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65 ANOS DA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO DE LUIZ GONZAGA EM NATAL

Luiz Gonzaga e seu grupo.

O Grande Mestre da Música Nordestina Se Apresentou na Rádio Poti de Natal em 1956, Junto Com Seu Pai, O Velho Januário, Em Meio a Uma Tournée Pelo Nordeste.

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN.

Em meio as lembranças pelos 30 anos da partida do Mestre Luiz Gonzaga, achei interessante apresentar um material que encontrei nos velhos jornais sobre a primeira apresentação dessa lenda da cultura nordestina na capital potiguar. E foi a primeira de muitas!

Em 1954 Luiz Gonzaga do Nascimento, pernambucano da cidade de Exu e se encontrava no auge da carreira. Ele, suas músicas, o seu chapéu de couro e sua sanfona eram apresentados com extrema assiduidade nas principais revistas dedicadas aos artistas do rádio. Os mesmos rádios, então o principal veículo de comunicação popular existente nos lares do país naquela época, onde os brasileiros ouviam e admiravam a sua potente voz.

Luiz Gonzaga e sua alegria, registrada na Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Luiz Gonzaga foi o primeiro artista musical oriundo do Nordeste a ser um grande sucesso popular. Isso pode ser comprovado em junho de 1952, no Rio de Janeiro, quando ocorreu uma festa que reuniu 60.000 pessoas para escutar o Rei do Baião e dançar xaxado. Foi durante os festejos juninos realizados no bairro de São Cristóvão, mais precisamente no antigo Campo de São Cristóvão, onde até hoje acontece a famosa feira no atual Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas. A festança foi promovida pelas Rádios Tamoio e Tupi, onde contou com ampla cobertura da Rede Tupi de Televisão, a primeira emissora de TV da América Latina e inaugurada apenas dois anos antes[1].

As câmeras da Rede Tupi de Televisão registrando a festa de 1952 em São Cristovão. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Segundo Dominique Dreyfus, escritora francesa que escreveu a biografia Vida de Viajante: A Saga de Luiz Gonzaga, os anos de 1953 e 1954 foram de muitas viagens para realização de tournées pelo Brasil afora. Perto da metade do ano de 1954 teve início mais uma, com o patrocínio do Colírio Moura Brasil, onde o aclamado Rei do Baião percorreu várias cidades nordestinas.

Uma carioca de belas pernas, da equipe de dançarinas da TV Tupi, xaxando feito uma nordestina. Revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952.

Pouco antes de iniciar a nova série de viagens, quando no dia 25 de maio realizou uma apresentação na Rádio Mayrink Veiga, Luiz Gonzaga recebeu um exemplar de uma asa branca em uma gaiola, ofertado pelo povo de Exu, que lhe foi entregue por Cândido Holanda Cavalcanti, oficial médico da Força Aérea Brasileira e seu conterrâneo[2].  

Na Estrada

Quando realizou uma apresentação na cidade baiana de Feira de Santana, no Campo do Gado, quem testemunhou o espetáculo foi o escritor, sociólogo e jornalista Muniz Sodré de Araújo Cabral, então com 12 anos de idade, que registrou “Era noite de céu brilhante. Enluarado, Gonzaga subiu ao palanque, com chapéu de couro cru e três estrelas na aba da frente, gibão de couro, alpercatas e sanfona prateada dependurada no pescoço. O grito de louvação do povo, longo, em uníssono, fez vibrar o madeirame do palco. Como esquecer?”[3].

Sabemos que nessa tournée Gonzaga esteve no Maranhão, no Piauí e em Campina Grande, na Paraíba. Nessa cidade fez uma apresentação na Rádio Borborema e esteve na sede do Partido Democrático Social, o PSD, uma das maiores agremiações políticas do Brasil na época, onde recebeu um abraço do então senador Rui Carneiro[4].

Luiz Gonzaga ao centro, com um grande lenço e Humberto Teixeira é o primeiro da direita para esquerda com chapéu de couro.

No Ceará também houve a mescla de show e política. Primeiramente Gonzaga realizou em Fortaleza uma apresentação no auditório da Rádio Clube do Ceará, na sequência cantou ao ar livre durante a Primeira Festa do Radialista, em evento transmitido pela Rádio Iracema[5]. Depois seguiu para apoiar politicamente o amigo Humberto Teixeira em sua terra natal, a cidade cearense de Iguatu. Formado em 1944 pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Humberto Cavalcanti Teixeira ganhou fama como compositor em parceria com Luiz Gonzaga, principalmente a partir de 1945[6].

Logo Gonzaga, trazendo sua sanfona, apontou a bússola para a direção da capital potiguar. Segundo o jornal natalense O Poti, o Rei do Baião chegou acompanhado de uma figura ilustre; Januário José dos Santos, seu pai, o conhecido Velho Januário.

Luiz Gonzaga e seu pai, o Velho Januário, que na foto está com uma sanfona de 8 baixos – Fonte – https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

Januário era da região do Pajeú, em Pernambuco, tendo nascido a 25 de setembro de 1888. Consta que premido pela estiagem chegou à Fazenda Caiçara, a doze quilômetros de Exu, acompanhado de seu irmão Pedro Anselmo, no ano de 1905. Lavrador e exímio sanfoneiro de oito baixos ficou conhecido por ser um homem dedicado à família e respeitado em toda a sua região pela sua arte. Foi casado primeiramente com Ana Batista de Jesus Gonzaga do Nascimento, a mãe de Luiz Gonzaga, conhecida na região por “Santana”, ou “Mãe Santana”, cuja união com Januário gerou nove filhos[7]. Em 1954 o Rei do Baião já havia levado seu pai para o Rio de Janeiro, mas ele decidiu voltar para Exu, próximo a Serra do Araripe. Não sei como ocorreram as circunstâncias e negociações para o Velho Januário acompanhar seu filho Luiz Gonzaga nessas apresentações pelo Nordeste há 65 anos, mas o certo é que os dois vieram juntos para Natal.

O Rei do Baião também veio acompanhado de Osvaldo Nunes Pereira, baiano de Jequié. Este era um jovem humilde, que era anão e tocava triângulo. Pela baixa estatura recebeu primeiramente o nome artístico de Anão do Xaxado e depois Salário Mínimo[8]. Além deste fazia parte do grupo que chegou a Natal o zabumbeiro conhecido como Aluízio.

Sobre esse último integrante temos um pequeno mistério!

Nas páginas 181 a 186 do livro de Dominique Dreyfus encontramos os detalhes sobre a saída do zabumbeiro Catamilho e do tocador de triângulo Zequinha como instrumentistas acompanhantes de Gonzaga em 1953. Bem como podemos ler sobre a entrada de Osvaldo Nunes Pereira e de um zabumbeiro piauiense chamado Juraci Miranda, conhecido como Cacau.

Dreyfus inclusive traz uma foto na página 187, onde Luiz Gonzaga se apresenta em um palco ao lado do Anão do Xaxado com o triângulo e de um zabumbeiro que é apontado como sendo Cacau. Ocorre que na página 29 do livro Forró – The Ecoding by Luiz Gonzaga, de autoria de Climério de Oliveira Santos e Tarcísio Soares Resende, publicado pela CEPE Editora em 2014, como parte da série Batuque Book, com edição bilíngue em português/inglês, é possível ver a mesma foto com a legenda (em inglês) que indica ser Salário Mínimo no triângulo e na zabumba o tocador era Aluízio. Como o jornal natalense O Poti também aponta que Aluízio esteve com o Rei do baião na capital potiguar, na sequência de suas apresentações em Fortaleza, creio que o trabalho de Santos e Resende parece está correto.

Independente desse pormenor, o certo é que em agosto de 1954 o Anão do Xaxado e Aluízio eram relativamente novos na parceria com Gonzaga.

No “Auditório B” da Rádio Poti de Natal

Luiz Gonzaga, seu pai e os dois tocadores que lhe acompanhavam a Natal iriam se apresentar nos auditórios da Rádio Poti.

Postal com o anteprojeto da Rádio Educadora de Natal, de autoria de Carlos Lamas e construção da empresa de Gentil Ferreira de Souza. O sonho de uma rádio em Natal se concretizava.

Essa rádio se originou a partir da Rádio Educadora de Natal – REN, a primeira emissora do Rio Grande do Norte e que entrou efetivamente no ar em 29 de novembro de 1941. Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, proprietário de um conglomerado midiático chamado Diários Associados, que nessa época abrangia jornais em várias cidades brasileiras, revistas e estações de rádio, compra m 1944 a REN e a transforma na Rádio Poti. A renovada emissora transmitia em AM (amplitude modulada), na frequência de 1.270 kHz e mantendo o tradicional prefixo da REN – ZYB-5.

Assis Chateaubriand discusando.

Essa rádio se torna um grande sucesso na cidade, pois através da ação dos Diários Associados o seu auditório passou a receber muitos cantores nacionalmente conhecidos. Um deles foi Sílvio Caldas, que ali se apresentou entre 25 e 27 de maio de 1948, sob o patrocínio do “Creme dental Nicotan”[9].

Logo Chateaubriand decidiu realizar alterações na rádio, sendo a principal ação a ampliação e modernização do chamado “palco-auditório”, na sede que a Rádio Poti possuía na Avenida Deodoro. Isso proporcionou uma maior e melhor capacidade de transmitir programas de auditório, humorísticos, jornalísticos, musicais, radionovelas e outros. A festa de inauguração do novo auditório, o conhecido “Auditório da Avenida Deodoro”, ocorreu em uma sexta-feira, 3 de novembro de 1950. O mestre da cerimônia foi o radialista Genar Wanderley e a principal atração foi uma bela e exuberante cantora de 21 anos de idade, nascida na cidade paulista de Taubaté e chamada Hebe Camargo[10].

Ao ler os jornais da época percebe-se nitidamente o estrondoso sucesso do novo “palco-auditório” da Rádio Poti, aonde as apresentações vão ocorrendo e movimentando intensamente a vida cultural de Natal.

Diante do sucesso dessas apresentações e buscando ampliar o público, a direção da Rádio Poti decidiu utilizar  o que passou a ser chamado de “Auditório B”. Este era um auditório amplo e confortável, que ficava na antiga sede do Alecrim Futebol Clube, na Avenida Presidente Bandeira, ou Avenida 2[11].

Antiga sede da Rádio Poty, a principal de Natal.

Esse era um local que, além das atividades próprias da administração dessa tradicional equipe de futebol natalense, também era um ponto de grande efervescência cultural. Ali ocorreram grandes bailes de carnaval, festas juninas, reuniões de partidos políticos, festas dançantes aos domingos e até peças de teatro. Em março de 1949, o renomado teatrólogo Inácio Meira Pires ali criou um núcleo de teatro amador chamado “Teatro do Bairro”, que utilizava o auditório do Alecrim Clube como local de apresentações[12]. Vale ressaltar que muitas dessas festas, reuniões políticas, peças de teatro e outros acontecimentos importantes eram transmitidos pela Rádio Poti.

No sábado, 31 de agosto de 1954, ocorreu a transmissão no palco do Alecrim Clube do programa “Vesperal dos Brotinhos”, sob o comando de Luiz Cordeiro e Rubens Cristino. No outro dia aconteceu no mesmo palco a comemoração do sexto aniversario do popular programa de auditório “Domingo Alegre”, apresentado por Genar Wanderley, sendo os ingressos vendidos por apenas CR$ 3,60 (três cruzeiros e sessenta centavos)[13].

Logo foi anunciada a apresentação de Luiz Gonzaga.

Sucesso em Natal

Certamente ser supersticioso era algo que o grande Luiz Gonzaga não era, pois sua primeira apresentação na capital do Rio Grande do Norte ocorreu em uma sexta-feira, dia 13, do mês de agosto. E foi um sucesso!

Sabemos que os ingressos foram vendidos ao preço de CR$ 10,00 (dez cruzeiros). Um valor não tão elevado em 1954, equivalente a uma corrida de taxi para o que era considerado naquele tempo o perímetro urbano de Natal. Pois fora dessa área tudo era mais caro. Uma corrida para a praia de Ponta Negra custava R$ 80,00 (oitenta cruzeiros). Já para o Aeroporto de Parnamirim o valor saltava para R$ 100,00 (cem cruzeiros)[14].

Luiz Gonzaga trouxe “um repertório inteiramente novo, suficiente para um espetáculo completo”. Se aconteceu como foi descrito no jornal natalense O Poti, certamente o Rei do Baião tocou no palco do Alecrim Clube os sucessos produzidos no primeiro semestre de 1954. Tais como “Feira do gado” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), “Velho novo Exu” (Luiz Gonzaga/Sylvio M. Araújo), “Olha a pisada” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) “Lascando o cano” (Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros. A estes com certeza se juntaram aos sucessos criados do ano anterior, como a fantástica música “O xote das meninas”, a bela “Algodão” (ambas as composições fruto da parceria Luiz Gonzaga/Zé Dantas) e outros grandes sucessos. Os informes jornalísticos apontam que o auditório “superlotou” para assistir o Rei do Baião, sendo muito aplaudidas as apresentações musicais.

Da esquerda para direita vemos Aluízio, Luiz Gonzaga, o Velho Januário e o Anão do Xaxado, tal como se apresentaram em Natal – Fonte – http://www.forroemvinil.com/luiz-gonzaga-e-januario-em-fortaleza/

No sábado por volta das quatro da tarde, Luiz Gonzaga realizou aparentemente sozinho, uma entrevista na Rádio Poti. À noite, por volta das oito horas, nos estúdios da mesma rádio foi realizada uma nova apresentação musical com Luiz, seu pai e os instrumentistas, que O Poti informou ter sido transmitida em “ondas médias e curtas”.

Já no domingo a tarde, 15 de agosto, Luiz Gonzaga, o Velho Januário, Anão do Xaxado e Aluízio bisaram o show no palco do Alecrim Clube. Depois, às nove horas da noite, o grupo seguiu para o Auditório da Avenida Deodoro, que se encontrava completamente lotado para a despedida de Luiz Gonzaga de Natal. Eles tocaram no âmbito do programa “Domingo Alegre”, que contou com a apresentação do radialista Genar Wanderley. Na ocasião estava presente o jornalista Edilson Varela, representante dos Diários Associados no Rio Grande do Norte, o grupo de mídia e comunicação comandado por Assis Chateaubriand. Varela era também diretor dos jornais O Poti e Diário do Natal, além de responder administrativamente pela Rádio Poti.

Luiz Gonzaga diante do microfone de uma rádio.

Show em Currais Novos e Os Vários Retornos ao Rio Grande do Norte

Sabemos que provavelmente naquele agosto de 1954 o tocador Luiz Gonzaga, acompanhado de seu pai e seus instrumentistas, também estiveram na cidade potiguar de Currais Novos.

Segundo o blog “Pimenta com Mel”, do comunicador Felipe Félix, encontramos a informação transmitida por José Nobre de Medeiros, conhecido nessa cidade como Zénobre. Nascido em 1942 na zona rural currais-novense, no Sítio Saquinho da Malhada da Areia, Zénobre informou que viu Luiz Gonzaga em sua cidade em 1954, que assistiu a apresentação do pernambucano de Exu no coreto da Praça Cristo Rei e que o Rei do Baião foi patrocinado pela fábrica de bicicletas Monark[15].

Recebemos a informação do engenheiro civil Moacir Avelino Bezerra Junior e do seu irmão Haroldo Márcio Avelino Bezerra, Professor do IFRN de Mossoró, que nesse mesmo 1954, após uma possível apresentação em Mossoró, Luiz Gonzaga foi convidado pelo rico agropecuarista Francisco das Chagas Sousa, conhecido como Chico Sousa, para cantar na cidade de Afonso Bezerra. A apresentação para a população local foi realizada na carroceria de um caminhão.

Provavelmente nessa ocasião Luiz Gonzaga tocou em outras cidades potiguares, mas infelizmente não consegui dados sobre isso.

Perto do fim do mês Luiz Gonzaga está com o seu pai e seus dois instrumentistas em Recife, Pernambuco. Na noite de sábado, 21 de agosto, ele realizou uma apresentação no tradicional Clube Internacional, na Rua Benfica, no bairro da Madalena. Foi uma ação em prol da Sociedade Pernambucana de Proteção a Lepra, onde buscavam angariar fundos para a construção da Colônia de Férias de Olinda, destinada as crianças que sofriam dessa doença naquele estado[16].

Sobre as apresentações de Luiz Gonzaga no Rio Grande do Norte, percebemos que o sucesso foi total. Nove meses depois o tocador retornava para novos shows em Natal.

No início de maio de 1955 o pernambucano de Exu retornou para as novas apresentações junto aos auditórios da Rádio Poti sem trazer o Velho Januário. Estavam ao seu lado dois instrumentistas que não foram listados. O interessante é que dessa vez o patrocínio veio da empresa italiana de bebidas Martini & Rossi, que havia desembarcado no Brasil cinco anos antes e procurava se popularizar através do Rei do Baião[17].

O Rei do Baião era artista contratado da empresa RCA Victor, sendo um dos seus campeões de vendagem.

Como no ano anterior, as apresentações de Luiz Gonzaga em Natal foram cobertas de êxito.

Luiz Gonzaga Não Gostava de Natal e do Rio Grande do Norte?

E esse sucesso se repetiu ao longo dos anos, a cada nova apresentação desse incomparável sanfoneiro na capital potiguar.

Nota em jornal natalense para novas apresentações de Luiz Gonzaga na capital potiguar, após 1954.

Mas alguns pesquisadores afirmam que Luiz Gonzaga tinha uma relação negativa com Natal e o Rio Grande do Norte. Isso teria ocorrido em razão de alguns calotes que o mesmo teria levado de empresários de shows locais. Mas para quem pesquisa as páginas dos jornais antigos isso não fica aparente, pois são inúmeras as apresentações desse artista em Natal ao longo de décadas. Creio que dificilmente Rei do Baião retornaria a Natal para continuar sendo mal tratado e vilipendiado!

Propaganda das apresentações de Luiz Gonzaga em Natal no ano de 1956.

Além das apresentações de agosto de 1954 e de maio de 1955, ele retornou em dezembro de 1956 (quando se apresentou para o povão na Praça André de Albuquerque). Depois voltou em dezembro de 1960, no final de junho de 1961 e em fevereiro de 1962. Já no ano de 1975 esse artista esteve em Natal em duas ocasiões. A primeira no mês de março, no show de inauguração solene da Avenida Bernardo Vieira, quando estiveram no mesmo palco que cantou o Rei do Baião os potiguares Ademilde Fonseca, Trio Irakitan e Fernando Luís. A segunda em 9 de agosto, quando juntamente com o Trio Nordestino realizaram um show maravilhoso, para uma Praça Gentil Ferreira completamente lotada. Esse evento aconteceu no mesmo bairro do Alecrim onde Luiz Gonzaga tocou em Natal pela primeira vez no ano de 1954. Esses grandes músicos nordestinos participavam da chamada “Caravana do Sucesso”, uma série de shows por todo o Brasil, patrocinados por uma indústria de bebidas.

Luiz Gonzaga em Natal em agosto de 1975.

Desse momento posso comentar como testemunha ocular.

Garoto de oito anos de idade, assisti a esse show pendurado no pescoço, ou no cangote, do meu pai. Recordo dos potentes holofotes que iluminavam tudo, das milhares de pessoas que lotavam a principal praça do Alecrim e, principalmente, de Luiz Gonzaga com sua sanfona branca, seu chapéu de couro cintilando na mesma cor e de sua voz forte e marcante. Desse dia nunca esqueci que meu pai, Calabar Medeiros, me disse ao sairmos de nossa velha casa na Rua Borborema, no mesmo bairro do Alecrim, para ir assistir esse grande espetáculo – “Esse homem canta a alma da nossa terra, da nossa gente”.

Anos depois, no dia 23 de agosto de 1983, eu tive a oportunidade de assistir ao grande encontro de Luiz Gonzaga e do cantor Raimundo Fagner, além de outras grandes figuras da música nordestina. Foi no atualmente esquecido show “Canta Nordeste – Vozes contra seca”, no chamado movimento “SOS Seca”, que aconteceu no atualmente estádio de futebol Castelão de Natal, sendo uma iniciativa do Instituto Varela Barca. Foi verdadeiramente delirante se encontrar naquele local e acompanhar novamente Luiz Gonzaga, em uma interessante parceria com Fagner. Encontro que renderia três ótimos discos nos anos seguintes. Quis Deus que em 2010 eu conhecesse Raimundo Fagner e ele gentilmente realizasse o prefácio do meu segundo livro João Rufino – Um visionário de fé

Meu pai deixou esse plano no último dia 9 de julho de 2019 e, como meu pai me ensinou, eu jamais deixei de escutar as músicas de Luiz Gonzaga do Nascimento e de me emocionar com sua voz.

NOTAS


[1] Ver revista O Cruzeiro, Rio de Janeiro-RJ, ano XXIV, nº 39, ed. 12 de setembro de 1952, págs. 21 a 23.

[2] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro – RJ, Rio Gráfica Editora, ed. da 1ª quinzena de junho de 1954, pág. 11.

[3] Ver Folha de São Paulo, São Paulo-SP, edição de domingo, 19 de dezembro de 2010, in https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il1912201007.htm  

[4] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 25 de agosto de 1954, pág. 11.

[5] Ver Radiolândia, Rio de Janeiro-RJ, Rio Gráfica Editora, ed. 4 de setembro de 1954, pág. 18.

[6] No pleito de outubro de 1954, Humberto Teixeira candidatou-se a deputado federal pelo Ceará na legenda do Partido Social Progressista, mas obteve apenas uma suplência. Ao longo da legislatura 1955-1959, exerceu o mandato em quatro ocasiões. Como deputado federal, obteve a aprovação da chamada Lei Humberto Teixeira, que permitiu a realização de caravanas para a divulgação da música popular brasileira no exterior. Concorreu à reeleição em outubro de 1958, mas não foi bem sucedido.

[7] Em segundas núpcias Januário se uniu a Maria Raimunda de Jesus, em 5 de novembro de 1960. Detalhes sobre sua vida ver https://fabiomota1977.wordpress.com/2006/11/21/seu-januario-o-mestre-dos-8-baixos/

[8] Sobre a participação de Osvaldo Nunes Pereira ver DREYFUS, Dominique. Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga. São Paulo: Ed. 34, 1996, pags. 182 a 186.

[9] Sobre esse período áureo da Rádio Poti ver http://www2.carosouvintes.org.br/radio-poti-de-natal-narrando-as-primeiras-historias/. Sobre a apresentação de Sílvio Caldas ver jornal A Ordem, Natal-RN, ed. 21 de maio de 1948, pág. 7.

[10] Sobre essa festa ver o Diário de Natal, edição de 4 de novembro de 1950, pág. 6.

[11] O Alecrim Futebol Clube foi fundado no bairro do mesmo nome no ano de 1915 e o seu primeiro goleiro foi o futuro presidente da República do Brasil, João Café Filho. O Alecrim foi campeão de futebol potiguar nos anos de 1924, 1925, 1963, 1964, 1968 (Invicto), 1985 e 1986. Mais sobre esse tradicional clube ver https://www.campeoesdofutebol.com.br/alecrim_historia.html

[12] Sobre o Teatro do Bairro, ver Diário de Natal, edição de 9 de março de 1949, pág. 6.

[13] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 1º de agosto de 1954, pág. 8.

[14] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 7 de outubro de 1954, 1ª pág.

[15] Ver http://pimentacommelcn.blogspot.com/2012/01/o-rei-do-baiao-e-recordado-com-mais.html

[16] Ver Diário de Pernambuco, Recife-PE, edição de 21 de agosto de 1954, pág. 2.

[17] Ver jornal O Poti, Natal-RN, edição de 4 de maio de 1955, pág. 6.

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BAILE DE MÁSCARAS

O jornalista e escritor Vicente Serejo – Foto: Alex Régis/ Tribuna do norte

Vicente Serejo

Jornalista e escritor

Publicado originalmente na Tribuna do Norte, edição de 8 de julho de 2019.         

Nenhuma instituição cultural do Rio Grande do Norte cuida para valer da história do seu povo. Nenhuma. Para citar uma exceção, seria a Universidade Federal que, embora sem muito fulgor, tem pelo menos editado e reeditados livros e estudos indispensáveis ao registro do nosso pensamento intelectual, ontem e hoje. As demais, lustram com o verniz da vaidade o bestunto e os egos, e nem notam que se transformaram em capitanias quando deveriam ser usinas de idéias.

Quase sempre louvaminheiras, levadas à feérica distribuição de berloques e medalhões, nossas instituições aceitaram viver como se tivessem donos, e hoje estão mergulhadas em velhos vícios. Perdemos o bonde de tudo quanto tem renovado o movimento cultural do Nordeste e do Brasil. O que conquistamos no passado, em cosmopolitismo, perdemos nas últimas décadas, ressalvadas as iniciativas individuais e pessoais de alguns teimosos no ofício da resistência.

Fomos arrojados, sim. Uma cidade do mundo. Desde as travessias marítimas e aéreas. Com Augusto Severo. Nos direitos da mulher, com Nísia Floresta. Na poesia de Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes. Nas idéias de Henrique Castriciano para a educação feminina. No sertão de Eloy de Souza e Felipe Guerra. No olho antecipador de Joaquim Inácio de Carvalho. No gênio de Cascudo estudando o povo. No grito das vanguardas – a poesia concreta e o poema processo.

Como pensadores, mesmo numa província cercada destes morros, deste rio e deste mar, estivemos nas maiores e mais importantes coleções do pensamento intelectual brasileiro com os nossos nomes. Na Brasiliana e na Coleção Documentos Brasileiros, para citar as duas maiores:  Rodolpho Garcia, Aurélio Pinheiro, Câmara Cascudo, Jayme Adour, Garibaldi Dantas, Peregrino Júnior. Hoje, estamos confinados às nossas editoras particulares ou financiando a própria glória.

Nossa única biblioteca pública estadual está fechada há mais de dez anos. Nosso Teatro, tão nobre no afrancesamento de suas grades e seus lustres magistrais, fechou as portas há mais de cinco anos. A Fortaleza dos Reis Magos corre o risco de perder a solidão de sua beleza colonial cercada de um parque turístico modernoso. Não temos museus. Não temos casarões restaurados, nem monumentos preservados. E os que fazem o turismo dito cultural são jejunos intelectuais.

Sequer temos merecido o protesto genial, nascido, qual Fênix, das nossas próprias cinzas.  Teria sua beleza e espantaria o mundo. Perdemos a vida pacata, tangidos pelo falso progresso, e ganhamos a pasmaceira. Os improvisos substituíram as idéias e os sabidos tomaram o lugar dos sábios. Rasos em tudo, perdemos o engenho e a arte. Não somos usina. Somos de novo aquela aldeia de vaqueiros e pescadores, como um dia advertiu Edgar Barbosa. Sem ouro e sem fortuna.


NOTA – Meus sinceros agradecimentos ao jornalista Vicente Serejo pela cessão do texto de sua autoria para publicação em nosso TOK DE HISTÓRIA.

Fonte da foto da moldura – https://mercadonegroantiguidades.com.br/caneta-de-pena/

FALECEU LENINE PINTO, O MAIOR HISTORIADOR SOBRE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL NO RIO GRANDE DO NORTE

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Conheci esse homem incrível entre 2008 e 2009, quando fui coautor do livro “Os Cavaleiros dos Céus”. Lenine foi de uma gentileza impressionante e de uma atenção enorme para com um desconhecido que desejava apenas escrever sobre a história potiguar. Seus conselhos foram marcantes e eu nunca esqueci suas palavras. Era um homem simples, que amava os livros e a história de sua terra. Devo muito a ele através do seu exemplo. Vá em paz Grande Mestre!

NOVAS HISTÓRIAS SOBRE A SEGUNDA GUERRA

Documentos, fotos e novos capítulos sobre a participação do RN na história do conflito mundial estão em coleção de livros da Caravela Cultural. Uma dessas informações inéditas está em “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, do historiador Rostand Medeiros, que resgata a história de uma queda de avião no Seridó. A série faz parte de edital lançado pelo SEBRAE

Yuno Silva – Repórter

Publicado no jornal Tribuna do Norte, edição de quartafeira, 27 de março de 2019, na primeira paginado Caderno Viver.

“A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial” ainda rende, e muito! A cada remexida em arquivos e documentos, surgem novas memórias, detalhes e curiosidades sobre esse período importante para a história mundial e que as cidades de Natal e Parnamirim ainda não souberam preservar e nem tiara nenhum proveito turístico e/ou museógrafo. Foi aqui, nessa esquina continental, no início da década de 1940, onde mascaram o primeiro chiclete, beberam o primeiro chope de máquina, vestiram a primeira caça jeans e jogaram a primeira partida de fliperama da América do Sul.  

Parnamirim, por sua vez, abrigou um dos maiores entrepostos comerciais do planeta na época do conflito; só aqui no RN era possível compara meia calça de nylon – no restante dos países, todo o estoque do tecido sintético criado em 1935 já tinha virado material para fabricação de paraquedas.

A Segunda Guerra se estendeu entre 1939 e 1945, o Brasil se envolveu oficialmente a partir de agosto de 1942, e perceber o que restou do legado norte-americano em terras potiguares exige um olhar atento.

É nesse momento, da necessidade do “olhar atento”, que entram em cena três novos motivos para revisitar aquele momento de efervescência urbana, cultural e social que sacudiram Natal e Parnamirim a editora Caravela Selo Cultural lança no próximo dia 2 de abril, às 11 horas, na sede do SEBRAE-RN, os três livros que integram a coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”.

São três obras independentes, com abordagens diferentes, que se complementam e acrescentam mais “molho” no que já se sabe. “São livros diferentes sobre a mesma temática, e que trazem informações inéditas sobre o assunto”, assegurou o jornalista, engenheiro civil e pesquisador Leonardo Dantas de Oliveira, coautor do livro “A engenharia norte-americana em Natal na Segunda Guerra Mundial”, que ele assina junto com Osvaldo Pires de Souza e Giovanni Maciel de Araújo Silva.

Completam a coleção uma coletânea “Observações sobre a Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, reunindo artigos científicos e organizados pelo escritor e editor da Caravela José Correia Torres Neto; e o livro “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, do pesquisador e historiador Rostand Medeiros.

A coletânea, explicou José Correia, reúne textos atuais produzidos por especialistas e estudiosos da UFRN e de outras universidades de outros estados. “Boa parte do material que estamos publicando já vinha sendo organizado e catalogado pelos autores, e quando decidi editar a coleção tivemos seis meses para deixar tudo pronto para impressão”, lembrou o editor, que aproveitou o edital Economia Criativa 2018 do SEBRAE-RN para viabilizar o projeto.

“O lançamento da coleção no SEBRAE-RN vai coincidir com o lançamento da edição 2019 do edital”, avisou Correia.

Papagaio de guerra

O volume da coletânea organizado pelo editor da Caravela Selo Cultural traz oito artigos científicos e pelos títulos percebe-se que as abordagens buscam ir além do lugar comum.

Entre os textos publicados destaque para “Cabarés de Natal: do esplendor do Cabaré de Maria Boa ao ostracismo do Beco da Quarentena (1942 – 1950)”, escrito por Jéssica Freire Dalcin, Monique Maia de Lima e Yasmênia Evelyn de Barros.

Outros artigos buscam ir mais fundo para instigar a reflexão, como “A busca de um tesouro perdido: o desejo das elites de Natal (RN) em torná-la uma cidade moderna no século 20”, de Giovana Paiva de Oliveira; e “Uma cidade marcada por perdas e sonhos: a Natal da Segunda Guerra Mundial”, de Giovana Paiva de Oliveira em parceria com Ângela Lúcia Ferreira e Yuri Simonini.

Documentos, fotos e novos capítulos sobre a participação do RN na história do conflito mundial estão em coleção de livros da Caravela Cultural. Uma dessas informações inéditas está em “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, do historiador Rostand Medeiros, que resgata a história de uma queda de avião no Seridó. A série faz parte de edital lançado pelo SEBRAE

Já o livro de Rostand Medeiros faz, literalmente, um “sobrevoo” sobre o momento histórico com textos curtos recheados por curiosidades, detalhes e passagens que ainda não tinham sido revelados.

Relatos e depoimentos se misturam a uma narrativa alicerçada por documentos que comprovam cada afirmação. Medeiros aborda desde a “Influência das tripulações alemãs em Natal”; casos de espionagem; o resgate das primeiras vítimas da guerra em Rio do Fogo, litoral norte do RN, em 1941; e a presença de “Parnamirim Field” na imprensa internacional.

Os autores Leonardo Dantas, José Correia Torres Neto e Rostand Medeiros, junto ao jornalista Yuno Silva, da Tribuna do Norte.

No tocante às curiosidades, destaque para “A pitoresca história de um papagaio que voou em combate nos céus da Europa”; e a queda de um avião de guerra modelo Catalina na cidade de Riachuelo, agreste potiguar. O papagaio “Jock”, inclusive foi notícia em vários jornais e Rostand Medeiros comprova a história emplumada com fac-símile de uma manchete publicada no jornal carioca A Noite em 19 de janeiro de 1944 – naquele momento, de acordo com o jornal, “Jock” acumulava 50 horas de voo e havia sido indicado para receber medalha do Exército americano.

“Muitas das informações são inéditas, extraídas de documentos e diários que só foram liberados recentemente”, disse Leonardo Dantas, que buscou no diário de obras dos batalhões de engenharia notas sobre o legado deixado pelos norte-americanos na infraestrutura urbana: “Avenidas que hoje são importantes vias que cortam a capital do RN foram construídas naquela época. A primeira ‘pista’ de asfalto do Estado foi construída pelos soldados, e ia do Colégio Ateneu até a base de Parnamirim”.       

Nesses diários, também foram colhidos relatos sobre a alimentação e de como era a hora de descanso dos trabalhadores braçais que prestaram serviço para o Exército dos Estados Unidos. “Veio gente de outros estados para trabalhar, pois não tinham mais quem contratar aqui em Natal e Parnamirim para fazer o que eles precisavam”, completou Leonardo.

Coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”

SERVIÇO

Lançamento da coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”, dia 2 de abril, às 11 da manhã, na sede do SEBRAE-RN em Lagoa Nova. Após o dia de lançamento, os livros estarão disponíveis na livraria da Cooperativa Cultural da UFRN.

AS IMAGENS DA FORTALEZA DOS REIS MAGOS EM GRAVURAS DO SÉCULO XVII

Fonte – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:AMH-6794-NA_View_of_Fort_Ceulen_on_the_Rio_Grande.jpg

A imagem aqui apresentada é uma das muitas gravuras existentes no monumental livro produzido pelo explorador holandês, missionário e teólogo Arnoldus Montanus(1625? – 1683). É uma visão finamente gravada da Fortaleza dos Reis Magos, mostrada fortemente armada ao longo do Rio Potengi. No primeiro plano, soldados e nativos podem ser vistos descarregando mercadorias de pequenos barcos que chegavam a terra firme. O título é envolto em um lindo banner, junto com uma grande crista heráldica. 

Essa gravura foi publicada em um livro, cujo título original em holandês era De Nieuwe en Onbekende Weereld, tendo sido publicado originalmente em 1671. O livro foi traduzido na Inglaterra pelo editor de mapas John Ogilby sob o título, bastante impressionante e extenso, de “O Novo e Desconhecido Mundo: ou Descrição da América e do Sul, Contendo a origem dos Americanos e Sul-terrestres, viagens notáveis ​​para lá, qualidade das margens, ilhas, cidades, fortalezas, templos, montanhas, fontes, rios, casas, a natureza das feras, árvores, plantas e lavouras estrangeiras, religião, costumes, ocorrências milagrosas, guerras antigas e novas: adornadas com ilustrações tiradas da vida na América e descritas por Arnoldus Montanus”. 

Esta obra reflete o fascínio da Europa do século XVII com o Novo Mundo. Montanus era um ministro protestante e diretor da escola latina na cidade de Schoonhoven, no oeste da Holanda. Ele escreveu livros sobre história da igreja, teologia, história dos Países Baixos e povos e culturas das Américas e da Austrália.


Capa da primeira edição – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/De_Nieuwe_en_Onbekende_Weereld

De Nieuwe en Onbekende Weereld tornou-se popular na Europa e foi amplamente lido ao longo de muitos anos. O editor da obra foi o livreiro e gravador de Amsterdã, Jacob van Meurs, que esteve ativo de 1651 a 1680 e se especializou em trabalhos de história e geografia criados ou narrados por viajantes do Novo Mundo. Entretanto Montanus nunca visitou o Novo Mundo e sua obra contém inúmeros erros e concepções fantásticas sobre as pessoas e os animais das Américas. Ele repetiu muitas concepções fantásticas e o mesmo vale para as ilustrações.

No entanto o livro é ricamente ilustrado com 125 gravuras de cobre, incluindo 32 vistas dobradas, 70 placas, 16 mapas e 7 retratos incomumente bonitos de exploradores famosos, cada um destes rodeado por molduradas barrocas.

Mas a bela gravura da Fortaleza dos Reis Magos no início desse artigo não foi a primeira realizada sobre essa praça de guerra, o mais importante monumento histórico do Rio Grande do Norte. Ela é uma adaptação dos quadros intitulados “Fluvius Grandis”(Grande Rio), de autoria do holandês Frans Janszoon Post e pintados bem antes de 1871.

Um desses quadros ilustra o livro de Caspar (Ou Gaspar) Barlaeus, cuja publicação ocorreu em 1647. Essa gravura possui nessa obra a estampa de número 30, estando sem assinatura, mas com as características de outras obras assinadas por Frans Post. Mostra a foz do Rio Potengi e a Fortaleza dos Reis Magos, que é apresentado no desenho ao centro, construído em pedra, tendo os seus ângulos em blocos aparelhados, contrastando com o restante da superfície, mais rústica. Igualmente vemos quatro das pontas, o que nos faz supor que o autor estivesse situado sobre o recife que se vê no primeiro plano, que barrava em parte a entrada do rio, com o mar à sua esquerda e o rio à direita.

Sobre as paredes é possível visualizar várias seteiras e nas extremidades pequenas guaritas, provavelmente em madeira, sustentadas com peças inclinadas, que se apoiavam sobre a alvenaria de pedra.

Quadro de Post no Museu do Louvre – Fonte –
 www.gallerix.ru

Já Erik Larsen, em seu livro Interprète du Brésil (1962 – pág. 186) dá notícia de um outro quadro de Post no Museu do Louvre, em Paris, mostrando a mesma vista, assinado e datado de 1639, que mostra, ao fundo, o Forte dos Reis Magos, os arrecifes (lado esquerdo da imagem) e uma representação do povo Potiguara que habitava a região. Larsen informa também sobre um desenho quase idêntico, existente no British Museum, em Londres.

Já sobre a obra de Frans Post, segundo Franciane Monara da Silva Soares pode-se dizer que ela está dividida em quatro etapas, as quais sofreram diversas mudanças ao longo de seus 40 anos. A primeira fase de Post, intitulada Os anos brasileiros, durou de 1637 a 1644 e foi o momento mais espontâneo e original do pintor. Post reproduziu 18 paisagens brasileiras que representavam as províncias do Brasil controladas por Nassau.

Ainda segundo Monara, fica claro que as imagens de Post feitas no Brasil eram criadas a partir de uma motivação econômica e política, pois sua intenção era registrar a riqueza e organização das terras sob o domínio holandês na América Portuguesa.

Para os potiguares essa é a das mais antigas, se não a mais antiga, gravura representando algo relacionado com a sua terra.


Fontes – http://www.sudoestesp.com.br/file/colecao-imagens-periodo-colonial-rio-grande-norte/685/

https://www.researchgate.net/figure/Frans-Post-Forte-dos-Tres-Reis-Magos-ou-Ceulen-oleo-sobre-tela-620-x-950-mm-1638_fig6_228792771

http://www.rn.anpuh.org/2016/assets/downloads/veeh/ST07/O%20imaginario%20de%20Frans%20Post%20e%20Albert%20Eckhout%20um%20estudo%20diferenciado%20da%20colonizacao%20do%20Brasil%20para%20a%20educacao%20basica.pdf

https://www.wdl.org/en/item/518/

DE POBRE ABANDONADO A RICO ESCRITOR – JACK LONDON PREDESTINADO A NUNCA ENVELHECER

Fonte – https://www.designdoescritor.com/single-post/2018/11/27/De-pobre-abandonado-a-rico-Escritor—Jack-London-predestinado-a-nunca-envelhecer

Um extremista, radical e pesquisador, Jack London nunca foi destinado a envelhecer. Em 22 de novembro de 1916, London, autor de Chamado Selvagem, morreu aos 40 anos. Sua curta vida foi controversa e contraditória.

Nascido em 1876, o ano da Batalha de Little Bighorn e da morte do general George Amstrong Custer, o escritor prolífico morreria no ano em que John T. Thompson inventou a submetralhadora. A vida de London personificava a frenética modernização dos Estados Unidos da América entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. Com sua sede de aventura, sua história de sucesso e suas ideias políticas progressistas,os seus escritos espelhavam a transformação do poder global urbano-industrial. 

Com um olhar atento e um senso inato, London reconheceu que um crescente número de leitores do país estava pronto para um tipo diferente de escrita. O estilo precisava ser direto,robusto e vívido. E ele tinha um forte atrativo para os leitores americanos, que eram propensos à nostalgia criativa. Notavelmente, as suas histórias endossavam reciprocidade, cooperação, adaptabilidade e determinação. Em seu universo fictício, lobos solitários morrem e machos alfas abusivos nunca vencem no final.  

Local de Memória de London

O Parque Histórico Estadual Jack London, de 566 hectares, fica no coração da região vinícola de Sonoma Valley, a cerca de 100 quilômetros ao norte de San Francisco, em Glen Ellen, Califórnia. 

Originalmente essa terra era o local do Beauty Ranch, onde Jack London buscava realizar pesquisas em agricultura científica e na criação de animais, mas também servia para suas inspirações. “Eu saio do meu lindo rancho”, escreveu London. “Entre minhas pernas está um lindo cavalo. O ar é vinho. As uvas são vermelhas com chamas de outono. Do outro lado da montanha Sonoma, neblinas do mar estão volteando. O sol da tarde arde no céu sonolento. Eu tenho tudo para me fazer feliz por estar vivo”.


Parque Histórico Estadual Jack London – Fonte – http://jacklondonpark.com/jack-london-docent-beauty-ranch.html

A variada paisagem bucólica do parque ainda exala essa mesma vibração cativante. Os terrenos oferecem quase 47 quilômetros de trilhas, bosques de sequoias, prados, vinhedos, paisagens deslumbrantes, um museu e exposições. Uma recompensa idílica da paisagem intocada do norte da Califórnia está em plena exibição. Para um viajante em busca de uma fuga distintamente pastoral, fortificada com uma dose rústica da história cultural da Califórnia, o Parque Histórico Estadual Jack London é um local intenso. Também não faz mal o fato do parque estar rodeado por uma infinidade de importantes vinícolas do mundo.

Início Difícil

London cresceu nas ruas mais agitadas de San Francisco e Oakland, em uma família de trabalhadores. Sua mãe era uma espiritualista, que ganhava uma vida conduzindo sessões e ensinando música. Seu padrasto era um veterano incapacitado da Guerra Civil, que trabalhava como fazendeiro, merceeiro e vigia noturno. O provável pai biológico de London, um astrólogo viajante, saiu abruptamente do local antes da chegada do futuro autor.


London aos nove anos de idade com seu cachorro Rollo, 1885 – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/32/Jack_London_age_9_-_crop.jpg

Quando criança London trabalhava na fazenda, vendia jornais, entregava gelo e levantava pinos em uma pista de boliche. Aos 14 anos ele ganhava dez centavos por hora como operário de uma fábrica de conservas. As miscelâneas e o tédio da vida de trabalho eram sufocantes para um garoto durão, mas imaginativo, que descobrir ao tesouro de livros na Biblioteca Livre de Oakland. Obras de Herman Melville,Robert Louis Stevenson e Washington Irving fortificaram-no para as perigosas delícias da orla de Oakland, onde se aventurou aos 15 anos de idade.

Usando seu pequeno veleiro,o  “Razzle-Dazzle”, para pescar ostras e vendê-las a restaurantes e bares locais, ele passou a ganhar mais dinheiro em uma única noite, do que ele poderia trabalhar um mês inteiro na fábrica de conservas. Aqui, na orla decadente entre um submundo de vagabundos e delinquentes, ele rapidamente se juntou a uma tripulação mal-humorada de marinheiros e perdulários. 

O roubo, o deboche e a camaradagem eram totalmente estimulantes – pelo menos por um tempo. Mas London queria ver mais do mundo. Então ele embarcou em uma expedição de caça às focas a bordo da escuna “Sophia Sutherland”  e viajou pelo Oceano Pacífico até o Japão e as Ilhas Bonin. Ele retornou a San Francisco,trabalhou em uma usina de juta como um aquecedor de carvão, depois partiu para andar nos trilhos, onde caminhou por toda a América e viveu um tempo para a vagabundagem. Tudo antes dos 20 anos de idade.

“Eu nasci na classe operária”,lembrou ele, “e eu estava agora com dezoito anos, abaixo do ponto em que comecei. Eu estava no porão da sociedade, nas profundezas subterrâneas da miséria. Eu estava no abismo, no abismo, na fossa humana, na desordem e no cemitério da nossa civilização. Eu estava com medo de pensar”. Ele então resolveu parar de depender de sua força muscular e se tornar um “comerciante de cérebros”.

De volta à Califórnia, London matriculou-se no ensino médio e ingressou no Partido Trabalhista Socialista. Em 1896 ele entrou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde durou um semestre antes do seu dinheiro acabar. Em seguida, em julho de 1897, fugiu para o Klondike, Alasca, quando teve a chance de se juntar à famosa “Corrida do Ouro”. Ele passou onze meses mergulhando na vibração sublime das terras do norte, com seu elenco único de garimpeiros e viajantes.


London tinha apenas 21 anos quando desembarcou no Alasca em 1897 para encontrar sua fortuna em ouro – Fonte – https://truewestmagazine.com/jack-londons-alaska/

Os silvestres congelados proporcionavam a paisagem agourenta que inflamava suas energias criativas. “Foi no Klondike que me encontrei”, disse London. “Lá ninguém fala muito. Todo mundo pensa. Lá você tem sua perspectiva. Eu tenho a minha”. 

Em 1899 ele havia aperfeiçoado seu ofício e grandes revistas começaram a abocanhar suas histórias vigorosas. Quando se tratava de evocar sensações elementares, ele era um perito literário. Se você quiser saber como é congelar até a morte, leia a história contida em Para fazer fogo.Se você quiser saber como é um trabalhador de fábrica se transformar em uma máquina, leia O Apóstata. Se você quiser saber como é sentir o êxtase da vida em seu corpo, leia Chamado Selvagem. E se quiser saber como é viver livre ou morrer, leia Koolau,o Leproso.

A publicação de suas primeiras histórias do Klondike lhe garantiu uma vida de classe média segura. Em 1900 ele se casou com sua ex-professora de matemática Bess Maddern e eles tiveram duas filhas. A aparição de Chamado Selvagem em 1903 fez do autor de 27 anos de idade uma enorme celebridade. Revistas e jornais frequentemente publicaram fotografias mostrando sua aparência robusta, que exalava um ar de vitalidade juvenil. Suas viagens, ativismo político e proezas pessoais contribuíram bastante para os repórteres políticos e colunistas de fofocas.

Intelectual Intenso

London se tornou subitamente um ícone da masculinidade e um importante intelectual público. Ainda assim, a escrita continuou sendo a atividade dominante de sua vida. O novelista E. L. Doctorow descreveu-o apropriadamente como “um grande palavrão do mundo,física e intelectualmente, o tipo de escritor que foi a um lugar e escreveu seus sonhos nele, o tipo de escritor que encontrou uma ideia e girou sua mente sobre isto”.

Em suas histórias, London simultaneamente ocupa perspectivas opostas. Às vezes, por exemplo, o darwinismo social parece ultrapassar o seu igualitarismo declarado, mas em outro trabalho (ou mais tarde no mesmo) seu idealismo político se reafirmará,apenas para ser desafiado novamente mais tarde. 

London flutua e se contradiz,fornecendo uma série de pontos de vista que mudam dialeticamente e que resistem à fácil resolução. Ele foi um dos primeiros escritores a enfrentar seriamente, embora nem sempre com sucesso, as multiplicidades singulares do modernismo. A raça continua sendo um tópico agitado nos estudos sobre London. Angustiantemente, como outros intelectuais importantes do período,suas visões raciais foram moldadas pelas teorias predominantes do racismo científico, que falsamente propagavam uma hierarquia racial e valorizavam os anglo-saxões.

Ao mesmo tempo ele escreveu muitas histórias que eram antirracistas e anticoloniais e que exibiam caracteres não brancos excepcionalmente capazes. Earle Labor, estudioso de Jack London e seu biógrafo oficial descreve as visões raciais do autor como”um feixe de contradições”, e suas inconsistências na raça certamente exigem um exame minucioso.


Eu estava na porta aberta”, detalhe de uma fotografia de Jack London de seu livro de memórias 
A Estrada (1907)  – Fonte – https://publicdomainreview.org/2016/11/22/astral-travels-with-jack-london/

Uma curiosidade insaciável impeliu London a investigar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos e questões. Muito do seu trabalho menos conhecido permanece altamente legível e intelectualmente envolvente. O Tacão de Ferro (1908) é um romance despótico, pioneiro, que prevê a ascensão do fascismo nascido a partir da desigualdade de renda do capitalismo. Esse romance, o mais explicitamente político do autor, foi um precursor crucial para o livro de George Orwell com 1984, e Sinclar Lewis com Não vai acontecer aqui.

Dada a turbulência econômica dos últimos anos, os leitores do O Tacão de Ferro compreenderam prontamente a representação londoniana de uma oligarquia totalitária que constitui “nove décimos de um por cento” da população dos Estados Unidos, detentora de 70% da riqueza total do país.

Seus colegas socialistas criticaram o livro quando ele saiu, porque a utopia coletivista do romance leva 300 anos para surgir – não exatamente a revolução que os compatriotas radicais de London imaginavam. Um realista político, neste caso, ele reconheceu como os mestres capitalistas eram realmente arraigados, astutos e venais.

O Problema do Álcool e Viagens

Jack London também produziu uma exposição do mercado literário em seu romance de 1909,  Martin Eden, que critica a loucura da celebridade moderna. Intimamente modelado em sua própria ascensão ao estrelato, a história traça a ascensão de um autor aspirante que, depois de escrever sobre sua saída da classe trabalhadora e alcançar renome, descobre a complexidade estética em um mundo inclinado ao brilho e ao lucro. Tematicamente, o romance antecipa O  Grande Gatsby, de Fitzgerald e sempre foi uma espécie de clássico underground entre os escritores, incluindo Vladimir Nabokov, Jack Kerouac e Susan Sontag.

London se tornou ainda mais pessoal em seu livro de memórias confessional de 1913,  Memórias de um alcoólico – John Barleycor, onde ele relata o significado pesado que o álcool – personificado como John Barleycorn – desempenha em sua vida. London parece ciente de que abusa de álcool com muita frequência, mas também proclama que continuará a beber quando necessário. Para muitos esse livro é um estudo de caso clássico de negação pessoal, enquanto outros o veem como uma descida existencial e honesta em direção à essência da autoconsciência. 

O problema com John Barleycorn para London (e o resto de nós) é que ele dá e tira. A bebida abre caminho para a camaradagem, oferece um antídoto à monotonia da vida e aumenta as aventuras do ser exaltado. Mas o preço é a debilidade, a dependência e um desânimo niilista que ele chama de “lógica branca”. Notavelmente desprotegida e franca,London revela como a difundida disponibilidade de bebida cria uma cultura de vício.

Como jornalista os artigos de London sobre política, esportes e guerra frequentemente apareciam nos principais jornais. Especializado em fotografia documental e fotojornalismo,tirou milhares de fotografias ao longo dos anos, desde as favelas do lado leste de Londres, até as ilhas do Pacífico Sul. Em 1904 viajou como correspondente de guerra na Coréia para relatar a Guerra Russo-Japonesa.

No ano seguinte London comprou o primeiro pedaço de terra em Glen Ellen, Califórnia, que acabaria se tornando o seu Beauty Ranch. Naquele mesmo ano ele também embarcou por um tour de palestras socialista em todo o país.

London e Charmian Kittrege – Fonte – https://www.lpm-blog.com.br/?tag=jack-london

Depois do colapso do seu casamento, em 1904, London casou com Charmian Kittrege, o epítome da progressista “New Woman” — atlética e independente —com quem teve um caso durante o seu primeiro casamento. Eles permaneceriam juntos até a morte de London.

Após a publicação de dois romances que se tornariam clássicos,  O Lobo do Mar e Caninos Brancos, London começou a projetar seu próprio veleiro de 45 pés, o Snark. Em 1907 partiu para o Havaí e os mares do sul com sua esposa. Uma série de doenças tropicais iria aterrá-lo em um hospital australiano, quando ele foi forçado a terminar a viagem no mês de dezembro seguinte. Embora ele projetasse enorme energia pessoal e carisma, Jack London teve problemas frequentes de saúde ao longo dos anos e seu consumo excessivo de bebidas e cigarros, associados a uma dieta ruim, só pioraram as coisas.

O Fim

London estava bem à frente no jogo imobiliário em 1905, quando começou a comprar terras agrícolas exaustas ao redor de Glen Ellen. Sua intenção era restaurar a terra usando métodos agrícolas inovadores, como terraços e fertilizantes orgânicos. Hoje,docentes conduzem turnês mostrando as práticas agrícolas progressistas e agrícolas sustentáveis ​​de London.

O chalé do autor foi meticulosamente restaurado. O espaço de trabalho, a escrivaninha e a maior parte da mobília é original. A arte e os acessórios de London estão expostos. Os visitantes podem aprender muito sobre a vida repleta de ação de London e a sua visão agrária. “Eu vejo a minha fazenda”, declarou ele, “em termos do mundo e do mundo em termos da minha fazenda”.


London, com um porquinho, seis dias antes de morrer, como retratado em O Livro de Jack London (1921) por sua esposa Charmian London – https://publicdomainreview.org/2016/11/22/astral-travels-with-jack-london/

Mas London tirou um tempo de sua fazenda para excursões prolongadas. Em 1911, ele e sua esposa dirigiram uma carroça de quatro cavalos em uma viagem de quase 2.500 quilômetros pelo Oregon. Em 1912 eles navegaram de Baltimore para Seattle, passando pelo temível Cabo Horn como passageiros a bordo do navio “Dirigo”.

No ano seguinte, London passou por uma apendicectomia, e os médicos descobriram seus rins gravemente doentes. Semanas depois a nova casa da fazenda de London, apelidada de Wolf House, foi incendiada pouco antes de sua construção ser concluída. Construída a partir de rochas vulcânicas nativas, era para ser o cume rústico do Beauty Ranch e o avatar arquitetônico de Jack London. Ele ficou arrasado com o fogo e prometeu reconstruir o local, mas nunca teria a chance.

Fotografias tardias mostram London desengonçado e notavelmente inchado – efeitos de seus rins doentes. Apesar de sua saúde se deteriorar, ele continuou produtivo e também permaneceu politicamente engajado. 

Nos últimos dois anos de sua vida ele sofreu crises de disenteria, distúrbios gástricos e reumatismo. Ele e sua esposa fizeram duas viagens de recuperação prolongadas para o Havaí, mas London morreu no Beauty Ranch em 22 de novembro de 1916 de intoxicação urêmica e um provável derrame cerebral. Em 18 anos, ele escreveu 50 livros, 20 deles romances.

“QUEREMOS BOLSOS!” — GRITAVAM AS MULHERES HÁ 137 ANOS

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Moda da Era Vitoriana: apertada e sem bolsos Foto:Wikimedia Commons

Em 1881, na era do espartilho, Sociedade Por Vestimentas Racionais passou a encorajar as mulheres a usarem peças largas e confortáveis. E com bolsos

Letícia Yazbek

Fonte – https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-campanha-por-bolsos-nas-roupas-femininas.phtml?utm_source=facebook.com&utm_medium=facebook&utm_campaign=facebook

A luta pela liberação feminina sempre passou pelas roupas. Quando as sufragistas pediam pelo voto, no final do século 19, também pediam pelo fim das roupas extremamente opressivas da época. Anquinhas ficaram para trás e espartilhos podem se só um fetiche hoje. Mas uma questão nunca foi resolvida: onde estão os bolsos?

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Reunião de mulheres vestidas de acordo com as ideias da RDS – Domínio Público

Em 1881, a organização Rational Dress Society (“Sociedade por Vestimentas Racionais”) foi fundada em Londres, com o objetivo de lutar contra peças como espartilhos e sapatos de salto alto, que deformavam o corpo feminino e impediam os movimentos. Elas encorajava as mulheres a vestirem peças largas e confortáveis. E com bolsos.

A escritora Charlotte Perkins Gilman publicou no The New York Times em 1905: “As mulheres têm carregado bolsas, às vezes costuradas dentro das roupas, às vezes amarradas na cintura, às vezes carregadas nas mãos, mas uma bolsa não é um bolso”. Em 1920, Coco Chanel, que ajudou a popularizar as calças femininas e o fim do espartilho, começou a costurar bolsos em suas jaquetas.

A história de uma ausência

Quando um homem anda por aí com as mãos nos bolsos costuma ser visto como uma pessoa despojada, sem preocupações. O que se acharia de uma mulher assim, mal temos como saber. 

As peças masculinas são cheias de bolsos grandes e robustos, feitos realmente para carregar objetos. Aparecem em jaquetas, escondidos na parte de dentro dos paletós, em camisas, calças e, às vezes, até dentro de outros bolsos. Enquanto isso, as roupas femininas raramente têm bolsos. E, quando têm, eles são frágeis e rasos, muito mais costurados para efeito decorativo do que para ser úteis.

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No século 15, camponeses usavam bolsas penduradas em cintos Reprodução

O bolso é uma novidade histórica. Na Idade Média, homens e mulheres carregavam pequenas bolsas, que eram penduradas nos cintos ou amarradas ao redor da cintura. Por volta do século 16, com o crescimento dos centros urbanos e a necessidade de esconder os pertences de possíveis ladrões, as bolsas passaram a ser costuradas na parte de dentro das jaquetas masculinas e das anáguas femininas.

Na Revolução Industrial, as pessoas passaram a ter mais objetos para carregar, e os bolsos foram permanentemente incorporados a jaquetas, coletes e calças masculinas. Mas as mulheres continuaram usando bolsas, que balançavam, cheias de pertences, presas ao corpo.

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No fim do século 17, as mulheres passaram a levar as bolsas nas mãos Reprodução

Na Era Napoleônica, a saia comprida e volumosa da era do Iluminismo entrou em decadência e em seu lugar entraram vestidos que revelavam a silhueta. Não havia mais como esconder as bolsas na parte de dentro das roupas. Então, as mulheres foram obrigadas a usar bolsas externas, ocupando eternamente um dos braços.

O desconforto provocado pelas bolsas fez com que as mulheres se manifestassem a favor de peças femininas mais confortáveis.

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Na Segunda Guerra, as roupas ganharam praticidade Reprodução

Durante a Segunda Guerra, quando as mulheres tiveram que assumir trabalhos tradicionalmente masculinos, passaram a usar roupas mais práticas. As calças e jaquetas com bolsos se tornaram comuns, principalmente com a popularização do jeans, nos anos 1960. Mas os próprios jeans logo se separaram por gênero: os femininos ganharam bolsos pequenos e rasos, se não meramente decorativos.

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Coco Chanel usando calças com bolsos Wikimedia Commons

Alguns antropólogos acreditam que a falta de bolsos é uma estratégia para vender mais bolsas às mulheres, enquanto outros afirmam que o problema está relacionado à dominância masculina na indústria da moda dominada por homens. Apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, as roupas femininas continuam sendo fabricadas para serem bonitas, não úteis.