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LAMPIÃO ENTRE DEUS E O DIABO NA MÚSICA POPULAR

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Racine Santos, diretor de teatro.

Publicado originalmente no jornal TRIBUNA DO NORTE, Natal-RN, Domingo, 07 de Agosto de 1988.

No último dia 28 de julho fez cinquenta anos da morte de Virgulino Ferreira da Silva, o famigerado Lampião. O bandido, o facínora, o malaventurado cangaceiro que durante vinte anos espalhou medo e morte pelos caminhos do sertão. Há cinquenta anos foi degolado aquele que semeou o terror e se fez dono de um reino de fogo, rei de um mundo pardacento, povoado por cascavéis e gaviões, miséria e Injustiça.

Barreira Cangaceiro (2)

Mas, afinal, quem foi esse senhor da vida e da morte? Esse terror do Nordeste? Um Atila, em Espártaco, ou um assassino frio e covarde indigno do mito que hoje o envolve? A verdade é que, cometendo todas as atrocidades que cometeu, ele tornou-se depois de morto uma legenda, uma coisa viva na imaginação popular. Personagem maior no fabuloso romance popular nordestino. Matéria de cinema, ficção, poesia e teatro. Um símbolo do Nordeste, como o mandacaru, o sol e a caatinga. Presente no artesanato, na música, no folclore, e em todas as manifestações artísticas da região. Seu chapéu, “um céu de couro à cabeça com três estrelas fincadas”, no dizer de Carlos Pena Filho, é hoje símbolo de uma cultura.

Curiosamente é que o mesmo povo que dele fugia com medo, inconscientemente o tinha como herói. Não um herói medieval, cheio de virtudes e princípios, mas um herói diferente, com as cores da miséria e da ignorância de um povo que solenemente mastiga areia, pedras e sol enquanto os eternos coronéis se alimentam de seu trabalho mal pago. O medo que o povo conscientemente tinha de Lampião, transformava-se em admiração â nível do inconsciente. Isso a partir de uma identificação: a contida revolta do povo contra a miséria e injustiça, com a insurreição de Lampião contra a polícia, os coronéis e tudo que cheirasse ao poder massacrante. Lampião gritou o grito preso na garganta de muita gente.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

A revolta do cangaceiro contra o poder, representado pela polícia, os coronéis, os latifundiários, os políticos, os grandes comerciantes, incorporava o sonho sonhado do povo. Quando ele “botava prá correr” as volantes da polícia, os pobres do Nordeste que sofriam na pele a arbitrariedade policial, exultavam de alegria. Quando seu grupo incendiava uma fazenda, achavam ruins os moradores explorados? Claro que Lampião não tinha a menor consciência do que representava ou significava. Mas ele era a personificação da revolta da gente pobre do campo, do explorado, do faminto, do sem terra, do sem eira nem beira.

Lampião foi uma das mais brutais e primitivas formas de revolta ocorrida no país. Como, por outros caminhos, fora Canudos de Antônio Conselheiro.

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Quadro de Sérgio Azol – Fonte – http://www.lilianpacce.com.br/e-mais/o-cangaco-mais-alegre-e-colorido-por-azol/

Entre o céu e o Inferno

Depois de morto Lampião virou mito, lenda, história. Senhor do sonho e da imaginação popular. Mexeu tanto com a imaginação do povo que o romanceiro popular, cansado de cantar suas bravuras e bravatas pelos sertões a fora, pelo chão dos penitentes, passou a cantá-lo nos mais diversos lugares, oferecendo-lhe os mais diferentes e insólitos cenários. Para o romanceiro popular a morte não matou Lampião. Transportou-o para outros mundos, deixando uma macabra saudade na alma do povo, como mostra o poeta em seus versos:

“A viola tá chorando

tá chorando com razão

soluçando de saudade

gemendo de compaixão

degolaram Virgulino

acabou-se Lampião”

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Aquele que passou vinte anos saqueando, roubando e matando, pondo em sobressalto as populações sertanejas foi elevado a condição de herói pelo fato de ter incorporado, personificado, a revolta dos pobres do sertão. Embora as forças reacionárias não queiram admitir, Lampião foi um monstro gerado pela injustiça social.

Com sua morte, desaparecendo o perigo real, os poetas do povo, interpretando e liberando a contida admiração que as camadas pobres lhe tinham, as feiras e os alpendres sertanejos se encheram de versos que transformavam o bandido em herói.

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Lampião – Fonte – http://www.itribuna.com.br

E a imaginação dos poetas do povo não tem limites. Assim, Lampião, cansado de enfrentar batalhões de polícia e valentões pelos sertões a fora, foi parar na porta do céu. Claro que lá não entrou. Foi expulso por São Pedro e um batalhão de santos armados com paus e pedras. Em “A chegada de Lampião no céu e a discussão com São Pedro”, o poeta Manoel Camilo dos Santos empresta a seus personagens as cores de seu próprio ambiente e cultura, criando um céu deveras prosaico:

“Chegou no céu Lampião

a porta estava fechada

ele subiu a calçada

ali bateu com a mão

ninguém lhe deu atenção

ele tornou a bater

ouviu São Pedro dizer:

demore-se lá quem é

estou tomando café

só depois vou atender”.

Cópia de 13- Recompensa oferecida pelo cangaceiro
O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Expulso do céu por um São Pedro humano e pachorrento, Lampião, conduzido pelas mãos e pela pena do poeta José Pacheco, foi parar nas profundas do inferno, atanazando o próprio Satanás. Lá também não ficou. Depois de uma renhida luta com um batalhão de diabos soldados de Lúcifer, onde, feito Sansão contra os filisteus, chegou a usar como arma uma queixada de boi, o cangaceiro deixou o inferno em péssima situação:

“Houve grande prejuízo

no Inferno nesse dia

queimou-se todo o dinheiro

que Satanás possuía

queimou-se o livro de ponto

perdeu-se vinte mil contos

somente em mercadoria”

Reclamava Lúcifer:

“Horror maior não precisa

os anos ruins de safra

agora mais essa pisa

se não houver bom inverno

tão cedo aqui no inferno

não se compra uma camisa”.

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Armas de fogo, munições e armas brancas encontradas em grutas que serviram de abrigo aos cangaceiros na Batalha da Serra Grande, em 1926, na zona rural de Serra Talhada.

Lampião vive na imaginação do povo que o transformou nesse estranho herói. Isso no plano da cultura popular. Já no terreno da cultura erudita, a dita cultura de elite, o tema está ainda á espera de um grande escritor, como mereceu Canudos. Segundo Hermilo Borba Filho, o aventuroso amor de Maria Bonita pelo Rei do Cangaço é muito mais rico em situações dramáticas do que a traição sofrida pelo noivo de “Bodas de Sangue”. Mas, enquanto não aparece um Lorca, um Euclides da Cunha ou mesmo um Mario Vargas Llosa, o mito de Lampião voa solto pelas caatingas desafiando os talentos como desafiou o poder. É verdade que sobre ele muitos

escreveram, mas muito pouco disseram. Pois, mais uma vez lançando mão de Carlos Pena Filho…

“… dele mesmo não sabem

e nem nunca saberão,

pois ele nunca viveu,

não era sim, era não,

como essas coisas que existem

dentro da imaginação.

Quem puder que invente outro

Virgulino Lampião”.

SOBRE RACINE SANTOS 

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É um homem de teatro. Autor, produtor, diretor e editor. Tem toda uma vida dedicada ao teatro. Na juventude foi ator, mas um acidente de automóvel o afastou da cena, não do palco.

Nasceu em Natal (RN), em 1948. Boa parte de sua infância passou na pequena cidade de Macaíba (25 Km de Natal), onde teve seus primeiros e marcantes contatos com a cultura do povo, assistindo as brincadeiras de boi-de-reis, pastoril, João-redondo e lendo seus primeiros folhetos de poesia popular. De 1961 a 1965 estudou no Recife, onde conheceu Ariano Suassuna, Hermilo Borba Filho e o artista plástico Abelardo da Hora, pessoas que considera importante para sua formação cultural e maneira de ver o Nordeste e sua gente.

De volta a  sua cidade liga-se ao Teatro de Amadores de Natal, grupo criado e dirigido por Sandoval Wanderley. Em 1976 escreve e dirige sua primeira peça: A Festa do Rei. Onde já se percebe um autor que trabalha a tradição popular assentada em bases eruditas.

Sua preocupação com o teatro da região o leva a fundar em 1992, juntamente com Luís Marinho, Luís Maurício Carvalheira, Altimar Pimentel, Tácito Borralho, Romildo Moreira e outros, a Associação dos Dramaturgos do Nordeste, da qual foi o presidente.

Autor de mais de uma dezena de peças, tem na cultura popular do Nordeste sua grande fonte, não para reproduzi-la, mas como meio de entender sua gente  e falar para ela de maneira direta, clara e viva. 

Além da três peças publicadas neste volume, são de sua autoria, entre outras: A Festa do Rei, A Farsa do Poder, Elvira do Ypiranga, A Ópera do Malazarte, Maria do Ó, Chico Cobra e Lazarino, O Voo do Cavalo do Cão, Bye Bye Natal ( Musical), O Autor do Boi de Prata e a infantil, O Congresso das Borboletas.

FONTE – http://www.ubern.org.br/canal.php?codigo=807

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GERALDO VANDRÉ: O ÍCONE DA MÚSICA DE PROTESTO FAZ 80 ANOS NO COMPLETO OSTRACISMO

Cantor e compositor paraibano cravou o nome da história com canções sociais. Foto: Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press
Cantor e compositor paraibano cravou o nome da história com canções sociais. Foto: Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press

Recolhido ao isolamento, em São Paulo, cantor e compositor paraibano nem sonha em reaver a projeção conquistada com sucessos da música brasileira nos anos 1960

Autora Luiza Maia – Diário de Pernambuco

Fonte – http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2015/09/06/internas_viver,596459/geraldo-vandre-o-icone-da-musica-de-protesto-faz-80-anos-no-completo-ostracismo.shtml

Desde a fatídica entrevista concedida no aeroporto, na companhia de oficiais do regime militar, para anunciar o retorno forjado à pátria-mãe, a vida e a carreira artística de Geraldo Vandré ganharam contornos mitológicos. Naquele dia 18 de agosto de 1973, o paraibano punha um irrevogável ponto final na trajetória popularizada menos de dez anos antes, com o sucesso de Disparada, apesar da promessa de “fazer canções de amor e paz” a partir de então.

Em 12 de setembro, o cantor e compositor cuja obra mais conhecida, Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando), foi tatuada na musicografia nacional como hino durante os anos de chumbo da ditadura militar completará 80 anos em meio ao ostracismo mais notável e longevo de um artista neste país.

Aparições públicas são raras. Na imagem, Vandré em João Pessoa, em 2008. Foto: Arquivo/ON/D.A. Press
Aparições públicas são raras. Na imagem, Vandré em João Pessoa, em 2008. Foto: Arquivo/ON/D.A. Press

As oito décadas são marcadas – especialmente pela liberação das biografias não autorizadas pela Justiça, em junho – com o lançamento de dois livros. Vandré: O homem que disse não, de Jorge Fernando dos Santos, escrito a partir de 2013, após um sonho do autor com o artista, de quem é fã desde a adolescência, foi lançado pela Geração Editorial. Os 100 exemplares de Geraldo Vandré: Uma canção interrompida foram bancados pelo próprio escritor e distribuídos gratuitamente, após recusa das editoras. Com a liberação, sairá em breve por editora já definida.

Funcionário público aposentado, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias – Vandré é a corruptela de Vandregíselo, nome do pai, otorrinolaringologista – mora em um apartamento modesto na Rua Martins Fontes, em São Paulo. “Ele passa boa parte do tempo na casa da irmã, em Teresópolis (RJ). Noutras vezes, se hospeda no Hotel da Aeronáutica, no Rio”, conta o biógrafo Jorge Fernando. A poucos é concedida a honra de adentrar o lar. “É tudo espalhado pelo chão, cheio de livro, disco por todo canto”, conta Marcelo Melo, do Quinteto Violado, um dos instrumentistas do quinto e último disco de Vandré (Das terras de Benvirá), gravado na França, em 1971.

Vandré ficou em segundo lugar, mas foi o preferido do público no 3º Festival de Música Popular Brasileira, em 1968. Foto: Ediouro Publicações/Divulgação
Vandré ficou em segundo lugar, mas foi o preferido do público no 3º Festival de Música Popular Brasileira, em 1968. Foto: Ediouro Publicações/Divulgação

São obscuras as teorias sobre a prisão e as sessões de tortura às quais teria sido submetido entre 14 de julho de 1973, quando retornou ao Brasil, e o dia 18 de agosto de 1973, dia no qual foi gravado enquanto descia de avião da Força Aérea Brasileira (FAB) – veementemente negadas por ele. Na entrevista gravada pelo próprio governo e veiculada na tevê, rechaçou qualquer ligação com partidos políticos e se comprometeu a não escrever canções com teor político.

Chico Buarque e Geraldo Vandré - Foto - Revista Sétimo Céu-Reprodução
Chico Buarque e Geraldo Vandré – Foto – Revista Sétimo Céu-Reprodução

As aparições públicas são discretas, à margem dos holofotes, mas a última surpreendeu até admiradores mais esperançosos. Em março de 2014, subiu ao palco no primeiro show no Brasil da cantora e ativista norte-americana Joan Baez – barrada pela censura em 1981 -, em São Paulo. “Eu vou convidar para o palco um mito. Ele não gosta disso, prefere ser somente um homem. Ele virá aqui, mas não vai cantar, vai ficar do meu lado”, ela apresentou. Com o boné nas mãos e tão emocionado quanto deslocado, o ermitão foi aplaudido calorosamente. Voltou no dia seguinte e declamou Soberana, dedicado a São Paulo.

"Geraldo Vandré" (1964), "Hora de lutar" (1965), "5 anos de canção" (1966), "Canto geral" (1968) e "Das terras de Benvirá" (1971, na França, e 1973, no Brasil) são os LPS lançados por Vandré
“Geraldo Vandré” (1964), “Hora de lutar” (1965), “5 anos de canção” (1966), “Canto geral” (1968) e “Das terras de Benvirá” (1971, na França, e 1973, no Brasil) são os LPS lançados por Vandré

A sonoridade da receptividade remete ao impacto causado pelas letras impactantes e arranjos de apenas duas notas – como instrumentista, ele nunca foi exatamente um virtuoso – nos festivais de música da década de 1960, dos quais foi um dos ícones. Baluarte da música de protesto a partir de 1968, quando enlouqueceu o Maracanãzinho durante a execução de Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando), Vandré tem enorme contribuição no processo de incorporação das raízes sertanejas à música brasileira.

Vandré estreou nos concursos em 1965, aos 20 anos. Defendeu, no I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, Sonho de um carnaval, do amigo Chico Buarque, sem chegar à final. Em 1966, os dois protagonizaram a acirrada disputa entre Disparada, defendida por Jair Rodrigues, e A banda, pelo próprio compositor, com prêmio dividido entre os dois. Em 1968, Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, levou a melhor do júri, mas o público preferia Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando): Cynara e Cybele foram vaiadas no Maracanãzinho por 10 minutos.

Luiz Gonzaga - Fonte - brasileiros.com.br
Luiz Gonzaga – Fonte – brasileiros.com.br

O interesse pelas raízes musicais brasileiras e a origem nordestina o levaram a gravar Asa branca, de Luiz Gonzaga, no LP Hora de lutar – Feira de gado, do Rei do Baião e de Zé Dantas, foi registrada, mas incluída depois em compacto do Trio Marayá. “Asa Branca eu cantei como quem aboia mesmo, e a minha ideia era fazer isso à capela, somente a voz angustiada anunciando a rebelião. Essa foi uma reverência mesmo”, contou, ao site Ritmo Melodia, em 2004. Gonzaga retribuiu. Lançou Pra não dizer que não falei das flores em um compacto, o único dele recolhido pela censura, e Fica mal com Deus, em 1971.

Cantor se exilou na França e no Chile durante a ditadura. Foto: Elias Nassef/O Cruzeiro/EM/D.A Press
Cantor se exilou na França e no Chile durante a ditadura. Foto: Elias Nassef/O Cruzeiro/EM/D.A Press

Muito antes do retorno do exílio e da reclusão, demonstrava traços de uma personalidade forte e difícil. Enfrentava séria dificuldade para seguir uma disciplina de composição ou ensaio e insistia em controlar o processo com modificações e improvisos. Inspirado, modificava letras e melodias constantemente, testando a aptidão técnica – e a paciência – dos colegas.

De volta ao Brasil, após exílio com temporadas na França e no Chile, Vandré morreu. No lugar, renasceu o paraibano Geraldo Pedrosa, filho de José Vandregíselo e dona Martha. Misantropo, o senhor de 80 anos compõe, toca e canta, mas faz questão de passar o aniversário longe dos fãs e da imprensa. A obra, no entanto, dificilmente será esquecida. 

CARTOLA – O POETA DO MORRO

Cartola, um dos mais importantes sambistas brasileiros - Fonte - lounge.obviousmag.org
Cartola, um dos mais importantes sambistas brasileiros – Fonte – lounge.obviousmag.org

Cartola teve uma vida de altos e baixos, trabalhou como pedreiro, contínuo e lavador de carros. Gravou seu primeiro disco aos 65 anos. Conheceu um pouco de popularidade (mas não dinheiro). Suas melodias e versos são simplesmente incríveis. Compositor de “As Rosas Não Falam”, música e letra de sua autoria, um clássico do samba.

A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida

Música – O sol Nascerá / Autor – Cartola

Angenor de Oliveira, ou simplesmente Cartola – apelido que ganhou dos colegas de ofício de servente em virtude de um chapéu-coco que usava para se proteger do cimento que caia – nasceu em 11 de outubro de 1908, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, porém toda a sua infância foi vivida no bairro de Laranjeiras.

Angenor de Oliveira. Sim: com N depois do A, e não Agenor, como é, quase invariavelmente, publicado em jornais, livros e revistas por alguns desavisados ou mesmo por alguns que se pensam avisados

A vida do cantor não constituiu um mar de rosas, de acordo com o que se pode observar lendo estas informações: aos 15 anos de idade, Cartola perde a mãe; aos 17 anos, rompe com o pai, voltando a encontrá-lo 30 anos depois, quando a necessidade o faz voltar a morar com ele, em Bento Ribeiro.

A família foi atingida por uma série de dificuldades financeiras e, se viu obrigada a trocar de ares, agora para o morro da Mangueira, onde uma simples favela começava a ser construída. Foi neste ambiente que Cartola aprendeu a tocar cavaquinho e violão com o pai ainda moleque, tomando gosto pela música e pelo samba.

Com o amigo Carlos Cachaça, compõem muitos sambas desde os 14 anos de idade. Ainda na companhia de Cachaça e de outros amigos, fundaram o bloco dos Arenqueiros e depois a Estação Primeira de Mangueira. Foi Cartola quem sugeriu o nome e as cores verde e rosa, que consagraram a tradicional escola de samba carioca. Ele também foi compositor do primeiro samba-enredo da escola, intitulado “Chega de Demanda”. No campo da composição musical, Cartola compôs mais de 500 canções, várias delas foram vendidas, por bem dizer, a preço de bananas. Além do mais, nesse aspecto, é preciso considerar que inúmeros intérpretes compravam suas canções e as assinavam como sendo seus reais compositores.

Fonte - jadetambemehcultura.wordpress.com
Fonte – jadetambemehcultura.wordpress.com

Para fazer uma ideia aproximada da popularidade alcançada por Cartola, bem como da qualidade inquestionável e duradoura de suas composições, vale dizer que uma de suas músicas, “O sol nascerá”, foi regravada mais de 600 vezes, Nara Leão (1942 – 1989) foi uma das primeiras a gravar o samba, constituindo-se, por tal motivo, na peça musical que mais lhe rendeu dinheiro.

Embora tenha sido muito elogiado por seu círculo de compositores, colegas e admiradores, Cartola só recebeu todos os créditos por sua contribuição à história da música brasileira após sua morte, aos 72 anos, de câncer, quando então já era considerado um dos estetas geniais da música brasileira.

Apesar de ter um determinado reconhecimento dos jornais cariocas das décadas de 1940 e 1950, isso pouco contribuiu para o famoso sambista ter uma melhor condição de vida.
Apesar de ter um determinado reconhecimento dos jornais cariocas das décadas de 1940 e 1950, isso pouco contribuiu para o famoso sambista ter uma melhor condição de vida.

É digno de registro que o compositor ainda é a maior referência para quem quer conhecer a história do samba e compreender muitas das sonoridades presentes no samba contemporâneo.

1930 foi a época de ouro da música brasileira, e Cartola se saiu bem nesse contexto. Isso porque, em 1932, o samba estava valorizado devido ao surgimento da rádio comercial. Com efeito, foi nessa época que Cartola se consagrou como compositor, que Francisco Alves gravou “Divina dama” e que, em decorrência dessa música, que o jornalista Lúcio Rangel lhe deu o apelido de “Divino” Cartola.

Matéria da Revista Semana, 27 de novembro de 1941, quando o pianista e compositor norte-americano Aaron Copland, esteve no Morro da Mangueira visitando Cartola. Ele era membro da equipe de Leopold Stokowki e estava na comunidade na companhia do maestro brasileiro Villa Lobos.
Matéria da Revista Semana, 27 de novembro de 1941, quando o pianista e compositor norte-americano Aaron Copland, esteve no Morro da Mangueira visitando Cartola. Ele era membro da equipe de Leopold Stokowki e estava na comunidade na companhia do maestro brasileiro Villa Lobos.

Outro episódio interessante na vida de Cartola foi quando o maestro Villa-Lobos lhe levou a um navio em que estava Leopold Stokowki (1882 – 1977), famoso regente de orquestra inglês, que assistiu às apresentações de compositores brasileiros. Como resultado desse curioso episódio, Cartola foi escolhido para gravar quatro canções no disco “Columbia Presents”.

A despeito desse relativo reconhecimento, não consegue se sustentar continuando a comercializar seus sambas por quantias irrisórias, se comparadas à sua visível genialidade. Nessa ordem de fatos, Tudo piora em 1946, quando contrai meningite. Nesse período de sua vida, sua então esposa Deolinda cuidou-lhe da saúde, mas, no mesmo ano, ela morre vitimada de infarto.

Em 1942 Cartola chegou a se apresentar em programas de rádio.
Em 1942 Cartola chegou a se apresentar em programas de rádio.

Extremamente entristecido, Cartola se entrega a uma paixão destrutiva por Donária. Com efeito, deixa a Mangueira e o violão, mudando-se para Caju. No final dos anos 40, ocorreu o que pode ser simbolicamente qualificado como a “morte” de Cartola. Ele afastou-se dos amigos, da Mangueira, afogando-se no álcool e na mágoa de um amor não correspondido. Acrescente-se a isso a doença que lhe deixou sequelas pelo resto da vida. Uma delas no nariz. Ele foi acometido de rosácea, ou acne rosácea, que atinge o rosto, e provoca infecções e abcessos. Por consequência, ficou muito magro, perdendo os dentes. Quanto à rosácea, se agravou ainda mais, deixando o nariz feito uma couve-flor negra. Nessa época, quase não aparecia no morro da mangueira e muitos pessoas já nem se lembravam mais dele. Só o amigo Carlos Cachaça continuava a visitá-lo.

Cartola e Dona Zica - Fonte - acervo.estadao.com.br
Cartola e Dona Zica – Fonte – acervo.estadao.com.br

Mas foi Euzébia Silva, Dona Zica, que conquista seu coração e o trás de volta à Mangueira.

Em 1950 o samba perde espaço no mercado e Cartola vai trabalhar em um posto de gasolina. Segundo informações do Portal Palmares, Cartola passou anos esquecido e foi dado como morto, até ser encontrado, por acaso, pelo jornalista Sérgio Porto, em 1956, trabalhando como lavador e guardador de carros, em Ipanema.

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Na sequência trabalha como zelador na Associação de Escolas de Samba. Depois, junto com Dona Zica, abrem o Zicartola em um casarão da Associação que estava prestes a ser demolido. O lugar serviu de palco para as primeiras apresentações de Paulinho da Viola. Nelson Cavaquinho entre outros sambistas também se apresentavam por lá. Apesar do sucesso só funcionou entre 1963 a 1965. Mas foi devido ao sucesso do Zicartola que trouxe o nome de Cartola de volta e em 1974 ele grava seu primeiro LP, que faz grande sucesso. Logo em seguida lança o segundo de igual sucesso, que traz suas composições“As rosas não falam.” E “O mundo é um moinho”. Ao todo Cartola lançou quatro discos-solos.

acervo.estadao.com.br
acervo.estadao.com.br

Depois disso pode viver com certo conforto ao lado de dona Zica e sua família. Deixou a Mangueira e foi morar em Jacarepaguá.

Estava se apresentando no projeto Pixinguinha, percebeu que havia um caroço na garganta, procurou um médico e foi então que descobriu que a carreira não iria longe, estava com câncer. Compôs a música Autonomia, que retrata exatamente o que ele estava sentindo “Se eu pudesse gritaria, não vou não quero”.

Lutou dois anos contra a doença. Já internado manifestou o desejo a família uma semana antes de sua morte “Quando eu morrer, eu quero que Waldomiro (ritmista da Mangueira) toque bumbo.” Carlos Drummond de Andrade lhe prestou uma homenagem “Cartola, no moinho do mundo”.

Cartola em seus raros momentos de lucidez no hospital conseguiu lê-la, morreu três dias depois. E em 30 de Novembro de 1980 o mundo do samba chorou. Aos 72 anos o poeta silenciou. Seu corpo foi sepultado no cemitério do Caju. Atendendo ao seu último pedido, Waldomiro marcava o ritmo para o coro de “As rosas não falam”, cantado por uma pequena multidão.

“Bate outra vez com esperança o meu coração…”

Fonte - http://acervo.estadao.com.br/
Fonte – http://acervo.estadao.com.br/

Cartola costumava comparar sua vida a um filme de faroeste, no qual era o mocinho e só vencia no final. Apesar do grande sucesso de seus sambas, Cartola morre pobre, morando numa casa doada pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Fontes – http://lounge.obviousmag.org/de_dentro_da_cartola/2013/08/cartola-o-divino-poeta-das-rosas.html – PUBLICADO EM MUSICA POR

http://www.informacoesemfoco.com/2015/06/personalidades-negras-que-mudaram-o_6.html#.VXWV589Viko

CASCUDO E O GRANDE ARI BARROSO

CCC

 

Autor – Rostand Medeiros

Dois grandes monstros da cultura brasileira. De um lado Ari Barroso, o inigualável compositor de música popular, mais conhecido como autor de Aquarela do Brasil e do outro o potiguar Câmara Cascudo, historiador, antropólogo, advogado, folclorista e (ufa!) jornalista. Aqui vemos estas grandes figuras em ótima companhia, no Rose Garden Club, no bairro do Leme, Rio de Janeiro, na década de 1950. Ao lado de Ari está a cantora Dilu Melo e ao lado de Cascudo temos Mademoiselle Janrot.

P.S. – Agradeço ao amigo Jorge Alves pelo envio deste interessante material.

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