O PRIMEIRO HISTORIADOR DA TERRA POTIGUAR – NOTÍCIA SOBRE MANOEL FERREIRA NOBRE

AUTOR – LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

FONTE – REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE, PÁGINAS 5 a 10, VOLUME — LV — 1962 – 1963.

FONTE DA FOTO PRINCIPAL – LIVRO – NATUREZA E HISTÓR4IA DO RIO GRANDE DO NORTE, DE JOÃO ALVES DE MELO, NATAL, 1950, PÁGINA 515.

— I —

Manoel Ferreira Nobre foi o primeiro norte-rio-grandense a publicar um volume sobre sua Província. É a BREVE NOTICIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, impresso na Tipografia Espírito-Santense, rua de São Diogo, n. 3, Vitória, em 1877.

São 208 páginas, contando as de rosto, dedicatória (ao Conselheiro João José de Oliveira Junqueira, Senador do Império e antigo Presidente do Rio Grande do Norte em outubro de 1859 a abril de 1860). Foi impresso à custa do autor e custava dois mil réis.

Resta (em 1962-1963), de toda edição, apenas UM EXEMPLAR, pertencente à Biblioteca do nosso Instituto Histórico.

Merece reedição anotada porque os enganos e erros atingem boa percentagem.

Tavares de Lira era o meu único informante. Ferreira Nobre nascera em Natal em 1833 e falecera no “começo de 1889, si não ha engano nas informações de que dispomos”, concluía, prudente, o historiador.

Comecei a caçada nos arquivos. Descobri o batismo do homem, 21 de março de 1824, pelo padre Feliciano José Dornelas. Era o nosso primeiro historiador nascido em Natal e filho do Alferes Manoel Ferreira Nobre e Dona Inácia Joaquina de Almeida, neto paterno do capitão Vicente Ferreira Nobre e Dona Ana Rosa da Apresentação, e materno do capitão José do Rego Bezerra e Dona Antônia Úrsula da Costa, todos da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, exceto o avô materno que era de São Lourenço da Mata, em Pernambuco. Padrinhos, o avô paterno e a avó materna.

Não teve estudos maiores e creio que os menores bastaram à sua inquieta, buliçosa e viva personalidade. Foi político filiado ao Partido Liberal.

O Desembargador Antônio Soares descobriu a data do casamento de Ferreira Nobre, 6 de maio de 1842. Casara com Olímpia Gerarda de Andrade, filha natural de Inês Cipriana Gerarda de Andrade. Testemunhas, o doutor Basílio Quaresma Torreão, juiz de direito da capital, e o professor Antônio José de Moura. Oficiou o Vigário Bartolomeu da Rocha Fagundes. Há descendência deste matrimônio. Ainda o desembargador Antônio Soares identificou a data do falecimento da esposa de Ferreira Nobre. Enviuvara este a 30 de maio de 1875. Voltou a casar-se, sendo sua mulher Dona Inácia de Oliveira Sucupira de quem não houve filhos.

Rastejei Ferreira Nobre em suas andanças e percalços.

Oficial-Menor da Assembleia Legislativa a 6 de fevereiro de 1852, com 400$ anuais.

Ajudante de Ordens do Presidente da Província Antônio Francisco Pereira de Carvalho em 1853.

Oficial-Maior da Assembleia em 29 de julho de 1856, com 1.100$ por ano.

Deputado Provincial no biênio de 1860-61, com ação movimentada, figurando em discussões, projetos, comissões. Segundo Secretário da Assembleia.

Ajudante de Ordens do Presidente Pedro Leão Veloso, acompanhou-o em sua viagem pelo interior da Província em julho e agosto de 1861.

Demitido a 17 de junho de 1864 em pleno domínio do seu Partido.

Foi capitão da Guarda Nacional, sendo comandante da Segunda Companhia do Primeiro Corpo de Voluntários da Pátria, que combateu na Guerra do Paraguai. Partiu de Natal para a Capital do Império a 9 de junho de 1865, onde Ferreira Nobre foi julgado incapaz pela junta de Saúde e dispensado do serviço militar a 4 de janeiro de 1866.

Renomeado Oficial-Maior da Assembleia em 4 de março de 1868. Permutou seu cargo a 12 do mesmo mês com Francisco Bezerra Cavalcanti da Rocha Marajá que era Bibliotecário Público Provincial. Nesse posto aposentou-se, não sei quando.

Com os conhecimentos e prática que sua inteligência orientava agilmente dedicou-se à advocacia nos municípios próximos à Capital. Ceará-Mirim, São José de Mipibu, Vila Imperial de Papari, Arês, Goianinha, Canguaretama, defendendo os interesses de seus constituintes.

— II —

Aposentado, parece Ferreira Nobre haver ido residir em São José de Mipibu onde foi interino do 1° tabelionato de agosto a outubro de 1889 e serviu de secretário lavrando a ata da proclamação da República a 18 de novembro do mesmo ano.

Quando e onde faleceu? Este é o problema maior. Comecei a pesquisa arrastada anos e anos sempre que surgia oportunidade. Monsenhor Celso Cicco, vigário do Ceará-Mirim e o Doutor João Vicente da Costa, seu Juiz de Direito, fizeram buscas. Monsenhor Paulo Herôncio de Melo e o saudoso Doutor Joaquim Manoel de Meiroz Grilo repetiram a façanha em São José de Mipibu, inutilmente.

Em julho de 1940 revirei em Papari, pessoalmente, arquivos paroquiais e civis, perguntando aos velhos e moços. As estórias eram unânimes sobre a elegância do historiador. Ardileza e manha do advogado, orador excelente no júri e famoso na arte de enganar credores. Chamavam-no comumente “Fereira”.

Voltei em meados de 1942 a São José de Mipibu, Papari e Arês teimando em procurar o que se escondia no plano documental.

Em 1889 não falecera o ilustre Ferreira. Em 4 de outubro de 1890 assumira interinamente a Promotoria Pública de S. José de Mipibu. Foi nomeado pelo Juiz de Direito e requerendo os vencimentos a 9 de maio de 1891.

Advogara num Júri em Papari a 25 de fevereiro de 1893 e voltou a funcionar em 18 de julho de 1895.

O desembargador Antônio Soares escolhera Ferreira Nobre seu patrono da cadeira número VII na Academia Norte-rio-grandense de Letras e, com a meticulosidade, paciência e brilho que lhe conhecemos, debalde pesquisou a data do óbito de quem tão alto homenageava (“Revista da Academia”, n. 3,páginas 250-267, Natal, 1955).

A Senhora Maria das Dores de Barros Tinoco, neta de Ferreira Nobre, por intermédio de um amigo, informou-me ter seu avô falecido em Papari a 15 de agosto de 1902. O Senhor José Marcelino, funcionário da Prefeitura, dava a data de 15 de agosto de 1896. Rastejara, de perto, a verdadeira história.

Em Papari conversei o Senhor Cândido Freire Navarro, “Seu” Cândido, nascido a 13 de agosto de 1856 e filho do profesdsor Manoel Laurentino Freire Navarro, aposentado em 1878, falecido a 5 de novembro de 1899, com 84 anos. Foi a vida inteira professor em Papari.

Cândido Freire contou-me que Ferreira adoecera gravemente em Arês e o presidente da Intendência de Papari, coronel José Joaquim de Carvalho Araújo, mandara buscá-lo, sendo carinhosamente transportado numa rede. Em Papari falecera, num domingo, sendo dado sepultura no cemitério local. Também inútil uma visita no cemitério de Papari. Nenhuma lápide trazia o nome procurado.

Ferreira era de estatura mediana, robusto, simpático, de voz agradável, cabelo ondeado, castanho e fino, olhos claros. Usava óculos, conservando barba suíça.

Por um simples acaso deparei a data do complicado óbito.

No jornal natalense A REPUBLICA de 20 de agosto de 1897 publica-se o “Expediente do Governo” do dia 17 do mesmo agosto. Para alegria de um pesquisador obstinado encontrei o registro num ofício do Governador para o Inspetor do Tesouro: — “Para os devidos efeitos, comunico-vos que, em data de 15 do corrente, faleceu na Vila de Papari o major Manoel Ferreira Nobre, empregado aposentado estadual, segundo participou-me o Presidente da Intendência daquele município”.

Manoel Ferreira Nobre faleceu em Papari, hoje Nísia Floresta, a 15 de agosto de 1897.

Acabou-se o problema…

— III —

Em 21 de março de 1954, Manoel Ferreira Nobre, nascido naquele dia e mês de 1824, completava 130 anos! Bonita data para uma comemoração ao irrequieto Ferreira que escrevera e publicara a nossa primeira História em 1877.

Não é bem história, mas crônica breve e sucinta, tendo informações corográficas e mesmo econômicas e administrativas.

O autor, oficial-maior da Secretaria da Assembleia Legislativa, e mesmo antigo deputado provincial, tinha à mão documentário excelente que lhe cabia fornecer às Comissões da casa.

Estava, como poucos, habilitado a conhecer o Rio Grande do Norte em seu aspecto diário de funcionamento normal.

Por isso escreveu a BREVE NOTICIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, que ele declara ser “baseada nas leis, informações e fatos consignados na Historia antiga e moderna”.

O volume, 208 páginas, foi impresso bem distante: “Na Tipografia Espírito-Santense, rua de São Diogo, n. 3, Vitória”. Creio que foi o primeiro livro norte rio-grandense impresso nos prelos capixabas.

O desembargador Antônio Soares, titular da cadeira FERREIRA NOBRE na Academia Norte-rio-grandense de Letras, e eu, temos dado ao velho cronista muito tempo, atenção e carinho de nossa vida. Deus sabe quanto procuramos reunir os escondidos e ralos elementos de sua atribulada existência. Hoje, mercê de Deus, como gostava de dizer Eloy de Souza, possuímos a biografia mais ou menos completa de Ferreira Nobre.

Um volume, vendido pelo alto preço de dois mil réis, foi desaparecendo das estantes e terminou sendo obra rara, tão rara, tão difícil e tão oculta que dela existe apenas um único exemplar, oferecido por Augusto Bezerra Cavalcanti ao Instituto Histórico e Geográfico. O volume pertencera ao Padre João Alípio da Cunha, gente de prol e mando em Goianinha.

Nem mais outro exemplar resta.

Em fins de 1953, propus a Nestor Lima, presidente do Instituto Histórico, que fizesse reeditar a BREVE NOTICIA, homenagem dos contemporâneos ao 130° aniversário do nascimento do autor.

Adiantei que não valia a pena, e menos o esforço, atualizar o livro porque perderia seu sabor arcaico, a graça de sua velhice conversadeira e saborosa.

Incluísse o estudo do desembargador Antônio Soares e eu cederia o resultado de minhas pesquisas para um posfácio, ajudando as pesquisas de Antônio Soares.

Nestor Lima concordou. Não me competia dar passo para a publicação, uma vez que a confiara ao Instituto Histórico, CASA DA MEMÓRIA do Rio Grande do Norte.

O livro continuou na sua edição de 1877, esgotado e fora do alcance dos olhos atuais.

Muita noticia sobre os municípios que existiam em 1877 vivem no BREVE NOTICIA de Ferreira Nobre.

Foi o nosso primeiro escritor a publicar volume na intenção de história.

Antes dele, nada existe. Começou a série…

Por que não reeditar Ferreira Nobre para informação e documento dos nossos e alheios estudos econômicos, políticos, históricos e geográficos?

Uma pequena edição bastaria para fazer circular um livro de que só resta o derradeiro exemplar…

EM TEMPO – A SEGUNDA EDIÇÃO DE BREVE NOTICIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, TÃO PEDIDA POR CÂMARA CASCUDO, FOI FINALMENTE PUBLICADA EM 1971, PELA EDITORA PONGETTI, DO RIO DE JANEIRO.

LOURIVAL AÇUCENA – O GRANDE ARTISTA DE NATAL

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A Provinciana Natal dos tempos de Lourival Açucena.

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Seu nome de batismo era Joaquim Eduvirges de Mello Açucena, nascido em Natal no dia 17 de outubro de 1827, quando a Independência do Brasil havia sido proclamada apenas cinco anos antes. Quando aquele jovem veio ao mundo a sua cidade era então muito acanhada, de população reduzidíssima, provinciana, longe de tudo e de todos e sem nenhuma importância. Tão sem importância que só recebia uma vez por mês um navio de cargas e passageiros.

Esse seria a imagem de Lourival Açucena – Fonte – https://nuhtaradahab.wordpress.com/2013/12/22/lourival-acucena-1827-1907/

Ele era filho de Manoel Joaquim Açucena, homem robusto, um nacionalista exaltado e grande tocador de violão. Aventuroso, consta que para se encontrar com sua futuras esposa, Maria Pacífica de Melo, o pai de Lourival Açucena atravessava o rio Potengi a nado e com a roupa na cabeça, depois andava léguas até a região de São Gonçalo do Amarante para se encontrar com a jovem Maria[1].

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De sua mãe Lourival Açucena herdou o gosto pela leitura dos clássicos do nosso idioma, o instintivo rigor gramatical e as frases apuradas. Do pai ficou a voz forte, o gosto pelo violão e uma fidelidade romântica pelas noites enluaradas.

Consta que Lourival Açucena estudou francês, latim, retórica, filosofia, mas não foi um estudante exemplar destas matérias. Exemplar mesmo o jovem foi com o violão nas mãos, que aprendeu com seu pai.

Em 1839, no final do Período Regencial, a Província do Rio Grande do Norte era governada pelo goiano Manuel de Assis Mascarenhas (veja imagem acima), que tinha inclusive o título de “Dom”[2]. Por esta época o jovem Lourival Açucena já era um exímio cantador e foi levado até o fidalgo Presidente por seu pai. Ao invés de declamar versos clássicos, como seria a praxe na época, o garoto atacou com um animado lundu e o então mandatário potiguar gostou bastante.[3]

Um Funcionário Público de Voz e Violão

Os que conhecem do tema, que não é o meu caso, afirmam que a sua poesia era ligada ao Romantismo, mas tinha forte relação tardia com o Arcadismo.

Jovem de espirito alegre, que fazia amizades de maneira muito fácil, amante das serestas, das noitadas, teve uma vida agitada e participava ativamente dos serões boêmios de Natal. Apesar disso, segundo Luís da Câmara Cascudo, não era chegado a bebidas. Isso talvez explique como alguém que gostava de cantorias e da noite chegou aos 80 anos, em um tempo onde a medicina era bastante limitada.

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Antiga matriz do Corpo Santo em Recife, atualmente demolida. Local da apresentação de Lourival Açucena na capital pernambucana em 1848 – Fonte – https://patrimonioespiritual.org/2016/03/02/matriz-do-santissimo-sacramento-e-santo-antonio-recife-pe/

Já como cantor alcançou fama nos festejos religiosos, sendo considerado um cantante de grande qualidade e que se acompanhava ao violão. Na semana santa de 1848 realizou a sua única viagem para fora do seu estado natal, onde apresentou “As lamentações de Jeremias” em Recife. O fato se deu na imponente igreja do Corpo Santo, que atualmente não existe mais[4]. O padre local, conhecido tenor sacro, ficou impressionado com a apresentação do natalense[5].

Artista praticamente completo, Joaquim Eduvirges de Melo Açucena também participou de peças teatrais. Em 1853 representou o personagem capitão Lourival na peça O Desertor Francês, aparentemente uma adaptação da peça Le Desérteur, um drama de cinco atos do francês Louis Sèbastien Mercier[6]. Sabemos que a sua apresentação foi tão marcante, que até a sua morte todos em Natal passaram a lhe chamar pelo nome do personagem que interpretou.

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A pequena Natal da época de Lourival.

Joaquim Açucena logo estará no funcionalismo público estadual como “Praticante dos Correios”, ganhando dezesseis mil réis. Depois passou para a Tesouraria e em 1859 chegou a Oficial-Maior. Câmara Cascudo comenta que esta última promoção se deu neste ano pela sua voz. Mas não foi na base do grito. Mas cantando!

Nesse tempo as festas na igreja de São Miguel, em Extremoz, que então estava em construção, eram muito populares e Joaquim Açucena arranjou um jeito de fugir do trabalho para cantar nas missas. Ocorre que naquele ano o baiano João José de Oliveira Junqueira[7], então recém-empossado Presidente da Província do Rio Grande do Norte, assistiu a festa religiosa em Extremoz, onde o bardo Açucena tocou e cantou.

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A autoridade gostou do que ouviu e perguntou quem era o ilustre trovador. Ao responder o questionamento de Oliveira Junqueira, um dos acompanhantes aproveitou e contou a história da tal fugida de Lourival Açucena da sua repartição. Este foi então chamado diante do Presidente e se apresentou bastante trêmulo, certamente imaginando algum tipo de castigo. Mas para sua surpresa e do bajulador safado e extremamente invejoso que o denunciou, o Presidente Oliveira Junqueira pediu ao cantador para tocar alguns lunduns, modinhas[8], xácaras[9] e realizar alguns solos de violão. A autoridade ouviu tudo extasiado e ao final declarou “Gostei muito! Você é um artista Seu Açucena. Está nomeado Oficial Maior da Tesouraria”.

É provável que com este gesto o Presidente Oliveira Junqueira quisesse mostrar sua indignação com a denúncia destinada a prejudicar o cantador. Ou talvez desejasse ter por perto alguém com a capacidade que Lourival Açucena tinha com a viola nas mãos, para lhe distrair nas horas de folga[10].

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Se para entrar no serviço público nos dias atuais as pessoas tem de “queimar as pestanas” estudando muito, Lourival Açucena, sem demérito algum já que era a realidade do seu tempo, subiu no funcionalismo publico de viola na mão e declamando versos.

O Bardo No Xilindró Da Fortaleza Dos Reis Magos

Se em Recife foi onde Lourival Açucena se apresentou com galhardia e sucesso na igreja do Corpo Santo, foi igualmente na capital pernambucana que em 1861 ele teve seus textos publicados pela primeira vez em um pequeno jornal chamado “O Recreio”.

Mas no ano de 1888 houve muita dor de cabeça para Lourival Açucena, inclusive ele passou um período atrás das grades.

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Consegui uma cópia do periódico “Gazeta de Natal”, edição de sábado, 21 de janeiro de 1888, onde na primeira página dá conta que o então Presidente da Província potiguar, o pernambucano João Capistrano Bandeira de Melo Filho, do Partido Conservador, abriu um inquérito para apurar desvios de recursos na coletoria de impostos da cidade potiguar de Macau, onde o titular era Lourival Açucena.

O periódico natalense não explica detalhes do caso, afirmando que Bandeira de Melo usava de muita rigidez das leis existentes para punir Lourival, entretanto era extremamente brando com um caso semelhante ocorrido em Nova Cruz, com o funcionário publico A. Lopes Pessoa da Costa, seu correligionário. Aquela velha história, ainda bem atual, de se utilizar a lei para os inimigos e abrandar tudo para os amigos!

Forte dos Reis Magos
Fachada da Capelinha do Forte dos Reis Magos e parte do pátio interno. Foi nesta fortaleza que Lourival Açucena passou alguns meses preso.

Mas como na história potiguar tudo que envolveu Lourival Açucena terminava em festa, consta que a sua passagem pelos cárceres da Fortaleza dos Reis Magos foi marcado pela pouca rigidez do seu aprisionamento. Sabemos que através da anuência do comandante da fortaleza, amigo do cantador de longa data, a farra foi tanta e tão boa que Lourival Açucena passou mais alguns dias na fortaleza por vontade própria.

Percebi que os biógrafos de Lourival Açucena focaram muito mais no burlesco do caso, do que na ideia de entender o que realmente aconteceu. Mas não sei o quanto Lourival Açucena estava envolvido em desvios na coletoria de Macau, pois os dados são limitados e o meu conhecimento das leis da época é restrito. Mas lendo a edição de “Gazeta de Natal” fica nítido que seus amigos desejavam protegê-lo do rígido Bandeira de Melo, tanto assim que passou pouco tempo preso.

Muitos Filhos E Um Deles Morreu Pelo Uso de Morfina

Lourival ascendeu muito no funcionalismo público da sua época. Certamente por ser um homem competente no seu trabalho, mas sem dúvida ajudou bastante o fato dele ser bom de viola, de conversa e de amizades.

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Joaquim Açucena foi comandante de um dos destacamentos da Guarda Nacional do Rio Grande do Norte, onde recebeu a patente de capitão. Foi também delegado de polícia, 2° juiz de paz da paróquia de Natal, chefe de seção da Secretaria de Governo e exerceu a função de oficial de gabinete do Presidente Gustavo Adolfo de Sá. Ele se aposentou com um salário nada irrelevante de 1:300$000 (Um mil e trezentos réis)[11].

Mas se seu salário não era tão módico assim, ficou registrado que levava uma vida frugal, espartana e que quase passava necessidades, embora não lhe faltasse nada devido às inúmeras amizades que fez ao longo dos seus 80 anos de vida.

É provável que a sua remediada situação financeira fosse uma consequência de outra “atividade” na qual o bardo natalense foi extremamente atuante – Fazer filhos. Lourival Açucena foi pai de dezenove filhos legítimos e treze rebentos bastardos. Trinta e dois no total.

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Versos da lavra de Lourival Açucena, em honra ao marechal Deodoro da Fonseca.

Sabemos que ele teve três esposas que podemos enquadrar como “oficiais”. Estas foram Antônia Cândida de Albuquerque, cuja união aconteceu em 1852, com Flora Carlinda de Vasconcelos, em 1865, e a última, já no limiar da vida, com Silvânia, a quem carinhosamente denominou de “gentil porangaba”. Não é a toa que foi chamado por um jornal local de “O rouxinol das saias”[12].

Entre seus filhos, ao menos três deles seguiram a carreira militar no Exército. Foi o caso do tenente-coronel Reinaldo Lourival, que passou a residir no Rio de Janeiro, e do major Pedro Lourival, que passou a residir em Pelotas, Rio Grande do Sul[13].

Já  o cadete Carlos Lourival, outro filho de Lourival Açucena que seguiu a carreira das armas, morreu com 21 anos em decorrência do “uso imoderado de morfina”. Este jovem nascido em Natal era fruto do seu segundo casamento, morava em São Paulo e estava lotado no 10° Regimento de Cavalaria, onde e faleceu na madrugada de 4 para 5 de julho de 1889[14].

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Texto sobre a morte do cadete Carlos Lourival.

Segundo um jornal do Rio Grande do Sul, devido a sua ausência no quartel os seus companheiros de farda arrombaram as dependências do seu alojamento e encontraram seu corpo prostrado em sua cama ás onze da manhã de 5 de julho. O jornal informou ainda que o cadete Carlos Lourival sofria de insônia e utilizava morfina para conciliar o sono, mas na noite de 4 de julho tomou uma dose mais elevada que o normal e isso ocasionou a sua morte[15].

Cantor de Modinhas

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Terceira sede da redação do jornal A República, na Rua Dr. Barata, na Ribeira, Natal. Lourival Açucena escreveu em vários jornais da cidade.

Lourival Açucena escreveu em muitos jornais da cidade, mas não chegou a publicar nenhum livro durante a sua vida, preferindo a viola e a cantoria. Foram seus muitos amigos que publicaram um pequeno texto com alguns de seus poemas trinta dias após a sua morte.

Foi Luís da Câmara Cascudo, com a ajuda de Joaquim Lourival, filho do poeta, que recolheu o que foi possível de seus poemas, publicando um volume em 1927. Este filho do bardo foi igualmente uma figura muito conhecido em Natal, sendo proprietário de uma escola particular e chamado por todos de “Professor Panqueca”.

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Manchete do interessante texto produzido por Câmara Cascudo sobre Lourival Açucena em 1939, no jornal “A República”.

Câmara Cascudo, nascido em 1886, ainda teve oportunidade de assistir uma cantoria do então septuagenário Lourival Açucena na festa de Nossa Senhora da Apresentação. O bardo glosava os motes dados pela multidão de forma atenta e chamava atenção pela prontidão da rima e do vocabulário. Cascudo comentou em 1939 que o nosso artista era muito orgulhoso e vaidoso. Pois se em uma apresentação ele não fosse o primeiro a subir no palco, batia o pé e não cantava mais. E que ninguém falasse alto durante sua apresentação, pois ele parava e não recomeçava mais. Ainda bem que no tempo de Lourival Açucena não existiam os celulares![16]

Conhecido como o “Cantor de Modinhas”, Lourival Açucena teve durante 60 anos a primazia da voz nas festas e solenidades natalenses. Segundo Câmara Cascudo ele foi a alma alegre da cidade. Improvisador de festanças, marcador de quadrilha, artista dramático, fazedor de brindes, compadre de meio mundo de gente, respeitado e cortejador, era ainda aquele que conhecia “Os tristes desvios das altivosas criaturas”[17].



NOTAS

[1] Algumas fontes apontam que esta peripécia no rio Potengi teria sido realizada pelo próprio Lourival Açucena, mas em um interessante texto de Luís da Câmara Cascudo publicado em 1939 ele aponta o fato ligado ao pai do poeta. Ver o periódico A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[2] Manuel de Assis Mascarenhas nasceu em Goiás Velho no dia 28 de agosto de 1806, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 30 de janeiro de 1867. Filho de Francisco de Assis Mascarenhas, conde e marquês de São João da Palma, no Brasil, e 6º conde da Palma, em Portugal.

Proprietário rural em Campos (RJ) formou-se em leis pela Universidade de Coimbra e tornou-se condestável e diplomata do Império. Foi nomeado pelo Governo Imperial adido de 1ª classe na legação brasileira em Berlim e, em seguida, secretário da legação em Viena. Em 1830, deixou definitivamente a diplomacia e voltou ao Brasil, atendendo urgente chamado de seu pai, para ajudá-lo a gerir a propriedade da família em Campos. Nesta atividade, demorou-se, no interior fluminense, por três anos, para depois ingressar na magistratura. Foi juiz em Vassouras e desembargador da Relação da Corte. Filiado ao Partido Conservador, presidiu as províncias do Rio Grande do Norte (1838-43) e Espírito Santo, (1843). Eleito deputado-geral pelo Rio Grande do Norte à 4ª legislatura e, na seguinte, por Goiás. Em 1850, foi escolhido, em lista tríplice, senador pelo Rio Grande do Norte. Embora conservador, em várias oportunidades aprovou os liberais, tornando-se, por fim, conselheiro-chefe do Partido Liberal. Em 1º de junho de 1839, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico do Brasileiro (IHGB) como sócio correspondente. Ver – https://ihgb.org.br/perfil/userprofile/MAMascarenhas.html

[3] O lundu, ou lundum, chegou ao Brasil através de escravos Bantu de Angola e áreas circundantes, sendo uma dança de casal muito sensual, voluptuosa e considerada bastante lasciva. Foi altamente popular em todo o Brasil no século XVII e início do século XVIII. Posteriormente substituído pelo maxixe (que também foi considerado escandaloso …) e, segundo alguns autores, em seguida pelo samba. Ver TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular: da modinha à lambada. São Paulo-SP: Art, 1991, p. 41. Sobre o encontro de Açucena com esta autoridade ver A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[4] O conjunto arquitetônico da igreja do Corpo Santo foi demolido para a construção da Avenida Marquês de Olinda em 1913.

[5] Ver http://adcon.rn.gov.br/ACERVO/secretaria_extraordinaria_de_cultura/DOC/DOC000000000113068.PDF

[6] Louis Sèbastien Mercier (1740-1814) foi um escritor francês, autor dramático da época revolucionária, membro da Convenção. Autor do romance de costumes Tableau de Paris, conhecido documento de caráter histórico e sociológico sobre a situação da sociedade francesa na véspera da Grande Revolução.

[7] João José de Oliveira Junqueira (Salvador, 10 de março de 1832 – 9 de novembro de 1887) foi um magistrado e político. Era filho do senador João José de Oliveira Junqueira, ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Foi deputado provincial, deputado geral, ministro da Guerra e senador do Império do Brasil de 1873 a 1887. Antes disso foi presidente das províncias do Piauí (1857 a 1858), Rio Grande do Norte (1859 a 1860) e de Pernambuco (1871 a 1872). Ver http://www.wikiwand.com/pt/Jo%C3%A3o_Jos%C3%A9_de_Oliveira_Junqueira_J%C3%BAnior

[8] A modinha era uma canção de origem portuguesa leve, sentimental e muito popular nos séculos XVIII e XIX. Alguns dos primeiros exemplos de modinhas estão nas Óperas Portuguesas (1733-41). Originalmente melodias simples, as modinhas costumavam serem abrilhantados com intrincados e elaborados efeitos musicais quando executados para a nobreza. Elas foram introduzidas no Brasil no final do século XIX onde permaneceram como expressões simples da vida urbana. Ver TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular: da modinha à lambada. São Paulo-SP: Art, 1991, p. 47.

[9] A xácara é uma narrativa popular cantada em versos também denominada romance, em que acontece algum episódio trágico, oriundas de Portugal e Espanha ainda encontradas no Brasil do século XIX. Ver FARIA, Edméia. Folclore Poético em Pompéu. Belo Horizonte-MG: Maza Edições, 2000, p. 59.

[10] Ver o periódico A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[11] Para se ter uma ideia podemos comparar os vencimentos da aposentadoria que Lourival Açucena ganhava com os vencimentos da aposentadoria de um juiz de direito na mesma época, que era de 4:800$000 (Quatro mil e oitocentos réis). Ver Mensagem lida pelo Governador Augusto Tavares de Lyra em 14 de julho de 1904, na abertura do Congresso Legislativo do Estado do Rio Grande do Norte, na página 114. Em 1904 Lourival Açucena tinha 77 anos.

[12] Sobre este apelido jocoso ver o periódico O Caixeiro, Natal-RN, edição de quinta-feira, 10 de agosto de 1893, pág. 4. Aparentemente as suas duas primeiras esposas faleceram em decorrência de partos mal assistidos.

[13] Ver o periódico A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 19 de outubro de 1927, pág. 1, na reportagem comemorativa dos 100 anos de nascimento de Lourival Açucena.

[14] Atualmente o local onde se situava o 10° Regimento de Cavalaria do Exército Brasileiro é a sede da Academia de Polícia Militar do Barro Branco (APMBB), da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Ver CERQUEIRA, Homero De Giorgi. A disciplina militar em sala de aula. São Paulo-SP: Ed. Biblioteca 24 horas, 2009, p. 51.

[15] Sobre a morte de Carlos Lourival ver os periódicos A Gazeta de Natal, edição de sábado, 27 de julho de 1889, pág. 2 e A Federação, Porto Alegre-RS, edição de segunda-feira, 29 de julho de 1889, pág. 1. A razão do falecimento do cadete Carlos Lourival ter sido estampada na primeira página deste jornal gaúcho deve-se ao fato dele ter vivido alguns anos naquele estado, onde fez muitos amigos, serviu em alguns quartéis e chegou a cursar a Escola Militar.

[16] Ver A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[17] Ver CASCUDO, Luís da Câmara. Introdução. In: AÇUCENA, Lourival. (Joaquim Eduvirges de Melo Açucena). Versos reunidos por Luís da Câmara Cascudo. 2. ed. Natal: Editora Universitária, 1986, p. 25-26