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PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

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A guerra nas trincheiras, verdadeiro moedor de carne humana, foi uma das situações marcantes da Primeira Guerra Mundial. – Fonte – http://www.sahistory.org.za/article/world-war-ihttp://www.sahistory.org.za/sites/default/files/article_image/worldwar1somme-tl.jpg

Envolvimento do país no conflito é pouco conhecido, mas digno de um bom enredo, que começa com o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães e termina com a participação na criação da Liga das Nações.

Por Luciana Fagundes e Sagran Carvalho.

Fonte – https://cafenofront.wordpress.com/2017/10/26/participacao-brasileira-na-primeira-guerra-mundial/

A Grande Guerra ou Primeira Guerra Mundial começou em agosto de 1914 e terminou em novembro de 1918. Tal evento dramático aglutinou, inicialmente, as forças aliadas da chamada Tríplice Entente, composta pelo reino da Grã-Bretanha, os impérios da Rússia e do Japão e a República da França, contra as forças da Tríplice Aliança, composta pelos impérios centrais da Alemanha e da Áustria Hungria, o império Turco-Otomano e o reino da Itália. No desenrolar do conflito, ambos os lados sofreram alterações em sua composição: a própria Itália entrou efetivamente na guerra ao lado da Tríplice Entente e não da Tríplice Aliança, e o Império Russo retirou-se da guerra em 1917 devido a graves problemas internos, ocupando seu lugar na Entente os Estados Unidos. A princípio neutro diante do conflito, o Brasil revogou a neutralidade em favor da França, Rússia, Grã- Bretanha, Japão, Portugal e Itália em junho de 1917, reconheceu o estado de guerra em novembro seguinte e enviou uma Divisão Naval em Operações de Guerra em maio de 1918.

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Tropas alemãs com proteção contra gases – Fonte – http://www.emersonkent.com/wars_and_battles_in_history/world_war_I.htm

DA NEUTRALIDADE À PARTICIPAÇÃO

As preocupações com uma guerra generalizada na Europa mostraram-se frequentes já no final do século XIX. Um sinal da iminência da guerra foi a corrida armamentista que se acelerou no início do século XX, conduzida em grande medida pela situação internacional que lançou as nações em uma acirrada competição. A Europa dividiu-se gradualmente em dois blocos, derivados do surgimento no cenário europeu de um Império Alemão unificado, através de alianças e contra alianças. Tais blocos, fortalecidos por planos de estratégia e mobilização, tornaram-se mais rígidos, arrastando todo o continente europeu para a guerra através de uma série de crises internacionais.

A crise final veio em 1914, com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria quando se encontrava em visita a Sarajevo.

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O atentado ao arquiduque, o estopim da guerra de 1914 – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ea/DC-1914-27-d-Sarajevo-cropped.jpg

Quando eclodiu a guerra na Europa, o Brasil matinha relações bastante cordiais com os principais países beligerantes, como a Alemanha, que era seu principal parceiro comercial, seguida pela Inglaterra e depois França. Outro setor onde se fazia notar a influência alemã era o militar. Desde a ascensão do marechal Hermes da Fonseca ao Ministério da Guerra em 1906, o Exército brasileiro seria profundamente influenciado pela organização militar alemã, com o envio inclusive de jovens oficiais para servirem no Exercito alemão, considerado o mais bem organizado da época.

Deflagrado o conflito, o governo brasileiro adotou a completa neutralidade, fixando regras para sua observação. Ao optar pela neutralidade, o Brasil sofreu com uma série de restrições comerciais impostas pelos países beligerantes aos países neutros. Um exemplo de tal ação foi a imposição pelos países aliados da statutory list, ou lista negra, uma relação de empresas em países neutros com as quais estava proibido o comércio por manterem relação com a Alemanha. A aplicação da lista negra provocou violentos protestos contra a Inglaterra, pois as consequências foram desastrosas para a economia brasileira. Tais protestos, dirigidos ao Itamaraty ou diretamente ao presidente da República, vinham principalmente de associações comercias que contavam com capitais alemães, como por exemplo, firmas exportadoras de café, que foram incluídas na lista negra e exigiam a interferência constante do Itamaraty junto aos cônsules ingleses. A dificuldade de comércio com a Europa abriu amplas oportunidades para a entrada de produtos norte-americanos, possibilitando o crescimento dos Estados Unidos como principal parceiro econômico das nações latino-americanas, especialmente do Brasil. Outra implicação da guerra que afetou negativamente a economia brasileira do período foi a crise dos transportes marítimos, devido à falta crescente de navios de comércio e aos riscos da navegação para o exterior, o que dificultou ainda mais a exportação do café, limitando seus mercados consumidores.

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O teórico militar prussiano Carl von Clausewitz escreveu uma vez que “a guerra é uma continuação da política por outros meios”, e sendo isso verdade, então, para entender a Grande Guerra é preciso começar com a política da Europa. No final do conflito quatro impérios já não mais existiam e a contagem final de baixas militares e civis é estimada em mais de 37 milhões de seres humanos. Nesta imagem, um oficial francês é atingido por disparos de uma metralhadora durante um contra-ataque em Verdun, 1916 – Fonte – https://io9.gizmodo.com/11-intriguing-ways-world-war-i-could-have-turned-out-di-1652195903

“ALIADÓFILOS”, “NEUTRAIS” E “GERMANÓFILOS”

O posicionamento do Brasil no conflito mundial, além de problemas comerciais, suscitou um intenso debate que dividiu a opinião de intelectuais e políticos entre “aliadófilos”, “neutrais” e “germanófilos”. Eram evidentes, todavia, as simpatias pelos Aliados. A própria invasão da Bélgica pelos alemães em agosto de 1914, logo no início da guerra, provocou uma moção apresentada à Câmara dos Deputados pelo parlamentar Irineu Machado na qual o Brasil se colocava contrário à ação alemã, por tratar-se de clara violação de tratados e desconsideração das leis internacionais. A fundação, no ano seguinte, da Liga Brasileira pelos Aliados marcou claramente a preferência pela causa das nações da Entente. Para presidente da entidade foi escolhido Rui Barbosa, e para vice, o ensaísta e crítico literário José Veríssimo. Também integravam a Liga Graça Aranha, Barbosa Lima, Olavo Bilac e Manuel Bonfim.

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Fonte – https://blogdoenem.com.br/primeira-guerra-mundial-historia-enem-2/

Entre os simpatizantes dos impérios centrais, a voz mais ativa era do deputado Dunshee de Abranches, que, quando do início do conflito, ocupava o posto de presidente da Comissão de Diplomacia da Câmara. Na visão de Abranches, a origem do conflito era puramente comercial e econômica, e tinha como objetivo a destruição da prosperidade nacional da Alemanha. Abranches criticou a ingenuidade dos aliadófilos que acreditavam no discurso inglês de defesa da civilização contra a barbárie, considerando fruto da propaganda britânica as denúncias de violências praticadas nas invasões alemãs à Bélgica e França. Tal postura acabou levando à sua renúncia à posição de presidente da Comissão de Diplomacia.

Quanto aos que defendiam uma posição neutra, seu principal argumento residia no fato de que a posição “aliadófila” significava um alinhamento automático aos Estados Unidos, o que colocava o Brasil em uma posição de dependência em relação àquele país. A manutenção da neutralidade também foi defendida pela imprensa carioca no início do conflito, justificada pela tradição pacifista nacionalista, e contava com figuras de destaque na opinião pública, como Assis Chateaubriand, Vicente de Carvalho, Jackson de Figueiredo, Azevedo Amaral, Carlos Laet e Alberto Torres.

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A aviação obteve um grande desenvolvimento com a Primeira Guerra – Fonte – Mrs. Warner’s 4th Grade Classroom

INTEGRIDADE DAS AMÉRICAS

À medida que o conflito se expandia pela Europa, propostas de alianças diplomáticas surgiram entre as nações americanas, como a ideia de um Tratado Pan-Americano, sugerida pelo presidente norte americano Woodrow Wilson com o objetivo de garantir a independência política e a integridade territorial de todos os países das Américas. Outra iniciativa foi a realização da Conferência Pan-Americana em Washington, com o objetivo de discutir uma reação hemisférica em caso de ameaça de ataques de submarinos alemães.

As negociações diplomáticas não prosseguiram, e a realização da conferência em Washington tornou-se inviável com o decorrer da guerra; já o Tratado Pan-Americano enfrentou dificuldades, como o posicionamento do ministro brasileiro Lauro Müller, que defendia a continuidade da neutralidade brasileira, embora a opinião pública nacional se inclinasse à adesão às forças da Entente.

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Soldados franceses em Verdun – Fonte Getty Images

Em janeiro de 1917, o quadro ficou mais complicado, quando o governo alemão resolveu declarar guerra submarina irrestrita com a finalidade de bloquear o comércio aliado. O governo brasileiro protestou, declarando não aceitar o bloqueio; já o governo norte americano rompeu relações diplomáticas com a Alemanha. A ruptura de relações diplomáticas dos Estados Unidos foi seguida de um convite do presidente norte-americano Woodrow Wilson às nações neutras para que estas acompanhassem tal atitude e também rompessem relações com a Alemanha. O Brasil não aceitou o convite, e por isso enfrentou severas críticas da imprensa brasileira, que exigia a mudança de posição do país no conflito.

Alguns meses depois, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha, no mesmo momento em que o Brasil, após o torpedeamento do vapor brasileiro Paraná por submarinos alemães, decidiu romper relações diplomáticas e comerciais com a Alemanha, em 11 de abril de 1917. A ação brasileira incluiu também declarar sem efeito os exequatur de todos os funcionários consulares alemães.

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Notícia do afundamento do navio brasileiro Acary.

Após o afundamento do Paraná, o ministro Lauro Müller ficou em uma situação difícil. O rompimento de relações com a Alemanha não era suficiente, e crescia a pressão para a entrada do Brasil na guerra. A ascendência germânica do ministro e a oposição da opinião pública à sua atuação no ministério levaram à sua saída da pasta em 3 de maio de 1917.

Dois dias após assumiu o ministério Nilo Peçanha, admirador do aliadófilo Rui Barbosa. A entrada do novo ministro foi decisiva para a mudança da posição brasileira, para a qual contribuiu também o torpedeamento dos vapores brasileiros Tijuca Lapa por submarinos alemães.

BRASIL EM GUERRA

Após as agressões alemãs, o governo brasileiro pediu e obteve do Congresso autorização para declarar sem efeito o decreto que estabelecia a neutralidade brasileira na guerra dos Estados Unidos contra o Império Alemão e para utilizar os 46 navios mercantes alemães ancorados em portos nacionais.

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O presidente da República Venceslau Brás declara guerra contra o Império Alemão e seus aliados. Ao seu lado, o ex-presidente da República e ministro interino das Relações Exteriores, Nilo Peçanha, e o presidente de Minas Gerais e futuro presidente da República, Delfim Moreira – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil_na_Primeira_Guerra_Mundial

O posicionamento ao lado dos Estados Unidos ficou claro, ressaltado na mensagem de Nilo Peçanha enviada em 2 de junho aos governos estrangeiros, justificando a revogação da neutralidade pelas práticas de solidariedade continental características da política externa brasileira. Também foram utilizadas como justificativa a Doutrina Monroe e a amizade tradicional com os Estados Unidos. A revogação da neutralidade em favor da França, Rússia, Grã-Bretanha, Japão, Portugal e Itália foi decretada ainda em junho de 1917 e apontou como justificava a reincidência de ataques de submarinos alemães a vapores brasileiros.

O reconhecimento do estado de guerra com o Império Alemão se deu após o torpedeamento do vapor brasileiro Macau e do aprisionamento de seu comandante. A lei de guerra foi sancionada em 16 de novembro de 1917, e proibiu aos alemães no Brasil todo comércio com o exterior, bem como o transporte de carga inimiga em navios nacionais e a remessa de fundos para o exterior. Foram cassadas também as licenças para o funcionamento de companhias de seguro e bancos alemães.

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A entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial como nação beligerante colocou-o em um seleto grupo junto com os Estados Unidos e as repúblicas centro-americanas, uma vez que Uruguai, Peru, Equador e Bolívia apenas romperam relações diplomáticas com a Alemanha, e Argentina, Chile, México, Venezuela e Paraguai mantiveram-se neutros.

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Participação militar brasileira na Primeira Guerra Mundial foi discreta, mas conflito deu início a mudanças substanciais na realidade do país – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141110_brasil_guerra_fd

Já como nação beligerante, o Brasil participou da Conferência Interaliada em Paris, realizada de 30 de novembro a 3 de dezembro de 1917, tendo como representante Olinto de Magalhães, ministro plenipotenciário junto ao governo francês. Nesse momento, o governo brasileiro resolveu participar efetivamente do conflito, através do envio de forças de guerra.

DNOG

A participação brasileira na Primeira Guerra ao lado das forças aliadas consistiu no envio de uma divisão naval composta dos scouts Rio Grande do Sul Bahia, dos destroyers ParaíbaRio Grande do NortePiauí Santa Catarina, e do transporte de guerra Belmonte.

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Um dos navios enviados pelo Brasil para o conflito, o cruzador “Bahia” teria matado um bando de golfinhos por engano ao confundi-los com um submarino – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141110_brasil_guerra_fd

Sob o nome de Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG), e sob o comando geral do contra-almirante Pedro Max de Frontin, a divisão partiu com destino à Europa em 16 de maio de 1918. Outras providências tomadas pelo governo brasileiro foram o envio de nove oficiais aviadores da Marinha e do Exército para auxiliar nos combates aéreos, e de uma missão chefiada pelo deputado e médico Nabuco de Gouveia à França, composta de médicos-cirurgiões que, auxiliados por um corpo de estudantes e de soldados do Exército, constituíram o Hospital do Brasil para o tratamento de feridos de guerra. A instituição continuou prestando assistência aos feridos mesmo depois de encerrado o conflito.

Após muitas dificuldades técnicas, a Divisão Naval brasileira chegou a Dacar, onde a guarnição brasileira foi vítima de uma epidemia de gripe espanhola. Apenas parte da esquadra conseguiu seguir viagem e chegar a seu destino, o porto de Gibraltar, um dia antes do armistício (11 de novembro de 1918) que encerrou a Primeira Guerra Mundial.

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Além das operações navais, participação brasileira ocorreu com envio de uma missão médica para frente europeia

Apesar de uma atuação inexpressiva militarmente, o Brasil foi o único país da América do Sul a participar do conflito, o que garantiu sua presença na Conferência de Paz, que seria realizada em 1919 em Versalhes, e na organização da Liga das Nações.

Implicações importantes da Primeira Guerra Mundial no Brasil foram a consolidação da política externa brasileira voltada para os Estados Unidos e a desilusão com civilização Belle Époque que marcou o pós-guerra, anunciando o declínio da cultura europeia e a aurora do novo mundo representado pela América.

FONTES: BARRETO, F. Sucessores; BUENO, C. Política; GARAMBONE, S.

Primeira; VINHOSA, F. Brasil.

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O MILAGRE DO NATAL DE 1914

OS INUSITADOS ACONTECIMENTOS DA CONFRATERNIZAÇÃO NATALINA ENTRE INIMIGOS DURANTE A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

O milagre do Natal de 1914
O milagre do Natal de 1914

Tudo teve início quando foram assassinados em Sarajevo, na Sérvia, o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sofia. A ação foi realizada por um estudante, mas toda trama fora criada por um membro do governo sérvio. Em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia. Grã-Bretanha, França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Tinha início a Primeira Guerra Mundial, conhecida então como Grande Guerra.

Na sequência o mundo viu um ataque alemão inicial através da Bélgica em direção a França. Este avanço foi repelido no início de setembro de 1914, nos arredores de Paris pelas tropas francesas e britânicas, na chamada Primeira Batalha do Marne. Os aliados empurraram as forças alemãs para trás cerca de 50 km. Os germânicos seguem para o vale do Aisne, onde prepararam suas posições defensivas.

Um infogr´´afico pyublicado na primeira página do jornal recifense Diário de Pernambuco, explicando sobre a nova guerra na Europa
Um infográfico publicado na primeira página do jornal recifense Diário de Pernambuco, explicando sobre a nova guerra na Europa

As forças aliadas não foram capazes de avançar contra a linha alemã e a luta rapidamente degenerou em um impasse. Nenhum dos lados estava disposto a ceder terreno e ambos começaram a desenvolver sistemas fortificados de trincheiras. Isso significou o fim da guerra móvel no oeste.

Em novembro daquele ano existia desde o litoral do Mar do Norte, até a fronteira suíça, todo um grande complexo de trincheiras, ocupado em ambos os lados por milhares de soldados em posições defensivas.

O uso de trincheiras caracterizou a Primeira Guerra Mundial
O uso de trincheiras caracterizou a Primeira Guerra Mundial

A utilização de trincheiras não era nenhuma novidade em guerras. A novidade era a extensão, a dimensão destes sistemas de defesa, a quantidade de homens que as utilizavam e o uso massivo da artilharia e do fogo de metralhadoras.

Logo se percebeu que os soldados não tinham muito para onde ir. Cara a cara, a poucos metros um dos outros, agachados em suas trincheiras, os homens esperavam o momento oportuno para ir de granada de mão, matando aqueles do outro lado. Outras pessoas como eles. A compaixão tinha desaparecido da terra e deu lugar a uma hostilidade implacável.

Quando não era o combate a rotina era apenas ficar nas suas trincheiras esperando e observando as ações do inimigo, mas com cuidado, pois um franco atirador a espreita poderia matar qualquer um. De vez quando cada lado tentava um ataque, que normalmente era infrutífero e ainda ocasionava muitas mortes, principalmente aos atacantes.

Trincheira britânica em pleno momento do combate
Trincheira britânica em pleno momento do combate

Os homens estavam enfiados dentro de tuneis e buracos lamacentos, tiritando de frio, fedendo, com piolhos espalhados pelo corpo todo. O mau cheiro imperando devido às latrinas descobertas e os corpos em decomposição atraindo milhares de ratazanas. Eles comiam pessimamente e a higiene era sofrível. Afora tudo isso ainda havia a tensão de repente levar um tiro, ou uma granada de um canhão cair dentro de sua trincheira.

O entusiasmo inicial e o orgulho dos soldados de ambos os lados há muito havia se esvaído. Em dezembro o moral das tropas já despencara e logo o último mês de 1914 se aproximava do seu fim.

O Carisma da Época do Natal

Para a maioria dos soldados ingleses, franceses, belgas e alemães envolvidos no conflito e vindos das camadas sociais mais simples de suas nações, as razões deles estarem combatendo eram um tanto quanto distantes e difusas.

A espera em uma trincheira francesa
A espera em uma trincheira francesa

Muitos desejavam estar em suas casas, junto as suas famílias, aproveitando o Natal.

Consta que em praticamente toda a chamada Frente Ocidental, dos dois lados das trincheiras, próximo ao Natal chegaram para os soldados saudosos e tristes as tão esperadas cartas vindas de seus lares.

Em vários locais da Frente Ocidental, depois de dias de chuva e frio, a manhã de 24 de dezembro surgiu com um belo céu azul e o sol brilhante. Na véspera daquele Natal as trincheiras estavam mais animadas.

Então chegou a noite de 24 de dezembro. A artilharia ficou em silêncio e logo a coisa toda começou devagar, espontaneamente, em vários locais e discretamente.

O Milagre

Várias testemunhas concordam que, na maioria dos casos, foram os alemães que começaram por colocar velas em suas trincheiras e em árvores de Natal, em seguida iniciaram canções de Natal (Stille Nacht, Heilige Nacht), criando um efeito mágico no espaço aberto entre as duas trincheiras inimigas, a chamado de terra de ninguém.

Consta que em um dos locais, um cantor alemão declamou de forma magistral canções natalinas, sendo entusiasticamente aplaudido e seguido em sua canção por soldados de ambos os lados. Animados, muitos os soldados franceses subiram nos parapeitos de suas trincheiras aplaudindo. Logo pediram para o alemão bisar a música.

Essas músicas lembravam aos soldados de ambos os lados que este período tinha um forte sentido simbólico, onde todos preferiam estar em casa. Logo percebiam que eles não eram tão diferentes.

Soldados alemães do 134 Regimento da Saxônia e os soldados britânicos do Real Warwickshire Regiment se reúnem na terra de ninguém em 26 de dezembro de 1914
Soldados alemães do 134 Regimento da Saxônia e os soldados britânicos do Real Warwickshire Regiment se reúnem na terra de ninguém em 26 de dezembro de 1914

Os inimigos continuaram gritando saudações de Natal. Em seguida houve excursões discretas pela terra de ninguém. Após as saudações iniciais pequenos presentes foram trocados, tais como alimentos, tabaco, álcool, botões, chapéus e até guirlandas.

Milagrosamente durante o início das confraternizações, poucos soldados foram mortos por forças opostas. Os soldados britânicos e alemães descobriam ter mais em comum entre si que com seus superiores – instalados confortavelmente bem longe da frente de batalha. Já franceses e belgas eram menos afeitos a tomar parte no clima festivo. Seus países haviam sido invadidos (no caso da Bélgica, 90 por cento de seu território estava ocupado), para eles era mais difícil apertar a mão do inimigo.

Não há dúvida de que para estas confraternizações ocorrerem no Natal de 1914, as canções devem ter desempenhado um papel importante, como uma espécie de gatilho gerador do contato. Não devemos esquecer que o canto é um elemento essencial no processo de fusão de grupo. Todos eram homens que sofriam e estavam longe de suas famílias. A partir desse momento, a confraternização se tornou possível.

Enterros

A trégua permitiu também o recolhimento de corpos de soldados mortos, o que certamente deve ter melhorado e muito a respiração de todos. Serviços conjuntos de sepultamentos foram realizados.

Encontro para o enterramento nas trincheiras
Encontro para o enterramento nas trincheiras

No ótimo site http://militanciaviva.blogspot.com.br encontramos uma interessante narrativa relativa àqueles encontros tão inusitados. Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam apontadas para ele. Mas, antes que disparassem um sargento inglês, contrariando ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir no dia seguinte, às 9 horas da manhã.

No dia seguinte, 25 de dezembro, ao longo de toda a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um acontecimento banal.

O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade, mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”, disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma. No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso. Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix foi o maior de todos.

Relatos de Dias Fantásticos

Mesmo com as restrições para o uso de câmeras nas trincheiras, logo alguém estava fotografando e estas fotos que sobreviveram até nossos dias são um documento pungente daqueles dias incríveis.

Soldados britânicos da  Northumberland Hussars , 7 ª Divisão e alemães reunidos em terra de ninguém durante a trégua não oficial
Soldados britânicos da Northumberland Hussars , 7 ª Divisão e alemães reunidos em terra de ninguém durante a trégua não oficial

Ao redor da cidade belga de Ypres, no início da manhã de 25 de dezembro, os britânicos ouviram cânticos de Natal vindo das posições inimigas e também das trincheiras francesas e, em seguida, descobriram que árvores de Natal haviam sido colocadas ao longo das trincheiras alemãs. Lentamente, colunas de soldados alemães surgiram a partir de suas trincheiras e avançaram desarmados e chamando os ingleses para vir e confraternizar.

O Capitão inglês Bruce Bairnsfather, que na vida civil era humorista e cartunista de sucesso, que servia no  Real Warwickshire Regiment, comentou que trocou suvenires com um capitão alemão e viu um dos seus comandados, barbeiro na vida civil, cortando o cabelo de um alemão, que docilmente se ajoelhou enquanto seu inimigo passava uma afiada tesoura a centímetros de sua jugular.

O incrível do fato é que a trégua informal propagou-se para outras áreas. Em muitos setores a tranquilidade só durou essa noite, mas em algumas áreas durou até o ano novo, e outras chegaram inclusive até o mês de fevereiro.

No dia 29 de dezembro de 1914, o jornal natalense A Republica publicou uma pequena nota sobre o fato
No dia 29 de dezembro de 1914, o jornal natalense A Republica publicou uma pequena nota sobre o fato

Alguns soldados relataram os acontecimentos em diários. Edward Hulse, um tenente inglês dos Scots Guards, com 25 anos de idade, escreveu no diário de guerra do seu batalhão: “Nós iniciamos conversações com os alemães, que estavam ansiosos para conseguir um armistício durante o Natal. Um batedor chamado F. Murker foi ao encontro de uma patrulha alemã e recebeu uma garrafa de uísque e alguns cigarros e uma mensagem foi enviada por ele, dizendo que se nós não atirássemos neles, eles não atirariam em nós”. Consequentemente, as armas daquele setor ficaram silenciosas àquela noite. Em diversas partes do front os soldados trocaram cartas para serem entregues a familiares e amigos que viviam em cidades e vilarejos que estavam em conflito.

Sem pensar em se matarem, dava até tempo para uma pelada.

Há muitas histórias de partidas de futebol entre as forças inimigas. Há cartas que confirmam que em Wulvergem, na Bélgica o jogo foi só pelo prazer da brincadeira, ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2, a partida foi encerrada depois que a bola – esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.

Outra nota trazendo detalhes do acontecimento publicado no Brasil, então um país neutro
Outra nota trazendo detalhes do acontecimento publicado no Brasil, então um país neutro

Nas áreas onde a confraternização não progrediu tanto, temos o relato de Alfred Anderson, um marceneiro escocês, que faleceu em 2005, com 109 anos, sendo considerado a última testemunha da Trégua do Natal de 1914. Eis o seu relato na manhã do dia 25 de dezembro;

“Lembro-me do silêncio, o som estranho de silêncio. Só os guardas estavam de plantão. Fomos todos para fora e fiquei escutando. E, claro, pensando nas pessoas em casa. Tudo o que eu tinha ouvido durante dois meses nas trincheiras era o assobio das bombas, zunido das balas, metralhadoras e vozes distantes dos alemães. Mas havia um silêncio enorme naquela manhã. Nós gritamos Feliz Natal, embora ninguém se sentisse alegre. O silêncio terminou no início da tarde e a matança começou de novo. Foi uma curta paz em uma guerra terrível.”

O episódio mais famoso destas confraternizações foi provavelmente os encontros ocorridos na área das trincheiras existentes na planície de Courcy, ao oeste da cidade francesa de Reims, com as tropas do Regimento de Infantaria 74 (francês) e do 7º de Caçadores (alemão).

Reações Oficiais e as Notícias da Trégua Chegam em Casa

Em Wijtschate, na Bélgica, uma pessoa em particular também ficou muito irritada com toda esta situação. Lutando ao lado dos alemães, o jovem cabo austríaco Adolf Hitler queixava-se do fato de seus companheiros cantarem com os britânicos, em vez de atirarem neles.

Uma trincheira alemã
Uma trincheira alemã

Ele não era o único. Dos quartéis-generais, os senhores da guerra mandaram ordens contra qualquer tipo de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes, muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências, continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.

As reações à trégua de Natal vieram de várias fontes. Os Governos aliados e o alto-comando militar reagiram com indignação (principalmente entre os franceses). O Comandante-em-chefe britânico, Sir John French, possivelmente tinha previsto a suspensão das hostilidades no Natal quando emitiu uma ordem antecipada alertando suas forças para um provável aumento da atividade alemã durante o Natal: ele, portanto, instruiu seus homens para redobrar o estado de alerta durante esta época.

Quase imediatamente à trégua, as mensagens enviadas chegaram para os familiares e amigos daqueles servindo no front através do método usual: cartas para casa. Estas cartas foram rapidamente utilizadas por jornais locais e nacionais, incluindo alguns na Alemanha.

No Daily Mirror
No Daily Mirror

Apesar da censura e posterior destruição de muitas das fotos tiradas durante o evento, algumas chegaram até Londres e foi estampado na primeira página de muitos jornais, incluindo o Daily Mirror, intitulado “Um grupo histórico: os soldados britânicos e alemães fotografados juntos” em 08 de janeiro de 1915.

Nas cartas para casa, os soldados na linha de frente foram praticamente unânimes em expressar seu espanto com os eventos do Natal de 1914.

O que chama atenção nas fotos destes encontros é a ausência do armamento e a descontração
O que chama atenção nas fotos destes encontros é a ausência do armamento e a descontração

Um jornal alemão reproduziu o sentimento de um cabo que enviou uma carta a sua família em Colônia: “Aquele foi um dia de paz na guerra; é uma pena que não tenha sido a paz definitiva”.
Já um jornal britânico transmitiu como o cabo John Ferguson viu a tréguas no seu setor: “Nós apertamos as mãos, desejando Feliz Natal e logo estávamos conversando como se nos conhecêssemos há vários anos. Nós estávamos em frente às suas cercas de arame e rodeados de alemães – “Fritz” e eu no centro, conversando e ele, ocasionalmente traduzindo para seus amigos o que eu estava dizendo. Nós permanecemos dentro do círculo como oradores de rua. Logo, a maioria da nossa companhia, ouvindo que eu e alguns outros havíamos ido, nos seguiu… Que visão – pequenos grupos de alemães e ingleses se estendendo por quase toda a extensão de nossa frente! Tarde da noite nós podíamos ouvir risadas e ver fósforos acesos, um alemão acendendo um cigarro para um escocês e vice-versa, trocando cigarros e souvenires. Quando eles não podiam falar a língua, eles tentavam se fazer entender através de gestos e todos pareciam se entender muito bem. Nós estávamos rindo e conversando com homens que só umas poucas horas antes estávamos tentando matar!”

Conclusão

Nos anos subsequentes os oficiais ordenaram bombardeios de artilharia na véspera da festividade para assegurar-se de que não houvesse mais tanto congraçamento no meio dos combates. Mesmo assim ainda aconteceram encontros amigáveis entre soldados, mas em uma escala muito menor que em 1914.

Nos anos seguintes a duração da Primeira Guerra Mundial, que só se encerrou em 1918, sempre próximo ao Natal, os comandantes aumentavam a ação da artilharia para evitar as confraternizações
Nos anos seguintes a duração da Primeira Guerra Mundial, que só se encerrou em 1918, os comandantes aumentavam a ação da artilharia sempre próximo do Natal para evitar as confraternizações

Este fato incrível, inclusive pouco comentado em livros e jornais norte-americanos, é incrível em muitos aspectos, principalmente quando analisamos a própria estrutura básica da existência do sistema militar.

Uma guerra não é uma brincadeira. Ali não existem mocinhos e bandidos como no cinema. Ali se estar para matar e morrer.

Foram mais de 16 milhões de mortes e 20 milhões de feridos durante a Primeira Guerra Mundial
Foram mais de 16 milhões de mortes e 20 milhões de feridos durante a Primeira Guerra Mundial

Uma das funções básicas das forças militares é ser capaz de usar a violência organizada contra os adversários, onde a chave para o seu desempenho positivo se baseia na obediência inquestionável as ordens emanadas dos oficiais, mesmo que muitos destes sejam completamente incompetentes.

Por causa da morte de outros seres humanos, as tarefas militares não são facilmente realizadas por muitas pessoas. Para preparar o elemento vindo do meio civil, estes são submetidos a um forte treinamento intensivo, doutrinação profunda e isolamento em um ambiente militar, tornando-o duro e preparado para matar.

Recente cerimônia para comemorar o Milagre do Natal de 1914, que no próximo ano completa seu centenário
Recente cerimônia para comemorar o Milagre do Natal de 1914, que no próximo ano completa seu centenário

Quando imaginamos toda a estrutura deste sistema no início do século XX, em meio a uma guerra ampla e tecnologicamente mortal, percebemos que a ocorrência daqueles episódios em 1914, foi um verdadeiro milagre.

Fonte – Parte das informações coletadas no site http://militanciaviva.blogspot.com.br