A TRISTE SITUAÇÃO DA CASA GRANDE DO ENGENHO GUAPORÉ – LUGAR DE MUITAS HISTÓRIAS

Uma Casa Que Marca a Paisagem e a História de Ceará-Mirim – O Médico e a Filha do Barão – A Energia do Seu Proprietário – A Razão do nome Guaporé – Nilo Pereira e o Casarão – Decadência e Recuperação – Nova Decadência – Ocupação dos Artistas – A Visita do GRUPO TOK DE HISTÓRIA a Esse Local 

Rostand Medeiros – IHGRN e GRUPO TOK DE HISTÓRIA

Quem segue em veículo pela rodovia RN-064, que liga as cidades potiguares de Touros a Ceará-Mirim, ao se aproximar dessa última e se descortina uma bela paisagem, com a cidade de Ceará-Mirim como destaque. Logo depois os ocupantes do carro começam a visualizar uma grande e interessante casa à esquerda. Já quem se encontra em alguns lugares na zona urbana de Ceará-Mirim também tem condições de visualizar essa mesma casa com seus dois pavimentos, uma porta principal, várias janelas e ausência de alpendre na parte frontal.

Casa grande do engenho Guaporé, Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte – Foto – Ricardo Morais.

Essa casa antiga, uma referência na paisagem de Ceará-Mirim, se encontra solitariamente em uma grande área aberta e quem se aproxima do lugar percebe, pela imponência da estrutura, que seus antigos proprietários eram ricos proprietários rurais. Principalmente para os que gostam de temas históricos, sem maiores problemas aquele velho casarão desperta, tal qual um imã, o desejo de ir lá, fazer fotos e conhecer mais sobre o local. Estamos falando da casa grande do engenho Guaporé, elemento típico de moradia do patriarcado rural de Ceará-Mirim, que surgiu na segunda metade do século XIX, com a ampliação da produção açucareira.

Foto – Ricardo Morais.

Recentemente, com os amigos Jerônimo Tinoco, German Zaunseder e Ricardo Morais, que juntos fazemos parte do GRUPO TOK DE HISTÓRIA, decidimos visitar esse interessante local.

Enérgico e Atuante

A casa grande do engenho Guaporé foi edificada em data incerta, mas as fontes de época que pesquisei apontam que seu dono foi Vicente Ignácio Pereira.

Nasceu em Natal no dia 3 de maio de 1833, sendo filho de Joaquim Ignácio Pereira e Ana Maria de Jesus. Vicente foi o segundo potiguar formado em Medicina, assumiu a vaga de deputado provincial, foi 1º Vice-presidente do Rio Grande do Norte e durante o período da calamitosa e tristemente famosa estiagem que arrasou o Nordeste entre 1877 até 1879, ocupou por curto período a governadoria estadual.

Vicente Ignácio Pereira (1833 – 1888), do livro Natureza e história do Rio Grande do Norte – Primeiro tomo (1501 – 1889), de João Alves de Melo, Imprensa Oficial, Natal-RN,1950, pág. 519.

Luís da Câmara Cascudo informou que por ter uma ação bastante enérgica e enfrentar os atrasados métodos administrativos da sua época, Vicente Ignácio arranjou muitas inimizades durante seu período de governo. Eu tive a oportunidade de ler sobre isso com mais detalhes nos jornais antigos, mas vejamos o que Cascudo escreveu:

Foto – Ricardo Morais.

Enfrentou o comodismo, a afilhadagem, o desperdício, demitindo inúteis cortando despesas, dispensando comissões, fiscalizando, direta e pessoalmente, todos os serviços. A rapidez de suas decisões estarrecia à lentidão do tempo. De pronto, multiplicou os recursos alimentares, enviando socorros para as regiões assoladas, exigindo a caridade produtiva, fazendo trabalhar a massa de retirantes em vez de fornecer víveres (Ver Uma História da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte – Fundação José Augusto, Natal-RN, 1972, págs. 441 e 444).

Essa característica enérgica do dono da casa grande do engenho Guaporé, talvez possa ser explicada por experiências anteriores durante a sua formação acadêmica e sua vivência fora do Rio Grande do Norte.

Ainda em 1855, quando ele tinha 22 anos e era estudante do 2º ano da Faculdade de Medicina da Bahia, seguiu para o sul daquele estado com o intuito de combater uma grande epidemia de cólera. Vicente Ignácio esteve junto com professores, colegas e o pessoal médico da Marinha, que na época também era conhecida como Armada Imperial.

Foto – Ricardo Morais.

Mesmo sem conseguir maiores detalhes desse trabalho, sabemos que esse grupo de atendimento esteve em comunidades localizadas entre os municípios baianos de Camamu, Ilhéus e Porto Seguro (Ver Falla Recitada na Abertura da Assembleia Legislativa da Bahia pelo Presidente da Província o Doutor Álvaro Tibério Moncorvo e Lima. Em 14 de Maio de 1856, pág. 125).   

Conforme podemos ver na nota acima, publicada no jornal carioca Correio da Tarde, de 28/12/1859, pág. 3, naquele mês Vicente Ignácio se formou em Medicina e logo no ano seguinte entrou para o então Corpo de Saúde do Exército Brasileiro, onde recebeu a patente de 2º tenente cirurgião.

Membros do antigo Corpo de Saúde do Exército.

No seu tempo como militar mereceu destaque a sua participação em uma comissão formada por militares da Marinha e do Exército do Brasil, com o objetivo de demarcar a fronteira com o Peru e que deveria contar com a participação de autoridades daquele país vizinho. Para a época, com suas condições limitadas em relação a transportes, higiene, saúde, conhecimento das áreas de levantamento, dos contatos com os indígenas e outros problemas, fazia com que a realização desse tipo de missão fosse classificada como de extremo risco. Vale frisar que nesse tempo o Estado do Acre não fazia parte do território brasileiro.

Conforme podemos ver na próxima nota, em 5 de outubro de 1861 foi publicado no jornal carioca Correio Mercantil, e Instructivo, Político e Universal (pág. 2) que a canhoneira Iguatemi partiu no dia 18 de setembro de Recife e navegou até Belém, capital do Pará, sob o comando do capitão tenente José Costa e Azevedo, o chefe da comissão. Após a chegada no Pará os militares deveriam seguir até a fronteira peruana.

Talvez para alguém que mora no Rio Grande do Norte e desconheça a região amazônica, pode parecer estranho que uma comissão de militares brasileiros para chegar na área da fronteira com o Peru, tenha que passar por Belém e seguir, ou “descer”, até a fronteira. Mas os Rios Amazonas e Madeira são totalmente navegáveis nesse trecho por centenas de quilômetros, alcançando o Rio Guaporé. Até hoje existe uma linha de navegação entre Belém e Porto Velho, capital de Rondônia, que leva de seis a oito dias de viagem (ver – https://www.rome2rio.com/pt/map/Rond%C3%B4nia/Bel%C3%A9m#r/Ferry )

Diário do Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1861, pág. 1.

O interessante da participação de Vicente Ignácio foi que, segundo as datas dos jornais, ele foi convocado para participar dessa comissão após a mesma ter chegado em Belém. Como ele estava no Rio de Janeiro, onde o porto era muito movimentado, é provável que tenha embarcado em algum veleiro ou vapor que seguiu para o norte e tenha chegado a Belém. Mas se assim fez, foi em vão, pois o certo é que no final de dezembro a comissão de limites com o Peru ficou paralisada por problemas com os peruanos. Finalmente, no dia 20 fevereiro de 1862, foi publicado no jornal carioca Correio Mercantil, e Instructivo, Político e Universal (pág. 2) que deveriam ficar na região apenas o comandante da comissão e um oficial de sua escolha. Aí não me restam dúvidas que o escolhido não foi Vicente Ignácio, pois ele foi transferido para o Rio Grande do Norte em maio de 1862.

Detalhe – A comissão de limites com o Peru só concluiu seus trabalhos em 1866, em meio a Guerra do Paraguai, que começaria em dezembro de 1864 e se prolongaria até março de 1870.

Correio da Tarde, Rio de Janeiro, 17 de maio de 1862, 1ª pág.

O Barão

Em 14 de fevereiro de 1863 Vicente Ignácio casou com Isabel Duarte Xavier Varela, filha de Manoel Varela do Nascimento, um rico proprietário rural da região de Boca da Mata, futura Ceará-Mirim, e senhor da casa grande do engenho São Francisco. Segundo Olavo Medeiros Filho, foi Isabel Duarte que trouxe para essa união metade das terras de um sítio denominado Ilha Bela, avaliado em vinte contos de réis (ver Os Barões de Ceará-Mirim e Mipibu, Fundação Guimarães Duque, Coleção O Mossoroense, Série C, Vol. 1410, Mossoró-RN, 2005, pág. 30).

Mas o presente do pai de Isabel foi logo trocado por uma propriedade denominada Bonito, que na sequência foi rebatizada como Guaporé, onde foi construída a casa grande que visitamos. Acredito que a denominação surgiu das marcantes lembranças fixadas na mente do seu novo dono, quando este percorreu a região amazônica, mesmo sem saber se o mesmo navegou por este grande rio, situação que considero improvável.

Manoel Varela do Nascimento, o Barão de Ceará-Mirim. O quadro do Barão e da Baronesa de Ceará-Mirim foram pintados em 1866 pelo pintor alemão Johann Brindsell, ou João Brindseil, como ele ficou conhecido durante o tempo em que esteve entre o Ceará e o Rio Grande do Norte.

No ano seguinte após seu casamento, Vicente Ignácio assumiu uma vaga de deputado provincial filiado ao Partido Liberal e deixou as fileiras do Exército. Acredito que essa situação evitou a sua ida para a Guerra do Paraguai.

Bernarda Varela Dantas, a Baronesa de Ceará-Mirim.

Onze anos depois do casamento com Isabel Duarte, o seu sogro Manoel Varela do Nascimento se tornou o primeiro potiguar a ser agraciado com um título nobiliárquico, com o título de Barão de Ceará-Mirim.

Talvez pela história do Barão ser extremamente marcante nessa região, sua figura é muito associada a casa grande do engenho Guaporé e pouco se comenta sobre Vicente Ignácio Pereira. Percebo que isso é algo tão forte, que em uma ocasião escutei de uma pessoa que desconhece a história à afirmação que esse homem poderia ser enquadrado como “um cidadão que casou com a filha do Barão e se deu bem na vida”. Mas essa afirmação está bem distante da verdade, além de ser algo leviano.

Foto – Ricardo Morais.

Sobre a casa grande do Guaporé, segundo todas as fontes que li, até agora não se sabe a data concreta da sua fundação, nem mesmo se foi edificada após o casamento de Vicente e Isabel e a troca de propriedades, ou poderia existir antes. Entretanto, a primeira notícia que consegui sobre o engenho Guaporé foi publicada inicialmente no Jornal de Recife e republicada no Rio de Janeiro, na segunda página de O Globo – Órgão dos Interesses do Commercio, da Lavoura e da Industria, de 31 de dezembro de 1876. Conforme podemos ler abaixo, essa nota comenta sobre a boa qualidade das terras em Ceará-Mirim e da produção do engenho Guaporé.

Entretanto, segundo Gilberto Osório de Andrade, no texto O ciclo da cana-de-açúcar no Rio Grande do Norte (Revista GeoInterações, Assú, v.4, n.1, p.62-66, jan/jun. 2020. ISSN 2526-3889) a progressão do ciclo de desenvolvimento da cana-de-açúcar no Rio Grande do Norte no final dom século XIX não foi constante. Segundo o autor o “efeito da concorrência do algodão e dos derradeiros esforços de reanimação da pecuária”, contribuíram para isso. Andrade aponta que entre 1894 e 1910, o município de Ceará Mirim figurou em quinto lugar no quadro geral da receita dos municípios potiguares, mesmo assim o chamado Vale do Ceará-Mirim fabricava 60% do açúcar de todo o Rio Grande do Norte.

Festas e Mortes

Essa casa grande, que tanto chama atenção e se destaca na paisagem de Ceará-Mirim a mais de um século e meio, também ficou famosa por suas festas e a qualidade da sua decoração.

O escritor e jornalista ceará-mirinense Nilo de Oliveira Pereira, neto de Vicente Ignácio, nasceu em 11 de dezembro de 1909 no engenho Verde Nasce, mas informou que passou parte de sua infância no velho casarão do engenho Guaporé. Tanto assim que no jornal natalense A República, edição de 8 de novembro de 1939 (págs. 3 e 4), Nilo publicou um interessante texto intitulado “Guaporé”, que depois foi transcrito para seu livro Imagens do Ceará-Mirim (Natal: Imprensa Universitária, 1969). Nesse trabalho o autor traz informações sobre uma recepção que ocorreu naquela casa ao então Bispo de Olinda Dom José Pereira da Silva Barros, ocorrida em agosto de 1882. Esse evento foi detalhado por Luiz Carlos Lins Wanderley em um livreto lançado em 1887.

Décadas depois Nilo Pereira escreveu no jornal natalense O Poti (ed. 31/03/1974, pág. 11) as seguintes lembranças sobre a velha casa do Guaporé – Ainda encontrei a casa com seus vestígios de mansão patriarcal, no melhor sentido da aristocracia canavieira, em que o seu passado esplende como uma página magnífica da própria história da Província. Meu avô paterno, Vicente Inácio Pereira, fez do Guaporé um exemplar do estilo afrancesado que tanto encantou.

Mas também nesse lugar de festas e luxo, vidas findaram sua existência no plano terreno.

O proprietário Vicente Inácio e Isabel tiveram cinco filhos, três garotos (Vicente, Fausto e Olímpio) e duas meninas (Isabel e Maria Cristina). Infelizmente no dia 5 de novembro de 1878, as 5 da manhã, o casal pranteou na casa grande do engenho Guaporé a morte de Maria Cristina, de 13 anos de idade (Correio de Natal, 16/11/1878, pág. 1). Vicente Inácio também ali faleceu aos 55 anos, no dia 22 de novembro de 1888. Já em 5 de junho de 1931, aos 82 anos, Isabel Duarte partiu. Segundo André Felipe Pignataro, Presidente da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes – ACLA, essas duas mortes causaram uma enorme comoção em toda Ceará-Mirim.

Decadência e Recuperação

Já antes do falecimento de Isabel Duarte, o engenho Guaporé estava em decadência no sentido de produção açucareira e sua casa grande seguia no mesmo rumo. Nilo Pereira, em seu texto de A República de 1939, comentou sobre o estado de abandono em que a casa grande se encontrava naquela época.

Foto antiga da casa grande do engenho São Francisco.

Quando Nilo Pereira revisitou a casa grande do Guaporé, é provável que aquelas terras já fizessem parte do inventário da Usina São Francisco, que passou a atuar com mais força na década de 1940, sua direção comprou velhos engenhos na região e cuja sede funcionava na antiga casa do Barão de Ceará-Mirim. A Usina São Francisco era um dos maiores complexos industriais existentes no Rio Grande do Norte daquele tempo e uma evolução na produção açucareira no Vale do Ceará-Mirim.

Foto – Ricardo Morais.

Aparentemente durante esse período a casa grande do Guaporé ficou subutilizada, ou simplesmente abandonada. Mas na década de 1970, segundo uma notícia publicada no Diário de Natal (ed. 09/01/1975, pág. 5), a direção da Usina São Francisco doou a velha residência ao Governo do Estado do Rio Grande do Norte. O ato foi realizado por Geraldo José de Melo, então diretor geral da Usina São Francisco e, segundo a nota, tinha “o objetivo de ser recuperada e transformada num ponto de atração turística na região”. 

Três anos depois foi informado que a Fundação José Augusto teria um aporte de 18 milhões de cruzeiros para investir na preservação do patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Norte e desse dinheiro 3 milhões e 200 mil seriam destinados a restauração da casa grande do Guaporé (Diário de Natal, ed. 27/04/1978, pág. 8).

Foto – Ricardo Morais.

A obra foi inaugurada em março de 1979 pelo então governador Tarcísio de Vasconcelos Maia, poucos antes de entregar o executivo potiguar ao seu primo Lavoisier Maia Sobrinho. Nilo Pereira comentou que José Ferrão Castelo Branco, então técnico do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, foi a pessoa que mais batalhou por essa reforma.

Quatro anos depois aconteceu no Guaporé uma interessante solenidade. Em agosto de 1983, quando o município de Ceará-Mirim completou 125 anos de emancipação política, foi realizada uma festa na velha casa grande do engenho Guaporé. Sabemos que o então prefeito Roberto Varela esteve presente, bem como Nilo Pereira, que relembrou a história da casa, de sua família e o pianista Orione de Almeida tocou sua partitura intitulada “Velho Solar” (Diário de Natal, ed. 09/08/1983, pág. 2)

Foto de 1984 do interior da casa do Guaporé. Foto de Sebastião Lucena, inserido no livro “Viagem-memória de Nilo Pereira: do Ceará Mirim ao Recife e do Recife ao Ceará-Mirim”, de Helicarla Nyely Batista de Morais, EDURF, 2011.

Sabemos que ainda na década de 1980 foi criado no velho casarão um museu, que inicialmente recebeu a denominação de “Museu do Açúcar”, sendo inaugurado com a presença de Nilo Pereira. Em 16 de dezembro de 1988, o casarão do Guaporé foi tombado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte, através de um pedido do Conselho Estadual de Cultura. Na sequência, não sei se antes ou após o falecimento de Nilo Pereira, ocorrido em 23 de janeiro de 1992, o museu foi denominado com o nome desse jornalista e escritor. O autor dessas linhas visitou esse local na juventude e realmente era bastante interessante e funcionou até o ano de 2001.

Nova Decadência

Com o tempo, mesmo oficialmente tombado, a casa grande do Guaporé foi abandonada. O mato começou a crescer ao seu redor, portas e janelas foram roubadas e o casarão começou a se deteriorar pelo abandono e descaso do poder público.

O professor Jeronymo Tinoco, tradutor e intérprete do GRUPO TOK DE HISTÓRIA, no salão principal da casa grande do Guaporé – Foto – Ricardo Morais.

No carnaval de 2017 o artista plástico natalense Fabio di Ojuara, junto com outros artistas locais, que se autodenominaram “Guerreiros do Guaporé”, realizaram uma ocupação artística no antigo casarão para chamar atenção para seu estado de abandono. O nosso grupo realizou uma limpeza do local e desenvolveu nas suas paredes interessantes pinturas artísticas (ver – http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/artistas-ocupam-casara-o-guapora/376244). Apesar da bela iniciativa e atuação de Fabio di Ojuara e de outros artistas, aparentemente as autoridades não se sensibilizaram e nada de concreto aconteceu para mudar a situação do casarão do Guaporé.

German Zaunseder e Jeronymo Tinoco, do GRUPO TOK HISTÓRIA – Foto – Ricardo Morais.

Quando os membros do GRUPO TOK DE HISTÓRIA chegaram a esse antigo local, tão importante para a identidade de Ceará-Mirim, foi um grande impacto o estado em que o casarão atualmente se encontra. Ele está aberto, extremamente sujo, muito mato ao redor, com janelas e portas faltando e até as telhas estão sendo retiradas. Adentramos apenas no salão inicial, percebemos o estado deplorável no seu interior e ficamos fotografando a área.

Percebemos em nossa visita que se algo REALMENTE não for feito, cada vez a recuperação daquele interessante local se tornara muito mais difícil.

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Agradecimento – A André Felipe Pignataro, Presidente da Academia Ceará-mirinense de Letras e Artes – ACLA, pelos apontamentos históricos em relação ao Barão de Ceará-Mirim. Ao Professor Jeronymo Tinoco pela revisão do texto. Meu muito obrigado!

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O GRUPO TOK DE HISTÓRIA é formado por pessoas interessadas em conhecer, pesquisar e democratizar as informações históricas, de forma independente e séria. Para isso, o GRUPO TOK DE HISTÓRIA surge como um projeto sob a personalidade jurídica da SEPARN, que, além das linhas próprias de pesquisa, para aprofundar e democratizar a nossa história, oferece consultorias em levantamentos históricos e genealógicos, incluindo biografias.  Para nos conhecer melhor, siga-nos no instagram tokdedistoria e no blog https://tokdehistoria.com.br/



FOTOS DE RICARDO MORAIS, APRESENTANDO OUTROS LOCAIS LIGADOS A HISTÓRIA DA PRODUÇÃO CANAVIEIRA EM CEARÁ-MIRIM.

A CAVERNA DOS CROTES – UM INTERESSANTE E BELO PATRIMÔNIO NATURAL POTIGUAR

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Entrada da Caverna dos Crotes, Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Solon Rodrigues Almeida Netto

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN 

Sólon Rodrigues Almeida Netto – Bacharel em Direito e Servidor Federal

Talvez muitos potiguares não saibam, mas no seu pequeno território existe interessantes cavernas e grutas de diversas características, feições e tamanhos, onde geólogos apontam que a heterogeneidade da estrutura geológica do Rio Grande do Norte propicia a formação de diferentes áreas para a existência de cavidades naturais.

Na porção sul do estado existe o Embasamento Cristalino e ao norte a principal formação geológica é denominada Bacia Potiguar, formada durante o período Cretáceo e Pré-cambriano. E é na Bacia Potiguar, uma peculiar área geológica, onde vamos encontrar a maior quantidade de cavernas, normalmente localizadas em áreas onde se encontram grandes extensões de lajedo de pedra calcária que afloraram.

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Mapa geológico simplificado da Bacia Potiguar (RN) – Fonte – https://www.researchgate.net/figure/235928283_fig1_Figura-1-Mapa-geologico-simplificado-da-Bacia-Potiguar-RN-com-localizacao-da-area

Alguns estudiosos descrevem a área da Bacia Potiguar como tendo uma extensão de 60.000 km² e a porção emersa possui uma área de exposição de 24.500 km², estando localizada na região norte do estado do Rio Grande do Norte e parte da região nordeste do estado do Ceará.

A origem da bacia tem sido alvo de vários estudos e diversos modelos têm sido propostos para explicá-la. Sua estratigrafia é composta por várias formações geológicas, sendo em sua maioria batizadas com nomes de municípios potiguares, tais como a Formação Pendências, Açu, Jandaíra, Guamaré, Macau e Tibau.

A Bacia Potiguar possui nos municípios de Jandaíra, Governador Dix-Sept-Rosado e Felipe Guerra os maiores afloramentos de calcário, os populares lajedos, sendo em Felipe Guerra o município com maior concentração proporcional de cavernas.

Pesquisas Sobre As Cavernas Potiguares

O conhecimento do patrimônio espeleológico e o desenvolvimento da espeleologia no estado do Rio Grande do Norte apenas começaram a ser conhecidos de forma mais sistemática a partir de 1997, com citações e o início dos levantamentos topográficos realizados pelo saudoso CERN – Clube de Espeleologia do Rio Grande do Norte. Esta entidade foi criada por vários ambientalistas potiguares e oriundos de outros estados, tendo a frente os geólogos paulistas Geraldo Gusso e Eduardo Bagnoli, ambos falecidos. Entre 1988 a 1995, foram mapeadas 18 cavernas e descobertas mais 26, as quais foram incluídas no Cadastro Nacional de Cavernas – CNC, da Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE.

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Foto – Rostand Medeiros

Na sequência do CERN surgiu a SEPARN – Sociedade para Pesquisas e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte cujo trabalho desenvolvido proporcionou um largo conhecimento deste patrimônio. Em apenas dois anos, através dos dados obtidos a partir da Cooperação Técnica firmada entre a SEPARN e a Superintendência Estadual do Rio Grande do Norte do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA (Termo de Cooperação Técnica nº 001/2000), muito mais foi descoberto.

Segundo o CNC, 98% das cavernas do Rio Grande do Norte estão relacionadas às falhas e fraturas existentes no calcário da Bacia Potiguar e apenas 2% destas cavidades naturais se encontram em rochas graníticas.

Seus comprimentos médios variam entre 30 e 500 metros com desníveis entre dois e 30 metros, reduzido desenvolvimento subterrâneo, estando com uma média de 90 a 120 metros linear de área de desenvolvimento por caverna.

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Caverna da Carrapateira, Felipe Guerra, Rio Grande do Norte – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto

Em torno de 46% destas cavidades se encontram colônias de morcegos, sendo muitas destas colônias formadas por morcegos hematófagos e pouco estudadas. Embora o estado do Rio Grande do Norte não apresente até o momento um destaque significativo no cenário espeleológico brasileiro, temos que evidenciar a importância das cavernas aqui existentes por seu conteúdo histórico, cultural, científico e turístico.

Cerca de 80% das cavernas do estado possuem ornamentações (espeleotemas), sendo alguns de rara beleza e outros de extrema importância para pesquisas em determinadas áreas científicas e a maioria das cavernas potiguares encontram-se em razoável estado de conservação, bem como o seu entorno.

Felipe Guerra, a “Meca” das Cavernas  Potiguares

Como comentamos anteriormente o município potiguar onde existem mais cavidades naturais em termos proporcionais é Felipe Guerra.

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Parte mais antiga da cidade de Felipe Guerra, conhecida como “Cidade Baixa” – Foto – Rostand Medeiros.

Localizada na região do Brejo do Apodi, a 330 quilômetros da capital potiguar Felipe Guerra é pacata cidade, um lugar muito agradável, de pessoas trabalhadoras, tranquilas, extremamente acolhedoras e um grande número de cavidades naturais.

A incidência de cavernas no município ocorre a seis quilômetros da sede deste e município, em um grande afloramento de calcário que possui vários quilômetros quadrados de rocha exposta, sendo certamente o maior local deste tipo existente no Rio Grande do Norte. Este local é conhecido como Lajedo do Rosário.

Esta área constitui o mais importante sítio de cavernas já identificado no estado. Os dados coletados pela SEPARN na década de 2000 apontavam cinquenta e cinco cavidades identificadas[1]. Hoje sabemos que já foram descobertas mais de 80 cavernas e grutas no município.

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Lajedo do Rosário – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

As cavidades naturais desta área são estruturas de pequeno a médio porte de desenvolvimento em rocha calcária, apresentando desenvolvimento linear médio em torno dos 100 metros. Há, porém, cavidades que fogem a tal padrão e aproximam-se dos 400 metros ou mais.

A profundidade média das cavernas também é pouco expressiva, ficando em torno de oito a dez metros. Deve-se isso às características do calcário Jandaíra, que estratigraficamente não é muito profundo, sendo os estratos praticamente horizontais, o que não favorece a formação de cavidades com marcante desenvolvimento vertical.

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Outro aspecto do Lajedo do Rosário – Foto – Rostand Medeiros.

As cavernas e grutas do Lajedo do Rosário representam um rico patrimônio natural, especialmente quando se considera a diversidade dos ambientes e a rica (e ainda pouco estudada), biologia ali presente.

Superficialmente, por não possibilitar fácil acesso e locomoção por possuir inúmeras fendas e ravinas, a capa rochosa do Lajedo do Rosário ostenta, ainda, inúmeros lapiás[2], criando uma paisagem incomum, que favorece, essencialmente, a sobrevivência de espécies ameaçadas da caatinga brasileira, tanto da fauna, quanto da flora.

Lá crescem árvores de grande porte, destacando-se o angico (Piptadenia macrocarpa), a aroeira (Astronium urundeuva Engl.), a craibeira (Tabebuia sp.), a faveleira (Cnidoscolus phyllacanthus), macambira (Bromelia laciniosa Mart.), a oiticica (Licania rigida), o pereiro (Aspidosperma pyrifolium) e o mulgungu (Erythrina velutina), dentre tantos outros.

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Foto – Rostand Medeiros.

Pela sua morfologia, o Lajedo do Rosário tende a apresentar ilhas de vegetação – nos locais onde a rocha cede espaço à existência de solo – setores que passam a abrigar rica fauna e flora, onde muitas vezes as espécies encontram refúgio contra a caça ilegal e a exploração sem controle, muito devido ao acesso extremamente difícil.

Importância do Lajedo do Rosário

As belezas naturais presentes nas cavernas do Lajedo do Rosário destacam-se de diversas formas e chamam a atenção do visitante as estalactites e estalagmites, que formam corpos cristalinos de rara beleza. Por esse motivo, justifica-se que o bem natural ali encontrado seja protegido, incluindo-se os existentes em sua sub-superfície.

Pelo aspecto da hidrologia, o Rosário representa um importante ponto de recarga da bacia hidrográfica do Rio Apodi, posto que a drenagem criptorréica funciona como uma grande calha que transporta a precipitação pluvial da região ao grande rio[3], alimentando fontes naturais que servem à população de vários modos.

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A importância dos aspectos ligados a hidrologia do Lajedo do Rosário, se refletem na existência de um verdadeiro oásis em pleno sertão nordestino – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto.

Entre estes se encontram os agroprodutores locais, que possuem extensas plantações de arroz em terrenos que permanecem a maior parte do ano com boa quantidade de água pela forma como o Lajedo do Rosário contribui  a recarga do lençol freático, promovendo a circulação e manutenção de todo o sistema hídrico daquela região, mesmo nos períodos de maior estiagem, quando grande parte das terras adjacentes se tornam imprestáveis à agricultura tradicional.

Entre as muitas cavidades naturais ali existentes, mais precisamente na extremidade sudeste do Lajedo do Rosário, se destaca de sobremaneira a Caverna dos Crotes.

Uma Bela Caverna

Facilmente se atinge a entrada desta cavidade contornando o Lajedo subindo pela picada quase fechada que sai da estrada na casa do Sr. Elias Cardoso Souza.

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Aspecto interno da Caverna dos Crotes – Foto – Alex Gomes.

A cavidade apresenta inúmeras clarabóias que conectam seus condutos com o ambiente exterior. Da principal delas, surge a copa de uma grande e aparentemente muito antiga árvore do tipo oiticica (Licania rígida), da qual comentaremos melhor adiante.

As claraboias podem ser utilizadas como entradas auxiliares, desde que através do uso do equipamento de rapel. Existem apenas duas entradas acessíveis diretamente, sem o uso de cordas, onde ambas estão associados a um desabamento de blocos calcários, ocasionado na junção de duas sequências de falhas da superfície do afloramento onde se situa a cavidade, sendo a mais utilizada a que fica do lado leste.

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Conduto da Cachoeira do laguinho da Caverna dos Crotes – Foto – Sólon Rodrigues Almeida Netto

Essa entrada principal possui uma característica exterior muito marcante e singular, pois está cercada por uma vegetação que na região é conhecida popularmente como crotes, ou cróton, que com suas folhas pontiagudas e de um verde escuro lustroso, pertencente à família das euforbiáceas, sendo plantas típicas de regiões quentes, com mais de mil espécies catalogadas, muitas das quais úteis ao homem, tendo muita utilização em jardins e projetos paisagísticos. Em todo patrimônio espeleológico do Rio Grande do Norte, a profusão deste vegetal, só aparece nesta condição somente nessa caverna.

Desenvolvimento interior é retilíneo com uma área total de 262,50 metros e desnível de 25 metros, sendo uma das maiores cavernas listadas neste município.

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Detalhe de espeleotema da Caverna dos Crotes – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Os espeleotemas da Caverna dos Crotes são muito diversificados. O fluxo d’água escorre por eles nessa caverna, existindo ocasionalmente na forma de respingos pelas fraturas do calcário. Geram-se enormes estalactites e estalagmites, além de espeleotemas do tipo couve-flor, cortinas e especialmente pérolas de caverna em quantidade considerável à região. Essas peças oólitas estão em maior número em poças de acúmulo pluviométrico, que são abastecidas por lençóis existentes no calcário do Lajedo do Rosário. Esse mesmo fluxo natural que alimenta a caverna é sugerido também pela presença de plantas, os crotes, que não são xerófilas. Aparentemente o fluxo de água demora muito tempo para se extinguir, pois durante a realização de trabalhos espeleológicas anteriormente desenvolvidos nesta cavidade, ocorridas em períodos de forte estiagem, ainda foram encontradas gotejamentos dentro da Caverna dos Crotes.

Características Singulares e Interessantes  

Os salões normalmente ocorrem nos desenvolvimentos dos próprios condutos, confundindo-se com estes. A caverna toda esta associada a uma grande falha geológica que molda seu eixo central. Nessa linha, há inúmeras clarabóias que iluminam cerca de 70% da caverna, fazendo seu ambiente interior muito aprazível ao ser humano.

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Iluminação das claraboias da cavidade – Foto – Rostand Medeiros

No conduto principal, descem do teto raízes da mesma vegetação que há nas entradas, formando verdadeiras “cortinas” de raízes. Igualmente algumas árvores do tipo oiticicas surgem do interior da caverna e transpassam suas clarabóias. A maior delas, cujo tronco ultrapassa facilmente a circunferência de três metros, sua copa serve de referência para a localização da cavidade em meio o grande lajedo calcário. Está localizado no local batizado como Salão da Oiticica das Abelhas.

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Exemplar da limitada fauna da Caverna dos Crotes. Este é o amblipígio, um aracnídeo que faz parte da mesma classe das aranhas, escorpiões e carrapatos. Seus olhos pequenos, pernas finas e corpo bulboso proporcionam uma aparência um tanto quanto asquerosa, mas ela é totalmente inofensiva e no Brasil, existem aproximadamente 13 espécies catalogadas – Foto Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Nesses locais há poucos espeleotemas, mas intensa beleza visual e muita vida, especialmente aves que nidificam na vegetação que há associada às clarabóias.

A seqüência de corredores leva por salões e espaços bem amplos.  São habitados por rica fauna, desde insetos, rasga-mortalhas, outros pássaros não identificados, alguns morcegos, diversos insetos e aracnídeos.

O fato de tamanha diversidade deve-se a inúmeros trechos da caverna ter penetração de luz natural por fendas. Há também muitas plantas da mesma espécie dos crotes da entrada. As raízes descem por qualquer fratura, vindo atingir o fértil e úmido chão da caverna, em vários locais com espessa camada de resíduos sedimentares e material orgânico.

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A grande e velha oiticica da Caverna dos Crotes – Foto – Rostand Medeiros.

Outra característica interessante são as muitas ossadas de animais pequenos e médios. Algumas ainda estão inteiras. Em sua maioria de mamíferos como roedores, morcegos, além de cabras que ficam presas na caverna. Diferentemente das demais cavernas exploradas, por essa ter um constante fluxo d´água em inúmeros trechos, apresenta elevado grau de re-calcificação e sedimentação desse material, mostrando estruturas totalmente recobertas por calcário liso e perolado, quando na água, ou mesmo poroso, nos níveis mais secos.

Sugere-se a presença de fósseis mais antigos, pois todas as estruturas orgânicas presentes estão em processo de fossilização acelerado, pelas condições locais bastante propícias.

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Foto – Rostand Medeiros.

Não há nenhum tipo de pichação. As visitas realizadas pelas pessoas que moram na região parecem se resumir ao interesse pelo mel, nas poucas colméias ali existentes. O pouco lixo que se acumula é decorrente dessa atividade. Mas não é significativo.

Existe um potencial turístico, principalmente pelas formas sugeridas pelas plantas e o ambiente diferenciado que elas criam. Locais contam, inclusive, histórias de pessoas que se utilizavam daquele abrigo natural para confecção de artefatos e instrumentos de madeira, como carros de boi. Histórias impossíveis, analisada a topografia e o acesso à caverna.

Nos outros domínios a caverna existe um pequeno lago criado pelo acúmulo que se apresenta com água na maior parte do ano, localizado em um nível superior da caverna. O outro pode ser tomado a partir do poço que há no final do conduto central da cavidade. O fosso, de cerca de oito a dez metros de profundidade desenvolve um curto conduto com teto-baixo, mas muito ornamentado por espeleotemas.

Sobre vários aspectos a Caverna dos Crotes, com suas singulares e interessantes características, deve primeiramente ser preservada e, guardada as normas ideias e legais de uso, destinada ao turismo.

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Os autores deste artigo – Sólon Rodrigues Almeida Netto (macacão vermelho) e Rostand Medeiros – Foto – Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.


NOTAS

[1] Dados obtidos a partir da Cooperação Técnica SEPARN-IBAMA, ref. Termo de Cooperação Técnica nº 001/2000 – Superintendência Estadual do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis – IBAMA – Rio Grande do Norte.

[2] Formações residuais típicas dos ambientes cársticos, originadas da dissolução da rocha carbonática pela água atmosférica, criando feições pontiagudas nas rochas aflorantes.

[3] Em ambientes cársticos verifica-se o que se chama de drenagem criptorréica, quando os fluxos d’água não correm em superfície, mas em sub-superfície, pelas condições de solubilidade da rocha, fenômeno que, inclusive, é diretamente responsável pelo surgimento das cavernas e cria uma íntima relação entre as cavidades naturais subterrâneas e a circulação d’água nos rios e lagos.

CAVERNA DA CARIDADE, CAICÓ, SERTÃO DO SERIDÓ, RIO GRANDE DO NORTE – ANTIGO ESCONDERIJO DE CANGACEIROS

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CONHEÇA AQUI A HISTÓRIA DESTA INTERESSANTE CAVERNA SERIDOENSE E ASSISTA UM VÍDEO SOBRE O LOCAL

Autor – Rostand Medeiros – Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Já tínhamos ouvido vários comentários sobre a Gruta ou Caverna da Caridade, em Caicó, mas nunca tinha tido oportunidade de visitar este local. Ela esta localizada nas proximidades da Fazenda Caridade, na Serra da Cruz, já próximo a área territorial do município de Jucurutu. É uma caverna com água constante, em pleno sertão, muito interessante e difícil no seu deslocamento interno.

Salão principal da Caverna da Caridade, onde provavelmente se esconderam os cangaceiros de Antônio Silvino em 1901

Antigo local onde viveram os primeiros habitantes do sertão, possui muitas histórias e pode ter sido esconderijo de membros do grupo do cangaceiro Antônio Silvino, que esteve na região em 1901, após o famoso “Fogo da Pedreira”.

Os índios e a ocupação dos europeus

Os antigos que deixaram registros na Caverna da Caridade, formaram os grupos indígenas que durante séculos viveram da caça e da coleta no sertão potiguar.

Dentre tais, os membros da nação Tarairiús habitaram a região, fazendo parte as tribos dos Paiacus, os Jenipapos, Canindés, Pegas, Sucurus e outros. É provável que membros desses grupos tenham se utilizado da cavidade, em algum momento, principalmente pela fonte de água.

Registros rupestres na área externa da Caverna da Caridade

Entretanto, sem uma exploração arqueológica no sítio, é impossível firmar certezas.

Quase duzentos anos após o descobrimento, os primeiros habitantes brancos chegaram à região das ribeiras dos rios Seridó e Piranhas. Durante a ocupação, os colonizadores encontraram as aguerridas tribos indígenas da nação Tarairiús. O Seridó vivenciou, então, a terrível e pouco conhecida Guerra dos Bárbaros, o conflito provocado pela ocupação europeia e a resistência indígena no Nordeste do Brasil.

Casa da Fazenda Caridade. Típica da região

Mas essa oposição, ainda que heroica, mostrou-se infrutífera diante da enorme superioridade militar do colonizador, como também as dificuldade dos indígenas de se unirem contra o inimigo comum. Nos raros momentos de união contra os brancos, os silvícolas criaram as chamadas “Confederações”, dispensando aos conquistadores muito trabalho para dominá-los.

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Interior da gruta – Crédito – Solon Almeida Netto.

Com o fim da guerra, o Seridó passou a ser sistematicamente ocupado pelos portugueses, que rapidamente se misturaram com as índias da região e trouxeram seus gados.

A Serra da Cruz, onde está a caverna, passou a receber colonizadores entre a segunda metade do séc. XVII e o início do séc. XVIII, sendo construídas fazendas para criação bovina. As casas principais eram sempre edificadas próximas a água, em terrenos elevados, sobre plataformas, com paredes apresentando pé-direito alto, utilizando-se pedra e adobe na sua construção, bem como a técnica da “taipa de sopapo”. As cumeeiras mostravam-se altas para amenizar o calor, sendo, normalmente, em “duas águas”.

Serra da Cruz, onde se localiza a caverna

Isoladas e com dificuldades de abastecimento e comunicação, as casas possuíam grossas paredes para defesa. Imprescindível, ainda, era o alpendre, para receber os raros visitantes.

As residências rurais remanescentes do período, mesmo estando muitas em deplorável estado de preservação, pressupõem imponência e força. As propriedades mais antigas construídas no entorno da cavidade natural foram a própria Fazenda Caridade, a Inês dos Ferreiras (ou Inês Velha) e, mais ao sul, a imponente Fazenda Dominga.

A “Caverna Esconderijo” de Nobres e Cangaceiros

Na região da Caridade o passado e o presente parecem confundir-se, sendo comum encontrar pessoas que narram a  principal marca das antigas gerações; as suas histórias.

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Segundo o senhor Nelson Soares de Medeiros, o “Nelson Carneirinho”, os mais antigos comentavam que a fazenda foi construída nesse local por estar próxima a um sítio fértil, além de existir água na Caverna da Caridade, explicando-se o nome da propriedade e da cavidade natural. Para ele “É uma caridade que um lugar como aquele nunca deixou de ter água”. Os relatos dos habitantes corroboram que, mesmo nas piores secas, a fonte da Caridade jamais deixou de verter.

Há uma notícia sobre a Caverna da Caridade no livro “Acari – Fundação, História, Desenvolvimento” de Jayme da Nóbrega Santa Rosa, de 1974. O autor comenta, mesmo sem citar fontes, nem fornecer maiores detalhes, que, durante a passagem pela região dos revoltosos pernambucanos da Confederação do Equador, no ano de 1824, tendo como um dos seus comandantes o Frei Caneca do Amor Divino, o lugar teria servido de esconderijo para o padre caicoense Francisco de Brito Guerra e o poderoso fazendeiro acariense Tomás de Araújo Pereira.

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As marcas da água na Caridade – Crédito — Alex Gomes

O Padre Brito Guerra foi o primeiro senador do Rio Grande do Norte e Tomás de Araújo, após a proclamação da independência em 1822, foi o primeiro governador da província potiguar.

O autor do livro informa que conheceu a caverna na década de 1920, junto com seu pai e um guia da região, fornecendo interessantes detalhes do interior e fazendo uma razoável descrição do local.

Notícia original do “Fogo da Pedreira”, fevereiro de 1901

Já em relação a utilização desta cavidade natural como esconderijo de cangaceiros, Seu Nelson comenta que o caso se deu após o famoso combate ocorrido entre o grupo de cangaceiros de Antônio Silvino e polícia paraibana, na Fazenda Pedreira, do coronel Janúncio Salustiano, no dia 15 de fevereiro de 1901 (Sobre este combate ver – http://antonioadrianomedeiros.blogspot.com/p/curiosidades.html).

Em meio a uma festa, a polícia paraibana cercou o local e abriu fogo. Morreu no primeiro momento o cangaceiro Pilão Deitado, mas logo depois os policiais Nestor e Estolão morriam varados de balas quando foram saquear os bornais do cangaceiro anteriormente morto.

Logo os cangaceiros se dispersaram pela região rural de Caicó e paulatinamente vários deles foram sendo mortos a mando da elite agrária da região. Foi um corretivo pela afronta de Antônio Silvino em vir a região e um aviso para que estes guerreiros das caatingas não voltassem mais ao Seridó.

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Um dos mortos foi Felix José da Costa, mais conhecido como Azulão, um negro alto, forte e valente, nascido na Fazenda Dominga, localizada nas proximidades da Caverna da Caridade.

Segundo Seu Nelson, o cangaceiro Azulão conhecia a localização da Caverna da Caridade e sabia que no local havia água. A ideia do foragido era “dar um tempo” e procurar os amigos que tinha naquele setor e assim escapar daquela situação.

Na caverna, junto com Azulão,  estava o cangaceiro conhecido como Moreninho.

Notícia da morte de Azulão na Fazenda Dominga

Consta que após o tiroteio na Pedreira, os dois cangaceiros vararam o sertão em direção Norte/Nordeste, passando pela região onde hoje se encontra o Açude Itans, mantendo a cidade de Caicó a esquerda deles. Seguiram então pelas proximidades das Serra da Bernarda e da Formiga, até a região da Serra da Cruz, em um estirão comprido, mas que o desespero ajudava a amenizar a distância.

Segundo Seu Nelson, antes dos fugitivos chegarem a caverna, passaram na casa de conhecidos, se abasteceram e seguiram para Serra da Cruz, onde passaram cerca de dez dias e noites na cavidade, logo no salão frontal do local.

No dia 25 de fevereiro eles saíram do abrigo rochoso e foram em busca da Fazenda Dominga, do tenente-coronel Gorgônio Ambrósio da Nóbrega, algum apoio.

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Passagens da Caridade – Crédito – Alex Gomes

Mas o que encontraram foi bala. A polícia, avisada pelo pessoal da propriedade, deram cabo dos dois homens.

Segundo Seu Nelson, ele sabe bastante desta história pois um dos um dos homens que participaram da ação foi seu pai. Ele comenta que sabe até mesmo onde os homens estão enterrados a sombra da Serra da Cruz.

A Caridade

Quem chega à Caverna da Caridade depara-se na entrada com vastos painéis de gravuras rupestres. As fantásticas sequências se iniciam nas margens rochosas do pequeno córrego que escorre da entrada da caverna e desce pela Serra da Cruz, passando, inclusive, pela entrada de outra cavidade, a chamada Falsa Caridade, uma pequena gruta a poucas dezenas de metros da entrada principal da Caridade.

Um astro celeste?

Os registros rupestres são um forte indicativo da evolução das manifestações artísticas dos povos primitivos. Para melhor entendimento, os arqueólogos definiram que as pinturas e gravuras fossem agrupadas em “Tradições”. No Nordeste brasileiro existem três grandes Tradições: Nordeste, Agreste e as Itaquatiaras, as quais são subdividas em outras classes.

Itaquatiaras, ou “pedras pintadas” em língua tupi, conhecidas pelos sertanejos como “pedra de letreiro” ou “pedra lavrada”, são gravuras feitas em rocha, ou petróglifos, possuindo como principal característica o fato de serem encontradas nos afloramentos rochosos próximos a locais que concentram água.

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Registros rupestres gravados na pedra, em meio a pichações.

A Caridade é, basicamente, uma caverna formada por um pequeno rio. O vão interno é bastante sinuoso, repleto de curvas que a água incessantemente, ao longo de milhares e milhares de anos, esculpiu na pedra. Há poucas passagens laterais, podendo ser descrita como um longo corredor. Essas características facilitam qualquer topografia, mas, por outro lado, existem lá algumas sérias dificuldades. A primeira dela é que, praticamente, o tempo inteiro o avanço ocorre por dentro d’água, molhando-se todo o equipamento. Há passagens extremamente apertadas, as quais um sujeito magro transpõe com dificuldades.

Analisando o local, no caso de Azulão e Moreninho terem utilizado a cavidade como abrigo, sem dúvida que o local ideal deve ter sido o primeiro salão, apresentado na foto inicial deste artigo.

Infelizmente concluímos nossa visita a noite, sem tempo de visitar a Fazenda Dominga.

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Caridade – Créditos – Solon Almeida Netto

Filmagem

A filmagem realizada no local teve como objetivo fazer um registro visual simplificado da cavidade e desta visita, cuja realização e edição ficaram a cargo de Ricardo Sávio Trigueiro de Morais.

Os participantes deste grupo fazem parte da SEPARN – Sociedade para Pesquisa e Desenvolvimento Ambiental do Rio Grande do Norte e da SEP – Sociedade Espeleológica Potiguar, duas ONGs que batalham pelo conhecimento e preservação das cavernas potiguares. Participaram desta visitação, além de Ricardo, Sólon Rodrigues Almeida Netto, André Mota e Rostand Medeiros.

Para acessar o vídeo da visita a Caverna da Caridade, clique no link abaixo;

https://www.youtube.com/watch?v=f5d3DfJSaKs