A TRISTE SITUAÇÃO DA CASA GRANDE DO ENGENHO GUAPORÉ – LUGAR DE MUITAS HISTÓRIAS

Uma Casa Que Marca a Paisagem e a História de Ceará-Mirim – O Médico e a Filha do Barão – A Energia do Seu Proprietário – A Razão do nome Guaporé – Nilo Pereira e o Casarão – Decadência e Recuperação – Nova Decadência – Ocupação dos Artistas – A Visita do GRUPO TOK DE HISTÓRIA a Esse Local 

Rostand Medeiros – IHGRN e GRUPO TOK DE HISTÓRIA

Quem segue em veículo pela rodovia RN-064, que liga as cidades potiguares de Touros a Ceará-Mirim, ao se aproximar dessa última e se descortina uma bela paisagem, com a cidade de Ceará-Mirim como destaque. Logo depois os ocupantes do carro começam a visualizar uma grande e interessante casa à esquerda. Já quem se encontra em alguns lugares na zona urbana de Ceará-Mirim também tem condições de visualizar essa mesma casa com seus dois pavimentos, uma porta principal, várias janelas e ausência de alpendre na parte frontal.

Casa grande do engenho Guaporé, Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte – Foto – Ricardo Morais.

Essa casa antiga, uma referência na paisagem de Ceará-Mirim, se encontra solitariamente em uma grande área aberta e quem se aproxima do lugar percebe, pela imponência da estrutura, que seus antigos proprietários eram ricos proprietários rurais. Principalmente para os que gostam de temas históricos, sem maiores problemas aquele velho casarão desperta, tal qual um imã, o desejo de ir lá, fazer fotos e conhecer mais sobre o local. Estamos falando da casa grande do engenho Guaporé, elemento típico de moradia do patriarcado rural de Ceará-Mirim, que surgiu na segunda metade do século XIX, com a ampliação da produção açucareira.

Foto – Ricardo Morais.

Recentemente, com os amigos Jerônimo Tinoco, German Zaunseder e Ricardo Morais, que juntos fazemos parte do GRUPO TOK DE HISTÓRIA, decidimos visitar esse interessante local.

Enérgico e Atuante

A casa grande do engenho Guaporé foi edificada em data incerta, mas as fontes de época que pesquisei apontam que seu dono foi Vicente Ignácio Pereira.

Nasceu em Natal no dia 3 de maio de 1833, sendo filho de Joaquim Ignácio Pereira e Ana Maria de Jesus. Vicente foi o segundo potiguar formado em Medicina, assumiu a vaga de deputado provincial, foi 1º Vice-presidente do Rio Grande do Norte e durante o período da calamitosa e tristemente famosa estiagem que arrasou o Nordeste entre 1877 até 1879, ocupou por curto período a governadoria estadual.

Vicente Ignácio Pereira (1833 – 1888), do livro Natureza e história do Rio Grande do Norte – Primeiro tomo (1501 – 1889), de João Alves de Melo, Imprensa Oficial, Natal-RN,1950, pág. 519.

Luís da Câmara Cascudo informou que por ter uma ação bastante enérgica e enfrentar os atrasados métodos administrativos da sua época, Vicente Ignácio arranjou muitas inimizades durante seu período de governo. Eu tive a oportunidade de ler sobre isso com mais detalhes nos jornais antigos, mas vejamos o que Cascudo escreveu:

Foto – Ricardo Morais.

Enfrentou o comodismo, a afilhadagem, o desperdício, demitindo inúteis cortando despesas, dispensando comissões, fiscalizando, direta e pessoalmente, todos os serviços. A rapidez de suas decisões estarrecia à lentidão do tempo. De pronto, multiplicou os recursos alimentares, enviando socorros para as regiões assoladas, exigindo a caridade produtiva, fazendo trabalhar a massa de retirantes em vez de fornecer víveres (Ver Uma História da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte – Fundação José Augusto, Natal-RN, 1972, págs. 441 e 444).

Essa característica enérgica do dono da casa grande do engenho Guaporé, talvez possa ser explicada por experiências anteriores durante a sua formação acadêmica e sua vivência fora do Rio Grande do Norte.

Ainda em 1855, quando ele tinha 22 anos e era estudante do 2º ano da Faculdade de Medicina da Bahia, seguiu para o sul daquele estado com o intuito de combater uma grande epidemia de cólera. Vicente Ignácio esteve junto com professores, colegas e o pessoal médico da Marinha, que na época também era conhecida como Armada Imperial.

Foto – Ricardo Morais.

Mesmo sem conseguir maiores detalhes desse trabalho, sabemos que esse grupo de atendimento esteve em comunidades localizadas entre os municípios baianos de Camamu, Ilhéus e Porto Seguro (Ver Falla Recitada na Abertura da Assembleia Legislativa da Bahia pelo Presidente da Província o Doutor Álvaro Tibério Moncorvo e Lima. Em 14 de Maio de 1856, pág. 125).   

Conforme podemos ver na nota acima, publicada no jornal carioca Correio da Tarde, de 28/12/1859, pág. 3, naquele mês Vicente Ignácio se formou em Medicina e logo no ano seguinte entrou para o então Corpo de Saúde do Exército Brasileiro, onde recebeu a patente de 2º tenente cirurgião.

Membros do antigo Corpo de Saúde do Exército.

No seu tempo como militar mereceu destaque a sua participação em uma comissão formada por militares da Marinha e do Exército do Brasil, com o objetivo de demarcar a fronteira com o Peru e que deveria contar com a participação de autoridades daquele país vizinho. Para a época, com suas condições limitadas em relação a transportes, higiene, saúde, conhecimento das áreas de levantamento, dos contatos com os indígenas e outros problemas, fazia com que a realização desse tipo de missão fosse classificada como de extremo risco. Vale frisar que nesse tempo o Estado do Acre não fazia parte do território brasileiro.

Conforme podemos ver na próxima nota, em 5 de outubro de 1861 foi publicado no jornal carioca Correio Mercantil, e Instructivo, Político e Universal (pág. 2) que a canhoneira Iguatemi partiu no dia 18 de setembro de Recife e navegou até Belém, capital do Pará, sob o comando do capitão tenente José Costa e Azevedo, o chefe da comissão. Após a chegada no Pará os militares deveriam seguir até a fronteira peruana.

Talvez para alguém que mora no Rio Grande do Norte e desconheça a região amazônica, pode parecer estranho que uma comissão de militares brasileiros para chegar na área da fronteira com o Peru, tenha que passar por Belém e seguir, ou “descer”, até a fronteira. Mas os Rios Amazonas e Madeira são totalmente navegáveis nesse trecho por centenas de quilômetros, alcançando o Rio Guaporé. Até hoje existe uma linha de navegação entre Belém e Porto Velho, capital de Rondônia, que leva de seis a oito dias de viagem (ver – https://www.rome2rio.com/pt/map/Rond%C3%B4nia/Bel%C3%A9m#r/Ferry )

Diário do Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1861, pág. 1.

O interessante da participação de Vicente Ignácio foi que, segundo as datas dos jornais, ele foi convocado para participar dessa comissão após a mesma ter chegado em Belém. Como ele estava no Rio de Janeiro, onde o porto era muito movimentado, é provável que tenha embarcado em algum veleiro ou vapor que seguiu para o norte e tenha chegado a Belém. Mas se assim fez, foi em vão, pois o certo é que no final de dezembro a comissão de limites com o Peru ficou paralisada por problemas com os peruanos. Finalmente, no dia 20 fevereiro de 1862, foi publicado no jornal carioca Correio Mercantil, e Instructivo, Político e Universal (pág. 2) que deveriam ficar na região apenas o comandante da comissão e um oficial de sua escolha. Aí não me restam dúvidas que o escolhido não foi Vicente Ignácio, pois ele foi transferido para o Rio Grande do Norte em maio de 1862.

Detalhe – A comissão de limites com o Peru só concluiu seus trabalhos em 1866, em meio a Guerra do Paraguai, que começaria em dezembro de 1864 e se prolongaria até março de 1870.

Correio da Tarde, Rio de Janeiro, 17 de maio de 1862, 1ª pág.

O Barão

Em 14 de fevereiro de 1863 Vicente Ignácio casou com Isabel Duarte Xavier Varela, filha de Manoel Varela do Nascimento, um rico proprietário rural da região de Boca da Mata, futura Ceará-Mirim, e senhor da casa grande do engenho São Francisco. Segundo Olavo Medeiros Filho, foi Isabel Duarte que trouxe para essa união metade das terras de um sítio denominado Ilha Bela, avaliado em vinte contos de réis (ver Os Barões de Ceará-Mirim e Mipibu, Fundação Guimarães Duque, Coleção O Mossoroense, Série C, Vol. 1410, Mossoró-RN, 2005, pág. 30).

Mas o presente do pai de Isabel foi logo trocado por uma propriedade denominada Bonito, que na sequência foi rebatizada como Guaporé, onde foi construída a casa grande que visitamos. Acredito que a denominação surgiu das marcantes lembranças fixadas na mente do seu novo dono, quando este percorreu a região amazônica, mesmo sem saber se o mesmo navegou por este grande rio, situação que considero improvável.

Manoel Varela do Nascimento, o Barão de Ceará-Mirim. O quadro do Barão e da Baronesa de Ceará-Mirim foram pintados em 1866 pelo pintor alemão Johann Brindsell, ou João Brindseil, como ele ficou conhecido durante o tempo em que esteve entre o Ceará e o Rio Grande do Norte.

No ano seguinte após seu casamento, Vicente Ignácio assumiu uma vaga de deputado provincial filiado ao Partido Liberal e deixou as fileiras do Exército. Acredito que essa situação evitou a sua ida para a Guerra do Paraguai.

Bernarda Varela Dantas, a Baronesa de Ceará-Mirim.

Onze anos depois do casamento com Isabel Duarte, o seu sogro Manoel Varela do Nascimento se tornou o primeiro potiguar a ser agraciado com um título nobiliárquico, com o título de Barão de Ceará-Mirim.

Talvez pela história do Barão ser extremamente marcante nessa região, sua figura é muito associada a casa grande do engenho Guaporé e pouco se comenta sobre Vicente Ignácio Pereira. Percebo que isso é algo tão forte, que em uma ocasião escutei de uma pessoa que desconhece a história à afirmação que esse homem poderia ser enquadrado como “um cidadão que casou com a filha do Barão e se deu bem na vida”. Mas essa afirmação está bem distante da verdade, além de ser algo leviano.

Foto – Ricardo Morais.

Sobre a casa grande do Guaporé, segundo todas as fontes que li, até agora não se sabe a data concreta da sua fundação, nem mesmo se foi edificada após o casamento de Vicente e Isabel e a troca de propriedades, ou poderia existir antes. Entretanto, a primeira notícia que consegui sobre o engenho Guaporé foi publicada inicialmente no Jornal de Recife e republicada no Rio de Janeiro, na segunda página de O Globo – Órgão dos Interesses do Commercio, da Lavoura e da Industria, de 31 de dezembro de 1876. Conforme podemos ler abaixo, essa nota comenta sobre a boa qualidade das terras em Ceará-Mirim e da produção do engenho Guaporé.

Entretanto, segundo Gilberto Osório de Andrade, no texto O ciclo da cana-de-açúcar no Rio Grande do Norte (Revista GeoInterações, Assú, v.4, n.1, p.62-66, jan/jun. 2020. ISSN 2526-3889) a progressão do ciclo de desenvolvimento da cana-de-açúcar no Rio Grande do Norte no final dom século XIX não foi constante. Segundo o autor o “efeito da concorrência do algodão e dos derradeiros esforços de reanimação da pecuária”, contribuíram para isso. Andrade aponta que entre 1894 e 1910, o município de Ceará Mirim figurou em quinto lugar no quadro geral da receita dos municípios potiguares, mesmo assim o chamado Vale do Ceará-Mirim fabricava 60% do açúcar de todo o Rio Grande do Norte.

Festas e Mortes

Essa casa grande, que tanto chama atenção e se destaca na paisagem de Ceará-Mirim a mais de um século e meio, também ficou famosa por suas festas e a qualidade da sua decoração.

O escritor e jornalista ceará-mirinense Nilo de Oliveira Pereira, neto de Vicente Ignácio, nasceu em 11 de dezembro de 1909 no engenho Verde Nasce, mas informou que passou parte de sua infância no velho casarão do engenho Guaporé. Tanto assim que no jornal natalense A República, edição de 8 de novembro de 1939 (págs. 3 e 4), Nilo publicou um interessante texto intitulado “Guaporé”, que depois foi transcrito para seu livro Imagens do Ceará-Mirim (Natal: Imprensa Universitária, 1969). Nesse trabalho o autor traz informações sobre uma recepção que ocorreu naquela casa ao então Bispo de Olinda Dom José Pereira da Silva Barros, ocorrida em agosto de 1882. Esse evento foi detalhado por Luiz Carlos Lins Wanderley em um livreto lançado em 1887.

Décadas depois Nilo Pereira escreveu no jornal natalense O Poti (ed. 31/03/1974, pág. 11) as seguintes lembranças sobre a velha casa do Guaporé – Ainda encontrei a casa com seus vestígios de mansão patriarcal, no melhor sentido da aristocracia canavieira, em que o seu passado esplende como uma página magnífica da própria história da Província. Meu avô paterno, Vicente Inácio Pereira, fez do Guaporé um exemplar do estilo afrancesado que tanto encantou.

Mas também nesse lugar de festas e luxo, vidas findaram sua existência no plano terreno.

O proprietário Vicente Inácio e Isabel tiveram cinco filhos, três garotos (Vicente, Fausto e Olímpio) e duas meninas (Isabel e Maria Cristina). Infelizmente no dia 5 de novembro de 1878, as 5 da manhã, o casal pranteou na casa grande do engenho Guaporé a morte de Maria Cristina, de 13 anos de idade (Correio de Natal, 16/11/1878, pág. 1). Vicente Inácio também ali faleceu aos 55 anos, no dia 22 de novembro de 1888. Já em 5 de junho de 1931, aos 82 anos, Isabel Duarte partiu. Segundo André Felipe Pignataro, Presidente da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes – ACLA, essas duas mortes causaram uma enorme comoção em toda Ceará-Mirim.

Decadência e Recuperação

Já antes do falecimento de Isabel Duarte, o engenho Guaporé estava em decadência no sentido de produção açucareira e sua casa grande seguia no mesmo rumo. Nilo Pereira, em seu texto de A República de 1939, comentou sobre o estado de abandono em que a casa grande se encontrava naquela época.

Foto antiga da casa grande do engenho São Francisco.

Quando Nilo Pereira revisitou a casa grande do Guaporé, é provável que aquelas terras já fizessem parte do inventário da Usina São Francisco, que passou a atuar com mais força na década de 1940, sua direção comprou velhos engenhos na região e cuja sede funcionava na antiga casa do Barão de Ceará-Mirim. A Usina São Francisco era um dos maiores complexos industriais existentes no Rio Grande do Norte daquele tempo e uma evolução na produção açucareira no Vale do Ceará-Mirim.

Foto – Ricardo Morais.

Aparentemente durante esse período a casa grande do Guaporé ficou subutilizada, ou simplesmente abandonada. Mas na década de 1970, segundo uma notícia publicada no Diário de Natal (ed. 09/01/1975, pág. 5), a direção da Usina São Francisco doou a velha residência ao Governo do Estado do Rio Grande do Norte. O ato foi realizado por Geraldo José de Melo, então diretor geral da Usina São Francisco e, segundo a nota, tinha “o objetivo de ser recuperada e transformada num ponto de atração turística na região”. 

Três anos depois foi informado que a Fundação José Augusto teria um aporte de 18 milhões de cruzeiros para investir na preservação do patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Norte e desse dinheiro 3 milhões e 200 mil seriam destinados a restauração da casa grande do Guaporé (Diário de Natal, ed. 27/04/1978, pág. 8).

Foto – Ricardo Morais.

A obra foi inaugurada em março de 1979 pelo então governador Tarcísio de Vasconcelos Maia, poucos antes de entregar o executivo potiguar ao seu primo Lavoisier Maia Sobrinho. Nilo Pereira comentou que José Ferrão Castelo Branco, então técnico do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, foi a pessoa que mais batalhou por essa reforma.

Quatro anos depois aconteceu no Guaporé uma interessante solenidade. Em agosto de 1983, quando o município de Ceará-Mirim completou 125 anos de emancipação política, foi realizada uma festa na velha casa grande do engenho Guaporé. Sabemos que o então prefeito Roberto Varela esteve presente, bem como Nilo Pereira, que relembrou a história da casa, de sua família e o pianista Orione de Almeida tocou sua partitura intitulada “Velho Solar” (Diário de Natal, ed. 09/08/1983, pág. 2)

Foto de 1984 do interior da casa do Guaporé. Foto de Sebastião Lucena, inserido no livro “Viagem-memória de Nilo Pereira: do Ceará Mirim ao Recife e do Recife ao Ceará-Mirim”, de Helicarla Nyely Batista de Morais, EDURF, 2011.

Sabemos que ainda na década de 1980 foi criado no velho casarão um museu, que inicialmente recebeu a denominação de “Museu do Açúcar”, sendo inaugurado com a presença de Nilo Pereira. Em 16 de dezembro de 1988, o casarão do Guaporé foi tombado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte, através de um pedido do Conselho Estadual de Cultura. Na sequência, não sei se antes ou após o falecimento de Nilo Pereira, ocorrido em 23 de janeiro de 1992, o museu foi denominado com o nome desse jornalista e escritor. O autor dessas linhas visitou esse local na juventude e realmente era bastante interessante e funcionou até o ano de 2001.

Nova Decadência

Com o tempo, mesmo oficialmente tombado, a casa grande do Guaporé foi abandonada. O mato começou a crescer ao seu redor, portas e janelas foram roubadas e o casarão começou a se deteriorar pelo abandono e descaso do poder público.

O professor Jeronymo Tinoco, tradutor e intérprete do GRUPO TOK DE HISTÓRIA, no salão principal da casa grande do Guaporé – Foto – Ricardo Morais.

No carnaval de 2017 o artista plástico natalense Fabio di Ojuara, junto com outros artistas locais, que se autodenominaram “Guerreiros do Guaporé”, realizaram uma ocupação artística no antigo casarão para chamar atenção para seu estado de abandono. O nosso grupo realizou uma limpeza do local e desenvolveu nas suas paredes interessantes pinturas artísticas (ver – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/artistas-ocupam-casara-o-guapora/376244). Apesar da bela iniciativa e atuação de Fabio di Ojuara e de outros artistas, aparentemente as autoridades não se sensibilizaram e nada de concreto aconteceu para mudar a situação do casarão do Guaporé.

German Zaunseder e Jeronymo Tinoco, do GRUPO TOK HISTÓRIA – Foto – Ricardo Morais.

Quando os membros do GRUPO TOK DE HISTÓRIA chegaram a esse antigo local, tão importante para a identidade de Ceará-Mirim, foi um grande impacto o estado em que o casarão atualmente se encontra. Ele está aberto, extremamente sujo, muito mato ao redor, com janelas e portas faltando e até as telhas estão sendo retiradas. Adentramos apenas no salão inicial, percebemos o estado deplorável no seu interior e ficamos fotografando a área.

Percebemos em nossa visita que se algo REALMENTE não for feito, cada vez a recuperação daquele interessante local se tornara muito mais difícil.

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Agradecimento – A André Felipe Pignataro, Presidente da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes – ACLA, pelos apontamentos históricos em relação ao Barão de Ceará-Mirim. Ao Professor Jeronymo Tinoco pela revisão do texto. Meu muito obrigado!

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O GRUPO TOK DE HISTÓRIA é formado por pessoas interessadas em conhecer, pesquisar e democratizar as informações históricas, de forma independente e séria. Para isso, o GRUPO TOK DE HISTÓRIA surge como um projeto sob a personalidade jurídica da SEPARN, que, além das linhas próprias de pesquisa, para aprofundar e democratizar a nossa história, oferece consultorias em levantamentos históricos e genealógicos, incluindo biografias.  Para nos conhecer melhor, siga-nos no instagram tokdedistoria e no blog https://tokdehistoria.com.br/



FOTOS DE RICARDO MORAIS, APRESENTANDO OUTROS LOCAIS LIGADOS A HISTÓRIA DA PRODUÇÃO CANAVIEIRA EM CEARÁ-MIRIM.

O SINDICATO DO CRIME EM CAICÓ – A NOTÍCIA DA PRISÃO DO PISTOLEIRO TONHO DO LETREIRO EM JORNAIS DE RECIFE

Houve um tempo que na bela cidade de Caicó, na região do Seridó potiguar, membros de sua sociedade resolveram seus problemas na bala. Mas alguns deles não seguravam as armas. Preferiam contratar pistoleiros utilizando os serviços de agenciadores com atuação em várias áreas do Nordeste, que formaram um grupo que ficou conhecido como Sindicato do Crime. Entre as mortes ocorridas em Caicó na época, a que alcançou maior repercussão e chegou a ser notícia na mídia nacional, foi a do médico e deputado estadual Carlindo de Souza Dantas. Um dos seus algozes foi o pistoleiro Edmar Nunes Leitão, conhecido por Tonho do Letreiro, pois tinha uma mira tão acurada que com tiros “escrevia” qualquer letra do alfabeto em uma parede. Aqui trago a transcrição e as notícias divulgadas nos periódicos recifenses Jornal do Comércio e Diário de Pernambuco dos dias 28 e 29 de abril de 1970.

AGRADECIMENTO – Ao amigo Marcelino Barbosa, verdadeira lenda da Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Norte, com grande atuação contra o crime no sertão e grande conhecedor da História dessa instituição de segurança pública.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO, TERÇA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 1970.

POLÍCIA FEDERAL SE CONCENTRA NO RIO GRANDE DO NORTE PARA DESBARATAR “SINDICATO DO CRIME”

O pistoleiro Edmar Nunes Leitão, autor de oito crimes na região nordestina, inclusive dos assassinatos dos deputados Carlindo de Souza Dantas e Francisco Miguel, ocorridos em Caicó e Sergipe, chegará às 7 horas de hoje ao Aeroporto Augusto Severo, em Natal, fortemente escoltado por quatro agentes do Departamento de Policia Federal. O delegado regional da Polícia Federal, Sr. Júlio Freire de Revoredo, viajará na manhã de hoje para a capital potiguar, a fim de presidir as investigações que serão procedidas e, inclusive, pessoalmente, fazer acareações e ouvir depoimentos no curso dos trabalhos que serão realizados. Objetiva, segundo as próprias declarações do Sr. Júlio Revoredo pôr a limpo a série interminável de crimes em Caicó e, consequentemente, a detenção de todos que, direta ou indiretamente, concorreram para o estabelecimento do “Sindicato do Crime”.

ORDEM É PRENDER

Frisou o agente federal que fará executar no Rio Grande do Norte, as determinações dadas anteriormente. Baseia-se nas prisões de todos aqueles que estejam envolvidos nos crimes ocorridos em Caicó, quer sejam os autores materiais ou intelectuais das chacinas. Razão porque, acrescentou o Sr. Júlio Revoredo, as pessoas apontadas pelo bandoleiro Edmar Leitão, no curso de seus depoimentos, serão imediatamente detidas, principalmente aqueles que têm ou tiveram ligação com o “Sindicato do Crime”.

Um detalhe que vem intrigando a Polícia Federal diz respeito à “cobertura” que um influente cidadão residente em Natal vem dando ao médico Osvaldo Lobo, acusado de mandante no crime que foi vítima o deputado Carlindo Dantas. Informou o agente Otávio Ruas que o Sr. Osvaldo Lobo é natural da Paraíba, onde foi preso numa fazenda, juntamente com o capataz conhecido por Eronildes. Na fazenda, que é de propriedade do médico, foi encontrado um verdadeiro arsenal composto de seis revólveres, três rifles e uma arma calibre 45.

PONTO OBSCURO

Posto em liberdade, após prestar depoimento na Paraíba, o médico Osvaldo Lobo dirigiu-se a Natal, a fim de homiziar-se na residência de um cidadão influente naquela capital, fugindo à responsabilidade e, inclusive, furtando-se a prestar novos depoimentos á Polícia.

Repórteres, fotógrafos e correspondentes de jornais do Sul radicados em Natal, estão sendo impedidos de entrevistar-se com o médico. Os federais, por sua vez, estão tentando descobrir o local onde se encontra o acusado. Edmar Nunes Leitão, ou “Antônio Letreiro”, como vulgarmente é conhecido, denunciou, como mandantes da morte de Carlindo Dantas, os médicos Osvaldo Lobo e Pedro Militão (assassinado no ano passado), além de um coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Norte.

VIÚVA PRESENTE

Edmar vai para Natal, segundo deixou claro, com “a finalidade de resolver esta questão”. Além de vários interrogatórios a que será submetido, “Antônio Letreiro” será acareado com o médico Osvaldo Lobo, com o sargento Antônio Libório e com a viúva do médico Pedro Militão, que também já se encontra era Natal para prestar informações aos federais, acerca da chacina de que foi vítima o seu marido, que por sua vez foi acusado de mandar matar Carlindo Dantas. Edmar Leitão, por outro lado, voltará a avistar-se com pistoleiros e empreiteiros do “Sindicato do Crime” da Paraíba. Todos os pistoleiros e “coiteiros” dos bandidos, presos recentemente em fazendas paraibanas, serão acareados com Edmar, a fim de que seja estabelecido o elo entre os crimes praticados naquele Estado e também no Rio Grande do Norte. As acareações terão início hoje, em Natal, com a presença do delegado regional da Polícia Federal, Sr. Júlio Freire de Revoredo, além dos agentes Otávio Ruas, Mair de Oliveira, Júlio Teixeira e outros.

Antiga cadeia de Pombal, ainda dos tempos do Império. Quem desse local fugiu foi o cangaceiro Jesuíno Brilhante.

POMBAL ERA “QUARTEL GENERAL ” DO CRIME

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero e Maurício Coutinho, enviados especiais) — No depoimento que prestou à Polícia Federal da Paraíba o pistoleiro Levi Olímpio, apontado como um dos principais membros do “Sindicato do Crime” tende agido, inclusive, como empresário para os crimes de Edmar Leitão, preso no Ceará, negou que tivesse até o momento praticado qualquer crime. Mas confirmou a existência do “Sindicato”.

Disse ainda que a reunião para o assassinato do médico rio-grandense, Carlindo de Sousa Dantas, realizou-se na casa de um dos coiteiros do grupo, na cidade de Pombal, não tendo precisado o nome. Negou que alguém recebesse dinheiro para os crimes. Acrescentando: “As mortes eram feitas por amizade aos mandantes ou por prazer, nunca por dinheiro”.

MORTE DO DEPUTADO

“Posso acrescentar ainda — disse — que Antônio Letreiro” foi “peitado” pelo deputado e coronel José Alves Lira, para matar o também deputado coronel Luiz de Barros”.

Na Paraíba, Edmar Leitão, por questões de segurança, fazia se passar por “Antônio”, assim como seu irmão José Maria, por “Ednaldo”; Acusou este último de ter assassinado em São Bento do Bofete, na Bahia, o cidadão conhecido por “Neném Leiteiro”.

POMBAL

Pombal, a cidade do terror, foi apontada por Levi Olímpio, como o quartel general do “Sindicato da Crime”. Na extensão dessa cidade, todo fazendeiro, pobre ou rico, colaborava com os membros do “Sindicato”, uns por cumplicidade (coiteiros), outros por medo.

 Embora Levi tenha negado que recebesse dinheiro com os crimes, a polícia acredita que ele detém em seu poder uma verdadeira máquina montada para morte contra pagamento.

CIGANO BITÓ

Entre os coiteiros apontados por Levi Olímpio, dois nomes são completamente desconhecidos da polícia, e parecem criação do pistoleiro, na esperança de esconder o nome de algum amigo seu. São eles: “Cigano Bitó” e “Dedé Boiadeiro”. “Cigano Bitó”, segundo afirmou Levi, é fazendeiro em Campina Grande, embora até bem pouco tempo fosse um “pobre diabo, não ostentasse nenhuma riqueza”.

Quanto a “Dedé Boiadeiro”, não soube acrescentar nada, afirmando apenas “uma pessoa boa, mas muito perigosa”.

FEDERAIS ADMITEM QUE BANDIDOS FORMAVAM ORGANIZAÇÃO PODEROSA

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero, Maurício Coutinho e Teobaldo Landim, enviados especiais) — A descoberta de como funcionava o “Sindicato do Crime”, começa a estarrecer o povo desta cidade. A própria polícia mostra-se impressionada, pois não imaginava ser o “Sindicato” uma organização de tamanha amplitude. Os membros do “Sindicato do Crime”, não somente matavam, como ainda fabricavam dinheiro e por cima, realizavam casamentos. Dentro da organização existia até posições hierárquicas, pelo menos, por questão de segurança. O chefe maior era o mandante; depois vinha o empresário; a seguir o contato; e finalmente o assassino. O primeiro mandava eliminar o inimigo e pagava pela execução; o segundo ficava com a missão de conseguir um bom pistoleiro(o assassino), que tivesse boa pontaria: o contato, encarregava-se de saber como andavam as coisas; o último executava o crime conforme o preço que pedisse, Exigia-se muita segurança, honestidade e pouco conhecimento com a Polícia.

CASAMENTO

Até casamento o “Sindicato” fazia. O mais importante deles, foi o de Edmar Leitão (preso cm Fortaleza), também conhecido por “Zé Letreiro” e “Antônio”. Edmar vivia aperreando Levi para casar. Já tinha uma noiva; Rosa Pereira. Como gostava muito dela queria casar e abandonar sua vida de crimes. Todos os dias fazia o mesmo pedido e insistia muito. Levi Olímpio não sabia o que fazer; Edmar era muito procurado pela polícia do Estado e seria perigoso levar um padre para a fazenda. Um juiz, pior ainda. Não era nem para se pensar. O que fazer então? Mas Edmar vivia insistindo. E agora até ameaçava matá-lo se não conseguisse, imediatamente, um padre.

Um dia indo na cidade de Pombal, mandou o motorista do carro em que viajava vestir uma batina, arranjou uns papéis para servir de documento, e mais dois padrinhos e fez o casamento. Levi assegura que nem o próprio Edmar sabe disso.

EDMAR E LEVI VÃO SE AVISTAR CARA O CARA

JOÃO PESSOA (De Raimundo Carrero e Maurício Coutinho, enviados especiais) — O pistoleiro Levi Olímpio Ferreira, pessoa importante dentro do “Sindicato do Crime”, estará seguindo, hoje, para Natal, para um encontro com Edmar Leitão o “Antônio Letreiro”, que virá de Fortaleza, Ceará.

Levi Olímpio seguirá fortemente escoltado por policiais da Polícia Federal, em horário não divulgado, pois teme-se um atentado. A vida de Levi é importante para que se possa desvendar muita coisa que ainda está escondida, na existência do “Sindicato”.

DINHEIRO FALSO

A polícia paraibana continua investigando a denúncia de que os participantes do “Sindicato do Crime” teriam diversas máquinas de fabricar dinheiro. Dessas máquinas eram extraída as cédulas para pagamento aos pistoleiros. Já foram realizadas diversas batidas nas fazendas dos coiteiros apontados por Levi Olímpio Ferreira, nada sendo encontrado.

Enquanto será feito o encontro dos assassinos Levi e Edmar, em Caicó. A Polícia Federal continuará suas investigações, acreditando-se que qualquer novidade possa surgir de um instante para outro.

NECO DA IMACULADA

Noticia-se, ainda nesta cidade, que o pistoleiro Neco da Imaculada, um dos mais perigosos do Nordeste, foi preso numa cidade do interior paraibano, ninguém, no entanto, sabe precisar o local.

Neco da Imaculada é acusado de mais de 20 crimes bárbaros a serviço de poderosos donos de terras e políticos influentes. Os agentes federais admitem, por outro lado, que Neco da Imaculada esteja envolvido em cinco crimes ocorridos era Caicó. Sabe-se, até agora, que das chacinas ali ocorridas, somente as que foram vítimas Carlindo Dantas e o industrial Aníbal Macedo estão praticamente esclarecidas. Edmar Leitão seria o autor das mortes dos dois cidadãos, muito embora os crimes de que foram vítimas os médicos Onaldo Queiroz e Pedro Militão, além do jovem Aníbal, filho do industrial Aníbal Macedo, estão sem solução, admitindo-se que Neco da Imaculada seja autor de um deles.

Isto será minuciosamente investigado pelos federais, a partir do momento em que as diligencias forem prosseguindo em Caicó, principalmente agora com a presença, ali, do bandoleiro Edmar Leitão.

JORNAL DO COMÉRCIO, RECIFE, 28 DE ABRIL DE 1970

FEDERAIS CAPTURAM BANDOLEIRO QUE PRATICOU 20 ASSASSÍNIOS

JOÃO PESSOA (Sucursal) — Durante diligências realizadas ontem, na cidade de Teixeira (PB), 12 agentes do Departamento de Policia Federal efetuaram a prisão do bandoleiro Manoel Batista de Araújo, o “Neco de Imaculada”, autor de 20 assassínios no Nordeste e Juntamente com o pistoleiro Edmar Leitão, é responsável pelos últimos crimes ocorridos em Caicó.

O profissional do gatilho que é considerado um dos mais lendários e sanguinários, há alguns anos vive exclusivamente a custa de coiteiros e ricos fazendeiros a quem prestou serviços na execução de perversos crimes a exemplo do seu comparsa “Tonho do Letreiro” que se acha recolhido em Fortaleza, depois de sua captura na cidade de Icó (CE).

SADISMO

“Neco de Imaculada”, conforme afirmam os marginais que o cercam nunca esconde o enorme sadismo e para provar que é um homem mau, conta que Já eliminou 20 pessoas e cortou muito busto de mulheres, alguns somente para ver a fisionomia de quem sente dores horríveis.

De acordo com as Informações em poder das autoridades policiais a área de ação do bandoleiro sempre foi no interior do Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas e Ceará, onde cumpriu contratos mediante elevadas importâncias para eliminar inimigos dos mandantes, dependendo da posição social das vitimas e poder econômico dos contratantes dos crimes.

ESQUARTEJA, TAMBÉM

Os dois últimos homicídios por ele praticados, verificaram-se há cerca de 45 dias, no Interior cearense, onde matou e esquartejou um casal de Jovens namorados, repetindo o que anteriormente havia feito com uma amante que prometeu abandoná-lo para viver com outro homem. De conformidade ainda com as informações transmitidas pelas autoridades policiais o bandoleiro ora detido na cidade de Teixeira, formava com Edmar Nunes Leitão a dupla de bandidos mais procurada para execução de assassínios, não só pela excelente pontaria que possui, mas, sobretudo em decorrência de não deixar pista.

A ÚLTIMA PRISÃO

 A última vez que “Neco de Imaculada” esteve sendo interrogado pelas autoridades, foi no dia 30 de março do corrente ano quando sequestrou a Jovem Maria José dos Santos, no sitio Saquinho, no interior paraibano, a quem infelicitou nos arredores de Pombal.

Durante a resistência oferecida, como castigo, o bandoleiro a deixou despida diversos dias sob o sol ardente da caatinga e, além de sucessivas surras, foi arrastada sobre cardeiros e proibida de beber água, até ceder aos Intentos do sequestrador.

QUASE LOUCA

No final de suas declarações fornecidas a polícia, a jovem acrescentou que, de certa feita, ele amarrou as suas mãos com o cinturão, lhe cortou a barriga a faca e, não satisfeito, a arrastou pelo chão sobre pedras, paus e espinhos até cansar.

Foi nessa oportunidade que, pensando que a Jovem se achava morta e não desacordada, ele a abandonou e fugiu. No dia seguinte, após recobrar os sentidos, a moça, quase louca, saiu rastejando até que encontrou um casal de agricultores, o qual penalizado de sua situação a levou a um hospital, onde ela pastou diversos dias internada.

FAZENDEIRO QUERIA MATAR PISTOLEIRO

Em depoimento prestado a Polícia Federal, o fazendeiro Levi Olímpio, preso na semana passada juntamente com outros mandantes de crimes, confessou que pertencia ao Sindicato da Morte, contratou pistoleiros para eliminar Inimigos e diversas vezes tentou matar o bandoleiro Tonho do leiteiro envenenado, porque ele sabia demais. O rico agricultor, a quem é atribuída a responsabilidade por uma série de crimes, esclareceu também que há multo tempo pertence à organização que espalha o terror em diversas regiões do país, especialmente no Nordeste, onde nos últimos anos profissionais do gatilho derrubaram indefesos cidadãos.

APONTADO POR LETREIRO

O fazendeiro Levi Olímpio, em virtude de denúncias transmitidas as autoridades pelo pistoleiro profissional Edmar Nunes Leitão, o Tonho do Letreiro, como é conhecido entre os integrantes do Sindicato da Morte, foi detido na semana passada no município de Pombal, juntamente com os criadores Antônio Pereira, Zeca Mãezinha e Francisco de Assis. No transcorrer da gigantesca operação que visava desmantelar a força da organização criminosa atuante nos Estados do Ceará, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba, os agente do Departamento de Polícia Federal conseguiram também apreender numerosas arma s e farta munição principalmente na propriedade pertencente a Levi Olímpio.

SABIA DEMAIS

Por mais de uma vez, segundo revelou o fazendeiro, verificando que Tonho do Leiteiro sabia demais a respeito de sua vida e futuramente poderia complicá-lo, fato que constantemente se observa entre mandantes de crimes e profissionais do gatilho, tentou matá-lo envenenado.

Entretanto, muito hábil e desconfiado o bandoleiro sempre recusou fazer refeições e tomar bebidas em sua fazenda, fato que fez ruir todos os seus planos. Agora, em decorrência da delação do bandido, teve o seu nome ligado aos recentes acontecimentos, inclusive com provas difíceis de serem pelo menos atenuadas.

DIÁRIO DE PERNAMBUCO, TERÇA-FEIRA, 29 DE ABRIL DE 1970.

PISTOLEIRO CHEGA A NATAL ESCOLTADO POR FEDERAIS

NATAL (Gledson Oliveira e Maurício Coutinho enviados especiais) — O bandoleiro Edmar Nunes Leitão, que chegou ontem fortemente escoltado a esta capital, deverá ser acareado hoje com o coiteiro Levi Olímpio e o tenente Antônio Libório. O oficial está preso no Quartel da Polícia, em Natal, como autor intelectual da morte do medico Pedro Militão, uma das vítimas dos crimes ocorridos em Caicó.

Edmar chegou a Natal exatamente às 7 horas, escoltado por agentes federais que não permitiram o acesso de repórteres no aeroporto Augusto Severo. Nosso fotógrafo, inclusive, foi solicitado a deixar o “hall” do aeroporto, momentos antes do pouso do Boeing da VASP.

Embora discreto, o aparato policial foi dos mais rigorosos temendo se pela vida do famigerado pistoleiro.

COM MEDO

Edmar ao ser conduzido a Rural Willys da Polícia Federal, placa 2-66 85, que desde às 6 horas se encontrava na pista do Augusto Severo, mostrava-se nervoso e assustado, temendo ser assassinado pelos seus inimigos do “Sindicato do Crime” que ainda estão soltos no Rio Grande do Norte, embora já denunciados nos depoimentos do marginal.

O aparelho da VASP pousou distante a fim de possibilitar aos federais o cerco do pistoleiro. Três agentes entraram na aeronave e o algemaram, enquanto mais dois cercavam no quando desciam a escada do avião em direção a Rural Willys, estacionada frente ao aparelho, aguardando a descida de Edmar, que, propositadamente foi o ultimo passageiro a deixar o Boeing.

Em seguida ele foi levado para a sede da Polícia Federal, Rua Vigário Bartolomeu, 581, sendo de Ia transferido para o Quartel da Polícia Militar onde ficou incomunicável. Hoje, Edmar deverá avistar se com o Sr. Júlio Freire Revoredo, que se deslocou do Recife a fim de acompanhar, em Natal, as investigações que estão se processando. O delegado regional da Polícia Federal chegou a esta capital por volta das 15 horas evitando manter contato com a imprensa.

Não quis revelar, inclusive, onde Edmar será interrogado no dia de hoje, mas admite-se que os trabalhos serão realizados na Polícia Militar, Iocal mais seguro para evitar um possível atentado contra a vida do bandoleiro.

VIU SÔ

O medico e deputado Carlindo de Souza Dantas, abatido pelo pistoleiro Edmar Nunes Leitão, na noite de 28 de outubro de 1967, defronte ao Caicó Esporte Clube, vem sendo apontado como o homem que matou, sozinho, o diretor do SESP daquela cidade, médico Onaldo Pereira de Queiroz, crime ocorrido na madrugada de 28 para 29 de junho de 1968.

O doutor Onaldo, na noite do crime, após tomar alguns drinques com amigos num restaurante daquela cidade, dirigiu-se ao seus aposentos no posto de saúde, onde ficou a descansar numa rede. A noite era fria. Checou a tirar uma soneca, mas despeitou ao ouvir um tiro.

 O CRIME

Notou então que a iluminação da rua fora apagada com a quebra da luminária de um poste que ficava a uns 6 metros de onde estava. Olhou em seu redor e nada viu ou ouviu. Voltou a deitar-se. Um minuto depois ouviu outro disparo, desta vez contra a lâmpada que estava no alpendre do terraço.

Não teve tempo de levantar-se. Um terceiro tiro trespassou-lhe o crâneo, matando-o instantaneamente. Ninguém viu o criminoso, o médico estava só. No chão ficou uma poça de sangue que ia escorrendo pela calçada, enquanto a cabeça da vitima pendia da rede.

Onaldo, um jovem médico de 28 anos, gozava de grande prestígio na classe e junto à população. A sua fama corria o Estado, a ponto do ganhar o cargo de diretor do SESP. A nomeação veio estarrecer e causar inveja a muita gente, inclusive ao Dr. Carlindo Dantas, que sempre pleiteava o lugar. No dia da nomeação houve certo tumulto na cidade, provocado pelo deputado que tinha um temperamento explosivo, razão porque gostava de bebericar na cidade, onde, também, era, enormemente conceituado como bom médico e líder político.

PUNIDO

Carlindo tempos atrás, fora diretor do SESP. Algumas irregularidades afastaram-no das funções. Muito pior: trabalhando no posto subordinado ao médico Onaldo Queiroz, Carlindo voltou a cometer outros desatinos, a ponto de ser novamente por este punido. Isto inflamou os ânimos e provocou, mais ainda, a inveja.

As autoridades que investigam o crime estão propensas a admitir esta hipótese: um acerto de contas em função do orgulho profissional de Carlindo. Vão mais além, fixando-se na suposição de o deputado ter se ressentido porque tinha sido substituído por Onaldo Queiroz. E, assim, sem auxílio de pistoleiro, foi sozinho dar vasão aos recalques que lhe tomaram conta: matar o médico Onaldo friamente, utilizando-se de um revólver calibre 38 duplo.

O LÍDER

Desde tão Carlindo passou a ser visto como criminoso. Todos o apontavam como assassino do colega do SESP, por questões de ciúme e Inveja. Mesmo assim Carlindo continuou sua campanha política, enquanto prosseguiam as investigações que culminaram com a decretação sua custódia preventiva. 33 anos, moço, líder em Caicó pela maneira de tratar seus clientes, a quem, inclusive, receitava de graça. Era querido e estimado por todos. No Estado o seu nome passou a ser uma bandeira em defesa dos humildes.

No período da decretação da prisão preventiva, ele, acusado de assassino, já era visto como um virtual candidato a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Foi preso. Conseguiu a liberdade pelo Tribunal de Justiça, saindo vitorioso nas urnas. Então abriu frente de combate contra seus acusadores e inimigos, entre os quais o médico Pedro Militão e Osvaldo Lobo.

A MORTE

Eleito deputado, Carlindo voltou a ofensiva, combatendo os que lhe acusavam e prometendo apontar os verdadeiros assassinos de Onaldo Queiroz. Isto muitas vezes, da tribuna da Assembleia, ele, prometia fazer. E fez.

No dia 28 de outubro de 1967, um ano após a morte do diretor de SESP, Carlindo de Souza Dantas, naquela noite, dirigiu-se a um bar e publicamente disse que “eles não tem para onde fugir, vou apontá-los, muito breve”. Passaram-se cinco dias. Carlindo no volante de um Aero-Willys, ia participar de uma festa no Caicó Esporte Clube. Ao entrar foi interceptado pelo pistoleiro José Maria, irmão de Edmar Leitão:

A história de Edmar Nunes Leitão foi transformada em cordel pelo poeta João Domingos da Silva. O pistoleiro seria morto em uma emboscada, anos depois, após fugir da penitenciária de Natal.

“Doutor, o Senhor deixou a luz do carro acessa. Carlindo voltou e ficou de frente para Edmar que, de um DKW passou a disparar incesantemente com dois 38, enquanto “Zé Maria” fazia a cobertura, disparando a esmo, indo três balas atingir o industrial Aníbal Macedo, que, naquela noite — eram 23 horas — acompanhava o deputado. Ambos caíram na calçada, morrendo tempos depois.

 MAIS DUAS MORTES

O jovem Nilson Macedo, filho do industrial Aníbal Macedo, em dezembro do ano passado foi assassinado. Para vingar a morte do pai e do irmão, o jovem Antônio Macedo, “Toinho”, descarregava toda a carga do seu revólver contra o médico Pedro Militão, quando este entrava na Escola Normal de Caicó, onde era professor.

Estes crimes estão impunes. A Polícia Federal investiga a possível participação de Edmar e alguns de seus comparsas nas chacinas. Até agora os federais obtiveram valiosas informações que estão sendo mantidas em sigilo, evitando-se a divulgação pela imprensa. Sabe-se que três inquéritos estão concluídos nos quais estão relacionados os matadores de Nilson Macedo e Pedro Militão.