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O VAGABUNDO DO MAR

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Desenho de Carlos Arthur Thiré.

A HISTÓRIA DO NAVEGADOR SOLITÁRIO INGLÊS QUE NAUFRAGOU EM UMA REMOTA ILHA BRASILEIRA, FOI SALVO POR UM TRANSATLÂNTICO ITALIANO E ACABOU PRESO NO RIO SUSPEITO DE SER COMUNISTA

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Era uma terça feira, 28 de março de 1939, e o transatlântico italiano MS Augustus navegava tranquilo em pleno Oceano Atlântico, a cerca de 530 milhas náuticas a nordeste de Natal. A bela nave seguia em direção ao Mar Mediterrâneo em meio a um mar calmo, com poucas ondas e muito sol típico de uma zona tropical.

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O MS Augustus

Por volta de uma e meia da tarde muitos passageiros percorriam tranquilos os decks da nave de 215 metros de comprimento, descansando depois do almoço. Alguns estavam sentados em cadeiras dobráveis se dedicando a leitura, outros conversavam em pequenos grupos e muitos observavam o mar na expectativa de avistarem algum peixe, uma baleia e os Rochedos de São Pedro e São Paulo. Eles haviam sido informados que este remoto local surgiria em breve a estibordo, ou seja, a direita do navio.

Conhecido hoje como Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o local é uma parte pequena e bem isolada parte do território brasileiro, sendo um dos poucos lugares na Terra onde um cume oceânico subaquático rompe a superfície do mar. Formado por um pequeno grupo de ilhas que está apenas 18 metros acima das águas oceânicas e com uma extensão total de meros 4,5 hectares, era conhecido dos homens dos mares desde 1511, quando uma frota portuguesa com seis caravelas seguindo em direção as Índias, topou com o lugar sem querer. Deste encontro a caravela São Pedro bateu nas rochas e afundou e a caravela São Paulo salvou os sobreviventes do barco sinistrado e daí surgiu a sua denominação.

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Arquipélago de São Pedro e São Paulo na atualidade – Fonte – http://aurelioschmitt.blogspot.com.br

Perdidos no meio do grande Oceano Atlântico, ao longo dos séculos aquelas rochas não chamaram a atenção de exploradores, mas sim de grandes cientistas, entre eles o inglês Charles Darwin, que lá esteve na manhã de 16 de fevereiro de 1832, na primeira etapa de sua viagem ao redor do mundo a bordo do HMS Beagle.

Esquecidos e isolados em 1939 os então denominados Rochedos de São Pedro e São Paulo serviam, quando avistados durante o dia, como ponto de referência para verificação do posicionamento de navios através das cartas náuticas, bússolas e sextantes e, no caso de transatlânticos como o Augustus, um motivo de distração para seus normalmente entediados passageiros.

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Logo o transatlântico ficou a menos de dez milhas náuticas de distância e as rochas negras surgiram no horizonte. Alguns passageiros munidos de lunetas e pequenos binóculos se colocaram na amurada para observar aquele amontoado de pedras batidos pelas ondas. Em pouco tempo um burburinho em diferentes idiomas surgiu e braços apontavam em direção aos rochedos. De lá sinais luminosos provocados por um espelho nas mãos de um homem nu, que também agitava os braços intensamente, chamaram atenção de várias pessoas.

Quem era aquela pessoa?

Perdido nos Rochedos dos Santos

Na ponte de comando do Augustus a figura solitária naquelas rochas também chamou atenção dos oficiais que estranharam o fato. Eles sabiam que dificilmente alguém estaria ali praticando naturismo em num ponto tão isolado do Globo e também sabiam que a última missão oficial de qualquer espécie ocorrida nos Rochedos de São Pedro e São Paulo fora realizada em 1930.

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Naquele ano membros da Marinha do Brasil estiveram no local a bordo do navio tender Belmonte para a instalação de um pequeno farol aero marítimo e já fazia algum tempo que ele estava apagado. Tanto assim que a oficialidade do Augustus e de outros navios de cargas e passageiros que passavam pela região só se aproximavam do local durante o dia e com tempo bom, pois além de tudo as correntezas na área eram fortes.

Logo o comandante do Augustus enviou uma mensagem telegráfica para a Capitania dos Portos de Recife, para a Polícia Marítima e para o Presídio Político de Fernando de Noronha para informar sobre o fato.

O coronel Nestor Veríssimo, diretor do presídio, informou que nenhum detento havia se evadido da instituição que comandava e o comandante Humberto Areia Leão, capitão do porto de Recife, imediatamente comunicou ao então Ministério da Marinha. Mas foi Renato Medeiros, inspetor da Polícia Marítima, que conseguiu a informação de que o transatlântico italiano MS Conte Grande era esperado para os próximos dias em Recife e, como normalmente acontecia com os navios que faziam esta rota entre o Brasil e a Europa, passaria próximo aos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Através da ajuda de Etelvino Lins, então Secretário de Segurança Pública, o inspetor Renato Medeiros conseguiu enviar uma mensagem urgente ao Conte Grande para que investigasse o caso.

Mas foram os membros da imprensa recifense que conseguiram informações mais seguras sobre o solitário homem nos rochedos.

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O transatlântico italiano MS Conte Grande

Um oficial do paquete nacional Santarém, da empresa Lloyd Brasileiro e que se encontrava há uma semana no porto de Recife, informou que na sua última travessia vindo de Lisboa havia encontrado no meio do mar um pequeno barquinho a vela, com pouco mais de cinco metros e meio de comprimento e uma pequena bandeira britânica no diminuto mastro. O capitão do Santarém parou sua nave mista de passageiros e cargas e procurou ajudar o navegador solitário. Este agradeceu o apoio, informou que se dirigia para Natal e alegou que nada lhe faltava naquela verdadeira casca de noz que enfrentava os mares. O velejador parecia com saúde, aparentava está com as faculdades mentais corretas e o Santarém continuou seu rumo em direção a capital pernambucana.

Seria o homem nos Rochedos de São Pedro e São Paulo o mesmo navegador solitário?

Salvo

O Conte Grande era uma nave muito conhecida no Brasil e extremamente respeitada pela nossa sociedade, que nessa época utilizava intensamente o transporte marítimo.

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Saída do escaler para busca o náufrago.

A nave possuía muito luxo nos seus 200 metros de comprimento e desde 1932 fazia a linha entre a Itália e a América do Sul. A oficialidade do navio italiano acatou o recebimento das mensagens transmitidas pelas autoridades de Recife e pelo Augustus e informou que realizaria uma parada nos rochedos.

Por volta das cinco e meia da manhã de 31 de março os motores do Conte Grande ficaram girando em baixa rotação para manter a posição, enquanto um escaler era baixado com quatro marinheiros, um enfermeiro de bordo e sob o comando de um oficial do transatlântico.  Houve um fato narrado nos jornais que mostra bem as características das questões relativas ao pudor existente na época – Devido ao estado de nudez do náufrago o navio foi deixado a uma distância relativamente grande dos Rochedos de São Pedro e São Paulo e o pessoal a bordo do escaler teve de remar dobrado, mas conseguiram realizar a tarefa.

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Retorno do escaler.

Para surpresa geral aquele homem jovem e cabeludo falou em perfeito italiano. Ele estava muito fraco e foi examinado, teve sua nudez coberta com um roupão branco e foi levado para o Conte Grande. Sua chegada causou verdadeiro frenesi a bordo, mas ele foi mantido isolado devido ao seu estado de saúde.

Logo se soube que o estranho se chamava Michel Formosa, era filho do inglês Francis Reynold Formosa e mãe italiana, havia nascido em Paris, morava na ilha mediterrânea de Malta, era técnico de rádio e falava fluentemente cinco idiomas. Formosa contou que havia feito economias para realizar o sonho de adquirir um pequeno barco e conhecer o mundo singrando os mares.

Sozinho no Atlântico

O solitário navegador conseguiu seu intento no ano anterior, batizando a pequena nave de O. K. e partiu da ilha de Malta, na época parte do Império Britânico, no dia 2 de outubro de 1938.

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Percorreu com certa dificuldade a parte da costa africana banhada pelo Mar Mediterrâneo, mas ultrapassou o Estreito de Gibraltar e passou a navegar no Oceano Atlântico. Sua primeira parada foi na cidade marroquina de Tânger, depois Las Palmas, (Arquipélago das Canárias), na sequência Bathurst (Atual Banjul, capital da Gâmbia), Bissau (Atual capital da República da Guiné-Bissau) e outros locais da África Ocidental.

Partiu em março na direção do Brasil com a ideia de chegar a Natal, cidade que comumente aparecia em noticiários de jornais e revistas que comentavam feitos e realizações aeronáuticas na Europa.

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Para Formosa o porto de Natal lhe aparecia como um ponto de apoio pequeno, limitado, mas muito bem localizado no extremo nordeste da América do Sul. Para ele pouco importava as dimensões do nosso porto, ou o tamanho de Natal. Para quem buscava atravessar o Oceano Atlântico em um veleiro com apenas cinco metros e meio de comprimento, o que importava era chegar vivo!

Durante sua travessia atlântica o navegador Formosa passou uma parte do tempo apreciando o mar, noutra dormindo, ou lendo livros sobre o Novo Mundo. Enfrentou dois dias de forte tempestade, mas o O. K.  suportou bem a pressão. Em outro momento um nevoeiro muito forte, acompanhado de uma calmaria intensa o deixou em meio a um mundo com poucas referências visuais e um intenso silêncio.

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Um dia viu um navio brasileiro de carga e passageiros chamado Santarém, que veio em sua direção e aconteceu o contato narrado anteriormente. Para Formosa o melhor deste encontro no meio do mar foi saber que seguramente estava na rota certa. Mas no rápido encontro o navegador solitário britânico esqueceu-se de perguntar aos oficiais do Santarém se o farol dos Rochedos de São Pedro e São Paulo estava funcionando.

Queria Vir a Natal

Na madrugada de 26 de março o mar engrossou, e o vento se tornou mais e mais forte. As vagas invadiam continuamente o deck do barquinho a vela e tornava a navegação muito difícil. À noite a situação só piorou e a visibilidade se tornou mínima. Por volta da meia noite, já bastante cansado, Formosa vislumbra no meio da chuva o que lhe pareceu ser o cume de uma montanha. Ele sabia que o continente estava ainda muito longe e não havia visto a luz do farol de São Pedro e São Paulo. Logo escutou as ondas batendo nas pedras e tentou mudar o rumo, mas foi tarde demais.

Uma forte onde lhe arrancou o lema e o pequeno O. K. bateu forte em uma pedra e começou a afundar. Com o impacto Michel Formosa foi jogado para fora do veleiro e só não morreu por um impacto contra as rochas porque, de alguma forma, foi levado para um ponto no meio das pedras onde pode se agarrar e sobreviver sem maiores problemas. Ele saiu da água em meio a uma forte escuridão, muito frio e percebeu que estava nu.

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O fim do O.K. nas pedras de São Pedro e São Paulo.

Horas depois a chuva e o vento amainaram e o sol começou a despontar no horizonte trazendo luz e calor. Logo começou a compreender a natureza hostil dos Rochedos de São Pedro e São Paulo, onde água doce só era encontrada em pequenas frestas. Havia muitos pássaros e seus ovos, mas isso não daria para muita coisa.

Conforme o sol foi subindo no horizonte ele conseguiu divisar através das águas muito transparentes, a cerca de 10 metros de profundidade, o casco do O. K. e achou que valia a pena mergulhar para trazer coisas que pudessem lhe ajudar a sobreviver. Conseguiu chegar ao casco, mas logo percebeu a presença de tubarões rondando a área e se assustou.

Na superfície começou a explorar a maior das ilhotas, denominada Belmonte em honra ao navio da Marinha do Brasil que trouxe os construtores do pequeno farol em 1930.

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Michel Formosa com marcas no rosto das bicadas dos pássaros dos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Luta pela sobrevivência.

Encontrou alguma madeira podre e um interessante pedaço grosso de espelho do agora inútil farol, que se estivesse em funcionamento teria evitado em todo o problema que agora vivia. Refletindo raios do sol conseguiu fazer uma fogueira e assou algumas aves marinhas que capturou em meio a uma luta que lhe deixaram feias marcas no rosto. Comeu também alguns ovos destas aves e esta foi sua única alimentação.

Quatro dias depois de chegar aquele esquecido local, viu surgir no horizonte um grande navio de passageiros. Com o coração aos pulos foi atrás do espelho do velho farol e ficou refletindo a luz do sol em direção ao navio, que foi passando, passando, diminuindo de tamanho, até que sumiu. Nessa hora, já debilitado pela falta de alimentação adequada e do medo de morrer a míngua naquele fim de mundo, Formosa se desesperou.

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O que ele não sabia era que seu esforço de visualização obteve êxito e sua presença nos rochedos desencadeou várias mensagens telegráficas que culminaram na chegada do Conte Grande e no seu salvamento.

No Rio e na Delegacia do Caçador de Comunistas

Depois de se recuperar, ser barbeado, ter o cabelo cortado, Michel Formosa foi contemplado com muito apoio e atenção a bordo do transatlântico italiano.

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Ele recebeu roupas, cigarros e já passou a dar entrevistas a alguns jornalistas que estavam a bordo e retornavam da Europa. Como todo bon vivant europeu que se prezasse naquela época, Formosa passou a curtir o momento plenamente. Por conta da empresa de navegação passou a tomar uns drinkzinhos no restaurante do navio, conversou com meio mundo de pessoas que estavam a bordo narrando sua epopeia e dizendo que o objetivo de sua viagem solitária era “dar a volta ao mundo”, com ideias de chegar até no Japão. Apareceu sorridente em fotos, com um cigarro pendurado no canto da boca, em uma imagem típica de ator canastrão francês.

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Logo, no dia 4 de abril, surgiu diante do Conte Grande a figura emblemática do Pão de Açúcar e a bela Baía da Guanabara.

Após o navio ancorar, já previamente avisados, subiram a bordo dois agentes da Polícia Marítima e Michel Formosa saiu escoltado para o conhecido Palácio da Polícia, na Rua da Relação, no centro da cidade. Ali ficava a sede da 2ª Delegacia Auxiliar, sob o comando do Dr. Linneu Chagas d’Almeida Cotta, muito conhecido por participar das investigações que culminaram na prisão de vários envolvidos na conhecida Intentona Comunista de 1935. Entre estes detidos figuravam os alemães Henry Berger e Olga Benário, além do então estudante baiano Carlos Marighella, este último detido em maio de 1936.

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O estrangeiro Formosa não estava entendendo nada sobre a razão de está ali. Na sua mente, sem deixar de ter certa lógica, ele era um ex-náufrago, que havia perdido tudo que tinha nos Rochedos de São Pedro e São Paulo e não poderia resolver aqueles problemas burocráticos apresentando o que não tinha.

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Michel Formose, já não tão sorridente, prestado declarações.

Para piorar a situação, certamente irritado com tudo aquilo, o inglês primeiramente se negou a responder qualquer coisa sobre si mesmo, falando apenas “No Entiendo” aos questionamentos feitos. Depois, sem saber o tamanho do perigo em que estava se metendo, partiu para responder com certa dose de ironia as perguntas do Dr. Linneu Cotta.

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Michel Formosa entre policiais.

Um jornalista narrou que a muito custo o estrangeiro comentou que era inglês e o delegado, depois de participar das investigações contra Henry Berger e Olga Benário, estava considerando tudo que Formosa dizia como sendo mentira, já o enquadrando como “extremamente suspeito” de ser comunista e ele acabou preso.

Ao ser informado da situação do ex-náufrago, a Embaixada Britânica no Rio, que na época ficava na praça XV de novembro, através do Vice Consul Noel Cameron Robinson, tratou de enviar com extrema urgência um telegrama para a legação britânica em Bathurst e saber a real situação de Michel Formosa.

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O ex-náufrago em liberdade.

Mesmo em uma época de comunicações limitadas, para sorte do súdito britânico preso, Bathurst confirmou no mesmo dia que o navegador solitário havia estado lá em 2 de fevereiro e que a sua situação era legal.

Sabedores do extremo perigo que o imprudente súdito de sua majestade corria se fosse acusado oficialmente de ser comunista no Brasil, os diplomatas britânicos prontamente entregaram um documento oficial sobre a situação do preso ao delegado Cotta, que soltou Formosa.

O Destino do “Vagabundo do Mar” na Guerra

Após sair do xilindró o navegador solitário inglês ainda foi notícia dos jornais cariocas por algum tempo, principalmente em “A Noite”. Inclusive durante semanas este periódico publicou uma serie de quadrinhos, produzidas pelo renomado cartunista Carlos Arthur Thiré, trazendo as aventuras de Michel Formosa.

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Comentou-se que através da “Editora S.A. A Noite” seria publicado o livro “O Vagabundo do Mar”, onde Formosa narraria sua epopeia marítima.

Notícias posteriores sobre Michel Formosa, que muitos periódicos afirmaram se chamar Michel Formose, comentou que através da ajuda do pessoal da equipe de remo do Fluminense Football Club seria conseguido um barco para ele continuar sua viagem. Mas parece que tudo ficou só nas promessas, pois as notícias sobre Michel Formosa desapareceram dos jornais cariocas.

Certamente a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro de 1939, mudou tudo na vida deste homem. Em algum momento ele retornou a Europa, onde embarcou a serviço em navios de carga e em um deles, pouco mais de dois anos depois de sua aventura nos Rochedos de São Pedro e São Paulo, encontrou a morte.

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S.S. Kingston Hill

No dia 8 de junho de 1941 o S.S. Kingston Hill seguia solitariamente no Oceano Atlântico. Com quase 130 metros de comprimento era um navio novo, lançado no mar pelo estaleiro escocês William Hamilton & Co. apenas seis meses antes. Transportava naquela viagem 8.300 toneladas de carvão e 400 toneladas de carga geral e pouco depois de uma da manhã este navio foi atingido por dois torpedos vindos do submarino alemão U-38.

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O U-38 preparando-se para partir.

Esta nave de guerra era comandada pelo Korvettenkapitän (capitão de corveta) Heinrich Liebe, um dos quinze melhores comandantes de submarinos alemães, com um total de 34 navios afundados e um danificado durante seu tempo como comandante. Apenas para efeito de comparação em toda Segunda Guerra o Brasil teve 35 navios afundados e danificados por submarinos nazifascistas.

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Placa com os nomes dos mortos do navio Kingston Hill.

O Kingston Hill levou quase uma hora e meia para afundar, onde catorze membros da tripulação morreram e 48 sobreviveram. Entre os mortos constavam o capitão do barco e os bombeiros de bordo Daniel Taylor e Michel Formosa, que lutaram arduamente para tentar extinguir o fogo e salvar a nave. O nome de Michel Formosa consta em uma placa de bronze no memorial de Tower Hill, em Londres, junto com outros treze companheiros do seu barco que tiveram o mar como túmulo.

Ironicamente este ataque ocorreu a cerca de 520 milhas náuticas ao norte dos Rochedos de São Pedro e São Paulo.

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O DIA EM QUE JOHN KENNEDY ESTEVE NO BRASIL DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

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Kennedy no Rio junto com sua mãe Rose (D) e sua irmã Eunice (E).

Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) 

Eu acredito que os países que possuem sistemas presidencialistas têm ao longo de suas histórias os seus mandatários relevantes, onde suas carreiras e suas vidas foram tão expressivas que eles nunca foram esquecidos e eles são sempre são lembrados no imaginário do seu povo.

Apontar quem seriam estes homens adentra no pantanoso e complicado terreno das paixões políticas, algo ao qual não tenho muito conhecimento e nem me interesse de explorar. Mas me arrisco a comentar que na vizinha Argentina o presidente mais marcante da história deste país foi Juan Domingo Perón. Já no Chile creio ser possível indicar Salvador Allende, ou não?. Mas e no nosso Brasil, teríamos, talvez, uma espécie de “empate técnico” entre Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek? E nos Estados Unidos, as indicações apontam para Franklin Roosevelt e John Kennedy?

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John F. Kennedy e sua esposa Jackie desfilando na Broadway em carro aberto em Nova York.

Este último presidente estadunidense foi um homem de uma história de vida icônica, que remete a muitos sucessos e enormes tragédias. Vem de uma rica e famosa (ou infame) família, foi herói na Segunda Guerra, consagrou-se como um político respeitado e atuante, que assumiu a presidência do seu país com apenas 43 anos de idade e foi associado como mandatário que desenvolveu um governo inovador. Era casado com uma bela mulher, foi muito popular até mesmo fora dos Estados Unidos e teve sua vida abruptamente interrompida na cidade de Dallas, Texas, no dia 22 de novembro de 1963.

Sobre John Kennedy muito já se falou e foi escrito, sendo tema de inúmeros livros, documentários e filmes de Hollywood. Mas o que muitos brasileiros não sabem é que ele esteve no nosso país vinte anos antes de se tornar presidente.

E o que ele veio fazer no Brasil?

Berço de Ouro

John Fitzgerald Kennedy nasceu em 29 de maio de 1917, sendo filho do empresário, filantropo e político Joseph Patrick “Joe” Kennedy e da socialite Rose Elizabeth Fitzgerald Kennedy. Era descendente de imigrantes irlandeses católicos e vários de seus antepassados foram políticos no estado de Massachusetts, tendo seu avô, P. J. Kennedy, sido prefeito de Boston. 

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Os Kennedys

John Kennedy tinha um irmão mais velho, Joseph Jr., e sete irmãos mais novos; Rosemary, Kathleen, Eunice, Patrícia, Robert, Jean e Ted.

Sem problemas com dinheiro a família Kennedy mudou-se em 1927 para uma mansão majestosa, de estilo georgiano, na cidade de Nova York. Ali John frequentou a Riverdale Country School, uma escola particular para meninos. A família Kennedy passava seus verões em uma casa na área costeira de Hyannis Port, Massachusetts. Já durante as férias de Natal e Páscoa, muito frio nessa época na região de Nova York, os Kennedy seguiam para uma casa em Palm Beach, Flórida.

Durante a adolescência John Kennedy teve vários problemas de saúde, que culminaram com uma hospitalização de emergência em 1934, quando os médicos pensaram que ele poderia ter leucemia. Apesar do susto, no ano seguinte ele fez sua primeira viagem a Europa com seus pais e sua irmã Kathleen e no ano seguinte matriculou-se na Universidade Harvard.

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Em julho de 1937, desejoso de conhecer outros lugares, John Kennedy viajou para a França e passou mais de dois meses junto com um amigo percorrendo a Itália, Alemanha, Holanda e Reino Unido.

Um Mundo Em Guerra

No ano seguinte seu pai foi designado pelo Presidente Franklin D. Roosevelt embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra e John seguiu para trabalhar na embaixada americana em Londres. Este cargo de prestígio abriu novas avenidas sociais para a família Kennedy e eles assistiram na primeira fila a abertura do triste drama da Segunda Guerra Mundial. 

Os Kennedy acompanharam os esforços do governo britânico por uma política de apaziguamento, destinada a evitar a guerra a qualquer custo, principalmente após Adolf Hitler ocupar Áustria e a Tchecoslováquia. Essa ação política era firmemente apoiada pelo embaixador Joseph Kennedy e ele seria um feroz crítico dos apelos de Winston Churchill para uma ação mais contundente contra a ameaça nazista. 

Além desse posicionamento o pai do futuro Presidente dos Estados Unidos era declaradamente a favor do isolacionismo dos Estados Unidos em relação a guerra europeia e estridente antissemita. Uma irônica intolerância para um homem que havia sido vítima de muito sentimento antirreligioso por ser católico.

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John Kennedy e seu pai, notório isolacionista e antissemita

Em 1938, porém, essas preocupações estavam mais no futuro. John Kennedy usou a posição de seu pai para organizar outra grande viagem, em preparação para sua tese final em Harvard. Esteve novamente na França e seguiu para a Polônia, União Soviética, os Bálcãs e chegou a ir até mesmo ao Oriente Médio. Viajante inveterado, Kennedy passou sete meses na estrada e só retornou a Londres em 1 de setembro de 1939, no mesmo dia em que a Alemanha invadiu a Polônia e teve início a Segunda Guerra Mundial.

O jovem Kennedy começou seu último ano em Harvard na primavera de 1940, com o campus universitário em grande efervescência com o que acontecia no outro lado do Oceano Atlântico. Ele se mostrava cada vez mais interessado na política, concentrando-se em assuntos internacionais e escreveu uma tese sobre a política externa da Inglaterra antes do início da guerra. Este material acadêmico foi bem recebido e ajudou John Kennedy a conquistar a graduação magna cum laude, a segundo maior possível no ranking de Harvard. Mais importante ainda, seu esperto pai aproveitou a tese como uma forma de tornar John uma figura pública. O embaixador puxou as cordas na indústria editorial e contratou um repórter de jornal para editar e polir a prosa. Logo, em julho de 1940, foi lançado o livro Why England Slept. O trabalho rendeu a John Kennedy um modesto best-seller e lhe concedeu seu primeiro gosto como celebridade.

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O S. S. Argentina, da respeitada empresa de navegação Moore-McCormack Lines – Fonte – http://www.moore-mccormack.com/images/BW%20SS%20Argentina.JPG

Na sequência John seguiu para a conceituadíssima Stanford Business School e decidiu realizar uma viagem pela América do Sul junto com sua mãe Rose e sua irmã Eunice. 

Eles embarcaram no final de abril de 1941 no luxuoso transatlântico S. S. Argentina, da respeitada empresa de navegação MooreMcCormack Lines, com grande experiência e tradição na ligação marítima entre os Estados Unidos e a América do Sul.

O suntuoso navio de passageiros realizava a rota Nova York ao Rio de Janeiro, seguindo sob bandeira americana, que na época era então um país neutro no conflito. Mas isso não significava que o S. S. Argentina não viesse a sofre um ataque por parte de submarinos nazifascistas, ou algum tipo de ocorrência com os próprios Aliados. E foi o que aconteceu naquela ocasião, quando a grande nave foi parada por um cruzador inglês de 10.000 toneladas e poderosamente artilhado, a 300 milhas da foz do rio Amazonas. A tripulação do S. S. Argentina foi obrigada a informar se a bordo havia entre os passageiros cidadãos de origem alemã ou italiana. Com a negativa a viagem do transatlântico foi liberada. 

Celebridades a Bordo 

Depois de dezesseis dias de viagem, às duas da tarde no dia 7 de maio de 1941, o grande navio aporta Rio de Janeiro, na época a Capital Federal.

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S. S. Argentina no Cais da Praça Mauá em 1948.

Como era praxe na época, durante o desembarque dos passageiros vários jornalistas corriam ao cais do porto da Praça Mauá em busca de saber quem estava a bordo, quem desembarcaria e se entre estes haviam figuras interessantes, o que chamamos hoje de “celebridades”.

Poderiam ser ricaços chegando de viagens, políticos patrícios retornando de suas férias para descansar do seu “pesado labor”, cientistas estrangeiros, ou astros e estrelas do cinema e da música do exterior com destino a Cidade Maravilhosa, ou de passagem para Buenos Aires. Serviam para aquelas verdadeiros “piranhas da notícia” até mesmo pessoas com notícias frescas sobre os tristes acontecimentos da guerra.

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As celebridades que desembarcaram no Rio de Janeiro em 7 de maio de 1941.

Em meio aos flashes quem mais chamou atenção no desembarque foi a atriz Rosita Moreno. Nascida na Espanha ela já vivia há anos no México era filha de ator e estava radicada desde 1930 na Meca do cinema mundial – Hollywood. Rosita seguia para Buenos Aires a fim de realizar um filme e recebeu a todos saboreando uma “Coca-Cola gelada com batatas fritas”. Contou que já havia realizado muitos filmes mexicanos, argentinos e espanhóis e também foi destaque em versões em espanhol dos filmes de Hollywood.

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Foi enaltecida pelo jornalista de O Imparcial por está exalando o suave odor do perfume francês “Arpège”, cujo frasco pequeno custava a bagatela de “180$000” (cento e oitenta mil réis). Além dela os repórteres descobriram entre os passageiros um renomado dentista que vinha dar um importante curso sobre dentaduras, um jornalista de Nova York e um violinista judeu de San Francisco que vinha para alguns concertos na cidade. Este possuía alguma fama em 1941, mas viria a se tornar nos anos vindouros um dos maiores violinistas do Século XX – Yehudi Menuhin. Além destes se encontrava a bordo um jovem que era filho de Joseph Kennedy, o ex-embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra.

“Missão Especial do Governo Americano”

Descrito como magro, de cabelos claros, olhos azuis e muito calmo, John Kennedy não negou a ser interpelado pelos jornalistas e informou que veio ao nosso país basicamente como um simples turista a passeio e com “um desejo de conhecer outros países e outros povos”.

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Ficha de entrada de John Kennedy no Brasil em 1941.

Ele foi logo recordado pelos homens da imprensa que seu pai era um dos maiores defensores do isolacionismo dos Estados Unidos na guerra, mas fugiu diplomaticamente do questionamento. Depois foi perguntado se acreditava na vitória dos súditos do Rei da Inglaterra contra os alemães e respondeu que sim. Mas acrescentou ponderadamente que “seria imprudente dar qualquer declaração categórica sobre o desenrolar dos acontecimentos”. Kennedy comentou bastante sobre seu livro, que também estava escrevendo para jornais e revistas nos Estados Unidos e pretendia escrever outros livros sobre a conjuntura internacional. Ele foi descrito pelos jornalistas como “possuidor de bom humor e comunicativo e logo se tornou simpático na roda dos jornalistas”. Apesar de jovem, John Kennedy já tinha bastante experiência para tratar com o pessoal da imprensa e sabia o que significava não atender corretamente aos jornalistas.

Na edição do Jornal do Brasil do dia seguinte (página 12) surgiu a notícia que um suposto companheiro de viagem de Kennedy teria confidenciado a um jornalista deste periódico que o filho do embaixador Joseph estava de viagem pelo Brasil e pela Argentina em uma “missão especial do governo americano”. Segundo este amigo o jovem Kennedy pretendia “examinar as pulsações sentimentais dos povos sul-americanos em face ao conflito europeu”.

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Essa informação não deve ser verdade, pois nenhuma fonte pesquisada cita, além de sua mãe e de sua irmã, algum pretenso companheiro de viagem de John Kennedy a América do Sul. Além disso, o governo americano tinha na região embaixadas com pessoas altamente treinadas e extremamente atentas a todos os movimentos e ações dos governos sul-americanos e dos seus povos em relação ao conflito que ocorria na Europa.

Aparentemente Kennedy, sua mãe e sua irmã realmente vieram para o Brasil fazer apenas turismo, conforme mostra a foto que abre este texto.

Mas se aqueles dias do primeiro semestre de 1941 a vida de John Kennedy foi de tranquilidade no Brasil e na América do Sul, no fim daquele mesmo ano a situação ficou bem diferente.

Mas isso é outra história.


Fontes 

https://mholloway63.wordpress.com/2013/08/02/what-happened-on-august-1st-john-f-kennedy-and-pt-109/

https://br.pinterest.com/pin/450289662722928980/

http://www.bbc.co.uk/history/people/john_f_kennedy

https://www.jfklibrary.org/JFK/Life-of-John-F-Kennedy.aspx

https://familysearch.org

http://millercenter.org/president/biography/kennedy-life-before-the-presidency

http://www.historyplace.com/kennedy/president.htm

http://jfks.de/about-jfks/history/the-history-of-the-john-f-kennedy-school/

http://www.dailymail.co.uk/news/article-3262024/My-story-collision-getting-better-time-ve-got-Jew-n-r-John-F-Kennedy-revealed-father-exploited-PT-109-incident-make-son-hero-pave-road-White-House.html

https://www.gentlemansgazette.com/president-john-f-kennedy/

SUPERSTIÇÕES MARINHEIRAS

HMS Bounty Tribute Photo Long Live the Great Ship
Fonte – https://captainkimo.com/hms-bounty-tribute-photo-long-live-the-great-ship/

Quem é do mar já ouviu falar de pelo menos uma dessas superstições marinheiras

Todo marinheiro que se preze tem lá suas superstições. Algumas bastante conhecidas pelo grande público, outras só por quem é realmente do mar. Mar Sem Fim fez uma listagem bem humorada para você conhecer alguma delas.

Se você sabe alguma outra superstição envolvendo o universo marinheiro nos conte e nos ajude a aumentar essa lista. Quem é do mar agradece!

Muitas dessas superstições, lendas, mitos, crenças são antigas tradições, heranças da história. Outras nasceram de eventos que navegante algum foi capaz de explicar.

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Fonte – http://www.ussslater.org/history/slaterhistory/history_christening.html
  1. Navio seguro é navio batizado…

A tradição de batizar um navio é tão antiga quanto os próprios navios. Sabe-se que egípcios, romanos e gregos já faziam cerimônias a fim de pedir aos deuses proteção para homens que se lançariam ao mar, mas por volta de 1800 os batizados começaram a seguir um certo padrão. Era derramado contra a proa da embarcação uma espécie de “fluido batismal”, que poderia ser geralmente vinho ou champanhe. A tradição que se desenvolveu preconizava que uma mulher deveria fazer as honras e ser nomeada “benfeitora” do navio em questão ao quebrar uma garrafa no casco do barco. Se um navio não fosse corretamente batizado, seria considerado azarado.

  1. …uma vez só!

Nunca se deve rebatizar um navio, é azar na certa. Ou seja, batismo bom é batismo feito do jeito certo, com garrafa quebrada e uma única vez.

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Fonte – http://www.pandosnco.co.uk/stratheden.html
  1. Sexta não!

Jamais partir em uma sexta-feira. Muitos marinheiros recusavam-se a embarcar nesse dia da semana. Não s sabe ao certo a origem dessa lenda mas quase todo capitão se recusa a soltar as amarras em uma sexta-feira.

  1. Todos os ratos a bordo

Ratos não são os animais mais desejáveis de se ter por perto, certo? Errado. A última coisa que os marinheiros gostariam é que todos os ratos do navio subitamente fossem embora. Reza a lenda que a debandada de roedores da embarcação é encarada como um mau presságio, alerta de um infortúnio que está por vir.

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Fonte – http://www.floatingneutrinos.com/Buoyant%20Neutrinos/b%20neutrinos%20images/Ed_places_the_silver_coin_donated_at_the_head_of_the_mississippi_at_the_foot_of_the_mast.jpg
  1. Uma moedinha, por favor

Todos os navios devem ter uma moeda de prata embaixo do mastro. Acredita-se que isso traga boa sorte. As explicações são muitas, mas a tradição parece ter começado com os romanos. Diz-se que a moeda era uma forma de “pedágio” cobrada pelo deus Cáron, incumbido de levar as almas dos mortos em sua barca na travessia do rio Aqueronte. Caso um desastre acontecesse ao navio, a pratinha serviria como o pagamento de todos os marinheiros, que passariam seguramente para o lado de lá.

  1. Aquele-que-não-deve-ser-nomeado

A bordo de uma embarcação, há uma palavra proibida. Jamais se deve dizer COELHO a bordo. Acredita-se que o bicho traga muito azar. A explicação vem da experiência, pois o animal tinha o péssimo hábito de roer o casco na época em que as embarcações eram feitas de madeira,e acabaram sendo proibidos de embarcar.

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Fonte – ttps://www.thesun.co.uk/archives/news/1165485/idioms-explained-why-do-people-say-break-a-leg-and-under-the-weather/
  1. Cuidado com o que você deseja

Nunca se deve desejar “boa sorte”a um marinheiro antes de partir. Os marítimos acreditam que dizer “boa sorte” a alguém que esteja dentro de um navio é, contraditoriamente, sinal de azar. Em inglês, costuma-se dizer “break a leg” para alguém que irá navegar – no mar nada acontece como queremos, então se desejarem que você “quebre uma perna” certamente tudo vai correr bem.

  1. Assobiar ou não assobiar?

O assobio é um ato relativizado na superstição marinheira, e depende das condições do tempo. Se o navio está passando por uma calmaria, assobiar ajuda a trazer ventos, ou seja, é recomendável. Mas se já está ventando, um assobio desavisado pode convocar uma tempestade, por isso precisa ser evitado.

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Fonte – blog.gkelite.com
  1. Plantas e flores… em terra firme

Não aceitar plantas e flores a bordo de um navio também é uma das superstições marinheiras. A razão dessa crença vem da lógica – plantas consomem água doce, o bem mais precioso que se tem em uma embarcação.

  1. Não se deve mudar o nome do barco ou…

Marinheiros acreditam que não se deve mudar o nome de um barco, caso contrário, isso trará muito azar para as navegações. Porém, há uma saída. Caso o capitão decida dar um novo nome à embarcação, deve fazer uma cerimônia bastante detalhada e cheia de rituais.

Além das superstições existem as lendas do mar. Mar Sem Fim irá reunir as mais famosas em um próximo post no portal, mas se você já sabe de alguma, nos queremos saber!

FONTE – http://marsemfim.com.br/supersticoes-marinheiras/

O TEMPO VOA: COMO ERAM OS AVIÕES DE ANTIGAMENTE

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Fonte – http://oglobo.globo.com/boa-viagem/o-tempo-voa-como-eram-os-avioes-de-antigamente-20408135?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O Globo

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Foto: Panam.org/Paleofuture / Divulgação

Fumar era permitido

Os males do cigarro não eram tão divulgados, e era permitido fumar durante os voos. Lá fora, as primeiras proibições ocorreram a partir de meados dos anos 1980. No Brasil, a partir de meados dos 1990.

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Foto: Panam.org/Paleofuture / Divulgação

Banheiros espaçosos

Por muito tempo, os aviões, que eram bem menores, tiveram apenas uma classe, semelhante à executiva atual. Os banheiros, por exemplo, eram bem mais amplos e podiam até ser frequentados por mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

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Foto: Panam.org/Paleofuture / Divulgação

Espaço de convivência

Até a década de 1980, voar era luxo para muito poucos. Com a popularização dos voos, alguns serviços deixaram de ser oferecidos. Embora hoje seja possível encontrar espaços de convivência em algumas primeiras classes, na época bares eram local de entretenimento a bordo.

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Foto: Panam.org/Paleofuture / Divulgação

Comida farta

Comer a bordo, até a década de 1970, era muito diferente. Nada das refeições padronizadas, industrializadas, e os lanchinhos de hoje em dia. Na época, a oferta de pratos e bebidas era bem maior. Além disso, como o espaço entre as poltronas era mais amplo, comer também ficava muito mais fácil.

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Foto: Panam.org/Paleofuture / Divulgação

Conexões frequentes

Além dos preços bem mais altos, no passado as aeronaves precisavam fazer mais escalas durante as viagens. Alguns voos, como de Londres para a África do Sul, chegavam a ter 22 paradas. O barulho do motor também era bem mais alto, e os acidentes muito mais frequentes.

NO SÉCULO XIX, SONHO DE PORTUGUÊS ERA SER “BRASILEIRO”

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Portugueses que prosperaram na ex-colônia: roupas mostravam riqueza; no topo, palacete construído por um ‘brasileiro’ em uma vila no Norte do país – Divulgação/José Abilio Coelho

Imigrantes voltavam ricos da antiga colônia e atuavam como filantropos na terra natal

Autor – Renato Gradelle

Fonte – http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/no-seculo-xix-sonho-de-portugues-era-ser-brasileiro-16307678#ixzz4KQYHCpbR

BRAGA, PORTUGAL — José Francisco Correia não tinha mais do que dez anos quando, em 1863, embarcou na terceira classe de um navio que deixou o Norte de Portugal. Passou um mês e meio à base de sopa e bolacha e dormindo entre malas, até chegar a uma fábrica de cigarros em Niterói. O irmão de um padre de São Lourenço de Sande, sua cidade natal, contratou-o como segurança e faxineiro. Aos 18, já tinha seu próprio negócio — o Imperial Estabelecimento de Fumos Veado. Este ficou tão famoso que, tempos mais tarde, mereceu uma visita do então presidente Campos Sales. Os louros de Correia renderam um pacote de benesses para os antigos vizinhos. Ele fundou escolas, reformou a igreja, doou dinheiro para tuberculosos. Foi recompensado com o título de Conde de Agrolongo. Era um verdadeiro “brasileiro”, como seus compatriotas definiam quem, a partir de meados do século XIX, migrava para a antiga colônia nas Américas e voltava bem-sucedido.

Conforme o tráfico negreiro perdia força, o Brasil ganhava cada vez mais crédito entre seus antigos conquistadores. Arrasado por uma guerra civil, com governo cambaleante e economia decadente, Portugal foi reduzido a uma porta de saída para o Atlântico. Na semana passada, em um festival de História no Norte do país, pesquisadores lembraram os dois tipos de personagens que procuraram futuro nos trópicos. Aqueles que voltavam endinheirados, os “brasileiros”, colecionaram títulos de nobreza, bancaram obras do governo e atuaram como mecenas e educadores. Já quem desembarcava em terras lusitanas de bolsos vazios era o “abrasileirado” — em sua jornada pela antiga colônia, estes conseguiam apenas o necessário para o próprio sustento.

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— A Inglaterra, principal potência mundial, exercia desde 1810 uma forte pressão para que o Brasil abolisse o tráfico negreiro — destaca André Roberto de Arruda Machado, professor de História da Unifesp. — O imperador Dom Pedro I comprometeu-se a tomar esta medida em 1831. Não o fez, mas a entrada de escravos caiu significativamente, até ser proibida em 1850. Isso abriu espaço para a importação da mão de obra europeia.

POLÊMICA NA CORTE

Os portugueses tornaram-se a população mais engajada em tentar a vida do outro lado do oceano.

— As crianças aprendiam a ler, escrever e fazer contas e, logo depois, migravam para o Brasil — lembra José Abílio Coelho, pesquisador da Universidade do Minho, em Portugal. — Essa mão de obra era fundamental para bancar a exploração agrícola daquela terra imensa.

A imigração em massa provocava reações ambíguas na Corte portuguesa. Sem trabalhadores, a economia nacional estava estagnada. No entanto, quem chegava ao Brasil, ou voltava do país, patrocinava projetos que, sozinho, o Estado não tinha condições de manter.

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Fonte – http://www.etnicosbrasil.com.br

— Um escritor da época afirmava que os famintos portugueses, instalados no Brasil, pagavam as contas do desgoverno português — conta Jorge Alves, professor do Departamento de História e de Estudos Políticos e Internacionais da Universidade do Porto e autor de “Brasil, terra de esperanças” (editora Quasi).

De acordo com Alves, o sonho dos portugueses era voltar “irreconhecíveis”, cultos e de vestuário elegante, ganhando respeito e reputação que nunca teriam se não tivessem deixado a terra natal.

— Milhares de portugueses, após alguns anos de ausência, voltavam transformados a tal ponto que mesmo os pais duvidavam de sua identidade — assinala Alves. — Assim se ampliava a imigração, os candidatos a “brasileiros”. O Brasil era o país ideal: quem trabalha ganha uma recompensa justa.

Os “brasileiros” que voltavam para as aldeias portuguesas não precisavam de muitos esforços para exibir seus ganhos. Bastava dar um novo gás à atividade agrícola da família e erguer um edifício para o funcionalismo público. Outros procuraram as grandes cidades — Lisboa e Porto, principalmente — e tornaram-se sócios e acionistas de bancos, seguradoras e empresas de transporte. Em ambos os ambientes, a posse de capital era coroada no altar, onde os novos ricos selavam casamentos arranjados com pretendentes de famílias tradicionais da elite.

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Pontes Câmara com a mulher e as duas filhas mais velhas, Elisa e Elvira – Divulgação/José Abilio Coelho

Normalmente a troca de alianças era feita com trintões — empreendedores que, apesar da pouca idade, já haviam acumulado mais de 20 anos de riquezas na antiga colônia. Não era uma regra, mas os ricos de meia-idade costumavam ser mais reclusos e, por isso, resistentes a promover benevolências. Nestes casos, o trato mudava. Por maiores que fossem suas riquezas, se não resultassem em um leque de boas ações aos necessitados, o milionário era rebaixado ao status de mero “abrasileirado”. Mas estes eram exceções. A maioria estava disposta a dividir uma generosa parte de suas fortunas.

— (Os novos ricos) compravam ou mandavam construir magníficos palacetes e, em suas terras de origem, ofereceram estradas, igrejas e capelas, casas de espetáculos, escolas, asilos e hospitais — assinala Coelho. — Com estes atos filantrópicos, eles ganhavam reconhecimento da igreja, comendas civis, e às vezes títulos de viscondes.

CONDE CONSTRUIU 120 ESCOLAS

A educação era uma das áreas que mais sensibilizaram os novos ricos. Semianalfabetos em sua chegada ao Brasil, eles voltaram para Portugal dispostos a evitar que as novas gerações passassem pelos mesmos perrengues. Um deles, o Conde de Ferreira, construiu 120 escolas.

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Fonte – imigracaoportuguesa.blogspot.com

Para Coelho, um dos principais quadros na galeria dos afortunados foi Manuel de Pontes Câmara. Nascido na Ilha da Madeira, território português no Atlântico, ele migrou para o Brasil em 1829, aos 14 anos. Antes dos 18, já havia arriscado negócios em ramos como louças, peixes e cereais. Não gostou muito dos resultados modestos. Mas foi o início de um império comercial que, em meio século, desenvolveu ao lado de 40 sócios.

— Ele dedicou-se a negócios de peixe fresco, carnes, cereais, fabrico de chapéus, trapiches, tapiocas e refinação de açúcar e botequins, entre outros — revela Coelho. — Mas seu maior empreendimento foi o café. Na época, o Brasil era o maior exportador do produto, que tornou-se a bebida da moda em todo o mundo.

Pontes Câmara morreu em um naufrágio, a caminho de Lisboa, em 1882, aos 67 anos, acompanhado de mais de 15 mil sacos de seu produto mais lucrativo. Deixou um terço de sua fortuna para ações de caridade, incluindo a construção de uma capela em Madeira. Na época, com o reerguimento da economia portuguesa, a figura dos “brasileiros” era, aos poucos — e desmerecidamente — apagada da História do país.

— Em determinados meios, como os de jornalistas e poetas, a designação de “brasileiro” era sinônimo de agiota, imbecil, analfabeto — condena Coelho. — Mas o tempo desconstruiu essa imagem e hoje, quando falamos de “brasileiros”, nos referimos a um grupo de portugueses admiráveis, dados a enormes gestos de filantropia, e cultos muito acima da média de seu tempo.

A SAGA DE UM FOTÓGRAFO RUSSO PARA REGISTRAR AS CORES DO SEU PAÍS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

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Foto de Alim Khan, emir de Bukhara, 1911. À direita, o triplo negativo original no vidro, mostrado aqui em forma positiva. Prokudin-Gorsky fotografou as imagens superiores, médios e inferiores através de filtros azuis, verdes e vermelhos – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Sergey_Prokudin-Gorsky#/media/File:Rgb-compose-Alim_Khan.jpg

O russo Serguei Prokúdin-Górski (1863-1944) tralvez seja um fotógrafo desconhecido até mesmo de muitos fotógrafos, mas foi este russo que desenvolveu as técnicas para a realização das primeiras fotografias coloridas. Em 1905, Prokudin-Gorskii concebeu o grande projeto de documentar, com fotografias a cores, a enorme diversidade de história, cultura e avanços do Império russo, para ser utilizado nas escolas do Império.

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Sergei Prokudin-Gorski em 1912 – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Sergu%C3%A9i_Mij%C3%A1ilovich_Prokudin-Gorskii

Dorrit Harazim é uma das mais célebres e respeitadas jornalistas do Brasil, com passagem por publicações como as revistas piauíZum Veja. Agora, pela Companhia das Letras, lança o seu primeiro livro, O Instante Certo, que reúne textos em que conta as histórias de algumas das mais célebres fotografias já feitas. Com o olhar voltado para os aspectos humanos das imagens, Dorrit enxerga para além de jogos de luzes e sombras, mirando sempre nas narrativas que as fotografias por vezes revelam e por vezes ocultam.

Leia a seguir um trecho do livro em que Dorrit fala das fotografias de Sergei Prokudin-Gorskii, que registrou em cores paisagens e pessoas da Rússia. 

* * *

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colonos russos, possivelmente Molokans, na estepe Mugan do Azerbaijão – 1909 – Fonte – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Russian_settlers,_possibly_Molokans,_in_the_Mugan_steppe_of_Azerbaijan._Sergei_Mikhailovich_Prokudin-Gorskii.jpg

Raras vezes o título de um livro foi tão feliz. Nostalgia, o volume de 320 páginas com imagens laboriosamente captadas pelo fotógrafo russo Sergei Mihailovitch Prokudin‑Gorskii no início do século XX, é uma experiência quase sensorial. Ele faz renascer um regime moribundo — no caso, o vasto império do czar Nicolau II — em todo o seu esplendor e dimensão.

Nostalgia (editora Gestalten) é uma versão em livro da monumental obra do pioneiro da cor. Tornou‑se assim possível apreciar também em papel impresso imagens que até então só podiam ser admiradas on‑line ou precisavam ter os negativos em lâminas de vidro projetados em alguma superfície.

Em se tratando de Prokudin‑Gorskii, nem poderia ser diferente. Tudo na trajetória desse cientista‑inventor da era pré‑Revolução Bolchevique é incomum, empolgante e sobretudo lento. A começar pela milagrosa ressurreição digital de sua obra pela Biblioteca do Congresso americano, que levou mais de meio século para ser realizada.

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1909 – Três jogens que oferecem alimentos para os visitantes defronte a sua izba, uma casa de madeira tradicional, em uma área rural ao longo do rio Sheksna, perto da cidade de Kirillov – Fonte – http://alexwolfe.blogspot.com.br/2011/09/from-russia-with-love-colorizing-sergei.html

Sergei Mikhailovich Prokudin‑Gorskii pertenceu a uma das antigas famílias da nobreza russa cujos ancestrais serviram o país por cinco séculos. Só no XIX haviam participado da derrota para Napoleão em Austerlitz, da desforra na Guerra Patriótica de 1812 e da Guerra da Crimeia. Os interesses do jovem Sergei, contudo, passavam longe de qualquer farda. Embora tivesse estudado física, matemática e química, além de ter cursado a Academia Imperial de Medicina, sua curiosidade maior era pela fotografia, então ainda uma arte e ciência em construção.

Ele tinha apenas dois anos em 1861, quando o físico inglês James Clerk Maxwell realizou seu histórico experimento de três filtros com que obteve a primeira imagem fotográfica colorida. Era precária, porém revolucionária. Ao longo das quatro décadas seguintes os melhores profissionais europeus, inclusive Prokudin‑Gorskii, que já se tornara fotógrafo com estúdio próprio, se desdobraram em experimentos para obter uma gama de cores mais naturais, com nuances intermediários.

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Catedral em Petrozavodsk – 1915 – Fonte – http://www.loc.gov/pictures/collection/prok/item/prk2000000415/

Prokudin‑Gorskii foi o mais arrojado deles. Graças aos conhecimentos de química, produziu uma emulsão ultrassensível para a fixação de cores em lâminas de vidro e encomendou a fabricantes alemães uma câmera específica que atendesse a suas necessidades.

Tinha em mente um projeto quixotesco: documentar toda a diversidade natural, arquitetônica e etnográfica do Império Russo. Queria viver da venda de cartões‑postais coloridos que retratassem a imensidão do país.

Faltava‑lhe apenas o essencial: dinheiro para a empreitada.

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Liev Tolstói, em maio de 1908, quatro meses antes de seu 80º aniversário. Fotografado em Yasnaya Polyana por Sergey Prokudin-Gorsky. Esta é a primeira fotografia colorida tomada na Rússia.

Foi salvo por Liev Tolstói. Na primavera de 1908, por ocasião dos oitenta anos do já na época mundialmente cultuado autor de Guerra e paz e Anna Kariênina, Prokudin‑Gorskii obteve permissão para fotografá‑lo em sua propriedade de Yasnaya Polyana, perto de Tula.

Levou exatos seis segundos para fazer o único retrato em cores existente do escritor, que morreu dois anos mais tarde. Nele, Tolstói mais se assemelha a um patriarca do Velho Testamento que ao homem que Nicolau II no fim da vida chamou de “gênio do mal”. Reproduzido milhares de vezes desde então — em forma de cartão‑postal, pôster, páginas de revista ou jornal —, o instantâneo é o mais famoso retrato de um personagem da história da Rússia.

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Kush-Begin, ministro do Interior de Bukhara, na Ásia Central, Império Russo, região do Uzbequistão 

Maksim Górki, compatriota e admirador de Tolstói, assim descreveu a foto ao vê‑la pela primeira vez: “Lá está ele, como um deus. Não um deus do Olimpo, mas o tipo de deus russo que senta num banco de carvalho sob um limoeiro dourado. Não muito majestoso, porém mais astuto do que todos os outros deuses”.

O retrato de Tolstói e algumas fotografias que Prokudin‑Gorskii captou em curtas viagens ao mar Negro, Crimeia e Turquestão, abriram‑lhe as portas das cortes europeias e dos salões dos Romanov em Copenhague. Aproveitando‑se de uma audiência com Nicolau II, então imperador e autocrata de Todas as Rússias, o fotógrafo decidiu expor ao monarca seu ousado projeto: percorreria os domínios czaristas ao longo de dez anos, numa expedição que o levaria do Ártico à fronteira com a China. No final, a nação estaria documentada em 10 mil fotos.

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Igreja da Ressurreição em Krostoma, cidade histórica do centro da Rússia, em 1910 – Fonte – http://www.loc.gov/pictures/collection/prok/item/prk2000001900/

O czar, ele próprio um fotógrafo amador, foi fisgado pela proposta. Além de atender à sua vaidade pessoal, a empreitada teria um propósito educativo — em cada escola elementar seria instalado um projetor, e os alunos teriam a oportunidade de conhecer a riqueza e as belezas nacionais em toda a sua vastidão e diversidade.

Antes de partir em campanha, o intrépido explorador obteve autorização para circular por áreas de acesso restrito a civis. Nicolau II também lhe cedeu um vagão transformado em câmara escura e laboratório que foi sendo acoplado aos trens utilizados para cruzar o dilatado território russo.

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Dois homens sobre um tapete, em frente a um yurt, uma tenda ou cabana circular usada tradicionalmente pelos pastores nômades mongóis e de outros povos da Ásia Central, como os quirguizes – Fonte – http://www.loc.gov/pictures/collection/prok/item/prk2000002448/

Durante os dois primeiros anos Prokudin‑Gorskii mapeou a região industrial dos Urais, percorreu toda a extensão do rio Volga, enfronhou‑se pelo território da histórica Batalha de Borodino e fez duas expedições pela província Transcaspiana. Nos anos seguintes, outros rumos, novos mapas, mais fronteiras reveladas.

As imagens coletadas iam de castelos a catedrais, trabalhadores do campo a senhores feudais, barqueiros a emires, famílias judaicas a clãs de cossacos. Como seus conterrâneos, Prokudin‑Gorskii não fazia a mais vaga ideia de como eram os compatriotas das regiões mais distantes da Rússia — como viviam, que feições tinham, que dialeto falavam, quais crenças os moviam. Daí o valor histórico e insuperável de sua obra. As imagens, originalmente reunidas sob o título “Fotografias para o czar” e destinadas a documentar os vastos domínios do imperador, acabaram desempenhando um papel inesperado: conseguiram criar um embrião de identidade comum a uma população formada por povos que nada tinham em comum, exceto a geografia política.

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Isfandiyar Jurji Bahadu, Khan (Rei) do protetorado russo de Khoram (Khiva) – Fonte – http://www.loc.gov/pictures/collection/prok/item/prk2000002597/

A técnica da fotografia colorida da época, da qual Prokudin‑Gorskii foi o grande inovador, consistia em fazer três fotos monocromáticas em rápida sucessão, cada uma através de um filtro de cor diferente (azul, verde e vermelho). Para visualizar a imagem, faziam‑se projeções em tela (ainda não era possível fazer cópias em papel — o primeiro filme colorido Kodak só chegou ao mercado mundial trinta anos mais tarde). Os negativos em lâminas de vidro eram colocados num projetor oblongo de lente tripla, também fabricado sob encomenda para o fotógrafo, e reproduziam a imagem como sendo uma só, de cores vibrantes e saturadas.

Passados seis anos de expedições exaustivas e custosas, nem mesmo Prokudin‑Gorskii aguentou o tranco. Como os cofres do czar custeavam apenas o transporte, o resto da empreitada ficara por sua conta e risco. E, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, ele se tornara obrigado a desviar a função do vagão‑laboratório para trabalhos militares.

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1909 – Tripulação do navio a vapor “Sheksna” do Ministério da Comunicação e Transporte, Império Russo – Fonte – http://www.loc.gov/pictures/collection/prok/item/prk2000000129/

Após a Revolução Bolchevique de 1917, sua sobrevida como membro do Comitê de Organização do Instituto de Fotografia e Fototécnica seria tênue. Por isso, precavido, decidiu fazer de uma missão à Noruega, uma viagem sem volta a sua terra. Levou consigo todos os negativos que conseguiu socar nas malas e terminou a vida como tantos russos anônimos que emigraram para a Europa Ocidental. Morreu na Maison Russe, nas cercanias de Paris, em 1944, pouco depois da libertação da cidade pelas tropas aliadas. Está enterrado no cemitério russo de Sainte‑Geneviève‑des‑Bois.

Foi então que começou a tortuosa trajetória póstuma de sua obra.

Durante todo o período de ocupação de Paris pelos nazistas, a coleção de Prokudin‑Gorskii permaneceu escondida em porões úmidos da capital francesa. Em 1948, no miserê europeu do pós‑guerra, os herdeiros do fotógrafo foram contatados por emissários da Fundação Rockefeller, interessada na aquisição do lote completo para doá‑lo à Biblioteca do Congresso americano. Fecharam negócio: por 4 mil dólares, doze volumes de folhas de contato indexadas pelo autor e 1902 negativos em lâminas de vidro trocaram de dono e atravessaram o Atlântico. Foram mantidos em Washington, intocados, por mais de cinco décadas.

Foi somente em 2001, portanto quase um século depois de Prokudin‑Gorskii ter superado as primeiras dificuldades técnicas da cor na fotografia, que a ciência encontrou na tecnologia digital a chave para enfim poder mostrar ao mundo a obra do mestre russo. Através de uma técnica chamada digicromatografia, a Biblioteca do Congresso restaurou todos os negativos em lâminas de vidro e colocou esse tesouro on‑line gratuitamente, em alta resolução, com a riqueza de informações e dados típica das grandes instituições culturais.

Desde então, uma exposição itinerante com uma seleta das 58 melhores imagens de Prokudin‑Gorskii percorre o mundo.

Faltava apenas uma versão da obra em livro, para quem não gosta de degustar fotos de arte em computador ou tablet. Nostalgia, com suas 283 imagens de página inteira, preenche a lacuna.

Sergei Mikhailovich Prokudin‑Gorskii retratou um império que não sabia estar às vésperas de sua maior revolução. Nada mais apropriado, portanto, que também ele, autor de obra tão arrojada, tenha sido o precursor de uma revolução — na fotografia e no seu foco.

FONTE – http://www.blogdacompanhia.com.br/2016/06/as-novas-cores-do-imperio-russo/

FOTOS DAS ATRAÇÕES TURÍSTICAS POTIGUARES EM 1984

PASSEIO DE BUGGY  - Também conhecido como famoso passeio das emoções em Natal, já apresentado aos turistas em 1984.  O primeiro bugueiro profissional do Rio Grande do Norte, ainda atuando, foi o meu amigo Amigo Roberto Eider Lira
PASSEIO DE BUGGY – Também conhecido como famoso passeio das emoções em Natal, já apresentado aos turistas em 1984. O primeiro bugueiro profissional do Rio Grande do Norte, ainda atuando, foi o meu amigo Amigo Roberto Eider Lira – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR

Recentemente chegou as minhas mãos um exemplar da extinta Revista Geográfica Universal, da Bloch Editores, edição de abril de 1984. Mesmo passados mais de 31 anos o exemplar está muito bem preservado e traz uma interessante reportagem sobre o Rio Grande do Norte.

PRAIA DE GENIPABU
PRAIA DE GENIPABU 

Localiza-se a vinte quilômetros do Centro de Natal, é um dos mais famosos cartões-postais do estado. Em 1984 estava bem menos povoado.

FORTALEZA DOS REIS MAGOS
FORTALEZA DOS REIS MAGOS

A Fortaleza da Barra do Rio Grande, popularmente conhecida como Forte dos Reis Magos ou Fortaleza dos Reis Magos, foi o marco inicial da cidade — fundada em 25 de Dezembro de 1599 —, no lado direito da barra do Potengi (hoje próximo à Ponte Newton Navarro). Recebeu esse nome em função da data de início da sua construção, 6 de janeiro de 1598, Dia de Reis, pelo calendário católico. Em formato de estrela, a fortaleza foi construída pelos colonizadores portugueses em 1598. Em 1633 foi invadida pelos holandeses. Anos mais tarde, os portugueses conseguiram retomar a cidade e o forte. O monumento ainda preserva os canhões expostos na parte superior do prédio, capela com poço de água doce e alojamentos. Na foto de 1984 ainda existia a antiga passarela para pedestres, construída na década de 1960.

PRAIA DO MEIO E PRAIA DOS ARTISTAS
PRAIA DO MEIO E PRAIA DOS ARTISTAS

Duas das praias mais movimentadas de Natal. Costumam receber um grande número de turistas durante a alta temporada, além de moradores próximos. É conhecida por sua agitação, de dia e à noite. Com uma boa faixa de areia dourada, possui mar de águas transparentes e são bastante procuradas para o banho. O interessante da foto de 1984 é a faixa de areia livre de barracas e quiosques e a paisagem sem tantos edifícios. 

VISTA AÉREA DA PRAIA DE JACUMÃ
VISTA AÉREA DA PRAIA DE JACUMÃ

ATENÇÃO – A foto pode ser de outra praia, mas acredito ser Jacumã. Se não estiver equivocado, esta praia está distante 33 km de Natal,sendo uma das principais escolhas para se aproveitar o veraneio no litoral. Seus arrecifes deixam o mar calmo e próprio para banho. No Rio Grande do Norte o veraneio em praias é uma atividade bem antiga e até hoje apreciada pelo seu povo, apesar de ameaçada pela violência que campeia em nosso litoral.

ARTESANATOS EXISTENTES EM 1984

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 CENTRO DE CONVENÇÕES DE NATAL

CENTRO DE CONVENÇÕES DE NATAL
CENTRO DE CONVENÇÕES DE NATAL

Salvo engano o Centro de Convenções de Natal havia sido inaugurado naquele ano. Foi projetado para sediar simpósios, congressos, seminários, reuniões, eventos artísticos, feiras e exposições, o centro de convenções se encontra dentro da área preservada do Parque das Dunas, posicionado de frente para o mar e próximo a vários hotéis luxuosos, com bares, restaurantes, praias, shoppings, ciclovia, agências de turismo, locadora e uma infinidade de serviços.

OUTRAS VISÕES DO LITORAL

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Segundo a reportagem desta revista, as selas e alforges colocadas na beira mar de Genipabu, que aparecem na foto,  eram utilizadas por jegues de “tropeiros”, que banhavam seus animais na água do mar.

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FEIRA DO ALECRIM  

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A tradicional do bairro do Alecrim era em 1984 uma das atrações turísticas de Natal e hoje pouco lembranda pelos profissionais da área. A feira acontece todos os sábados, oficialmente no horário das 6 às 15h, no cruzamento das avenidas Coronel Estevam e Presidente Quaresma. A primeira edição da feira aconteceu em 18 de julho de 1920, um domingo, organizada pelo paraibano José Francisco dos Santos acompanhado de três amigos. Apenas algum tempo depois a prefeitura moveu a feira para o sábado, e a partir do ano de 1930 passou a cobrar impostos dos feirantes que ali comercializavam suas mercadorias.

SALINAS

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Não sei se as salinas faziam parte de algum roteiro turístico em 1984, mas por esta época as salinas ainda estavam bastante presentes como uma das principais identidades do Rio Grande do Norte. E isso era fruto de uma história muito antiga, que gradativamente perde importância. 

O sal foi um dos primeiros produtos a ser explorado comercialmente no Rio Grande do Norte. A exploração normal e extensiva das salinas de Mossoró, litoral de Areia Branca, Assu e Macau data de 1802.  Mas o conhecimento de jazidas espontâneas na região já era conhecido desde o início da colonização. A primeira referência que se tem sobre sal no Rio Grande do Norte encontra-se registrado no documento que Jerônimo d’Albuquerque escreveu aos seus filhos Antônio e Matias, em 20 de agosto de 1605, onde fala de salinas formadas espontaneamente a aproximadamente 40 léguas ao norte, o que corresponde hoje as salinas de Macau. Desse fato, voltamos a ter notícias quando consultamos o “Auto de repartição das terras” feito em Natal em fevereiro de 1614, onde está escrito que Jerônimo de Albuquerque dera aos filhos Antônio e Matias, em 20 de agosto de 1605, umas salinas que estariam a quarenta léguas para o norte (aproximadamente 240 km), mas que nunca foram utilizadas. Em 1627, frei Vicente do Salvador registrou a colonização norte-rio-grandense. Notou que “as salinas onde naturalmente se coalha o sal em tanta quantidade que se podem carregar grandes embarcações”.

TURISMO NO INTERIOR POTIGUAR 

Um fato muito interessante nesta reportagem foi que as atrações turísticas apresentadas como sendo do interior do Rio Grande do Norte, não foram as Serras de Martins, Portalegre, ou de São bento, mas as minerações de caulim de Parelhas e Equador e a extração de água marinha de Tenente Ananias, na zona oeste do Estado.

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