUCANO QUE TRABALHOU PARA OS NAZISTAS

I0019205-3Alt=005286Lar=003487LargOri=004649AltOri=007048 - Copia

Rostand Medeiros – Escritor e membro do IHGRN

Texto publicado originalmente no blog Papo de Cultura, do jornalista Sérgio Vilar – http://papocultura.com.br/nazista-em-natal/

Muitos hoje desconhecem a importância estratégica do Brasil durante o maior conflito bélico da humanidade. Além de grande fornecedor de matérias primas e materiais de alto valor estratégico o Brasil possuía alguns locais de extrema importância geográfica para uso da aviação e das forças navais, caso principalmente de Natal e Recife. 

Não é surpresa que antes mesmo da entrada do Brasil na conflagração, os nazistas já tinham olhos postos e muito atentos sobre o território nacional. Foi o Abwehr, uma organização de inteligência militar alemã que existiu entre 1920 a 1945, que cumpriu esta missão. O objetivo inicial da Abwehr era a defesa contra a espionagem estrangeira – um papel organizacional que mais tarde evoluiu consideravelmente, principalmente após a ascensão dos nazistas ao poder em 1933. Esta organização sempre esteve muito próxima ao Comando Supremo das Forças Armadas (Oberkommando der Wehrmacht – OKW) e do próprio Adolf Hitler, com seu quartel general em Berlim, adjacente aos escritórios do OKW.

Wilhelm Canaris [1887 - 1945], Deutscher Admiral, Chef der Spionageabwehr 1935-1944, Mitglied des Widerstands vom 20. Juli 1944, hingerichtet.
Wilhem Canaris
Quem comandou por nove anos a Abwehr  foi o vice-almirante Wilhem Franz Canaris. Considerado até os dias atuais como uma verdadeira lenda e um dos indivíduos mais interessantes e misteriosos da história da Segunda Guerra Mundial. Canaris nasceu em 1 de janeiro de 1887 em Aplerbek, Alemanha. Jovem ainda começou a carreira naval e tornou-se oficial da Marinha. Era considerado como um homem inteligente, dinâmico, que havia viajado muito e conhecia seis línguas, inclusive o português. Foi comandante de submarinos na Primeira Guerra Mundial e, apesar da rivalidade entre as duas nações, tinha grande respeito pela Marinha Real da Grã-Bretanha, a Royal Navy.

Sob a direção de Canaris a Abwehr  se tornou uma vasta organização de informações que incluía uma grande rede de espionagem em numerosos países estrangeiros, utilizando extensamente as missões diplomáticas alemãs. Essa rede foi primeiramente organizada em países que eram considerados os prováveis adversários da Alemanha do novo conflito que surgia no horizonte, principalmente a Grã-Bretanha. Depois a rede foi implantada em locais de forte significação estratégica no Hemisfério Ocidental.

Parnamirim Field
A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar do maior país da América do Sul ser considerado pela Alemanha nazista um país amigo do ponto de vista político, logo que a Guerra iniciou em 1939 o Abwehr  agiu para organizar um amplo serviço de informações em nosso país[1].

Suástica Sobre o Brasil

A espionagem alemã no Brasil esteve principalmente sob o comando de Albrecht Gustav Engels, um engenheiro que vivia no Brasil desde 1923, fugindo da crise que se abateu no seu país após a Primeira Guerra Mundial. Aqui Engels  trabalhou na empresa Siemens, na Companhia Siderúrgica Brasileira e depois foi gerente da Companhia Sul-americana de Eletricidade em Belo Horizonte, sucursal da empresa alemã Allgemeine-Elektrizitäts Gesellschaft (AEG), onde alcançaria cargo de direção na América do Sul. Casou com a alemã Klara Pickardt em 1927, onde nasceu seu único filho e três anos depois se mudou para o Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

I0016656-3Alt=005250Lar=004019LargOri=005359AltOri=007000 - Copia

Antes do início da guerra Engels foi com a família para três meses de férias a Alemanha e outros países europeus. Nesta viagem reencontrou em Gênova, cidade portuária italiana, um velho amigo chamado Jobst Raven, então capitão da Wehrmacht, o exército alemão, e que trabalhava na seção econômica do Abwehr. Deste contato Engels se tornou espião e passou a enviar inúmeros relatórios sobre a situação econômica, industrial e militar dos países sul-americanos e Estados Unidos. Com o início da Guerra este trabalho se ampliou bastante.

Engels (cujo codinome era “Alfredo”), com a colaboração de importantes membros da colônia alemã, que tinham cargos chaves em fortes empresas comerciais no país, começou a recrutar alemães natos, ou nascidos no Brasil, e estabeleceu se grupo de espionagem.

A organização de Engels não foi a única que operava no país, mas foi a maior e mais bem organizada. Esta rede de espionagem buscava informações variadas sobre o país, incluindo aspectos da política interna, sobre pontos estratégicos, a geografia litorânea e sobre a movimentação dos transportes. Para enviar suas informações a Abwehr sem serem descobertos os espiões germânicos em terras tupiniquins empregavam diversos recursos, tais como tinta invisível, pseudônimos, símbolos nos passaportes, códigos telegráficos, correspondência para endereços disfarçados, microfotografias e mensagens enviadas de estações de rádios clandestinas[2].

porto_santos_2_web
A movimentação nos portos brasileiros, como o de Santos (foto), eram alvos prioritários dos espiões nazistas no Brasil – Fonte – http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/historia/historia-da-mm/195-a-expansao-1941-a-1989

Os melhores relatórios dos espiões de Engels tinham foco em inteligência naval e questões relativas ao tráfego marítimo. As informações vinham de tripulantes e funcionários que trabalhavam em navios e escritórios de terra das companhias marítimas nos principais portos brasileiros e incluíam vitais informações estratégicas. Graças a estes relatórios, a Kriegsmarine, a Marinha alemã, pode planejar interceptações de uma enorme quantidade de navios mercantes aliados que partiam da América do Sul.

É verdade que uma parte do serviço de espionagem de Engels era formada por espiões que estavam ligados a uma organização com algum nível de estrutura e financiadas pelo Abwehr, mas também havia muitas pessoas comuns, que atuavam de forma amadora e independente, querendo de alguma maneira ajudar a pátria distante.

Imagem1
Foto de várias pessoas acusadas de espionagem nazista no Brasil e publicadas no jornal Diário Carioca, de 2 de março de 1943. Entre eles temos brasileiros natos e naturalizados e cidadãos alemães. Tipos comuns, distante da ideia dos espiões criada pelo cinema.

Apesar de problemas que existiram devido ao amadorismo de vários espiões e informantes, é fato que graças às comunicações das redes de Engels, os relatórios obtidos pelos agentes nazistas na Argentina, Estados Unidos, México, Equador e Chile foram enviados para a Alemanha através de estações de rádios clandestinas brasileiras. Esta extensa rede conseguiu durante algum tempo enganar muito bem os serviços de contraespionagem britânica e norte-americana. 

O Nordeste Como Alvo 

Entre os homens que Engels conhecia com perfil para trabalharem como espiões estava Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Este era um filho de alemães nascido no Brasil em 1901, na cidade paulista de Santos, que aos quatro anos von Heyer seguiu com a família para Alemanha e chegou a lutar na Frente Russa durante a Primeira Guerra Mundial. Deu baixa do serviço militar como sargento em 1919, retornando ao Brasil quatro anos depois e desde 1938 trabalhava na sede carioca da empresa de navegação Theodor Wille & Cia.

20170308_112928 - Copia
Herbert Friedrich Julius von Heyer, ou Herbert von Heyer. Fonte – Livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 37.

Quando von Heyer esteve na Alemanha no outono de 1941, Engels avisou ao capitão Jobst Raven para encontrar, contatar e cooptar o antigo sargento para a causa. O que aconteceu sem maiores problemas e von Heyer passou a utilizar o codinome “Humberto Heyer”.

Engels e o novo colaborador começaram a trabalhar juntos no Rio, em dois escritórios conjugados de um edifício localizado na Rua Buenos Aires, 140, no Centro. Em julho daquele ano Engels informou a Berlim que von Heyer se deslocaria a Recife para recrutar possíveis colaboradores na capital pernambucana e saber das atividades dos norte-americanos na região.

Ele chegou à cidade faltando dez minutos para as cinco da tarde do dia 4 de julho de 1941, uma sexta feira. Desembarcou do hidroavião “Caiçara”, da empresa Syndicato Condor no chamado “Aeroporto de Santa Rita”, onde então amerissavam os hidroaviões de passageiro na Bacia do Pina-Santa Rita[3].

www.fotolog.comtc211078575
Hidroavião em Recife – Fonte – http://www.fotolog.comtc211078575

Apesar de não possuir dados comprobatórios sobre isso, provavelmente quando o “Caiçara” sobrevoou a região do Porto de Recife, o espião Humberto deve ter visto atracados quatro belonaves de guerra da marinha dos Estados Unidos, a US Navy. Eram os cruzadores Memphis (CL 13), Cincinnati (CL 6) e os destroieres Davis (DD 395) e Warrington (DD 383) e certamente Von Heyer se questionou o que aquelas naves de guerra faziam ali. Mas aquela não seria sua única e desagradável surpresa no Nordeste do Brasil[4].

Logo o espião hospedou-se no tradicional Grande Hotel e manteve um primeiro contato com Hans Heinrich Sievert.

grande-hotel2
O Grande Hotel de Recife – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br/novo/?p=88384

Von Heyer passou oito dias em Recife e através do apoio de Sievert realizou várias reuniões na tentativa de angariar novos adeptos para a causa. Algumas foram produtivas e outras nem tanto. Entre estes manteve contato com o engenheiro elétrico alemão Walter Grapentin para a instalação de uma estação de rádio de ondas curtas, mas este recusou o trabalho[5].

Certamente o melhor elemento contatado por von Heyer foi Hans Sievert. Este era um alemão naturalizado brasileiro, tinha 37 anos, havia chegado ao Brasil em 1924, era casado com a alemã Wilma Korr, sendo membro destacado da tradicional comunidade germânica na capital pernambucana, além de gerente e sócio da antiga e conceituada firma Herm Stoltz & Cia. Sievert onde teve uma ascensão muito positiva na Herm Stoltz, saindo do posto de simples empregado, passando a ser gerente e finalmente sócio. Estava tão bem financeiramente que em 1932 retornou da Alemanha para o Recife no dirigível Graf Zeppelin[6].

O Serviço em Natal

Segundo o brasilianista Stanley E. Hilton, em seu livro ““Suástica sobre o Brasil : a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944”, nesta viagem a Recife o espião von Heyer já estava sendo vigiado pelo pessoal do Federal Bureau of Investigation – FBI, a mítica unidade de polícia do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Consta que o homem a serviço do Abwehr teria deixado Recife para uma rápida viagem a Natal, provavelmente em algum avião de carreira do Syndicato Condor[7].

Americans in Natal (14)
Natal, metade da década de 1930

Na capital potiguar ele teria se encontrado com os alemães Ernest Walter Luck, seu cunhado Hans Werbling e Richard Burgers. É provável que este encontro tenha ocorrido na casa de Luck, que servia de cônsul alemão na cidade, na Rua Trairi, 368, no bairro de Petrópolis. Todos esses alemães já eram radicados há vários anos na capital potiguar, partidários e propagandistas de primeira linha da causa nazista. Mas certamente o que deve ter impressionado o espião von Heyer em Natal foi o acentuado movimento de aviões norte-americanos, a presença de tropas brasileiras nas ruas e o imenso volume das obras desenvolvidas na construção da base aérea em Parnamirim e das bases de hidroaviões e de navios de guerra nas margens do Rio Potengi.

Aquilo era muito grave e von Heyer nem esperou seu retorno para o Rio. Antes de seguir para Fortaleza e Belém, destino final de sua viagem, ele enviou uma carta, certamente feita à base de tinta invisível, contando as preocupantes novidades ao seu chefe Engels.

Quadrimotor C-87 abastecendo.
Abastecimento de um C-87 em Parnamirim Field – Livro-Trampolim para a vitória, pág 129, de Clyde Smith Junior, 1993.

O que estava acontecendo em Recife e Natal, em uma das áreas mais estratégicas de todo Oceano Atlântico, certamente tinha de ser mais bem avaliado para ser informado ao Abwehr. Mas como isso poderia ser feito sem chamar atenção dos americanos?

A solução veio através de Hans Sievert, que conhecia um pernambucano com sólida formação como engenheiro, oriundo de família tradicional, com muitos contatos proveitosos e que poderia ampliar as informações do que acontecia na capital potiguar.

I0033250-3Alt=004640Lar=003278LargOri=004370AltOri=006187 - Copia

O escolhido foi Luiz Eugênio Lacerda de Almeida. Era filho do desembargador Luiz Cavalcanti Lacerda de Almeida e de Dona Maria Elisa. Tinha 46 anos, havia estudado no tradicional Ginásio Porto Carreiro, casou em 1922 com Maria Cândida Pereira Carneiro, tinha três filhos e residia na Avenida Beira Mar, número 3.000, em Recife. Na época ele trabalhava na Destilaria Central Presidente Vargas, pertencente ao Instituto do Açúcar e do Álcool e localizada no município do Cabo, atual Cabo de Santo Agostinho.

O engenheiro e sua esposa eram muito bem situados na sociedade pernambucana, possuindo parentesco com as tradicionais famílias Brennand e Burle, além do conde Ernesto Pereira Carneiro, empresário, politico, jornalista e proprietário do respeitado Jornal do Brasil, com sede no Rio de Janeiro.

I0062640-3Alt=004735Lar=003474LargOri=004632AltOri=006313
Jornais de várias partes do país também enalteceram a ligação do engenheiro pernambucano com o Integralismo, como o Diário da Tarde, de Curitiba-PR, na sua edição de terça feira, 30 de junho de 1942, pág. 1.

Segundo o jornal O Radical, do Rio, Eugênio Lacerda de Almeida havia sido Integralista e ideologicamente tinha um posicionamento favorável em relação ao Terceiro Reich de Adolf Hitler. Provavelmente isso explica a sua amizade com Hans Sievert[8].

Não existe uma comprovação da data que Eugênio Lacerda de Almeida chegou a Natal, mas se sabe que desembarcou em um voo da Panair do Brasil, pago pela Herm Stoltz & Cia. O fato deste engenheiro pernambucano haver chegado a Natal através de um voo desta empresa aérea pode explicar muito sobre sua infiltração nas obras de Parnamirim.

E_Natal_Ganhou_a_Guerra
Cerimônia militar em Parnamirim Field – https://catracalivre.com.br

Em 1941 o Brasil ainda era um país neutro na Segunda Guerra e não queria de modo algum comprometer sua neutralidade. Oscilando ora para o lado do Eixo, ora com acenos aos Aliados, o regime ditatorial de Getúlio Vargas tolerou tanto as atividades dos nazistas no Brasil, quanto à construção de vários aeroportos pelos americanos. Estes aeroportos, cujos principais eram os de Belém e Natal, jamais poderiam ser construídos por militares estadunidenses. A solução encontrada pelo governo americano foi colocar em campo a Panair do Brasil, que nada mais era do que uma subsidiária da empresa aérea americana Pan American Airways, com recursos para tocar as obras vindas do ADP (Airport Development Program – Programa de Desenvolvimento de Aeroportos). Então teve início a construção das instalações destinadas a servirem como principais bases de transporte e transbordo ao longo da rota do Atlântico Sul.

Page 10
Na foto vemos um Douglas C-47 Dakota em Parnamirim Field.

Evidentemente que muito dinheiro forte estava circulando em Natal, fato este que tanto atraía prostitutas, malandros e ladrões, quanto pedreiros, mestres de obras e engenheiros. Pernambuco já possuía há décadas uma escola de engenharia e alguns engenheiros ali formados convergiram para a capital potiguar atrás de dólares. Certamente a chegada de Eugênio Lacerda de Almeida a Parnamirim, vindo em um avião da Panair do Brasil, possivelmente bem trajado e distribuindo simpatia, não deve ter alertado as autoridades. Aliado a isso temos que pensar que ele talvez conhecesse alguém na área das obras para apresentar o trabalho que ali era realizado. Esse pretenso contato, de forma inadvertida, ou em estreita cooperação, lhe apresentou o engenheiro encarregado das obras, que lhe trouxe então as plantas da construção das pistas de aterrissagem e dos muitos locais administrativos que seriam utilizados por americanos e brasileiros. Ardilosamente Eugênio Lacerda de Almeida guardou na memória o que viu nas plantas da grande base e depois, reservadamente, desenhou um croqui com detalhes do projeto.

86955
Foto atual da Base Naval de Natal, que teria sido espionada pelo engenheiro Eugênio – Fonte – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/portoes-abertos-base-naval-de-natal-realiza-exposicao/205460

Existe a informação que além de “visitar” as obras da base de Parnamirim, o engenheiro teria igualmente visto as obras da futura Base Naval de Natal[9]. À noite, hospedado em um hotel, ao entabular conversas com pessoas que trabalhavam nas obras em Natal, soube de detalhes dos projetos de ampliação do porto da cidade. No outro dia ele voltou a Recife a bordo do navio Cantuária[10].

Na capital pernambucana, ao se encontrar com Hans Sievert, o engenheiro Eugênio Lacerda de Almeida quis lhe reportar o que viu, mas o alemão exigiu um relatório por escrito, mas afirmou que depois o destruiria. 

Capturando As Vermes! 

Em muito pouco tempo a situação virou completamente.

Os afundamentos e os chocantes relatos dos sobreviventes levaram a um clima de intensa animosidade com a Alemanha, com manifestações em todo o país, algumas violentas, com a depredação de bens ligados a alemães, e onde se exigia que o Brasil declarasse guerra ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão), o que foi feito pelo presidente Vargas em agosto de 1942.

afundamento_web
O afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães alterou a participação do Brasil no conflito. Foto meramente ilustrativa – Fonte – http://www.navioseportos.com.br/site/index.php/historia/historia-da-mm/195-a-expansao-1941-a-1989

Mesmo tendo vários navios afundados por submarinos alemães e com muitos de seus cidadãos mortos, O Brasil era um país que teimava em ficar em cima do muro, sem se comprometer demasiadamente na Guerra e tentava tirar vantagens dos dois lados da contenda. Mas conforme cresciam os ataques dos submarinos alemães aos navios de carga brasileiros, a revolta da população aflorou intensamente e a boa vida dos espiões alemães acabou completamente em terras tupiniquins[11].

O desmantelamento das redes de espionagem deu um enorme trabalho para o governo Vargas, que levou algum tempo para conseguir este objetivo. Mas em 25 de fevereiro de 1942 os alemães Hans Sievert e Walter Grapentin prestaram depoimentos ao então Secretário de Segurança de Pernambuco, o Dr. Etelvino Lins de Albuquerque, e ao delegado Fabio Correia de Oliveira Andrade, nas dependências da Delegacia de Ordem Política e Social, o DOPS, em Recife e eles entregaram tudo mundo[12].

Logo, para surpresa geral na capital pernambucana, um dos chamados a depor foi Luiz Eugênio Lacerda de Almeida.

I0010833-3Alt=005233Lar=003565LargOri=004753AltOri=006977 - Copia.JPG

Sievert confirmou que o engenheiro foi a Natal por conta da empresa Herm Stoltz & Cia, que o enviou para conhecer a obra para a empresa alemã melhor se preparar para “candidatar-se as concorrências que existiam em Parnamirim”. Uma situação completamente ilógica e ridícula diante do estado de extrema desconfiança e quase beligerância entre alemães e americanos na época.

Já Eugênio Lacerda de Almeida informou que passou apenas um dia em Natal e negou a autoria do croqui produzido sobre a base de Parnamirim. Entretanto, talvez por receio de uma acareação, se retraiu ao ser confrontado com o material e confirmou que foi ele que produziu os desenhos. Afirmou que primeiramente negou o fato por medo de se prejudicar, pois havia recebido de Hans Sievert a garantia que o material havia sido destruído. Eugênio Lacerda de Almeida comentou também que na época da feitura dos desenhos, quando o Brasil ainda se encontrava neutro, ele havia se tornado “admirador das vitórias alemãs” e na sua concepção ele não estava prejudicando o Brasil.

Lt. Russel Brazil (36)
As estratégicas bases aéreas em Natal e Belém foram importantes na engrenagem de guerra doa Aliados no Brasil. Na foto vemos um Douglas C-47 e um Consolidated B-24 Liberator.

A situação do engenheiro foi cada vez mais se complicando, principalmente quando ele teve de explicar a origem de 50 contos de réis (50.000$000) que recebeu de Hans Sievert. Até então a ida de Eugênio Lacerda de Almeida a Natal teria sido, por assim dizer, voluntária. Mas surgiu um depósito em sua conta corrente do Banco do Povo neste valor, creditado no dia 23 de dezembro de 1941. Aparentemente um gordo presente de natal!

fotos-espiões-nazista-em-Santos-3-FONTE-HILTON-1977
Espiões Nazistas que agiam em Santos, São Paulo – Fonte – http://atdigital.com.br/historiasdesantos/?p=94

Mas o dinheiro ficou depositado por seis meses, em uma espécie de conta de renda fixa que existia na época. Sievert afirmou em depoimento que entregou aquele dinheiro ao engenheiro pernambucano em confiança, sem documento comprobatório, para atender as necessidades de sua família no caso de surgirem “imprevistos contra a sua pessoa”[13].

O engenheiro Eugênio Lacerda de Almeida foi identificado, sujou os dedos quando fez sua ficha datiloscópica, fez retratos de frente e de perfil e depois saiu andando tranquilamente pela porta da rua!

Lei Frouxa! 

Ficou a cargo do Dr. José Maria Mac Dowell da Costa, Procurador do Tribunal de Segurança Nacional (TSN), analisar as provas contidas nos autos contra as pessoas acusadas de espionagem, ou de facilitação desta atividade, os chamados “Agentes do Eixo[14].

I0025648-3Alt=004886Lar=003454LargOri=004605AltOri=006514 - Copia (2)
Dr. José Maria Mac Dowell da Costa, Procurador do Tribunal de Segurança Nacional (TSN)

O Dr. Mac Dowell da Costa prometia através da imprensa que “seria inflexível no cumprimento do dever” e se algum daqueles 128 homens e mulheres pronunciados estivesse seriamente implicado nos artigos no Decreto Lei Nº 4.766, de 1º de outubro de 1942, que definia os crimes militares e contra a segurança do Estado, ele não hesitaria em aplicar a pena máxima existente – A pena de morte![15]

O nobre engenheiro Luiz Eugênio Lacerda de Almeida sofreu por parte da imprensa carioca, especialmente dos jornais Diário Carioca e O Radical, uma intensa pressão para que fosse condenado e recebesse uma punição exemplar[16]. Eugênio Lacerda de Almeida compareceu ao TSN no Rio e foi indiciado com base no Decreto Lei 431, de 18 de maio de 1938, Artigo 3º, no seu 16º inciso.

I0026236-3Alt=004868Lar=003460LargOri=004614AltOri=006490 - Copia
Houve forte indignação com a liberdade do engenheiro pernambucano. Manchete do jornal O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, pág. 1.

Notem os leitores que de saída o engenheiro pernambucano não foi indiciado na chamada “Lei de Guerra”, que era o Decreto Nº 4.766, de 1º de outubro de 1942, uma lei bem mais dura, mas no Decreto Lei 431, de 1938. Este na sua parte inicial era definido como “Crimes contra a personalidade internacional, a Estrutura e a segurança do Estado e contra a ordem social”. E trazia no texto do seu inciso 16º o seguinte teor “Incitar ou preparar atentado contra pessoa, ou bens, por motivos doutrinários, políticos ou religiosos; Pena – 2 a 5 anos de prisão; se o atentado se verificar, a pena do crime incitado, ou preparado”[17]. Além disso, trazendo como verdadeiro “abre alas” de sua defesa, havia dezenas de cartas de autoridades e pessoas gradas, atestando a sua conduta e de como ele era uma pessoa ilibada[18].

Quase no fim do ano de 1943, sob a presidência do ministro Frederico de Barros Barreto, natural de Recife, o TSN promulgou várias sentenças contra os acusados de espionagem e vários deles foram condenados a pena de morte, entre eles Albrecht Gustav Engels.

radio_nazi_reproducao_288
Aparelho de rádio achado com os espiões nazistas no Rio.

Mas para desgosto de muita gente, sedenta de sangue para vingar os mais de 1.081 mortos, em mais de 34 navios brasileiros afundados por submarinos do Eixo, nenhum dos acusados de espionagem foi parar diante de algum pelotão de fuzilamento. O Dr. Mac Dowell da Costa afirmou a um periódico mineiro que os casos que estavam chegando ao TSN eram anteriores ao reconhecimento da declaração de guerra, sendo impossível aplicar a pena de morte[19].

Esses condenados a morte tiveram a pena alteradas para 30 anos de prisão, mas muitos não cumpriram sequer dez anos pelos seus atos. O grande chefe Engels logo saiu da cadeia e foi ser funcionário, logicamente, de uma empresa alemã. No caso a Telefunken do Brasil, aonde chegou a presidência da mesma[20]. Hans Heirich Sievert e Herbert von Heyer foram condenados a 25 anos de prisão cada um. Sievert logo deixou a cadeia e aparentemente foi morar em Petrópolis, Rio de Janeiro, onde faleceu em 17 de novembro de 1979[21].

nazi

Já von Heyer penou um pouco mais. Em 1952 vamos encontrá-lo encarcerado no mítico e tenebroso presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde era considerado um preso de bom comportamento e dava aulas de inglês para o comandante da instituição prisional[22].

Não consegui apurar, mas acredito que o engenheiro Luiz Eugênio Lacerda de Almeida não passou um dia sequer na cadeia. Ele faleceu no Rio de Janeiro, em 2 de dezembro de 1975[23].

Final

Não causa nenhuma surpresa que a maioria dos espiões nazistas que operaram no Brasil não quis retornar para sua tão amada nação de origem após o fim da guerra. Simplesmente após o fim do conflito ninguém no Brasil se importou muito com essa gente e represálias, até onde sei, nunca aconteceram. O tempo apagou quase tudo sobre esses casos!

Já nos Estados Unidos, por exemplo, a coisa foi bem diferente. Começa que o Presidente Franklin D. Roosevelt, temeroso que um tribunal civil fosse demasiado indulgente com espiões nazistas, criou um tribunal militar especial para esse tipo de caso. Isso levou a execução na cadeira elétrica de seis espiões nazistas[24].

Já na Inglaterra foi criada a “Lei da Traição”, que após passar pelo parlamento e receber o assentimento real, tinha apenas uma sentença prioritária: a morte. Lá, Entre 1940 e 1946, dezenove espiões e sabotadores foram processados sob a Lei da Traição e executados. Um vigésimo espião – um jovem diplomata português – foi condenado à morte, mas a sua pena foi comutada para prisão perpétua após a intervenção do governo português[25].


NOTAS

[1] Ver os livros Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 17 a 19 e O Brasil na mira de Hitler, Roberto SANDER. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, págs. 23 a 33.

[2] Ver os livros Hitler’s Spy Chief: The Wilhelm Canaris Mystery. New York, NY, EUA: Pegasus Books, 212, págs, 23 a 45. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 20 a 24.

[3] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de sábado, 5 de julho de 1941, pág. 2. O interessante foi que von Heyer desembarcou utilizando seu nome verdadeiro e este antigo ponto de embarque e desembarque de hidroaviões em Recife ficava localizado onde atualmente existem duas grandes torres de apartamentos, construídas pela empresa Moura Dubeux, as margens do Rio Capibaribe. Estas torres são dois edifícios de luxo de 42 andares, construídos no Cais de Santa Rita, no bairro de São José e conhecidas popularmente como as “Torres Gêmeas”. A construção das torres começou em 2005 e foi concluída em 2009, após batalha judicial com o Ministério Público Federal, que apontava irregularidades na obra. Com sua excessiva proximidade com o mar e grande altura, os prédios diferem radicalmente do entorno do bairro histórico. Sobre esse assunto ver – https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/01/obra-em-bairro-historico-inflama-debate-sobre-verticalizacao-do-recife.htm

[4] Aquelas naves em Recife estavam sob o comando do vice-almirante Jonas H. Ingran, como parte da Task Force 3, que futuramente, com a ampliação das ações de combate da US Navy no Atlântico Sul, seria designada como Fourth Fleet (Quarta Frota).

[5] Sobre o encontro entre Grapentin e von Heyer ver as declarações do primeiro para a polícia pernambucana, reproduzidas no Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de domingo, 29 de março de 1942, pág. 4 e no livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, de S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, pág. 40.

[6] A Herm Stoltz & Cia. foi uma empresa fundada em 1863, muito conceituada em todo país no transporte marítimo, com matriz no Rio e filial até na Alemanha. Era muito conhecida particularmente em Pernambuco, onde eram os agentes da empresa aérea teuto-brasileira Syndicato Condor. Já sobre as declarações de Hans Sievert para a polícia pernambucana, reproduzidas no Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de domingo, 29 de março de 1942, pág. 4. Já sobre a viagem no dirigível Graf Zeppelin, ver o Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de quinta feira, 13 de outubro de 1932, pág. 1.

[7] Segundo Stanley E. Hilton a informação da presença do espião von Heyer em Natal está inserida no relatório do FBI intitulado “Totalitarian activities – Brazil Today”, produzido em dezembro de 1942, mas sem referência de páginas. Afora isso não existe nenhum documento comprovatório da passagem deste espião por Natal. Entretanto é bastante crível sua presença na capital potiguar diante do que os americanos desenvolviam aqui em julho de 1941 . Ver o livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 40 e 41.

[8] Sobre os vários detalhes da vida de Luiz Eugênio Lacerda de Almeida ver o Jornal Pequeno, Recife-PE, edição de segunda feira, 20 de fevereiro de 1922, pág. 1 e O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4.

[9] Ver Diário Carioca, Rio de Janeiro-RJ, edição de sexta feira, 29 de maio de 1942, páginas 1 e 5.

[10] Eugênio Lacerda de Almeida não informou em qual hotel ficou em Natal e nem se manteve contato com os alemães residentes na cidade. Ver seu depoimento reproduzido no jornal O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4 e no Diário Carioca, Rio de Janeiro-RJ, edição de sexta feira, 29 de maio de 1942, páginas 1 e 5.

[11] Sobre a derrocada dos espiões nazistas no Brasil, ver o livro Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil, 1939-1944, S. E. Hilton. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977, págs. 235 a 296.

[12] Etelvino Lins de Albuquerque foi Governador de Pernambuco entre 1952 e 1955, senador constituinte, ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e deputado federal em duas legislaturas.

[13] Ver O Radical, Rio de Janeiro, edição de domingo, 13 de junho de 1943, págs. 1 e 4.

[14] O Tribunal de Segurança Nacional (TSN) foi uma corte de exceção, instituída em setembro de 1936, primeiramente subordinada à Justiça Militar e criada diante dos traumas provocados no poder pela Intentona Comunista de novembro de 1935. Era composto por juízes civis e militares escolhidos diretamente pelo presidente da República e deveria ser ativado sempre que o país estivesse sob o estado de guerra. Com a implantação da ditadura do Estado Novo, em novembro de 1937, o TSN passou a desfrutar de uma jurisdição especial autônoma e tornou-se um órgão permanente. Nesse período passou a julgar não só comunistas e militantes de esquerda, mas também integralistas e políticos liberais que se opunham ao governo. Entre setembro de 1936 e dezembro de 1937, 1.420 pessoas foram por ele sentenciadas. O TSN foi extinto após a queda do Estado Novo, em outubro de 1945.

[15] Dos 128 implicados 77 eram estrangeiros, 40 brasileiros natos e 11 brasileiros naturalizados. Já os processos eram originários do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e São Paulo. Ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edição de sábado, 2 de outubro de 1943, pág. 5. Sobre o Decreto Lei 4.766, de 1 de outubro de 1942, ver http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4766-1-outubro-1942-414873-publicacaooriginal-1-pe.html

[16] Ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edições de domingo, 30 de junho e 17 de julho de 1942, respectivamente nas páginas 1 e 3.

[17] Sobre o Decreto Lei 431, de 18 de maio de 1938, ver http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1930-1939/decreto-lei-431-18-maio-1938-350768-publicacaooriginal-1-pe.html

[18] Sobre esta questão ver O Radical, Rio de Janeiro-RJ, edições de domingo, 8 de junho de 1943, nas páginas 1 e 2.

[19] Sobre as declarações do Dr. Mac Dowell da Costa ver o Correio de Uberlândia, Minas Gerais-MG, edição de quinta feira, 25 de fevereiro de 1943, pág. 1.

[20] Ver o livro O Brasil na mira de Hitler, Roberto SANDER. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, págs. 106 e 119.

[21] Ver Jornal do Brasil, Rio de Janeiro-RJ, edição de domingo, 17 de novembro de 1979, pág. 38, 1º Caderno.

[22] Ver Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro-RJ, edição de segunda feira, 4 de fevereiro de 1952, pág. 7.

[23] Ver Jornal do Brasil, Rio de Janeiro-RJ, edição de quarta feita, 3 de dezembro de 1975, pág. 24, 1º Caderno.

[24] Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Operation_Pastorius

[25] Ver https://www.theguardian.com/world/2016/aug/28/britain-nazi-spies-mi5-second-world-war-german-executed

 

O TRÁGICO FIM DO CORONEL GONZAGA E A HECATOMBE DE OUTUBRO DE 1922 EM BELMONTE, PERNAMBUCO

dsc_0607

Autor – Valdir José Nogueira de Moura 

Gonzaga nem era Pereira, nem era Carvalho e na cidade onde a política era polarizada entre as duas tradicionais e rivais famílias do Pajeú, isto significava ser forasteiro. As principais lideranças locais não viam com bons olhos a sua rápida ascensão política, social e econômica que, até certo ponto, deixava-as em escanteio.

dscf1250
São José de Belmonte na atualidade – Foto – Luiz Dutra.

Com sua rápida ascensão política e social, prestigiado pela família Pessoa de Queiroz, que era sua amiga e deseja fazê-lo prefeito de Belmonte, vaidoso que era Gonzaga queria a todo custo arranjar mais proteção ainda e, comprometido com o governo, começou a ajudar a polícia na perseguição a Sebastião Pereira (Sinhô Pereira) e Luiz Padre. Sabendo disto, Sinhô Pereira não gostou e mandou dizer-lhe que podia até aceitar perseguição da polícia, pois este era o seu papel, mas de particular não aceitaria perseguição sob nenhuma hipótese e o deixasse viver em paz, se quisesse viver. Foi um ultimato enérgico, todavia Gonzaga, cioso de seu poderio emergente, não se intimidou com as ameaças de Sinhô Pereira, e sempre que podia, dava ajuda financeira às volantes policiais que perseguiam os cangaceiros. Por isto, Belmonte passou a ser visitada por volantes policiais até de outros Estados.

coronel-luiz-gonzaga-ferraz
Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz – Fonte-Blog Lampião Aceso

Estava Gonzaga um dia ausente de casa quando chegou um mensageiro, vinha da parte de um grupo de cangaceiros e trazia uma relação de pedidos a serem atendidos; sua esposa indignada negou-se a atender as exageradas solicitações, com um comentário final que o irritou: “Que fossem trabalhar como seu marido sempre o fizera”.

Em maio de 1922, Sinhô Pereira e seu grupo, nas suas correrias e incursões, interceptou um comboio do coronel Gonzaga nas cercanias de Rio Branco (atual Arcoverde), sendo uma grande parte da mercador ia arrebatada e fartamente distribuída entre os componentes do bando, e a outra parte queimada. Essa atitude de Sebastião Pereira teve de ser alterada com a intervenção de Crispim Pereira de Araújo, mais conhecido como Iôiô Maroto, primo de Sinhô Pereira, e duplamente compadre de Gonzaga, que foi requerido para isto pelos parentes e amigos, e o conseguiu mediante a promessa de alguns contos de réis.

Sebastião Pereira cumpriu o seu trato e exigiu mais tarde a contraprestação de outros. Ioiô Maroto foi obrigado a procurar pelo recebimento da quantia, mas encontrou Gonzaga pouco disposto a satisfazê-lo. Era que Gonzaga estipendiária agora gente armada. A situação se apresentava mais em condições de garantia.

cnhgf1
Ioiô Maroto junto com filhos e netos no Ceará, década de 1940 – Fonte – Valdenor Neves Feitosa.

Algum tempo depois, dava-se pelo município de Belmonte a passagem de um tenente da Polícia do Ceará, de nome Peregrino Montenegro, conhecido por sua violência e pela indisciplina de seus comandados. Essa força volante, encarregada de perseguir o banditismo, visitou, no dia seguinte a sua passagem e estada e estada na cidade, a propriedade Cristóvão, pertencente a Ioiô Maroto, e ali cometeu toda sorte de abusos, arbitrariedades e desmandos, surrando moradores, ameaçando de morte o próprio Ioiô Maroto, a quem injuriaram e sujeitaram a humilhações, desrespeitando a família deste. Basta dizer que toda sorte de ultrajes e maus tratos foram realizados pela soldadesca.

Ao se retirar daquela fazenda, o tenente Montenegro mostrou uma carta a Ioiô Maroto, dizendo que agradecesse o que sofrera ao seu amigo e compadre Luiz Gonzaga, que fora quem lhe incumbira daquele serviço. Neste ato insensato de Peregrino Montenegro, estava o estopim da terrível chacina futura que tanto abalou Belmonte.

owaaadyzpysv6nxoilwlbdpl_rgkolygpv4amt
Antiga Rua do Comércio. No primeiro plano a famosa loja “A Rosa do Monte” do Coronel Gonzaga – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

Convencido, assim, Ioiô Maroto da responsabilidade do seu grande amigo e compadre Gonzaga nos ultrajes que sofrera, resolveu vingar-se. Ninguém podia mais dissuadi-lo dessas idéias e ele começou abertamente a declarar os seus propósitos de desagravo, que chegaram diretos a Gonzaga, com recados intimativos de que não moraria mais no Município de Belmonte. Que um dos dois havia de mudar-se.

Ciente da atitude de Ioiô maroto, apesar de todas as suas afirmativas públicas e particulares de não ter tido a menor interferência nos atos de vandalismo praticados pela força do tenente Montenegro, o coronel Gonzaga, temendo a realização das ameaças e vinditas de Ioiô Maroto, procurou acabar com seus grandes negócios em Belmonte. Tendo se retirado para a Bahia e Sergipe, buscava escolher local para se estabelecer, mas avisado pelas garantias do Governo de Pernambuco e aconselhado pelos amigos da Capital, também ligados ao governo estadual, voltou ao município de Belmonte, e continuou a frente dos seus negócios que o retinham sempre, tendo agora além da força pública, um pessoal em armas.

13892037_1199520380107689_8206885353855521640_n
Foto meramente ilustrativa para apresentar como se vestiam e se armavam os sertanejos da região de Belmonte, e de todo Nordeste de maneira geral, na época das lutas contra o cangaço – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

A volta do coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz para o município de Belmonte, cercado de todas essas garantias, enraiveceu ainda mais Ioiô Maroto, que publicamente declarava mais uma vez que os dois não poderiam viver no Município, diante da afronta que ele, Maroto, sofrera e que sua vingança estava sendo preparada.

Ora, certo dia Gonzaga é procurado por um irmão do próprio Ioiô, conhecido como Antônio Maroto, com quem entrou em negócios de algodão. Diante disto, o coronel Gonzaga se convenceu de que tudo estava terminado, dispensando o seu pessoal e recolhendo na sua casa as armas e as munições que estavam em poder do mesmo pessoal.

13606599_1182192501840477_2509024969414671372_n-copia
Na foto vemos de pá, na extrema esquerda da foto, José Alencar de Carvalho Pires e sua tropa de policiais – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

A visita de Antônio Maroto à casa de Gonzaga indignou os habitantes das cidades, que achavam que o mesmo não deveria dar crédito nenhum de confiança ao pessoal de Ioiô Maroto. Preocupado também com este fato, José Alencar de Carvalho Pires (Sinhozinho Alencar), na época 2º sargento comandante do destacamento de Belmonte, casado com uma sobrinha de Gonzaga, pediu que o mesmo não se confiasse e que retornasse o seu pessoal em armas para garanti-lo. Era sabido por todos que a fazenda Cristóvão regurgitava de cangaceiros e que Ioiô havia declarado abertamente: “Se eu morrer sem desforra, minha alma voltará a Belmonte para fazer o que eu não fiz”. Respondeu Gonzaga a Sinhozinho: “Vá cuidar de sua saúde e não tenha receio dos cangaceiros que estão em casa do compadre Ioiô, que eles não virão a Belmonte”. Retrucou então o sargento: “Não há tempo, Coronel, para poder confiar-me em cangaceiros. Enquanto o senhor desarma seus homens eu armo os meus soldados até os dentes.”

É de imaginar a boataria que tomou conta de Belmonte na época. Ioiô Maroto, na sombra, começou a por em prática o seu plano de vingança. Em suas maquinações e idéias sinistras, começou a aliciar parentes e moradores seus, cangaceiros, formando um numeroso bando capitaneado por ele próprio, a gente de Tiburtino Inácio, bem conhecido também nos fastos do banditismo e a malta do célebre bandoleiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e resolveu atacar Belmonte e assassinar o seu compadre Luiz Gonzaga.

13697089_1186356171424110_113688399662479645_n
Outra imagem ilustrativa dos trajes e armamentos sertanejos no início do século XX – Fonte – Foto meramente ilustrativa para apresentar como se vestiam e se armavam os sertanejos da região de Belmonte, e de todo Nordeste de maneira geral, na época das lutas contra o cangaço – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

Familiarizado por longos anos de convivência com os mais terríveis bandoleiros de então, primo e amigo do célebre cangaceiro Sinhô Pereira, que assentava principalmente seus arraiais no Município de Belmonte, Ioiô Maroto reuniu com facilidade a gente necessária e preparou com uma tática seguríssima o fato criminoso que levou a efeito.

Ele sabia dos fracos recursos do destacamento de polícia comandado pelo sargento Alencar. Oito ou nove praças tão somente. Quase todas as testemunhas ouvidas durante o inquérito procedido pela justiça, falam que logo tomaram conhecimento do inesperado ataque do grupo de Ioiô Maroto, os soldados entraram em ação. Sabia que o coronel Gonzaga dispensara ultimamente alguns defensores que trazia em armas para sua guarda; sabia assim que em casa daquele só se encontrava este, sua mulher e filhos menores.

Assim concebido e resolvido o seu plano de vingança, que se aproveitava da realização do casamento de um filho do fazendeiro Franco Lopes de Carvalho, de nome Jacinto Gomes de Carvalho com Gertrudes Maria de Carvalho (filha do coronel Moraes), que na manhã de 20 de outubro de 1922 deveria ter lugar na fazenda Santa Cruz, distante da cidade umas duas léguas, e que para este casamento haviam sido convidadas as pessoas gradas da cidade, entre as quais o sargento Alencar de Carvalho, que ao mesmo casamento deveria comparecer, ficando assim o destacamento sem o seu chefe e comandante.

casamento-em-belmonte
Um típico casamento em São José de Belmonte na década de 1920 – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

A festa de outubro, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, e realizada anualmente na cidade de Belmonte, era das mais concorridas. Como ordenava a tradição, as comemorações se iniciavam com a tradicional alvorada, os sinos repicavam, fogos explodiam no ar, banda de música e pífanos alegravam as ruas…Aquela animada noite de 19 de outubro de 1922 teve como patrono o coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz. Este senhor ao deixar a Matriz de São José juntamente com o padre José Kherlle, seguiu para a Casa Paroquial. Lá o reverendo então o interpelou sobre a sua situação com Ioiô Maroto.

pe-jose-kehrle
Padre José Kherlle

Respondeu o mesmo que a malquerença entre ambos havia terminado, pois um irmão de Ioiô entrara com ele em negociações, tendo emprestado ao mesmo a quantia de três contos de réis e cedido o vapor para serviço de Maroto, e que também havia dispensado o seu pessoal que, por prevenção, trazia armado.

Recusando, então, o convite do padre para pernoitar na Casa Paroquial em virtude da chuva, às onze horas o coronel Gonzaga deixava aquela casa e retornava ao seu lar. Lá chegando, deu de cara com o seu vaqueiro Manoel Pilé, que espantado relatou que ficara sabendo que Ioiô Maroto estava juntando um considerável número de gente em armas na sua fazenda Cristóvão. Não dando crédito às desconfianças de seu vaqueiro, Gonzaga tranquilizou-o dizendo que não havia mais questão entre ele e seu compadre Ioiô.

O certo é que pelas nove horas dessa mesma noite, Ioiô Maroto havia saído de sua fazenda com os seus companheiros e cangaceiros, parentes e moradores, em número superior a 45 homens, com rumo certo para a cidade de Belmonte, onde realizaria a empreitada na forma pretendida.

16708490_1381083335284725_177429652149237206_n
Aspecto de São José de Belmonte no século XX. Em destaque a igreja matriz – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

De 4 para 5 horas da madrugada, do dia 20 de outubro de 1922, a cidade de Belmonte era despertada ao ruído de tiros que se disparavam de mais de um ponto da rua e das suas imediações. O tiroteio ia crescendo de intensidade e duração, dando a entender, dentro em pouco, tratar-se não de bombas que vinham sendo frequentes, por motivos dos festejos religiosos do Coração de Jesus, mas de detonações de armas de fogo num verdadeiro assalto.

Naqueles tempos de cangaceirismo, em que ninguém tinha a propriedade e a vida seguras, as povoações, as cidades, não se eximiam desses terrores e era um ataque em regra que se fazia a Belmonte.

dsc_2459
Casa do coronel Gonzaga em Belmonte. Palco da luta – Fonte Alex Gomes.

Numeroso grupo invadira por um dos lados, o do norte, o quadro da cidade e sustentava dali nutrido fogo, dominando inteiramente à frente da casa do coronel Gonzaga. Uma parte desse grupo, 12 ou 15 homens, atacava, por sua vez, pelos fundos a casa do referido negociante. Para penetrar na dita casa, dois bandidos, Varêda e José Dedé – este conhecido por Baliza – escalaram o muro e, uma vez dentro, sustentaram fogo para que o restante dos atacantes arrombasse o portão de entrada para o quintal da residência do dito coronel. Nesse ínterim, João Gomes, parente e vizinho de Gonzaga, ouvindo o barulho que fazia os assaltantes junto ao referido portão, saiu para o quintal, que era comum às duas casas dele e Gonzaga, e conseguiu ainda dar uns tiros, indo se refugiar depois em sua casa, pois nesse momento, ultrapassando todos os obstáculos, o grupo particularmente incumbido de dar a morte ao infeliz negociante, penetrava em sua residência, colhendo-o então inerme e indefeso.

dsc_0592
Interior da casa de Gonzaga na atualidade. Boa preservação – Fonte – Luiz Dutra.

Senhores da casa, cujas portas abriam a machadadas, foi esta invadida, e o coronel Gonzaga, desorientado, correu para se refugiar no sótão. Todavia, uma tábua do assoalho cedeu e ele caiu na sala de visitas, quebrando os dois braços. Porém, fugindo da fúria de seus perseguidores, tentou galgar uma janela de um quarto junto a sala de visitas, dá para o oitão da casa, mas é abatido sobre o peitoril, sendo varado pelas balas assassinas.

A casa, o quintal, tudo estava ocupado e os bandidos fizeram mão baixa no que puderam levar, quebrando, arrebentando móveis, baús, na embriagues do saque e da pilhagem.

A família de Gonzaga, sua mulher e filhos, assim como o jovem José Demétrio, que na época, era encarregado da estação telegráfica de Belmonte e também noivo de Bida, filha de Gonzaga, nada sofreram fisicamente. Um dos bandidos, o de nome Cajueiro, recebeu de seu chefe, Ioiô Maroto, a incumbência de poupá-los, e assim foram segregados num quarto que dá para a sala de jantar.

coronel-jose-alencar-de-carvalho-pires-sinhozinho-alencar-1
José Alencar de Carvalho Pires (Sinhozinho Alencar), na época do ataque dos cangaceiros era 2º sargento e comandante do destacamento de Belmonte. Não conseguiu impedir a morte do coronel Gonzaga – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

Ante o tiroteio realizado pelo grupo chefiado por Ioiô Maroto, o sargento Alencar, que não fora ao casamento do filho do fazendeiro Franco Lopes de Carvalho, na Santa Cruz, reagiu, com o seu destacamento e alguns paisanos, contra os atacantes.

Desde as 4 horas da manhã daquele dia, o mesmo acordara alarmado por forte tiroteio. Pernoitara em casa de João Lopes, seu sogro, pois ali se encontrava doente uma filha. Levantou-se aos primeiros tiros e seguiu para a sua casa, situada na mesma rua. Ali chegando, armou-se. Abrindo o depósito de munição, verificou que existiam cerca de 4.000 mil balas, e carregando o seu fuzil correu a cidade. Observou que toda a Rua do Açougue estava tomada pelos cangaceiros, e das casas do velho Quintino Guimarães e seu genro, Pedro Vítor, especialmente do Açougue, partia forte fuzilaria. Deitando-se, então, atrás de uma antiga cajazeira que havia no meio da rua que, por sinal, servia de casa-de-feira, detonou cerca de 50 tiros, visando especialmente às casas de Quintino Guimarães e Pedro Vítor. Todavia, não chegando, portanto, nenhum soldado para auxiliá-lo, o destemido Sinhozinho Alencar foi procurá-los no quartel e em suas próprias residências, somente encontrando dois, Severino Eleutério da Silva e José Francisco da Silva. Com essas praças resistiu até às 5 horas e meia, quando se apresentaram mais três soldados: Manoel Rodrigues de Carvalho, José Antônio de Oliveira e Luiz Mariano da Cruz; o primeiro, do destacamento local, e os dois últimos, do de Vila Bela, os quais haviam chegado no dia anterior com licença daquele destacamento. Às 6 horas apareceu o soldado José Miguel dos Anjos. Contando, no entanto seis praças, o imbatível comandante fez a seguinte distribuição: Luiz Mariano da Cruz, na esquina da casa de Neco Medeiros; José Miguel dos Anjos, em casa de seu sogro, João Lopes Gomes Ferraz, e os demais lutando com ele, ora no meio da rua, ora entrincheirados em sua casa ou no portão do muro da mesma, fazendo cessar forte fuzilaria que partia do cemitério, onde se entrincheirara grande número de bandidos.

bd9ccd73a166f8d923bfe693d345b7a7
Bando de Lampião em 1922 – Fonte – Rostand Medeiros

Às 8 da manhã, mais ou menos, o sargento Alencar, temendo o fracasso por falta de munição, pois dos quatro cunhetes existentes, apenas um restava, e os soldados Severino Eleutério e José Francisco da Silva estavam já com armas curtas, pois seus fuzis haviam deflagrado pela culatra, consequência da intensidade do fogo, retirou-se então com os soldados José Antonio de Oliveira e Manoel Rodrigues de Carvalho. O dito sargento deixou os demais resistindo, e com dois companheiros assaltou o cemitério, pondo em debandada o grupo que ali estacionara. depois, pela retaguarda, atacou o Açougue Público e suas adjacências, causando verdadeiro pânico no meio dos bandidos que julgaram estar sendo atacados por grande número de soldados, e colocou em fuga os bandidos a quem seguira em perseguição até um quilômetro fora da cidade.

dsc_4566
Outra imagem do interior da casa de Gonzaga – Fonte – Alex Gomes.

Ao retornar pelo beco do Açougue, gritou ao coronel Gonzaga que estava tudo salvo, pois que os bandidos haviam fugido. Porém, nesse momento, para surpresa sua, ouviu de Quintino Guimarães que, nessa ocasião, apareceu à porta de sua residência, as seguintes palavras: “Gonzaga está morto desde muito cedo, os cangaceiros entraram em sua casa antes de haver tiros; os primeiros foram dados nele”. Angustiado com tal notícia, Sinhozinho Alencar entrou sozinho na casa do coronel Gonzaga, encontrando-o morto, banhado em sangue, em um quarto próximo à sala de visitas, e a sua família presa em outro quarto.

Da reação oposta pela polícia, ajudada por alguns civis, tiveram os atacantes alguns mortos. Foi essa reação que, certamente, conseguiu impedir que as consequências do assalto se estendessem para o estabelecimento comercial de Gonzaga, a Rosa do Monte, que ficava no mesmo correr de sua residência, porém com certa distância, pois havia de permeio outros prédios. A não ser pela frente e por uma porta do único oitão que deitava para um beco, o estabelecimento comercial se acabava, por sua vez, no campo de mira de alguns defensores do coronel Gonzaga, como o civil Manoel Gomes de Sá Ferraz, junto aos seus filhos João e Antônio, que devotados a ele, atiravam em posição fronteira.

13902636_1198205296905864_8279828272064360198_n
Soldado Heleno Tavares de Freitas – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

Além do coronel Gonzaga, cujo assassínio era o fito principal do ataque, a ação dos criminosos vitimou ainda o soldado Heleno Tavares de Freitas, que caiu em poder dos bandidos quando acudia o chamado para a defesa; o velho Joaquim Gomes de Lira; e João Gomes de Sá, que foi saqueado, roubado e ferido. Da parte dos atacantes, morreram o famoso Baliza e Antonio da Cachoeira (este, após o tiroteio, faleceu de parada cardíaca), e entre os inúmeros feridos estavam Zé Bizarria, Cícero Costa e o próprio Ioiô Maroto, que ficara aquartelado na casa do velho Quintino Guimarães.

Entre as jóias roubadas durante o saque, estava um anel de brilhante pertencente e usado pelo coronel Luiz Gonzaga, que dizem ter sido visto depois em um dos dedos do bandoleiro Lampião. Daí aquela famosa quadra de larga divulgação no sertão:

“A aliança de Gonzaga
Custou um conto de réis

Lampião botou no dedo
Sem custar nenhum derréis.”

familia-do-coronel-luiz-gonzaga-gomes-ferraz-morto-por-lampiao-em-1922
Família do coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz , morto por Lampião em 1922 – Fonte – Valdir José Nogueira de Moura

Em 1928, foi aberto inquérito para apurar os acontecimentos que tiveram lugar em 20 de outubro de 1922, no Município de Belmonte. Em 7 de outubro de 1929 era publicada no Diário Oficial do Estado de Pernambuco a sentença de pronúncia proferida nos autos do Processo criminal daquele trágico acontecimento que resultou entre outros, na morte do coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, diante da denúncia do Promotor Público de Olinda, em comissão no Município de Belmonte: Crispim Pereira de Araújo (Ioiô Maroto), Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), José Terto (Cajueiro), Antonio Cornélio, José Bizarria, José Teotôneo da Silva (José Preto), João Porfírio, Feliciano de Barros, Antônio Padre(irmão de Luiz Padre), Pedro José Clemente(Pedro Caboclo), Francisco José (Varêda), Tiburtino Inácio (filho do Major José Inácio do Barro-CE), Antônio Moxotó, José Dedé (Baliza). Meia Noite, José Ovídio, Papagaio, José de Tal (Caneco), Miguel Cosmo, Raimundo Soares do “Barro”, Antonio Ferreira da Silva, Livino Ferreira da Silva, José de Tal (Caboré), Cícero Costa, Terto Barbosa, José Benedito, Manoel Barbosa, Olímpio Benedito (Olimpio Severino Rodrigues do Nascimento), Francisco Barbosa, Dé Araújo, José Flor (Manjarra), Antonio Caboclo (Pente Fino), Laurindo Soares (Fiapo), Manoel Benedito, Antonio pereira da Silva (Tonho da Cachoeira), João Cesário (Coqueiro), Sebastião de Tal (Sebasto), Manoel Saturnino, Beija Flor, Pilão, Lino José da Rocha. Quanto aos outros indivíduos que tomaram parte do ataque, ignora-se ao certo o nome ou sinais característicos de cada um.

VEJA NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.com.br/2011/06/05/o-ataque-de-lampiao-a-belmonte/ 

a-provincia-pe1-03-1923pag-2-ataque-de-lampiao-a-belmonte
Carta da viúva do coronel Gonzaga, contando sua dor e as ocorrências que envolveram seu finado esposa e publicada no jornal recifense A Provincia, de 1 março de 1923, pag.2 – Fonte – Coleção Rostand Medeiros

AUTA DE SOUZA – SEUS VERSOS E TRAÇOS DE SUA VIDA BREVE

auta-de-souza-002
Auta Henriqueta de Souza

Autor – Elfi Kürten Fenske

Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2013/05/auta-de-souza.html

“Não vês? Minh’alma é como a pena branca

Que o vento amigo da poeira arranca

E vai com ela assim, de ramo em ramo,

Para um ninho gentil de gaturamo…

Leva-me, ó coração, como esta pena,

De dor em dor, até a paz serena.”

– Auta de Souza 

digitalizar
Exemplar da 2ª ed. de “O Horto”, que pertenceu a Antônio Isidoro de Medeiros, tio-avô de Rostand Medeiros, que guarda o exemplar. 

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876, filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues e irmã dos políticos norte-rio-grandenses Elói de Sousa e Henrique Castriciano.

Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e no ano seguinte perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38 anos.

Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos.

auta-de-souza-001

Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vincentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.

Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro.

Mais tarde, aos catorze anos, recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.

Continuou participando da União Pia das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.

dsc00988
Informativo sobre a venda do livro “O Horto”

Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Junqueira Freire e os potiguares Lourival Açucena, Areias Bajão e Segundo Wanderley.

Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, que preocupavam-se com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.

160px-Auta_de_souza
Auta de Souza

Aos dezoito anos, passou a colaborar com a revista Oásis, e aos vinte escrevia para A República, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade para a imprensa de outras regiões. Seus poemas foram publicados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro.

dsc00054
Parte final do verso “Flor do Campo”, publicado inicialmente no ano de 1899 no jornal A Republica, de Natal.

No ano seguinte, passaria a escrever assiduamente para o prestigiado jornal A Tribuna, de Natal, e seus versos eram publicados junto aos de vários escritores famosos do Nordeste. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum à época.

Também foi publicada nos jornais A Gazetinha, de Recife, e no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte, onde era a única mulher entre os colaboradores. 

eloyirmao
Henrique Castriciano, irmão de Auta

Venceu a resistência dos círculos literários masculinos e escrevia profissionalmente em uma sociedade em que este ofício era quase que exclusividade dos homens, já que a crítica ignorava as mulheres escritoras. Sua poesia passou a circular nas rodas literárias de todo o país, despertando grande interesse. Tornou-se a poetisa norte-rio-grandense mais conhecida fora do estado.

Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, Auta de Souza morria tuberculosa. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, em 1904 seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal. No ano anterior (1900) havia publicado seu único livro de poemas sob o título de Horto, com prefácio de Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão na crítica nacional. Em 1910 saía à segunda edição, em Paris, e, em 1936, a terceira, no Rio de janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

POEMAS MUSICADOS

Outro aspecto importantíssimo da obra de Auta de Souza diz respeito a poemas seus que foram musicados por compositores regionais e transmitidos oralmente de uma geração para outra, desde o final do século XIX até hoje.

dsc03330
Notícia da morte de Auta de Souza no jornal A República, em 8 de fevereiro de 1901

 

Sem considerar aqueles que foram e vêm sendo musicados mais recentemente, e que não tiveram esta vinculação com a tradição oral, tem-se conhecimento da existência de quatorze deles, somando dezesseis ao considerar-se que um deles, Caminho do sertão, conta com três versões melódicas diferentes. Algumas destas canções ficaram conhecidas de norte a sul do país, chegando também a Portugal.

Integrariam esse cancioneiro de Auta de Souza os seguintes poemas musicados: Caminho do sertão, Teus anos, Desalento, Agonia do coração, Ao cair da noite, Ao luar, Meu pai, Nunca mais, Olhos azuis, Palavras tristes, Regina Coeli, À Eugênia, Meu sonho, Rezando (Róseo Menino).

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

POEMAS PSICOGRAFADOS E ORIENTAÇÕES ESPIRITUAIS

Além de seus poemas e de seu cancioneiro, Auta de Souza é conhecida também como uma grande mentora espiritual. Para os seguidores do espiritismo kardecista, que no Brasil hoje somam aproximadamente um milhão e meio de praticantes, a poeta é tida como um espírito superior que atuaria no “planoceleste” enquanto mentora e protetora espiritual.

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

Homenagens

Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra.

Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo: “Longe da mágoa, enfim no céu repousa/Quem sofreu muito e quem amou demais.” 

caminho%20do%20sertao

Caminho do Sertão

 

(A meu irmão João Cancio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço

Vê-la através da mata. Nos caminhos

A sombra desce; e, sem achar descanso,

Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

 

É noite já. Como em feliz remanso,

Dormem as aves nos pequenos ninhos…

Vamos mais devagar… de manso e manso,

Para não assustar os passarinhos.

 

Brilham estrelas. Todo o céu parece

Rezar de joelhos a chorosa prece

Que a Noite ensina ao desespero e a dor…

 

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…

Turíbulo imenso para Deus eleva

O incenso agreste da jurema em flor.

– Auta de Souza, in “Horto”, 1900.

VEJA TAMBEM NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.com.br/2011/04/04/a-historia-do-jasmineiro-de-auta-de-souza-contada-por-palmyra-wanderley/