Arquivo da categoria: Artes e Artistas

LONDRES VAI REVER EXPOSIÇÃO USADA COMO “ARMA” DIPLOMÁTICA PELO BRASIL EM PLENA SEGUNDA GUERRA

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A Rainha da Inglaterra , mãe da atual soberana daquela nação, visitando a exposição de arte brasileira – Fonte – http://theartofdiplomacy.com/about/

No meio da Segunda Guerra Mundial, o Brasil mandou de navio 168 pinturas e desenhos de 70 artistas modernistas, além de 162 fotografias para serem exibidas na Royal Academy, uma das mais tradicionais e conservadoras do Reino Unido.

Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/geral-42010289

Aberta em 22 de novembro de 1944 na capital inglesa, a exposição exibiu trabalhos de artistas renomados como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Iberê Camargo, Cândido Portinari e Roberto Burle Marx. E surpreendeu os britânicos pelo estilo sofisticado das obras.

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Agora, Londres vai poder rever parte desse acervo que, em 1944, atraiu cerca de 100 mil pessoas – um recorde até mesmo para os padrões da época.

A Embaixada do Brasil em Londres vai anunciar oficialmente esta semana que está restaurando parte do acervo da exposição de 1944 e que pretende exibi-lo a partir de abril do próximo ano. Dos 168 quadros que vieram do Brasil, 25 estão em museus e galerias de arte do Reino Unido e a maioria jamais foi pendurada numa parede novamente.

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A exposição de 1944, em plena guerra, foi a primeira coletiva de arte brasileira na Europa | Foto: Divulgação

‘Soft power’

Nos anos 1940, no entanto, a exposição foi vista por ingleses e brasileiros como uma ferramenta diplomática.

À época, o diplomata britânico Victor Perowne, que era responsável por América Latina, escreveu num documento oficial que se tratava de um assunto “mais político que artístico”, conforme ofício dele encaminhado ao governo do Reino Unido.

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“Lucy with Flower”, de Lasar Segall, foi a escolhida a melhor obra da exposição de 1944 e volta a ser exibida em Londres no ano que vem | Foto: Divulgação/Scottish National Gallery of Modern Art

Do lado inglês, foi preciso intervenção política para convencer a Royal Academy, que inicialmente havia rejeitado as obras, a abrir três salas para a exibição. Do lado brasileiro, todos os artistas doaram suas obras, e se comprometeram a doar o dinheiro das possíveis vendas para a Força Aérea Britânica.

“A diplomacia cultural é instrumento da política externa”, explica Eduardo dos Santos embaixador brasileiro no Reino Unido. Ele diz que, no contexto da Segunda Guerra Mundial, a exposição serviu para estreitar as relações entre brasileiros e britânicos, além de ter sido uma forma de usar a cultura para fortalecer a imagem do Brasil no exterior.

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“Na época isso tinha todos os elementos de soft power.” A expressão foi cunhada pelo cientista político americano Joseph Nye em 2004 para se referir ao potencial de um país de influenciar outros por meio de seu poder de inspiração e atração, em contraposição ao poder “duro”, ou militar.

Se, no passado, a exposição foi vista como uma das primeiros estratégias de soft power de fôlego do Brasil na Europa, atualmente o país enfrenta dificuldades para impor seu poder de convencimento.

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Ministro Osvaldo Aranha na exposição de Londres – Fonte – http://theartofdiplomacy.com/about/

Relatório anual sobre o tema divulgado este ano pela consultoria britânica Portland mostra que o Brasil despencou no ranking internacional que mede soft power. O país é agora o 29º colocado no ranking, penúltimo da lista de 30 países.

Diante desse cenário, Eduardo Santos afirma que a volta da exposição “é um evento de importância histórica, cultural e diplomática em termos da relação Brasil-Reino Unido”.

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Embaixada do Brasil em Londres está restaurando 15 das 25 obras que serão expostas em abril de 2018 | Foto: Divulgação/Brighton and Hove Museums and Art Galleries

“É um passo a mais na afirmação dos nossos valores e do nosso estilo de diplomacia”, afirma.

O embaixador teve a oportunidade de contar um pouco da história do evento num jantar em abril com a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, que, segundo ele, se interessou pela nova exibição. “Adoraríamos que ela fosse, mas não há nada confirmado nesse sentido.”

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Fonte – http://theartofdiplomacy.com/about/

A exposição de 1944 recebeu a visita da rainha Elizabeth (1900-2002), conhecida como rainha-mãe, ainda na primeira semana. Além de Londres, a montagem passou por outras sete cidades britânicas: Norwich, Reading, Manchester, Bristol, Glasgow, Edimburgo e Bath.

Foram vendidas 80 obras – 47 delas na primeira noite – e o dinheiro arrecadado foi, de fato, doado para a Força Aérea britânica, que combatia o exército de Hitler.

Sofisticação

Apesar do sucesso, especialistas dizem que a maioria das obras contrariaram as expectativas do público britânico que, pelas reações, esperavam algo “menos europeu”.

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Das 168 obras expostas em 1944, 25 foram localizadas em galerias e museus do Reino Unido | Foto: Divulgação/Plymouth Museums and Galleries

Para Adrian Locke, curador da nova exposição, o Reino Unido não estava aberto à ideia de que o Brasil poderia ser “uma nação sofisticada e culturalmente progressista”.

“Mas os brasileiros mostraram, de um modo geral, uma arte que fugia dos estereótipos e da sensualidade”, explica o chefe do setor cultural da Embaixada do Brasil em Londres e pesquisador do Brazil Institute, do King’s College London, Hayle Gadelha.

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É importante ressaltar que em novembro de 1944 Londres era um alvo dos foguetes V-2, cujo primeiro chegou a capital da Inglaterra no dia 2 de setembro daquele ano – Fonte – http://ww2today.com

Coube a ele fazer um trabalho de detetive para rastrear onde estavam as obras. Localizou metade delas, sendo que 25 estão em museus e galerias de arte do Reino Unido que cederam os quadros para a nova montagem, marcada para o dia 6 de abril.

Para Gadelha, que transformou o impacto da exibição de 1944 em tese de doutorado, a exposição foi um movimento diplomático que tinha, como pano de fundo, a busca do Brasil de se colocar como potência global a partir cultura. Mas acabou sendo uma iniciativa isolada.

“Houve uma descontinuidade, e algo do tipo demorou muito para se repetir”, explica.

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HISTORIADOR CLÁUDIO GALVÃO LANÇOU LIVRO SOBRE VARELA SANTIAGO

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Lançamento do livro traz consigo carga significativa quando se trata de instrumentos de manutenção da história da cidade do Natal e de todos os seus grandes personagens

Com um conteúdo repleto de belos momentos, “Um apóstolo entre nós” de autoria do historiador Cláudio Galvão traz de forma sublime o trajeto e acúmulo de vida do ilustre doutor Varela Santiago.

O lançamento da obra que retrata diversos relatos sobre esse médico e humanista aconteceu às 17h do dia 28 de dezembro de 2017, quinta-feira, no Hospital Infantil Varela Santiago, na Av. Deodoro da Fonseca, 518, no Centro.

Manoel Varela Santiago Sobrinho, mas conhecido como Dr. Varela Santiago foi fundador do Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio Grande do Norte (IPAI/RN) que é o mantenedor do Hospital infantil Varela Santiago. Sua história é de dedicação e muito empenho na área da saúde e principalmente na concretização do IPAI/RN e do Hospital Infantil Varela Santiago.

O lançamento do livro trouxe uma carga extremamente significativa quando a questão se trata de instrumentos de manutenção da história da cidade do Natal e de todos os seus grandes personagens. A obra será vendida por R$ 70,00, a Av. Deodoro da Fonseca, 518, no Centro e toda a renda arrecadada está sendo doada ao hospital.

GRANDE FESTA DA CULTURA POTIGUAR NA PRÓXIMA SEGUNDA

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14ª edição do Troféu Cultura promete grande festa de celebração da arte local no palco do Teatro Riachuelo

A única premiação potiguar que abarca todas as manifestações artísticas está confirmada para 2017 e acontece já na próxima segunda-feira (18), no palco do Teatro Riachuelo. A festa do Troféu Cultura será totalmente aberta ao público e conta com apoio do Governo do Estado, através da Fundação José Augusto.

Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do Teatro Riachuelo até às 18h, a partir desta quinta-feira (a confirmar!), bastando apenas apresentar sua identidade. Estarão disponibilizados aproximadamente 1000 assentos ao público. O início da cerimônia está agendado às 18h com duração aproximada de 3h de muita celebração.

O público, artistas e imprensa serão recepcionados já na entrada no Teatro com apresentação luxuosa da cantora Carmen Pradella e banda. Já no palco, a Orquestra Sinfônica do RN dará início à cerimônia, seguida por apresentação da Companhia de Dança do Teatro Alberto Maranhão, com encenação de um pas de deux(dança de casal).

A tradição e a vanguarda nortearão as intervenções artísticas apresentadas entre os anúncios dos vencedores em cada uma das 14 categorias do Troféu Cultura, que este ano recebe o nome do artista plástico Dorian Gray Caldas. O grande homenageado desta edição do Troféu, pelo conjunto da obra, será o intelectual potiguar e pesquisador Claudio Galvão.

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O intelectual potiguar e pesquisador Claudio Galvão.

VOTAÇÃO E RESULTADOS

Um júri de notória capacidade artística e composto por duas pessoas, escolhido pela produção do evento, selecionou os cinco indicados nas 13 categorias do prêmio. E a coordenação do prêmio definiu os cinco que disputarão o Artista do Ano 2017. Depois foi o público quem votou para escolher o vencedor em cada categoria.

O sistema de votação esteve abrigado no site Papo Cultura, que estreou em fevereiro deste ano e já conquistou a empatia da classe artística com a divulgação de agenda cultural, crônicas e críticas da cena local. Foi instalado, este ano, um sistema ainda mais seguro para garantir apenas um voto por CPF e conferir legitimidade ao processo.

Patrocínios e apoios

Além do apoio da Fundação José Augusto, o projeto Troféu Cultura 2017 recebeu aprovação nas duas leis de incentivo vigentes: o Programa Djalma Maranhão (municipal) e a Lei Câmara Cascudo (estadual). E conseguiu captar recursos junto à Cosern Neoenergia, Unimed, Hospital do Coração e Comjol, além do apoio cultural da Suvinil e Mercedes Benz.

Categorias em disputa

Destaque no Audiovisual, Destaque na Literatura, Melhor Fotógrafo(a), Melhor Artista Visual, Melhor Produtor(a) Cultural, Melhor Espetáculo de Dança, Melhor Show, Melhor Banda, Melhor Cantor, Melhor Cantora, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Espetáculo de Teatro, e Artista do Ano.

Papo Cultura Assessoria de Imprensa

ESPANHÓIS INVESTIGAM MISTERIOSA PINTURA DE IGREJA DO SÉCULO 13

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LOCAL FOI DESCOBERTO HÁ 35 ANOS, MAS PERMANECE UM MISTÉRIO PARA OS HISTORIADORES

FONTE – http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/11/espanhois-investigam-misteriosa-pintura-de-igreja-do-seculo-13.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post

Agora em novembro um grupo de especialistas em arte medieval tentará desvendar alguns dos mistérios que circundam a Igreja de Alaitza, situada no País Basco (ao norte da Espanha). O local data do século 13 e foi descoberto há 35 anos, mas o significado de suas pinturas permanece desconhecido.

“As pinturas da igreja de Alaitza, na planície de Alava, são como uma história em quadrinhos”, afirma o especialista José Javier López de Ocariz ao jornal espanhol EL País. A obra de arte mostra vários cavaleiros invadindo um castelo, um homenzinho tocando um sino, uma criatura que mistura os mitológicos centauro e sagitário, uma mulher dando à luz, entre outras coisas que não parecem se relacionar.

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Segundo a filósofa Isabel Mellén, todos os pesquisadores que passaram por lá ou que viram as imagens “concordam que são estranhas, irreverentes e sem um sentido claro”. Perto da estrada romana que ligava Bordéus à Astorga, as pinturas foram feitas com uma técnica muito simples, de vermelho, em um fundo claro e com notável engenhosidade.

Essa forma de fazer arte remonta ao século 12, além de se diferenciar de obras situadas em locais próximos, o que confunde ainda mais os especialistas. “Eles escapam a uma classificação nos períodos usuais”, relata Méllen.

As figuras parecem tentar se ligar a algum evento histórico, como a passagem pelas planícies de Alava das tropas de Eduardo de Woodstock, chamado o Príncipe Negro (primogênito do rei Eduardo III, da Inglaterra) em 1367, acompanhando o rei Pedro I, na véspera do confronto em Nájera com Enrique de Trastámara. Mas os historiadores ainda não conseguiram afirmar com certeza: não parece lógico que, em meio a um confronto, os soldados parariam para decorar uma igreja.

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Mas as contradições não terminam por aí. Logo abaixo das pinturas, há uma inscrição incompleta em latim. “A inscrição tem duas partes, a primeira que coincide com um texto litúrgico, parte de um hino de Corpus Christi, e o fim adverte que ‘Em todos os lugares, o inferno'” conta López de Ocariz. O problema? A legenda não corresponde nem ao período nem à temática da pintura.

UMA ÓTIMA NOTÍCIA – FOI LANÇADO UM LIVRO SOBRE A HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM FORTALEZA

Livro

Foi lançado no dia 17 de agosto, às 19h, no Salão Nobre do Ideal Clube, em Fortaleza, Ceará, o livro ‘Salto sobre o Lago’, do arquiteto e urbanista cearense José Henrique de Almeida Braga.

A publicação aborda o período da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) na capital cearense, enfocando os antecedentes, fatos, personagens, lugares, as unidades militares, os Soldados da Borracha e o dia-a-dia da cidade e das pessoas nesse período.

Considero esta uma ótima notícia para conhecer os aspectos envolvendo o período da Segunda Guerra Mundial na capital cearense e, por tabela, ampliar o conhecimento sobre este conturbado período histórico na Região Nordeste. 

É fruto de uma pesquisa extensa, que exigiu muito do autor Henrique Braga, mas com um positivo e interessante resultado para aqueles que desejam conhecer mais sobre o tema. Além de tudo é uma ótima notícia para todos que desejam conhecer mais da participação do Nordeste do Brasil na Segunda Guerra Mundial. 

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Foto do dia 28 de dezembro de 1943, onde vemos membros da US Navy preparando cargas de profundidade em Pici Field, Fortaleza. Ao fundo um bimotor de patrulha PV1.

Salto sobre o Lago 

Considerada uma obra referencial para os pesquisadores que queiram conhecer mais profundamente sobre o panorama da Segunda Guerra Mundial em Fortaleza, o livro Salto sobre o Lago é resultado de pesquisas em bibliotecas, hemerotecas, depoimentos, arquivos físicos e virtuais, e outros recursos disponíveis na internet. As pesquisas trouxeram à tona, informações muito interessantes que foram verificadas em outras fontes, e contribuíram em muito para elucidar e complementar muitos fatos.

Fruto de um mapeamento, identificação e análise de registros, o livro assinala o período de 1942, quando o Brasil declara guerra à Alemanha, Itália e Japão, aliando-se aos Estados Unidos da América e a outros países na Segunda Guerra Mundial.

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A participação no conflito exigiu do País várias condições impostas por um Acordo de Cooperação Militar com os Estados Unidos, que trazia a modernização das Forças Armadas brasileiras e a permissão para a construção e o uso de bases aéreas para os Estados Unidos no Norte e Nordeste do Brasil.

Nesse cenário, a guerra e a presença dos militares estrangeiros na pacata Fortaleza trouxeram rápidas mudanças socioculturais para a cidade e seus habitantes, com a adoção de novos hábitos e comportamentos. Unidades militares foram criadas ou ampliadas, a atividade comercial foi parcialmente adaptada para o esforço de guerra, e a presença de militares, artistas e autoridades brasileiras e estrangeiras tornava a cidade mais internacional, mais cosmopolita. Há ainda a inesquecível e valorosa contribuição dos cearenses que participaram dos combates ao inimigo em solo italiano, nas praias e águas territoriais pátrios, alguns tombando e outros se ferindo nos campos de batalha.

O autor

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Henrique Braga autografando seu trabalho.

José Henrique de Almeida Braga é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Federal do Ceará e pós-graduado pela Fundação Getúlio Vargas, em Gestão Estratégica da Tecnologia da Informação. Atuou profissionalmente como arquiteto no governo do Estado do Ceará, e como profissional liberal. Atualmente exerce atividades profissionais na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Recebeu o título de Amigo do Instituto do Ceará – Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará, e foi agraciado com a Medalha Amigo da Marinha.

Para comprar este livro entre em contato com o autor através do e-mail – jhenrique.braga@gmail.com

Ou através do website da Editora Premius – www.premius.com.br

Em Fortaleza, o livro também pode ser adquirido de forma presencial na Editora Premius, à rua Manoelito Moreira nº 55, bairro Benfica. Fone (85) 3214-8181.

A editora disponibilizou o livro para a venda na Livraria Leitura no Shopping Del Paseo e Shopping Rio Mar.

LOURIVAL AÇUCENA – O GRANDE ARTISTA DE NATAL

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A Provinciana Natal dos tempos de Lourival Açucena.

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Seu nome de batismo era Joaquim Eduvirges de Melo Açucena, nascido em Natal no dia 17 de outubro de 1827, quando a Independência do Brasil havia sido proclamada apenas cinco anos antes. Quando aquele jovem veio ao mundo a sua cidade era então muito acanhada, de população reduzidíssima, provinciana, longe de tudo e de todos e sem nenhuma importância. Tão sem importância que só recebia uma vez por mês um navio de cargas e passageiros.

Ele era filho de Manoel Joaquim Açucena, homem robusto, um nacionalista exaltado e grande tocador de violão. Aventuroso, consta que para se encontrar com sua futuras esposa, Maria Pacífica de Melo, o pai de Lourival Açucena atravessava o rio Potengi a nado e com a roupa na cabeça, depois andava léguas até a região de São Gonçalo do Amarante para se encontrar com a jovem Maria[1].

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De sua mãe Lourival Açucena herdou o gosto pela leitura dos clássicos do nosso idioma, o instintivo rigor gramatical e as frases apuradas. Do pai ficou a voz forte, o gosto pelo violão e uma fidelidade romântica pelas noites enluaradas.

Consta que Lourival Açucena estudou francês, latim, retórica, filosofia, mas não foi um estudante exemplar destas matérias. Exemplar mesmo o jovem foi com o violão nas mãos, que aprendeu com seu pai.

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Fonte – http://www.brasiliana.usp.brhandle1918011391-085

Em 1839, no final do Período Regencial, a Província do Rio Grande do Norte era governada pelo goiano Manuel de Assis Mascarenhas (veja imagem acima), que tinha inclusive o título de “Dom”[2]. Por esta época o jovem Lourival Açucena já era um exímio cantador e foi levado até o fidalgo Presidente por seu pai. Ao invés de declamar versos clássicos, como seria a praxe na época, o garoto atacou com um animado lundu e o então mandatário potiguar gostou bastante.[3]

Um Funcionário Público de Voz e Violão

Os que conhecem do tema, que não é o meu caso, afirmam que a sua poesia era ligada ao Romantismo, mas tinha forte relação tardia com o Arcadismo.

Jovem de espirito alegre, que fazia amizades de maneira muito fácil, amante das serestas, das noitadas, teve uma vida agitada e participava ativamente dos serões boêmios de Natal. Apesar disso, segundo Luís da Câmara Cascudo, não era chegado a bebidas. Isso talvez explique como alguém que gostava de cantorias e da noite chegou aos 80 anos, em um tempo onde a medicina era bastante limitada.

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Antiga matriz do Corpo Santo em Recife, atualmente demolida. Local da apresentação de Lourival Açucena na capital pernambucana em 1848 – Fonte – https://patrimonioespiritual.org/2016/03/02/matriz-do-santissimo-sacramento-e-santo-antonio-recife-pe/

Já como cantor alcançou fama nos festejos religiosos, sendo considerado um cantante de grande qualidade e que se acompanhava ao violão. Na semana santa de 1848 realizou a sua única viagem para fora do seu estado natal, onde apresentou “As lamentações de Jeremias” em Recife. O fato se deu na imponente igreja do Corpo Santo, que atualmente não existe mais[4]. O padre local, conhecido tenor sacro, ficou impressionado com a apresentação do natalense[5].

Artista praticamente completo, Joaquim Eduvirges de Melo Açucena também participou de peças teatrais. Em 1853 representou o personagem capitão Lourival na peça O Desertor Francês, aparentemente uma adaptação da peça Le Desérteur, um drama de cinco atos do francês Louis Sèbastien Mercier[6]. Sabemos que a sua apresentação foi tão marcante, que até a sua morte todos em Natal passaram a lhe chamar pelo nome do personagem que interpretou.

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A pequena Natal da época de Lourival.

Joaquim Açucena logo estará no funcionalismo público estadual como “Praticante dos Correios”, ganhando dezesseis mil réis. Depois passou para a Tesouraria e em 1859 chegou a Oficial-Maior. Câmara Cascudo comenta que esta última promoção se deu neste ano pela sua voz. Mas não foi na base do grito. Mas cantando!

Nesse tempo as festas na igreja de São Miguel, em Extremoz, que então estava em construção, eram muito populares e Joaquim Açucena arranjou um jeito de fugir do trabalho para cantar nas missas. Ocorre que naquele ano o baiano João José de Oliveira Junqueira[7], então recém-empossado Presidente da Província do Rio Grande do Norte, assistiu a festa religiosa em Extremoz, onde o bardo Açucena tocou e cantou.

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A autoridade gostou do que ouviu e perguntou quem era o ilustre trovador. Ao responder o questionamento de Oliveira Junqueira, um dos acompanhantes aproveitou e contou a história da tal fugida de Lourival Açucena da sua repartição. Este foi então chamado diante do Presidente e se apresentou bastante trêmulo, certamente imaginando algum tipo de castigo. Mas para sua surpresa e do bajulador safado e extremamente invejoso que o denunciou, o Presidente Oliveira Junqueira pediu ao cantador para tocar alguns lunduns, modinhas[8], xácaras[9] e realizar alguns solos de violão. A autoridade ouviu tudo extasiado e ao final declarou “Gostei muito! Você é um artista Seu Açucena. Está nomeado Oficial Maior da Tesouraria”.

É provável que com este gesto o Presidente Oliveira Junqueira quisesse mostrar sua indignação com a denúncia destinada a prejudicar o cantador. Ou talvez desejasse ter por perto alguém com a capacidade que Lourival Açucena tinha com a viola nas mãos, para lhe distrair nas horas de folga[10].

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Se para entrar no serviço público nos dias atuais as pessoas tem de “queimar as pestanas” estudando muito, Lourival Açucena, sem demérito algum já que era a realidade do seu tempo, subiu no funcionalismo publico de viola na mão e declamando versos.

O Bardo No Xilindró Da Fortaleza Dos Reis Magos

Se em Recife foi onde Lourival Açucena se apresentou com galhardia e sucesso na igreja do Corpo Santo, foi igualmente na capital pernambucana que em 1861 ele teve seus textos publicados pela primeira vez em um pequeno jornal chamado “O Recreio”.

Mas no ano de 1888 houve muita dor de cabeça para Lourival Açucena, inclusive ele passou um período atrás das grades.

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Consegui uma cópia do periódico “Gazeta de Natal”, edição de sábado, 21 de janeiro de 1888, onde na primeira página dá conta que o então Presidente da Província potiguar, o pernambucano João Capistrano Bandeira de Melo Filho, do Partido Conservador, abriu um inquérito para apurar desvios de recursos na coletoria de impostos da cidade potiguar de Macau, onde o titular era Lourival Açucena.

O periódico natalense não explica detalhes do caso, afirmando que Bandeira de Melo usava de muita rigidez das leis existentes para punir Lourival, entretanto era extremamente brando com um caso semelhante ocorrido em Nova Cruz, com o funcionário publico A. Lopes Pessoa da Costa, seu correligionário. Aquela velha história, ainda bem atual, de se utilizar a lei para os inimigos e abrandar tudo para os amigos!

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Fachada da Capelinha do Forte dos Reis Magos e parte do pátio interno. Foi nesta fortaleza que Lourival Açucena passou alguns meses preso.

Mas como na história potiguar tudo que envolveu Lourival Açucena terminava em festa, consta que a sua passagem pelos cárceres da Fortaleza dos Reis Magos foi marcado pela pouca rigidez do seu aprisionamento. Sabemos que através da anuência do comandante da fortaleza, amigo do cantador de longa data, a farra foi tanta e tão boa que Lourival Açucena passou mais alguns dias na fortaleza por vontade própria.

Percebi que os biógrafos de Lourival Açucena focaram muito mais no burlesco do caso, do que na ideia de entender o que realmente aconteceu. Mas não sei o quanto Lourival Açucena estava envolvido em desvios na coletoria de Macau, pois os dados são limitados e o meu conhecimento das leis da época é restrito. Mas lendo a edição de “Gazeta de Natal” fica nítido que seus amigos desejavam protegê-lo do rígido Bandeira de Melo, tanto assim que passou pouco tempo preso.

Muitos Filhos E Um Deles Morreu Pelo Uso de Morfina

Lourival ascendeu muito no funcionalismo público da sua época. Certamente por ser um homem competente no seu trabalho, mas sem dúvida ajudou bastante o fato dele ser bom de viola, de conversa e de amizades.

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Joaquim Açucena foi comandante de um dos destacamentos da Guarda Nacional do Rio Grande do Norte, onde recebeu a patente de capitão. Foi também delegado de polícia, 2° juiz de paz da paróquia de Natal, chefe de seção da Secretaria de Governo e exerceu a função de oficial de gabinete do Presidente Gustavo Adolfo de Sá. Ele se aposentou com um salário nada irrelevante de 1:300$000 (Um mil e trezentos réis)[11].

Mas se seu salário não era tão módico assim, ficou registrado que levava uma vida frugal, espartana e que quase passava necessidades, embora não lhe faltasse nada devido às inúmeras amizades que fez ao longo dos seus 80 anos de vida.

É provável que a sua remediada situação financeira fosse uma consequência de outra “atividade” na qual o bardo natalense foi extremamente atuante – Fazer filhos. Lourival Açucena foi pai de dezenove filhos legítimos e treze rebentos bastardos. Trinta e dois no total.

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Versos da lavra de Lourival Açucena, em honra ao marechal Deodoro da Fonseca.

Sabemos que ele teve três esposas que podemos enquadrar como “oficiais”. Estas foram Antônia Cândida de Albuquerque, cuja união aconteceu em 1852, com Flora Carlinda de Vasconcelos, em 1865, e a última, já no limiar da vida, com Silvânia, a quem carinhosamente denominou de “gentil porangaba”. Não é a toa que foi chamado por um jornal local de “O rouxinol das saias”[12].

Entre seus filhos, ao menos três deles seguiram a carreira militar no Exército. Foi o caso do tenente-coronel Reynaldo Lourival, que passou a residir no Rio de Janeiro, e do major Pedro Lourival, que passou a residir em Pelotas, Rio Grande do Sul[13].

Já  o cadete Carlos Lourival, outro filho de Lourival Açucena que seguiu a carreira das armas, morreu com 21 anos em decorrência do “uso imoderado de morfina”. Este jovem nascido em Natal era fruto do seu segundo casamento, morava em São Paulo e estava lotado no 10° Regimento de Cavalaria, onde e faleceu na madrugada de 4 para 5 de julho de 1889[14].

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Texto sobre a morte do cadete Carlos Lourival.

Segundo um jornal do Rio Grande do Sul, devido a sua ausência no quartel os seus companheiros de farda arrombaram as dependências do seu alojamento e encontraram seu corpo prostrado em sua cama ás onze da manhã de 5 de julho. O jornal informou ainda que o cadete Carlos Lourival sofria de insônia e utilizava morfina para conciliar o sono, mas na noite de 4 de julho tomou uma dose mais elevada que o normal e isso ocasionou a sua morte[15].

Cantor de Modinhas

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Terceira sede da redação do jornal A República, na Rua Dr. Barata, na Ribeira, Natal. Lourival Açucena escreveu em vários jornais da cidade.

Lourival Açucena escreveu em muitos jornais da cidade, mas não chegou a publicar nenhum livro durante a sua vida, preferindo a viola e a cantoria. Foram seus muitos amigos que publicaram um pequeno texto com alguns de seus poemas trinta dias após a sua morte.

Foi Luís da Câmara Cascudo, com a ajuda de Joaquim Lourival, filho do poeta, que recolheu o que foi possível de seus poemas, publicando um volume em 1927. Este filho do bardo foi igualmente uma figura muito conhecido em Natal, sendo proprietário de uma escola particular e chamado por todos de “professor Panqueca”.

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Manchete do interessante texto produzido por Câmara Cascudo sobre Lourival Açucena em 1939, no jornal “A República”.

Câmara Cascudo, nascido em 1886, ainda teve oportunidade de assistir uma cantoria do então septuagenário Lourival Açucena na festa de Nossa Senhora da Apresentação. O bardo glosava os motes dados pela multidão de forma atenta e chamava atenção pela prontidão da rima e do vocabulário. Cascudo comentou em 1939 que o nosso artista era muito orgulhoso e vaidoso. Pois se em uma apresentação ele não fosse o primeiro a subir no palco, batia o pé e não cantava mais. E que ninguém falasse alto durante sua apresentação, pois ele parava e não recomeçava mais. Ainda bem que no tempo de Lourival Açucena não existiam os celulares![16]

Conhecido como o “cantor de modinhas”, Lourival Açucena teve durante 60 anos a primazia da voz nas festas e solenidades natalenses. Segundo Câmara Cascudo ele foi a alma alegre da cidade. Improvisador de festanças, marcador de quadrilha, artista dramático, fazedor de brindes, compadre de meio mundo de gente, respeitado e cortejador, era ainda aquele que conhecia “Os tristes desvios das altivosas criaturas”[17].



NOTAS

[1] Algumas fontes apontam que esta peripécia no rio Potengi teria sido realizada pelo próprio Lourival Açucena, mas em um interessante texto de Luís da Câmara Cascudo publicado em 1939 ele aponta o fato ligado ao pai do poeta. Ver o periódico A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[2] Manuel de Assis Mascarenhas nasceu em Goiás Velho no dia 28 de agosto de 1806, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 30 de janeiro de 1867. Filho de Francisco de Assis Mascarenhas, conde e marquês de São João da Palma, no Brasil, e 6º conde da Palma, em Portugal.

Proprietário rural em Campos (RJ) formou-se em leis pela Universidade de Coimbra e tornou-se condestável e diplomata do Império. Foi nomeado pelo Governo Imperial adido de 1ª classe na legação brasileira em Berlim e, em seguida, secretário da legação em Viena. Em 1830, deixou definitivamente a diplomacia e voltou ao Brasil, atendendo urgente chamado de seu pai, para ajudá-lo a gerir a propriedade da família em Campos. Nesta atividade, demorou-se, no interior fluminense, por três anos, para depois ingressar na magistratura. Foi juiz em Vassouras e desembargador da Relação da Corte. Filiado ao Partido Conservador, presidiu as províncias do Rio Grande do Norte (1838-43) e Espírito Santo, (1843). Eleito deputado-geral pelo Rio Grande do Norte à 4ª legislatura e, na seguinte, por Goiás. Em 1850, foi escolhido, em lista tríplice, senador pelo Rio Grande do Norte. Embora conservador, em várias oportunidades aprovou os liberais, tornando-se, por fim, conselheiro-chefe do Partido Liberal. Em 1º de junho de 1839, ingressou no Instituto Histórico e Geográfico do Brasileiro (IHGB) como sócio correspondente. Ver – https://ihgb.org.br/perfil/userprofile/MAMascarenhas.html

[3] O lundu, ou lundum, chegou ao Brasil através de escravos Bantu de Angola e áreas circundantes, sendo uma dança de casal muito sensual, voluptuosa e considerada bastante lasciva. Foi altamente popular em todo o Brasil no século XVII e início do século XVIII. Posteriormente substituído pelo maxixe (que também foi considerado escandaloso …) e, segundo alguns autores, em seguida pelo samba. Ver TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular: da modinha à lambada. São Paulo-SP: Art, 1991, p. 41. Sobre o encontro de Açucena com esta autoridade ver A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[4] O conjunto arquitetônico da igreja do Corpo Santo foi demolido para a construção da Avenida Marquês de Olinda em 1913.

[5] Ver http://adcon.rn.gov.br/ACERVO/secretaria_extraordinaria_de_cultura/DOC/DOC000000000113068.PDF

[6] Louis Sèbastien Mercier (1740-1814) foi um escritor francês, autor dramático da época revolucionária, membro da Convenção. Autor do romance de costumes Tableau de Paris, conhecido documento de caráter histórico e sociológico sobre a situação da sociedade francesa na véspera da Grande Revolução.

[7] João José de Oliveira Junqueira (Salvador, 10 de março de 1832 – 9 de novembro de 1887) foi um magistrado e político. Era filho do senador João José de Oliveira Junqueira, ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Foi deputado provincial, deputado geral, ministro da Guerra e senador do Império do Brasil de 1873 a 1887. Antes disso foi presidente das províncias do Piauí (1857 a 1858), Rio Grande do Norte (1859 a 1860) e de Pernambuco (1871 a 1872). Ver http://www.wikiwand.com/pt/Jo%C3%A3o_Jos%C3%A9_de_Oliveira_Junqueira_J%C3%BAnior

[8] A modinha era uma canção de origem portuguesa leve, sentimental e muito popular nos séculos XVIII e XIX. Alguns dos primeiros exemplos de modinhas estão nas Óperas Portuguesas (1733-41). Originalmente melodias simples, as modinhas costumavam serem abrilhantados com intrincados e elaborados efeitos musicais quando executados para a nobreza. Elas foram introduzidas no Brasil no final do século XIX onde permaneceram como expressões simples da vida urbana. Ver TINHORÃO, José Ramos. Pequena história da música popular: da modinha à lambada. São Paulo-SP: Art, 1991, p. 47.

[9] A xácara é uma narrativa popular cantada em versos também denominada romance, em que acontece algum episódio trágico, oriundas de Portugal e Espanha ainda encontradas no Brasil do século XIX. Ver FARIA, Edméia. Folclore Poético em Pompéu. Belo Horizonte-MG: Maza Edições, 2000, p. 59.

[10] Ver o periódico A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[11] Para se ter uma ideia podemos comparar os vencimentos da aposentadoria que Lourival Açucena ganhava com os vencimentos da aposentadoria de um juiz de direito na mesma época, que era de 4:800$000 (Quatro mil e oitocentos réis). Ver Mensagem lida pelo Governador Augusto Tavares de Lyra em 14 de julho de 1904, na abertura do Congresso Legislativo do Estado do Rio Grande do Norte, na página 114. Em 1904 Lourival Açucena tinha 77 anos.

[12] Sobre este apelido jocoso ver o periódico O Caixeiro, Natal-RN, edição de quinta-feira, 10 de agosto de 1893, pág. 4. Aparentemente as suas duas primeiras esposas faleceram em decorrência de partos mal assistidos.

[13] Ver o periódico A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 19 de outubro de 1927, pág. 1, na reportagem comemorativa dos 100 anos de nascimento de Lourival Açucena.

[14] Atualmente o local onde se situava o 10° Regimento de Cavalaria do Exército Brasileiro é a sede da Academia de Polícia Militar do Barro Branco (APMBB), da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Ver CERQUEIRA, Homero De Giorgi. A disciplina militar em sala de aula. São Paulo-SP: Ed. Biblioteca 24 horas, 2009, p. 51.

[15] Sobre a morte de Carlos Lourival ver os periódicos A Gazeta de Natal, edição de sábado, 27 de julho de 1889, pág. 2 e A Federação, Porto Alegre-RS, edição de segunda-feira, 29 de julho de 1889, pág. 1. A razão do falecimento do cadete Carlos Lourival ter sido estampada na primeira página deste jornal gaúcho deve-se ao fato dele ter vivido alguns anos naquele estado, onde fez muitos amigos, serviu em alguns quartéis e chegou a cursar a Escola Militar.

[16] Ver A República, Natal-RN, edição de quinta-feira, 12 de janeiro de 1939, pág. 3.

[17] Ver CASCUDO, Luís da Câmara. Introdução. In: AÇUCENA, Lourival. (Joaquim Eduvirges de Melo Açucena). Versos reunidos por Luís da Câmara Cascudo. 2. ed. Natal: Editora Universitária, 1986, p. 25-26

SAINT-EXUPÉRY FOI ABATIDO, OU NÃO, POR UM PILOTO DA LUFTWAFFE DURANTE A SEGUNDA GUERRA?

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Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry , um dos grandes escritores franceses – Fonte – https://disciplesofflight.com/antoine-de-saint-exupery/

SERÁ LANÇADO UM LIVRO QUE PROMETE APRESENTAR A PROVA DEFINITIVA QUE O AUTOR DE “O PEQUENO PRÍNCIPE” FOI DERRUBADO POR UM PILOTO ALEMÃO

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

No Rio Grande do Norte existe uma antiga querela para saber se no período áureo da aviação o escritor e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry esteve, ou não, em terras potiguares.

Para alguns potiguares certos apontamentos existentes em “O Pequeno Príncipe”, obra maior de Saint-Exupéry, possui ligações com paisagens e locais de Natal. Para outros essa afirmação não é verdadeira. 

Em todo caso já faz um tempo que foi criada essa polêmica, que só gerou um grande palco para intrigas e trocas de farpas. Um verdadeiro circo!  

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No Brasil a primeira edição de “O Pequeno Príncipe” chegou somente em 1945, pela Editora Agir, mas a estreia mundial ocorreu dois anos antes, em 6 de abril de 1943, nos Estados Unidos. Na foto uma das edições francesas – Fonte – https://www.terra.com.br/noticias/educacao/o-pequeno-principe-de-saint-exupery-completa-70-anos,a8a2b99cecbdd310VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html

Pessoalmente nunca dei maior importância ao fato da presença, ou não, deste grande escritor neste ponto extremo da América do Sul. Acho que a heroica história do período áureo da aviação em Natal é bem mais interessante que a passagem de um único personagem por essa terra. Mesmo esse personagem sendo Saint-Exupéry.

Mas o interessante é que a figura de Saint-Exupéry movimenta esse tipo de debate tanto aqui em Natal, como na Europa. Pois em breve será lançada uma obra que promete trazer a luz como esse brilhante homem morreu e que certamente vai acirrar essa polêmica no Velho Continente.

Fui feito para ser um jardineiro

“Se eu estiver doente, não me arrependo. O futuro terminantemente me assusta e eu odeio as suas virtudes robóticas. Fui feito para ser um jardineiro”. Foram estas as últimas palavras que o escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry deixou em uma nota, em sua mesa, antes de embarcar em seu último voo.

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Saint-Exupéry deixando a carlinga de um avião bimotor de fabricação norte-americana Lockheed F-5B-1-LO Lightning. As pequenas janelas no nariz do avião era onde estava instalada a câmera para a realização do reconhecimento aerofotográfico – Fonte – http://calanco.fr

Consta que ele foi morto pelo alemão Horst Rippert, piloto da Luftwaffe durante a Segunda Guerra Mundial. Uma teoria que nos últimos anos havia sido descartada e agora confirmada através de evidências conseguidas pelos principais pesquisadores sobre o desaparecimento do autor.

Os resultados, que ainda não foram anunciados, serão revelados em um livro que os quatro autores deste estudo esperam publicar no final do ano na França: o mergulhador e explorador profissional Luc Vanrell, que foi o descobridor dos restos do avião de Saint-Exupéry; o fundador alemão da Associação de Pesquisa de Aeronaves Perdidas durante a Guerra, Lino von Gartzen; o pesquisador e piloto Bruno Faurite; bem como o sobrinho e afilhado do escritor François d’Agay.

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Um Lockheed F-5B-1-LO Lightning de reconhecimento atuando no Pacífico – Fonte – NARA

O livro, que resolve um mistério com mais de sete décadas inclui fotos inéditas, testemunhos e outros detalhes que confirmam que a confissão feita pelo piloto alemão em 2008 era verdadeira. Uma teoria que havia sido descartada por que inicialmente não se encontrou buracos de bala, ou sinais de fogo, nos restos da aeronave de Saint-Exupéry, um avião bimotor de fabricação norte-americana Lockheed F-5B-1-LO Lightning, uma variante de reconhecimento fotográfico desarmada do caça Lockheed P-38 J Lighting, cujas partes foram recuperadas do mar em 2004, deixando todas as hipóteses abertas.

“Naquele dia havia outros aviões americanos na área, é por isso a confusão”, que também contribuiu para o fato de que os tiros não bateram nas asas, como Rippert tinha assegurado em 2008, mas na cauda, ​​como agora foi descoberto. Uma conclusão que não foi fácil de alcançar, uma vez que “o Lockheed F-5B de Saint-Exupéry fragmentou-se em quatro partes ao bater na água mar, ou tocar o fundo do mar”, como afirmou Bruno Faurite ao jornal espanhol ABC.

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Em 2003, o mergulhador Luc Vanrell descobriu os destroços de um avião mais tarde determinado a ser o piloto de Antoine de Saint-Exupéry, aproximadamente 60 anos depois que ele partiu da Córsega em rota para a França – Fonte -ww2wrecks.com

Pelos caprichos do destino Faurite nasceu no mesmo castelo onde o autor de “O Pequeno Príncipe” passou a infância.

Reconhecimento da aeronave

O naufrágio foi localizado pelo francês Luc Vanrell a uma profundidade de 87 metros, ao longo da ilha de Riou, perto da enseada de Sormiou, na região da cidade francesa de Marselha. A retirada dos restos da aeronave ocorreu em outubro de 2003. Foram encontradas partes da fuselagem, dos trens de pouso e mais de duas dúzias de fragmentos dispersos de metal. Depois se percebeu vestígios de um combate aéreo, mas com dados inconclusivos. 

Por estarem torcidos e dobrados, is restos apontavam que o avião tinha caído em alta velocidade no mar. Outra indicação mostrava que aquela aeronave atingiu a água em um ângulo quase vertical, o que sugeriu um homem inconsciente nos controles. 

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Restos do avião e seus descobridores – Fonte – http://calanco.fr

Em 7 de abril de 2004 os investigadores do Departamento Arqueológico Subaquático francês confirmaram que o avião, cuja matricula original americana era 42-68223, sem dúvida alguma foi o mesmo que foi pilotado pelo famoso escritor/piloto e onde ele encontrou a morte. Em junho de 2004 os fragmentos foram entregues ao Museu do Ar e do Espaço em Le Bouget, perto de Paris.

Mas a descoberta não resolveu o mistério do acidente. “Nós não sabemos por que aconteceu e provavelmente nunca saberemos”, disse ao jornal espanhol Patrick Granjean, o chefe de patrimônio do Departamento de Pesquisa Arqueológica Subaquática (DRASSM).

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Avião de Saint-Exupéry

Embora as autoridades e amigos tentassem demovê-lo de participar do conflito, com a Segunda Guerra o escritor Saint-Exupéry encontrou o significado do cumprimento de um dever que transcendia a sua felicidade individual. Inclusive aceitava o fato que pudesse lutar até o fim e de desaparecer em alguma missão de guerra.

Como se fosse uma de suas histórias, ele acabou abatido por quem, também pelo cumprimento de seu próprio dever, não sabia que acabaria derrubando seu próprio herói.

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Obergefreiter (OGefr) Horst Rippert, lotado no 3. Staffel do JGr. 200, o homem que derrubou o avião de Saint-Exupéry, fotgrafado na cabine de um ME 109.

“Em nossa juventude todos lemos e adoramos seus livros. Seu trabalho despertou a vocação de voar em muitos de nós. Adorei o personagem. Se eu soubesse que era ele nunca teria disparado”, admitiu a Horst Rippert aos 88 anos, depois de confessar, durante as investigações conduzidas por Luc Vanrell e Lino von Gartzen, que ele havia abatido Saint-Exupéry.

Rippert, que morreu em 13 de maio de 2013, em Wiesbaden, na Alemanha, também ofereceu detalhes que permitiram reconstruir de forma aproximada o último voo deste piloto e brilhante escritor.

Desvio de Rota

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O jovem  Saint-Exupéry – Fonte – https://www.quora.com/The-Little-Prince-book-What-is-the-story-of-Antoine-de-Saint-Exup%C3%A9ry

Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry nasceu em Lyon em 29 de junho de 1900, era filho do conde Jean de Saint-Exupéry e da condessa Marie de Fonscolombe. Era o terceiro dos cinco filhos desta família aristocrática, cuja morte prematura do pai colocou a todos em sérias dificuldades financeiras. Foi um aluno muito fraco, que falhou no exame de admissão à École Navale (Escola Naval) e depois estudou arquitetura por vários meses na École des Beaux-Arts (Escola de Belas Artes) em Paris.

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1930: Saint Exupéry no serviço de correio argentino – Fonte – https://www.quora.com/The-Little-Prince-book-What-is-the-story-of-Antoine-de-Saint-Exup%C3%A9ry

Em 1922 Exupéry obteve sua licença de piloto e tornou-se um dos pioneiros do voo postal internacional, nos dias em que as aeronaves tinham poucos instrumentos e quase nenhuma segurança. Mesmo assim ele voou sobre o Saara, a América do Sul (quando supostamente esteve em Natal) e não se intimidou. Mas é verdade que durante seus voos postais ele sofreu alguns acidentes que lhe deixaram com lesões. Um destes acidentes, no deserto da Mauritânia em 1927, lhe forneceu o pano de fundo para o livro “O Pequeno Príncipe”.

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Saint-Exupéry em uniforme militar – Fonte – http://www.trussel.com/saint-ex/stamps/equat2.htm

Saint Exupéry continuou a escrever e a voar até o início da Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro de 1939. Nos dias que se seguiram à declaração de guerra da França à Alemanha, Antoine de Saint-Exupéry foi mobilizado pela Força Aérea do seu país e recebeu a patente de capitão. Foi designado para o Groupe de reconnaissance II/33 (Grupo de reconhecimento II/33), ou GR II/33. Após o armistício da França com a Alemanha em 1940, ele seguiu para os Estados Unidos onde escreveu o seu mais famoso livro.

Após seus quase vinte e cinco meses na América do Norte, Saint-Exupéry voltou para a Europa para voar e lutar com os Aliados. 

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Saint-Exupéry a bordo do seu Lockheed – Fonte – https://disciplesofflight.com/antoine-de-saint-exupery/

Pouco antes das 9 da manhã horas do dia 31 de julho de 1944, Antoine de Saint-Exupéry, a bordo de um Lockheed F-5B-1-LO Lightning, partiu da base aérea de Borgo-Poretta, ao sul de Bastia, capital do departamento francês da Alta Córsega, na ilha da Córsega, para realizar uma missão reconhecimento fotográfico destinado a preparar o desembarque das forças Aliadas no sul da França, na chamada Operação Dragão.

Nesta missão primeiramente ele deveria fotografar as defesas alemãs na área da cidade de Grenoble, depois Annecy e finalmente Chalon-sur-Saône, todas na região do alto Vale do Ródano. Após a decolagem Saint-Exupéry entraria no território continental europeu na altura da cidade litorânea francesa de Saint-Tropez e seguiria em direção norte até os seus alvos. Era uma missão onde Exupéry percorreria entre ida e volta cerca de 1.700 quilômetros, grande parte do percurso pelo interior de sua amada França. Mas o Lockheed F-5B suportava bem essa missão, pois tinha autonomia superior para 3.500 quilômetros de voo.

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Antoine de Saint-Exupéry voa seu Lockheed F-5B-1-LO Lightning perto de Alghero, na costa da Sardenha, 1944 – Fonte – Fundação John e Annamaria Phillips.

Os radares da estação americana denominada “Colgate”, na ilha da Córsega, conseguiram segui-lo até cruzar a costa francesa em direção a Hyères, uma cidade perto da costa e a leste de Saint-Tropez.

O piloto Saint-Exupéry desviou da rota planejada, possivelmente para completar uma missão de reconhecimento fotográfico anterior em Marselha, que ele teve de abortar. Na sequência o traço da sua aeronave foi detectado pelos radares alemães a oeste da cidade de Lyon, a cerca de 300 quilômetros ao norte da região de Hyères.

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Pouso de um Lockheed F-5B – Fonte – NARA

Esta estação inimiga era denominada “Falter” e estava equipada com três radares modelos Freyas e dois Würzburg-Riesen. Seus operadores testemunharam a presença da aeronave não identificada em altas altitudes e vinda do sul, mas que estranhamente passou para um voo em altitudes bem mais baixas quando estava entre as cidades de Annecy e Grenoble.

Os inimigos estavam atentos

Cruzando informações geradas pelos americanos e alemães os pesquisadores acreditam que neste momento do voo Saint-Exupéry realizou um segundo desvio da rota planejada. E o objetivo foi sobrevoar o castelo de Saint-Maurice-de-Rémens, a cerca de 40 quilômetros a nordeste de Lyon.

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O castelo da família em Saint-Maurice-de-Rémens – Fonte – https://www.youtube.com/watch?v=SUbFXidl6mA

Este era um local especial, pois foi ali onde Saint-Exupéry passou sua infância com seus pais e seus quatro irmãos. Certamente ele fez o Lockheed F-5B perder altitude para contemplar a sua antiga vivenda e realizar algumas fotos com a câmera do avião. E essa não era a primeira vez que este romântico piloto/escritor realizou um sobrevoo sobre aquele lugar. Em uma missão anterior Saint-Exupéry, após realizar uma passagem sobre Saint-Maurice-de-Rémens para recordar o seu passado, teve de retornar para a ilha da Córsega em baixa altitude por causa de problemas em um dos motores do seu avião, o que o colocou ao alcance dos alemães. Mas nada lhe aconteceu.

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Um Messerschmitt Bf 109 G-6 alemão capturado pelos ingleses. Um avião deste modelo supostamente derrubou o avião de Saint-Exupéry – Fonte – NARA

De volta ao fatídico voo de 31 de julho de 1944, os pesquisadores descobriram que após o voo sobre o castelo ele se dirigiu para o sul e na área da cidade de Drauguignan, a cerca de 30 quilômetros da costa mediterrânea, os radares alemães perderam sinal de sua aeronave. A estação alemã “Falter” reportou então o caso do solitário avião inimigo aos pilotos da JGr. 200, ou Jagdgruppe 200 (Grupo de caças 200), no aeródromo da região de Aix-en-Provence, a noroeste de Marselha.

Sobre as esquadrilhas da Luftwaffe, a força aérea nazista, estacionadas no sul da França entre julho e agosto de 1944, os livros históricos apontam que havia na área apenas duas unidades operando com aviões de combate.

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Um Messerschmitt Bf 109 G-6 preservado, decolando na Alemanha para uma exibição aérea – Fonte – https://www.flyinglegends.com/aircraft/bf-109-g-4-red-seven-d-fwme.html

Uma delas era o 2.NAG 13, ou 2. Staffel (esquadrão) do Nahaufklärungsgruppe 13 (Grupo de reconhecimento de curto alcance 13), que contava com 11 pilotos e 7 aviões monomotores Focke-Wulf 190 A. Esse esquadrão operava no papel de reconhecimento tático e tinha como base a cidade de Cuers, poucos quilômetros ao norte de Hyères.

Já a outra unidade aérea da Luftwaffe na região era o JGr. 200. Este contava no seu inventário com 17 caças monomotores Messerschmitt Bf 109 G-6 e 31 pilotos operacionais. Mas no dia 30 de julho apenas 10 desses pilotos estavam em operação, com 8 disponíveis para o combate e 14 aeronaves em condições de voo. Um dos pilotos prontos para voar era o Obergefreiter (OGefr) Horst Rippert, lotado no 3. Staffel do JGr. 200.

Um alvo fácil

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Representação gráfica de como teria sido a queda do avião do famoso francês, na mesma área onde ocorreram os fatos em 1944 – Fonte – http://calanco.fr

O alemão decolou o seu ME-109 com o objetivo de reconhecer e atacar qualquer atividade aérea inimiga na costa. Algum tempo depois o piloto de caça conseguiu localizar um Lockheed F-5B que voava sobre o mar, em uma rota aparentemente entre Toulon e Marselha, seguindo em modo pendular e abaixo da altitude de segurança, o que surpreendeu muito o alemão.

Saint-Exupéry estava voando a cerca de 2.000 metros, quando era normal que uma máquina daquelas estivesse a 10.000 metros, situação que permitia a esses aparelhos norte-americanos Lockheed F-5B serem praticamente inalcançáveis ​​para a maioria dos caças nazistas. Rippert, mesmo sem observar danos aparente, achou que o bimotor a sua frente estivesse danificado devido à forma como seu piloto voava, indo tranquilamente de um lado ao outro. Nem parecia um avião de combate sobrevoando uma área conflagrada. 

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Outra composição gráfica do ataque do avião do alemão Horst Rippert contra a aeronave de Saint-Exupéry – Fonte – http://calanco.fr

É realmente estranho que um piloto como Saint-Exupéry, com mais de 6.500 horas de voo, estivesse tão baixo em uma área com a presença de inimigos, tendo sob seu comando uma potente aeronave com enorme capacidade para voos em altitudes elevadas e voando de modo pendular.

O alemão não encontrou dificuldade em seguir o Lockheed F-5B sem aparentemente ser visto pelo seu adversário e decidiu atacar. Partiu picado na direção do esguio bimotor inimigo, surgiu por trás e abriu fogo. Na sua visão ele despejou várias rajadas na asa esquerda, após o que parte dela caiu e a máquina colapsou. O piloto da Luftwaffe ainda pode ver como o avião foi sendo consumido pelas chamas e despencou na água sem que ninguém pulasse para fora da carlinga.

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Comandante Antoine de Saint-Exupéry, das Forces Aériennes Françaises Libres – Foto -John Phillips

Poucos dias depois o alemão soube do desaparecimento do escritor e foi quando percebeu o que aconteceu. Embora atormentado, Horst Rippert continuou aguardando a notícia que o infortunado piloto do avião que ele abateu, não era o autor que ele tanto admirava.

Algumas testemunhas na área da Baía de Carqueiranne, a oeste da cidade de Toulon, alegaram ter visto a queda deste avião. Dias depois chegou à praia um cadáver desfigurado e queimado, com uma insígnia de oficial francês. Este foi enterrado pouco depois sem ser identificado, mas o seu túmulo é considerado e reconhecido como o local onde repousam os restos mortais de Saint-Exupéry.

Não foi um suicídio

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Esta foi a pulseira encontrada no mar que ajudou a confirmar o local da queda do Lockheed no Mediterrâneo, como pertencente a Antoine de Saint-Exupéry, 60 anos depois que o seu voo desapareceu – Fonte – emaze.com

Em 1998, mais de meio século depois, um pescador na costa de Marselha chamado Jean Claude Bianco encontrou emaranhado em suas redes de pesca uma pulseira de prata com as inscrições SAINT-EXUPERY e CONSUELO, o primeiro nome da esposa do autor, Consuelo Suncín-Sandoval Zeceña. Esta descoberta fortuita foi a prova cabal da morte do até então desaparecido Saint-Exupéry e ajudou na posterior localização dos restos do Lockheed F-5B do famoso francês.

Para François d’Agay, que sempre lembrou de seu tio cercado de papéis, desenhos e escritos, ao ver o bracelete pela primeira vez comentou que “Naquele momento eu senti pena dele”.

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Luc Vanrell (E), o mergulhador, e Jean-Claude Bianco (D), o pescador que achou a pulseira, durante uma cerimônia na Câmara Municipal de Marselha – Fonte – http://calanco.fr

Mas igualmente o sobrinho ficou feliz com a descoberta, pois finalmente conheceu seu destino. Isso eliminou para família todas as falsas hipóteses de que Saint-Exupéry teria sofrido um acidente devido ao seu estado de saúde, ou que houvesse provocado deliberadamente um acidente pela forte tristeza que sentia devido a Guerra. Situações nas quais seu afilhado nunca acreditou.

Mas como sempre acontece com figuras famosas que desaparecem repentinamente, sempre pairaram as dúvidas e “teorias da conspiração”.

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Saint-Exupéry e seu Lockheed F-5B-1-LO Lightning  no solo – Fonte – http://calanco.fr

Durante a guerra Saint-Exupéry realizou com sucesso quase uma dúzia de missões, fotografando principalmente o Vale do Ródano ocupado pelos nazistas. Mesmo assim, por conta dos seus 44 anos de idade, ele foi considerado um velho se comparado à maioria dos homens que realizavam as mesmas tarefas e deveres. Daí sempre surgiu dúvidas sobre em relação a sua morte. Alguns lembravam seus antigos acidentes, o que suscitava dúvidas sobre o seu desempenho nos comandos de um Lockheed F-5B-1-LO Lightning. Um avião de difícil pilotagem e que não aceitava erros tolos.

Diziam que uma outra razão para o seu desaparecimento seria o fato de Saint-Exupéry está acima do peso na época, além de fumar muito e não praticar atividades físicas. Daí surgiu a hipótese que ele teria tido um desmaio em voo e perecido.

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Fonte – https://disciplesofflight.com/antoine-de-saint-exupery/

Já em relação a um possível suicídio, este foi um pensamento que permaneceu muito ativo na França durante anos, pois era de conhecimento geral que Saint-Exupéry havia sofrido depressões psicológicas.

Mesmo com o testemunho daqueles que o conheceram, que informavam sobre o seu alto senso de responsabilidade, não impediu que esta afirmação proliferasse. Ao longo dos anos seus familiares e amigos questionaram de maneira veemente a ideia que ele teria praticado suicídio com seu avião.

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Fonte – https://disciplesofflight.com/antoine-de-saint-exupery/

Afirmação sem documentação

O ponto de viragem destas teorias aconteceu em julho de 2006, como resultado da busca do fundador alemão da Associação de Pesquisa de Aeronaves Perdidas durante a Guerra, Lino von Gartzen.

Interessado em aviões Messerschmitt, Gartzen chegou ao veterano Horst Rippert, antigo membro do JGr.200 e jornalista esportivo na época do encontro. Já no primeiro momento, ao saber quem Gartzen era, o antigo piloto confessou imediatamente – “Abati Saint-Exupery”.

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Membros do Jagdgruppe 200, ao lado de uma das aeronaves do grupo, que está embaixo de uma rede de camuflagem – Fonte – http://www.trussel.com

O antigo piloto alemão aliviava de sua mente um segredo que ele manteve durante 64 anos. Segredo que não divulgou antes, pois imaginava que sua revelação teria sido uma catástrofe na sua vida no pós-guerra. Uma vida vitoriosa na imprensa esportiva alemã, pois Horst Rippert chegou a dirigir o serviço esportivo da ZDF, a segunda cadeia de televisão alemã, participando inclusive das organizações dos Jogos Olímpicos de Munique em 1972.

Mas o grande problema em relação ao relato de Rippert é que ele não tem confirmação de outras fontes.

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Comandante Antoine de Saint-Exupéry, Grupo de Chasse II/33, Forces Aériennes Françaises Libres , em um avião de reconhecimento fotográfico Lockheed F-5B em 1944. Saint-Exupéry afirmou que “A guerra não é uma aventura. É uma doença” – Fonte – Fundação John e Annamaria Phillips

Os registros de lutas aéreas da Luftwaffe em 31 de julho de 1944 não mostram a derrubada de nenhuma aeronave de reconhecimento na área onde Saint-Exupery pereceu. Nem as reivindicações oficiais de vitórias do antigo Obergefreiter Horst Rippert, feitas na época da Guerra, existe nas datas próximas ao acontecimento com Saint-Exupery alguma vitória sobre aviões modelo P-38 ou seus similares. O mais próximo é um B-24 abatido em 24 de julho e um Spitfire em 12 de agosto de 1944. É oficialmente confirmado um total de 28 aviões derrubados por Rippert durante o conflito.

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Foto de John Phillips, maio de 1944, Alghero, Sardenha.

Apesar de Rippert ter comprovadamente derrubado em combate caças P-51, Spitfire e Typhoon, além de bombardeiros Mosquito, B-17, B-24, B-26 e outros, existem algumas discrepâncias quanto à confirmação das reivindicações de Horst, devido ao fato de serem alegações feitas no final da guerra e poucos documentos sobreviveram para permitir uma verificação apurada de suas vitórias tardias. 

Promete-se que este livro que será logo lançado vai colocar novas luzes sobre estes fatos.

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1935: Antoine de Saint-Exupéry e André Prévost, diante do Caudron C.630 Simoun, F-ANRY, antes de um voo para Saigon, no Vietnã – Fonte – https://www.quora.com/The-Little-Prince-book-What-is-the-story-of-Antoine-de-Saint-Exup%C3%A9ry

Apesar de todas as dúvidas, o Ministério da Defesa Nacional reconheceu que Antoine de Saint-Exupéry “morreu pela França” no dia 13 de julho de 1944 e em ação de combate. 

Provavelmente sua morte continuará sendo um mistério. Mas certamente o debate não vai acabar nem tão cedo. Pois no meio de tudo isso estão os velhos resquícios da ocupação da França pelos nazistas, na forma como os franceses e alemães se encaram e se repudiam.