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NORDESTE À SOMBRA DO PASSADO – QUESTÕES FAMILIARES: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

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Fonte – http://evans1309.blogspot.com.br/2012/12/a-cruz-da-estrada-castro-alves.html

Autor – ADAUTO GUERRA FILHO

Publicado originalmente no jornal Tribuna do Norte, Natal-RN, edição de domingo, 20 de agosto de 1982, página 12. 

A defesa da honra e moral da família é tão antiga quanto a própria história. O interesse pelo crescimento da família desde os primórdios dos tempos, não é apenas um fator ligado ao trabalho. Paralelo a isso, a honra e proteção de bens e pessoas. Então as questões familiares marcaram presença no Nordeste do Brasil a partir de sua organização social e política até os nossos dias. Essas questões não deixaram como consequências apenas larga margem de mortandade, em ambos os lados e quase extinção de algumas delas, mas deram origem a bandidos famosos. Folheando as páginas da história do cangaço no Nordeste ou conversando com os mais velhos, vendo o s nomes dessas famílias repetidas vezes:

ALVES E LIMÕES: PATU-RN; FERREIRAS E SATURNINOS DE BARROS – VILA BELA (SERRA TALHADA-PE); CARVALHOS E PEREIRAS – PE; ROCHAS E PEREIRAS – SÃO GONÇALO-PB; NITÕES LACERDAS E GINIPAPOS: ITAPORANGA-PB; e as mais badaladas nos dias atuais (1982), SARAIVAS E ALENCAR – EXU-PE.

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Professor Adauto Guerra – Foto: Melina Soares – Fonte – http://correiodoserido.com.br/legado-literario-do-professor-adauto-guerra-sera-lancado-nesta-quinta-em-caico/

Quando não eram causas políticas, eram sociais, porém o fim era sempre o mesmo — crime de vindita.

O binômio viuvez e orfandade se associavam para se equacionarem com extinção de dinastia. A figura venerável e heroica de Jardelina, esposa de Chico Pereira, viúva desde os 17 anos vem comprovar a veracidade dos fatos:

— Estado civil? — Viúva.

— Pai? — Assassinado.

— Esposo? — Assassinado.

— Sogro? — Assassinado.

— Cunhado? — Assassinado.

E meio a tantas cordilheiras de inimizades que floresciam, tornava-se quase impossível a vida no sertão. E o povo lamentava: aqui no sertão, quando não é ano de seca é ano de Cangaço. Numa região em que a vingança era um dever sagrado, o homem era infeliz mais pelo próprio homem que pela natureza, (livro Vingança não – P. Pereira Nóbrega).

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Lampião em seu aparato de guerra | Crédito: Reprodução – Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/brutal-lampiao.phtml#.WWwJ3ojyvXP

Bem no início da segunda década do século (07/05/1921) cresce o expoente máximo de todos os conflitos: Lampião. Foi um tipo que se encarnou perfeitamente nessa era (Vingança Não – P. Pereira Nóbrega). “Assassinou mais de mil vidas, incendiou umas quinhentas propriedades, matou mais de cinco mil rezes, violentou a mais de duzentas mulheres e tomou parte em mais de duzentos combates. E assim é que só em Pernambuco, foram mortos e presos mais de mil cangaceiros, pertencentes às hordas de Virgulino”. (LAMPIÃO – OPTATO GUEIROS 4° EDIÇÃO – PÁG. 16).

Não se podia esperar paz e prosperidade nos sertões nordestinos onde o rifle e o punhal eram sempre as respostas às agressões e o luto era substituído pela indumentária do cangaço.

A reportagem vai a Patu e procura um sobrinho de 2° grau de Jesuíno Brilhante.

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A característica serra que rodeia a cidade de Patu e a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores.

Sentado na calçada de um armarinho, o vereador Antonele Rodeiro cumprimenta os que passam. Depois, levanta-se e vai até o carro atendendo ao chamado. Conta toda história do conflito ALVES X LIMÕES desde o início, como o garoto sabido repete a lição. O repórter ouve com atenção e faz anotações. No final o Alves diz: Olha; vá a Janduís-RN, que lá você encontra Chico Alves sobrinho legítimo de Jesuíno Brilhante e converse com ele, pois ele sabe mais a história de que eu. O carro já ia partir quando o repórter lembra-se de uma pergunta importante:

— Ei, espere aí, e os Limões?

— Ah! Não existem mais; Jesuíno acabou com todos.

Depois, coçou a cabeça e falou surpreso: Ah! Sim; ainda tem um descendente deles por aqui. Dioclécio Barbeiro.

Mas não ficou só por aí. Após a morte de Jesuíno na fazenda Santo Antônio, município de Brejo do Cruz-PB, a viúva foi para o Amazonas com os cinco filhos e nunca mais se teve notícias. A fazenda Tuiuiu não deixou marcas da passagem da influente família Alves de Melo Calado. Até o casarão foi derrubado.

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Neste local, na fazenda Tuiuiú, zona rural de Patu, ficava a casa de Jesuíno Brilhante.

Quanto ao Camucá onde moravam os Limões a 3 km. do Tuiuiú — Os Limões do Camucá — assim conhecidos, não se tem notícias. A reportagem interrogou várias pessoas e ninguém dá notícias. Uma habitante assim falou: Quem sabe, talvez seja o Pelego. Se assim o é, significa que até o nome da fazenda mudou.

As causas mais simples trouxeram graves consequências. Uma simples reclamação do velho João Alves pai de Jesuíno ao garoto empregado dos Limões por está com o pé em cima de uma cadeira, provocou uma resposta do “moleque atrevido”. Depois, a surra dada por Jesuíno no “moleque” para aprender a respeitar os mais velhos.

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1879-Jesuíno Brilhante ataca a fazenda Curvelo, em Catolé do Rocha, Paraíba, e mata um estudante de direito.

Depois o desaparecimento de uma cabra do alpendre da fazenda dos Alves, atribuído aos Limões. Depois a represália dos Limões a ofensa. Vem a surra do Honorato Limão em Lucas Alves, irmão de Jesuíno numa festa em Patu. Enfim, a vingança de Jesuíno matando Honorato Limão. Agora, Jesuíno Cangaceiro.

Para o sertanejo, o herói dos cinco irmãos, pois o herói não é aquele que perdoa, mas sim aquele que se vinga. Agora não é mais Jesuíno Alves de Melo Cardoso, o poeta romântico, agricultor, boiadeiro, hábil equestre e sim Jesuíno Brilhante (homenagem a seu tio, o Cangaceiro José Brilhante de Alencar, avô do falecido Padre cearense Antônio Alves de Alencar, conhecido por Pe. Brilhante).

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Interior da Casa de Pedra de Patu, ou Casa de Pedra de Jesuíno Brilhante, local utilizado por esse cangaceiro como esconderijo.

Os Alves de Melo tinham uma coisa contra si; pertenciam ao desprestigiado Partido Liberal e, enquanto os Limões pertenciam ao Partido Conservador, que lhe dava ampla cobertura. A perseguição ao Alves era intensa.

A história não muda se repete. O que muda são as datas e os personagens. Na segunda década do século, o desaparecimento de uns bodes da família Ferreira, na fazenda Passagem das Pedras, em Vila Bela (Serra Talhada-PE), atribuído a um morador de José Saturnino de Barros, trouxe de início apenas pequenas represálias; — troca de palavras e vingança em animais. Depois tiroteios, incêndio e grandes emboscadas.

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Ruínas a casa de José Ferreira, no Sítio Passagem das Pedras, década de 1970.

Depois, o assassinato do velho José Ferreira pelo Zé Lucena, tenente da polícia alagoana, em Piraconhas – AL (22/04/1920). O resto foi citado. E as mortes serviram de inspiração para o poeta Zabelê que fazia parte do bando. 

No lugar por onde passa,

o bando de Virgulino;

o sacristão da igreja,

vai logo bater no sino.

 

O rifle de Lampião,

dá cem tiros num minuto;

já fez aqui no sertão,

muita gente botar luto.

 

A Bahia está de luto,

Pernambuco de sentimento;

Sergipe de porta aberta,

e Lampião sambando dentro.

 

Querendo fazer sapato,

inté sou bom sapateiro;

querendo entrar no cangaço,

inté sou bom cangaceiro;

qui esse negócio de matar gente,

é serviço mais maneiro.

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Notícia do ataque do bando de Lampião a fazenda Tapera, em Floresta, Pernambuco.

Lá na Tapera alguém às vezes sente dificuldades em dormir.

O ódio e o desejo de vingança parece que aproveita o silêncio das caladas da noite para perturbá-lo. É Cassimiro de Gilo, único sobrevivente de uma família assassinada por Lampião e seus cabras. O fato passou-se assim: O cangaceiro Horácio Novais tinha uma inimizade com Manoel de Gilo por conta de uns burros. Escreveu uma carta com assinatura de Manoel de Gilo a Lampião, cobrindo-o de desaforos e concluindo que estava disposto a recebê-lo à bala. O chefe do banditismo descansava com os cabras em Floresta do Navio e ao ler a carta, seguiu com o bando para Tapera.

Cercou a casa e abriu fogo. Manoel de Gilo resistia ao cerco e pedia explicação. Lampião mostrava a carta. Gilo negava. Quando parecia convencer Lampião foi tarde. Estava ferido mortalmente por uma bala de Horácio Novais. No final, 14 inocentes corpos estendidos ao solo Lampião ao saber não gostou e expulsou imediatamente Horácio Novais do bando. Hoje ele é fazendeiro em Goiás.

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Entrada do cemitério da Fazenda Gilo – Foto – Sérgio Azol

Começou a terceira década do século. E naquela fatídica tarde-noite de 11 de setembro de 1922, Zé Mutuca, Zé Dias, Chico Dias e um Campineiro armaram uma cilada e assassinaram o Coronel João Pereira na sua venda em Nazarezinho-PB. Apenas um filho estava presente: Aproniano viera em defesa de seu pai com Nobilino e seu irmão João Fernandes.

Só Nobilino morreu. Quando aos inimigos, Zé Dias escapou ileso, Chico Dias desapareceu com o ventre de fora, o Campineiro e Zé Mutuca faleceram depois. O verdadeiro assassino entre os quatro foi Zé Mutuca. No final da luta, ferido, fingiu-se morto. O coronel confiante passou por ele julgando-o cadáver. Ele aproveitou-se e disparou uma arma ferindo-o mortalmente. O coronel caiu por cima dele. Veio a falecer na fazenda Jacu ao lado da esposa e de seus filhos pedindo para não se vingarem.

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Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba.

Mas os comentários do povo incomodavam o filho mais velho Chico Pereira, que trabalhava na construção do açude São Gonçalo-PB. Siziam “Ô vingança demorada!”. “Fosse meu pai não ficava por isso mesmo”. “Chico? Abdon? Abdias? Aproniano? “De que vale a pena quatro homens dentro de casa”. “Era melhor vestir saia”. Como a polícia se omitisse, Chico Pereira foi atrás de Zé Dias, uma vez que Chico Dias era figura apagada e pouco interessava. Chegaram a Delegacia, Zé na frente, Chico Pereira atrás e o revólver no meio (Livro Vingança Não). Não foi preciso muito tempo para Zé Dias estava perambulando pela rua, livre desimpedido.

E agora?

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Chico Pereira

Chico Pereira preferia as palavras do pai “Não se vinguem”. Mas não queria ficar desmoralizado, era uma questão de oportunidade. Armou a emboscada. Zé Dias, parecia adivinhar tudo e deixou o esconderijo apontando do outro lado da serra. Chico Pereira, porém, era bom na canhota de modo que a distância não era problema. Não acabou-se apenas o pobre Zé Dias que nada tinha a ver com a encrenca. Acabou-se também o almocreve, o conquistador, o dançarino, o romântico, o hábil cavaleiro, o herdeiro da fazenda Jacu, o comerciante (Chico comprava cal no Rio Grande do Norte e vendia na Paraíba). Agora, Chico Pereira, Cangaceiro, despatriado, considerado fora de ordem pelas autoridades, que só tinham a lhe oferecer uma dura perseguição e até a morte.

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Um típico cangaceiro nordestino na década de 1920

Zé Dias, guarda do IFOCS, (hoje DNOCS), morreu sem descobrir o autor intelectual da sua morte. Mas fica sem duvidar que um dos autores indiretos fosse João Rocha, ligado ao Dr. Otávio Mariz. Uma vez João Rocha fora a venda do Cel. João Pereira e não o encontrando, destratou Aproniano. A simpatia do Cel. João Pereira, ameaçara o prestígio político de João Rocha. Já o Dr. Otávio Mariz, por sua vez, era um homem temperamental, tinha uma grande dívida para com os Pereiras. A inimizade com a família o fez surrar impiedosamente o pobre Chico Lopes, comerciante de Nazarezinho, no meio da rua de Souza – PB. No final falou: Agora vá chamar os Pereiras para apanhar também.

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Foto da parede da grande barragem de São Gonçalo, local onde a desgraça da família de Chico Pereira teve início.

Chico Lopes era protegido do falecido Cel. João Pereira. Chico Lopes foi mesmo chamar Chico, mas também alguém mais forte, que estava escondido numa serra em Pernambuco, se curava de um ferimento provocado por uma bala: Lampião: Este não podendo vir mandou 40 cangaceiros liderados pelos seus irmãos. Faltava unir-se ao bando de Chico Pereira, Ele chamou sua mãe aflita e falou; Mamãe, os irmãos de Lampião estão aí. Este é Antônio Ferreira, este é Levino.

— Meu filho! O bando de Lampião em minha casa?

— Não fui eu quem chamei, mas também não vou botar pra fora. (Livro Vingança Não).

Aproniano incentivava: Vá Chico; pegar Otávio Mariz. Esta surra estava preparada para você.

Logo o bando que desaparecia nos cordões da Serra cantando: Olé muié Rendeira, olé muié Rendá (composição feita por Lampião em homenagem a sua avó paterna, a velha Jacosa Lopes que fazia renda). Dona Maria Egilda, por sua vez, ficava amargurada: — Meu Deus! Que horror! Meu filho no bando de Lampião! Que vergonha! Ontem eu era esposa de um coronel pacato, hoje, mãe e tia de cangaceiros. Eu bem que dizia que depois que João morreu a desgraça entrou nesta casa (Livro Vingança Não).

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Se Chico pereira queria vingança, os cangaceiros de lampião queriam matar, assaltar e roubar moça. O cangaceiro “Meia Noite” estava mais interessado em joias. Paizinho tinha uma rixa com o Juiz e se regozijava com a oportunidade de matá-lo. E dizia: o juiz de direito não mais vai condenar ninguém.

O resultado foi um ataque que marcou a História de uma das principais cidades da Paraíba e toda a culpa do episódio recaiu sobre Chico Pereira, que nunca mais encontrou paz e anos depois foi assassinado no Seridó Potiguar, em um fato vergonhoso para a História da Polícia Militar do Rio Grande do Norte e do então governador Juvenal Lamartine.

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A REDESCOBERTA DA GRUTA DOS TAPUIAS

Uma Aventura que Começou com uma Notícia

Publicada há Noventa Anos

Autor – Rostand Medeiros – Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Folheando a coleção de jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, me deparei com uma rara notícia, de bastante interesse para a espeleologia e a arqueologia potiguar.

Jornal “Diário de Natal”, edição de 7 de abril de 1928.

Na primeira página, da edição de 19 de abril de 1928, do antigo jornal potiguar “Diário de Natal”, encontra-se um artigo intitulado “A Gruta dos Tapuias”, onde um articulista que se intitulada apenas “Dapraia”, escrevia da cidade costeira de Touros no dia 7 de abril de 1928 e narrava a visita que havia realizado a uma gruta, na zona rural de Santana do Matos, que ele afirmava ter sido um dos últimos abrigos utilizados pelos indígenas que habitaram nosso sertão.

Uma descrição rara

Seu artigo, bem escrito e repleto de detalhes, mostra que no final do século XVIII, os portugueses dominavam praticamente toda a região. Nas vizinhanças de um arraial denominado São Miguel, próximo a Vila de Santana dos Matos, viviam refugiados em uma gruta, no alto de uma serra, um dos últimos grupos de índios que viviam em liberdade, aos quais o autor do texto de 1928 denominou “Tapuias”.

O narrador informomou que a gruta estava situada a três quilômetros da estrada que dava acesso a Serra de Santana, consistindo de um abrigo de granito, com duas fendas verticais, onde em seu interior poderia se abrigar um grupo de até vinte pessoas, que ficariam satisfatoriamente protegidas dos raios do sol e da chuva. O local onde se localizava o abrigo estava em um ponto que proporcionava uma excelente visão da região, sendo um ótimo ponto estratégico.

Ainda segundo “Dapraia”, sem fornecer quem, ou de onde conseguiu as informações, os indígenas que habitavam a gruta no alto da serra sobreviviam através do comércio que mantinham com um mestiço (que em uma parte mais adiante do texto, é tratado como “negro”), que procedia da várzea do rio Açu em direção a região do Brejo Paraibano. Na passagem deste almocreve, os índios trocavam carnes, couros e peles de diversos animais que eles caçavam, por fumo, cachaça, pequenos espelhos, alguma louçania e outras quinquilharias. O acordo mantido entre estes ditos Tapuias e o negociante era o sigilo absoluto, para evitar a prisão e morte destes indígenas.

Um dia, sem uma razão aparente, o negociante denuncia a existência do grupo e os habitantes da região realizaram uma expedição que culmina no total extermínio do grupo. Ainda segundo o articulista “Hoje ninguém conhece aquele rochedo escalvado e nu, e pesado e negro, como a traição que simboliza quase lendário, a não ser algum caçador que se vá abrigar dos raios inclementes do sol, ou algum turista ousado que, como eu, fui reviver uma página do passado, em momentos deliciosos, no augusto silêncio das grutas abandonadas”.

O autor deste antigo artigo não comenta qual a origem do grupo sitiado, nem maiores informações.

O homem que procura pinturas rupestres

Diante de tão interessante e controverso relato, como praticante da espeleologia há mais de vinte anos no Rio Grande do Norte, não poderia deixar de tentar chegar a este lugar e conferir se a Gruta dos Tapuias existia ou era um logro deste antigo articulista.

A caminho de Santana dos Matos.

Observando mapas atuais, percebi que realmente existe ao sul de Santana do Matos, uma estrada que sobe a Serra de Santana e a partir de outros caminhos, é possível chegar a região do Brejo Paraibano. Esta era uma boa indicação, pois sabia que muitas das atuais estradas vicinais existentes pelo interior do sertão nordestino, são as mesmas estradas que eram utilizadas no passado. Seria a estrada no mapa, a mesma do antigo jornal?

Reuni-me ao companheiro da SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental Cultural e Histórico do Rio Grande do Norte, Jeová Costa França e seguimos para a região de Santana do Matos, cidade a qual não conhecia. A única referência que possuía eram algumas notícias vinculadas na imprensa, que comentavam sobre um cidadão que “descobria pinturas rupestres” no meio do sertão e trabalhava com os pesquisadores da arqueologia da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, de Mossoró.

Já na zona rural do município de Santana dos Matos, fomos informados que próximo ao lugarejo conhecido como Residência, na propriedade denominada Cruzeiro, morava um senhor conhecido como “Antônio de Mariquinha” e seu filho Gilson, que poderiam informar algo sobre esta gruta.

Igreja Matriz de Santana dos Matos, dedicada a Nossa Senhora Santana.

Da Residência a propriedade Cruzeiro, à distância percorrida gira em torno de quatro quilômetros, em estrada carroçável de boa qualidade. Fomos bem recepcionados pela família do Sr. Antônio, onde conhecemos o seu filho, Gilson Luis da Silva, considerado o maior conhecedor dos sítios arqueológicos existentes na região.

Gilson nos contou que trabalhava na agricultura, ajudando a família na labuta do dia a dia, quando conheceu o professor da UERN Valdecir dos Santos Junior, mestre em arqueologia e diretor do Núcleo de Arqueologia desta universidade. A partir daí criaram uma parceria e o trabalho entre eles se iniciou no ano de 2002. Até o final de 2007, como fruto deste trabalho, foram cadastrados 82 sítios arqueológicos existentes na região junto ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A maioria destes locais possui registros rupestres na forma de pinturas da denominada Tradição Agreste, sendo todos na região rural de Santana dos Matos, apontando para uma concentração muito grande destes sítios com vestígios arqueológicos neste município. Para efeito de comparação, os municípios vizinhos de Cerro-Corá e Angicos, possuíam nesta época respectivamente 16 e 18 sítios arqueológicos cadastrados.

As informações sobre a gruta

Buscamos mostrar a Gilson e sua família as informações que possuíamos sobre a Gruta dos Tapuias. Mas para nossa decepção e surpresa, Gilson não conhecia o local, nem sequer tinha ouvido falar desta gruta, mas sabia de uma pessoa em Santana dos Matos que poderia nos ajudar.

Seguimos em direção à cidade, que fica a 30 quilômetros da propriedade Cruzeiro. Onde Gilson buscou um amigo por nome de Pedro das Virgens, funcionário da prefeitura local, que gostava de “dar umas caçadas” na região e conhecia muita coisa. Encontramos um senhor na faixa de cinquenta anos, tranquilo, com um largo sorriso no rosto e que indicou, para nossa alegria, que a informação da gruta era verídica. Descrevendo o antigo relato ao nosso informante, este confirmou que as informações do desconhecido articulista “Dapraia”, escritas há noventa anos, só poderiam ter sido feitas por alguém que esteve no local. O que nosso antigo escritor chamou de “arraial”, é na verdade a fazenda São Miguel, onde em suas terras está situada a gruta, sendo esta uma das maiores propriedades da região.

Seguimos o caminho indicado, onde deixamos nosso carro à beira da estrada de terra batida, no inicio da “Ladeira da Coãn” que sobe a Serra de Santana. Com uma altitude máxima de 840 metros, o visual da imponente serra é espetacular.

A pedra circular, no centro da foto e no alto da serra, é o bloco de granito onde está a Gruta dos Tapuias.

Gilson comentou que a partir desta ladeira, os antigos viajantes poderiam escolher entre três estradas para alcançar a região do Seridó potiguar e depois a Paraíba, eram as estradas do Cabugizinho, Fervedeira e Jaú, muito utilizadas por almocreves e comboieiros no passado, que usavam tração animal para o transporte de mercadorias.
Observando a região com a ajuda de binóculos, confirmamos que “Dapraia” realmente visitou o local, pois calculamos a distância da estrada a da região da gruta, em torno de três a quatro quilômetros. Transportávamos oito litros de água e uma rapadura e iniciamos o caminho para a gruta quase as onze da manhã.

As Surpresas do Caminho

A trilha existente segue primeiramente em declive, depois vai beirando um riacho que estava completamente seco na ocasião. É uma região de caatinga fechada, onde se deve andar com cuidado e atenção. Muitos mandacarus, facheiros, com seus pontiagudos espinhos, estão às margens da picada.

Caminho para a gruta.

Em certo ponto da caminhada, nos deparamos com uma grande parede de pedra, com mais ou menos sete metros de altura, e quase dois metros de espessura. Gilson comentou que a estrutura fazia parte de uma antiga barragem privada, da qual não sabia o nome, construída em 1941 e destruída durante as enchentes de 1958. Exploramos o local e fiquei imaginando o trabalho que foi construir esta obra, utilizando braços humanos e tração animal.

Restos da antiga barragem.

Seguimos a caminhada agora em aclive, devagar, em meio a um caminho de pedras soltas, que compõem o leito seco do rio que abastecia a antiga barragem. Ao meio-dia o calor era insuportável, mas a ideia de conhecer este estranho lugar animava o grupo. Durante esta parte do caminho, contemplamos muitos lajedos de pedras, que na época do inverno se transformam em corredeiras. Mais um declive para aliviar e depois mais um aclive para penalizar e o altímetro do GPS marcando uma altitude de 430 metros.

O Ponto a ser alcançado no alto da serra. Local da gruta.

Em dado momento paramos para descansar e já contemplávamos a pedra onde se encontra a Gruta dos Tapuias. Iniciamos a ultima parte da nossa subida. Próximo ao final, a vegetação da área já não era tão fechada, mostrando que existe retirada de madeira no local. Com a vegetação mais rala, o sol cobrava um preço alto pela nossa aventura. Agora era só ascensão, de vez em quando parávamos um pouco, seguindo devagar, mas sempre progredindo. Conforme subíamos tínhamos uma bela visão da região.

A Gruta dos Tapuias

Finalmente o grupo chegou ao grande bloco de granito que compõem a Gruta dos Tapuias, sendo esta rocha uma estrutura que possui em torno de 20 metros de altura e uns 3.500 m² de área. Como descreve “Dapraia”, duas fendas servem de entrada, onde uma pequena escalada coloca a pessoa dentro de uma parte da gruta.

Pedra dos Tapuias

Como ponto de observação, quem está neste local, não perde nada do que ocorre na região, em nenhuma das direções.

Durante nossa exploração, infelizmente não foi encontrado nenhum registro de pinturas rupestres, ou de material lítico, ossos ou de outros vestígios que indicassem ter sido o local utilizado em tempos passados e que ali ocorreu uma grande atrocidade. Existe um local onde o solo é composto de sedimentos e uma escavação poderia, ou não, comprovar se o abrigo foi utilizado pelo grupo descrito no antigo artigo. Neste local, a leitura do altímetro do GPS confirmou 743 metros de altitude.

Fendas de acesso a gruta.

Espeleologicamente a Gruta dos Tapuias é um abrigo formado pelo deslocamento, ou desgaste, de grandes rochas graníticas, que ao longo de milhões de anos, se acomodaram de tal forma, que foram criados naturalmente pequenos abrigos, sendo esta a característica normal da formação de cavernas graníticas nesta região.

Vista da parte externa, a partir da entrada da Gruta dos Tapuias.

Ficamos explorando tranquilamente o local e o silêncio no alto da serra foi quebrado pela presença de um bando de macacos-prego, que ruidosamente chamava nossa atenção por ocupar seu território.

Após um tempo para descanso, iniciamos o retorno. Durante o trajeto, tal era o nosso desgaste, que todo nosso estoque de água acabou tornando mais penosa à caminhada e só alcançamos o nosso veículo às cinco e meia da tarde.

Através da leitura de obras como as produzidas por Olavo Medeiros, Fátima Martins Lopes e outros, percebi que não seria impossível, no final do século XVIII, um pequeno grupo de indígenas dos Tarairiú continuar a sua luta pela sobrevivência em um local como a Gruta dos Tapuios. Estes indígenas poderiam ser das tribos Genipapo, dos Paiacu, dos Panacu-Açu, Caratiú, Ariú, ou os aguerridos Janduís, os Canindés, os Coremas, Panatis ou dos Pegas, que furtivamente buscavam manter um modo de vida fadado à extinção, em uma terra ocupada por brancos europeus, seus descendentes mestiços, seus gados e suas lavouras. Li também que estes mesmos brancos não precisariam de muito estímulo, nem teriam maiores problemas de consciência, para massacrar um grupo errante de indígenas e manter as suas posses.

Mesmo comprovando que o articulista “Dapraia” havia estado no local, pois as suas descrições são extremamente fiéis ao local visitado, não concluímos se a história sobre o abrigo indígena era real, ou uma fantasia de um aventureiro em um momento idílico ocorrido há noventa anos. Infelizmente não consegui descobrir a identidade do autor do artigo, se habitava realmente em Touros e o porquê da sua visita a Gruta dos Tapuias.

Fim da aventura.

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