Arquivo da categoria: Livros

AUTA DE SOUZA – SEUS VERSOS E TRAÇOS DE SUA VIDA BREVE

auta-de-souza-002
Auta Henriqueta de Souza

Autor – Elfi Kürten Fenske

Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2013/05/auta-de-souza.html

“Não vês? Minh’alma é como a pena branca

Que o vento amigo da poeira arranca

E vai com ela assim, de ramo em ramo,

Para um ninho gentil de gaturamo…

Leva-me, ó coração, como esta pena,

De dor em dor, até a paz serena.”

– Auta de Souza 

digitalizar
Exemplar da 2ª ed. de “O Horto”, que pertenceu a Antônio Isidoro de Medeiros, tio-avô de Rostand Medeiros, que guarda o exemplar. 

Auta Henriqueta de Souza nasceu em Macaíba, em 12 de setembro de 1876, filha de Elói Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues e irmã dos políticos norte-rio-grandenses Elói de Sousa e Henrique Castriciano.

Ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e no ano seguinte perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38 anos.

Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos.

auta-de-souza-001

Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vincentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (inclusive muita literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.

Quando tinha doze anos, vivenciou nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro.

Mais tarde, aos catorze anos, recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.

Continuou participando da União Pia das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.

dsc00988
Informativo sobre a venda do livro “O Horto”

Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves, Junqueira Freire e os potiguares Lourival Açucena, Areias Bajão e Segundo Wanderley.

Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada a se separar pelos irmãos, que preocupavam-se com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria vítima da tuberculose. Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que mais tarde seria publicado sob o título de Horto.

160px-Auta_de_souza
Auta de Souza

Aos dezoito anos, passou a colaborar com a revista Oásis, e aos vinte escrevia para A República, jornal de maior circulação e que lhe deu visibilidade para a imprensa de outras regiões. Seus poemas foram publicados no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro.

dsc00054
Parte final do verso “Flor do Campo”, publicado inicialmente no ano de 1899 no jornal A Republica, de Natal.

No ano seguinte, passaria a escrever assiduamente para o prestigiado jornal A Tribuna, de Natal, e seus versos eram publicados junto aos de vários escritores famosos do Nordeste. Entre 1899 e 1900, assinou seus poemas com os pseudônimos de Ida Salúcio e Hilário das Neves, prática comum à época.

Também foi publicada nos jornais A Gazetinha, de Recife, e no jornal religioso Oito de Setembro, de Natal, e na Revista do Rio Grande do Norte, onde era a única mulher entre os colaboradores. 

eloyirmao
Henrique Castriciano, irmão de Auta

Venceu a resistência dos círculos literários masculinos e escrevia profissionalmente em uma sociedade em que este ofício era quase que exclusividade dos homens, já que a crítica ignorava as mulheres escritoras. Sua poesia passou a circular nas rodas literárias de todo o país, despertando grande interesse. Tornou-se a poetisa norte-rio-grandense mais conhecida fora do estado.

Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, Auta de Souza morria tuberculosa. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, em 1904 seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal. No ano anterior (1900) havia publicado seu único livro de poemas sob o título de Horto, com prefácio de Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão na crítica nacional. Em 1910 saía à segunda edição, em Paris, e, em 1936, a terceira, no Rio de janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

POEMAS MUSICADOS

Outro aspecto importantíssimo da obra de Auta de Souza diz respeito a poemas seus que foram musicados por compositores regionais e transmitidos oralmente de uma geração para outra, desde o final do século XIX até hoje.

dsc03330
Notícia da morte de Auta de Souza no jornal A República, em 8 de fevereiro de 1901

 

Sem considerar aqueles que foram e vêm sendo musicados mais recentemente, e que não tiveram esta vinculação com a tradição oral, tem-se conhecimento da existência de quatorze deles, somando dezesseis ao considerar-se que um deles, Caminho do sertão, conta com três versões melódicas diferentes. Algumas destas canções ficaram conhecidas de norte a sul do país, chegando também a Portugal.

Integrariam esse cancioneiro de Auta de Souza os seguintes poemas musicados: Caminho do sertão, Teus anos, Desalento, Agonia do coração, Ao cair da noite, Ao luar, Meu pai, Nunca mais, Olhos azuis, Palavras tristes, Regina Coeli, À Eugênia, Meu sonho, Rezando (Róseo Menino).

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

POEMAS PSICOGRAFADOS E ORIENTAÇÕES ESPIRITUAIS

Além de seus poemas e de seu cancioneiro, Auta de Souza é conhecida também como uma grande mentora espiritual. Para os seguidores do espiritismo kardecista, que no Brasil hoje somam aproximadamente um milhão e meio de praticantes, a poeta é tida como um espírito superior que atuaria no “planoceleste” enquanto mentora e protetora espiritual.

Fonte: GOMES, Ana Laudelina Ferreira. Vida e obra da poeta potiguar Auta de Souza (1876-1901). Disponível no link. (acessado 14.5.2013).

Homenagens

Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra.

Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo: “Longe da mágoa, enfim no céu repousa/Quem sofreu muito e quem amou demais.” 

caminho%20do%20sertao

Caminho do Sertão

 

(A meu irmão João Cancio)

Tão longe a casa! Nem sequer alcanço

Vê-la através da mata. Nos caminhos

A sombra desce; e, sem achar descanso,

Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!

 

É noite já. Como em feliz remanso,

Dormem as aves nos pequenos ninhos…

Vamos mais devagar… de manso e manso,

Para não assustar os passarinhos.

 

Brilham estrelas. Todo o céu parece

Rezar de joelhos a chorosa prece

Que a Noite ensina ao desespero e a dor…

 

Ao longe, a Lua vem dourando a treva…

Turíbulo imenso para Deus eleva

O incenso agreste da jurema em flor.

– Auta de Souza, in “Horto”, 1900.

VEJA TAMBEM NO TOK DE HISTÓRIA – https://tokdehistoria.com.br/2011/04/04/a-historia-do-jasmineiro-de-auta-de-souza-contada-por-palmyra-wanderley/

 

Anúncios

NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA – UMA MULHER À FRENTE DE SEU TEMPO

nisia-floresta
Nísia Floresta Brasileira Augusta

Autor – Elfi Kürten Fenske

Fonte – http://www.elfikurten.com.br/2015/07/nisia-floresta-brasileira-augusta.html?m=1

Dionísia Gonçalves Pinto (Nísia Floresta).. [Papary {hoje Nísia Floresta} RN, 12.10.1810 – Rouen, França, 24.4.1885]. Com o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta, foi educadora, “viajante ilustrada”, “nacionalista”, “pré-feminista”, escritora, abolicionista, ativista dos direitos humanos, indianista e republicana. Mostrou uma preocupação filosófica com o cotidiano brasileiro da época em que viveu e se dedicou a propor uma reforma na educação das meninas no Brasil. Preocupou-se, principalmente, com a educação e o papel das mulheres em nossa sociedade, acreditando que o progresso de uma sociedade dependia da educação que era oferecida às meninas. Para Nísia Floresta, as meninas deveriam estudar porque a mulher exerce uma influência real sobre o destino de seu marido e sobre os destinos das nações e as meninas deveriam ser educadas para terem o reconhecimento da sociedade.

nisia-floresta-brasileira-augusta

Nísia Floresta escreveu sobre os direitos das mulheres e viabilizou o acesso à educação de algumas meninas, lutando para que elas valorizassem os estudos. Foi uma educadora que encarou a educação das meninas como uma missão, além de ter discutido a questão indígena de forma singular, valorizando o papel das mulheres, e de ter provocado as autoridades da época ao questionar sobre o poder e a supremacia dos homens brancos. Suas críticas atingiam também mulheres que deixavam os seus filhos e filhas nos braços das amas de leite.  Ensinava os valores necessários a uma educadora e afirmava que as mulheres poderiam ocupar os cargos públicos. Defendia a ideia de uma nação civilizada que só chegaria a esse patamar se as mulheres fossem educadas e participassem do contexto social.

Nísia Floresta desafiou uma cultura onde as mulheres não eram valorizadas. Superou diversos opositores, fundou colégios para meninas – como o Colégio Augusto – cobrando, assim, o acesso das mulheres ao campo do saber.

nisia-floresta-selo
Nísia Floresta Brasileira Augusta Selo Correios (1954)

Foi cuidadosa e metódica, conseguindo levar a sua mensagem à sociedade da época em jornais lidos pela elite e pelas autoridades. Seu colégio teve existência curta e gerou polêmicas que a impediram de tornar possível muito daquilo que escrevia.  O que encontramos em suas obras é um material riquíssimo para os estudos de gênero, pois denunciam o preconceito dos homens em relação às mulheres tal como ocorria no século XIX.

Nísia Floresta, apesar das condições desfavoráveis à mulher, escreveu cerca de quinze títulos ao longo dos seus 74 anos, dentre poemas, romances, novelas e ensaios, sendo alguns reeditados mais de uma vez. Suas obras foram publicadas em diferentes idiomas e muitas dessas foram publicados pela imprensa.

nisia-floresta-jovem
Nísia Floresta, jovem

Nos lugares por onde andou  (Recife, Olinda, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Lisboa, Coimbra, Londres, Roma, Florença, Nápoles, Paris, Cannes, Alemanha, Bélgica, Suíça, Sicília, Inglaterra, Grécia, Rouen, entre outros), Nísia Floresta escreveu sobre a condição e a vida das mulheres, sobre a educação para meninas e sobre o que via nesses países, denunciando uma sociedade que legitima as desigualdades, lutando por essa causa em uma época em que as mulheres não eram reconhecidas.

Nísia desejou que todas as mulheres fossem cidadãs. Para isso, elas deveriam estudar e a sociedade teria que ser trabalhada para respeitá-la e inseri-la em todos os setores sociais, sem deixar de lado o seu papel de filha, irmã e mãe.

Sofreu influência do positivismo: o pensamento de que educar a mulher é contribuir para a dignidade da família e do mundo traz impregnado o ideário positivista. Impregnada das contradições de seu tempo, educar a mulher significava contribuir para a dignificação da família, da nação e do mundo. A mulher, para Nísia, servia como “o modelo da família” e deveria conservar a dignidade, através da “educação religiosamente cristã” que ela defendeu. A educação “religiosamente moral” iria ajudar as meninas a não se “desviarem”. Fazia apelos aos pais, buscando uma melhor educação para as mulheres.

Escreveu também sobre o Colégio Augusto, sobre o entendimento que tinha a respeito do que deveria ser a mulher e sobre o que o governo estava fazendo em favor do ensino primário das meninas (capítulo XXXVI do Opúsculo Humanitário). Analisou, ainda, o quadro demonstrativo do Estado da Instrução Primária e Secundária das Províncias do Império e Município da Corte, no ano de 1852. Baseando-se nele, afirmou que o número de alunos que frequentavam as aulas era reduzido para a população da época e apontou o seu olhar para o número de meninas: “a estatística dos alunos que frequentaram todas as aulas públicas monta a 55.5000, número tão limitado para a nossa população, e que neste número apenas 8.443 alunas se compreendem” (Nísia Floresta, 1989, p. 81). 

6076586568_6883a6817e_b
Túmulo de Nísia Floresta, na cidade que possui o seu nome. – Fonte – https://www.flickr.com/photos/egbertoaraujo/6076586568

Denunciou o atraso que se encontrava a instrução feminina e nem mesmo as falas presidenciais escaparam ao seu senso crítico. Para ela, as causas que atrapalhavam os progressos na educação eram a falta de interesse e a negligência, por parte do governo da época, o descaso das autoridades que não pensavam nos métodos, não elaboravam as leis e tampouco criavam mais escolas para meninas, ou seja, não se preocupavam com a educação delas.

Além disso, “os encarregados do ensino” eram inaptos e os pais, em muitos casos, não falavam sobre tais problemas. Nísia pesquisou sobre a educação da mulher brasileira. Desejava que a educação da mulher fosse preocupação das autoridades (governo) e do povo brasileiro. Denunciou as casas de instruções que eram dirigidas por pessoas que chegavam de outros países com interesses comerciais, transformando-as em negócio, com raras exceções.

Além disso, fez a crítica ao comércio de escolas, feita por estrangeiros. Criticou os impressos de propagandas da época, que mostravam novidades e ostentação nos colégios que “faziam pretensiosas promessas, contando com a credulidade do público, que era solícito em acolher sem verificar antes” (Floresta, 1989, p. 78).

fachada-01
Museu Nísia Floresta – http://www.conhecendomuseus.com.br/museus/museu-nisia-floresta/

Muitos desses eram comerciantes e artesãos e, para ela, não deveriam ser preceptores da mocidade brasileira. Mesmo apreciando os talentos dos estrangeiros, no que diz respeito à educação, percebia que eram poucos aqueles que poderiam instruir o povo brasileiro e utilizar o próprio conhecimento, ou seja, oferecer instrução e trabalho.

Nísia Floresta escreveu quinze livros, publicados no Brasil e em países da Europa. As obras originais vem assinado com diferentes pseudônimos: Nísia Floresta, Uma brasileira, Telesilla, F. Augusta Brasileira, N. F. Augusta, ou simplesmente B.A eram alguns dos pseudônimos de Dionísia Gonçalves Pinto.

“Quanto mais ignorante é um povo tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu poder. É partindo desses princípios, tão contrário à marcha progressista da civilização, que a maior parte dos homens se opõe a que se facilite à mulher os meios de cultivar o seu espírito.” 
– Nísia Floresta, em “Opúsculo humanitário”. (1853).. [introdução e notas de Peggy Sharpe-Valadares; posfácio de Constância Lima Duarte]. São Paulo: Cortez Editora, 1989. p. 60.

NO LOCAL DE NASCIMENTO DE LAMPIÃO E ENTENDENDO QUE A HISTÓRIA NÃO TEM DONOS – ELA É DE TODOS!

4-Lampião gostava de mostrar-se um homeme inteligente perante as câmeras
Lampião – Arquivo do autor.

E Testemunhei Sertanejos Entregando Raros Materiais de Lampião e Sua Família a Outros Sertanejos Que Lutam Para Preservar a História!

Autor – Rostand Medeiros

Como já comentei em algumas oportunidades aqui nas páginas do TOK DE HISTÓRIA, recentemente eu tive a oportunidade de retornar ao sertão pernambucano, onde circulei pelas regiões das ribeiras dos rios Pajeú e do Navio, seguindo os antigos rastros dos cangaceiros nos municípios de São José de Belmonte, Serra Talhada e Floresta.

Nesta jornada, realizada no final de maio e início de junho de 2016, eu tive a grata companhia do artista plástico Sérgio Azol, um tranquilo potiguar radicado em São Paulo, que tem a sua interessante arte ligada ao Cangaço.

A (133)
Os autores Cristiano Luiz Feitosa Ferraz (E) e Marcos Antonio de Sá (D), conhecido como Marcos De Carmelita – Foto – Rostand Medeiros.

Um dos nossos destinos foi à cidade de Floresta, onde fomos recebidos pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como Marcos De Carmelita, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado.

Em um clima de extrema cordialidade e parceria, estes dois denodados pesquisadores procuraram mostrar vários aspectos da cidade de Floresta e dos fatos relativos ao cangaço na região.

A Bela Floresta e Buscando a História de Como Tudo Começou

Não posso deixar de comentar como a cidade de Floresta me encantou pela singular beleza e pelo povo extremamente hospitaleiro.

A (53)
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no município de Floresta, estado de Pernambuco, surgiu a partir de um antigo oratório da Fazenda Grande, dedicado ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos – Foto – Rostand Medeiros.

Localizada a 433 km da capital pernambucana, a história de Floresta remonta a segunda metade do século XVIII e sua povoação teve início na fazenda Grande, à margem direita do Rio Pajeú. Consta que a localidade, como muitas no interior do Nordeste antigo, serviu de curral temporário para o gado que vinha da Bahia para Pernambuco e depois seguia para outras regiões mais ao norte.

Em alguns anos, mais precisamente em 31 de março de 1846, o povoado de fazenda Grande foi elevado à categoria de Vila, por meio da Lei Provincial n° 153, apresentado pelo representante de Flores, município também banhado pelo Rio Pajeú, do qual a atual Floresta foi desmembrado.

A (57)
Praça em Floresta – Foto – Rostand Medeiros

Ainda podemos ver deste período a bela Igreja de Nossa Senhora do Rosário, originária de um antigo oratório da fazenda Grande e dedicado ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Foram os proprietários da gleba que doaram metade de suas terras para a construção da capela. Esta igreja fica localizada em um ponto particularmente interessante de Floresta, onde se e encontram várias tamarineiras centenárias que dão ao cenário desta parte da cidade uma característica muito interessante para os visitantes.

Mas, apesar de todas as características desta bela cidade, a razão da nossa vinda a Floresta eram os fatos históricos envolvendo esta cidade e o cangaço. E em relação a este tema o que não faltam são episódios, a maioria deles sangrentos. No livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, brilhantemente escrito por Marcos Antônio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, é onde encontramos inúmeros relatos desta intensa história que liga esta cidade a este fenômeno de banditismo rural.

A (97)
Os autores do interessante livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, entregando um exemplar do seu trabalho aos descendentes da família Gilo, na fazenda Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do cangaço, fato extensamente narrado no livro – Foto – Rostand Medeiros.

Floresta e a região ao redor é uma cidade umbilicalmente ligada à história do Cangaço e de Lampião, que gravitou muito ao seu redor, desfechando mil ações sangrentas, como a execução daquele que é conhecido como o maior massacre da história deste movimento – O Massacre da Tapera dos Gilo (Sobre este tema ver no TOK DE HISTÓRIA –  ).

Realmente não poderia haver melhores amigos e guias do que Marcos de Carmelita e Cristiano, para apresentar sua terra e sua história ligada ao tema Cangaço.

Gostaria de ressaltar que ao visitar Floresta e região, ao seguirmos pelas veredas do sertão pernambucano, eu tinha a ideia de mostrar a Sérgio Azol os locais de nascimento e morte de Lampião. Naquele momento o de nascimento, onde toda a História desta controversa figura começou, estava bem próximo, a alguns quilômetros de Floresta, na região da Serra Vermelha, já na zona rural da cidade pernambucana de Serra Talhada.

A (356)
Os autores junto com um dos gtuardiões da memória do Cangaço em Floresta e na companhia de Sérgio Azol e Rostand Medeiros – Foto – Péricles Ferraz.

Mas antes de chegarmos a este local Marcos de Carmelita sugeriu que realizássemos uma parada na fazenda Maniçoba, local de morada do Sr. João Alves Barros, conhecido na região como João Saturnino e filho do famoso José Alves de Barros, o Zé Saturnino, ou ainda o Zé Saturnino das Pedreiras, um dos mais importantes inimigos de Lampião.

Mas neste caso para mim, ir até a casa de João Saturnino era um reencontro!

Revendo um Velho Sertanejo!

Voltando no tempo me recordei que quase dez anos antes, em agosto de 2006, eu e o escritor e pesquisador Sérgio Dantas estivemos nesta mesma região da Serra Vermelha, mas com a ideia de seguir para a fazenda São Miguel e visitar o Sr. Luiz Alves de Barros, o Luiz de Cazuza. Este era um sobrinho de Zé Saturnino, que conheceu na sua juventude o rapaz Virgulino Ferreira da Silva, que se tornaria o famoso Lampião.

1 (246)a
Rostand Medeiros e João Saturnino em 2006 – Foto – Sérgio Dantas.

Na ocasião deixamos para trás a próspera cidade de Serra Talhada, depois seguimos pela estrada estadual PE-390, onde percorremos cerca de 30 km até o ponto onde se inicia a “Estrada José Saturnino”, que na época tinha uma nova e grande placa indicativa, e seguimos em direção a fazenda São Miguel.

Ao seguirmos por este caminho de barro o amigo Sérgio Dantas recordou que passaríamos nas terras da fazenda Maniçoba, diante da casa de João Alves Barros, o João Saturnino, filho do grande inimigo de Lampião. Animado com a informação eu sugeri a Sérgio Dantas que realizássemos uma parada para bater um papo com ele. Mas Sérgio, prudentemente, comentou que tinha a informação que João Saturnino era tido como arredio a pessoas estranhas e não gostava de conversar sobre coisas do passado que envolvia as lutas do seu pai com a família Ferreira. Isso ocorria principalmente diante das inúmeras acusações que, em sua opinião, buscaram transformar seu pai, um homem sério e honesto, perseguido por bandidos, em um pária da sociedade.

JSB (2)
José Alves de Barros, o Zé Saturnino, ou ainda o Zé Saturnino das Pedreiras, um dos mais importantes inimigos de Lampião – Foto – Arquivo do autor.

Mas nós estávamos a mais de 700 km de nossa cidade, Natal, capital do Rio Grande do Norte, e ali morava o filho do homem que, de uma maneira um tanto torta, havia realizado ações que iniciaram a vida de cangaceiro de Lampião. Opinei que valia a pena tentar uma parada e Sérgio aceitou.

Encontramos João Saturnino com um canivete na mão, cortando algo e sentado em um tamborete diante de sua casa. Mesmo com mais de setenta anos de idade na ocasião, cabelo e barba totalmente brancos, ele transparecia força e isso eu senti na sua voz, forte e profunda, e no jeito bem sertanejo de agir. Ele nós recebeu sem maiores atenções, sem esboçar muitos sorrisos, reservado, com certa desconfiança, sem se mostrar animado, mas também não rejeitou nossa presença e nem foi indelicado. Igualmente nós não iniciamos nosso diálogo com nada relativo ao cangaço.

bernardo-sayao
O engenheiro Bernardo Sayão em um helicóptero da FAB na Amazônia, fazendo o sina de positivo – Fonte – http://adrielsonfurtado.blogspot.com.br/2015/08/contexto-historico-da-abertura-das.html

Na verdade nem me recordo como iniciamos nossa conversa. Mas me lembro bem que em algum momento ele comentou que no final da década de 1950 havia trabalhado nas obras da rodovia Belém-Brasília. Foi quando me lembrei da história de um grave acidente que aconteceu durante a criação desta rodovia, que naquela época foi considerado uma verdadeira tragédia e tido muita repercussão no país inteiro – O acidente que provocou a morte do engenheiro Bernardo Sayão.

O caso ocorreu em 15 de janeiro de 1959, a uns 30 quilômetros da cidade maranhense de Imperatriz, quando o engenheiro carioca Bernardo Sayão Carvalho Araújo, chefe geral da obra, estava sentado em uma mesa de campanha examinando um mapa e uma árvore de 40 metros de altura caiu sobre ele matando-o na hora. João Saturnino contou, com extrema calma e voz firme, que lembrava do fato e que aquela morte se tornou uma verdadeira tragédia para os trabalhadores que tocavam o desenvolvimento daquela estrada no meio da floresta. Isso ocorreu pelo desaparecimento do homem que, pela sua firmeza de caráter e profissionalismo, era o verdadeiro motor no desenvolvimento da rodovia Belém-Brasília.

1 (239)
Serra Vermelha em 2006 – Foto – Rostand Medeiros

De alguma forma estranha, relembrar aquele episódio triste quebrou o gelo entre nós e o velho sertanejo. Aquilo abriu o caminho para que pudéssemos conversar com mais calma e tranquilidade sobre o cangaço, seu pai e Lampião.

Recordo-me que passamos quase duas horas conversando com João Saturnino. Nós o deixamos bem a vontade para que ele conversasse o que desejasse sobre aqueles episódios do passado.

O velho sertanejo narrou que nasceu em 9 de outubro de 1929, contou aspectos da propriedade, da vida de seus pais, da questão contra os Ferreira e outras coisas. Mas em síntese ele não contou nenhuma informação dita “bombástica”, ou algo que já não estivesse em algum livro sobre o tema.

Mas está ali junto daquele homem foi muito positivo e interessante. Creio que para ele ocorreu o mesmo sentimento em relação aquele encontro, tanto que ele passou a mostrar alguns poucos objetos pessoais, herança de seu pai, que pensou ser interessante apresentar aos dois visitantes potiguares.

1 (233)
2006 – Parte de um velho punhal e uma espora quebrada – Objetos que pertenceram Antônio Ferreira e foram perdidos no primeiro combate da vida de Lampião? – Foto – Rostand Medeiros

Dois dos objetos apresentados – Um velho e carcomido punhal e uma espora quebrada – a princípio não me chamaram atenção. Mas o que João Saturnino comentou sobre eles certamente me fez mudar totalmente de ideia. Informou que aqueles objetos haviam sido encontrados no mesmo local onde pela primeira vez os irmãos Ferreira abriram fogo contra seu pai e outros homens. O fato se deu no ano de 1916, mais precisamente no início do mês de dezembro, no lugar Lagoa D’Água Branca, no sopé da Serra Vermelha, a alguns quilômetros da fazenda Maniçoba.

Neste tiroteio Antônio Ferreira, o irmão mais velho de Lampião, saiu ferido com um tiro, mas sobreviveu. E foi durante aquele histórico combate que aqueles dois objetos foram perdidos, provavelmente por Antônio Ferreira.

Estas peças foram encontradas muitos anos depois, já carcomidos e quebrados, por pessoas que trabalhavam para João Saturnino. Este por sua vez os guardou com cuidado. Ele contou que pessoas tinham colocado dinheiro para adquiri-los em algumas ocasiões, mas ele recusou vendê-las.

Observamos estas peças com atenção, interesse e na sequência elas foram fotografadas. Mas com o passar das horas, diante do encontro anteriormente marcado com o Sr. Luiz de Cazuza, percebemos que seria necessário nós despedirmos de João Saturnino.

Logo partimos da fazenda Maniçoba para a fazenda São Miguel, onde se realizou outro produtivo encontro e depois seguimos viagem já tarde da noite. Percorremos cerca de 70 quilômetros, até a bela e serrana cidade de Triunfo.

Reencontro e Surpresa

Passados quase dez anos eu iria me reencontrar com João Saturnino e com as terras da fazenda Maniçoba.

A (392)
2016 – Reencontro com João Saturnino – Foto – Rostand Medeiros

Durante o trajeto de Floresta até a casa de João Saturnino, eu comentei com os amigos sobre este encontro de 2006 e estes objetos. Foi quando Marcos de Carmelita comentou que conhecia este material histórico e que verdadeiramente os venerava pelo que eles representavam na história do Cangaço. Sérgio Azol então se interessou por fotografá-los.

Chegamos à fazenda Maniçoba na manhã do dia 2 de junho, por volta das oito horas e lá encontrei João Saturnino.

A (388)
Marcos de Carmelita, João Saturnino, Rostand Medeiros e Cristiano Ferraz – Foto – Rostand Medeiros

Como seria natural depois de dez anos, o encontrei transparecendo claramente a ação dos seus 87 anos de idade. Parecia que carregava um peso nas costas, onde suas pernas pareciam não sustentar seu corpo anteriormente rijo. Entretanto a voz rouca e grossa estava ali presente, assim como sua lucidez, pois sem maiores dificuldades relembrou nosso encontro de 2006 e perguntou como estava o escritor e pesquisador Sérgio Dantas.

A (398)
O punhal e a espora em 2016 – Foto – Rostand Medeiros.

Sérgio Azol desejou fotografar o filho de Zé Saturnino, que aceitou, mas reclamou por que sua esposa, Dona Olímpia Cavalcante Nogueira, queria que ele vestisse uma camisa mais arrumada e penteasse os cabelos brancos para sair bonito nos retratos.

Depois Marcos de Carmelita perguntou a João Saturnino se seria possível que Sérgio Azol e eu, que havíamos vindo de São Paulo e Natal, pudesse fotografar aqueles raros objetos. E assim foi feito!

JSB (1)
Arquivo do autor

Marcos pegava nos objetos com extremo cuidado e nítida emoção, enquanto isso eu e Sérgio os enquadrávamos nas objetivas de nossas máquinas fotográficas e os clicávamos apenas como registro.

Não sei se estou certo, mas creio que diante daquele reencontro com a minha pessoa e com Marcos de Carmelita, principalmente diante da veneração do amigo Marcos pelos objetos, foi que João Saturnino, para espanto geral dos visitantes, disse que Marcos de Carmelita poderia levá-los como um presente. Mas com a contrapartida que elas fossem bem cuidadas. Nessa hora eu olhei para o meu amigo de Floresta e me espantei com a sua própria cara diante das palavras de João Saturnino.

A (406)
Sacramentando a entrega dos materiais – Foto – Rostand Medeiros.

Para aquele homem velho, marcado pelo tempo e pela história do seu pai e de Lampião, aquelas peças carcomidas possuem um muito valor muito especial e evocam vastos sentimentos. Provavelmente ele viu estes mesmos sentimentos presentes no semblante de Marcos de Carmelita e decidiu lhe entregar peças que genuinamente pertenceram ao primeiro combate de Lampião e seus irmãos em toda sua história de inúmeros confrontos e tiroteios.

24
João Saturnino e sua esposa – Foto – Sérgio Azol.

Talvez, sem querer, naquela manhã na fazenda Maniçoba o velho João Saturnino me deu uma simples, clara e enorme lição – A de que ninguém é eterno e ninguém é dono da História!

No Lugar Original Onde Nasceu Lampião e Novas Surpresas

Mas aquele 2 de junho de 2016 ainda guardava mais situações interessantes.

Da fazenda Maniçoba seguimos para conhecer o local exato onde Virgulino Ferreira da Silva nasceu – A propriedade Passagem das Pedras.

20160903_152711
Foto das ruínas da casa onde nasceu Lampião, no livro !Lampião, cangaço e Nordeste”, de Aglae Lima de Oliveira, pág. 33, Edições O Cruzeiro, Rio, 1970.

Da porteira de um empreendimento turístico, onde supostamente está uma casa que foi de uma tia de Lampião e que foi reconstruída há alguns anos, seguimos a esquerda por uma estrada de terra bem rústica e maltratada.

Logo estava diante do riacho São Domingos, trecho fluvial extensamente comentado nos muitos livros sobre a vida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.

A (153)
Vencendo as barrancas do Riacho São Domingos e suas areias – Foto – Rostand Medeiros

Passar pelas barrancas do São Domingos com nosso Renault Sandero 1.0 não foi lá muito positivo para o veículo, mas nem que eu ficasse só com a volante na mão e o carro todo destruído pela estrada, eu queria chegar até aquele local.

A propriedade Passagem das Pedras, onde estão as ruínas da casa onde nasceu Lampião, atualmente pertence ao Sr. Camilo Nogueira, um sertanejo tranquilo, que carrega no rosto os anos de muita labuta em uma terra marcada pelo sol, mas que nós recebeu com um sorriso caloroso e uma saborosa e geladinha água. Água que não foi trazida do fundo de um antigo pote de barro, mas de sua moderna e eficiente geladeira elétrica. Aquela água foi bem vinda, pois o sol cada vez mais esquentava a terra, mas eu, Marcos, Cristiano e Sérgio estávamos todos bem a vontade.

11
Seu Camilo – Foto – Sérgio Azol

 

Com extrema atenção Seu Camilo nós levou até uma área próxima a lateral de sua residência, em um ponto cercado e coberto de vegetação típica de caatinga. Ele comentou que a sua família tinha adquirido há anos aquelas terras que pertenceram a família Ferreira e onde estão as ruínas da casa onde nasceu Lampião.

A (164)
A área onde estão as ruínas é toda cercada – Foto – Rostand Medeiros

Nesta área logo ele mostrou vários tijolos vermelhos quebrados e pedaços destruídos de telhas, apontando que certamente ali existiu uma morada. Seu Camilo faz questão de deixar o local preservado, com a vegetação crescendo livremente e os tijolos quebrados e pedaços de telhas espalhados na terra. Ele informou que não deixa ninguém retirar nada. E como essa não era a nossa intenção naquele lugar, a única coisa que tiramos nas ruínas da casa onde nasceu Lampião foram fotos, muitas fotos.

A (167)
Local das ruínas – Foto – Rostand Medeiros

Percebi no local a existência dos alicerces originais da casa, mostrando que era uma vivenda com certas dimensões que me surpreenderam. Confesso que esperava algo menor.

Enquanto percorríamos a área me dei conta de quanto interessante era está naquele singular local. Estava distante de muitas coisas e fiquei  imaginar o porque dali saiu uma das figuras mais biografadas das Américas, que no final das contas foi um fora da lei!

A (170)
Foto – Rostand Medeiros

Como bem escreveu o jornalista baiano Juarez Conrado, já falecido, em um texto muito interessante, escrito por ocasião da morte de Zé Saturnino e publicado no jornal soteropolitano “A Tarde”, edição de 5 de setembro de 1980. Ali o jornalista muito bem sintetizou o início desta grande querela – “Impressionante o fato de um simples furto de bodes, tão comum nos longínquos anos de 1910 a 1920, haver se constituído no ponto de partida para uma das mais emocionantes histórias do banditismo em toda América Latina, fazendo com que um dos seus personagens, um tímido e bem comportado garoto, do interior de Pernambuco, se transformasse numa figura legendária, da qual ainda hoje se ocupam jornalistas, pesquisadores e, principalmente, sociólogos, todos eles interessados em conhecer de perto detalhes da vida desse homem que marcou época nos sertões brasileiros”.

A (195)
A Serra Vermelha, no caminho para a Passagem das Pedras – Foto – Rostand Medeiros

Enquanto fotografávamos a área, Marcos de Carmelita, amigo de longa data de Seu Camilo, lhe comentava sobre o objetivo daquela visita, quem era eu e Sérgio Azol e de onde viemos. Ele também comentou sobre a visita a João Saturnino e os maravilhosos e históricos regalos recebidos. O velho sertanejo achou tudo muito interessante e comentou que em sua propriedade também existiam objetos de trabalho que haviam pertencido originalmente a família Ferreira.

A (177)
Peças e engrenagens do engenho de moer cana-de-açúcar que existia na propriedade da família Ferreira – Foto – Rostand Medeiros

Percebi no semblante de Marcos de Carmelita outro susto e dos grandes!

Seu Camilo então comentou que durante a questão entre eles e Zé Saturnino, quando a família de Lampião se deslocou para uma propriedade denominada Poço do Negro, já na área de Floresta, deixou com a Sra. Antônia Nunes, conhecida como Dona Totonha, muito objetos típicos da lide no campo. Ela ficou com a guarda temporária, mas ninguém retornou para buscar nada e tudo ficou por lá.

A (183)
Antiga balança dos Ferreira – Foto – Rostand Medeiros

Seu Camilo nós apresentou algumas peças e engrenagens do engenho de moer cana-de-açúcar que existia na propriedade. Além disso Seu Camilo trouxe dois antigos prumos (aparentemente de bronze), dois serrotes de aparar ponta de chifres de boi, duas esporas, uma pequena balança, um enxó e outro materiais. Na prática eram ferramentas típicas de pessoas que viviam no campo, encontrados em muitas fazendas pelo interior do Nordeste. Evidentemente que eram materiais com determinado peso histórico, pois pertenceu à propriedade Passagem das Pedras, local de nascimento de Lampião.

A (192)
Foto – Rostand Mdeiros

Mas entre os materiais apresentados, um deles me chamou muito atenção – Um nível de bolha inglês, ricamente trabalhado, que teria pretensamente pertencido a José Ferreira, pai de Lampião.

O nível nada mais é que um tradicional instrumento para indicar ou medir inclinações, muito utilizado por carpinteiros, pedreiros, engenheiros, agrimensores e muitos outros profissionais. O chamado nível de bolha é quando este tipo de ferramenta possui um pequeno recipiente, com certa quantidade de um liquido viscoso, onde em seu interior fica aprisionado uma bolha de ar que serve para indicar a existência de inclinação em planos horizontais e verticais caso a bolha se posicione para fora de uma área previamente demarcada.

A (189) - Copia
O nível com bolha produzido pela empresa John Rabone and Sons, de Birmingham, Inglaterra que seria uma ferramenta que pertenceu ao pai de Lampião – Foto – Rostand Medeiros

Confesso que em muitos anos visitando inúmeras fazendas e propriedades antigas pelo Nordeste do Brasil, foi a primeira vez que me deparei com este tipo de instrumento. É uma bela peça, que possui a parte superior feita de bronze e madeira de mogno americano no corpo central. Mas interessante mesmo era a origem do artefato!

A (185)
Foto – Rostand Medeiros.

Pesquisando inicialmente eu descobri que aquilo era um nível produzido pela empresa John Rabone and Sons, de Birmingham, no centro oeste da Inglaterra. Esta grande cidade experimentou uma explosão de crescimento populacional e econômica, com o advento da Revolução Industrial, da qual Birmingham foi um dos primeiros e mais bem sucedidos centros. Descobri também que a empresa John Rabone and Sons teve suas origens como fabricante de ferramentas gerais em 1784 e o negócio foi continuado pelo neto de John Rabone, Eric. Operou-se sob o nome de John Rabone and Sons de 1784 até 1953.

Continuei pesquisando nos jornais da Biblioteca Nacional e descobri que a firma John Rabone and Sons era conhecida no Brasil pelo nome simplificado de “Rabone” e encontrei algumas referências aos produtos desta empresa, mas focado principalmente em trenas de medição, com vários metros de comprimento, possuindo fitas métricas de aço, ou de “panno”, como se escrevia na época. Mas não encontrei nenhuma referência de venda de níveis de bolha como aquele apresentado por Seu Camilo.

A (188)
Foto – Rostand Medeiros

Aquela peça em si abriu um leque de inúmeros questionamentos para mim.

Como algo como aquilo chegou ao Ferreira?

Para que eles utilizavam aquele tipo de ferramental mais especializado e, até onde sei, um tanto raro no sertão do passado?

Quais eram os saberes, os fazeres, as artes que as mãos e o suor dos Ferreira produziam?

Então foi que me dei conta que na verdade pouco se sabe da vida de Lampião no seu dia a dia antes dele virar cangaceiro. Pouco se sabe de sua singela vida, quando ele era apenas filho de José Ferreira, se chamava Virgulino Ferreira da Silva e vivia no lugar Passagem das Pedras.

A (189)
Foto – Rostand Medeiros

Segundo Seu Camilo, através da tradição oral local, existe a informação que os membros da família Ferreira sabiam construir casas, eram muito habilidosos e práticos. Existe inclusive restos de um forno de produção de tijolos e telhas no local. Realmente esta parte das habilidades dos Ferreira merece pesquisa mais apurada.

E tal como ocorreu com João Saturnino, diante da atenção que devotávamos aquelas peças e do interesse de Marcos de Carmelita em preservá-las, Seu Camilo decidiu doar tudo ao pesquisador e escritor florestano. Eu vi e presenciei tudo aquilo!

Marcos de Carmelita comentou que já tinha conhecimento daquele material, pois já tinha feito diversas visitas de pesquisas a esses locais e queria que os outros também pudessem ver com seus próprios olhos. Mas jamais imaginou que algo assim pudesse acontecer.

13322120_10153617267676935_8828969658119485107_n
Casa na região da Passagem das Pedras – Foto – Sérgio Azol.

As descobertas chocaram a todos que ali estavam. Já no nosso retorno a Floresta, sentimos o dever de comunicar aos outros pesquisadores do tema Cangaço estas descobertas. Pessoalmente fiquei muito feliz quando pedi a Marcos de Carmelita para ter o privilégio de deixar essa matéria em minhas mãos, onde construí este texto com muita responsabilidade.

Depois que eu e Sérgio Azol partimos de Floresta em direção a Piranhas, Alagoas, Marcos de Carmelita retornou a casa de Seu Camilo na companhia de Denis Carvalho, bacharel em direito residente em Floresta, pesquisador do cangaço focado no conhecimento dos punhais dos cangaceiros e objetos antigos. Juntos eles fizeram um inventário do material.

A (369)
Antigo quartel da Força Pública em Floresta. Atualmente em ruínas, mas merecendo uma recuperação pela sua importância histórica.

Segundo me narrou Marcos de Carmelita, o que ele, Cristiano, Denis e outros membros do GFEC – Grupo Florestano de Estudos do Cangaço sonham para o destino destas peças é que elas venham a fazer parte de uma exposição permanente no prédio do antigo batalhão das forças volantes, na Praça major João Novaes, no centro de Floresta.

Construído originalmente para ser um seminário em 1928 abrigou o 3° Batalhão da Força Pública da Polícia Militar de Pernambuco com a intenção de combater o cangaço. Depois da Revolução de 1930 o Batalhão foi transferido de Floresta, ficando o prédio desativado. Depois serviu para o Pensionato da Divina Providência. Infelizmente o local se encontra atualmente em ruínas, existindo projetos para a sua recuperação, mas que nunca seguiram adiante.

A (429)
O autor deste texto na região da propriedade Passagem das Pedras – Foto – Sérgio Azol.

Marcos acredita que neste local histórico, além de contar com uma área onde existiria uma exposição permanente com estas peças ligadas a família Ferreira, além de outras ligadas a questão do cangaço e que pertencem a pessoas em Floresta, poderia igualmente abrigar um centro de cultura e artesanato. Este seria principalmente focado nos trabalhos de couro existente na região e nos materiais tradicionais produzidos pelas comunidades indígenas.

Como comentei anteriormente, eu vi a entrega destes materiais e acredito que eles estão em boas mãos. Nas mãos de pessoas que acreditam na democratização da informação histórica e na preservação.

DUAS BIOGRAFIAS SERÃO RELANÇADAS DURANTE MEGA EXPOSIÇÃO NA PINACOTECA, NESTA SEXTA, EM NATAL.

25g-1000x600

Duas obras literárias terão espaço no vernissage do Salão Dorian Gray de Arte Potiguar, marcado para às 19h desta sexta-feira (6) na Pinacoteca do Estado: “A Estrela Conta”, do jornalista Nelson Patriota, e “Dom Marcolino Dantas por ele mesmo”, organizada pelo padre José Mário de Medeiros, ambos publicados pela Coleção Cultura Potiguar da Fundação José Augusto (FJA).

Os lançamentos integram a programação do salão criado pela Sociedade Amigos da Pinacoteca (SAP), entidade sem fins lucrativos que abriu seleção para sete categorias: pintura, escultura, fotografia, gravura, performance, arte digital e arte em movimento. Cem artistas foram selecionados, num total de cerca de 300 obras que estarão à disposição do público. A exposição coletiva tem o apoio do Governo do Estado, através da Fundação José Augusto (FJA).

índice-2-464x262

Glorinha Oliveira

“A Estrela Conta” é uma biografia produzida pelo jornalista Nelson patriota a convite da cantora Glorinha Oliveira. O autor já vinha coletando informações a respeito da intérprete antes do lançamento da primeira edição em 2003.

O título faz referência ao programa “A Estrela Canta”, transmitido a partir da década de 50 pela Rádio Poti, período em que brilhavam no país grandes nomes da MPB como Cauby Peixoto, Marlene, Jamelão, e Emilinha Borba.

A obra foi publicada pela AS livros em 2003 trazendo histórias baseadas em materiais colecionados pela artista, além de entrevistas a partir de visitas à sua casa. A obra apresenta ilustrações e exibe várias fases da vida de Glorinha e revela fatos pessoais da vida da pessoa. Agora, a obra ganha em 2016 uma reedição revista e ampliada dentro da Coleção Cultura Potiguar, editada pela Fundação José Augusto.

índice-1-464x227

Dom Marcolino

O padre José Mário de Medeiros, escritor e vigário da Paróquia de Bom Jesus das Dores, na Ribeira, reuniu documentos históricos e pessoais sobre a vida de Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas.

A obra “Dom Marcolino Dantas por ele mesmo”, é uma autobiografia construída através de depoimentos, matérias jornalísticas e discursos proferidos pelo religioso potiguar ao longo de sua trajetória.

O livro apresenta em 400 páginas, a produção poética de Dom Marcolino, além de homilias, bençãos, pregações e imagens históricas.

Dom Marcolino Dantas estabeleceu o marco de transição da Diocese para a Arquidiocese de Natal. Foi o quarto e último bispo e o primeiro arcebispo. Sua gestão foi marcada por inúmeras realizações, destacando-se a construção do Seminário de São Pedro.

Sua administração primou pela hierarquia, autoridade e formalidade. Durante o relançamento desta sexta-feira o livro será vendido ao preço de R$ 30.

Serviço

Relançamento dos livros

“A Estrela Conta”, do jornalista Nelson Patriota
“Dom Marcolino Dantas por ele mesmo”, organizada pelo padre José Mário de Medeiros
Data: Sexta-feira (6)
Horário: 19h
Local: Pinacoteca do Estado ( Praça 7 de Setembro S/N, Cidade Alta)

Autor – Sergio Vilar

Fonte – http://www.substantivoplural.com.br/duas-biografias-serao-relancadas-durante-mega-exposicao-na-pinacoteca-nesta-sexta/

BIBLIOTECA DE NOVA YORK DISPONIBILIZA FOTOS INÉDITAS DO BRASIL IMPERIAL

nypl.digitalcollections.510d47e1-cba6-a3d9-e040-e00a18064a99.001.g - Copy

nypl.digitalcollections.510d47e1-cba6-a3d9-e040-e00a18064a99.001.g
ALGUMAS IMAGENS DESTA COLEÇÃO SÃO MATERIAIS DE ENORME VALOR PARA HISTORIADORES POTIGUARES E NORDESTINOS DE MANEIRA GERAL, COMO ESSE MAPA DO BRASIL PUBLICADO PELO IRLANDÊS-AMERICANO MATHEW CAREY EM 1814. NESSE CASO, DEVIDO A BOA RESOLUÇÃO DA IMAGEM, É POSSÍVEL VISUALIZAR COM ALGUMA QUALIDADE A REGIÃO LITORÂNEA DO RIO GRANDE DO NORTE, PARAÍBA, PERNAMBUCO E PARTE DO CEARÁ. AQUI PODERMOS OBSERVAR ALGUNS ACIDENTES GEOGRÁFICOS DA COSTA DESTES ESTADOS, COM NOMES QUE SE MANTIVERAM ATÉ OS DIAS ATUAIS.

Acervo contém fotos e ilustrações que mostram cenas do cotidiano e personagens comuns do país entre os séculos 19 e 20

A Biblioteca Pública de Nova York digitalizou cerca de 180 mil imagens de seu acervo e disponibilizou fotos e ilustrações – algumas inéditas em plataforma digital – do Brasil na era imperial.

São imagens de livros antigos que mostram escravos, índios, soldados, fauna e flora, nobreza e algumas cenas do cotidiano das metrópoles do país nos séculos 19 e 20. Entre o material digitalizado estão fotos inéditas como essa de Dom Pedro II.

pedro
FOTO DE D. PEDRO II, IMPERADOR DO BRASIL, NO SÉCULO 19.

O arquivo conta com livros como The Negro in The World, publicado em 1910 pelo explorador inglês Sir Harry Johnston, e o Livro de Figurinos do Exército Imperial Brasileiro de 1866, compilado por um médico holandês e doado à biblioteca em 1911.

Outro livro digitalizado é o “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, de Jean-Baptiste Debret, que chegou ao país com a Missão Francesa em 1816. Depois de uma estadia de 15 anos, o pintor e desenhista produziu uma das fontes mais relevantes de imagens sobre a fauna e a flora e a sociedade brasileira da época.

nypl.digitalcollections.510d47df-c9ce-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w
GRAVURA DE UMA VENDA NO RECIFE DO SÉCULO 19, PELO ARTISTA JOHANN MORITZ RUGENDAS.

Para ver tudo o que está disponibilizado sobre o país, basta buscar pela palavra-chave “Brazil” no site do acervo digital da Biblioteca Pública de Nova York.

Veja algumas das imagens disponíveis:

TEXTO – Ana Freitas

FONTE – https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/02/02/Biblioteca-de-Nova-York-disponibiliza-fotos-in%C3%A9ditas-do-Brasil-imperial

nypl.digitalcollections.510d47df-7781-a3d9-e040-e00a18064a99.001.v
ILUSTRAÇÃO PUBLICADA ENTRE 1834 E 1839 DA FAMÍLIA DO CACIQUE DE UMA TRIBO CAMACÃ SE PREPARANDO PARA UMA FESTA.
nypl.digitalcollections.510d47df-7779-a3d9-e040-e00a18064a99.001.g
GRAVURA DE UM VALE NA SERRA DO MAR, EM SÃO PAULO, DE JEAN BAPTISTE DEBRET, PUBLICADO ENTRE 1834 E 1839.
nypl.digitalcollections.510d47e1-1c5c-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w
ILUSTRAÇÃO DO CACIQUE DE UMA TRIBO DE ÍNDIOS BOTOCUDOS, PUBLICADA ENTRE 1823 E 1838.
nypl.digitalcollections.510d47df-88b7-a3d9-e040-e00a18064a99.001.w
TRABALHADORES NEGROS EM UMA MINA DE DIAMANTES EM LENÇÓIS, NA BAHIA. FOTO DE 1910.
nypl.digitalcollections.79d9c2d8-f36d-4228-e040-e00a18061fdc.001.w
RETRATO DA IMPERATRIZ TERESA CRISTINA DE BOURBON DUAS-SICÍLIAS, ESPOSA DO IMPERADOR D. PEDRO II, FEITO NO SÉCULO 19.

 

UMA VISITA AO RIO GRANDE DO NORTE

A República-3 de dezembro de 1919
Jornal “A República”, Natal-RN, 3 de dezembro de 1919

Manuel de Oliveira Lima foi um ilustre escritor, crítico, embaixador do Brasil em diversos países, professor-visitante na Universidade de Harvard e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Em novembro de 1919 ele esteve em terras potiguares e o blog TOK DE HISTÓRIA traz na íntegra o interessante relato do próprio Oliveira Lima sobre essa visita.

NOTA – Este material foi originalmente publicado no site http://www.consciencia.org/

É um ótimo sinal quando se chega a uma terra que não é uma terra de arte como a Itália ou a Grécia, ou uma terra de incomparáveis belezas naturais como o Japão ou a Suíça, e as coisas que há a mostrar ao estrangeiro são escolas e hospitais.

Quer isto dizer que essa terra acalenta as preocupações sociais sem as quais qualquer comunidade se torna improgressiva e infecunda do ponto de vista humano. Como o Rio Grande do Norte parece precisamente que nutre e dá, pelo que verifiquei, expansão a semelhantes preocupações, sendo isso tanto mais de admirar quanto é um dos Estados mais pobres da Federação.

www.fernandomachado.blog.br
Manuel de Oliveira Lima – Fonte – http://www.fernandomachado.blog.br

É clássica a pilhéria de que os vencimentos dos seus empregados públicos se pagavam em parte com jerimuns, cuja abundância era notável ao lado da escassez do numerário. As circunstâncias decerto mudaram: os jerimuns devem ter diminuído ao ponto que os não vi e achei pouco delicado perguntar por eles, e o numerário, se não cresceu muito, tem sido aproveitado com tamanha felicidade que tem chegado para dotar-se o Estado de boas escolas, entre elas notáveis grupos escolares, e atender-se a serviços de assistência aos doentes, aos loucos e aos desvalidos.

Ao aproximarmo-nos de Natal, ao largo da linha negrft dos arrecifes, antes de dobrarmos a fortaleza dos Reis Magos, inofensiva hoje mas sempre pitoresca, que a patina secular embeleza e o senso da tradição faz conservar, e de subirmos o amplo Potengi, avista-se no cimo de um morro, a cavaleiro da praia onde se quebram as ondas e com um horizonte de colinas cobertas de uma vegetação escura, um grupo de construções. São o hospital, a cadeia e o asilo, o primeiro e o último já remodelados de maneira a preencherem adequadamente os seus fins.

O desvelo manifestado por semelhantes assuntos de pedagogia e de assistência honra o espírito público dos dirigentes. Mas também os dirigidos se distinguem pela sua cordura e urbanidade.

DSC04395
Coleção TOK DE HISTÓRIA

Tem-se a impressão de lidar com gente boa, de sentimentos mais pacíficos, e de fato o sertão do Rio Grande do Norte destoa dos sertões vizinhos em não apresentar essa feição peculiar do banditismo. A população acusa, portanto, uma superior disposição moral. Por quê? Não saberia dizê-lo, nem me deram disso a razão. O Rio Grande do Norte tem ainda falta de sociólogos. A superior mentalidade feminina que observei deverá ser, antes do que causa, resultado daquela condição do meio.

É curioso verificar esse maior desenvolvimento intelectual da mulher, que se sente como se sente que já vem de longe o favor que merece o ensino. A primeira formação espiritual da notável escritora que foi Nísia Floresta fez-se no agreste de Papari, desabrochando das brenhas essa flor de civilização. Outras senhoras continuam e zelam semelhante tradição, que dota a inteligência do seu sexo de uma maior independência e de uma maior amplidão. A Escola Doméstica de Natal, da qual não é exagero quanto se disser de bom que não tem sua parelha no Brasil, nem mesmo noutros países, havia forçosamente de adaptar-se ao meio, nele se sentido à vontade.

Ouvi que exerceram grande influência em Natal na sua atividade de educadoras duas americanas, Miss Reed e Miss Porter, se não me engano. Miss Leora James, a diretora incomparável da Escola Doméstica, que pela organização e pela disposição parece um pedaço dos Estados Unidos encravado no Rio Grande do Norte, não faz mais do que seguir-lhes as pegadas na esfera que lhe proporcionou a lúcida iniciativa do Governo.

eloy4web
Alunas da Escola Doméstica de Natal em uma aula na horta do educandário – Fonte – http://www.skyscrapercity.com

A educação americana é útil pelo seu espírito prático adequado às vicissitudes da vida, pelo bom humor que preside ao seu desenvolvimento, por uma tonalidade que não é apenas jovial mas altamente eficiente. Considero-a vantajosa para a nossa mentalidade mais formalista e mais pautada pelas convenções. Nos discursos pronunciados na festa literária pelas alunas graduadas da Escola Doméstica pode perfeitamente notar-se esse influxo americano. Nem sentimentais, nem bombásticos, esses discursos, por elas elaborados, foram todos repassados de um humour que se casa perfeitamente com a saudade descrevendo um, com a franqueza da despedida, episódios da vida escolar, esboçando outro com uma ponta de malícia mas sem maldade os perfis dos mestres com os seus cacoetes, dando outro a conhecer um testamento muito espirituoso, formulando ainda outro com graciosa ironia o programa que por magia cada uma dessas moças se traçara para a existência. Esta última produção é da aluna Isabel Dantas, que teve o prêmio de viagem.

A Escola Doméstica não tem desviado sua atenção do fim essencial da sua ação, que é ajudar o progresso social da comunidade, dando às moças, que serão amanhã mães de família, além dos conhecimentos gerais indispensáveis à vida da inteligência, o preparo necessário para desempenharem conscientemente, isto é, cientificamente, as diferentes categorias de atividade em que até aqui procediam empiricamente, quer dizer, instintivamente. Assim é que para a aula de puericultura existe anexa uma creche com seis crianças, de dois dias a cinco anos, cuja evolução fisiológica e psicológica pode, portanto, ser diretamente observada.

vaq-16
Oliveira Lima assistiu uma tradicional vaquejada, com vaqueiros trajando sua característica vestimenta de couro, como apresentada nesta foto do início do século XX. Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

A essa chamada e verdadeira medicina do lar agregam-se cursos que debalde se procurariam noutras instituições: o de educação social, a cargo de Henrique Castriciano; o de educação estética, comportando a decoração da casa, uma arte simples e encantadora mas ainda rara no nosso meio; de direito usual, para que as mulheres não ignorem nem os seus direitos civis, nem o que seja uma hipoteca ou outra qualquer transação sobre propriedade, assim evitando que pela vida adiante venham a ser logradas nos seus bens.

Não há por enquanto na Escola um campo de tennis. Entretanto, o sport não é alheio ao belo sexo do Rio Grande do Norte: pela mais gentil das deferências, baixei a terra numa embarcação tripulada por adestradas remadoras do Clube Náutico feminino. Outros desportos florescem: não posso dizer se também o football entre os homens. É mais que provável, se bem que sem o furor que noutro Estado do norte divide a sociedade local em campos irreconciliáveis, sendo por exemplo vedado ao membro ou partidário de um dos dois clubes fazer negócio com o do outro clube, extremando-se o comércio nesses antagonismos e chegando não raro os desaguisados de opinião à pancadaria.

Ao sertão não alcançaram, porém, ainda esses exercícios físicos americanos e o seu desporto principal continua a ser a vaquejada nacional. Assisti a uma na Fazenda Santa Rita, em que tomaram parte oitenta e tantos artistas, na maior parte profissionais vestidos de couro — a vestia, o dianteiro, as perneiras, o chapéu de abas e as meias-luvas — alguns, porém, amadores, como um negociante da Serra Caiada que me confessou que dava a alma por essa corrida em disparada atrás do animal que o cavaleiro trata de segurar pela cauda e desse modo derrubá-lo, para o que se requer força e agilidade. Já noutras ocasiões tinha partido um braço, uma perna e uma clavícula; concertara tudo e lá estava numa das filas de cavaleiros, esperando a saída do bicho do curro.

95798
Antiga sede da Escola Doméstica de Natal – Fonte – tribunadonorte.com.br

Se já não tivesse quatro filhos, não perdia uma, rematou. E eu dava-lhe razão, porque a vaquejada deve ali operar como a tourada no espírito dos que se criaram assistindo a elas e interessando-se por quanto lhes diz respeito.

A Escola Doméstica de Natal representa uma soma incalculável de esforço e de tenacidade. Não faltavam preconceitos a disputar-lhe o passo. Foi ela combatida como pouco pudica por ter uma seção de puericultura, a qual entretanto é de natureza a prestar relevantes serviços, ajudando a cruzada do saneamento da população nacional, empreendida por alguns espíritos previsores e generosos. Nós sabemos quanto é avultada no país a mortalidade infantil e que a razão disto está mais que tudo na falta, não de carinho, mas de cuidados inteligentes dados à alimentação e à higiene das crianças.

Ciência ou arte, a puericultura deve adquirir-se como qualquer outra, e é como se procede hoje nos Estados Unidos, que tão grande atenção estão prestando a esse gênero de questões.

A Escola foi ainda increpada de fútil por pretender ensinar a coser, a lavar e engomar, a cozinhar, a fabricar manteiga e queijos, a tratar de galinhas, a cuidar de jardins e de hortas. Ora, um minuto de reflexão basta para indicar quanta utilidade envolve tudo isso. Ensina-se a costura e a cozinha naquele estabelecimento de instrução com o máximo do gosto e o máximo da economia. No Brasil os pobres sofrem de falta de alimentação substancial mais do que na Europa: em compensação, porém, os que podem gastar, e mesmo os remediados, comem demasiado, considerando uma mesa opípara ou pelo menos muito farta a primeira das condições do conforto. O nosso jantar comum de família compõe-se de dois e três pratos de meio, quando um bastaria, com uma sopa e uma sobremesa. E o desperdício no preparar iguala o desperdício no consumir. O banquete que me foi oferecido pela Escola Doméstica, todo de execução das alunas graduadas, auxiliadas pelas do segundo ano, consistia numa boa sopa, um peixe excelente, galinha com salada de legume e sorvete de abacaxi.

almoc3a7o-para-rafael-fernandes-na-antiga-ed-anos-1930
Henrique Castriciano de Souza foi um dos que estiveram junto de Oliveira Lima na sua visita ao Rio Grande do Norte – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

As alunas aprendem a compor o seu orçamento culinário como outro qualquer e a respeitarem esses orçamentos: assim fizessem os governos. Os vestidos das graduadas, para a festa da formatura, por elas próprias executados, custaram, fazenda e enfeites, 47$000 cada um. Também para os trajes se faz orçamento, o que constitui uma magnífica promessa de tranquilidade nos casais. A modéstia é de rigor na vestimenta escolar. Trajam todas igualmente de branco, sem sacrifício da elegância compatível com a simplicidade, e não usam joias, para não estabelecer diferenças de fortuna assinalando-as por esse meio.

Compreende-se a vantagem que o fabrico dos laticínios pode emprestar a muitas raparigas, filhas de criadores, cujas manadas de vacas dão muito mais leite do que podem consumir suas famílias e que só aproveitam as sobras em uma espécie tradicional de requeijão. A avicultura é outra ciência de grandes benefícios, como também a pomicultura e a horticultura. Tudo isso, aliás, distrai dos trabalhos puramente mentais e varia o programa escolar, contribuindo para completar uma educação feminina. A vida no internato faz-se assim tão aprazível, dada também a suavidade da direção, a qual não exclui a disciplina, apenas trata de torná-la consciente, que não há por assim dizer aluna que não deixe a escola com vivas saudades da atmosfera de bem-estar e de cordialidade que em redor delas soube criar a ótima educadora a quem em boa hora a Liga do Ensino confiou semelhante tarefa.

teatro-e-bonde-4
Na época da visita de Oliveira Lima a Natal, a cidade tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

Nessa vivenda adrede construída, em boa parte segundo as indicações da mesma diretora, passa-se uma existência muito mais de família que de colégio, na velha acepção do termo, cumprindo cada qual seus deveres com satisfação e não se regateando as ocasiões de agradável intercurso, participando as alunas da administração comum, vivendo portanto do espírito da casa que é de método ao mesmo tempo que de liberdade, e é sobretudo de autonomia no pensar e no sentir. Pelo que pude ver, as alunas adquirem desembaraço sem contraírem desenvoltura.

A festa da Escola terminou por uma alegoria à paz, a qual expulsa do palco a guerra, enquanto os Estados Unidos e o Brasil se unem num amplexo de aliança. Os educadores norte-americanos, longe de quererem suscetibilizar o sentimento patriótico das nações da América do Sul, fazem o que está ao seu alcance para avivá-lo, no interesse mesmo da cooperação e solidariedade visadas. A sua ação redunda igualmente na disseminação do espírito associativo, que faz parte integrante do feitio americano. A seção culinária da Escola Doméstica de Natal já está ensaiando uma espécie de “extensão” entre as famílias; mediante o preparo, pelas matronas que aderem aos clubes gratuitos, de conservas de legumes e frutas com que aproveitar o produto de umas estações em outras, também de bolos e doces.

oliveira-lima1
Oliveira Lima em seu local de trabalho – Fonte – http://www.cafecolombo.com.br

De tudo quanto me foi dado observar na minha rápida visita ao Rio Grande do Norte, eu trouxe a impressão consoladora para um espírito brasileiro de que no seu governo e nos agentes que lhe personificam a ação existe mais pronunciado do que noutros pontos do território nacional o sentimento do dever cívico que se desdobra no dever humanitário para com os nossos semelhante. O fato deixará de parecer surpreendente a quem tiver em mente que o vulto histórico para quem vão todas as simpatias locais, todo o culto da comunidade, foi não um agitador ou um demagogo, mas um homem essencialmente de caráter.

O Padre Miguelinho foi um sacerdote instruído e meigo, professor querido dos seus discípulos e espírito não só ilustrado como preocupado de conciliação e de concórdia; mas o que sobretudo o torna grande entre as vítimas generosas da revolução de 1817 foi a sua inquebrantável lealdade para com os companheiros de revolução e sobretudo para com a sua fé política. Nessa figura tocante, que resistiu ao apelo à vida que lhe estendiam, é que se concentra a devoção patriótica dos rio-grandenses do norte. O influxo de tal devoção não podia deixar de ser salutar para uma sociedade.

Parnamirim, dezembro de 1919

Fonte: Oliveira Lima – Obra Seleta – Conselho Federal de Cultura, 1971. Através do link – http://www.consciencia.org/uma-visita-ao-rio-grande-do-norte

———————————————————————————————————————————————-

download
Fonte – pt.wikipedia.org

Manuel de Oliveira Lima (Recife, 25 de dezembro de 1867 – Washington, Estados Unidos, 24 de março de 1928).

Oliveira Lima começou a trabalhar como jornalista com catorze anos de idade. Em seus artigos constantemente criticava o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República e por isso ganhou fama de monarquista.

Formou-se em letras na Faculdade de Lisboa em 1887, e em 1890 começou a trabalhar para o Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Atuou como diplomata em Portugal, Bélgica, Alemanha, Japão e Estados Unidos.

Foi encarregado de negócios da primeira missão diplomática brasileira no Japão. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses. Escreveu então ao Ministério das Relações Exteriores alertando sobre o perigo de o brasileiro se misturar com “raças inferiores”.

Chegou a ser falado para a embaixada brasileira em Londres mas o Senado não aprovou sua indicação. Oliveira Lima era malvisto pelo governo britânico por defender que o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha.

Também fez inimigos dentro do país, em parte por não aprovar a atitude expansionista da República em situações como a anexação do Acre realizada pelo Barão do Rio Branco. Ele dizia que o território nacional já era vasto e muito mal fiscalizado e que a verdadeira expansão do Brasil só viria através do comércio.

Oliveira Lima sempre gostou de ler e escrever. publicou numerosas obras de história, entre elas: Memória sobre o descobrimento do BrasilHistória do reconhecimento do ImpérioElogio de F. A. VarnhagenNo JapãoSecretário Del-ReiDom João VI no Brasil. Sobre esta última obra de história que Oliveira Lima publicou é importante destacar sua importância para o rearranjo da historiografia brasileira, pois ela é considerada como sendo um clássico da historiografia nacional segundo o Lima um intelectual que têm variadas conferências sobre a formação da nacionalidade brasileira. A ilustre obra “Dom João VI no Brasil” é considerada como sendo uma das grandes obras do autor Oliveira Lima. Essa avaliação é feita por muitos estudiosos e autores relacionados a questões significativas sobre o Brasil. Alguns autores e escritores como Gilberto Freyre, Octavio Tarquínio de Souza e Wilson Martins já tiveram a oportunidade de escrever sobre os relatos de Oliveira Lima contidos nesta obra de grande prestígio para a historiografia brasileira. 

Em 1913 quando já morava nos Estados Unidos, Oliveira Lima doou sua descomunal biblioteca à Universidade Católica de Washington por temer que a coleção não recebesse os cuidados adequados no Brasil. Impôs a condição de que ele próprio fosse o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos.

Em 1924 foi apontado professor honorário da Faculdade de Direito do Recife.

Morreu em 1928 e foi enterrado no cemitério Mont Olivet, Washington. Em sua lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros“.

FONTE – https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_de_Oliveira_Lima

MAIS SOBRE OLIVEIRA LIMA – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Oliveira+Lima&ltr=o&id_perso=413

SOBRE O SITE http://www.consciencia.org/

Este site é um espaço virtual de estudo, pesquisa e ensino. Tradicional site de filosofia, que ampliou o leque temático para abranger outras ciências humanas: História do Brasil, História Geral, Literatura, Antropologia, Sociologia, Linguística e áreas afins. Foi criado em 1997, pelo filósofo Miguel Lobato Duclós (1978-2015). Segundo seu pai, Nei Duclós, o trabalho desenvolvido por Miguel Lobato Duclós proporcionou a criação de um vasto acerto virtual de conhecimento, um trabalho pioneiro num país onde a universidade ainda possui um forte preconceito contra a internet. O espaço virtual consciência.org atrai milhares de estudantes e é responsável pela introdução à Filosofia e atualização do conhecimento para mais de uma geração de alunos, que se mostram admirados e agradecidos, como atestam as inúmeras cartas recebidas e publicadas neste website.

O blog TOK DE HISTÓRIA homenageia Miguel Lobato Duclós como verdadeiro pioneiro da democratização da informação intelectual em espaço virtual.

 

 

ENCONTRO COM O MESTRE FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO

DSCF9580 - Copy (2)

Normalmente as pessoas que gostam de um determinado tema histórico possuem em suas casas livros sobre o assunto de sua preferência. Certamente que nestas estantes alguns destes livros se destacam de outros pelo constante manuseio e a frequência com que seus proprietários vasculham suas páginas em busca de respostas para certas indagações. São aqueles livros que se tornam referência. Evidentemente que diante dessa situação, surge naturalmente uma positiva admiração pelos autores destes maravilhosos trabalhos.

Na minha estante sobre livros do cangaço, que nem é tão numerosa assim, existem alguns poucos livros que se enquadram perfeitamente nesta situação, cujos autores são verdadeiros Mestres para mim. Um deles é “Guerreiros do Sol”, de Frederico Pernambucano de Mello.

Nessa minha busca pelo conhecimento do que significa o fenômeno do cangaço, sem dúvida alguma esta obra é uma grande ferramenta que me ajuda a ampliar o meu conhecimento sobre o tema.

Com o tempo fui incorporando ao meu acervo outros interessantes livros de Frederico Pernambucano de Mello, todos de alto nível.

E hoje, em Recife, eu tive o privilégio de conhecer Mestre Frederico.

Fui recebido de maneira extremamente atenciosa, em um momento muito agradável, muito salutar, onde pudemos debater de maneira tranquila e aberta sobre o universo do cangaço e da história de nossa região.

Conheci um homem com amplo conhecimento sobre esse tema, mas com uma natural simplicidade, enorme fidalguia e extrema atenção a este seu admirador.

Eu só tenho o mais franco agradecimento ao Mestre Frederico por este agradável encontro.

Rostand Medeiros