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AUGUSTO SEVERO, O PIONEIRO ESQUECIDO

Gilberto Freyre (1900-1987) sociólogo, historiador e ensaísta brasileiro, autor do livro Casa Grande & Senzala.

Em 1942 o Pernambucano Gilberto Freyre Recordou Augusto Severo, Trazendo Interessantes Aspectos Sobre Essa Importante Figura da História Potiguar.

Fonte – Diário de Pernambuco, 30 de junho de 1942.

Esteve um desses dias comigo um parente que só conhecia de nome; o Sr. Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão. Reside em Natal — de onde raramente sai — mais é filho de um grande nômade Augusto Severo. Um grande nômade que sempre se deliciou em voltar ao seu nativo Rio Grande do Norte, os olhos cheios de saudade da terra querida, as malas cheias de brinquedos para os filhos e de presentes para a mulher e os amigos.

Augusto Severo – Fonte – MUSÉE DE L’AIR ET DE L’ESPACE

Durante longo tempo conversamos sobre aquela figura romântica do mil e novecentos brasileiro, meio esquecida pela gente de hoje; mesmo pela mais sensíveis aos encantos esportivos e os vantagens militares e econômicas da aviação. Quando a verdade é que Augusto Severo deveria estar hoje recolhendo homenagens tão entusiásticas como as que se dirigem a Santos Dumont.

Pois o grande romântico não era nenhum lunático de quem a mania de voar tivesse se apoderado de repente; nem um ricaço para quem o balão fosse apenas um esporte caro e snob. Era um nortista pobre, mas equilibrado e de boa saúde — um fidalgo do Norte pobre como tantos outros do seu tempo e até dos nossos dias — a quem o problema do dirigível sempre interessou: desde seus dias de adolescente. Já então, andando muito com meu tio e seu primo José Antônio Gonçalves de Mello, ele costumava dizer ao seu camarada, apontando para os urubus a voarem sobre os coqueiros pernambucanos, “seu Juca, precisamos achar um jeito de fazer o mesmo”. Parecia-lhe uma vergonha que, neste particular, o homem continuasse inferior ao urubu.

O Pax, dirigível de Augusto Severo, antes do seu acidente mortal em Paris, França.

Mas é Sérgio Severo quem agora me dá traços mais característicos da personalidade do inventor do balão Pax, ao mesmo tempo que me enriquece o material fotográfico sobre o mil e novecentos brasileiro destinado ao ensaio Ordem e Progresso, com uma serie interessantíssima de retratos de Augusto. Em todos eles, o inventor sobressai pela estatura de fidalgo eugênico pelo porte quase de oficial de exército europeu pelos olhos romanticamente negros, pelo bigode farto e magnífico de príncipe de ciganos que se tivesse desprendido dos adornos de ouro para passear pelas ruas de Paris, do Rio de Janeiro e do Recife, vestido sobriamente à moda ocidental.

No dia 12 de maio de 1952 foi lembrado o quinquagésimo ano da morte de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão no Centro Norte-rio-grandense, no Rio de Janeiro. A solenidade foi comandada por Café Filho, então Presidente da República e contou com a presença de várias autoridades potiguares. O Centro Norte-rio-grandense ficava localizado no 8º andar do Edifício Rio Branco, na avenida homônima, número 257, no Centro do Rio de Janeiro.

Essa figura esplendida de aristocrata do Norte que nos surge de um passado ainda recente todo vermelho do próprio o sangue e não do sangue dos outros, está as merecer a atenção de um Gondim da Fonseca ou de um Francisco de Assis Barbosa — escritores a cujo talento, sensibilidade e coragem de pesquisa devemos páginas tão atraentes e lúcidas sobre Santos Dumont. Que aproveitem eles a memória ainda viva, as recordações ainda frescas, as fotografias ainda nítidas, os papeis ainda intactos, as relíquias preciosas, guardadas pelo próprio filho de Augusto Severo na sua casa provinciana da Rua Dr. Barata, em Natal. As recordações também de Gonçalves de Melo, figura ilustre de “bispo do Tesouro”, ultimamente aposentado e que foi tão camarada do primo inventor nos dias de sua mocidade.

Confesso que me deliciei o ouvindo uma tarde inteira Sérgio Severo de Albuquerque Maranhão referir, em conversa despretensiosa, mas cheia de pitoresco humedecido pela melhor das ternuras filiais, traços do quase esquecido pioneiro sul-americano da aviação. Traços que nos revelam não só a profundidade, a densidade e a autenticidade de “brasileiro velho” de Augusto como a sua meticulosidade quase medieval de artesão, sua paciência de artista, a habilidade das suas mãos de quase gigante, para realizar as tarefas mais difíceis e mais finas. Ou simplesmente as mais domésticas.

Fonte – https://manoelmauriciofreire.blogspot.com/2009/01/biografia-de-augusto-severo.html

Era homem de descer a cozinha e ele próprio preparar um molho para o peixe do almoço ou um doce tradicional para a sobremesa do jantar: de pegar de um bordado da mulher e continuá-lo ou concluí-lo com e igual esmero. Essa aptidão para trabalhos delicados de agulha e de doçaria, para artes que, em geral, são de moças caseiras ou de velhas aias pachorrentas, juntava-se nele a uma sólida e aventurosa masculinidade de nortista bem nascido. Nortista de família célebre pelos seus homens agigantados e alourados que os arianistas menos ortodoxos não hesitariam em proclamar nórdicos desgarrados no Brasil tropical, fechando os olhos a mancha magnólia que nos Albuquerque Maranhão menos louros deve recordar o sangue remoto de avôs indígenas.

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ALECRIM… – LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

Luís da Câmara Cascudo

Autor – Luís da Câmara Cascudo

Publicado originalmente – A República, Sábado, 10 de outubro de 1942

Fonte – https://www.facebook.com/notes/ludovicus-instituto-c%C3%A2mara-cascudo/alecrim-lu%C3%ADs-da-c%C3%A2mara-cascudo/2104650056305638/?comment_id=2105018992935411&notif_id=1567601355549809&notif_t=feedback_reaction_generic

“O bairro do Alecrim, com todos os elementos sociais que caracterizam uma Cidade, já se espalha e derrama sua população em quilômetros e quilômetros, num avanço tentacular e dominador.

Há quem viva seis meses sem vir ao Natal porque o Alecrim é bastante para a ressonância de interesses comerciais e domésticos.

Como teria começado esse Alecrim?

Rua Amaro Barreto.

Não conta ainda cem anos de existência. Em abril de 1856, quando o Cemitério foi inaugurado, o Presidente Antonio Bernardo de Passos informava ter adquirido um carro fúnebre em razão da “grande distância entre o Cemitério e esta Cidade”.

O Alecrim ficava no fim do Mundo…

Em outubro de 1871, o Presidente Delfino informava que a única desvantagem da Fonte Pública (Bica), no Baldo, “era ficar no último ponto do bairro alto da Cidade”.

Foto postada no blog http://www.canindesoares.com

Em dezembro de 1878, o Vice-Presidente Manuel Januário Bezerra Montenegro aludia ao Cemitério, “situado à grande distância da Cidade”.

Raríssimas pessoas residiam naquele descampado. Era terra de roçados de mandioca e milho, zona de caçada para os Morros. Umas quatro casinhas, de taipa, cobertas de palha, sem reboco, denominadas “capuabas”, estavam dispersas num âmbito de légua quadrada.

Quando, a 7 de setembro de 1882, o Presidente Francisco de Gouveia Cunha Barreto pôs a primeira pedra para o “Lazareto da Piedade” (Asilo dos Alienados), o Alecrim era uma capoeira, entrecortada de tufos verdes de vegetação. Dizia-se que por ali passava a “estrada velha de Guararapes”. Nada mais.

Bonde da linha do Alecrim, fotografado em fins de 1942, pelo oficial da USAAF Robert C. Henning. Fonte – Livro Eu não sou herói-A história de Emil Petr, de Rostand Medeiros, 2012, pág. 92

Nos primeiros anos da República, o negro Manuel Lourenço possuiu o sítio mais distanciado, “Mangueira”, hoje Praça Gentil Ferreira.

Alguns cochicholos erguiam as humildes cumieiras na Av. José Bernardo e Praça Pedro II. No principio desta última residia uma velha que costumava enfeitar com raminhos de alecrim os caixões de “anjinhos” quando esses passavam caminho do Cemitério, carregados pelos meninos das escolas públicas. “A velha do Alecrim” deu origem ao apelido que se estendeu a todo bairro.

João Vicente Ferreira e Flora Lourival eram os únicos moradores, em casas distanciadíssimas, na primeira década republicana.

Igreja São Pedro e Praça Dom Pedro II no Alecrim – Fonte – https://guiadeturismoblog.wordpress.com/2016/05/17/historia-do-bairro-do-alecrim/

O ponto mais longínquo era “Mangueira”, de Manuel Lourenço (Praça Gentil Ferreira), onde depois Fausto Leiros plantou um roçado.

Seguia-se o “Alto da Bandeira”, tendo essa denominação porque o industrial Amaro Barreto, abrindo a estrada de Macaíba para Natal, ali fincou uma alta e grande bandeira para orientar os trabalhadores. Ficou o topônimo: – “Alto da Bandeira” no cruzamento da Rua Fonseca e Silva com a Av. Presidente Quaresma, num comoro.

Aí se levantava, assombrando os tardios transeuntes, a “Cruz do Amaro”, recordando o assassinato de Amaro Xavier do Nascimento, em 1894.

Outro ponto de concentração demográfica era a “Baixa da Égua”, que o Vigário João Maria mudou para “Baixa da Beleza” e onde se construiu a capela de S. Sebastião.

Em 1905, na epidemia de varíola, o Alecrim estava densamente povoado, campo da inesgotável caridade do Padre João Maria. Ao redor da Praça Pedro II, as casinhas se aprumavam.

Mesmo assim, de Natal até o Baldo (Praça Carlos Gomes), havia caminho limpo. Para cima era uma trilha serpeando no meio do mato.

Fonte – https://guiadeturismoblog.wordpress.com/2016/05/17/historia-do-bairro-do-alecrim/

Em 1912 a Escola de Aprendizes Marinheiros ficou no Refoles, articulando-se com os centros do Alecrim pela Rua Silvio Pelico. Em 1914, o Governador Ferreira Chaves fala na “grande distância para Natal”. A 15 de agosto de 1919, Alecrim é freguesia com sede na Igreja de S. Pedro.

Apesar desse progresso, ainda em 1910 caçavam veados e cotias na Av. Alexandrino de Alencar.

Atualmente, com suas praças iluminadas, auto-falantes, cinemas, jogos populares, elegâncias, confeitarias, cafés, bilhares, namoros, brigas, delegacia de polícia, farmácias, médicos, dentistas, comércio ativo e farto, Alecrim recebe, hospeda e fixa dois terços dos visitantes dos sertões seridoenses e do oeste, no amavio do seu conforto e nas possibilidades de sua atividade incessante.

Diariamente suas ruas transbordam para o sul e para oeste, crescendo, crescendo…

O Alecrim é de ontem. Em plena meninice mostra o que será na futura maturidade.”

Fonte: A República, Sábado, 10 de outubro de 1942.

UM MISTÉRIO COM QUASE 175 ANOS ESTÁ SENDO DESVENDADO – ARQUEÓLOGOS FILMARAM UM DOS NAVIOS PERDIDOS DA EXPEDIÇÃO DE SIR JOHN FRANKLIN

Agora as imagens desse naufrágio estão rodando o mundo e mais um dos mistérios que encantavam a humanidade se encerra com a pesquisa científica.

Rostand Medeiros – IHGRN, através de https://www.stuff.co.nz/world/americas/115370613/underwater-video-of-hms-terror-1845-shipwreck-could-reveal-clues

John-Franklin-Expedition-1845-Nordwestpassage-Erebus-and-Terror. Erebus and Terror – 1845

Por mais de 170 anos o HMS Terror descansou sob as águas geladas do Oceano Ártico canadense, guardando os segredos de uma expedição cientifica desaparecida e totalmente fatal para seus participantes – até um dia ensolarado no início desse mês, quando um pequeno robô mergulhou no mar para tentar encontrar seus restos.

Fonte – https://www.stuff.co.nz/world/americas/115370613/underwater-video-of-hms-terror-1845-shipwreck-could-reveal-clues

Através de um cabo elétrico com controle remoto, pesquisadores canadenses conduziram esse aparelho subaquático até o naufrágio e entraram no convés, ansiosos para ver o que o veículo poderia encontrar. Essa é a primeira grande exploração nesse antigo navio inglês condenado, desde que dezenas de homens o abandonaram depois que ele ficou preso no gelo em 1845. Era uma exploração comandada pelo inglês Sir John Franklin e objetivava mapear a chamada Passagem Noroeste. Uma ligação entre os Oceanos Atlântico e Pacifico através do Circulo Polar Ártico.

Não houve sobreviventes. O Terror e seu navio irmão, o HMS Erebus, desapareceram sob a superfície gelada, onde permaneceriam até 2014 e 2016, quando as antigas naves foram descobertos pelos canadenses.

Por décadas o único registro encontrado dessa malograda expedição foi uma única e sucinta nota, escrita em abril de 1848, rabiscada com a mão trêmula em um pedaço de papel. 

Fonte – Victory Point Note. © National Maritime Museum, London. Mensagem original escrita pelo capitão Francis Crozier .

Essa mensagem foi encontrada quinze anos depois da partida dessas naves da Inglaterra, tendo sido rascunhada pelo capitão Francis Crozier, que a deixou para trás na Ilha King William, em um recipiente protegido por um monte de pedras, antes que todos os membros da tripulação perecessem e seus corpos congelados desaparecessem. Crozier informou que 105 almas abandonaram o Terror e o Erebus e que 24 já estavam mortos, incluindo o líder da expedição, Sir John Franklin.  Essa mensagem foi descoberta por uma expedição inglesa que tentou encontrar seus compatriotas.

Em 1984 o cadáver bastante conservado do marinheiro inglês John Shaw Torrington (1825 – 1846) foi um explorador e  encontrado na Ilha Beechey. Como resultado das temperaturas árticas abaixo de zero, Torrington foi extraordinariamente bem preservado, com características identificáveis, incluindo olhos azuis claros e brilhantes e pele que ainda estava intacta, apesar de machucados e amarelados. Um membro da tripulação que morreu na mesma época e foi enterrado ao lado de Torrington também mostrou sinais mínimos de decomposição. Fonte – https://miepvonsydow.wordpress.com/2016/04/01/the-preserved-body-of-royal-navy-stoker-john-torrington-in-1984-who-had-died-138-years-earlier-of-pneumonia-in-1846-during-sir-john-franklins-lost-expedition-in-the-canadian-arctic-ca-1984/

A explicação para Crozier e um grupo de homens haver sobrevivido ainda por algum tempo, está no fato desses navios transportarem uma grande quantidade de alimentos. Mas sem capacidade de reporem seus gêneros e, certamente, diante dos rigores do inverno todos pereceram.

“-Uma história triste, contada em poucas linhas”, escreveu o explorador britânico que descobriu a nota em 1859.

Sino de bronze do HMS Terror – Fonte – ParksCanada

Os inuits, povo nativo local, possuem em sua tradição oral um rastro de histórias perturbadoras sobre homens brancos doentes, que desembarcaram no Ártico desesperados para salvar suas vidas, andando feito fantasmas sobre a neve, sucumbindo à exposição ao frio, à fome e até, possivelmente, ao canibalismo. Numerosas expedições foram realizadas nesses quase 175 anos, onde recuperaram os restos de alguns tripulantes, mas nunca os navios.

Cartaz produzido na época do desaparecimento, com uma recompensa de 100.000 dólares, uma verdadeira fortuna.

O conhecimento Inuit – ou Inuit Qaujimajatuqangit, antigo povo tradicional do Ártico, é a coleção mais completa de relatos em primeira mão sobre esses ingleses a sobreviver ao longo das décadas. Algumas dessas histórias foram registradas ainda nas décadas de 1850 e 1860. Não foi por outra razão que após o governo canadense decidir realizar mais essa expedição em busca dos naufrágios, os pesquisadores inuítes lideraram o grupo ao longo do caminho.

Uma das pinturas mais conhecidas da condenada expedição de Franklin. Título completo: “Eles criaram o último elo com suas vidas: HMS ‘Erebus’ e ‘Terror’, 1849-1850”. (W. Thomas Smith / Museu Marítimo Nacional) – Leia mais: https://www.smithsonianmag.com/science-nature/dentist-weights-in-what-really-doomed-the-franklin-expedition-180964594/#jyoVdjicEUzWaMV4.99

A National Geographic informou que o Erebus foi encontrado em 2014, quase no local exato que o testemunho dos Inuit o colocou. Dois anos depois um caçador inuit de um assentamento na ilha King William levou os arqueólogos até o Terror. Essa nave foi apropriadamente descoberta em Terror Bay, uma área que havia sido nomeada em memória do navio perdido.

Sammy Kohvik

O caçador Sammy Kohvik contou uma história notável para levar os cientistas até o local, como o jornal americano Washington Post relatou. 

Alguns anos antes Kohvik disse que ele e um amigo estavam seguindo em duas motos de neve, os famosos snowmobile, até uma área de pesca. Foi quando viram um grande poste de madeira projetando-se fora do gelo em Terror Bay ( Baía do Terror ) – era o mastro do navio. 

Kogvik tirou uma foto, mas perdeu a câmera a caminho de casa. Ele não foi procurar o local novamente, até embarcar em 2016 em uma expedição da Arctic Research Foundation, ajudando na busca. Quando a equipe de cientistas ouviu sua história, eles foram direto para a Baía do Terror.

“-O mastro alto poderia estar a metros fora da água nos últimos 150 anos, mas ninguém o viu”, disse o CEO da Arctic Research Foundation, Adrian Schimnowski, à National Geographic em 2016.

Agora ocorreu a primeira visualização do interior do HMS Terror e seus resultados são impressionantes.

Fonte – https://www.stuff.co.nz/world/americas/115370613/underwater-video-of-hms-terror-1845-shipwreck-could-reveal-clues

O governo canadense anunciou nesta quarta-feira (28/08/2019), que os pesquisadores estão mais perto de desvendar o mistério duradouro desses desastres. Dentro do HMS Terror o explorador subaquático robótico encontrou um navio tão bem preservado que seus artefatos pareciam estar essencialmente congelados no tempo.

Mergulhadores no HMS Erebus – Fonte – https://edition.cnn.com/travel/article/canada-shipwreck-franklin-scli-intl/index.html

“-A impressão que testemunhamos ao explorar o HMS Terror é de um navio recentemente abandonado por sua tripulação, aparentemente esquecido pela passagem do tempo”, disse Ryan Harris, arqueólogo do Parks Canada, que pilotou o veículo subaquático com controle remoto.

Dentro do navio os artefatos de vidro ainda estavam empilhadas ordenadamente nas prateleiras. Garrafas de vinho e jarros envoltos em lodo ainda estavam de pé em nichos de madeira e rifles ainda se encontram pendurados nas paredes, envoltos em ferrugem. Nas 20 salas separadas do navio, as gavetas das cômodas e mesas ainda estavam fechadas – a descoberta mais tentadora aos olhos dos arqueólogos. É aí que eles acreditam que encontrarão diários, registros e mapas sobreviventes, possivelmente iluminando toda a expedição.

Harris disse que eles esperam que os documentos cobiçados possam está preservados sob montes de sedimentos protetores, fixados no lugar graças às temperaturas extremamente frias.

O estado de conservação do HMS Erebus é verdadeiramente incrível.

“-Esses cobertores de sedimentos, junto com a água fria e a escuridão, criam um ambiente anaeróbico quase perfeito, ideal para preservar materiais orgânicos delicados, como têxteis ou papeis”, disse Harris à National Geographic. “-Existe uma probabilidade muito alta de encontrar roupas ou documentos, alguns deles possivelmente ainda legíveis. Gráficos enrolados ou dobrados no armário de mapas do capitão, por exemplo, podem muito bem ter sobrevivido”.

Agora as imagens desse naufrágio estão rodando o mundo e mais um dos mistérios que encantam a humanidade se encerra com a pesquisa científica.

100 ANOS – A IMPROVÁVEL HISTÓRIA DE JACKSON DO PANDEIRO, O MENINO NEGRO E POBRE QUE GRAVARIA CERCA DE 140 DISCOS

Texto – Eduardo Vessoni*

Fonte – https://oglobo.globo.com/cultura/musica/a-improvavel-historia-de-jackson-do-pandeiro-menino-negro-pobre-que-gravaria-cerca-de-140-discos-23901865

ALAGOA GRANDE — José Gomes Filho foi de tudo um pouco. Zé, Jack, José Jackson e Zé Jack, por conta do fascínio pelos filmes de faroeste, cujo ídolo era o ator Jack Perrin. Mas o que esse homem miúdo de bigode estreito e mãos malabaristas melhor soube ser foi Jackson do Pandeiro. O Rei do Ritmo, que chegaria aos 100 anos no próximo sábado, dia 31, começou a carreira pelas beiradas, acompanhando a mãe Flora Mourão em rodas de coco, morando em casa de taipa, nos arredores de um engenho do brejo paraibano.

Jackson do Pandeiro – Fonte – Arquivo Nacional.

— Jackson tinha tudo contra si. Um cara que foi alfabetizado aos 35 anos, negro, pobre, em tese não teria condições de chegar aonde chegou — analisa Fernando Moura, coautor da biografia “Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo”.

Encontrei apenas essa indicação, de forma alguma conclusiva como se pode ler, que Jackson do Pandeiro e Almira Castilho podem ter vindo tocar no auditório da Rádio Poti, na Avenida Deodoro, junto com outros artistas em dezembro de 1956 – Fonte – Jornal natalense O Poti, edição de 06/12/1956, pág. 6.

Debruçar-se sobre sua discografia é ver um desfile de gêneros musicais, em seus quase 140 discos. Em 1953, estreia com um compacto com duas faixas que seriam hits por longa temporada: “Forró em Limoeiro” e “Sebastiana”.

Fonte – Arquivo Nacional.

Embora seu nome esteja associado ao forró, o ritmo que o músico mais gravou foi samba. Foram 117 músicas deste gênero, seguidas por rojão (72), baião (42) e marcha (40), segundo pesquisa levantada por Sandrinho Dupan, assistente de curadoria musical do Museu de Arte Popular Paraibana (MAPP), em Campina Grande. Em 1964, por exemplo, lança o disco “Coisas nossas” com uma sequência de afro-sambas, dois anos antes do trabalho sincrético com o qual Vinicius de Moraes e Baden Powell, acompanhados do Quarteto em Cy, dariam novos tons à MPB.

Desde junho, o MAPP, mais conhecido como Museu dos 3 Pandeiros, abriga “Jackson é 100, Jackson é Pop”, exposição que conta a história do músico com fotografias, objetos como o pandeiro original e letras inéditas. Ali perto, a Universidade Estadual da Paraíba guarda raridades como a letra “Marco emocional”, registrada com a caligrafia do próprio músico.

Sugestiva e interessante entrada da cidade paraibana de Alagoa Grande, homenageando seu ilustre filho Jackson do Pandeiro – Fonte – https://oreversodomundo.com/2018/03/02/brejo-paraibano/

Em Alagoa Grande, onde Jackson nasceu, a relação com o filho ilustre não é simples. Ele parece ter sido apagado da lembrança daquela gente que carrega uma certa mágoa pelo distanciamento do compositor. “Acho que faz mais de 900 anos que eu saí de lá. Passei uma fome da bexiga, por isso não quero voltar lá”, confessou no programa “Ensaio” em 1973.

Jackson do Pandeiro e Almira Castilho – Fonte – Arquivo Nacional.

Lá, o Memorial Jackson do Pandeiro, localizado em uma casa de 1898, guarda fotos, capas de discos, os inconfundíveis chapéus e camisas estampadas, jornais de Almira Castilho (a ex-esposa, morta em 2011) e um violão de Jackson, assinado por Juscelino Kubitschek.

— A gente está plantando Jackson na terra em que ele nasceu, a fim de que ele floresça — explica Gabriele Nunes, monitora do espaço inaugurado há uma década.

1957 – Tendo a sua direita Almira e cercado por vários artistas do rádio na época, Jackson do Pandeiro observa o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira assinar um violão que está hoje no Memorial Jackson do pandeiro, em Alagoa Grande, Paraíba.

— Aproveitemos o centenário e ouçamos mais Jackson do Pandeiro. É preciso ouvir o lado B, o C e o Z de Jackson para que a gente tenha noção da importância dele — diz o biógrafo Fernando Moura.

‘Invasão estrangeira’

Não foi uma carreira estável. No início dos anos 1970, ele se queixava em entrevista ao GLOBO: “Não tem lugar pra trabalhar, tudo isso por causa da invasão da música estrangeira”. Em 1976, o disco “É sucesso” traz faixas como ““Iê, iê, iê no Cariri”.

— Jackson tocava no pandeiro dele qualquer música dos Beatles, fazendo na base um coco, e provava que, assim como o reggae, o coco tem essa capacidade de ter alma própria — descreve o pernambucano Lenine, que compôs “Jack soul brasileiro” em homenagem (e sampleando) o mestre.

Jackson chegou a ir da fama ao esquecimento, mas nunca saiu do repertório de artistas consagrados, de Gilberto Gil a Zeca Pagodinho. Paradoxalmente, os mesmos cabeludos dos anos 1970 que pareciam ameaçar a música regional com suas novas batidas o trariam de volta à cena musical. A mistura promovida pela Tropicália ressuscitava o paraibano em gravações como a versão jazzística que Gal Costa gravou para “Sebastiana”, em 1969, e a versão “bosseada” de “Chiclete com banana”, no antológico “Expresso 2222” que Gil lançou em 1972.

O tempero extra viria naquele ano, quando Alceu Valença e Geraldo Azevedo bateram à porta de Jackson, para convidá-lo para defender com eles “Papagaio do futuro”, no Festival da Canção.

Cultura Racional

Naquela década, um reformado Jackson do Pandeiro compõe samba e forró inspirado na Cultura Racional. É dessa experiência curta, de 1973 a 1978, que o músico grava faixas como “Mundo de paz e amor” e “Alegria minha gente”, cuja capa tem Jackson com um colar com a imagem que ilustra a série de livros “Universo em desencanto” que fundamentam a seita, fundada pelo médium Manoel Jacintho Coelho e que também inspiraria Tim Maia.

— Não são beatas nem religiosas. São músicas que falam de questões universais com que todo mundo se identifica, de paz, amor e consciência — analisa o músico Arthur Pessoa, líder da Cabruêra, banda que, em 2019, toca com Os Fulano o lado B de Jackson, em um repertório só com canções da temporada Racional e músicas inspiradas nos terreiros de candomblé que o compositor frequentou no Recife, como o batuque “Pai Orixá”.

Mas Jackson gostava mesmo era de mulher. Desde o início, sua obra foi marcada por algumas canções impensáveis para a época, como mudança de sexo, em pleno início da década de 1960 (o forró “A mulher que virou homem” é considerado uma das primeiras músicas brasileiras a tratar do assunto).

Fonte – http://farolnews.com.br/cultura/jo-miranda-faz-tributo-a-jackson-do-pandeiro-no-forro-do-talco/

Cantou não só a mulher que “topa parada” (“Forró em Limoeiro”, 1953) mas também a enalteceu em faixas como “História de Lampião” (1977), em que defende que o Rei do Cangaço deveria pagar pelo que fez no sertão, mas Maria Bonita, não.

Exceto por um primeiro casamento forçado, a mulher sempre foi uma espécie de arrimo em sua vida pessoal e profissional. Almira Castilho, elegante e bem formada, foi a mulher que lhe ensinou as letras; Neuza Flores, a última esposa, é a ex-metalúrgica que largou tudo para acompanhar o ídolo que viraria marido. A primeira esteve ao lado dele, em tempos de sucesso e dinheiro rápido — apareceu em alguns dos nove filmes que ele fez, por exemplo); a segunda foi a fisioterapeuta particular após um acidente em 1968, e viu o Rei do Ritmo desaparecer dos palcos, aos poucos.

*Especial para O Globo

NO PRÉDIO HISTÓRICO DA RAMPA COM O SR. WILLIAM POPP, EMBAIXADOR INTERINO DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL

Foto – Ana Paula Andrade , SETUR

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Através de um convite feito pela Secretaria de Turismo do Estado do Rio Grande do Norte – SETUR, eu estive hoje no prédio histórico da RAMPA para acompanhar a visita do Sr. Willian W. Popp, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, o segundo no escalão dessa representação diplomática.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Como os Estados Unidos ainda não indicaram quem vai ser o titular do cargo de Embaixador em nosso país, o Sr. Popp é o atual responsável pelo comando do posto.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Estiveram acompanhando essa visita os membros do Consulado dos Estados Unidos em Recife o diplomata Daniel A. Stewart e Stuart Alan Beechler, funcionário desse consulado.

Com Daniel A. Stewart e Stuart Alan Beechler – Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Daniel e Stuart são dois bons amigos, que juntamente com o Cônsul Geral dos Estados Unidos em Recife, o Sr. John Barret, acompanham com atenção e possuem enorme interesse em nossa história comum.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Uma história que une durante a Segunda Guerra Mundial a antiga estação de hidroaviões da Rampa, juntamente com Parnamirim Field, Natal, o Rio Grande do Norte, o Brasil e os Estados Unidos.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Recentemente estive junto com Daniel, Stuart e o Sr. Barret no trabalho de resgate histórico e homenagens aos aviadores da Marinha dos Estados Unidos que pereceram em 10 de maio de 1944, na área rural do município potiguar de Riachuelo, em um acidente com um hidroavião Consolidated PBY-5A Catalina.

Mais detalhes sobre os eventos acontecidos em Riachuelo, veja esses links:

https://tokdehistoria.com.br/2019/03/30/membros-do-corpo-diplomatico-dos-estados-unidos-no-brasil-visitaram-a-cidade-de-riachuelo-p

https://tokdehistoria.com.br/2019/07/04/a-guerra-chega-ao-agreste-potiguar-a-queda-de-um-catalina-em-riachuelo/

https://tokdehistoria.com.br/2019/04/09/sobrevoos-e-historias-vividas-na-guerra/

Carlos Ribeiro Dantas explicando o projeto – Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Coube ao arquiteto da SETUR Carlos Ribeiro Dantas, que trabalha com denodo e especial atenção na recuperação desse patrimônio histórico, conduzir os visitantes.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Carlos apresentou os serviços que estão sendo realizados e apontou as necessidades para a conclusão da obra. Posso testemunhar que os trabalhos estão sendo muito bem conduzidos e a entrega desse patrimônio ao povo potiguar se dará em breve.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Também esteve nessa visita Ana Paula Andrade, da comunicação da SETUR, bem como Hyvirng Ferreira, a Vivi, minha amiga da bela cidade de Patu e assessora técnica da EMPROTUR.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

A minha participação nessa visita foi apoiar, quando necessário, os visitantes e os membros da SETUR com informações históricas.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Nessa visita, que durou quase duas horas, muito me chamou a atenção o fato do Sr. Willian Popp buscar informações sempre detalhadas sobre os aspectos técnicos da obra. Ele igualmente buscou conhecer as informações de caráter histórico sobre a utilização do prédio da Rampa pela aviação comercial dos Estados Unidos antes da Segunda Guerra e pelos militares da marinha do seu país durante o conflito.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

O Sr. Popp comentou ser um fato que a existência do complexo militar americano no Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra é praticamente desconhecido nos Estados Unidos, bem como sobre os episódios aqui ocorridos. Mas informou que a história aqui existente é muito rica e interessante para o povo norte-americano e que a atuação conjunta da representação diplomática do seu país no Brasil e do Governo do Estado do Rio Grande do Norte pode ampliar essa informação e o conhecimento sobre Natal na Guerra.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Da minha parte recebi dos membros da SETUR total liberdade para expor ao Sr. Willian Popp meus pensamentos sobre esse período histórico.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Enalteci a importância histórica, social e cultural dos eventos aqui ocorridos, o fato dessa história comum ser algo que permeia todas as camadas da nossa sociedade, que em minha opinião os potiguares gostam e desejam aprender mais sobre esses fatos e outros aspectos que considerei pertinente.

Foto – Charles Franklin de Freitas Góis

Sob todos os aspectos foi um momento extremamente positivo e que possa gerar bons frutos para o turismo e para o conhecimento da história potiguar pelo seu povo.

Antes de chegar ao Brasil o diplomata William Popp foi conselheiro político da Embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi, no Quênia, e atuou ainda em missões na Colômbia, Angola e Nicarágua.

Possui mestrado em Estratégia de Segurança Nacional pela Escola Superior de Guerra dos Estados Unidos, em Washington, mestrado em Artes em Assuntos Internacionais, pela Universidade George Washington, e bacharelado em Estudos Internacionais e Ciências Políticas pelo Westminster College.

1962 – LIGEIRO ROTEIRO DA CIDADE DO NATAL

Resgato Das Páginas do Jornal do Commércio um Encantador e Interessante Artigo do Professor Veríssimo de Melo, que Apresentava Natal aos Pernambucanos.

No princípio era o forte… O Forte dos Reis Magos, chantado á margem esquerda do rio Potengi olhando o azul do Atlântico. É o nosso maior e mais antigo monumento histórico cenário das lutas dos portugueses contra a indaiada, piratas franceses e Invasores holandeses.

A pequena, luminosa e alegre Cidade do Natal veio depois, a 25 de dezembro de 1599, fundada por Dom Jerônimo de Albuquerque — segundo a tradição – ou pelo Capitão Mor João Rodrigues Colaço, conforme declaram revisionistas modernos da nossa história.

Na geografia da cidade destaca-se a presença das dunas, esses morros atapetados de cajueiros nativos, — alguns carecas — que protegem Natal contra a fúria dos ventos alísios. Do outro lado, o Potengi, onde todo natalense pescou siri, aprendeu a nadar ou gingou uma velha canoa até os mangues…

Mas, ao visitante ilustre, ao turista, muito mais do que a nossa História ou a nossa Geografia, deve interessar os pontos pitorescos da cidade.

Primo Vivere…!

Pois a cidade tem duas portas: Quem chega de avião, saltando em Parnamirim, vê logo a grande Base Aérea de Natal que os norte-americanos construíram durante a última grande guerra e onde os natalenses — na expressão de Alvamar Furtado — se acotovelavam com os mais famosos artistas de cinema da época. Conhece então a estrada asfaltada que liga o aeroporto “Augusto Severo” a cidade, por onde passaram desde os mais humildes soldados de Tio Sam, até o seu presidente Franklin Delano Roosevelt.

Para os que veem do sertão a estrada é outra: Ou passa pela Ponte de Igapó sobre o rio Potengi, ou cruza pelas Quintas, onde se pode ver o primeiro buliçoso e colorido espetáculo da cidade: As lavadeiras trabalhando ao lado de um pontilhão.

Base de Parnamirim Field em plena atividade durante a Segunda Guerra Mundial – Fator de crescimento inicial da cidade de Parnamirim.

“As lavadeiras fazem assim, assim, assim”.

Vindo pelo Alecrim, — o bairro mais populoso — vislumbra á esquerda os edifícios da Base Naval de Natal, também uma das maiores do país de modernas instalações, fundada pelo saudoso Almirante Ari Parreiras há vinte.

Mas, onde se hospedam as pessoas distintas?

Eis o problema!… A vantagem do “Grande Hotel”, no bairro da Ribeira, é ser bem central. Perto de bancos, companhias de aviação e navegação, estação ferroviária, o antigo recanto comercial da cidade. Paradoxalmente o melhor lugar para um visitante de categoria é ainda no Hospital “Miguel Couto”, isto é, na Clínica de Repouso, onde há confortáveis apartamentos. É deslumbrante a visão de praias e dunas lá de cima. Há turistas que ficam do queixo caído. E a brisa que sopra de manhã à noite sobre a cidade, ali é mais forte e mais cheirosa.

Se a manha é clara e saudável, o que sempre acontece, nada melhor do que um passeio ao Mercado da Cidade Alta, para ver primeiro o que o natalense come. É o lugar também onde o turista pode comprar alguma peça de cerâmica popular, artigos de fibras, bolsas, cestaria etc. Mas se for um sábado, o melhor é visitar a Feira do Alecrim, a maior da cidade.

Todavia, todavia… Antes do almoço há quem goste de tomar um aperitivo, no que, aliás, procede muito bem. É dos usos e costumes. A ordem, então, é visitar um bar no centro da cidade, para não perder tempo: O “Granada Bar”, por exemplo, cujo proprietário é um espanhol, — Dom Nemésio, — trata bem e serve melhor. Ou a Cantina Lettieri, um lugar pequenininho, que dá apenas para uma dúzia de pessoas. Próximo na Rua Ulisses Caldas, há uma pequena mercearia de nome grandioso “O Galo Vermelho”. Há apenas uma mesa e está sempre ocupada.

E onde comer o que nós temos de mais típico da nossa culinária urbana?

Durante o dia, contra todos os protocolos, aconselharíamos visitar a “Carne Assada do Marinho” onde há sempre feijão verde. Ou a “Carne Assada de Seu Lira”. Ou a “Peixada da Comadre”. Ou a Caranguejada do Arnaldo. Mas se o turista resolve ir á praia de Areia Preta, então deve entrar num barzinho que tem lá no fim chamado “É Nosso”. Há sempre caranguejos (nos meses que não tem – maio, junho, julho e agosto eles estão gordos), ou um camarão torrado com cerveja, que é uma delícia. Tanto o almoço quanto o jantar poderá ser num desses estabelecimentos se a pessoa não é dessas muito exigentes. À noite o restaurante mais chie é o do ABC F. C. O melhor peixe frito da cidade, entretanto é o da “Peixada de Marcus”, na Areia Preta. Tem a vantagem do marulhar das ondas, como diria o poeta, onde se recebe todo aquele vento puro que corre na praia. Ou poderá também jantar num dos recantos mais agradáveis da cidade que é “A Palhoça”, vizinha ao Cinema Rio Grande. Há também um novo restaurante á Rua Ulisses Caldas, chamado “Potengy”, onde há sempre uma paçoca de pilão estupenda.

Um passeio à tarde?

É visitar a praia de Ponta Negra ou a Redinha, — duas belezas. Ou! Ir até o Forte dos Reis Magos, pela Avenida Circular. Uma volta pelos bairros residenciais bem é bom. Veem-se algumas das casas mais bonitas de Natal. Em matéria de edifício público basta ver a Igreja de Santo Antônio, com sua fachada antiga e seu galo heráldico no topo da torre. Na Rua da Conceição está o sobradinho mais velho da cidade, quase em ruínas. Os prédios do Instituto de Educação e do Ipase são os mais modernos de Natal Todavia a Escola Doméstica de Natal continua sendo o estabelecimento de o ensino modelar do Estado. É a primeira, no gênero, fundada no país. Até o comandante Vasco Moscoso de Aragão visitou-a…

O Parque de Manoel Felipe, uma velha e recatada lagoa, foi agora recuperado inteligentemente pelo Governo do Estado. É um encanto, principalmente para os namorados.

Cinemas, teatros… Bem Isso há em toda parte. E se há festas programadas, os três melhores clubes sociais ainda são o Aero Clube, o mais antigo, o América F. C. e o ABC F. C.

E depois do baile?

Bem, agora são outros quinhentos… Mas, se for ao hotel dormir, não se assuste se ouvir, dentro da noite, a voz de algum boêmio cantando a mais popular canção da cidade.

“Praieira dos meus amores, encanto do meu olhar!”.

Em Natal, neste ano da bomba de cinquenta megatons, ainda se faz serenatas com violões e tudo (O poeta Newton Navarro vem sempre na frente puxando o cordão). E não é por snobismo. É tradição secular. Os versos de Açucena, Itajubá, Auta ou Otonlel, vivem nas noites de lua e na boca do povo:

“Praeira do meu pecado, morena flor não te escondas!”….

BANDIDO OU PATRIMÔNIO CULTURAL E TURÍSTICO? – A REPERCUSSÃO DO PLEBISCITO DA ESTÁTUA DE LAMPIÃO EM SERRA TALHADA EM 1991

Rostand Medeiros IHGRN

Sou de uma família que foi vítima da ação de cangaceiros, através de um assalto ocorrido no dia 1 de fevereiro de 1927, na zona rural do município de Acari, na região do Seridó do Rio Grande do Norte. Sou bisneto de Joaquim Paulino de Medeiros, o conhecido “Coronel Quincó da Ramada”, proprietário da gleba Rajada, atacada nesse dia pelo bando do paraibano Chico Pereira e seus homens.

Desde tenra idade esse tema foi algo muito presente em diálogos familiares e em momentos de recordações sobre a nossa história familiar. Mas em 1991 o meu conhecimento sobre o Cangaço, esse tema tão específico da história do Nordeste, se limitava a alguns filmes, matérias televisivas e alguns poucos livros, que até hoje se encontram na estante da minha casa.

Nessa época, como até hoje, eu buscava aprender mais sobre o Cangaço e tentava compreender porque meus antepassados foram atacados. Mas era então tudo muito limitado.

Foi quando em 1991 aconteceu algo que chamou muito a minha atenção – A notícia da ocorrência de um plebiscito na cidade pernambucana de Serra Talhada, onde a sua população deveria decidir sobre a colocação, ou não, de uma estátua para o cangaceiro Lampião, em uma área pública do município.

A Serra Vermelha, no caminho para a Passagem das Pedras , na zona rural de Serra Talhada, área onde nasceu Lampião– Foto – Rostand Medeiros

A ideia partiu de uma fundação local, que desejava com isso prestar uma homenagem ao maior bandoleiro nordestino, nascido na antiga Vila Bela, atual Serra Talhada. Mas as famílias das vítimas de Lampião, algumas delas das mais tradicionais da cidade, rejeitaram a proposta.

Com toda a polêmica que se seguiu, a prefeitura local buscou promover uma consulta pública para que a população decidisse sobre o caso.

Cangaço – História e cultura nordestina

Morando em Natal em uma época onde a internet ainda era limitada, tentei acompanhar da melhor maneira todo o desenrolar do processo, inclusive através dos jornais, TV e rádios. Mas as informações eram difíceis. Logo surgiu outra surpresa – O alcance da repercussão e de todas as polêmicas do caso junto à imprensa nacional!

Os principais jornais, revistas e emissoras de televisão no Brasil colocaram o tema na pauta e a cidade de Serra Talhada foi alçada as manchetes dos principais meios de comunicação.

Fonte – http://www.itribuna.com.br

No dia 7 de setembro de 1991 houve o processo de votação. Ao final a Justiça Eleitoral, que se envolveu no plebiscito, declarou que 76% dos eleitores votaram pelo “sim”, contra 22% do “não” e 0,8% de abstenções. Mas a estátua de Lampião, da forma como foi pensada em 1991, nunca foi construída.

Para alguns essa votação buscou criar o uso mercadológico da memória de Lampião e do Cangaço naquela cidade. Entretanto foi inegável que para alguém como eu, que vivo há quase 600 km de Serra Talhada, aquele processo despertou em mim um maior interesse por estudar e conhecer mais sobre esse tema. Desejava sair urgentemente da simplória questão “-Lampião foi herói, ou bandido?” Um amigo sociólogo já tinha me dito que “Para entender o Cangaço eu precisava fugir desse discurso rasteiro e polarizado e sair pelas estradas do sertão”. Tinha razão!

Casa de dona Jocosa. Na trilha do cangaço – o sertão que Lampião pisou. Márcio Vasconcelos. Reprodução

Não foi a toa que um dos primeiros lugares que viajei para fora do Rio Grande do Norte com esse intuito tenha sido a área de Serra Talhada e Triunfo. Lugares para onde voltei muitas vezes, continuo com vontade de retornar e fiz ótimas amizades. E nem me chateei quando descobri que toda essa onda de plebiscito para colocação da tal estátua, foi inicialmente uma ideia da fundação para vender turisticamente a cidade de Serra Talhada. Parece que os resultados positivos extrapolaram muito o que se desejou.

Nessa busca por conhecer mais e mais sobre o Cangaço eu não perdi nada. Acabei descobrindo muito além das polarizadas polêmicas que tratam das sangrentas lutas dos cangaceiros.

Junto ao Sr. Antônio Belo, do Sítio Tigre, no pé da Serra de São José, Luís Gomes-RN. Em agosto de 2009 esse Senhor me deu um fantástico depoimento sobre a passagem da Coluna Prestes na sua região em 1926 e sobre a entrada do bando de Lampião no Rio Grande do Norte em 1927.

Descobri as belezas e os problemas da minha região. Descobri a força da nossa gente, do colorido do Nordeste, bem como as histórias de Padre Cícero e de Leandro Gomes de Barros. Descobri Canudos, o belo Rio São Francisco, muito mais do Seridó e das minhas raízes. Descobri também Luiz Gonzaga e Exu, o Beato José Lourenço do Caldeirão, o Pajeú, o Piancó, a Missa do Vaqueiro de Serrita. Descobri Clementino Quelé, Jesuíno Brilhante e Patu, o Saco dos Caçulas em São José de Princesa, a rota de Lampião no Rio Grande do Norte para atacar Mossoró e muito mais.

No alto da Serra Grande, onde ocorreu o maior combate da história do Cangaço em 1926.

Independente das polêmicas envolvidas em 1991, do resultado final da votação, da ideia de quem ganhou e de quem perdeu com o pleito, ou se a imprensa manipulou negativamente o plebiscito, ou das consequências para a política local, para o turismo da região e para a identidade da cidade de Serra Talhada, eu acho que aquele evento eleitoral, que logo completará 30 anos, teve como maior mérito colocar toda uma comunidade nordestina debatendo sobre uma determinada figura histórica e sobre um período de sua história.

Foto colorizada de cangaceiros. Realizada a partir de um original em preto e branco, é uma arte do professor Rubens Antônio, que realiza um primoroso trabalho nesta área.

Não sei se esse tipo de situação ocorrida em Serra Talhada foi um episódio inédito no Nordeste e nem sei dizer se houve nessa parte do Brasil outros debates sobre temas históricos que tenham gerado tanta movimentação. Por isso acho que vale a pena comentar e recordar o que ocorreu no sertão de Pernambuco em 1991.

Fino trabalho de Mestre Aprígio, de Ouricuri, Pernambuco, fotografado na Loja do Vaqueiro, em Caruaru – PE – Foto – Sérgio Azol.

Concordo quando dizem que a memória de um lugar não é para se tornar mercadoria barata e nem ser mercantilizada de qualquer jeito. Mas não posso esquecer que não foi só na cidade de Serra Talhada que Lampião se transmutou de bandido para patrimônio cultural e turístico. Um exemplo está no meu Rio Grande do Norte. Mesmo sem plebiscito, a cidade potiguar de Mossoró também buscou uma utilização cultural e turística em relação a memória do ataque que sofreu do bando de Lampião em 13 de junho de 1927. Essa iniciativa até hoje é um sucesso!

Combatentes de Mossoró em junho de 1927.

Por esses dias, mexendo nos meus antigos, amarelados e preciosos papéis sobre história da minha região, encontrei uma página do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, que muito chamou a minha atenção na época. Adianto para os que conhecem mais sobre o tema Cangaço que a jornalista Letícia Lins cometeu deslizes em relação à história de Lampião. Mesmo assim eu decidi transcrever para os leitores do TOK DE HISTÓRIA esse texto, para trazer um pouco da efervescência que envolveu aquele plebiscito em 1991.

ESTÁTUA DE LAMPIÃO DESPERTA AMOR E ÓDIO NO SERTÃO

Texto – Letícia Lins

JORNAL DO BRASIL, domingo. 11 de agosto de 1991, 1º Caderno, página 17.

S E R R A T A L H A D A. PE — “Nem herói, nem bandido, é história. Diga sim a Lampião”. Petista, fã de Karl Marx. Che Guevara e Fidel Castro, o ator Anildomá Williams, autor da inscrição pichada nos principais muros de Serra Talhada, já decidiu: com roupa azul, adornada com lenço vermelho no colarinho, embornal, cartucheira, chapéu de couro e rústicas sandálias, vai fazer boca de urna para ninguém menos que Virgulino Ferreira, o famoso Lampião, em plebiscito no próximo dia 7 de setembro, nesta cidade sertaneja, a 497 quilómetros do Recife.

O plebiscito, coordenado pela Casa de Cultura de Serra Talhada, tem um objetivo simples: consultar a população para saber se Lampião, o filho mais polêmico da terra, tem direito a estátua em Praça Pública, na cidade de onde partiu quase menino para o cangaço e a fama. A iniciativa movimenta gente como Anildomá, divide os 100 mil habitantes de Serra Talhada, desperta controvérsias nas cidades vizinhas, provoca irados editoriais em jornais de Pernambuco, Bahia, Alagoas e fez chegar uma enxurrada de cartas à Casa de Cultura, algumas de estados distantes, como o Pará. Não é Para menos: agitador do início do século, homem destemido que enfrentou a polícia e os coronéis de sete estados nordestinos, entre caminhos trilhados a pé no meio dos espinhos da caatinga, Lampião ainda hoje desperta ódios e paixões. É tido como um justo pelos sertanejos, às vezes, como um demônio. Outras, como um deus.

Lampião e seu bando…

Cinquenta e três anos após sua morte seus conterrâneos falam dele como uma lenda viva, e não escondem a expetativa diante do plebiscito, do resultado ainda imprevisível, com muita gente a favor, muitos contra e quase ninguém neutro. Pesquisa do jornal mensal Correio do Vale, na qual não foram computados os votos brancos nem nulos, mostrou que 55,06% da população se posicionam a favor da estátua, enquanto 4,94% se colocam contra. Não é preciso apelar para os números. Uma circulada pelo Fórum, igreja, praças e sítios mostra que a divisão está em todos os lugares, até mesmo na prefeitura. “Tenho oito secretários e só dois são contra a estátua, porque suas famílias foram perseguidas por Lampião”, diz o prefeito Ferdinando Feitosa (PFL), sem esconder um elogio rasgado ao cangaceiro: “Mais do que um bandido, ele foi um produto do seu tempo, espezinhado e maltratado por seus ricos vizinhos fazendeiros”. Ardoroso defensor da colocação da estátua em praça pública, o vice-prefeito Giovani Santos de Andrade Oliveira diz que os motivos que empurraram Lampião para o cangaço ainda hoje fomentam inimizades no Nordeste; “Terra e honra no sertão viram questão”, justifica. Os dois receberam sinal verde do principal líder político da cidade, deputado federal Inocêncio Oliveira (PFL-PE), para apoiar o pleito.

FOTO – Sérgio Azol.

De fuzil em punho — Lampião é história, só que fez a história de forma diferente, de fuzil em punho — afirma Tarcísio Rodrigues, presidente da Casa de Cultura e organizador do plebiscito. A consulta popular já despertou o protesto do juiz José Machado de Azevedo, que promete lavar as mãos; — Uma estátua de Lampião é uma apologia do crime. — Diz que sua atuação se limitará a fenecer urnas virgens para o pleito, de consequências imprevisíveis, segundo ele.

É ruim exaltá-lo numa terra onde andar com revólver na cintura ainda é simbolo de status e demonstração de machismo. 0 promotor Euclides Ribeiro de Moura Filho, um cearense que anda com uma cópia da certidão de nascimento de Lampião na bolsa, discorda do juiz: — Não se pode olhar a figura de Lampião apenas à luz do direito. É necessário considerar-se o momento histórico em que ele viveu, quando as volantes da polícia que desbravavam o sertão também despertavam o medo na população — encerra o representante do Ministério Público.

Um sertanejo nordestino, seu filho e seu jumentinho com os caçuás – Fonte -http://portaldoprofessor.mec.gov.br

Lampião – Da briga com os Nogueira ao cangaço

“Cabra macho, que merecia morrer na ponta do fuzil, e não na covardia”, para o ex-volante Luís Flor, que lutou contra o cangaço durante quatro anos; “menino bom. Mas doido”, para o padre Cícero Romão, e um “príncipe”, para Antônio Silvino, cangaceiro que durante quase duas décadas reinou absoluto no sertão, Virgulino Ferreira era o terceiro de uma prole de oito irmãos, cinco homens e três mulheres. Nasceu na localidade de Serra Vermelha, antigo município de Vila Bela, Hoje transformado em Serra Talhada.

Como todos os pequenos proprietários do sertão do Pajeú, o patriarca José Ferreira e sua mulher viviam do plantio de milho, feijão e de algumas cabeças de gado. A produção era alternada; colhia-se nos anos de bom inverno e se perdia tudo durante a seca. Mas isso não chegava a desanimar os Ferreira, principalmente Virgulino. Ao ver o roçado esturricado, ele juntava 14 burros e saia cortando as estradas poeirentas do sertão, vendendo mercadorias de cidade em cidade, voltava com os caçuás (cestos de cipó) vazios, mas de bolsos cheios. A profissão, ainda hoje, é conhecida no Sertão e tem dois nomes: tropeiro ou almocreve.

Por esse motivo, desde menino Lampião começou a chamar a atenção dos pais, dos vizinhos e dos sete irmãos. Pouco a pouco foi mostrando outras habilidades, não só de bom mercador. Confeccionava artesanato em couro, principalmente arreios de montaria, e vendia nas feiras. Foi um pequeno episódio, comum no sertão, onde qualquer besteira se transforma em questão de honra, que fez tudo mudar, segundo lembram, hoje, não só os Ferreira, como os Nogueira, o clã inimigo.

Zé Saturnino – Arquivo do autor

Chocalhos — Ferreira e Nogueira eram vizinhos. Um parente dos Nogueira, José Saturnino, se mostrou “despeitado” quando viu que o gado dos Ferreira andava na caatinga com uns chocalhos bonitos, dourados, comprados em Juazeiro do Norte, no Ceará. Até então, todos os chocalhos que chegavam à fazenda Serra Vermelha eram negros e sem graça. No sertão — onde o gado é criado sem cercado — o chocalho funciona como um meio de o vaqueiro localizar bois, vacas e cabras. Saturnino amassou o chocalho do gado dos Ferreira, que perderam bois e vacas. Para não ficar por baixo, os Ferreiras deram o troco, amassando chocalhos do seu gado. Saturnino não gostou; capou o cavalo de Virgulino. Virgulino cortou os rabos das vacas de Saturnino. A briga cresceu e o juiz de Vila Bela obrigou os Ferreira a se mudarem. Foram morar no distrito de Nazaré, hoje Carqueja, com uma condição; nem visitavam Serra Vermelha, nem Saturnino entrava em Carqueja. Saturnino quebrou o acordo e os Ferreira não gostaram.

Começaram a fazer arruaças em Carqueja. Foram obrigados a se mudar, desta vez para Alagoas, onde um amigo de Saturnino — a pedido deste — matou o pai de Virgulino e feriu um irmão. Virgulino decidiu vingar-se. Integrou-se ao bando do cangaceiro Sinhô Pereira e depois começou a agir por conta própria, com seu próprio bando. Seu poder cresceu, ele passou a ser temido até pelos governadores. Em 1926, chegou a propor ao governo de Pernambuco dividir o estado em dois: à capital caberia a administração do litoral, enquanto ele reinaria, sozinho, no Sertão. De cangaço em cangaço, Lampião terminou por ter a cabeça colocada a prêmio por 50 contos de réis. Em 1938, seu bando foi desarticulado, ele e seuscompanheiros foram degolados e suas cabeças exibidas em praça pública.

Voto a favor do compadre

Ela tem 92 anos, quase não anda, não gosta de falar muito, mas há um assunto que sempre a empolga e sobre o qual, dependendo da disposição e da saúde, discorre horas seguidas: a vida e morte do compadre Virgulino Ferreira, seu querido Lampião. Ela quer mais é ver a estátua dele na principal praça da cidade, ou no topo da montanha mais alta da serra que dá nome ao município.

— Não botaram a estátua do padre Cícero no Juazeiro? Por que não Lampião aqui? Ele não era tão bom quanto o padre Cícero — diz Especiosa Gomes de Luz, que nunca apareceu em jornal, revista, nem foi ouvida por sociólogos, antropólogos, que costumam derramar ciência e erudição sobre o Cangaço. Para ela, Lampião não passou de um justiceiro: “Ele tirava de quem tinha muito para dar a quem não tinha nem um pouco”. Conta que costumava costurar para o bandido e o bando, e que ele nunca se utilizou da amizade para pedir abatimento no preço das roupas: “Ele pagava muito e bem, e ainda dava os retalhos para fazer calções para os meninos”.

Lampião

Especiosa guarda boas recordações do Cangaço: “Quando Lampião chegava com seu bando, era uma festa, os pais confiavam, davam as moças para os rapazes dançarem com elas, e Lampião nunca descasou nenhuma”. Ela mostra que as volantes – forças policiais do governo que combatiam o cangaço – despertavam mais medo e eram mais violentas que cangaceiros; “Quando eles vinham, faziam incêndios, acabavam com tudo”. Relata que muitas vezes Lampião deu dinheiro a quem não tinha – Para festa de casamento, batizado e até compra de terra – e diz que não chorou quando soube da morte dele: “Já estava degolado, não adiantava chorar. Só fiz rezar por ele”.

Marca de bala depõe contra

Luís Alves Nogueira tem 86 anos, anda com dificuldade, com auxílio de UMA bengala, já não enxerga por um olho e tem alguns lapsos de memória. Mas há um fato que presenciou a 65 anos que ele recorda com a nitidez de um filme em cores; a invasão da Fazenda Serra Vermelha por Lampião e seu bando, quando os Nogueiras reagiram a tiros contra os cangaceiros, em uma luta sangrenta que durou sete horas.

 — Eles bandalharam tudo, queimaram a casa da fazenda, incendiaram o gado ficou tudo uma carniça só — conta, na casa grande da Fazenda Serra Vermelha, que ainda hoje ostenta nas paredes as perfurações de bala daquele tempo, e que guarda como troféus de resistência os torrões de barro que sobraram do ataque a fogo a sua residência. Domingos, filho de Luís, é contra a estátua de Lampião cm Serra Talhada: “Por que não a de padre Cícero? Indaga ele, que costuma visitar com o pai a cova do avô, morto por Lampião dia 26 de fevereiro de 1926.

Aquele foi o resultado da volta do cangaceiro às terras da qual praticamente havia sido expulso por influência do fazendeiro José Saturnino, na década de 10. O patriarca José Ferreira e os oito filhos foram obrigados a se mudar para a localidade de Nazaré hoje distrito de Carqueja, município de Floresta. Depois, mais vez foram tangidos para Alagoas, onde o tenente José Lucena – amigo de Saturnino – matou o pai e feriu um amigo de Lampião. Foi a gota d’água. Virgulino, que já havia se integrado ao bando de Sinhô Pereira, outro histórico cangaceiro, e jurado por ter a pistola como advogado — por não ter encontrado um que o defendesse nas questões de terra de Serra Talhada, resolveu se vingar.