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ESPÓLIOS DE LAMPIÃO

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Por Sálvio Siqueira

Pesquisador, São José do Egito – PE

É sabido por todo pesquisador que os cangaceiros levavam consigo a maioria dos seus ‘pertences’. Também se sabe que em casos, ou em alguns casos, eles emprestavam, a juros altíssimos, algum dinheiro para as pessoas.

Citam alguns autores que o coronel Zé Pereira, de Princesa Isabel, PB, devia uma grande soma ao “Rei dos Cangaceiros”, e, para não saldar tal dívida, aproveitou o ataque de seu bando, ele não participa, a cidade de Souza, em solo paraibano, convidado pelo jovem cangaceiro Chico Pereira, para colocar seus capangas, e o coronel mantinha um contingente de jagunços maior do que o contingente da Polícia da Paraíba, em seus calcanhares.

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Outra citação é que, ao transpor as água do Velho Chico, Lampião diz “levar muito dinheiro, balas e coragem…” para terras baianas. Na Bahia, há referências de que o chefe de subgrupo, o cangaceiro Zé Baiano, o “Pantera Negra”, vivia a emprestar dinheiro a juros para o pessoal.

Logicamente não se pode negar que, principalmente na ‘fase baiana’, foi a ‘maneira de ganhar’ dinheiro que fascinou tantos jovens, principalmente sergipanos, a adentrarem nos bandos. Sabe-se, através das entrelinhas dos escritores, que o pernambucano José Osório de Farias, o comandante Zé Rufino da Força Pública baiana, comprou algumas fazendas, isso dito por ele, após deixar a Polícia, e foi com os espólios retirados dos corpos dos cangaceiros mortos por sua volante. Além das promoções na hierarquia militar, das recompensas pelas ‘cabeças’ de alguns cangaceiros, que quem matasse um teria direito ao seu espólio.

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Aqui a pulseira, atualmente pertencente a acervo particular, gravada “Maria”, identificando a esposa de Virgulino Ferreira, o Lampeão, identificada e fotografada pelo estudioso Orlins Santana.

O caso mais intrigante, até hoje, não poderia deixar de ser, exatamente, sobre os espólios de Lampião, Maria Bonita, sua companheira, e os outros nove cangaceiros abatidos na grota do riacho Angico em julho de 1938.

A pergunta que não cala é onde foram, ou com quem ficou os espólios dos maiores, mais antigos e mais ‘ricos’ cangaceiros da época?

Seguindo a rota que as cabeças seguiram, conseguimos seguir parte desses ‘tesouro’ até a sede do comando da Força Pública, II Batalhão, na cidade de Santana do Ipanema, AL. Ali, o restante daquilo que fora um dia os espólios dos cangaceiros mortos em Angico, fora divido entre os comandantes. “Restante” por, antes ter sido ‘repartida’ várias coisas entre a tropa, coisa que causou até brigas entre os soldados. Além das cabeças, foram decepadas mãos, dedos e a parte do corpo dos abatidos que estivesse alguma joia ou coisa de valor, dentre outras profanações.

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“(…) Além das cabeças dos cangaceiros, alguns dedos e mãos também foram decepados para a retirada de anéis, bornais foram revirados e até brigas aconteceram pela disputa (…).” (“LAMPIÃO – Sua morte passada a limpo” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos Cesar de Miranda. 1ª edição. 2011)

Após a morte dos cangaceiros no riacho Angico, foi designado um Delegado Federal, Dr° Joel Macieira de Aguiar, para apurar o caso do “tesouro” dos cangaceiros. Em sua investigação descobre que havia pessoas de várias esferas sociais a colaborar com Lampião, na sociedade sergipana, porém, como foram saqueados os pertences dos cangaceiros, até documentos que ajudariam a provar, ou comprovar, a participação dessas pessoas, foi retirada. O interventor do Estado de Sergipe, Dr° Manoel de Carvalho Barroso, é orientado pelo delegado a pedir a seu colega das Alagoas uma verificação por parte da Secretaria de Segurança Pública sobre essa documentação. Porém, nada fora catalogado daquilo que se encontrava em poder do “Rei dos Cangaceiros” e seus asseclas naquele coito.

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Notícia da morte de Lampião e dos membros do seu bando sendo notícia em todo Brasil.

“(…) Não existe, pelo menos de conhecimento público, um inventário oficial e verdadeiro, onde esteja catalogado todo o espólio dos cangaceiros mortos em Angico (…).” (Ob. Ct.)

A coisa, na época, não era de brincadeira. Não poderia, de maneira alguma, vir a público nome de pessoas influentes dos Estados em que Lampião estendeu sua malha e concretizou seu reinado.

“(…) dizem até que, foram encontrados em um dos bornais de Lampião, “um arquivo”, com correspondências de coronéis, políticos e fazendeiros, além de uma fotografia de um oficial comandante de volante, com dedicatória e tudo ao Rei do Cangaço. E tudo foi devidamente “abafado inclusive na imprensa” (…).” (Ob. Ct.)

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Tenente João Bezerra – O matador de Lampião

Devemos lembrar que na época, o País estava sob um Regime ditatorial. A Ditadura Vargas estava em pleno exercício. Um, ou mais um, escândalo desses, o primeiro sobre o caso fora o filme de Benjamin Abrahão, não seria visto de bom grado…

Existe, dentre os pesquisadores/escritores, aqueles que acham difícil haver prova escrita de alguns ‘poderosos’ nos espólios do “Rei dos Cangaceiros”. No entanto, poderia ter sim, alguns nomes dos fornecedores e colaboradores escritos em algum papel… Que Lampião recebia colaboração de pessoas influentes é fato, porém, saber quem realmente eram, é mais uma incógnita do incógnito tema, o qual, seus nomes, parece jamais saberemos.

Na famosa foto, onde ficou registrada parte dos espólios junto às cabeças dos cangaceiros na escadaria da Prefeitura da cidade alagoana de Piranhas, de cara notamos uma ‘arrumação’ quando vemos máquinas de costuras e até um cilhão, sela exclusiva e apropriada para mulheres…

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Sentado e vestido totalmente de branco vemos o oficial João Bezerra e a sua esquerda um dos seus visitantes estende o lenço que estava com Lampião no momento de sua morte.

Sabe-se que foi encomendada uma máquina para que, com ela, fosse ‘produzida’ a indumentária de Zé Ferreira, sobrinho do ‘Capitão’, que estava há poucos dias junto à cabroeira e o tio o faria mais um cangaceiro, o mais novo “Ferreira” no cangaço, mas, não deu tempo. E o que danado fazia uma sela de montaria naquele coito?

Relatos de ex volantes deixam registros de que o comandante da Força Pública alagoana que pôs fim a vida do “Rei Vesgo”, sua ‘Rainha” e parte dos seus cabras, apossou-se da maior parte dos espólios.

“(…) Os soldados são unânimes em afirmar que João Bezerra (tenente comandante da tropa) levou para casa quase tudo de valor que foi encontrado, inclusive dinheiro, prometendo dividir com todos no dia seguinte.

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Facão curto de Lampião: Gavião guarnecido por cachorro, 1938. Coleção privada. In Estrelas de Couro – A estética do cangaço pág. 134.

Os ex-militares José Panta de Godoy, Elias Marques de Alencar e Antônio Vieira, estão entre os que afirmaram em entrevista que havia muita coisa, mas que nada receberam e, acusaram João Bezerra e Ferreira de Melo de terem ficado com quase tudo. João Bezerra e Ferreira de Melo pegaram ainda em Piranhas o que quiseram, pois tiveram tempo suficiente para escolher e separar tudo de valor material e “sentimental” que acharam interessante guardar (…)”. (Ob. Ct.)

Com o passar do tempo, obras literárias trazem em suas entrelinhas a notícia de que partes desses objetos foram adquiridos pelos escritores, comprados mesmo e, pasmem, é através de uma dessas obras que começa-se a descobrir-se que parte daqueles objetos que estão a mostra em museu, não são verdadeiros…

… Os pesquisadores/historiadores, com seu ‘faro’ descobridor, terminam por verem, notarem, que muito das peças expostas em museus, não fizeram parte da tralha do cangaceiro mor.

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“(…) Na época, nenhuma desconfiança foi levantada por alguém quanto a uma possível farsa relacionada aos pertences de Lampião. Mas passaram-se os anos e, pesquisadores mais atentos tiveram sua atenção voltada para o mosquetão que fora apresentado em 1938 como sendo o de Lampião. Frederico Pernambucano de Mello foi um desses pesquisadores, e, afirma em seu livro lançado em 1993, “Quem foi Lampião”, na página 107, ser falso o mosquetão que ora repousa naquele Instituto (Instituto Geográfico e Histórico de Maceió)(…).” (“LAMPIÃO – SUA MORTE PASSADA A LIMPO” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos César de Miranda. 1ª edição. 2011)

A partir do momento, ou do descobrimento, da falsa arma, os olhos e sentidos dos pesquisadores se aguçam mais detalhadamente nesse sentido. O mosquetão usado por Lampião era modelo do ano de 1922, e a imagem do que aparece sendo sua arma, desde a foto das escadas da Prefeitura, em Piranhas, AL, seria modelo 1908. Para leigos no assunto, a coisa passaria despercebida, porém, há dentre os pesquisadores, verdadeiros experts em identificação de armas. E vejam só onde está a diferença:

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De cima para baixo o fuzil metralhadora Hotchkiss 1921, submetralhadora Bergmann 1918, submetralhadora Royal e submetralhadora Bergmann 1934, armas de tecnologia avançada que combateram e destruíram o Cangaço.

“(…) vemos na frente da cabeça de Lampião, um mosquetão sem a presilha dupla no cano, peça encontrada somente no modelo 1908. O modelo 1922 de fabricação belga possui presilha única, mais estreita e braçadeira. Até mesmo os enfeites da bandoleira do mosquetão da foto tirada em Piranhas, são diferentes dos que aparecem na foto do livro “Bandoleiros das Caatingas” e que foi entregue a Melchiadas da Rocha para ser exposto no Rio de Janeiro (…).” (Ob. Ct.)

Uma testemunha ocular, que com Lampião conviveu, andou, lutou e quase morreu junto ao mesmo, no dia do ataque em Angico, em meados de 1938, foi o senhor Manoel Dantas Loyola, no cangaço tinha a alcunha de Candeeiro, que após ter cumprido sua pena passou a morar em sua terra natal no município de Buique, PE, relatando ao pesquisador José Sabino Bassetti que o “Rei Vesgo”, usava um mosquetão de modelo 1922.

“(…) O ex cangaceiro Candeeiro afirmou que havia poucas armas deste tipo entre os grupos e que, Lampião realmente possuía um mosquetão modelo 1922 com a madeira da coronha em tonalidade clara (…).” (Ob. Ct.)

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Tenente José Bezerra e outros oficiais da volante de acabou com Lampião e suas armas.

No discorrer dos acontecimentos descritos, segundo a obra literária pesquisada, encontramos uma citação, retirada do livro “Quem foi Lampião”, de autoria do sociólogo, pesquisador/historiador Frederico Pernambucano de Mello, onde o mesmo afirma ter comprado objetos que pertenciam a Lampião.

“(…) No mesmo livro e na mesma página 107, Frederico Pernambucano de Mello informa que além da família de João Bezerra, comprou também da família de Teodoreto Camargo do Nascimento, joias que pertenceram a Lampião. Vejamos o que diz:

“Parte das joias, antigos acervos dos comandantes volantes João Bezerra e Teodoreto Camargo do Nascimento, compõem hoje a Coleção Frederico Pernambucano de Mello, destinada a servir de base ao futuro Museu do Cangaço do Nordeste. Dela fazem parte ainda lenços de pescoço, cartucheiras, lapiseira, algemas e alpercatas de Lampião”.

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O autor de “Quem foi Lampião” comprou da família de João Bezerra, o lenço de pescoço que o Rei do Cangaço usava na hora da morte, joias, bornais, um par de alpercatas e também os mosquetões que pertenceram aos cangaceiros Quinta-Feira e Sabonete. Da família de Teodoreto Camargo do Nascimento, adquiriu o punhal que pertenceu a Luiz Pedro, um vestido de Maria Bonita, um lenço de pescoço de lampião, além de joias (…).” (Ob. Ct.)

O ataque aos cangaceiros no coito do riacho Angico foi pela manhã do dia 28 de julho, uma quinta-feira, de 1938. Nessa mesma manhã, foram levadas as cabeças e os espólios dos cangaceiros abatidos, mais o corpo da única baixa militar que teve no ataque, o corpo do soldado Adrião, para a cidade de Piranhas, AL.

Após serem as cabeças devidamente colocadas nos degraus da escada da Prefeitura, junto aos aparatos ‘arrumados’, não sabemos informar, pois não encontramos, ainda, o local onde passaram a noite daquele dia. Só na mahã do dia seguinte, 29 de julho daquele ano, uma sexta-feira, ao romper da aurora, é que chega a Piranhas, AL, o comandante do II Batalhão que ficava em Santana do Ipanema, AL, coronel José Lucena de Albuquerque.

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O mesmo segue em caminhão com o cortejo macabro em direção a Pedra de Delmiro, de lá, após outras paradas breves nas cidades, vilas ou povoados na estrada, chegam ao seu destino primeiro onde o esperava o Comandante Geral da Polícia Militar de Alagoas, coronel Teodoreto Camargo do Nascimento.

Naquela cidade, Santana do Ipanema, na sede do II Batalhão, os comandantes, segundo os autores da obra pesquisada, fizeram um ‘conselho de guerra’ com determinação da ‘partilha’ daquilo que fora encontrado no acampamento dos cangaceiros.

“(…) Foi aí que João Bezerra expos aos dois comandantes a totalidade, ou quem sabe até, parte de tudo que conseguiu arrecadar em Angico (…).” (Ob. Ct.)

Pelo que notamos após a narração dos pesquisadores, o montante em joias e dinheiro não fora pouco.

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Havia, naquele tempo, um fazendeiro, grande latifundiário que era um dos maiores colaboradores de Lampião, Audálio Tenório de Albuquerque, que era primo do coronel José Lucena. E é das mãos do primo do comandante do II Batalhão que vemos surgir outros objetos que pertenceram ao cangaceiro mor. Esse primo do coronel Lucena, certa feita vai a capital pernambucana a fim de consultar um oftalmologista, Dr° Isaac, afim de saber qual medicação daria a Virgolino Ferreira, pois o mesmo estava enfermo da vista esquerda, única que tinha.

“(…) O ex militar José Panta de Godoy  afirma que o Tenente Coronel José Lucena “não quis ficar com nenhum objeto que tenha pertencido aos cangaceiros”, mas, quanto ao dinheiro nada comentou. Não disse como soube deste fato, mas, acertou quando afirmou que houve uma divisão do butim entre os comandantes. Na verdade, o coronel Lucena ficou com alguns objetos que foram depois repassados ao amigo e primo Audálio Tenório de Albuquerque e, hoje, também pertencem a coleção de Frederico Pernambucano de Mello (…).” (Ob. Ct.)

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Joaquim Resende sendo entrevistado por Melchiades da Rocha em Santana do Ipanema

O cangaceiro, mistificado, produzido e aparentado por Lampião, diferenciava-se daqueles que os antecederam. Suas vestimentas não eram para camuflarem-se, pelo contrário, havia uma necessidade de mostrar-se, aparecer e ser visto pelas pessoas, exibindo-se mesmo. Com isso, muitas foram às pessoas que viram as peças artesanais, moedas e enfeites de algum metal precioso servindo de adorno para testeiras, barbicachos e bandoleiras das armas longas.

O tenente que comandou o ataque aos cangaceiros na grota do riacho Angico, o pernambucano João Bezerra, não negou nem escondeu que tinha em seu poder os objetos que outrora pertencera a Lampião e seu bando. No entanto, sempre discordou, quando citavam que tivesse ficado com algum montante em contos e mil réis.

Já o comandante Ferreira de Melo, deu entrevista citando sobre o assunto…

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A riqueza do ‘tesouro’ dos cangaceiros é, principalmente hoje, incalculável. Além dos objetos históricos, tinha a quantia em dinheiro, o ouro e as joias.

O comandante Ferreira de Melo, em entrevista, fala sobre eles:

“(…) Era grande a riqueza em poder dos bandidos, principalmente em face dos anéis e medalhas de ouro e prata que quase todos possuíam. Fiquei com alguma coisa, como todos ficaram, porém, quase de nada me serviu, de vez que vendi quase de graça, por preço muito aquém do verdadeiro valor. Outros souberam aproveitar e se saíram muito bem graças a Deus. Outros pertences, documentos diversos, retratos, etc, o “Rei do Cangaço”, os conduzia em uma latinha, com tampa, feita dessas latas de óleo vegetal, vendidos em toda parte. Fiquei com algumas fotografias, das quais algumas ainda figuram em meu álbum como única recordação, que se junto às tristes recordações que conservo dos idos que espero jamais venham a ressurgir. ­– GAZETA DE ALAGOAS – 14 de dezembro de 1965.(…).” (Ob. Ct.)

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Fonte – canalcienciascriminais.com.br

Na declaração do comandante Ferreira de Melo, notamos que os espólios, realmente, fora em uma quantidade grande. Chama-nos a atenção quando o mesmo refere a ‘lata de óleo vegeta’, e nela estarem guardado “documentos”, não citando que tipo de documentação seria. Nesses documentos, estaria a resposta para as inúmeras perguntas que pairam no ar? Neles, estaria ou estão guardados tudo aquilo que desvendaria o tão grande mistério que ainda envolve a morte do chefe cangaceiro? Difícil responder, pois o comandante refere que ficou com algumas fotografias, no entanto, sobre os documentos, nada citou na entrevista, pelo menos a que fora publicada.

Outros pesquisadores/historiadores, de renomes, dentro da historiografia cangaceira também tiveram contatos com os comandantes da derrocada final.

Em princípios de 1969, o pesquisador/historiador Antônio Amaury Correa de Araújo, tendo vindo da terra da garoa, vai à cidade de Garanhuns, no Estado do Leão do Norte, fazer uma visita/pesquisa na casa daquele que fora o comandante do ataque ao acampamento dos cangaceiros na grota do riacho Angico, em meados de 1938, então coronel João Bezerra.

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Desenho de Ronald Guimarães – Fonte – http://marvel-nat.forumeiros.com/t186-trama-base-do-forum

O historiador nos relata os objetos que vira no acervo particular do comandante, aos quais dá o nome de troféus.

“(…) Armas curtas; vários fuzis; punhais; duas máquinas de costuras do tipo manual; um par de algemas, um jogo de bornais; uma corrente de ouro, bastante grossa e pesada, pendente da mesma um medalhão e um crucifixo de ouro; uma aliança larga e pesada, de ouro puro (…).” ( “ASSIM MORREU LAMPIÃO” – ARAÚJO, Antônio Amaury Correa de.)

O escritor paulista, narra à beleza que viu em uma peça que pertencera ao “Rei Vesgo”. Trata-se de um facão, muito bem trabalhado em sua lâmina e no seu cabo. Tratando-se de uma verdadeira obra de arte. Logicamente a pergunta que todos faziam veio à mente do pesquisador, e ele a fez ao comandante:

“(…) Perguntamos sobre o ouro e o dinheiro que Lampião trazia consigo (…).” (Ob. Ct.)

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Sempre que fora inquirido sobre essas coisas, ouro e dinheiro de Lampião, conta-nos os escritores que o coronel dava respostas evasivas, contraditórias, sentindo-se incomodado com o assunto. Ao ser inquerido pelo pesquisador Dentista, João Bezerra respondeu, segundo o historiador:

“(…) que tinha sido carregado pelos que escaparam (…).” (Ob.Ct.)

Não estando convencido, nem contentado, com a resposta do coronel, o autor de “Assim Morreu Lampião”, procura seus familiares e faz a mesma pergunta. A resposta dos familiares nos mostra a quantidade e incalculável valor do que fora os espólios dos cangaceiros.

“(…) No mesmo dia, porém, por familiares do nosso hospedeiro, fomos informados que o mesmo (João Bezerra) arrecadara ouro, joias, anéis em quantidade suficiente para encher duas pequenas bacias. Dinheiro também, parece que mais de 100 contos, quantia bastante elevada na época (…)”. (Ob. Ct.)

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Fonte – nosrevista.com.br

A ordem expressa para acabar de vez com Lampião e seu bando, partiu diretamente do Palácio do Catete, na Capital do País, Rio de Janeiro, pelo então Presidente da República, Getúlio Vargas. Após ter cumprido a ordem, o comandante João Bezerra da Silva e sua esposa, D. Cyra Brito, são convidados e aceitam para jatarem com o Presidente Vargas e sua esposa, D. Darci. Lá estando, João Bezerra dá de presente à primeira dama do país, joias que pertenceram a “Rainha dos Cangaceiros”.

Ele mesmo, João Bezerra, na época já tendo sido promovido a Capitão, no livro da escritora Aglae L. de Oliveira, “Lampião, Cangaço e Nordeste”, na página 35, relata para autora:

“- Numa dessas visitas ao Catete (Palácio do Catete, sede do Governo Federal na cidade do Rio de Janeiro), lembro-me de que D. Darci Vargas(primeira Dama da Nação) disse, no momento em que lhe mostrei as joias: “Que broche lindo! Capitão este é lindo!” Eu imediatamente lhe fiz presente.”

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 João Bezerra

A pesquisadora/escritora Aglae L. de Oliveira, também nos relata, através de seu livro “ Lampião, Cangaço e Nordeste”, uma entrevista, ou parte dela, que teve com o comandante Bezerra.

A.O. = Aglae Oliveira

J.B. = João Bezerra

(A.O) “- Coronel Bezerra, o sr. é acusado de ter desviado o dinheiro de Lampião?”

(J.B.) “– Sim, estou. Dizem que o meu interesse de persegui-lo era para ficar com o dinheiro.”

(A.O.) “– Quantas joias aproximadamente apreenderam?”

(J.B.) “– Davam para encher duas bacias. Eu fiquei ferido e os soldados foram donos de tudo. Para mim os objetos dele davam azar.”

(A.O.) “– O senhor guardou alguma coisa? Refiro-me a joias.”

(J.B.) “– Eu tinha uma caixinha cheia. Quando os amigos mostravam desejo de possuir uma, eu dava de presente. Minha esposa quis ficar com várias, inclusive uma tesoura de unhas toda de ouro. Não consenti que ela usasse.”

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Lampião – Fonte – lounge.obviousmag.org

O ataque aos cangaceiros ocorreu na manhã do dia 28 de julho, no riacho Angico, município de Poço Redondo, SE, e nessa mesma manhã, a tropa sobe a correnteza do “Velho Chico”, chegando com as cabeças dos cangaceiros abatidos, o corpo do soldado Adrião e o que foi ‘arrecadado’, na cidade de Piranhas, AL. No dia 29 de julho, espólios e cabeças, troféus macabros, chegam à cidade de Santana do Ipanema, AL, na sede do II Batalhão e, somente no dia 31 do mês de julho de 1938, chegam a Capital alagoana. Vejam bem, o que levaram para Maceió, capital das Alagoas, e lá chegaram no dia 31 de julho, só é catalogado a mando do Comandante Geral da PMAL, no dia 9 de agosto do mesmo ano, como mostra o boletim militar de número 176 de 09 de agosto de 1938.

O jornalista Melchiades da Rocha solicita um inventário dos Espólios dos Cangaceiros mortos na grota do Angico, a fim de leva-los, ou parte deles, e expô-los na Capital do País, Rio de Janeiro.

“(…) Coincidentemente, foi no dia 09 de agosto que foi feito o “inventário” dos objetos de Lampião que foram entregues ao jornalista Melchiades da Rocha para serem expostos no Rio de Janeiro (…).” (“LAMPIÃO – SUA MORTE PASSADA A LIMPO” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos César de Miranda. 1ª edição)

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O já conhecido anúncio de recompensa por Lampião, pretensamente oferecido pelo governo baiano.

Fica evidente que boa parte das armas, o dinheiro, as joias e o ouro que estavam em posse dos cangaceiros foram arrematados em Santana do Ipanema, AL, ou mesmo antes. Lembremos que as cabeças chegaram a Piranhas, AL, no dia 28 e só no outro dia, numa sexta-feira, 29 de julho de 1938, é que seguiram para a sede do II Batalhão.

Não esperavam os comandantes, tanta repercussão sobre a morte dos bandidos que há muito tempo aterrorizavam os sertões nordestinos. Autoridades de outros Estados, a imprensa e a população geral, queriam ver os objetos que pertenceram ao bando de Lampião. Não existindo outra forma, naquele momento, fora colocado armas e outros objetos substituindo os verdadeiros, como forma de dar uma satisfação a todos. E, naquele momento, teve êxito. Quanto aos objetos de valor, ouro joias e o dinheiro, não ocorreram substituições, apenas teve-se notícias de uma joia aqui, outra ali… E assim sucessivamente.

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Cangaceiros mortos em Angicos. Foto colorida por Rubens Antônio – Fonte – http://www.jeremoabo.com.br/web/index.php/noticias/21-politica/1866-semana-do-cangaco-de-piranhas-sera-de-24-a-27-de-julho

“(…) baseados em documentos da Polícia Militar de Alagoas, entrevistas de ex-militares e nos relatos do jornalista Melchiades da Rocha, podemos afirmar que a grande maioria dos objetos de Lampião, Maria Bonita e dos demais cangaceiros, fez o trajeto de Piranhas até a sede do II Batalhão em Santana do Ipanema onde, desprezando-se completamente a lei, houve a divisão entre os comandantes (…).” (Ob. Ct.)

Após tantas informações notamos a confusão que se deu no comando militar, depois que é concedido ao jornalista o direito de levar os objetos para ficarem em exposição. A pressa é inimiga da perfeição, e mais uma vez, isso nos é confirmado quando o ‘procedimento de carga’ desse Espólio fora feito. Não fora incluído no mesmo a quantidade, tipo, nem a numeração. Segundo os autores, Bassetti e Megale, até fora dada saída em objetos que não tinham sido catalogados na entrada, ou seja, apreendidos.

Não somos ‘donos’ da verdade, porém, procuramos ir buscá-la aonde ela encontra-se. A história muda a cada dia, devido a descobertas de novos fatos ocorridos em cada período.

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Xilogravura de J. Miguel, famoso artista popular nordestino – Fonte – http://marcosnogueira-2.blogspot.com.br/search?q=Pombal

Fonte “LAMPIÃO – Sua morte passada a limpo” – BASSETTI, José Sabino. e MEGALE, Carlos César de Miranda. 1ª edição.

Foto Armas On-Line, História Militar Online, Lampiãoaceso.com, Cangaçonabahia.com e Jornal Extra de Alagoas, Ob. Ct.

 

NATAL, 1935: QUATRO DIAS SOVIÉTICOS

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A bandeira de Natal com a estrela, a foice e o martelo | Crédito: Montagem Fabio Marton

A capital do Rio Grande do Norte viveu sob um breve regime comunista

Autor – Marcus Lopes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/natal-1935-dois-dias-sovieticos.phtml#.WEyVPYWcHIV

Durante quatro dias, o Brasil viveu a experiência de um governo comunista. Foi em 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte. Após um levante militar ocorrido no Batalhão do Exército, a capital potiguar caiu nas mãos dos rebeldes, que destituíram os governantes locais dos seus cargos – incluindo o governador do estado e a Assembleia – e assumiram o poder com apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luís Carlos Prestes. Sob o lema “pão, terra e liberdade”, os revolucionários almejavam dar o pontapé inicial para a instalação de um regime soviético no Brasil.

O levante começou na manhã de 23 de novembro, um sábado. O dia em Natal, que contava com cerca de 40 mil habitantes, começou calmo e prometia poucas novidades. A principal notícia era uma formatura no Teatro Carlos Gomes, à noite, que contaria com a presença do governador Rafael Fernandes.

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Cais da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

No quartel militar do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) o dia também corria tranquilo até que chegou a informação de que o general Manuel Rabello, comandante da 7ª Região Militar, no Recife, havia autorizado o licenciamento de alguns cabos, soldados e tenentes que estavam com tempo vencido na carreira militar e a expulsão de outros, acusados de envolvimento em incidentes de rua ocorridos dias antes em Natal, incluindo assaltos a bondes.

O documento com a ordem de expulsão precipitou um movimento que estava sendo articulado havia vários dias entre lideranças militares e sindicatos locais junto com membros do PCB estadual. O objetivo era apoiar a revolução nacional que estava sendo preparada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), no Rio.

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O 21º Batalhão de Caçadores

“Havia uma preparação para o levante sob a direção do Partido Comunista, que atuava no 21º Batalhão de Caçadores e em vários sindicatos locais. Eles apenas aguardavam as orientações do comitê central”, afirma Homero de Oliveira Costa, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e estudioso da insurreição de Natal. Somando-se a isso, Costa lembra que a cidade já vivia momentos de tensão política desde o ano anterior. “O Rio Grande do Norte teve uma das mais tumultuadas eleições do país, com diversos conflitos de ruas, assassinatos, prisões e repressão. Isso criou uma situação muito tensa no Estado, e em Natal em particular”, diz.

Erro de comunicação

Os acontecimentos daquele sábado se precipitaram de tal maneira que não houve tempo nem de avisar a ANL, cujos líderes (incluindo Prestes) aguardavam o melhor momento para eclodir a revolução em nível nacional. Em função das expulsões ordenadas pelo comando militar no Recife, o PCB estadual e os integrantes do Batalhão decidiu dar início ao motim naquele mesmo dia.

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Luís Carlos Prestes – Bundesarchiv; BArch

Por volta das 19h30, um grupo de militares rebeldes, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros, rendeu os oficiais de plantão do quartel e, com fuzis apontados para a cabeça dos soldados, ordenaram: “Os senhores estão presos em nome do capitão Luís Carlos Prestes”. Não houve resistência e, a partir daí, os revolucionários, liderados por Quintino e apoiados por grupos civis organizados (como o sindicato dos estivadores, que era muito forte na cidade), tomaram o quartel e ocuparam locais estratégicos: o palácio do governo, a Vila Cincinato – residência oficial do governador -, a central elétrica, a estação ferroviária e as centrais telefônica e telegráfica.

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Resultado do ataque comunista ao Quartel da Salgadeira, no Centro de Natal.

Informado sobre a confusão e a organização dos amotinados ainda na cerimônia dos contabilistas, o governador e demais autoridades civis e militares fugiram e se esconderam na casa de aliados. No quartel da Força Pública, cuja sede ficava próxima ao batalhão rebelado, ensaiou-se uma resistência legalista com policiais fiéis ao governo, vencida pelos militares rebeldes, no momento mais organizados e bem armados.

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Quintino Clementino de Barros, militar e músico do 21º Batalhão de Caçadores, presidente do Comitê Popular Revolucionário, quando já preso pelas forças do governo.

Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada. Na residência do governador, sede dos rebelados, formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.

Em seguida, o Comitê Revolucionário começou a tomar medidas práticas. A primeira foi um decreto com a destituição do governador do cargo e a dissolução da Assembleia Legislativa “por não consultar mais os interesses do povo”. As tarifas de bondes foram extintas e o transporte coletivo tornou-se gratuito.

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De cigarro vemos Mário Lago, ex-diretor da Casa de Detenção de Natal e Mário Paiva, comissários do Comité Revolucionário, quando detidos.

Na segunda-feira, o comércio e os bancos não abriram. À tarde, foi ordenado o saque dos cofres da agência do Banco do Brasil e Recebedoria de Rendas. O dinheiro foi confiscado em nome do governo revolucionário e parte dele distribuído à população, que adorou a novidade, mesmo sem ter muita noção do que estava acontecendo.

Pura farra

“A população confraternizava com os rebeldes. Era mais uma festa popular ou um carnaval exaltado, do que uma revolução”, explica o historiador Hélio Silva em seu livro 1935 – A Revolta Vermelha. “Casas comerciais foram despojadas de víveres, roupas e utensílios domésticos que aquela gente não podia comprar. Houve populares que, pela primeira vez, comeram presunto”, de acordo com o historiador.

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Da esquerda para direita vemos o ex-sargento Diniz, do 21º Batalhão de Caçadores, José Macedo, ex-tesoureiro dos Correios e Telégrafos e João Baptista Galvão, considerados “figuras salientes” do governo comunista instalado em Natal em novembro de 1935.

Um dos líderes do movimento, João Galvão, relatou posteriormente o que aconteceu naqueles dias: “O povo de Natal topou a revolução de pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte coletivo seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar”.

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Líderes comunistas do levante natalense presos pelas forças legalistas.

Para se comunicar com a população, um avião foi confiscado no aeroporto e sobrevoou a cidade despejando milhares de folhetos. No curto período em que se mantiveram no poder, os revolucionários também distribuíram o primeiro e único número do jornal A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado. Nele, foi publicado o expediente do novo governo e um manifesto, inspirado no programa do PCB e sob o lema “todo poder à ANL”.

Cada um por si

Segundo o professor Homero Costa, o pouco tempo em que permaneceram no poder impediu que os revolucionários tomassem outras medidas práticas. “Houve boatos de que na Vila Cincinato estavam distribuindo alimentos à população, o que levou muita gente a se deslocar para lá, mas não era verdade”, diz Costa.

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Foto que mostra os efeitos do arrombamento do cofre da agência do Banco do Brasil em Natal.

Mesmo assim, algumas medidas típicas de regimes de exceção foram tomadas naquele começo de semana, como salvo-condutos para circulação nas ruas e ordens para que o comércio e os bancos funcionassem normalmente, o que, claro, não aconteceu. “Os comerciantes foram orientados a negociar como de costume, sem estocarem alimentos para elevar os preços. Caso isso ocorresse, os estoques seriam confiscados pelo governo”, diz Elias Feitosa, professor de história do Brasil do Cursinho da Poli, lembrando que alguns gêneros alimentícios, como o pão, também tiveram o preço reduzido.

O levante não ficou restrito a Natal. Houve uma interiorização do movimento no Rio Grande do Norte. “Foram formadas três ‘colunas guerrilheiras’ que ocuparam 17 dos 41 municípios do estado, destituindo prefeitos e nomeando outros”, diz Homero Costa.

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“Foi bala muita” – Fachada do Quartel da Salgadeira, atingido por disparos efetuados pelos comunistas.

Pequenas localidades, como São José de Mipibu, Ceará Mirim e Baixa Verde (atual município de João Câmara) foram ocupados sem resistência e os prefeitos substituídos por simpatizantes da ANL. Agências bancárias e do governo (as coletorias de renda) foram saqueadas e o dinheiro enviado para a capital. Na terça-feira, a intentona potiguar começou a revelar sua fragilidade com a movimentação de tropas do Exército da Paraíba e de Pernambuco rumo a Natal para debelar o movimento e restabelecer a ordem.

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Sargentos legalistas do Exército Brasileiro, que ficaram prisioneiros dos comunistas no quartel do 21º Batalhão de Caçadores.

Em uma localidade chamada Serra do Doutor, um dos grupos da ANL foi preso por tropas leais a Getúlio Vargas. Informados de que tropas federais entrariam em Natal e com a possibilidade de bombardeamento aéreo, os líderes do “governo revolucionário” fugiram na base do cada um por si. Um deles, Praxedes, viveu foragido durante anos. Os demais foram capturados e enviados para o Rio de Janeiro com outros presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos.

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De chapéu de palha vemos Dinarte Mariz, tendo ao seu lado Enoch Garcia, considerados os idealizadores da resistência ao avanço comunista no Seridó Potiguar, que se efetivou com o combate na Serra do Doutor. Certamente que politicamente Dinarte foi um dos que mais usufruiu politicamente da sua suposta ação de resistência contra as forças comunistas, chegando a se tornar governador e senador pelo Rio Grande do Norte.

O mesmo aconteceu nas cidades do interior. Com a fuga, os militares enviados pelo governo federal não tiveram dificuldades de controlar a situação. O governador Rafael Fernandes foi reconduzido ao cargo e, a partir de quarta-feira, dia 27 de novembro, a vida voltou ao normal na cidade que, durante cerca de 90 horas, abrigou, como escreveu Hélio Silva, “o primeiro, único e fugaz governo soviete na história do Brasil.”

Intentona comunista

No mesmo dia em que o “governo comunista” era encerrado no Rio Grande do Norte, o movimento tenentista deflagrava, no Rio de Janeiro, uma insurreição para derrubar o presidente Getúlio Vargas e instaurar um regime comunista no Brasil. Liderado por Luís Carlos Prestes, o levante ficou conhecido como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha. Os amotinados se rebelaram em vários regimentos e batalhões do Rio, mas foram rapidamente sufocados pelas forças de segurança nacional.

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A insurreição estava sendo preparada desde o ano anterior. No final de 1934, Prestes, que estava na União Soviética havia três anos, retornou ao Brasil para organizar a revolução comunista. Acompanhado de sua mulher, Olga Benário, militante do partido comunista alemão, eles desembarcaram clandestinamente com os nomes falsos de Antônio Villar e Maria Villar. Além do casal, vieram outros estrangeiros para ajudar na revolução. Entre eles, o argentino Rodrigo Ghioldi e sua mulher, Carmen; o casal alemão Elisa Sabarowski e Arthur Ewert; os belgas Lion Valle e sua mulher, Alphonsine; o alemão Franz Gruber e o norte-americano Victor Allen Baron.

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Intentona Comunista de Natal de 23 de novembro de 1935 foi notícia em todo mundo, como neste material publicado em um jornal dos Estados Unidos.

Todos, incluindo Prestes, eram militantes da Internacional Comunista, que via no Brasil um terreno fértil para a revolução. “O PCB era uma seção da Internacional Comunista e estava inserido no que a entidade chamava de ‘países coloniais e semicoloniais’, para os quais havia estratégias revolucionárias distintas. No caso, ao contrário dos países capitalistas ‘avançados’, a estratégia era a via insurrecional”, explica o cientista político Homero Costa, da UFRN, sobre a participação do Komintern no movimento de 1935, que registrou ações em Natal, Recife e no Rio. Após a rebelião em Natal, ocorreu um efeito dominó em outras praças que também estavam sendo preparadas e treinadas para a revolução.

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“O que ocorreu em Natal pegou todos de surpresa, inclusive o comitê central. Os levantes no Recife, no dia seguinte ao de Natal, e no Rio de Janeiro, foram em consequência dessa precipitação”, diz Costa, lembrando que a insurreição nacional estava planejada apenas para o início de 1936.

“O levante de Natal fez parte do contexto da Intentona Comunista. A ideia era que a revolução fosse em escala nacional. Porém, nem todas as guarnições envolvidas se engajaram ao mesmo tempo”, diz o historiador Elias Feitosa. A ação da Internacional serviu como justificativa para que Getúlio Vargas instaurasse o Estado Novo, em 1937.

REVITALIZAÇÃO DA RUA CHILE: DUAS DÉCADAS DEPOIS, POUCA COISA SOBREVIVEU

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Largo da Rua Chile, Ribeira, Natal-RN – Fonte – http://www.orquideacondominium.com/espanhol/index.php?page=natal

Autor do texto – Henrique Arruda – Novo Jornal

Fonte – http://novojornal.jor.br/cult/revitalizacao-da-rua-chile-duas-decadas-depois-pouca-coisa-sobreviveu

Há 20 anos a Rua Chile inaugurava a sua primeira e até então única restauração. O projeto remoldurou a vida cultural da capital potiguar, que encerrou a década de 90 como o reduto de bares e pubs emblemáticos. Duas décadas depois, pouca se salvou e apenas dois empreendimentos continuam funcionando. O NOVO reconta esta história e traça um “Raio X” da atual situação do local.

Procurado pela Secretaria de Turismo e Cultura da época, em 1996, o arquiteto Haroldo Maranhão foi o responsável por realizar o projeto de restauração que ele começou a esboçar quando ainda era estudante do curso de arquitetura na UFRN e apresentou como Trabalho de Conclusão de Curso uma revitalização para o bairro da Ribeira. Era década de 80 e o assunto pouco discutido.

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A ideia da revitalização da Ribeira já era um desejo antigo – Diário de Natal, 19 de março de 1981, página 2.

“Por conta do meu TCC me chamaram para conduzir um projeto que inicialmente iria apenas pintar a fachada das casas voltadas para o rio, então eu propus um estudo mais fundo, de revitalização mesmo da rua, e assim o projeto foi reformulado”, conta sobre a pesquisa iniciada no começo dos anos 90, interrompida por alguns anos e retomada apenas em meados de 95.

Descascando todas as fachadas, Haroldo descobriu junto com seu escritório a verdadeira arquitetura de todos os prédios cujo orçamento de revitalização permitiu, 45 casarões exatamente, localizados entre o largo da Rua Chile até o encontro da rua com a Avenida Tavares de Lira. Na época o centro histórico de Natal não era tombado como patrimônio histórico nacional, o que só veio acontecer em 2010.

“Nós trabalhamos todo um conjunto arquitetônico e o impacto daquilo foi imediato porque foi apenas depois disso que o olhar da cidade se voltou pela primeira vez para a questão patrimonial. Antes só se pensava nisso através das crônicas de Câmara Cascudo ou Vicente Serejo”, diz, mencionando ainda como uma das consequências imediatas a formulação antes inexistente de passeios escolares pelo local.

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Ainda na década de 1980 Jaime Lerner defendia a revitalização da Ribeira. Diário de Natal, 14 de julho de 1987, pág. 3. Jaime Lerner é um político, arquiteto e urbanista brasileiro, filiado ao Democratas. Foi prefeito de Curitiba por três vezes e governador do Paraná por duas vezes. Foi eleito presidente da União Internacional de Arquitetos em julho de 2002 – Fonte – http://agorarn.com.br/cidades/video-abandonada-ribeira-sofre-com-o-descaso-do-poder-publico/

“O que dói desde a época em que estávamos fazendo o projeto é que sabíamos da descontinuidade política, tanto que está completamente abandonada pelo poder público até hoje, como você bem me lembrou ao entrar no escritório, há 20 anos”, comenta o arquiteto, remexendo em gavetas antigas à procura de fotos históricas de como a Rua Chile estava antes do projeto de restauração.

Na opinião de Haroldo, o essencial agora para a Rua Chile e o bairro da Ribeira, como um todo, é a aproximação do poder público. “Você não vê a presença do poder público no local. É inexistente em todas as questões que lhe compete, como segurança, paradas de ônibus, coleta de lixo e outros vários fatores”, opina, mencionando ainda a importância da “Lei Operação Urbana Ribeira”, caducada desde 2014, que isentava de impostos os estabelecimentos comerciais do bairro.

“Era uma lei que permitia ao empresário disposto a investir na Ribeira a isenção de impostos, como IPTU, ISS e outros… E isso é muito importante para atrair novos agentes, sem falar de novos investimentos em moradia também para o surgimento de farmácias e padarias, por exemplo”, ilustra.

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Rua Chile, Ribeira, Natal-RN – Fonte – http://3.bp.blogspot.com/-2OL4nHHzfb4/TjQZ3ekpHpI/AAAAAAAAAII/tid3_Ey1wbg/s1600/RuaChileNatalRN.jpg

Desafio de resistência

Atualmente com apenas dois pubs em funcionamento constante, o “Ateliê Bar” e o “Centro Cultural Dosol”, a Rua Chile ainda permanece como a opção mais certeira aos que desejam ouvir música autoral potiguar, ou fazer parte do movimento de resistência cultural no bairro, que se estende à sua rua vizinha, Frei Miguelinho, onde funcionam: A BOCA Espaço de Teatros, Casa da Ribeira, Espaço A3 e Giradança.

“É uma batalha diária ter um espaço na Ribeira, e uma prova de resistência cultural/respeito com a história da cidade”, explica Anderson Foca, idealizador do Centro Cultural Dosol, às vésperas de mais uma edição do Festival Dosol, que entre os dias 11 e 13 de novembro vai levar para a Rua Chile mais de 70 shows.

“Acho que enquanto o poder público não olhar a Ribeira com o potencial que o bairro tem vamos sempre ficar nessa corda bamba interminável. As vezes rindo, as vezes chorando mas sempre pronto pra estar lá”, comenta Foca, revelando que um dia o Festival Dosol também pode deixar o bairro.

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Fonte – http://agorarn.com.br/cidades/video-abandonada-ribeira-sofre-com-o-descaso-do-poder-publico/

“Penso em uma edição fora da Rua Chile, mas não por causa da Ribeira em si, e sim pela logística de receber artistas, tamanho dos palcos e coisas do tipo. Temos um sonho de fazer o dosol na praia, de dia e coisas assim. Mas a ribeira continuará sendo a principal incubadora do dosol e dos artistas da cidade”, explica.

Na opinião de André Maia, idealizador do Ateliê Bar, algumas melhorias pontuais foram observadas na Rua Chile recentemente, como a iluminação de LED instalada no largo. 

“É claro que isso precisa se estender a todo o bairro, mas ajudou bastante. A segurança também melhorou, mas está muito além do que um centro histórico precisa, no mínimo um posto policial fixo”, comenta, mencionando o Terminal Marítimo de Passageiros de Natal, concluído desde julho de 2014, mas nunca aberto a população.

“É um grande elefante branco, o que é um absurdo porque poderia ser um dos principais motivos para impulsionar a economia da área”, afirma o dono do estabelecimento que vem funcionando de quintas a domingos e nas quartas-feiras uma vez por mês, sempre com shows e outras ações bastante frequentadas. 

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Fonte – http://blogtangaraense.com.br/wp-content/uploads/2016/11/rua-chile-.-ribeirafoto-rodrigo-sena-620×415.jpg

“Nos tempos de Blackout”

O professor de História Carlos Henrique Pessoa Cunha avalia que a efervescência da Rua Chile durou de 1997, com o surgimento do emblemático “Blackout” até meados de 2002, como ele conta em seu livro, fruto de sua dissertação de mestrado em História, “Nos Tempos de Blackout” (Jovens Escribas/2014).

“Foi a restauração dos casarões que impulsionou o processo de reocupação da rua pelos agentes de cultura. A reforma em si, aliás, não deu garantias de que a rua seria revivida, e sim o surgimento dos bares, em especial o Blackout que se tornou emblemático”, opina citando o bar já fechado nos dias atuais.

Ainda de acordo com o professor a maior diferença da Rua Chile no final dos anos 90 para a atual Rua Chile é a periodicidade das ações. “O que existem hoje por lá são eventos culturais, como a Virada Cultural, o Circuito Ribeira, o Festival Dosol, mas falta a periodicidade das ações. Diferente do final da década de 90, quando independente do dia sempre tinha algo de bom rolando na Ribeira em vários pontos diferentes”, compara.

O professor observa ainda que a movimentação cultural da Rua Chile existiu desde o começo do século XX, dando “uma esfriada” apenas entre os anos 70 e 80, até ressurgir em 1996. “Foi um período que a rua serviu apenas para oficinas, peixarias, fábricas de gelo…”, diz, frisando a importância que a Rua teve na visibilidade às bandas de Rock autoral da cidade.

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Ribeira, Natal-RN – Foto meramente ilustrativa – Fonte – http://agorarn.com.br/cidades/video-abandonada-ribeira-sofre-com-o-descaso-do-poder-publico/

“Sempre existiram bandas de rock autoral na cidade durante a cena Rock 90, vide “Modus Vivendi”, “Cabeças Errantes”… o que faltava era um lugar para elas se apresentarem e esse foi o maior mérito da Rua Chile desde o seu ressurgimento. As bandas começaram a receber cachês, gravar discos, a ganhar visibilidade”, conta.

O historiador é mais um que defende a necessidade de ações mais efetivas do poder público no local para que ele consiga prosperar. “Não apenas no financiamento das ações culturais, mas também para estrutura e para o fortalecimento do turismo de centros históricos assim como existe nas principais cidades do país”, opina.

“Aqui o turista nunca vai para a Ribeira e o próprio natalense evita porque não tem segurança, iluminação, o que é uma pena já que a Rua Chile é privilegiada porque tem espaço para estacionar, locais para bons palcos e ainda o fato de não haver vizinhança que seja perturbada com a realização dos eventos”, conclui.

PINTURAS PRÉ-HISTÓRICAS SÃO ENCONTRADAS ÀS MARGENS DO RIO SÃO FRANCISCO

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Fiscais encontraram pinturas rupestres às margens do rio São Francisco, em Alagoas – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas

Pinturas rupestres de povos que viveram às margens do rio São Francisco na pré-história foram descobertas nessa terça-feira (29) em uma região rural do município de Olho D’Água do Casado, no sertão alagoano. As imagens estavam em rochas em três pontos diferentes e foram achadas durante uma força-tarefa de vários órgãos que investiga e previne irregularidades na região ribeirinha.

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O belo Rio São Francisco – Foto Rostand Medeiros

As imagens estão localizadas dentro do território do assentamento Nova Esperança. A maioria das pinturas é de formas geométricas. Ao lado dos desenhos, há alguns pequenos buracos no chão, que devem ser espécies de pilões cavados com intuito de amassar sementes para produção de tinta.

Segundo a arqueóloga Rute Barbosa, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), não é possível definir há quanto tempo as pinturas foram feitas. “Sabemos que se trata de sítios arqueológicos relacionados a povos que habitaram o baixo São Francisco na pré-história, mas não temos o período exato”, disse.

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Entre os sertanejos, as imagens são conhecidas como ‘letreiro de caboclo brabo’ – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas

Ao todo, o Instituto já possui mais de 300 sítios arqueológicos na região do Baixo São Francisco. Entre os sertanejos, as imagens são conhecidas como “letreiro de caboclo brabo”. As imagens dão indícios de que vários povos passaram pelo local, mas apenas pesquisas mais detalhadas podem confirmar a hipótese.

Ocupação antes de Cristo

A arqueóloga conta que descobertas já realizadas garantem a presença de comunidades há pelo menos 3.500 anos na região. “O registro mais antigo até o presente momento encontrado em Alagoas foi localizado no sítio arqueológico ‘São José 2’, no município de Delmiro Gouveia [sertão alagoano], onde foram encontrados 29 esqueletos humanos, além de outros artefatos líticos e cerâmicos, com datação aproximada de 3.500 AP [anos presentes]”, afirmou.

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A região tem presença de comunidades há pelo menos 3.500 anos – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas

Barbosa ressalta a nova descoberta vai ajudar nas pesquisas sobre como era a vida pré-histórica na região. “Estamos ampliando o conhecimento sobre o homem na pré-história, seus costumes e modos de viver. Os sítios encontrados contribuirão nesse sentindo, dão maiores subsídios para o aprofundamento dessa compreensão”, disse.

Com a descoberta das novas pinturas, haverá agora o início uma série de ações do setor público. “O Iphan irá registrar o sítio arqueológico e pretende desenvolver, a curto prazo para região, um projeto de educação patrimonial junto a comunidade local. É necessário um trabalho de conservação nesses sítios e iremos trabalhar nisso”, explicou.

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Foto – Rostand Medeiros

Barbosa ressalta a nova descoberta vai ajudar nas pesquisas sobre como era a vida pré-histórica na região. “Estamos ampliando o conhecimento sobre o homem na pré-história, seus costumes e modos de viver. Os sítios encontrados contribuirão nesse sentindo, dão maiores subsídios para o aprofundamento dessa compreensão”, disse.

Com a descoberta das novas pinturas, haverá agora o início uma série de ações do setor público. “O Iphan irá registrar o sítio arqueológico e pretende desenvolver, a curto prazo para região, um projeto de educação patrimonial junto a comunidade local. É necessário um trabalho de conservação nesses sítios e iremos trabalhar nisso”, explicou.

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As imagens estavam em rochas em três pontos diferentes das margens do rio – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas

Segundo o Ministério Público Estadual, as pinturas sofrem com a ameaça da degradação do homem. Em um dos sítios arqueológicos visitados, o MP encontrou um desenho coma palavra “Erica”, ao lado das rochas com os desenhos e gravuras.

Outro problema seriam as queimadas, que soltam fuligem que podem encobrir e até mesmo apagar os desenhos. A força-tarefa encontrou vários locais com vegetação queimada durante a visita aos sítios.

Autor – Carlos Madeiro -Colaboração para o UOL, em Maceió

Fonte – http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2016/11/30/pinturas-pre-historicas-sao-encontradas-as-margens-do-rio-sao-francisco.htm

MAIOR TREMOR DE TERRA DO RN FOI REGISTRADO EM 1986

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Muitas casas destruídas em João Câmara e região.

FONTE DO TEXTO – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/maior-tremor-de-terra-do-rn-foi-registrado-em-1986/137371

A  atividade sísmica na região de João Câmara já provocou milhares de tremores no Rio Grande do Norte nos últimos vinte e três anos. A maioria deles foi registrada apenas por modernos aparelhos que medem a atividade sísmica em redor do planeta. O de ontem foi o sétimo de magnitude média, capaz de ser percebido além das fronteiras do Estado.  O primeiro e maior deles aconteceu em 1986, obrigando milhares de pessoas a sair de casa durante a madrugada com medo de desabamentos.

Naquele domingo, 30 de novembro, os moradores de João Câmara estavam apreensivos. No dia anterior eles relataram a ocorrência de pequenos tremores. “Porém, por volta das 3h20, aconteceu o maior deles, acompanhado de um forte estrondo que rachou casas e derrubou paredes, gerando um verdadeiro clima de pânico na população”, registrou a Tribuna do Norte, em edição especial de segunda-feira, 1º de dezembro.

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Prejuízos em casas comerciais.

“Quando escutei o estrondo disse: valha-me Nossa Senhora. Quando me levantei para chamar os meninos vi as telhas despencar. Fiquei atarantada. Parti para o quarto é já fui me relando toda”, contou, na época, Maria Silvina, que morava com o marido e mais cinco filhos no distrito de Samambaia, o epicentro do terremoto. Duas filhas do casal ficaram sob os escombros, mas tiveram apenas ferimentos leves.

Sem saber o que fazer, os moradores se concentravam no centro da cidade e no terminal rodoviário. “Quem tinha parentes em outras cidades ou conhecia algum fazendeiro da região pedia socorro”, dizia a TN, citando como exemplo a dona de casa Paula Pereira da Silva, viúva, sete filhos e quatro netos. “Não posso mais ficar aqui. Vi minha casa rodar e cair pedaços da porta.” Em Natal houve relato de rachaduras em prédios, inclusive no Colina dos Flamboyans, na zona sul da cidade.

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Muitas pessoas se retiraram da cidade com seus pertences em caminhões…

Nos dias que se seguiram, o Rio Grande do Norte recebeu a visita de ministros do governo José Sarney. O ministro do Interior da época, Ronaldo Costa Couto, foi a João Câmara e anunciou a liberação de Cz$ 2 milhões (dois milhões de cruzados) para recuperar os danos provocados pelo tremor.  O governador de então, Radir Pereira (que substituíra José Agripino, eleito senador), decretou estado de calamidade pública.  João Câmara viria a sentir um novo tremor de terra três anos depois. De lá pra cá a atividade sísmica se estabilizou, a tal ponto que a estação sismológica foi desativada e os equipamentos levados para outras regiões.

Estudos sobre terremotos são recentes no Brasil

Como o território brasileiro não está sob as placas tectônicas, durante muito tempo se acreditou que as  ocorrências de terremotos no Brasil era algo improvável. Apesar de notícias esparsas de tremores de terra em períodos anteriores da história brasileira, somente no século 20 é que foram iniciados os estudos e um acompanhamento cientifico dos abalos sísmicos  no Brasil.

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E outros deixavam a cidade em vários ônibus.

Avanços nos conhecimentos da geofísica comprovam que os tremores podem ocorrer, também,  nas regiões denominadas “intraplacas”, como é o caso brasileiro, situado no interior da Placa Sul-Americana. Nessas regiões, os tremores são mais suaves, menos intensos e dificilmente atingem 4,5 graus de magnitude, apesar de algumas ocorrências no Brasil já terem, inclusive, ultrapassado a marca dos 5 graus na Escala de Richter .

Os abalos sísmicos registrados em território brasileiro são decorrentes da existência de falhas (pequenas rachaduras) causadas pelo desgaste da placa tectônica ou são reflexos de terremotos com epicentro em outros países da América Latina. Embora a atividade sísmica brasileira seja menos frequente e bem menos intensa que em outras partes do planeta, não deixa de ser significativa, nem deve ser desprezada ou simplesmente ignorada.

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Muita gente dormiu em barraca improvisadas.

No Brasil, os tremores de terra só começaram a ser detectados com precisão a partir de 1968, quando houve a instalação de uma rede mundial de sismologia. Brasília foi escolhida para sediar o arranjo sismográfico do continente latino-americano. Há, atualmente, 40 estações sismográficas em todo o país, sendo que o aparelho mais potente é o mantido pela Universidade de Brasília.

Há relatos de abalos sísmicos no Brasil desde o início do século 20. Segundo informações do “Mapa tectônico do Brasil”, criado pela Universidade Federal de Minas Gerais, existem 48 falhas geológicas no território brasileiro que concentram as ocorrências dos tremores de terra.

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Forte atuação da UFRN e UNB nas pesquisas sobre os abalos sísmicos em João Câmara e região.

Ainda segundo dados levantados a partir da análise de mapas topográficos e geológicos, as regiões que apresentam o maior número de falhas são o Sudeste e o Nordeste, seguidas pelo Norte e Centro-Oeste, e, por último, o Sul.

O Nordeste é a região que mais sofre com abalos sísmicos. O segundo ponto de maior índice de abalos sísmicos no Brasil é o Acre. No entanto, mesmo quem mora em outras regiões não deve se sentir imune a esse fenômeno natural. Embora grande parte dos sismos brasileiros seja de pequena magnitude (4,5 graus na Escala Richter), a história tem mostrado que, mesmo em “regiões tranquilas” podem acontecer grandes tremores de terra.

Apesar de não ser alarmante, o nível de sismicidade brasileira precisa ser considerado em determinados projetos de engenharia, como centrais nucleares, grandes barragens e outras construções de grande porte, principalmente nas construções situadas nas áreas de maior risco.

VEJA TAMBÉM – Os terremotos e o Rio Grande do Norte – https://tokdehistoria.com.br/2011/03/11/os-terremotos-e-o-rio-grande-do-norte/

JUDEUS EM NATAL – A SAGA DOS PALATNIK

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Um Grupo de Judeus Que Começou Sua Vitoriosa Trajetória Empresarial Trabalhando Junto aos Mais Pobres de Natal 

Autor – Rostand Medeiros

A foto e o texto acima mostram o lugar onde os destinos administrativos de Natal, capital do Rio Grande do Norte, são traçados e executados desde 1922. Oficialmente conhecido como Palácio Felipe Camarão é um marco na cidade, mas o que importa mesmo nessa nota de jornal é um pequeno detalhe no final do texto. Ali ficamos sabendo que os móveis construídos na época da inauguração desta marcante edificação, que não sei se ainda estão por lá, foram executados pela firma “Tobias Palatnik & Irmãos”.

Os proprietários desta empresa, com um sobrenome tão diferenciado dos tradicionais nomes familiares de origem portuguesa existentes em Natal, eram os membros de uma família de judeus ucranianos, que em poucos anos foram considerados os membros mais proeminentes da comunidade judaica em Natal.

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3 de janeiro de 1947

Nada mal para estes imigrantes que haviam chegado apenas dez anos antes ao Brasil e tinham começado suas atividades na capital potiguar vendendo seus produtos diretamente nas casas dos moradores da pequena urbe. Trabalharam sem diferenciar classe nem cor, atendendo inclusive os mais humildes.

Em Busca de Novos Espaços

Segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira, através de sua monografia de mestrado em História “A fala dos passos: imigração e construção de espaços judaicos na cidade do Natal (1919-1968)”, a história dos judeus na capital potiguar começa a ser contada no ano de 1911, com a chegada ao Brasil de Tobias Palatnik e seus irmãos Adolfo, Jacob e José (este último com apenas 16 anos) e um tio Beinish (Brás) Palatnik. Eles deixaram para trás a fria região da Podólia, no sudoeste da Ucrânia e seguiram esperançosos para recomeçar a vida no grande país tropical.

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Judeus expulsos dos seus lares na Europa Oriental – Fonte – https://en.wikipedia.org

Para a historiadora este processo migratório dos judeus vai muito além de uma mera necessidade econômica. A questão judaica na Europa durante o século XIX até a primeira metade do século XX foi marcada por pressão e opressão, onde o espírito antissemita se manifestou nas esferas política, econômica e social, atingindo grande parte da população que hostilizava e culpava os judeus por toda sorte de mazelas. Deixar a Europa no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX representava para eles antes de tudo uma questão de sobrevivência.

Em calientes terras tupiniquins o Rio de Janeiro foi a primeira parada de Tobias Palatnik e seus parentes. Mas foi por um período curto e logo aqueles judeus seguiram para Salvador. Mas também a capital baiana não foi o melhor dos destinos e eles partiram para o norte, em direção à cidade do Recife, onde os Palatnik começaram a fazer sua clientela, em grande parte composta por operários.

Luciana Souza de Oliveira aponta que na cidade conhecida como “Veneza Brasileira” eles aprenderam que, além do comércio realizado de porta a porta, mesmo falando o português ainda de forma rudimentar, eles podiam comprar no atacado e com exclusividade. Neste período a cambraia bordada foi seu principal produto.

Recife certamente ajudou os irmãos Palatnik a assegurar alguns lucros, mas a concorrência comercial na cidade era um problema complicado, que contava naquele período com 80 judeus atuando como prestamistas. Segundo a autora estes judeus que já atuavam em Recife eram em sua maioria rapazes solteiros, provenientes da Bessarábia (região histórica da Europa Oriental, cujo território se encontra principalmente na atual Moldávia), Polônia e a Ucrânia, que batalhavam duro para poder concretizar um objetivo comum – o desejo de conseguir meios para poder se estabelecer na Palestina com os demais familiares que deixaram na Europa Oriental. 

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Tobias Palatnik – Fonte –

Foi então que Tobias Palatnik, o mais velho dos quatros irmãos, resolveu transferir-se para Natal objetivando fugir daquela concorrência.

Vencendo Onde os Outros nem Percebiam que Existiam Consumidores

Para a autora do texto a escolha de pegar o trem e seguir em direção a Natal foi a melhor decisão que Tobias tomou quando chegou ao Brasil. Nessa época Natal ainda era uma pequena capital com população inferior a 25.000 habitantes, com apenas 27 famílias formada por estrangeiros, três linhas de bondes elétricos, uma catedral, um cinema mudo e que estava começando a passar por intensas transformações. A cidade estava aos poucos desabrochando e vivenciando o início da modernidade tão desejada pela elite local.

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Navios no Rio Potengi, em Natal

Mas se por um lado a elite natalense se deleitava com os avanços e belezas da “Belle Époque”, uma grande parcela da sua população – os mais pobres – eram tratados de maneira verdadeiramente invisível.

Aqueles ucranianos, que sabiam bem o que significavam as violentas exclusões dos pogroms contra judeus na Europa Oriental, certamente perceberam que também havia exclusão em Natal. Mas esta era extremamente sutil, realizada de maneira covarde, praticada sem violência física contra uma massa morena, mas carregada de extrema hipocrisia. A exclusão em Natal diferenciava os seres humanos principalmente pela cor e condição socioeconômica.

Acredito que Tobias Palatnik percebeu de maneira muito correta que aquelas pessoas excluídas, mesmo com uma condição financeira mais limitada, apontavam para a possibilidade de um mercado consumidor extremamente promissor em Natal. Já a maioria dos seus concorrentes, membros de uma elite branca e racista, que praticavam intensos atos de exclusões sociais contra aquelas pessoas consideradas ralé, jamais iriam ate eles, bater nas portas dos seus “mocambos” para vender alguma coisa.

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Os conhecidos Mocambos, as moradias dos mais pobres de Natal

Tobias Palatnik se deparou com um espaço que estava pronto para ser explorado. Percebeu que a venda a prestação tinha futuro na cidade e que a oportunidade comercial era bem melhor que em Recife. Logo avisou aos seus irmãos e estes seguiram para o novo destino e começaram um novo investimento.

Percebi lendo o texto da historiadora Luciana Souza de Oliveira e os jornais de época, que para os Palatnik a diferenciação dos natalenses abonados com os “negos”, como os mais ricos da cidade pejorativamente chamavam os mais pobres (que nem precisavam ser claramente afrodescendentes para assim serem classificados), era algo que nada lhes importava.

O que importava mesmo era negociar, chegar até o cliente, atender o desejo das pessoas, independente de onde eles moravam, ou da cor da sua pele…

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As Rocas, área de atuação dos Palatnik em Natal

Logo na primeira investida Tobias Palatnik pôde observar que só nas Rocas, a região dos pescadores, onde viviam os mais pobres da cidade, ele poderia conquistar facilmente mais de 200 clientes. Outra coisa que certamente o judeu percebeu foi que aquelas pessoas, não obstante suas limitadas condições financeiras, possuíam um acentuado sentido de honra em relação a quitação de suas dívidas financeiras, onde poucos se davam ao papel de caloteiros.

Era tudo que um prestamista desejava!

Assim os produtos foram sendo oferecidos de porta em porta e logo se estabeleceram fortes laços econômicos. Mensalmente os irmãos passavam nas casas dos clientes, oferecendo novas mercadorias e estes pagavam as parcelas dos produtos que haviam sido anteriormente vendidos. Esse tipo de procedimento tornava a relação entre comerciante e cliente mais estreita, fazendo com que os anseios de consumo da sociedade local, mesmo dos mais humildes, fossem supridos de maneira pessoal. Segundo Luciana Souza de Oliveira os irmãos Palatnik foram os primeiros que trouxeram para a cidade essa nova maneira de comercializar.

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Natal no início do século XX

Com arrojo e garra, aliado ao desejo de trabalhar e de prosperar em Natal, Tobias e seus irmãos alcançaram seus objetivos iniciais em menos de seis meses, quando conseguiram conquistar cerca de mil clientes.

Boa Relação Com os Natalenses, Mas Mantendo as Tradições

A prosperidade econômica veio logo, rápida mesmo.

A historiadora Luciana Souza de Oliveira aponta que 1915 os Palatnik puderam adquirir uma fazenda com uma usina de açúcar, álcool e aguardente. Mas o forte daqueles judeus era o comércio e foi com ele que a família Palatnik escreveu uma história de prosperidade na cidade.

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Familia Palatnik – Em pé, a partir da esquerda: Adolfo Palatnik, Jacob Palatnik, Brás Palatnik, Tobias Palatnik, José Palatnik, Tobias Prinzak, Moisés Kaller e Horácio Palatnik. Sentadas: Cipora Palatnik, Dora Palatnik (com Chimonit Palatnik no colo), Rivca Palatnik, Olga Palatnik (com Ester Palatnik no colo), Sônia Palatnik, Dora Kaller e Augusta Palatnik.

Com a estruturação e o crescimento econômico daqueles judeus em Natal, esses jovens tiveram a oportunidade de ir à Palestina algumas vezes visitar seus parentes. Foi nessas poucas visitas que os jovens Palatnik constituíram suas famílias com as moças que residiam na chamada “Terra Santa”.

Mesmo construindo as suas vidas em Natal, mesmo aqui sendo a cidade que esses judeus escolheram para desenvolverem suas famílias, a cidade não poderia lhes oferecer alguns elementos responsáveis pela continuidade de sua identidade.

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O escritor Luís da Câmara Cascudo participou da festa do Yom Kippur junto aos judeus de Natal e descreveu a visita em um interessante artigo – Fonte – Jornal ” A República” 12/11/1933

Faltavam-lhes garotas que professasse a mesma fé e que tivesse os mesmos conceitos e valores para manter uma identidade judaica em seus lares. Vale ressaltar que aqueles jovens judeus conseguiram se relacionar muito bem com as pessoas em Natal, mesmo criando essa delimitação de não envolvimento de caráter íntimo e pessoal com aqueles que eram diferentes a sua cultura.

Ocorreram então várias uniões a partir de 1920. Com esses casamentos, muitos outros familiares, entre eles primos, irmãos, pais, tios e outros membros, decidiram deixar seus países e foram atraídos para a capital potiguar.

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Jose e Sonia Palatnik

Essas ramificações e parentescos foram os elementos principais para que a família Palatnik se destacasse, tornando-se os membros proeminentes para o estabelecimento de uma comunidade judaica na cidade, pois o número de pessoas que gravitavam em torno deles crescia com o passar dos anos.

Preocupações Com Coisas da Vida e da Morte

Segundo informa o site judaismohumanista.ning.com, em 1925 foi fundado na capital potiguar o Centro Israelita, que funcionava também como uma sinagoga.

Ainda na década de 1920 os judeus natalenses foram os primeiros a construir um jardim de infância, que até aquele período não havia sido estabelecido na cidade de Natal. Esta escola para crianças começou a funcionar, junto a um programa de educação judaica complementar e uma de suas professoras foi a Sra. Sara Branitzak, que teria vindo da Palestina e, segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira, chegou em 1927, mas ela passou pouco tempo neste trabalho.

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Jardim de Infância Palatnik – A partir da esquerda, em pé: Eliachiv Palatnik, Sofia Kaller, Ester Palatnik, David Fassberg, Ester Palatnik (filha de Elias) e Moisés Palatnik. Sentados: Aron Horovitz, Aminadav Palatnik, professora Sarah Branitzky, Sarita Volfzon, Raquel Horovitz, Nechama Kaller e Simon Masur. Na frente: (?), Nechama Palatnik, Achadam Masur e Genita Volfzon.

Muitas crianças judias que nasceram em Natal participavam não apenas da vida judaica, também se relacionavam com as outras crianças da cidade sem, no entanto, esquecer que mesmo sendo Potiguares, eram acima de tudo judeus, guardando e seguindo as tradições que eram ensinadas pelos seus pais. Uma destas crianças foi Uma das crianças judias nascidas em Natal, mais precisamente em 19 de fevereiro de 1928, foi Abrahan Palatnik.[1]

Ainda segundo o site judaismohumanista.ning.com, um censo oficial da cidade de Natal em 1940 registrou um total de 54.836 habitantes e 109 eram judeus.

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Túmulo de Rosinha Palatnik no Cemitério Público do Alecrim – Foto do autor.

Com o natural crescimento da comunidade local, que passou a contar com mais de trinta famílias de judeus, logo não eram apenas os aspectos ligados a vida terrena que preocupavam esta comunidade, as questões de morte também se tornou uma preocupação.

Em 10 de janeiro de 1931, através de contatos entre os líderes da comunidade e a Prefeitura de Natal, cujo prefeito a época era o Sr. Gentil Ferreira de Souza, foi doada uma quadra murada no Cemitério Público do Alecrim para que os membros da comunidade judaica fossem enterrados mediante seus rituais tradicionais. Igualmente foi fundada uma sociedade funerária chamada Chevra Kadisha.

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Rosinha Palatnik

Até hoje existe este espaço exclusivo no Cemitério do Alecrim e entre os vários judeus natalenses enterrados está a lápide de Rosinha Palatnik. Ela faleceu no dia 7 de agosto de 1936, com apenas 20 anos de idade, depois de uma permanência no hospital de um mês e quinze dias em razão de uma apendicite. Rosinha era carioca, nascida Rosinha Tendler, filha de Boris e Anna Tendler e era casada com Horácio Palatnik (ver jornal “A República”, edição de domingo, 9 de agosto de 1936).

Crescimento dos Negócios

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O trabalho dos Palatnik prosperou ao longo dos anos e foi se diversificando.

De prestamistas eles abriram uma fábrica e uma loja de móveis chamada Casa Sion, sendo localizada a rua Dr. Barata, número 6, no bairro da Ribeira, uma das principais artérias comerciais da cidade na época.

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Brás Palatnik

Já Brás Palatnik surge com uma casa comercial na década de 1920, que inclusive era batizada com o seu nome e ficava localizada igualmente na rua Dr. Barata, nos números 204 e 205 e ali parece que ele vendia de tudo um pouco. Anúncios no jornal “A República”, o principal da cidade, mostra uma propaganda onde se oferecia guarda-chuvas, cobertas para camas, calçados para homens, tolhas, tecidos de cambraia e muitas outras coisas. Tempos depois esta loja mudou para a rua Ulisses Caldas, na esquina com a rua Felipe Camarão, no Centro da cidade, muito próximo, ou mesmo vizinho, ao Centro Israelita.

Em 1931 os irmãos Tobias e Braz Palatnik estão com uma fábrica de mosaicos
na rua Extremoz e uma loja destes produtos na rua Dr. Barata, mas no número 190. Tinham também uma serraria na rua Ulisses Caldas e mantinham a Casa Sion para vender os móveis por eles fabricados.

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5 de fevereiro de 1937

Em 1936 o antigo e marcante cinema Polytheama, referência da sétima arte na história da cidade e localizado na Praça Augusto Severo, 252, se torna a Casa Palatnik. Como em outros comércios destes judeus a diversificação e a variedade de produtos é a tônica da casa comercial. Ali se vendia desde camas de ferro, passando por móveis de vime e junco e até mesmo pedras para túmulos.

Conforme os Palatnik vão prosperando, eles vão participando de atividades junto à sociedade natalense. José Palatnik, por exemplo, se torna conselheiro da Associação Comercial de Natal e do conselho fiscal do Banco Industrial Norte-rio-grandense S.A.

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25 de janeiro de 1939

Além da diversificação de negócios, pesquisando nos jornais antigos fica patente como os Palatnik investiram forte na aquisição de imóveis por toda a área de Natal. Nessa época era normal que os documentos emitidos pela prefeitura da cidade nas negociações ligadas a imóveis, com exceção de valores, fossem divulgados nos jornais locais. Neste aspecto, principalmente no início da década de 1940, os Palatnik estão sempre presentes com pagamentos de impostos referente a muitas aquisições e venda de imóveis. Provavelmente perceberam que, mesmo de forma lenta, a cidade se expandia e a compra de imóveis era outra nova oportunidade de negócios a ser trabalhada.

A Jerusalém do Brasil

O jornal Tribuna do Norte, na sua edição de 22 de novembro de 2013, informa que os irmãos Palatnik investiram na construção civil em Natal. Eles foram pioneiros na construção de conjuntos habitacionais: as primeiras casas da Ponta do Morcego (numa delas veraneava o governador Juvenal Lamartine) e a famosa Vila Palatnik, pegando a avenida Deodoro, rua Ulisses Caldas (em frente ao Colégio da Conceição) e rua coronel Cascudo.

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Região da Ponta do Morcego, em Natal

Durante a Segunda Guerra Mundial o Rio Grande do Norte sediou uma das maiores bases de aviação dos Aliados no hemisfério ocidental, a famosa Parnamirim Field. Este fato, ocorrido antes mesmo da declaração formal de guerra do Brasil contra os países do Eixo, proporcionou a chegada de muitos militares estadunidenses a Natal. Logo alguns soldados judeus servindo as forças armadas dos Estados Unidos começaram a participar e animar a vida comunitária dos judeus em Natal.

Em agosto de 1942 era o próprio Brasil que entrava na Segunda Guerra Mundial. Em Natal e a população foi chamada para participar do esforço de guerra, com ações da defesa passiva. A tradicional comunidade sírio-libanesa de Natal, tendo a frente Neif Habib Chalita e Kalil Abi Faraj, participou deste processo junto com outras colônias de estrangeiros que viviam na cidade, entre estas os judeus. Nestas atividades eles eram liderados por José Palatnik e Leon Volfzon. Não sabemos em que grau ocorreu a participação destas comunidades no processo de defesa passiva de Natal, nem como foi a interação de sírio-libaneses e judeus neste objetivo, mas tudo leva a crer que transcorreu sem maiores alterações em razão da inexistência de notícias apontando problemas.

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Participação da tradicional comunidade sírio-libanesa de Natal no processo de defesa passiva da cidade durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com a comunidade judaica.

Com a chegada dos estadunidenses houve um aporte financeiro muito intenso na capital potiguar. Consequentemente a cidade se encheu de forasteiros em busca dos preciosos dólares e este aumento populacional trouxe consequências para Natal. Entre estes figuram o aumento da carestia e a falta de moradias e esse ultimo fato motivou os Palatnik a abrir um novo negócio – Uma loja de material de construção para abastecer um mercado que construía novas casa.

Mas a pequena e calma cidade, que crescia a olhos vistos, já não atraia os judeus como no passado.

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Vila Palatnik

Após a Segunda Guerra Mundial tem início a migração dos judeus natalenses para outros centros urbanos como Rio de Janeiro e Recife, mas alguns seguiram para o recém-criado Estado de Israel. Assim, com o número de judeus extremamente reduzidos em Natal, as atividades do Centro Israelita foram encerradas em novembro de 1968.

Segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira a história da presença dos judeus em Natal foi algo expressivo. Eles foram os responsáveis por construir na capital Potiguar uma das comunidades judaicas mais atuantes do Brasil, que chegou a ser conhecida na Palestina como a Jerusalém do Brasil.

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Irmãos Palatnik

As famílias judias que se estabeleceram na cidade mudariam não apenas a história dos judeus em Natal, mas o próprio espaço urbano e cultural. Foi na capital potiguar que eles tiveram a oportunidade de (re)construir as suas vidas oferecendo a cidade o que eles tinham de melhor: o trabalho e suas mercadorias. Em contrapartida a cidade os recebeu consumindo os seus produtos importados e dando a eles uma condição de vida digna na qual puderam oferecer a suas famílias o suprimento de suas necessidades.

A imigração deste grupo de judeus para Natal representou mais que um simples evento, foi a importante inserção de um povo, de uma cultura, uma religião, uma economia, organização espacial e social, bem como a (re)construção do “seu lugar” na capital Potiguar.

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REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Yom Kippur em Natal. Jornal A República, Natal, n. 881, p.7, 12 nov. 1933.

OKSMAN. Sérgio (dir.). Irmãos de Navio: Histórias da Imigração Judaica no Brasil. São Paulo: Documenta Filmes, 1996. DVD (60 min), son., color.

ROZENCHAN, Nacy. Os judeus de Natal: Uma comunidade segundo o registro de seu fundador. Revista Herança Judaica, n. 106, abr. 2000. São Paulo: B´nai B´rith 2000.

SCHEINDLIN, R. História ilustrada do povo judeu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. Natal, uma comunidade singular. Rio de Janeiro: Cemitério Comunal Israelita, 1984.


NOTA

[1] Abrahan Palatnik é filho de Tobias e Olga Palatnik e com apenas quatro anos de idade imigrou de natal para a região onde, atualmente, se localiza o Estado de Israel. Entre 1942 e 1945, frequenta a Escola Técnica Montefiori, em Tel Aviv, e se especializa em motores a explosão. Só retorna ao Brasil, para o Rio de Janeiro, em 1948. Por volta de 1949, inicia estudos no campo da luz e do movimento, que resultam no Aparelho Cinecromático, exposto em 1951 na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, onde recebe menção honrosa do júri internacional. Desenvolve a partir de 1964 os Objetos Cinéticos, um desdobramento dos cinecromáticos, mostrando o mecanismo interno de funcionamento e suprimindo a projeção de luz. O rigor matemático é uma constante em sua obra, atuando como importante recurso de ordenação do espaço. É considerado internacionalmente um dos pioneiros da arte cinética. Abraham Palatnik é consagrado pioneiro, o primeiro que explorou as conquistas tecnológicas na criação de vanguarda brasileira, tornando as máquinas aptas a gerarem obras de arte. Ver – https://www.escritoriodearte.com/artista/abraham-palatnik/

UMA ÓTIMA PEDIDA – CURSO DE CANGAÇO NA BAHIA

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Ministrado pelo Geólogo e Historiador Rubens Antonio Filho
12 e 13 de Novembro, de 8h às 17h.

Local – FTC – Faculdade de Tecnologia e Ciências, Feira de Santana,Rua Artêmia Pires Freitas, SIM, Feira de Santana – Bahia.

APRESENTAÇÃO

O Cangaço foi um movimento que agitou o Nordeste, com reflexos que se estenderam desde então. Muito daquilo que é verdadeiro, que é fato, está, atualmente, deturpado, obscurecido por camadas e camadas de recontares, lendas, especulações, facciosidades.

O conhecimento dos principais eventos a ele relacionados, porém, é ainda muito limitado. Por isso, neste curso será trabalhado o sabido e documentado de eventos como combates, abrangências, disposições várias que constituem, muitas vezes, pontos-de-partida para o verdadeiro entendimento enquanto fenômeno histórico.

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Lampião, Maria Bonita e seus cangaceiros.

Atualmente, a Bahia …dispõe de um acervo muito significativo, referente ao Cangaço, fenômeno histórico mais atuante em nossos terrenos entre 1928 e 1940. São desde matérias, livros, até elementos físicos utilizados pelas personagens deste evento. Distribui-se tal patrimônio por unidades distintas, geralmente públicas, como bibliotecas e arquivos. Não é, porém, irrelevante o material disperso em acervos privados.

Uma porção expressiva é representada por fotografias. Todas estas, sendo em tons de cinza, apresentam níveis variados de qualidade e preservação. Este problema pode ser minorado, quando não ultrapassado, através de trabalho que integre técnica informática e artística.

O fenômeno do Cangaço é produto de um longo traço histórico dos nossos sertões. Uma vez desenvolvido, guarda extrema relação como consequência de um encadeamento alongado de eventos. Está, portanto, plenamente vinculado ao processo histórico.

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A volante do tenente Zé de Rufino.

Mais ainda. Não se encerra em si o processo. Segue adiante, resultando em efeitos na atualidade. Neste contexto, se não se entende o Cangaço, perde-se ótica tanto do seu pré quanto do seu pós. Além, sua significação envereda por espaços artístico-culturais, nos quais não se resume a repetições ou arremedos. Varia e deriva em ramas em profusão incontável, passando por artesanato, vestes, adornos, decorações, ornamentos, música, poesia, literatura de cordel, aspectos linguísticos diversos, mitos, etc.

Vale salientar que durante o evento será apresentada, em um telão, além de cópias impressas, a exposição Pepitas de Fogo: O Cangaço e seu tempo colorizados. A partir de um acervo fotográfico abundante, a proposta de resgate de cores originais tomou por base dois modos referenciais. Um de cunho histórico, associando o rico material fotográfico disponível a peças preservadas da época, acompanhados de uma densa pesquisa que abarcou perto de 5 mil matérias de jornal da época, relatórios, testemunhos. Outro de cunho técnico informático, com atuação centrada nos programas Adobe Photoshop e Adobe Creative Suite. Com tais recursos, chegou-se ao tratamento de mais de 60 imagens. O material a ser exposto consta de 40 a 50 imagens colorizadas e retificadas relacionadas ao momento do cangaço. Refletem seu tempo de maneira ampla, sendo fruto de uma longa pesquisa de resgate das configurações e cores prováveis. Aparecem tanto aquela de cangaceiros, no seu dia-a-dia, quanto de aspectos de Salvador à época de evento.

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PROGRAMAÇÃO
12 de Novembro

Manhã – Lucas da Feira / Bando do Tará / Bando do Brejo do Burgo / Cauassus / Fronteiras com Piauí e Goiás / Convênios

Tarde – 1924 a 1929: Cangaço em ascensão / Alvorada lampiônica / As primeiras notícias / O crescendo do temor / Reações pomposas e inúteis / A chegada efetiva / As primeiras sagas e tragédias / Perplexidades

13 de Novembro

Manhã – 1929 a 1932: Cangaço tonitruante / O apogeu do Cangaço na Bahia / A melhor percepção / Menos perdas / Subgrupos e domínios / Início do contra-ataque / Violência de lado a lado

Tarde – 1933 a 1940: Derrocada do Cangaço / Grandes perdas / Marcando passo / Às portas do fim / Lá, apaga-se o Lampeão – Cá, apaga-e o Corisco / Olhando para frente / Mitificação / Olhando para trás

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PALESTRANTE: Rubens Antonio da Silva Filho

Possui graduação em Geologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1978-1982), em Licenciatura e Bacharelado em História pela Universidade Federal da Bahia (1995-1999), tendo cursado também Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia (1989-1993). Mestre em Geologia pela Universidade Federal da Bahia. E Servidor público, desde 1984, atuando como Geólogo do Museu Geológico do Estado da Bahia, vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, respondendo por questões relacionadas à Minerologia, à Geologia, à Paleontologia e às Histórias Geológica e da Mineração. Autor de livros e mapas, Ministra cursos relacionados a Geologia, História Geológica, Artes, História, com ênfase para o Cangaço, e urbanização de Salvador, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

APOIO: FTC, Prefeitura Municipal de Feira de Santana, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico Geográfico de Feira de Santana e Quântica Eventos.