OS “POCKET GUIDE” DOS SOLDADOS AMERICANOS NO BRASIL E A FORÇA DOS MPs

Propaganda americana de uma fábrica de aviões durante a Segunda Guerra Mundial

Autor – Rostand Medeiros

Durante a Segunda Guerra Mundial os militares norte-americanos ocuparam praticamente todos os espaços existentes em várias frentes de combate. Do Circulo Polar Ártico as ilhas do Caribe. Dos desertos da África do Norte passando pela China, índia, oceanos e outros locais.

Para evitar problemas em um exército que contava o seu efetivo na casa do milhão de homens, os comandos militares dos Estados Unidos criaram pequenos livretos de bolsos, espécie de guias, onde os militares, em tese, aprenderiam dicas e informações sobre a vida militar e os locais onde deveriam ser transferidos. Chamados de “Pocket Guide”, foram confeccionados os milhares.

Capa do “Pocket Guide” sobre a Índia

Havia guias que traziam dicas da melhor maneira de como um militar deveria se comportar junto a mulheres, o que fazer quando se tornasse um prisioneiro de guerra, ações para o caso de um avião cair no mar, primeiros socorros, etc.

Havia um destes “Pocket Guide” que explicava a função do censor de cartas.

O censor de cartas

Em engraçadas charges este militar era apresentado como um verdadeiro “monstro”, pronto a cortar com suas tesouras as informações que poderiam comprometer a segurança da tropa, inadivertidamente transmitidas nas cartas aos seus familiares.

Em relação aos “Pocket Guide” preparados para os militares que seguiam para o exterior, não podemos esquecer que grande parte das tropas americanas era formada por gente muito simples, jovens que mal conheciam o estado vizinho de onde moravam e que, praticamente de uma hora para outra, poderiam ser enviados para a Cochinchina. Este lugar era explicado nos guias como “Uma região ao sul da Indochina”, que atualmente é parte do território do Vietnam.

Natal como verdadeiro "gargalo" da mais importante rota aérea dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial

Como sabemos o Brasil se tornou o mais importante aliado dos Estados Unidos na América do Sul, onde diversos aeroportos brasileiros foram utilizados como pontos de apoio para uma grande ponte aérea que ligava os Estados Unidos a locais tão distantes como o Norte da África, Índia, Burma (atual Mianmar) e China.

Além do apoio a esta grande operação de transporte aéreo, muitos destes aeroportos brasileiros abrigaram unidades de combate da Marinha dos Estados Unidos (U. S. Navy), que patrulhavam as águas do Atlântico Sul na caça de submarinos alemães e italianos.

Dicas de comportamento social para os militares americanos faziam parte dos “Pocket Guide”

O mais importante aeroporto utilizado pelos americanos no Brasil foi o Campo de Parnamirim, ou “Parnamirim Field”, a poucos quilômetros de Natal, capital do Rio Grande do Norte.

Devido a sua proximidade com a costa africana, Natal era um excelente ponto estratégico, onde se tornou um verdadeiro gargalo por onde passaram milhares de aviões transportando homens, armas, máquinas diversas, medicamentos, etc. A cidade hospedou milhares destes militares estadunidenses e até o tradicional cemitério do bairro do Alecrim foi durante algum tempo o local do último repouso de vários deles.

O Brasil da década de 1940 era um país bem distinto dos Estados Unidos naquela época, então vários guias foram publicados, mostrando como estes militares deveriam se comportar e agir na nossa terra e em outras regiões tropicais do Mundo.

Ao conhecermos estes “Pocket Guide” percebemos não apenas a ideia do comando militar dos Estados Unidos em preservar uma boa relação com vários países, mas igualmente informar aos seus soldados sobre doenças típicas das regiões tropicais.

O cuidado com as cobras em áreas tropicais

Uma destas dicas, ilustrada através de uma engraçada charge, mostra o problema que havia nas zonas tropicais em relação à proliferação de ofídios venenosos e a importância dos militares sempre estarem atentos ao que havia de indesejado nos seus beliches. Apesar da região do Arizona, Novo México, Louisiana e Flórida serem extremamente prolificas em cobras venenosas, era transmitida uma informação que gerava o entendimento que nestas zonas tropicais estes animais peçonhentos eram encontrados praticamente andando livremente nas ruas e dentro das casas. Em certa medida, este tipo de pensamento ainda permeia a ideia que a sociedade americana tem de algumas regiões abaixo da linha do Equador.

Malária “- É a fêmea que pica!”

Os americanos tinham verdadeira ojeriza em relação às doenças transmissíveis por insetos, principalmente a malária. Em uma das charges destes guias de bolso, a malária é apresentada como uma mulher um tanto “prestativa” em fornecer carinhos, onde estava estampada a intrigante frase “- É a fêmea que pica!”.

Neste aspecto, não tenho dúvida em comentar que além da razão estratégica geográfica para os americanos escolherem Natal em detrimento a centros urbanos mais desenvolvidos, como Recife, estava na qualidade da água existente em nossa região e das condições naturais que facilitavam um melhor controle destas pragas junto as suas bases aéreas.

Charge aconselhando evitar o excesso de bebidas

Uma outra charge mostra as consequências de um destes soldados passarem dos limites em relação álcool. Ela mostra dois MP (Military Police), levando um alterado soldadinho e sua garrafa de bebida. Estes MPs eram verdadeiros brutamontes preparados para manter a conduta, a lei e a ordem nos locais onde estavam estacionadas as tropas americanas.

Sobre esta charge me recordo de uma conversa que tive com o amigo Laélio Ferreira de Melo, nosso parceiro do Tok de História, com seu satírico e contundente blog “Mediocridade Plural” (http://mediocridade-plural.blogspot.com/). Ele me narrou que na época da Segunda Guerra Mundial era um menino de calças curtas, em um momento que havia tantos militares americanos em Natal, que em suas palavras parecia que tinha “-Gringos saindo pelo ladrão”.

Morando entre a Ribeira e a Cidade Alta, a casa de Laélio era perto de um bar frequentado por militares americanos. Ocorre que em uma determinada noite, um oficial da USAAF – United States Army Air Force (Força Aérea do Exercito dos Estados Unidos) com a graduação de major, passou da conta na sua cota de bebidas e acabou fazendo o maior “barraco” no ambiente. Parece que até garrafa quebrou. Evidentemente que a algazarra chamou atenção das famílias que viviam na região e o pessoal ficou ali contemplando o estrangeiro dar o seu “espetáculo”.

Típicos MPs do exército americano

Nisso apareceu um jipe com dois verdadeiros “armários ambulantes” da MP e, para surpresa do garoto Laélio, o tal major arruaceiro seguiu com os dois policiais militares (que certamente eram de patente bem mais baixa) para o jipe, sem fazer a mínima alteração e morto de vergonha.

Laélio não sabe o que ocorreu com o oficial, mas comentou que o major “afinou” na hora que viu os guardas com suas características braçadeiras com as letras “MP” e seus longos cassetetes de quebrar o lombo dos arruaceiros de uniforme.
Certamente este major esqueceu de ler um dos muitos “Pocket Guide” sobre conduta.

Para encerrar eu tenho certeza que o que mais deve ter chamado a atenção do amigo Laélio foi presenciar um oficial de patente elevada, mesmo agindo de forma errada, se colocar tão mofino diante dos guardas da MP. Coisa bem distinta de ver em nossas tropas.

Até porque no Brasil daquela época, como no Brasil de agora, basta ser uma “otoridade”, ter uma estrelinha a mais, ou ser um funcionário público de carreira, para não aceitar nenhuma ordem. Tal como pensam alguns juízes de direito, que não tem dúvidas que são deuses.

A corregedora do CNJ, Doutora Eliana Calmon, que o diga.

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