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NATAL, 1935: QUATRO DIAS SOVIÉTICOS

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A bandeira de Natal com a estrela, a foice e o martelo | Crédito: Montagem Fabio Marton

A capital do Rio Grande do Norte viveu sob um breve regime comunista

Autor – Marcus Lopes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/natal-1935-dois-dias-sovieticos.phtml#.WEyVPYWcHIV

Durante quatro dias, o Brasil viveu a experiência de um governo comunista. Foi em 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte. Após um levante militar ocorrido no Batalhão do Exército, a capital potiguar caiu nas mãos dos rebeldes, que destituíram os governantes locais dos seus cargos – incluindo o governador do estado e a Assembleia – e assumiram o poder com apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luís Carlos Prestes. Sob o lema “pão, terra e liberdade”, os revolucionários almejavam dar o pontapé inicial para a instalação de um regime soviético no Brasil.

O levante começou na manhã de 23 de novembro, um sábado. O dia em Natal, que contava com cerca de 40 mil habitantes, começou calmo e prometia poucas novidades. A principal notícia era uma formatura no Teatro Carlos Gomes, à noite, que contaria com a presença do governador Rafael Fernandes.

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Cais da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

No quartel militar do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) o dia também corria tranquilo até que chegou a informação de que o general Manuel Rabello, comandante da 7ª Região Militar, no Recife, havia autorizado o licenciamento de alguns cabos, soldados e tenentes que estavam com tempo vencido na carreira militar e a expulsão de outros, acusados de envolvimento em incidentes de rua ocorridos dias antes em Natal, incluindo assaltos a bondes.

O documento com a ordem de expulsão precipitou um movimento que estava sendo articulado havia vários dias entre lideranças militares e sindicatos locais junto com membros do PCB estadual. O objetivo era apoiar a revolução nacional que estava sendo preparada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), no Rio.

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O 21º Batalhão de Caçadores

“Havia uma preparação para o levante sob a direção do Partido Comunista, que atuava no 21º Batalhão de Caçadores e em vários sindicatos locais. Eles apenas aguardavam as orientações do comitê central”, afirma Homero de Oliveira Costa, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e estudioso da insurreição de Natal. Somando-se a isso, Costa lembra que a cidade já vivia momentos de tensão política desde o ano anterior. “O Rio Grande do Norte teve uma das mais tumultuadas eleições do país, com diversos conflitos de ruas, assassinatos, prisões e repressão. Isso criou uma situação muito tensa no Estado, e em Natal em particular”, diz.

Erro de comunicação

Os acontecimentos daquele sábado se precipitaram de tal maneira que não houve tempo nem de avisar a ANL, cujos líderes (incluindo Prestes) aguardavam o melhor momento para eclodir a revolução em nível nacional. Em função das expulsões ordenadas pelo comando militar no Recife, o PCB estadual e os integrantes do Batalhão decidiu dar início ao motim naquele mesmo dia.

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Luís Carlos Prestes – Bundesarchiv; BArch

Por volta das 19h30, um grupo de militares rebeldes, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros, rendeu os oficiais de plantão do quartel e, com fuzis apontados para a cabeça dos soldados, ordenaram: “Os senhores estão presos em nome do capitão Luís Carlos Prestes”. Não houve resistência e, a partir daí, os revolucionários, liderados por Quintino e apoiados por grupos civis organizados (como o sindicato dos estivadores, que era muito forte na cidade), tomaram o quartel e ocuparam locais estratégicos: o palácio do governo, a Vila Cincinato – residência oficial do governador -, a central elétrica, a estação ferroviária e as centrais telefônica e telegráfica.

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Resultado do ataque comunista ao Quartel da Salgadeira, no Centro de Natal.

Informado sobre a confusão e a organização dos amotinados ainda na cerimônia dos contabilistas, o governador e demais autoridades civis e militares fugiram e se esconderam na casa de aliados. No quartel da Força Pública, cuja sede ficava próxima ao batalhão rebelado, ensaiou-se uma resistência legalista com policiais fiéis ao governo, vencida pelos militares rebeldes, no momento mais organizados e bem armados.

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Quintino Clementino de Barros, militar e músico do 21º Batalhão de Caçadores, presidente do Comitê Popular Revolucionário, quando já preso pelas forças do governo.

Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada. Na residência do governador, sede dos rebelados, formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.

Em seguida, o Comitê Revolucionário começou a tomar medidas práticas. A primeira foi um decreto com a destituição do governador do cargo e a dissolução da Assembleia Legislativa “por não consultar mais os interesses do povo”. As tarifas de bondes foram extintas e o transporte coletivo tornou-se gratuito.

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De cigarro vemos Mário Lago, ex-diretor da Casa de Detenção de Natal e Mário Paiva, comissários do Comité Revolucionário, quando detidos.

Na segunda-feira, o comércio e os bancos não abriram. À tarde, foi ordenado o saque dos cofres da agência do Banco do Brasil e Recebedoria de Rendas. O dinheiro foi confiscado em nome do governo revolucionário e parte dele distribuído à população, que adorou a novidade, mesmo sem ter muita noção do que estava acontecendo.

Pura farra

“A população confraternizava com os rebeldes. Era mais uma festa popular ou um carnaval exaltado, do que uma revolução”, explica o historiador Hélio Silva em seu livro 1935 – A Revolta Vermelha. “Casas comerciais foram despojadas de víveres, roupas e utensílios domésticos que aquela gente não podia comprar. Houve populares que, pela primeira vez, comeram presunto”, de acordo com o historiador.

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Da esquerda para direita vemos o ex-sargento Diniz, do 21º Batalhão de Caçadores, José Macedo, ex-tesoureiro dos Correios e Telégrafos e João Baptista Galvão, considerados “figuras salientes” do governo comunista instalado em Natal em novembro de 1935.

Um dos líderes do movimento, João Galvão, relatou posteriormente o que aconteceu naqueles dias: “O povo de Natal topou a revolução de pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte coletivo seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar”.

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Líderes comunistas do levante natalense presos pelas forças legalistas.

Para se comunicar com a população, um avião foi confiscado no aeroporto e sobrevoou a cidade despejando milhares de folhetos. No curto período em que se mantiveram no poder, os revolucionários também distribuíram o primeiro e único número do jornal A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado. Nele, foi publicado o expediente do novo governo e um manifesto, inspirado no programa do PCB e sob o lema “todo poder à ANL”.

Cada um por si

Segundo o professor Homero Costa, o pouco tempo em que permaneceram no poder impediu que os revolucionários tomassem outras medidas práticas. “Houve boatos de que na Vila Cincinato estavam distribuindo alimentos à população, o que levou muita gente a se deslocar para lá, mas não era verdade”, diz Costa.

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Foto que mostra os efeitos do arrombamento do cofre da agência do Banco do Brasil em Natal.

Mesmo assim, algumas medidas típicas de regimes de exceção foram tomadas naquele começo de semana, como salvo-condutos para circulação nas ruas e ordens para que o comércio e os bancos funcionassem normalmente, o que, claro, não aconteceu. “Os comerciantes foram orientados a negociar como de costume, sem estocarem alimentos para elevar os preços. Caso isso ocorresse, os estoques seriam confiscados pelo governo”, diz Elias Feitosa, professor de história do Brasil do Cursinho da Poli, lembrando que alguns gêneros alimentícios, como o pão, também tiveram o preço reduzido.

O levante não ficou restrito a Natal. Houve uma interiorização do movimento no Rio Grande do Norte. “Foram formadas três ‘colunas guerrilheiras’ que ocuparam 17 dos 41 municípios do estado, destituindo prefeitos e nomeando outros”, diz Homero Costa.

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“Foi bala muita” – Fachada do Quartel da Salgadeira, atingido por disparos efetuados pelos comunistas.

Pequenas localidades, como São José de Mipibu, Ceará Mirim e Baixa Verde (atual município de João Câmara) foram ocupados sem resistência e os prefeitos substituídos por simpatizantes da ANL. Agências bancárias e do governo (as coletorias de renda) foram saqueadas e o dinheiro enviado para a capital. Na terça-feira, a intentona potiguar começou a revelar sua fragilidade com a movimentação de tropas do Exército da Paraíba e de Pernambuco rumo a Natal para debelar o movimento e restabelecer a ordem.

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Sargentos legalistas do Exército Brasileiro, que ficaram prisioneiros dos comunistas no quartel do 21º Batalhão de Caçadores.

Em uma localidade chamada Serra do Doutor, um dos grupos da ANL foi preso por tropas leais a Getúlio Vargas. Informados de que tropas federais entrariam em Natal e com a possibilidade de bombardeamento aéreo, os líderes do “governo revolucionário” fugiram na base do cada um por si. Um deles, Praxedes, viveu foragido durante anos. Os demais foram capturados e enviados para o Rio de Janeiro com outros presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos.

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De chapéu de palha vemos Dinarte Mariz, tendo ao seu lado Enoch Garcia, considerados os idealizadores da resistência ao avanço comunista no Seridó Potiguar, que se efetivou com o combate na Serra do Doutor. Certamente que politicamente Dinarte foi um dos que mais usufruiu politicamente da sua suposta ação de resistência contra as forças comunistas, chegando a se tornar governador e senador pelo Rio Grande do Norte.

O mesmo aconteceu nas cidades do interior. Com a fuga, os militares enviados pelo governo federal não tiveram dificuldades de controlar a situação. O governador Rafael Fernandes foi reconduzido ao cargo e, a partir de quarta-feira, dia 27 de novembro, a vida voltou ao normal na cidade que, durante cerca de 90 horas, abrigou, como escreveu Hélio Silva, “o primeiro, único e fugaz governo soviete na história do Brasil.”

Intentona comunista

No mesmo dia em que o “governo comunista” era encerrado no Rio Grande do Norte, o movimento tenentista deflagrava, no Rio de Janeiro, uma insurreição para derrubar o presidente Getúlio Vargas e instaurar um regime comunista no Brasil. Liderado por Luís Carlos Prestes, o levante ficou conhecido como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha. Os amotinados se rebelaram em vários regimentos e batalhões do Rio, mas foram rapidamente sufocados pelas forças de segurança nacional.

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A insurreição estava sendo preparada desde o ano anterior. No final de 1934, Prestes, que estava na União Soviética havia três anos, retornou ao Brasil para organizar a revolução comunista. Acompanhado de sua mulher, Olga Benário, militante do partido comunista alemão, eles desembarcaram clandestinamente com os nomes falsos de Antônio Villar e Maria Villar. Além do casal, vieram outros estrangeiros para ajudar na revolução. Entre eles, o argentino Rodrigo Ghioldi e sua mulher, Carmen; o casal alemão Elisa Sabarowski e Arthur Ewert; os belgas Lion Valle e sua mulher, Alphonsine; o alemão Franz Gruber e o norte-americano Victor Allen Baron.

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Intentona Comunista de Natal de 23 de novembro de 1935 foi notícia em todo mundo, como neste material publicado em um jornal dos Estados Unidos.

Todos, incluindo Prestes, eram militantes da Internacional Comunista, que via no Brasil um terreno fértil para a revolução. “O PCB era uma seção da Internacional Comunista e estava inserido no que a entidade chamava de ‘países coloniais e semicoloniais’, para os quais havia estratégias revolucionárias distintas. No caso, ao contrário dos países capitalistas ‘avançados’, a estratégia era a via insurrecional”, explica o cientista político Homero Costa, da UFRN, sobre a participação do Komintern no movimento de 1935, que registrou ações em Natal, Recife e no Rio. Após a rebelião em Natal, ocorreu um efeito dominó em outras praças que também estavam sendo preparadas e treinadas para a revolução.

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“O que ocorreu em Natal pegou todos de surpresa, inclusive o comitê central. Os levantes no Recife, no dia seguinte ao de Natal, e no Rio de Janeiro, foram em consequência dessa precipitação”, diz Costa, lembrando que a insurreição nacional estava planejada apenas para o início de 1936.

“O levante de Natal fez parte do contexto da Intentona Comunista. A ideia era que a revolução fosse em escala nacional. Porém, nem todas as guarnições envolvidas se engajaram ao mesmo tempo”, diz o historiador Elias Feitosa. A ação da Internacional serviu como justificativa para que Getúlio Vargas instaurasse o Estado Novo, em 1937.

REVITALIZAÇÃO DA RUA CHILE: DUAS DÉCADAS DEPOIS, POUCA COISA SOBREVIVEU

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Largo da Rua Chile, Ribeira, Natal-RN – Fonte – http://www.orquideacondominium.com/espanhol/index.php?page=natal

Autor do texto – Henrique Arruda – Novo Jornal

Fonte – http://novojornal.jor.br/cult/revitalizacao-da-rua-chile-duas-decadas-depois-pouca-coisa-sobreviveu

Há 20 anos a Rua Chile inaugurava a sua primeira e até então única restauração. O projeto remoldurou a vida cultural da capital potiguar, que encerrou a década de 90 como o reduto de bares e pubs emblemáticos. Duas décadas depois, pouca se salvou e apenas dois empreendimentos continuam funcionando. O NOVO reconta esta história e traça um “Raio X” da atual situação do local.

Procurado pela Secretaria de Turismo e Cultura da época, em 1996, o arquiteto Haroldo Maranhão foi o responsável por realizar o projeto de restauração que ele começou a esboçar quando ainda era estudante do curso de arquitetura na UFRN e apresentou como Trabalho de Conclusão de Curso uma revitalização para o bairro da Ribeira. Era década de 80 e o assunto pouco discutido.

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A ideia da revitalização da Ribeira já era um desejo antigo – Diário de Natal, 19 de março de 1981, página 2.

“Por conta do meu TCC me chamaram para conduzir um projeto que inicialmente iria apenas pintar a fachada das casas voltadas para o rio, então eu propus um estudo mais fundo, de revitalização mesmo da rua, e assim o projeto foi reformulado”, conta sobre a pesquisa iniciada no começo dos anos 90, interrompida por alguns anos e retomada apenas em meados de 95.

Descascando todas as fachadas, Haroldo descobriu junto com seu escritório a verdadeira arquitetura de todos os prédios cujo orçamento de revitalização permitiu, 45 casarões exatamente, localizados entre o largo da Rua Chile até o encontro da rua com a Avenida Tavares de Lira. Na época o centro histórico de Natal não era tombado como patrimônio histórico nacional, o que só veio acontecer em 2010.

“Nós trabalhamos todo um conjunto arquitetônico e o impacto daquilo foi imediato porque foi apenas depois disso que o olhar da cidade se voltou pela primeira vez para a questão patrimonial. Antes só se pensava nisso através das crônicas de Câmara Cascudo ou Vicente Serejo”, diz, mencionando ainda como uma das consequências imediatas a formulação antes inexistente de passeios escolares pelo local.

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Ainda na década de 1980 Jaime Lerner defendia a revitalização da Ribeira. Diário de Natal, 14 de julho de 1987, pág. 3. Jaime Lerner é um político, arquiteto e urbanista brasileiro, filiado ao Democratas. Foi prefeito de Curitiba por três vezes e governador do Paraná por duas vezes. Foi eleito presidente da União Internacional de Arquitetos em julho de 2002 – Fonte – http://agorarn.com.br/cidades/video-abandonada-ribeira-sofre-com-o-descaso-do-poder-publico/

“O que dói desde a época em que estávamos fazendo o projeto é que sabíamos da descontinuidade política, tanto que está completamente abandonada pelo poder público até hoje, como você bem me lembrou ao entrar no escritório, há 20 anos”, comenta o arquiteto, remexendo em gavetas antigas à procura de fotos históricas de como a Rua Chile estava antes do projeto de restauração.

Na opinião de Haroldo, o essencial agora para a Rua Chile e o bairro da Ribeira, como um todo, é a aproximação do poder público. “Você não vê a presença do poder público no local. É inexistente em todas as questões que lhe compete, como segurança, paradas de ônibus, coleta de lixo e outros vários fatores”, opina, mencionando ainda a importância da “Lei Operação Urbana Ribeira”, caducada desde 2014, que isentava de impostos os estabelecimentos comerciais do bairro.

“Era uma lei que permitia ao empresário disposto a investir na Ribeira a isenção de impostos, como IPTU, ISS e outros… E isso é muito importante para atrair novos agentes, sem falar de novos investimentos em moradia também para o surgimento de farmácias e padarias, por exemplo”, ilustra.

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Rua Chile, Ribeira, Natal-RN – Fonte – http://3.bp.blogspot.com/-2OL4nHHzfb4/TjQZ3ekpHpI/AAAAAAAAAII/tid3_Ey1wbg/s1600/RuaChileNatalRN.jpg

Desafio de resistência

Atualmente com apenas dois pubs em funcionamento constante, o “Ateliê Bar” e o “Centro Cultural Dosol”, a Rua Chile ainda permanece como a opção mais certeira aos que desejam ouvir música autoral potiguar, ou fazer parte do movimento de resistência cultural no bairro, que se estende à sua rua vizinha, Frei Miguelinho, onde funcionam: A BOCA Espaço de Teatros, Casa da Ribeira, Espaço A3 e Giradança.

“É uma batalha diária ter um espaço na Ribeira, e uma prova de resistência cultural/respeito com a história da cidade”, explica Anderson Foca, idealizador do Centro Cultural Dosol, às vésperas de mais uma edição do Festival Dosol, que entre os dias 11 e 13 de novembro vai levar para a Rua Chile mais de 70 shows.

“Acho que enquanto o poder público não olhar a Ribeira com o potencial que o bairro tem vamos sempre ficar nessa corda bamba interminável. As vezes rindo, as vezes chorando mas sempre pronto pra estar lá”, comenta Foca, revelando que um dia o Festival Dosol também pode deixar o bairro.

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Fonte – http://agorarn.com.br/cidades/video-abandonada-ribeira-sofre-com-o-descaso-do-poder-publico/

“Penso em uma edição fora da Rua Chile, mas não por causa da Ribeira em si, e sim pela logística de receber artistas, tamanho dos palcos e coisas do tipo. Temos um sonho de fazer o dosol na praia, de dia e coisas assim. Mas a ribeira continuará sendo a principal incubadora do dosol e dos artistas da cidade”, explica.

Na opinião de André Maia, idealizador do Ateliê Bar, algumas melhorias pontuais foram observadas na Rua Chile recentemente, como a iluminação de LED instalada no largo. 

“É claro que isso precisa se estender a todo o bairro, mas ajudou bastante. A segurança também melhorou, mas está muito além do que um centro histórico precisa, no mínimo um posto policial fixo”, comenta, mencionando o Terminal Marítimo de Passageiros de Natal, concluído desde julho de 2014, mas nunca aberto a população.

“É um grande elefante branco, o que é um absurdo porque poderia ser um dos principais motivos para impulsionar a economia da área”, afirma o dono do estabelecimento que vem funcionando de quintas a domingos e nas quartas-feiras uma vez por mês, sempre com shows e outras ações bastante frequentadas. 

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Fonte – http://blogtangaraense.com.br/wp-content/uploads/2016/11/rua-chile-.-ribeirafoto-rodrigo-sena-620×415.jpg

“Nos tempos de Blackout”

O professor de História Carlos Henrique Pessoa Cunha avalia que a efervescência da Rua Chile durou de 1997, com o surgimento do emblemático “Blackout” até meados de 2002, como ele conta em seu livro, fruto de sua dissertação de mestrado em História, “Nos Tempos de Blackout” (Jovens Escribas/2014).

“Foi a restauração dos casarões que impulsionou o processo de reocupação da rua pelos agentes de cultura. A reforma em si, aliás, não deu garantias de que a rua seria revivida, e sim o surgimento dos bares, em especial o Blackout que se tornou emblemático”, opina citando o bar já fechado nos dias atuais.

Ainda de acordo com o professor a maior diferença da Rua Chile no final dos anos 90 para a atual Rua Chile é a periodicidade das ações. “O que existem hoje por lá são eventos culturais, como a Virada Cultural, o Circuito Ribeira, o Festival Dosol, mas falta a periodicidade das ações. Diferente do final da década de 90, quando independente do dia sempre tinha algo de bom rolando na Ribeira em vários pontos diferentes”, compara.

O professor observa ainda que a movimentação cultural da Rua Chile existiu desde o começo do século XX, dando “uma esfriada” apenas entre os anos 70 e 80, até ressurgir em 1996. “Foi um período que a rua serviu apenas para oficinas, peixarias, fábricas de gelo…”, diz, frisando a importância que a Rua teve na visibilidade às bandas de Rock autoral da cidade.

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Ribeira, Natal-RN – Foto meramente ilustrativa – Fonte – http://agorarn.com.br/cidades/video-abandonada-ribeira-sofre-com-o-descaso-do-poder-publico/

“Sempre existiram bandas de rock autoral na cidade durante a cena Rock 90, vide “Modus Vivendi”, “Cabeças Errantes”… o que faltava era um lugar para elas se apresentarem e esse foi o maior mérito da Rua Chile desde o seu ressurgimento. As bandas começaram a receber cachês, gravar discos, a ganhar visibilidade”, conta.

O historiador é mais um que defende a necessidade de ações mais efetivas do poder público no local para que ele consiga prosperar. “Não apenas no financiamento das ações culturais, mas também para estrutura e para o fortalecimento do turismo de centros históricos assim como existe nas principais cidades do país”, opina.

“Aqui o turista nunca vai para a Ribeira e o próprio natalense evita porque não tem segurança, iluminação, o que é uma pena já que a Rua Chile é privilegiada porque tem espaço para estacionar, locais para bons palcos e ainda o fato de não haver vizinhança que seja perturbada com a realização dos eventos”, conclui.

MAIOR TREMOR DE TERRA DO RN FOI REGISTRADO EM 1986

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Muitas casas destruídas em João Câmara e região.

FONTE DO TEXTO – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/maior-tremor-de-terra-do-rn-foi-registrado-em-1986/137371

A  atividade sísmica na região de João Câmara já provocou milhares de tremores no Rio Grande do Norte nos últimos vinte e três anos. A maioria deles foi registrada apenas por modernos aparelhos que medem a atividade sísmica em redor do planeta. O de ontem foi o sétimo de magnitude média, capaz de ser percebido além das fronteiras do Estado.  O primeiro e maior deles aconteceu em 1986, obrigando milhares de pessoas a sair de casa durante a madrugada com medo de desabamentos.

Naquele domingo, 30 de novembro, os moradores de João Câmara estavam apreensivos. No dia anterior eles relataram a ocorrência de pequenos tremores. “Porém, por volta das 3h20, aconteceu o maior deles, acompanhado de um forte estrondo que rachou casas e derrubou paredes, gerando um verdadeiro clima de pânico na população”, registrou a Tribuna do Norte, em edição especial de segunda-feira, 1º de dezembro.

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Prejuízos em casas comerciais.

“Quando escutei o estrondo disse: valha-me Nossa Senhora. Quando me levantei para chamar os meninos vi as telhas despencar. Fiquei atarantada. Parti para o quarto é já fui me relando toda”, contou, na época, Maria Silvina, que morava com o marido e mais cinco filhos no distrito de Samambaia, o epicentro do terremoto. Duas filhas do casal ficaram sob os escombros, mas tiveram apenas ferimentos leves.

Sem saber o que fazer, os moradores se concentravam no centro da cidade e no terminal rodoviário. “Quem tinha parentes em outras cidades ou conhecia algum fazendeiro da região pedia socorro”, dizia a TN, citando como exemplo a dona de casa Paula Pereira da Silva, viúva, sete filhos e quatro netos. “Não posso mais ficar aqui. Vi minha casa rodar e cair pedaços da porta.” Em Natal houve relato de rachaduras em prédios, inclusive no Colina dos Flamboyans, na zona sul da cidade.

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Muitas pessoas se retiraram da cidade com seus pertences em caminhões…

Nos dias que se seguiram, o Rio Grande do Norte recebeu a visita de ministros do governo José Sarney. O ministro do Interior da época, Ronaldo Costa Couto, foi a João Câmara e anunciou a liberação de Cz$ 2 milhões (dois milhões de cruzados) para recuperar os danos provocados pelo tremor.  O governador de então, Radir Pereira (que substituíra José Agripino, eleito senador), decretou estado de calamidade pública.  João Câmara viria a sentir um novo tremor de terra três anos depois. De lá pra cá a atividade sísmica se estabilizou, a tal ponto que a estação sismológica foi desativada e os equipamentos levados para outras regiões.

Estudos sobre terremotos são recentes no Brasil

Como o território brasileiro não está sob as placas tectônicas, durante muito tempo se acreditou que as  ocorrências de terremotos no Brasil era algo improvável. Apesar de notícias esparsas de tremores de terra em períodos anteriores da história brasileira, somente no século 20 é que foram iniciados os estudos e um acompanhamento cientifico dos abalos sísmicos  no Brasil.

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E outros deixavam a cidade em vários ônibus.

Avanços nos conhecimentos da geofísica comprovam que os tremores podem ocorrer, também,  nas regiões denominadas “intraplacas”, como é o caso brasileiro, situado no interior da Placa Sul-Americana. Nessas regiões, os tremores são mais suaves, menos intensos e dificilmente atingem 4,5 graus de magnitude, apesar de algumas ocorrências no Brasil já terem, inclusive, ultrapassado a marca dos 5 graus na Escala de Richter .

Os abalos sísmicos registrados em território brasileiro são decorrentes da existência de falhas (pequenas rachaduras) causadas pelo desgaste da placa tectônica ou são reflexos de terremotos com epicentro em outros países da América Latina. Embora a atividade sísmica brasileira seja menos frequente e bem menos intensa que em outras partes do planeta, não deixa de ser significativa, nem deve ser desprezada ou simplesmente ignorada.

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Muita gente dormiu em barraca improvisadas.

No Brasil, os tremores de terra só começaram a ser detectados com precisão a partir de 1968, quando houve a instalação de uma rede mundial de sismologia. Brasília foi escolhida para sediar o arranjo sismográfico do continente latino-americano. Há, atualmente, 40 estações sismográficas em todo o país, sendo que o aparelho mais potente é o mantido pela Universidade de Brasília.

Há relatos de abalos sísmicos no Brasil desde o início do século 20. Segundo informações do “Mapa tectônico do Brasil”, criado pela Universidade Federal de Minas Gerais, existem 48 falhas geológicas no território brasileiro que concentram as ocorrências dos tremores de terra.

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Forte atuação da UFRN e UNB nas pesquisas sobre os abalos sísmicos em João Câmara e região.

Ainda segundo dados levantados a partir da análise de mapas topográficos e geológicos, as regiões que apresentam o maior número de falhas são o Sudeste e o Nordeste, seguidas pelo Norte e Centro-Oeste, e, por último, o Sul.

O Nordeste é a região que mais sofre com abalos sísmicos. O segundo ponto de maior índice de abalos sísmicos no Brasil é o Acre. No entanto, mesmo quem mora em outras regiões não deve se sentir imune a esse fenômeno natural. Embora grande parte dos sismos brasileiros seja de pequena magnitude (4,5 graus na Escala Richter), a história tem mostrado que, mesmo em “regiões tranquilas” podem acontecer grandes tremores de terra.

Apesar de não ser alarmante, o nível de sismicidade brasileira precisa ser considerado em determinados projetos de engenharia, como centrais nucleares, grandes barragens e outras construções de grande porte, principalmente nas construções situadas nas áreas de maior risco.

VEJA TAMBÉM – Os terremotos e o Rio Grande do Norte – https://tokdehistoria.com.br/2011/03/11/os-terremotos-e-o-rio-grande-do-norte/

JUDEUS EM NATAL – A SAGA DOS PALATNIK

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Um Grupo de Judeus Que Começou Sua Vitoriosa Trajetória Empresarial Trabalhando Junto aos Mais Pobres de Natal 

Autor – Rostand Medeiros

A foto e o texto acima mostram o lugar onde os destinos administrativos de Natal, capital do Rio Grande do Norte, são traçados e executados desde 1922. Oficialmente conhecido como Palácio Felipe Camarão é um marco na cidade, mas o que importa mesmo nessa nota de jornal é um pequeno detalhe no final do texto. Ali ficamos sabendo que os móveis construídos na época da inauguração desta marcante edificação, que não sei se ainda estão por lá, foram executados pela firma “Tobias Palatnik & Irmãos”.

Os proprietários desta empresa, com um sobrenome tão diferenciado dos tradicionais nomes familiares de origem portuguesa existentes em Natal, eram os membros de uma família de judeus ucranianos, que em poucos anos foram considerados os membros mais proeminentes da comunidade judaica em Natal.

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3 de janeiro de 1947

Nada mal para estes imigrantes que haviam chegado apenas dez anos antes ao Brasil e tinham começado suas atividades na capital potiguar vendendo seus produtos diretamente nas casas dos moradores da pequena urbe. Trabalharam sem diferenciar classe nem cor, atendendo inclusive os mais humildes.

Em Busca de Novos Espaços

Segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira, através de sua monografia de mestrado em História “A fala dos passos: imigração e construção de espaços judaicos na cidade do Natal (1919-1968)”, a história dos judeus na capital potiguar começa a ser contada no ano de 1911, com a chegada ao Brasil de Tobias Palatnik e seus irmãos Adolfo, Jacob e José (este último com apenas 16 anos) e um tio Beinish (Brás) Palatnik. Eles deixaram para trás a fria região da Podólia, no sudoeste da Ucrânia e seguiram esperançosos para recomeçar a vida no grande país tropical.

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Judeus expulsos dos seus lares na Europa Oriental – Fonte – https://en.wikipedia.org

Para a historiadora este processo migratório dos judeus vai muito além de uma mera necessidade econômica. A questão judaica na Europa durante o século XIX até a primeira metade do século XX foi marcada por pressão e opressão, onde o espírito antissemita se manifestou nas esferas política, econômica e social, atingindo grande parte da população que hostilizava e culpava os judeus por toda sorte de mazelas. Deixar a Europa no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX representava para eles antes de tudo uma questão de sobrevivência.

Em calientes terras tupiniquins o Rio de Janeiro foi a primeira parada de Tobias Palatnik e seus parentes. Mas foi por um período curto e logo aqueles judeus seguiram para Salvador. Mas também a capital baiana não foi o melhor dos destinos e eles partiram para o norte, em direção à cidade do Recife, onde os Palatnik começaram a fazer sua clientela, em grande parte composta por operários.

Luciana Souza de Oliveira aponta que na cidade conhecida como “Veneza Brasileira” eles aprenderam que, além do comércio realizado de porta a porta, mesmo falando o português ainda de forma rudimentar, eles podiam comprar no atacado e com exclusividade. Neste período a cambraia bordada foi seu principal produto.

Recife certamente ajudou os irmãos Palatnik a assegurar alguns lucros, mas a concorrência comercial na cidade era um problema complicado, que contava naquele período com 80 judeus atuando como prestamistas. Segundo a autora estes judeus que já atuavam em Recife eram em sua maioria rapazes solteiros, provenientes da Bessarábia (região histórica da Europa Oriental, cujo território se encontra principalmente na atual Moldávia), Polônia e a Ucrânia, que batalhavam duro para poder concretizar um objetivo comum – o desejo de conseguir meios para poder se estabelecer na Palestina com os demais familiares que deixaram na Europa Oriental. 

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Tobias Palatnik – Fonte –

Foi então que Tobias Palatnik, o mais velho dos quatros irmãos, resolveu transferir-se para Natal objetivando fugir daquela concorrência.

Vencendo Onde os Outros nem Percebiam que Existiam Consumidores

Para a autora do texto a escolha de pegar o trem e seguir em direção a Natal foi a melhor decisão que Tobias tomou quando chegou ao Brasil. Nessa época Natal ainda era uma pequena capital com população inferior a 25.000 habitantes, com apenas 27 famílias formada por estrangeiros, três linhas de bondes elétricos, uma catedral, um cinema mudo e que estava começando a passar por intensas transformações. A cidade estava aos poucos desabrochando e vivenciando o início da modernidade tão desejada pela elite local.

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Navios no Rio Potengi, em Natal

Mas se por um lado a elite natalense se deleitava com os avanços e belezas da “Belle Époque”, uma grande parcela da sua população – os mais pobres – eram tratados de maneira verdadeiramente invisível.

Aqueles ucranianos, que sabiam bem o que significavam as violentas exclusões dos pogroms contra judeus na Europa Oriental, certamente perceberam que também havia exclusão em Natal. Mas esta era extremamente sutil, realizada de maneira covarde, praticada sem violência física contra uma massa morena, mas carregada de extrema hipocrisia. A exclusão em Natal diferenciava os seres humanos principalmente pela cor e condição socioeconômica.

Acredito que Tobias Palatnik percebeu de maneira muito correta que aquelas pessoas excluídas, mesmo com uma condição financeira mais limitada, apontavam para a possibilidade de um mercado consumidor extremamente promissor em Natal. Já a maioria dos seus concorrentes, membros de uma elite branca e racista, que praticavam intensos atos de exclusões sociais contra aquelas pessoas consideradas ralé, jamais iriam ate eles, bater nas portas dos seus “mocambos” para vender alguma coisa.

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Os conhecidos Mocambos, as moradias dos mais pobres de Natal

Tobias Palatnik se deparou com um espaço que estava pronto para ser explorado. Percebeu que a venda a prestação tinha futuro na cidade e que a oportunidade comercial era bem melhor que em Recife. Logo avisou aos seus irmãos e estes seguiram para o novo destino e começaram um novo investimento.

Percebi lendo o texto da historiadora Luciana Souza de Oliveira e os jornais de época, que para os Palatnik a diferenciação dos natalenses abonados com os “negos”, como os mais ricos da cidade pejorativamente chamavam os mais pobres (que nem precisavam ser claramente afrodescendentes para assim serem classificados), era algo que nada lhes importava.

O que importava mesmo era negociar, chegar até o cliente, atender o desejo das pessoas, independente de onde eles moravam, ou da cor da sua pele…

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As Rocas, área de atuação dos Palatnik em Natal

Logo na primeira investida Tobias Palatnik pôde observar que só nas Rocas, a região dos pescadores, onde viviam os mais pobres da cidade, ele poderia conquistar facilmente mais de 200 clientes. Outra coisa que certamente o judeu percebeu foi que aquelas pessoas, não obstante suas limitadas condições financeiras, possuíam um acentuado sentido de honra em relação a quitação de suas dívidas financeiras, onde poucos se davam ao papel de caloteiros.

Era tudo que um prestamista desejava!

Assim os produtos foram sendo oferecidos de porta em porta e logo se estabeleceram fortes laços econômicos. Mensalmente os irmãos passavam nas casas dos clientes, oferecendo novas mercadorias e estes pagavam as parcelas dos produtos que haviam sido anteriormente vendidos. Esse tipo de procedimento tornava a relação entre comerciante e cliente mais estreita, fazendo com que os anseios de consumo da sociedade local, mesmo dos mais humildes, fossem supridos de maneira pessoal. Segundo Luciana Souza de Oliveira os irmãos Palatnik foram os primeiros que trouxeram para a cidade essa nova maneira de comercializar.

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Natal no início do século XX

Com arrojo e garra, aliado ao desejo de trabalhar e de prosperar em Natal, Tobias e seus irmãos alcançaram seus objetivos iniciais em menos de seis meses, quando conseguiram conquistar cerca de mil clientes.

Boa Relação Com os Natalenses, Mas Mantendo as Tradições

A prosperidade econômica veio logo, rápida mesmo.

A historiadora Luciana Souza de Oliveira aponta que 1915 os Palatnik puderam adquirir uma fazenda com uma usina de açúcar, álcool e aguardente. Mas o forte daqueles judeus era o comércio e foi com ele que a família Palatnik escreveu uma história de prosperidade na cidade.

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Familia Palatnik – Em pé, a partir da esquerda: Adolfo Palatnik, Jacob Palatnik, Brás Palatnik, Tobias Palatnik, José Palatnik, Tobias Prinzak, Moisés Kaller e Horácio Palatnik. Sentadas: Cipora Palatnik, Dora Palatnik (com Chimonit Palatnik no colo), Rivca Palatnik, Olga Palatnik (com Ester Palatnik no colo), Sônia Palatnik, Dora Kaller e Augusta Palatnik.

Com a estruturação e o crescimento econômico daqueles judeus em Natal, esses jovens tiveram a oportunidade de ir à Palestina algumas vezes visitar seus parentes. Foi nessas poucas visitas que os jovens Palatnik constituíram suas famílias com as moças que residiam na chamada “Terra Santa”.

Mesmo construindo as suas vidas em Natal, mesmo aqui sendo a cidade que esses judeus escolheram para desenvolverem suas famílias, a cidade não poderia lhes oferecer alguns elementos responsáveis pela continuidade de sua identidade.

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O escritor Luís da Câmara Cascudo participou da festa do Yom Kippur junto aos judeus de Natal e descreveu a visita em um interessante artigo – Fonte – Jornal ” A República” 12/11/1933

Faltavam-lhes garotas que professasse a mesma fé e que tivesse os mesmos conceitos e valores para manter uma identidade judaica em seus lares. Vale ressaltar que aqueles jovens judeus conseguiram se relacionar muito bem com as pessoas em Natal, mesmo criando essa delimitação de não envolvimento de caráter íntimo e pessoal com aqueles que eram diferentes a sua cultura.

Ocorreram então várias uniões a partir de 1920. Com esses casamentos, muitos outros familiares, entre eles primos, irmãos, pais, tios e outros membros, decidiram deixar seus países e foram atraídos para a capital potiguar.

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Jose e Sonia Palatnik

Essas ramificações e parentescos foram os elementos principais para que a família Palatnik se destacasse, tornando-se os membros proeminentes para o estabelecimento de uma comunidade judaica na cidade, pois o número de pessoas que gravitavam em torno deles crescia com o passar dos anos.

Preocupações Com Coisas da Vida e da Morte

Segundo informa o site judaismohumanista.ning.com, em 1925 foi fundado na capital potiguar o Centro Israelita, que funcionava também como uma sinagoga.

Ainda na década de 1920 os judeus natalenses foram os primeiros a construir um jardim de infância, que até aquele período não havia sido estabelecido na cidade de Natal. Esta escola para crianças começou a funcionar, junto a um programa de educação judaica complementar e uma de suas professoras foi a Sra. Sara Branitzak, que teria vindo da Palestina e, segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira, chegou em 1927, mas ela passou pouco tempo neste trabalho.

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Jardim de Infância Palatnik – A partir da esquerda, em pé: Eliachiv Palatnik, Sofia Kaller, Ester Palatnik, David Fassberg, Ester Palatnik (filha de Elias) e Moisés Palatnik. Sentados: Aron Horovitz, Aminadav Palatnik, professora Sarah Branitzky, Sarita Volfzon, Raquel Horovitz, Nechama Kaller e Simon Masur. Na frente: (?), Nechama Palatnik, Achadam Masur e Genita Volfzon.

Muitas crianças judias que nasceram em Natal participavam não apenas da vida judaica, também se relacionavam com as outras crianças da cidade sem, no entanto, esquecer que mesmo sendo Potiguares, eram acima de tudo judeus, guardando e seguindo as tradições que eram ensinadas pelos seus pais. Uma destas crianças foi Uma das crianças judias nascidas em Natal, mais precisamente em 19 de fevereiro de 1928, foi Abrahan Palatnik.[1]

Ainda segundo o site judaismohumanista.ning.com, um censo oficial da cidade de Natal em 1940 registrou um total de 54.836 habitantes e 109 eram judeus.

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Túmulo de Rosinha Palatnik no Cemitério Público do Alecrim – Foto do autor.

Com o natural crescimento da comunidade local, que passou a contar com mais de trinta famílias de judeus, logo não eram apenas os aspectos ligados a vida terrena que preocupavam esta comunidade, as questões de morte também se tornou uma preocupação.

Em 10 de janeiro de 1931, através de contatos entre os líderes da comunidade e a Prefeitura de Natal, cujo prefeito a época era o Sr. Gentil Ferreira de Souza, foi doada uma quadra murada no Cemitério Público do Alecrim para que os membros da comunidade judaica fossem enterrados mediante seus rituais tradicionais. Igualmente foi fundada uma sociedade funerária chamada Chevra Kadisha.

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Rosinha Palatnik

Até hoje existe este espaço exclusivo no Cemitério do Alecrim e entre os vários judeus natalenses enterrados está a lápide de Rosinha Palatnik. Ela faleceu no dia 7 de agosto de 1936, com apenas 20 anos de idade, depois de uma permanência no hospital de um mês e quinze dias em razão de uma apendicite. Rosinha era carioca, nascida Rosinha Tendler, filha de Boris e Anna Tendler e era casada com Horácio Palatnik (ver jornal “A República”, edição de domingo, 9 de agosto de 1936).

Crescimento dos Negócios

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O trabalho dos Palatnik prosperou ao longo dos anos e foi se diversificando.

De prestamistas eles abriram uma fábrica e uma loja de móveis chamada Casa Sion, sendo localizada a rua Dr. Barata, número 6, no bairro da Ribeira, uma das principais artérias comerciais da cidade na época.

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Brás Palatnik

Já Brás Palatnik surge com uma casa comercial na década de 1920, que inclusive era batizada com o seu nome e ficava localizada igualmente na rua Dr. Barata, nos números 204 e 205 e ali parece que ele vendia de tudo um pouco. Anúncios no jornal “A República”, o principal da cidade, mostra uma propaganda onde se oferecia guarda-chuvas, cobertas para camas, calçados para homens, tolhas, tecidos de cambraia e muitas outras coisas. Tempos depois esta loja mudou para a rua Ulisses Caldas, na esquina com a rua Felipe Camarão, no Centro da cidade, muito próximo, ou mesmo vizinho, ao Centro Israelita.

Em 1931 os irmãos Tobias e Braz Palatnik estão com uma fábrica de mosaicos
na rua Extremoz e uma loja destes produtos na rua Dr. Barata, mas no número 190. Tinham também uma serraria na rua Ulisses Caldas e mantinham a Casa Sion para vender os móveis por eles fabricados.

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5 de fevereiro de 1937

Em 1936 o antigo e marcante cinema Polytheama, referência da sétima arte na história da cidade e localizado na Praça Augusto Severo, 252, se torna a Casa Palatnik. Como em outros comércios destes judeus a diversificação e a variedade de produtos é a tônica da casa comercial. Ali se vendia desde camas de ferro, passando por móveis de vime e junco e até mesmo pedras para túmulos.

Conforme os Palatnik vão prosperando, eles vão participando de atividades junto à sociedade natalense. José Palatnik, por exemplo, se torna conselheiro da Associação Comercial de Natal e do conselho fiscal do Banco Industrial Norte-rio-grandense S.A.

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25 de janeiro de 1939

Além da diversificação de negócios, pesquisando nos jornais antigos fica patente como os Palatnik investiram forte na aquisição de imóveis por toda a área de Natal. Nessa época era normal que os documentos emitidos pela prefeitura da cidade nas negociações ligadas a imóveis, com exceção de valores, fossem divulgados nos jornais locais. Neste aspecto, principalmente no início da década de 1940, os Palatnik estão sempre presentes com pagamentos de impostos referente a muitas aquisições e venda de imóveis. Provavelmente perceberam que, mesmo de forma lenta, a cidade se expandia e a compra de imóveis era outra nova oportunidade de negócios a ser trabalhada.

A Jerusalém do Brasil

O jornal Tribuna do Norte, na sua edição de 22 de novembro de 2013, informa que os irmãos Palatnik investiram na construção civil em Natal. Eles foram pioneiros na construção de conjuntos habitacionais: as primeiras casas da Ponta do Morcego (numa delas veraneava o governador Juvenal Lamartine) e a famosa Vila Palatnik, pegando a avenida Deodoro, rua Ulisses Caldas (em frente ao Colégio da Conceição) e rua coronel Cascudo.

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Região da Ponta do Morcego, em Natal

Durante a Segunda Guerra Mundial o Rio Grande do Norte sediou uma das maiores bases de aviação dos Aliados no hemisfério ocidental, a famosa Parnamirim Field. Este fato, ocorrido antes mesmo da declaração formal de guerra do Brasil contra os países do Eixo, proporcionou a chegada de muitos militares estadunidenses a Natal. Logo alguns soldados judeus servindo as forças armadas dos Estados Unidos começaram a participar e animar a vida comunitária dos judeus em Natal.

Em agosto de 1942 era o próprio Brasil que entrava na Segunda Guerra Mundial. Em Natal e a população foi chamada para participar do esforço de guerra, com ações da defesa passiva. A tradicional comunidade sírio-libanesa de Natal, tendo a frente Neif Habib Chalita e Kalil Abi Faraj, participou deste processo junto com outras colônias de estrangeiros que viviam na cidade, entre estas os judeus. Nestas atividades eles eram liderados por José Palatnik e Leon Volfzon. Não sabemos em que grau ocorreu a participação destas comunidades no processo de defesa passiva de Natal, nem como foi a interação de sírio-libaneses e judeus neste objetivo, mas tudo leva a crer que transcorreu sem maiores alterações em razão da inexistência de notícias apontando problemas.

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Participação da tradicional comunidade sírio-libanesa de Natal no processo de defesa passiva da cidade durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com a comunidade judaica.

Com a chegada dos estadunidenses houve um aporte financeiro muito intenso na capital potiguar. Consequentemente a cidade se encheu de forasteiros em busca dos preciosos dólares e este aumento populacional trouxe consequências para Natal. Entre estes figuram o aumento da carestia e a falta de moradias e esse ultimo fato motivou os Palatnik a abrir um novo negócio – Uma loja de material de construção para abastecer um mercado que construía novas casa.

Mas a pequena e calma cidade, que crescia a olhos vistos, já não atraia os judeus como no passado.

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Vila Palatnik

Após a Segunda Guerra Mundial tem início a migração dos judeus natalenses para outros centros urbanos como Rio de Janeiro e Recife, mas alguns seguiram para o recém-criado Estado de Israel. Assim, com o número de judeus extremamente reduzidos em Natal, as atividades do Centro Israelita foram encerradas em novembro de 1968.

Segundo a historiadora Luciana Souza de Oliveira a história da presença dos judeus em Natal foi algo expressivo. Eles foram os responsáveis por construir na capital Potiguar uma das comunidades judaicas mais atuantes do Brasil, que chegou a ser conhecida na Palestina como a Jerusalém do Brasil.

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Irmãos Palatnik

As famílias judias que se estabeleceram na cidade mudariam não apenas a história dos judeus em Natal, mas o próprio espaço urbano e cultural. Foi na capital potiguar que eles tiveram a oportunidade de (re)construir as suas vidas oferecendo a cidade o que eles tinham de melhor: o trabalho e suas mercadorias. Em contrapartida a cidade os recebeu consumindo os seus produtos importados e dando a eles uma condição de vida digna na qual puderam oferecer a suas famílias o suprimento de suas necessidades.

A imigração deste grupo de judeus para Natal representou mais que um simples evento, foi a importante inserção de um povo, de uma cultura, uma religião, uma economia, organização espacial e social, bem como a (re)construção do “seu lugar” na capital Potiguar.

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REFERÊNCIAS

CASCUDO, Luís da Câmara. Yom Kippur em Natal. Jornal A República, Natal, n. 881, p.7, 12 nov. 1933.

OKSMAN. Sérgio (dir.). Irmãos de Navio: Histórias da Imigração Judaica no Brasil. São Paulo: Documenta Filmes, 1996. DVD (60 min), son., color.

ROZENCHAN, Nacy. Os judeus de Natal: Uma comunidade segundo o registro de seu fundador. Revista Herança Judaica, n. 106, abr. 2000. São Paulo: B´nai B´rith 2000.

SCHEINDLIN, R. História ilustrada do povo judeu. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. Natal, uma comunidade singular. Rio de Janeiro: Cemitério Comunal Israelita, 1984.


NOTA

[1] Abrahan Palatnik é filho de Tobias e Olga Palatnik e com apenas quatro anos de idade imigrou de natal para a região onde, atualmente, se localiza o Estado de Israel. Entre 1942 e 1945, frequenta a Escola Técnica Montefiori, em Tel Aviv, e se especializa em motores a explosão. Só retorna ao Brasil, para o Rio de Janeiro, em 1948. Por volta de 1949, inicia estudos no campo da luz e do movimento, que resultam no Aparelho Cinecromático, exposto em 1951 na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, onde recebe menção honrosa do júri internacional. Desenvolve a partir de 1964 os Objetos Cinéticos, um desdobramento dos cinecromáticos, mostrando o mecanismo interno de funcionamento e suprimindo a projeção de luz. O rigor matemático é uma constante em sua obra, atuando como importante recurso de ordenação do espaço. É considerado internacionalmente um dos pioneiros da arte cinética. Abraham Palatnik é consagrado pioneiro, o primeiro que explorou as conquistas tecnológicas na criação de vanguarda brasileira, tornando as máquinas aptas a gerarem obras de arte. Ver – https://www.escritoriodearte.com/artista/abraham-palatnik/

DOS FUNDADORES DO SERIDÓ PORTUGUÊS

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Serra da Rajada, Seridó Potiguar – Fonte – Rostand Medeiros

Autor – Fernando Antonio Bezerra – Potiguar do Seridó. Iniciante no ofício de escrever sobre fatos e personalidades do Seridó amado. É advogado e membro do Instituto de Genealogia do Rio Grande do Norte.

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

José Augusto Bezerra de Medeiros, além de político, foi um grande pesquisador a respeito das coisas do Seridó. Felizmente deixou vários apontamentos impressos que servem de pesquisa e, de fato, ajudam a estabelecer o elo entre o presente e o passado. De início, confirmando outros tantos estudos já feitos, José Augusto comenta que “na zona do Seridó, por exemplo, certo e seguro é afirmar que todo movimento povoador decorreu da necessidade de encontrar espaço para a localização de fazendas de criação de gado”. Acrescenta, ainda, que, durante algum tempo, foi o Rio Grande do Norte o principal fornecedor de carne bovina para as Capitanias da Paraíba e Pernambuco. Presente, portanto, desde o início, nossa vocação para a pecuária e, de certa forma, o longo aprendizado que nos permite, mesmo diante de secas inclementes, criar e manter rebanhos bovinos no Seridó que a gente ama.

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Fonte – http://www.elo7.com.br/brasao-da-familia-medeiros/dp/3A367E

E os primeiros grandes núcleos familiares se estabeleceram, em regra, em função da pecuária. José Augusto menciona o que chama de fundadores das primeiras famílias do Seridó: 1) Araújo, com Tomaz de Araújo Pereira e Maria da Conceição Mendonça; 2) Dantas, com Caetano Dantas Correia e Josefa de Araújo Pereira; 3) Medeiros, com Rodrigo de Medeiros e Apolônia Barbosa; Sebastião de Medeiros e Antonia de Morais Valcacer; 4) Galvão, com Cipriano Lopes Galvão e Adriana de Holanda Vasconcelos; 5) Garcia, com Antonio Garcia de Sá e Maria Dorneles Bitencourt; 6) Bezerra, com José Bezerra Menezes e Maria Borges de Sacramento; 7) Monteiro, através de Manuel Pereira Monteiro e Teresa Tavares de Jesus; 8) Nóbrega, com Manuel Alves de Nóbrega e Maria José de Medeiros; 9) Silva, com Francisco Gomes da Silva e Maria Joaquina dos Santos Dantas; 10) Faria, com Joaquim Álvares Gomes de Faria e esposa; 11) Azevedo, com Antonio de Azevedo Maia e Josefa Maria de Almeida; 12) Fernandes, com Cosme Damião Fernandes e Isabel Maria de Araújo Fernandes. Outras famílias – Brito, Álvares, Pires, Alves dos Santos, Batista, Queiroz, Vale, por exemplo – também são antigas no nosso lugar, entretanto, o trabalho de pesquisa de José Augusto não investiga os fundadores dos primeiros núcleos, lacuna que já foi preenchida por outros pesquisadores, sobre os quais em outro momento conversaremos.

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Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/87364-2/

De todo modo, particularizando a família Medeiros, numerosíssima em todo o Seridó, José Augusto reafirma que os irmãos Rodrigo e Sebastião são portugueses e se instalaram na Região, proximidades do Sabugi, nos limites do que hoje é Santa Luzia, na Paraíba. Os irmãos Medeiros conseguiram casamento por aqui com Apolônia e Antônia, irmãs entre si, filhas de Manuel Fernandes Freire e de Antônia de Morais. Uma pesquisa mais aprofundada da Família Medeiros/Dinoá complementa, sem contrariar os apontamentos de José Augusto, que Rodrigo e Sebastião são filhos de Manuel Afonso de Matos, Alferes, e Maria de Medeiros Pimentel, naturais da Ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal e, por lá, eram da família Matos. Migraram para o Brasil na primeira metade do século XVIII, passaram a usa r o sobrenome Medeiros e deixaram aqui numerosa descendência.

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Os laços e abraços entre as famílias do Seridó são intensos. Por muitos anos, inclusive, a preferência das famílias era o casamento entre parentes. Razões para tanto não faltavam. Desde a preservação do patrimônio até o fato de que a população era menor, os eventos sociais raros, as distâncias maiores, enfim, muitas vezes não existia sequer a oportunidade do encontro entre os jovens. Ademais, de um tempo para frente, o fluxo migratório inverteu, ou seja, deixamos de receber outras famílias. Ao contrário, começamos a sair para outros centros e espalhar o sangue bom do Seridó em lugares como Natal, Recife, Campina Grande, São Paulo e Brasília, dentre outros onde os núcleos seridoenses são mais visíveis. Aliás, é relativamente comum em Natal encontrarmos descendentes de famílias seridoenses em uma mesma roda de conversa e, não raro, um ser parente do outro e não saber. Mas, mesmo não tendo o parentesco próximo, o laço de estima à Região nos une e, ao nos unir, é comum a batida no peito e a palavra de orgulho: ei, mas eu também sou do Seridó!

30 FOTOS DA SEGUNDA GUERRA EM NATAL COM IMPRESSIONANTES EXPLICAÇÕES

Esse interessante material foi publicado no site curiozzzo.com (https://curiozzzo.com/2016/08/25/fotos-da-segunda-guerra-em-natal-com-explicacoes/ ), de Henrique Araújo, com fotos realizadas pelos militares americanos em Natal durante a II Guerra, em meio ao cotidiano da cidade. Ficou muito legal!

Valeu Henrique por trabalhar a favor da democratização da informação histórica para o povo desta cidade que precisa conhecer seu passado, valorizar sua história no presente e caminhar com orgulho para o futuro !

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Quem acompanha o Curiozzzo sabe bem que costumamos falar bastante sobre a 2ª Guerra Mundial (temos videos inéditos e até fotos coloridas), quando os Americanos montaram a maior base militar fora do EUA da história, chamada de Parnamirim Field, na cidade de Natal, e que este acontecimento levou a cidade a um enorme desenvolvimento cultural, estrutural, populacional, e etc.

Os fatos daquela época eram como um tesouro que estava praticamente esquecido no baú da história do RN, e o Curiozzzo o fez emergir e voltar a flutuar no “mar” da internet, de uma forma mais simplificada, leve e divertida, fazendo assim milhares de pessoas terem contato com ela novamente (ou pela primeira vez).

Veja agora novas fotos que registram o cotidiano naquela época, com as devidas [e inéditas] explicações do usuário André Madureira, um amante especial do período antigo da cidade:

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Esta é a Avenida Rio Branco em Junho de 1943. A esquerda vê-se parte da fachada do prédio de nº 597. Nessa época funcionava aqui uma pensão chamada Pensão América. A partir de Maio de 1942, o local também passou a abrigar a Agência dos Correios e Telégrafos da Cidade Alta.

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Aqui Natal em 1943. Na foto alunas de colégio possam para fotografia em frente a Pensão América (citada anteriormente).

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Esta é Natal em 1943. Na foto uma carroça de entrega em frente a Pensão América.

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Essa foto, tirada na varanda dos fundos e que tinha vista para o rio Potengi, mostra um soldado abraçado com uma das funcionárias de uma das casas de prostituição mais conhecidas de Natal, o Wonder Bar.

Talvez seja essa, pelo menos até agora, uma das fotos que melhor mostre o interior desse prostíbulo que era localizado nos fundos do sobrado nº 106 da rua Chile.

Uma observação importante: atrás da moça aparece parte de uma pequena pia. Isso denuncia a possibilidade de essas duas portas a esquerda serem banheiros. Por terem sidos instalados junto ao rio, é certeza que os dejetos eram lançados nas águas do Potengi.

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Novamente fotos tiradas no Wonder Bar. Nas duas fotos menores acima, se vê as mesmas portas que ficavam nos fundos desse famoso cabaré.

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De novo aqui o então antigo Wonder Bar em 1979. Na foto ele já estava perto de ser demolido. Aqui tanto a parte dos fundos como a parte da frente já estavam em ruínas.

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Há exatamente 70 anos, um novo local de entretenimento das tropas militares americanas, localizadas aqui, começou a funcionar na Praia de Ponta Negra.

Na verdade, o que foi noticiado pela imprensa, era a instalação de um “beachhead” naquela ainda distante praia ao sul de Natal. Talvez o significado aqui do nome “beachhead” não fosse o mesmo daquela operação das tropas em combate, que, ao chegar na costa do território inimigo, ele possa ser apreendido e mantido, para assim, garantir o contínuo desembarque das tropas e dos materiais.

Esse beachhead era quase no estilo dos USOs já existentes na cidade. Uma extensão na verdade. Foi com a aprovação das autoridades de Parnamirim, que um serviço de cantina foi estabelecido, possibilitando aos banhistas ótimo atendimento. Com a praia aberta a qualquer hora, eram servidos sanduíches e bebidas frias. Cadeiras de praia, esteiras e ainda espreguiçadeiras estavam disponíveis para os usuários.

Eram ainda ofertados equipamentos esportivos adequados para uso na praia, jogos como Xadrez, damas, cartas, jornais, revistas, etc. Com a instalação desse novo local de divertimento, a senhorita de nome, Margaret Weiher, antes trabalhando em um dos USOs da cidade, fora designada a operar esse novo serviço de expansão dos USOs. “Peggy” já era bem conhecida por militares nesta área, tendo trabalhado por vários meses na lanchonete do, “Town Club”, USO localizado na Praça Augusto Severo.

Agora as atividades desse programa estariam sendo introduzidas em Ponta Negra pelo Serviço Móvel do USO. Foi noticiado que, na tarde do dia 25 de março de 1945, aconteceria na praia uma grande festa no estilo da “Coney Island Carnival” . Seria para marcar o inicio desse novo serviço móvel e chamar a atenção de todos os militares para o local.

Lutas de boxes, competições esportivas, músicas, um concurso de beleza de banho e outras atrações seriam oferecidas no carnaval. Mesmo antes da inauguração, já havia projeto para ampliação das instalações. Um pavilhão com amplo espaço para relaxamentos e jogos seria adicionado em um futuro próximo. Um verdadeiro local de paz e alegria, muito diferente do que estava acontecendo no outro lado do Atlântico.

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No período da 2º Guerra Natal vivia um momento até então nunca visto na cidade. Foi nessa época que Natal começou a receber pessoas vindas de todos os lugares. Esses vinham nos navios que aportavam em nosso cais, chegavam amerissando no Potengi pelas asas da Condor, Air France, Pan Am, ou ainda pelos trens da Central.
Assim Natal cresceu.

O seu ainda pequeno comércio, acompanhando esse vertiginoso crescimento, começou a ver o aumento no números de lojas, bares, restaurantes, pensões, etc.

A Ribeira era nessa época nosso centro comercial. Dentro dessa, a rua Dr Barata era nossa “5ª Avenida”, uma referência a umas das principais avenidas de New York. E foi lá, na rua Dr Barata, que nessa época, surgiu o bar que comento agora.

O Bar Nacional era o ponto de reunião e de divertimento dos militares da Royal Air France (RAF), que tinham mesa cativa no lado esquerdo do salão onde ficavam horas bebendo Tom Collins, uma mistura de gim, água tônica, limão e açúcar.

Nesse bar não tinham garçons. Como forma de instrumento de atração para os fregueses, aumentando assim o movimento do ambiente, Dona Sara, proprietária desse estabelecimento, recrutava apenas moças para o serviço de atendimento. As jovens, as vezes sem opção, aceitavam o emprego de garçonete e terminavam se rendendo aos americanos que as gratificavam com dólares.

Em dias de maior movimento, um batalhão de garçonetes se movia freneticamente do balcão para as mesas e vice-versa, sempre na preocupação de atender a numerosa clientela que tanto bebia quanto conversava ruidosamente.

Nos sábados o bar fervilhava de militares estrangeiros, sendo em maior quantidade americanos. Dona Sara estava sempre empenhada em que seus fregueses tivessem bom atendimento, mais ao mesmo tempo mantinha certa vigilância sobre suas funcionárias.

Mesmo assim não se incomodava que após o serviço, uma ou outra fosse encontrar-se com o namorado que há pouco estivera bebendo no bar e lhe dera uma gorjeta em dólar.
Entre tantas meninas, uma se destacava.

Seu nome, Luciete. Uma morena de altura mediana, olhos e cabelos castanhos, que apesar da pouca beleza era, segundo relato de quem a conheceu, uma mulher fascinante e desejável.

No entanto, a dona do bar parecia exercer certo controle sobre as garçonetes. Quando alguma delas se demorava em conversa com algum freguês que não fosse americano, dona Sara, do lado de dentro do balcão gritava: “menina, vá atender a mesa daquele sargento”. Apontando sempre para um americano.

Talvez não fosse rara as vezes que esses excluídos fossem terminar em algum bar de terceira categoria na conhecida 15 do meretrício. Era assim que era mais conhecida a rua 15 de Novembro, limite entre os bairros da Ribeira e Rocas.

Por conta de aparecimento de um surto de infecções intestinais registrados em um dos hospitais da cidade, em fins de 1943 houve, por parte do Exército americano, uma vistoria em alguns restaurantes da cidade. Em 16 de janeiro de 1944, um relatório que saiu na imprensa americana, mostrava o resultado dessa inspeção sanitária feita 17 dias antes.

Os restaurantes que seriam inspecionados deveriam ser os que tinham maior movimento de militares americanos.

Os estabelecimentos vistoriados foram: Choze Restaurante, Kelly Restaurante, Bar Nacional, Lido Restaurante, Grande Hotel, Casino Natal, e do bar em frente ao Beach Club.

Nesse relatório, que continha normas sanitárias do Exército dos EUA, estava descrito o resultado das condições insalubres existentes na maioria dos bares e restaurantes da capital. Nisso todo o pessoal militar ficaram proibidos de comer qualquer alimento preparado em alguns restaurantes locais.

Apesar de imponente e muito procurado por pessoas famosas que aqui chegavam, o nosso Grande Hotel também estava na “lista negra” dos que tiveram suas cozinhas inspecionadas e reprovadas por serem, segundo o próprio relatório, “completamente imundos e repugnantes”. O resultado ainda condenava as cozinhas dos restaurantes Choze e Lido. Ambos na Dr Barata.

Na intensa pesquisa feita por mim, verifiquei que o Bar Nacional não durou muitos anos. Posso estar enganado quanto ao seu período de funcionamento, mas não encontrei registro algum dele após 1948. Não durou muito tempo. Veio com a guerra, e foi embora com ela.

E Luciete? Teria aquela bela morena ido trabalhar em outro bar? Teria ela, vendo a cidade se esvaziar com a partida dos militares americanos, ido embora para tentar a vida em outra cidade?

O que se sabe é que, após o fim da guerra, apesar das transformações ocorridas na cidade e com algumas coisas deixadas aqui pelos americanos, Natal teve realmente uma queda no movimento e alguns pequenos comerciantes tiveram de fechar as portas ou mudar de local.

Digo ter sido esse, o Bar Nacional, o prédio “perdido”, que está também no hall dos que fizeram parte do cotidiano da II guerra em Natal, mais difícil de encontrar.

Na fachada superior, um detalhe até hoje presente é o desenho que lembra a bandeira Nacional. Talvez dai tenha vindo a ideia de colocar o nome de “Bar Nacional”.

Como foi dito anteriormente, o Bar Nacional foi também um dos protagonistas daquele período festivo e boêmio da Natal em tempos de guerra. Tendo vida curta, não durou muito tempo. Veio com a guerra, e foi embora com ela.

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Aqui nessa foto, tirada em frente ao Bar Nacional, uma coisa muito comum entre alguns natalenses brincalhões e os soldados americanos pode ser registrada. Na imagem aparece alguns meninos colocando, no braço de um soldado, saguis aparentemente dóceis. O militar parece ficar encantado com o macaquinho.

Conta a história que, tentando ganhar alguns dólares dos americanos, alguns natalenses conseguiram vender urubus depenados como se fossem galinhas para o centro de provisões de Parnamirim.

Pior era feito com os sagüis, bicho de estimação favorito dos militares. As crianças embebedavam o pequeno primata, que, parecendo ser manso, passava a ter melhor cotação. Os soldados sempre acabavam no prejuízo, pois os animais ficavam indóceis e fugiam assim que despertavam do pileque.

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Enquanto é observado por garotos da redondeza, o soldado americano posa pra foto na descida da Av. Rio Branco sentido Ribeira.

Fotógrafo: Não informado. Ano: 1943

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Possivelmente convidados a sair na foto, os garotos, antes observadores, agora se juntam aos amigos americanos para serem todos fotografados.

Um detalhe que se pode observar aqui é que, apesar da aparente simplicidade, sem muitos recursos dos garotos, era comum, quase que imprescindível o uso de calças e camisas, que geralmente eram brancas, pelos homens a partir de certa idade, 14 ou 15 anos talvez.

Fotógrafo: Não informado. Ano: 1943

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Soldado americano posa pra foto na Av. Rio Branco no bairro da Ribeira.

Nessa época, quem estivesse passando na Av. Rio Branco por traz do Salesiano, teria fácil acesso ao terreno desse colégio. Há cerca de 11 anos, com o falecimento de Ignez Barreto, o terreno da antiga vila Barreto passava para as mãos dos padres Salesianos.

Com isso, parte do terreno foi cortado pelo prolongamento da Av. Rio Branco. Agora essa via passava pelo meio da antiga propriedade da família Paes Barreto. Ao fundo aparece a Estação da EFCRGN.

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1943

 

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Após parada pra foto, soldados seguem pela Rio Branco sentido Ribeira. Nessa época, quem estivesse passando por essa avenida teria, nesse trecho, fácil acesso ao terreno desse colégio.

Há cerca de 11 anos, com o falecimento de Ignez Barreto, o terreno da antiga vila Barreto passava para as mãos dos padres Salesianos.

Com isso, parte do terreno foi cortado pelo prolongamento da Rio Branco. Agora essa via passava pelo meio da antiga propriedade da família Paes Barreto.

Ao fundo se vê as belas palmeiras imperiais do colégio Salesiano.

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1943

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Essa fotografia mostra a visão que se tinha ao sair do Wonder Bar por uma saída que dava acesso ao rio. Na verdade essa saída ficava logo abaixo do local onde funcionava o cabaré.

Depois da escada e no final do mesmo corredor existia uma porta com alguns degraus onde pequenas embarcações podiam encostar.

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1943

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Essa é talvez a única fotografia conhecida que mostra o interior do Wonder Bar. Nela aparece um soldado com uma das funcionárias de uma das casas de prostituição mais conhecidas de Natal.

Esse prostíbulo era localizado nos fundos do sobrado nº 106 da rua Chile. Ao lado da escada que dava acesso ao piso superior funcionava o serviço de profilaxia de doenças, que eram nesse caso, venéreas.

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1943.

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O Bar Nacional, que ficava na Rua Doutor BaO Bar Nacional, que ficava na Rua Dr. Barata nº 195. Na foto um soldado americano aparece ao lado de uma das garçonetes do Bar Nacional. Seria essa a garçonete Luciete?

Fotógrafo: Não informado.
Ano: 1943.

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Soldado americano posa para foto em frente ao Bar Nacional.

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1943.

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Bonde da linha Alecrim-Grande Ponto-Ribeira passando pelo avenida Rio Branco. Nessa época, por volta de fins de 1942 e início de 1943, já tínhamos algumas linhas de auto-ônibus fazendo frente aos velhos e cansados elétricos da Cia. Força e Luz.

Mesmo assim, falavam que a preferência por esse transporte ia se acentuando a cada dia, pois o natalense não suportava a maçada que os ônibus faziam nas paradas à espera de mais um passageiro.

Os anos passavam mais eles teimavam em andar lotados, acontecendo que em algumas horas ninguém distinguisse nada do elétrico, tal o número de pingentes que se agarravam de todo jeito no barulhento bondezinho.

Nessa imagem é possível ver o prédio do Natal Club que, nessa época, passava por reforma com a construção da nova sede, agora mais ampla e em dois pavimentos.

Espremido entre o Natal Club e o Cinema Rex aparece o prédio onde funcionou a 24ª Circunscrição de Recrutamento. A partir de 17 de outubro de 1942 esse prédio passou a funcionar como sede da Cruz Vermelha em Natal.

Fotógrafo: Não informado
Ano: Entre fins de 1942 e inicio de 1943

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Bonde da linha Petrópolis/Ribeira seguindo pela Av Duque de Caxias

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1945

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Bonde da linha Petrópolis/Ribeira passando pela praça Augusto Severo. No prédio à direita funcionava um dos United Service Organizations existentes na cidade. Esse era conhecido com U.S.O downtown.
O outro ficava em frente ao Reservatório R.2, na esquina da Av Getúlio Vargas com rua das Dunas

Fotógrafo: Não informado
Ano: 1943

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Engraxates locais polindo sapatos de soldados americanos em local não identificado.

A tradição de engraxate remete ao ano de 1806, ano de nascimento do ofício de engraxate, quando um operário poliu em sinal de respeito às botas de um general francês e foi recompensado com uma moeda de ouro por isto.

Na Itália, durante a Segunda Guerra, apareceram os “sciusciàs”, garotos que para ganhar qualquercoisa lustravam as botas dos militares, além de terem cópias de jornais, goma de mascar e doces.

As cadeiras de engraxate foram inventadas por Morris N. Kohn em 1890. O engraxate hoje em dia é uma profissão em via de extinção.

Ano: 1943

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A mesma foto acima só que por outro ângulo

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Chegada de alguns americanos em uma provável feira. Seria a feira das Rocas?

Nessa época, 1943, essa feira funcionava sempre na rua Almino Afonso no trecho próximo ao Grupo Escolar Izabel Gondim.

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Soldados americanos na lagoa do Bomfim.

Ano: 1943

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A “pista” dos americanos 

Ano: 1943

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Bonde do Alecrim seguindo pela praça Augusto Severo. À direita aparece parte do Tabuleiro da baiana, uma espécie de quiosque que ficava no lado norte da praça, próximo onde antes ficava o antigo coreto.

Fotógrafo: Não informado
Ano: Início dos anos 40

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Nessa foto aparece, partindo da estação da EFCRGN, uma oficial do exército americano seguindo em trem da Central.

Fotógrafo: Não informado
Ano: Início dos anos 40

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Bonde da Força e Luz seguindo pela praça Augusto Severo.

O fotógrafo identificou essa foto como sendo “front of USO Club”, fazendo uma referência ao USO (United Service Organizations), também conhecido por “Downtown Club”, que funcionava onde foi o antigo Cinema Polytheama.

O outro USO, conhecido como “Beach Club”, funcionava na esquina da rua das Dunas com Av Getúlio Vargas, no bairro de Petrópolis.

Fotógrafo: Não informado
Ano: Início dos anos 40.

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Foto com vista para o Grande Hotel, o maior e mais importante hotel de Natal até os anos 60.

Fotógrafo: Não informado
Ano: Início dos anos 40

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Foto com vista para o Grande Hotel, o maior e mais importante hotel de Natal até os anos 60.

Fotógrafo: Não informado
Ano: Início dos anos 40

A PRAÇA PADRE JOÃO MARIA

pe joão maria
Fonte – http://www.pitombas.blog.br/2016/03/desinformacao-turistica-parte-15-praca.html

Berilo Castro 

Recentemente, fui ao Centro da Cidade para fazer uma visita ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), do qual fui honrosamente convidado para compor o seu quadro de sócios efetivos.

Estacionei o carro na rua Vigário Bartolomeu, em um estacionamento privado. Na verdade, não existe mais local de estacionamento público em Natal. Parece até que a cidade encolheu e, sem sombra de dúvidas,  os veículos aumentaram  em proporções nunca vistas. Deixa pra lá! É o crescimento urbano já esperado. São os tempos modernos.

Sou avisado pelo funcionário do estacionamento para ter cuidado com o celular e a carteira de dinheiro.

OK! Tomei  os devidos cuidados.

pe joão maria2
Fonte – http://www.pitombas.blog.br/2016/03/desinformacao-turistica-parte-15-praca.html

Caminho lentamente em direção à Praça Padre João Maria. Vejo e relembro de anos passados a casa dos Procópio: Jario, Kerubino e Manoel Filho. Paro um pouco em frente do Mercado São Cristovão,  do meu grande amigo, meu diretor de futebol, da época de ouro do Alecrim FC-1963/1964, João Bastos Santana – Seu Basto. Sinto saudades! Chego à esquina e me defronto com o Banco do Nordeste e recordo dois grandes amigos que trabalharam lá: Jorge Alberto Motta e o meu contador Lourival (em memória). As calçadas todas semidestruídas, muito lixo nas redondezas e, ao seu redor, alguns sem tetos e sem nada, ainda deitados em bancos semidestruídos, e alguns no chão quente. Percorro um pouco mais e observo o prédio onde funcionou ou funciona ainda a Irmandade do Passos que, em seu primeiro andar, foi sede de um dos primeiros  cursinhos de pré-vestibular da cidade, o do professor/farmacêutico Luís Herculano, com sua bem dotada e eloquente voz, que chegava a chamar à atenção daqueles que circulassem pela praça.                                    

Ainda na lenta caminhada me deparo com algumas barracas (se podem ser chamadas de barracas, pela grande pobreza e abandono com que se encontram) sendo consumidas dia a dia pelos famintos cupins. Triste, muito triste, observar tudo aquilo abandonado e em ruínas.   

Procuro por um artesão por nome de Aderbal, lateral esquerdo que jogou comigo no Alecrim FC nos anos de 1960. Lamentavelmente, fui informado da sua morte por Dengue há três meses. Rezei por ele.

Caminhei um pouco mais e cheguei à sede provisória do IHGRN, um pouco atrasado, e não encontrei os meus amigos Odúlio Botelho e Augusto Coelho Leal – o Guga-, tinham saída há pouco tempo.

pe joão maria3
Fonte – http://www.pitombas.blog.br/2016/03/desinformacao-turistica-parte-15-praca.html

Imaginei: será que esse pedaço de terra tão pequeno e tão abençoado pelo Padre João Maria, vem sofrendo  essa  destruição e esse abandono por tanto tempo, sem nunca ter sido visto pelas autoridades municipais, pelos nossos representantes na Câmara Municipal? Não posso acreditar!  Fico indignado e perplexo diante de tanta falta de amor à Cidade.  Será que o Prefeito nunca foi informado da triste degradação que vem  passando aquele pequeno espaço santificado? Será?  Será que o seu  Secretário de Urbanismo nunca passou pela Praça?

Deixo aqui um apelo às autoridades municipais: Não deixem a praça Padre João Maria no abandono total, como se encontra hoje. Aquele pequeno recanto sagrado é parte rica da nossa cidade que não pode e não deve ser destruída, nem entrar  no   esquecimento da nossa história.