Arquivo da tag: Baixa Verde

MAIOR TREMOR DE TERRA DO RN FOI REGISTRADO EM 1986

30-11-1986-5
Muitas casas destruídas em João Câmara e região.

FONTE DO TEXTO – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/maior-tremor-de-terra-do-rn-foi-registrado-em-1986/137371

A  atividade sísmica na região de João Câmara já provocou milhares de tremores no Rio Grande do Norte nos últimos vinte e três anos. A maioria deles foi registrada apenas por modernos aparelhos que medem a atividade sísmica em redor do planeta. O de ontem foi o sétimo de magnitude média, capaz de ser percebido além das fronteiras do Estado.  O primeiro e maior deles aconteceu em 1986, obrigando milhares de pessoas a sair de casa durante a madrugada com medo de desabamentos.

Naquele domingo, 30 de novembro, os moradores de João Câmara estavam apreensivos. No dia anterior eles relataram a ocorrência de pequenos tremores. “Porém, por volta das 3h20, aconteceu o maior deles, acompanhado de um forte estrondo que rachou casas e derrubou paredes, gerando um verdadeiro clima de pânico na população”, registrou a Tribuna do Norte, em edição especial de segunda-feira, 1º de dezembro.

30-11-1986-1
Prejuízos em casas comerciais.

“Quando escutei o estrondo disse: valha-me Nossa Senhora. Quando me levantei para chamar os meninos vi as telhas despencar. Fiquei atarantada. Parti para o quarto é já fui me relando toda”, contou, na época, Maria Silvina, que morava com o marido e mais cinco filhos no distrito de Samambaia, o epicentro do terremoto. Duas filhas do casal ficaram sob os escombros, mas tiveram apenas ferimentos leves.

Sem saber o que fazer, os moradores se concentravam no centro da cidade e no terminal rodoviário. “Quem tinha parentes em outras cidades ou conhecia algum fazendeiro da região pedia socorro”, dizia a TN, citando como exemplo a dona de casa Paula Pereira da Silva, viúva, sete filhos e quatro netos. “Não posso mais ficar aqui. Vi minha casa rodar e cair pedaços da porta.” Em Natal houve relato de rachaduras em prédios, inclusive no Colina dos Flamboyans, na zona sul da cidade.

30-11-1986-2
Muitas pessoas se retiraram da cidade com seus pertences em caminhões…

Nos dias que se seguiram, o Rio Grande do Norte recebeu a visita de ministros do governo José Sarney. O ministro do Interior da época, Ronaldo Costa Couto, foi a João Câmara e anunciou a liberação de Cz$ 2 milhões (dois milhões de cruzados) para recuperar os danos provocados pelo tremor.  O governador de então, Radir Pereira (que substituíra José Agripino, eleito senador), decretou estado de calamidade pública.  João Câmara viria a sentir um novo tremor de terra três anos depois. De lá pra cá a atividade sísmica se estabilizou, a tal ponto que a estação sismológica foi desativada e os equipamentos levados para outras regiões.

Estudos sobre terremotos são recentes no Brasil

Como o território brasileiro não está sob as placas tectônicas, durante muito tempo se acreditou que as  ocorrências de terremotos no Brasil era algo improvável. Apesar de notícias esparsas de tremores de terra em períodos anteriores da história brasileira, somente no século 20 é que foram iniciados os estudos e um acompanhamento cientifico dos abalos sísmicos  no Brasil.

30-11-1986-4
E outros deixavam a cidade em vários ônibus.

Avanços nos conhecimentos da geofísica comprovam que os tremores podem ocorrer, também,  nas regiões denominadas “intraplacas”, como é o caso brasileiro, situado no interior da Placa Sul-Americana. Nessas regiões, os tremores são mais suaves, menos intensos e dificilmente atingem 4,5 graus de magnitude, apesar de algumas ocorrências no Brasil já terem, inclusive, ultrapassado a marca dos 5 graus na Escala de Richter .

Os abalos sísmicos registrados em território brasileiro são decorrentes da existência de falhas (pequenas rachaduras) causadas pelo desgaste da placa tectônica ou são reflexos de terremotos com epicentro em outros países da América Latina. Embora a atividade sísmica brasileira seja menos frequente e bem menos intensa que em outras partes do planeta, não deixa de ser significativa, nem deve ser desprezada ou simplesmente ignorada.

30-11-1986-3
Muita gente dormiu em barraca improvisadas.

No Brasil, os tremores de terra só começaram a ser detectados com precisão a partir de 1968, quando houve a instalação de uma rede mundial de sismologia. Brasília foi escolhida para sediar o arranjo sismográfico do continente latino-americano. Há, atualmente, 40 estações sismográficas em todo o país, sendo que o aparelho mais potente é o mantido pela Universidade de Brasília.

Há relatos de abalos sísmicos no Brasil desde o início do século 20. Segundo informações do “Mapa tectônico do Brasil”, criado pela Universidade Federal de Minas Gerais, existem 48 falhas geológicas no território brasileiro que concentram as ocorrências dos tremores de terra.

30-11-1986-6
Forte atuação da UFRN e UNB nas pesquisas sobre os abalos sísmicos em João Câmara e região.

Ainda segundo dados levantados a partir da análise de mapas topográficos e geológicos, as regiões que apresentam o maior número de falhas são o Sudeste e o Nordeste, seguidas pelo Norte e Centro-Oeste, e, por último, o Sul.

O Nordeste é a região que mais sofre com abalos sísmicos. O segundo ponto de maior índice de abalos sísmicos no Brasil é o Acre. No entanto, mesmo quem mora em outras regiões não deve se sentir imune a esse fenômeno natural. Embora grande parte dos sismos brasileiros seja de pequena magnitude (4,5 graus na Escala Richter), a história tem mostrado que, mesmo em “regiões tranquilas” podem acontecer grandes tremores de terra.

Apesar de não ser alarmante, o nível de sismicidade brasileira precisa ser considerado em determinados projetos de engenharia, como centrais nucleares, grandes barragens e outras construções de grande porte, principalmente nas construções situadas nas áreas de maior risco.

VEJA TAMBÉM – Os terremotos e o Rio Grande do Norte – https://tokdehistoria.com.br/2011/03/11/os-terremotos-e-o-rio-grande-do-norte/

Anúncios

EXEMPLO DE DESCASO COM O PATRIMÔNIO HISTÓRICO FERROVIÁRIO DO RN

Atual estado da antiga estação ferroviária de Pedro Avelino, Rio Grande do Norte - Foto - Rostand Medeiros
Atual estado da antiga estação ferroviária de Pedro Avelino, Rio Grande do Norte – Foto – Rostand Medeiros

Rostand Medeiros

Mês passado viajei para a Região Central do Rio Grande do Norte, por onde não circulava já fazia um tempo. Este setor do meu estado eu conheço desde década de 80 do século passado, quando para ali seguia com a intenção de prestigiar ótimas festas de vaquejada. Nestes caminhos, em busca do esporte dos vaqueiros nordestinos, muitas vezes passei pelo município de Pedro Avelino.

Quando transitava por esta localidade sertaneja sempre me chamou atenção sua antiga estação ferroviária, localizada as margens da estrada que segue para a cidade de Afonso Bezerra. Algumas vezes parei para comtemplar aquela estação simples, mas interessante na sua estrutura. Infelizmente nestas ocasiões não estava com uma antiga máquina fotográfica de rolo para registrar a beleza típica e simples daquele local.

Foto - Rostand Medeiros
Foto – Rostand Medeiros

Hoje Pedro Avelino é uma cidade com pouco mais de 7.000 habitantes, foi emancipada do município de Angicos pelo Decreto Estadual nº 146, em 23 de dezembro de 1948, na época do governador José Varela. Mas na segunda década do século passado o esta cidade se chamava Gaspar Lopes e assim permaneceu até o ano de  1921. Com a chegada da ferrovia seus habitantes decidiram alterar o nome da localidade para Epitácio Pessoa, em homenagem ao então Presidente da República, paraibano da cidade de Umbuzeiro, Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa. Ele foi o homem que liberou a verba para o ramal da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte – EFCRN, ligando a pequena localidade a outras regiões do Estado.

E não seria só a alteração do nome original do lugar que ocorreria em decorrência da chegada dos caminhos de ferro. Basicamente o desenvolvimento de Pedro Avelino se deve a passagem da ferrovia por seu território e a velha estação é o símbolo maior desta história.

Os Trilhos de Ouro

A Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte era conhecida como “trilhos de ouro”, pois grande parte da riqueza econômica potiguar era por ela transportada e a inauguração da estação de Epitácio Pessoa não foi um fato qualquer. Na edição do jornal natalense “A República”, do dia 10 de janeiro daquele ano, temos com grande destaque a informação que a estação começou a funcionar em um domingo, dia 8 de janeiro de 1922. Mas o evento começou ainda na Gare da EFCRN em Natal, às oito horas de uma manhã ensolarada, com a partida de um trem expresso especial em direção a nova estação. Na composição seguiram o então governador potiguar Antônio de Souza, o vice-governador Henrique Castriciano, o chefe de polícia Sebastião Fernandes, o desembargador Hemetério Fernandes, o juiz seccional Teotônio Freire, muitas outras autoridades e a banda de música do Batalhão de Segurança, que ao longo do trajeto foi tocando para animar os presentes. Tudo foi organizado por João Benevides, o diretor da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.

Inauguração

O trem especial seguiu por Pureza e Taipu, realizando uma parada as 10:45 na pequena povoação de Baixa Verde, atual município de João Câmara. Ali, na pousada de Getúlio Costa, ocorreu o almoço dos viajantes. Depois a comitiva saiu pelas poucas ruas do lugarejo, indo visitar a feira da cidade, que na época ocorria em um grande barracão.

Na sequência da viagem o trem passou por Jardim, atual Jardim de Angicos, onde embarcou o coronel Miguel Teixeira, sua esposa e filhos. Vale ressaltar que a mulher do coronel era Luiza Alzira Soriano Teixeira, que em 1928 seria eleita a primeira prefeita no Brasil, justamente na cidade de Lajes, onde o trem especial realizou a última parada antes do seu destino.

Estação ferroviária de Lajes - Fonte - http://lajesnewsrn.blogspot.com.br/
Estação ferroviária de Lajes – Fonte – http://lajesnewsrn.blogspot.com.br/

Na sequência do trajeto as amareladas páginas do jornal “A República” informam que, mesmo visto a distância, deslumbrou a todos a majestade e imponência do Pico do Cabugi, certamente o mais representativo acidente geográfico do Rio Grande do Norte.

Ao redor da nova estação de Epitácio Pessoa estava uma grande multidão. Veio gente montado em alimárias desde Angicos, Carapebas (atual Afonso Bezerra) e até de Macau. Ricos, pobres, fazendeiros, trabalhadores rurais, vaqueiros com seus tradicionais chapéus de couro e toda gente da região estava presente para ver a chegada da máquina de ferro.

Eram três e meia da tarde quando o trem chegou apitando ruidosamente. Girandolas com potentes fogos de artificio estouravam no céu, vivas foram erguidos aos visitantes que partiram da capital. Primeiro desceu a banda para tocar hinos, marchas e dobrados, depois a comitiva.

Postal antigo que mostra uma locomotiva alemã que foi importada para o Rio Grande do Norte e utilizada pela Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte - EFCRN a partir de 1915. Certamente esta antiga máquina passou pela estação de Epitácio Pessoal, atual Pedro Avelino
Postal antigo que mostra uma locomotiva alemã que foi importada para o Rio Grande do Norte e utilizada pela Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte – EFCRN a partir de 1915. Certamente esta antiga máquina passou pela estação de Epitácio Pessoal, atual Pedro Avelino

Na estação, pelos informes do velho jornal, durante a cerimônia ocorrida há 93 anos o que não faltou foram discursos e homenagens, principalmente para o então Presidente da Republica.

Pela comunidade falou Luiz Tassino de Menezes, enaltecendo a importância da chegada dos trilhos, do trem e da estação para a economia e desenvolvimento local. Fotos foram batidas pelo tenente João Galvão. Simbolicamente a chave da nova estação foi entregue ao encarregado do local, Antenor Brandão. Após os discursos a comitiva, acompanhados da banda de música e o povão, foram caminhando até a pequena urbe, que na época ficava a 300 metros de distância da estação (hoje a área urbana cerca o prédio semidestruído).

Eram cinco da tarde quando o trem partiu com a comitiva para Baixa Verde, onde todos pernoitaram. Só chegaram a Natal às nove da manhã da segunda feira.

O povoado de Epitácio Pessoa passou a presenciar um forte desenvolvimento, tanto na agricultura, quanto no comércio.  Com o crescimento, no ano de 1938, o lugarejo foi elevado a distrito e dez anos depois se desmembrou de Angicos. Pela terceira vez a localidade teve seu nome alterado, passando a chamar-se Pedro Avelino, numa homenagem prestada ao jornalista Pedro Celestino Costa Avelino.

Descaso

Infelizmente eu soube a poucos anos que a velha estação estava abandonada e se deteriorando. Mas em 2013 foi anunciada por parte do Governo Federal a liberação do prédio para a prefeitura de Pedro Avelino. Inclusive havia sido empenhado, desde o dia 25 de outubro de 2013, recursos da ordem de R$ 341.250,00, oriundos de uma emenda parlamentar do deputado federal Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), junto ao Ministério do Turismo, para transformar o velho prédio em um Centro de Cultural (Ver – http://www.aguasdemare.com.br/pedro-avelino-municipio-consegue-predio-da-estacao-ferroviaria-e-transformara-em-centro-de-cultura/ ).

Detalhe da antiga estação - Foto - Rostand Medeiros
Detalhe da antiga estação – Foto – Rostand Medeiros

Maravilha! Fantástico! Pois a recuperação das antigas estações ferroviárias potiguares é de fundamental importância para a ampliação da memória histórica das comunidades que se desenvolveram ao redor destes locais. Fruto da movimentação proporcionada pelo transporte de pessoas e mercadorias ao longo dos trilhos e por várias décadas.

Esperava que ao passar pelo local encontrasse a tradicional estação renovada no seu esplendor. Mas aí o que ocorreu foi uma triste surpresa!

A estação está em situação deplorável, uma chuva mais forte e ela pode vir ao chão! Uma parte do teto já veio abaixo, no entorno o mato vai crescendo, existe algum lixo doméstico e o descaso é nítido. Tudo contrasta com a beleza simples da edificação que já tinha visto anteriormente. Uma lástima!

Por uma questão de justiça posso comentar que a situação da antiga estação de Pedro Avelino não é exclusiva desta cidade. Mesmo com muitas localidades potiguares devendo sua criação, ou seu crescimento, as ferrovias, onde as suas antigas estações são importantes marcos de memória local, algumas só não desabaram por milagre. 

É bem verdade que em algumas cidades potiguares as suas antigas estações sofreram reformas e muitos destes locais passaram a ser utilizados como centros de cultura e memória pela população local. 

Foto - Rostand Medeiros
Foto – Rostand Medeiros

O que mais me assusta – e isso sim gostaria que servisse de reflexão por parte do poder público e da sociedade civil potiguar em geral – é o descaso com o nosso patrimônio histórico. Sei que o assunto não é novidade, que atualmente existem muitos outros problemas em terras potiguares, mas algumas situações de abandono clamam por mudanças. 

As nossas antigas estações das estradas de ferro eram locais de destaque em várias localidades. Diante do quadro atual, se nada acontecer, em breve muitas vão desaparecer. E com o fim destes locais, desaparece uma parte da memória e história de muitas comunidades norte riograndenses por onde passavam os trens.

Acredito que existe uma ideia disseminada entre muitos políticos de deixar o patrimônio histórico vir ao chão. Acredito que isso tem haver com a intenção de destruir a noção de cidadania dos seus eleitores. Com isso evitam a existência de cidadãos mais conscientes de suas origens e da história de suas comunidades.

Pessoas com este sentimento de orgulho cobram mais pelo bem estar do lugar onde vivem. Ao destruir a cidadania de seus eleitores, fica mais fácil para o político tocar seu “gado” para seu “curral eleitoral”.

Através do amigo Rivanildo Alexandrino, da cidade de Frutuoso Gomes, na Região Oeste Potiguar, trago a foto da estação local, inaugurada em 1941, recentemente reformada e que será utilizada como museu e biblioteca municipal. Frutuoso Gomes dá um exemplo extremamente positivo, que deveria ser seguido por outras localidades que possuem este tipo de patrimônio histórico. Toda e qualquer comunidade, por mais simples que seja, deve e merece preservar a sua história e memória, para que assim possa ter algum futuro.
Através do amigo Rivanildo Alexandrino, da cidade de Frutuoso Gomes, na Região Oeste Potiguar, trago a foto da estação local. Inaugurada em 1941, este local recentemente foi reformado e será utilizado como museu e biblioteca municipal. Frutuoso Gomes dá um exemplo extremamente positivo, que deveria ser seguido por outras localidades que possuem este tipo de patrimônio histórico. Toda e qualquer comunidade, por mais simples que seja, deve e merece preservar a sua história e memória, para que assim possa ter algum futuro.

NOTA  – Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

OS TERREMOTOS E O RIO GRANDE DO NORTE

Em relação aos terremotos, existem alguns estados do Brasil nas quais este tipo de notícia causa nas pessoas apreensão e um arrepio, daqueles que começam bem lá no “pé” da espinha cervical.

Entre estes estados, seguramente um deles é o Rio Grande do Norte.

Uma Velha Convivência com Terremotos

O maior terremoto já registrado no Brasil ocorreu na Serra do Tombador, no Mato Grosso, em 1955. Atingiu 6.6 pontos na escala Richter e foi sentido a 600 quilômetros de distância do epicentro. No caso do Rio Grande do Norte, pelo menos em termos de registro, o maior ocorreu em 1986, quando na região da antiga Baixa Verde, hoje município de João Câmara, a 80 quilômetros de Natal, foi sentido uma pancada de 5.3 pontos da escala Richter, que chegou até na Bahia, sendo considerado o terceiro maior terremoto da história do Brasil.

E o pior é que não faltam ocorrências deste fenômeno geológico na história potiguar.

Nas amareladas folhas de papel do “Almanaque Brasileiro Garnier”, de 1909, nas páginas 458 a 461, temos a informação que as oito da manhã de uma segunda feira, 8 de agosto de 1808, nos “Sertões do Assu”, ocorreram fortes tremores de terra que fizeram louças balançar nos armários dos casarões do sertão e pessoas cairam no chão desequilibradas.

Em 2 de dezembro de 1852, entre uma e duas horas da tarde, na cidade de Aracati, no vizinho Ceará, estado quede vez em quando “treme nas bases”, um abalo muito forte rachou as casa e foi fortemente sentido em Areia Branca, Mossoró e parte da região oeste potiguar.

Dois anos depois, no dia 10 de janeiro de 1854, uma terça feira, durante mais de um minuto o chão tremeu, derrubou telhas das casas e foi sentido principalmente na Vila de Touros, a beira-mar. Ainda bem que não vieram ondas fortes.

Segundo o pesquisador e escritor Elísio Augusto de Medeiros e Silva, em um artigo publicado no Jornal de Hoje, em 20 de janeiro, este abalo de terra não teve muita importância em Natal, visto ter tido maior intensidade em Touros, onde foi forte, aterrador, com diferença de poucos segundos para Natal. Informa o pesquisador que entre os antigos moradores de Touros, reza a tradição que o estrondo teria sido no Touro Grande, cabeça de pedra existente no mar. Em Natal, o estrondo foi mais sentido na Ribeira, Redinha e praias da região norte.

Recorremos novamente a Elísio para informar que em 1879, em meio a uma seca que devastava o Nordeste, a famosa seca de 1877 a 1879, houve um abalo, que em Natal chegou a derrubar algumas moradias no bairro da Ribeira, sem maiores consequências.

Abalos em Luís Gomes em 1928

Há poucos anos, creio que em 2007, muitas pessoas se espantaram em saber que na comunidade do Sítio Arara, a cerca de dez quilômetros da cidade de Luís Gomes, no oeste do Rio Grande do Norte, vários tremores de terra ocorreram ao longo de meses.

O espanto é que se imaginava que este fenômeno estava restrito a região de João Câmara, mas a história mostra que não.

Na sua página 3 do jornal potiguar “A Republica”, edição de 17 de abril de 1928, uma terça feira, informa nas suas notas policiais que o tenente Napoleão de Carvalho Agra, então delegado de Luís Gomes, comunicou que por volta das dez da noite, um forte abalo sísmico foi sentido na pequena cidade, que na época tinha em todo o município, segundo o Censo de 1920, 5.661 habitantes.

Agra informa não informa sobre nenhum estrago, nem a reação da população, que certamente deve ter passado por um susto muito grande.

Estive na área rural de Luís Gomes em 2009, na área do Sitio Arara, como parte de um trabalho realizado para o SEBRAE-RN. Ao conversar com as pessoas tive uma percepção que, diferentemente de João Câmara, não existe uma sensação de que este tipo de fenômeno possa se repetir. Para eles se trata de um caso extra, sem perspectivas de repetição.

Mas as páginas do velho jornal aparentemente mostram que não.

Segundo os geólogos, o Nordeste é a região do país que mais sente os abalos sísmicos. Em 1980, a região de Pacajus e Cascavel, no Ceará, sofreu um abalo que chegou a 5.2 de magnitude. Mas outros abalos já foram sentidos São Caetano e Caruaru, em Pernambuco, Cascavel e Jaguaribara, no Ceará, Tabuleiro Grande e Apodi, no Rio Grande do Norte.

João Câmara – 1986 – Eu Estive Lá

A cidade de João Câmara cresceu junto com os trilhos da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. Era um lugar inicialmente denominado “Matas”, mas seu desenvolvimento justificou que em 29 de outubro de 1928, fossem desmembradas terras dos municípios de Touros, Taipu e Lajes. Tudo sacramentado pela Lei nº 697, que oficialmente criou o município de Baixa Verde.

A Antiga Baixa Verde. Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Quem é da região tem alguma história sobre tremores de terras. É coisa comum e frequente, tanto que o pessoal de Natal inventou que João Câmara é a terra do “treme, treme”.

Segundo o site Wikepédia (que possui algumas informações que valem a pena), consta que os fenômenos de 1986, foi a sequência de abalos sísmicos mais bem documentadas no Brasil.

O primeiro abalo ocorreu em 21 de agosto, alcançou magnitude 4.3, e foi sentido em Natal, mas sem maiores repercussões. Em setembro ocorreram dois tremores, respectivamente 4.3 e 4.4 de magnitude na escala Richter e foram acompanhados por várias réplicas. Depois as coisas pareciam ter se acalmado.

Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Mas aí veio o maior abalo. Cravou 5.1 pontos na escala Richter, ocorreu oficialmente às cinco e dezenove da manhã, de 30 de novembro de 1986, de um domingo que prometia praia. Depois ocorreram outros tremores, todos na faixa de 4.0 ou superior.

Quem tem mais de 30 anos, vive neste estado e sentiu o tremor, nunca vai esquecer aquela noite. Pessoalmente me acordei com a minha irmã Carla Régia assustada, com as janelas da nossa antiga casa batendo. Nada caiu, mas depois foi engraçado ver toda a vizinhança da Rua Hemetério Fernandes, no Tirol, de pijamas, quase amanhecendo o dia, no meio da rua, esperando coisa pior e sentindo outros pequenos tremores. Em uma rodinha de amigos rolou até café e cachaça. Era para passar o frio e o sono. Ou seria para espantar o medo?

Em João Câmara, além dos danos materiais, houve o pavor e isto eu assisti.

No mesmo dia 30 de novembro fui a esta cidade para testemunhar os fatos.

Naquele domingo, após o almoço, peguei meu fusquinha cinza 1.300 e segui devagarinho a região.

Conforme chegávamos perto da cidade, dava para ver uma “carreata” de ônibus pertencentes a empresa “Expresso Cabral”, saindo da cidade lotados de gente. Mudanças eram feitas em carroças puxadas por jumentos, carros pequenos, camionetes ¾, caminhões 1113 e o que desse para carregar os “teréns”. Era uma verdadeira fuga em massa.

Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Contabilizaram duas dezenas de casas destruídas e mais de mil foram parcialmente danificadas. Faltaram em um primeiro momento luz, água e telefone, mas depois foi restabelecido. Como não existia celulares, a sensação de medo e desamparo era muito acentuada pela falta de comunicações. Vimos uma grande rachadura na igreja Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens e pessoas ajoelhadas rezando para que o templo sagrado não caísse.

Vimos várias casas rachadas, sem uma parede, as ruas desertas, tudo fechado e havia policiais ligadaços, circulando em “Rurais” pintadas de azul e branco. Um cenário que jamais vou esquecer. Pena não ter levado uma máquina fotográfica.

Fonte-http://joaocamararn.multiply.com/

Em pouco tempo os órgãos públicos, tanto a nível estadual quanto federal, se fizeram presentes e a coisa amenizou. Até Sarney, o presidente da República na época, pouso na cidade com um helicóptero Puma da FAB e foi visitar os estragos.

Não é o “Se”, Mas o “Quando”

O que ocorreu em João Câmara é um exemplo de que o Brasil não está imune aos terremotos.

A pior sensação de presenciar estes fenômenos da natureza é a total condição de impotência e o despreparo para saber o que fazer. Passado o susto vem a velha questão; quando virá o próximo?

Pode parecer exagero, mas é que as pessoas que vivem em terras potiguares não ficam paradas pensando nestas coisas (se não endoidam). Mas para quem mora por aqui, esta questão de haver terremotos é tão certa que o que importa não é o “se”, mas o “quando”. O problema, segundo especialistas, é que não há como prever quando vai acontecer um terremoto, nem mesmo qual será a magnitude do sismo.

Não podemos esquecer que em 2010 foram registrado dois tremores, um de magnitude 3.0 e outro dois dias depois, de 4.3, que atingiram quatro estados da região Nordeste.

Mas como Deus é brasileiro, certamente vai proteger estas terras para aproveitar suas praias.

© 2011 Copyright Tok de História Todos os direitos reservados