O CORONELISMO NÃO MORREU: COMO PEQUENOS DITADORES DESTROEM A NOSSA DEMOCRACIA

Há um perigo invisível que corrói o nosso dia a dia, e ele não está nas grandes capitais. Ele está bem ao nosso lado. Está no poder local. Em muitos dos nossos municípios, estamos assistindo à sobrevivência de uma das práticas mais atrasadas da nossa história: a ascensão de pequenos tiranos. São líderes eleitos que ainda confundem o voto popular com uma carta branca para o autoritarismo, a perseguição política e o abuso de autoridade. O velho coronelismo mudou de roupa, mas continua vivo.

O roteiro desses aspirantes a ditador é sempre o mesmo: transformam a fiscalização em “perseguição”, tratam os vereadores de oposição como “traidores” e encaram qualquer tipo de crítica ou cobrança do cidadão como um “ataque pessoal”. Usam as redes sociais oficiais não para prestar contas, mas para criar narrativas falsas e perseguir quem discorda. Criam uma cultura política podre, onde a lei só serve para os inimigos e os privilégios ficam com os amigos do poder.

O erro mais grave é achar que o poder de uma prefeitura do interior é pequeno demais para ser perigoso.

É exatamente o oposto! É no município que o cidadão está mais vulnerável. Em cidades onde o emprego na prefeitura é a única opção de sustento, onde o acesso a uma ambulância, a uma vaga na creche ou a um programa social básico depende do “favor” do gestor, o governante local detém um poder sufocante. Quando esse líder cruza a linha entre a autoridade e a tirania pessoal, ele transforma os direitos do povo em moeda de troca. Os limites do poder têm de ser implacáveis, ou a liberdade do cidadão morre na porta da prefeitura.

Ganhar uma eleição não dá a ninguém a propriedade da cidade! O prefeito não é o dono da Prefeitura. O vereador não é o dono da Câmara. O voto confere a obrigação temporária de servir ao povo sob regras rígidas, e não o direito de se comportar como o “dono do feudo”.

Quando um político troca o diálogo pela mordaça, o respeito pela humilhação de servidores públicos e a liderança pelo medo, a essência da democracia apodrece. Esses tiranetes usam o aparato público — os carros oficiais, os contratos de prestação de serviço, as nomeações — como armas de guerra para esmagar qualquer um que ouse contestar a sua vontade. A pergunta deles nunca é “isso é legal?”, mas sim “como posso usar o meu cargo para prejudicar quem não me apoia?”. Isso não é gestão; é perseguição política pura e simples.

Uma sociedade saudável não pode aceitar a desculpa covarde de que “se a Justiça Eleitoral ou o Ministério Público ainda não condenaram, então está tudo bem”. Há comportamentos que são absolutamente imorais e incompatíveis com a dignidade de um cargo público! Não podemos aceitar o silêncio cúmplice ou a falta de transparência das Câmaras Municipais que deveriam fiscalizar, mas preferem fechar os olhos em troca de favores. Quem se cala perante o abuso, torna-se cúmplice da tirania.

A democracia só sobrevive onde existe o respeito aos limites. Quem exerce o poder precisa engolir a crítica, aceitar a fiscalização da oposição, responder aos órgãos de controle e respeitar a soberania do cidadão. O silêncio e a passividade perante os pequenos abusos de hoje em nossas cidades pavimentam o caminho para a opressão de amanhã.

O poder pertence ao povo, não ao bolso de quem governa. Não abaixe a cabeça para quem deveria estar trabalhando para você!

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