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A FÁBRICA DE FILHOTES NAZISTAS

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Hitler recrutou crianças e adolescentes alemães para doutriná-los. Um livro analisa os crimes de guerra que eles cometeram e como foram precursores das crianças-soldado

A juventude sob Hitler não podia ser boa. De 1933 a 1945, os jovens alemães foram incorporados em massa à trituradora ideológica e militar do nazismo e muitos se tornaram autores dos crimes do regime.

A cumplicidade genérica da juventude da Alemanha com seu Führer é indiscutível, mas também é verdade que esses meninos e meninas que ofereceram sua alma ao perverso ditador, seduzidos ou forçados, foram de alguma forma, e em maior ou menor grau, dependendo do caso, vítimas. Doutrinados até o indizível, coagidos, intimidados, despojados de sua infância e adolescência, arrancados de suas casas e escolas, muitas vezes entregues pelos próprios pais ao ogro da suástica, os jovens alemães foram usados pelos nazistas, que os tornaram sujeitos de um experimento social atroz, reservatório de suas ideias abomináveis e, em última instância, bucha de canhão para sua guerra com o mundo.

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A principal ferramenta usada pelos nazistas para se apropriar dos jovens alemães e unificá-los em seu credo foi a Juventude Hitlerista (JH), que recebeu o nome em 1926 a partir de formações anteriores, inicialmente ligada às SA (unidades de choque do partido nazista).

Na Juventude Hitlerista serviram 9 de cada 10 jovens alemães. De tipo paramilitar (com belos uniformes – de cor negra e mostarda – e insígnias próprias), era destinada a meninos com idades entre 14 e 18 anos. Para os menores, de 10 a 14 anos, havia um ramo infantil, o Deutsches Jungvolk (DJ), que desembocava naturalmente na Juventude Hitlerista e cujos membros eram chamados de pimpfe. Quanto às meninas, existia a seção feminina da Juventude Hitlerista, a Liga das Meninas Alemãs, com seu próprio ramo para as meninas. Todas usavam saia azul-marinho e uma camisa branca, muito à la mode, de acordo com o gosto nazista, e usavam tranças ou coques.

Uma das meninas mais famosas egressas da Juventude Hitlerista foi Irma Grese, a Bela Besta, a terrível guardiã de campos como Ravensbrück, Auschwitz e Bergen-Belsen.

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A Juventude Hitlerista tornou-se a única organização juvenil da Alemanha a partir de 1936, quando foram proibidas todas as outras. A filiação passou a ser obrigatória por lei em 1939 para todos os adolescentes com idade entre 10 e 18 anos. Da Juventude Hitlerista, que passou de 100.000 membros quando Hitler chegou ao poder (1933) para dois milhões no fim de 1933 e 5,4 milhões em dezembro de 1936, se saía para ingressar no partido (nazista), na Frente Alemã do Trabalho, nas tropas de assalto ou na SS (principal organização militar, policial e de segurança do Reich), ou no serviço da Waffen-SS (corpo de combate de elite da SS) e na Wehrmacht (Exército).

No início de 1939, 98,1% dos jovens alemães pertenciam à Juventude Hitlerista. Entre os que escaparam de suas garras, com grande risco, porque havia pesadas sanções (recorria-se a Heinrich Himmler e sua polícia e à SS para fazer cumprir o serviço), figurava aquele que depois seria escritor e prêmio Nobel de Literatura, Heinrich Böll, com 16 anos em 1933. No entanto, outro autor e também prêmio Nobel, Günter Grass, fez um percurso clássico completo: pimpfe aos 10 anos, auxiliar antiaéreo aos 15 e artilheiro de carro de combate da Waffen-SS aos 17.

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Nosso olhar se dirige a esses jovens frequentemente com uma perturbadora ambivalência. Ficamos espantados e indignados com imagens de jovens multidões ruidosas e entusiasmadas diante do líder, alinhadas em ordem militar, desfilando com arrebatamento marcial, cantando com endemoniada pureza diabólica (como na icônica e impressionante cena de Tomorrow Belongs To Me, do filme Cabaret); os mais fanáticos, incorporados ao combate nas divisões mecanizadas de elite ou na luta política e racial: a juventude que queima livros, persegue e maltratada –e até assassina –os opositores e os judeus nas ruas (ou nos campos de concentração), denuncia seus próprios vizinhos e até mesmo seus pais para a Gestapo.

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Fonte – http://ww2images.blogspot.com.br/2013/04/15-year-old-german-soldier-cries-after.html

Tudo isso indica que este foi um conflito intergeracional. A outra face é a da foto (que foi capa da Life) do soldado de 15 anos, enfiado num casaco muito grande, chorando como o que é, um menino, depois de sua captura em 1945 pelos norte-americanos.

Ou a dos 20 soldadinhos condecorados com a Cruz de Ferro, um deles um “pequeno herói” (como foi batizado pela propaganda) de 12 anos, recebidos no bunker da chancelaria do Reich no dia 19 de março de 1945 por um Hitler já espectral, mas ainda capaz de enviá-los para a morte mais absurda e inútil diante dos tanques russos depois de lhes dar um beliscão na bochecha. “Não voltarão a ser livres pelo resto de suas vidas”, profetizara em 1938 o grande flautista de Hamelin da Alemanha.

O historiador nascido na Alemanha, mas naturalizado canadense Michael H. Kater (Zittau, 1937), um especialista na cultura do Terceiro Reich, doutor em História e Sociologia pela Universidade de Heidelberg e professor da Universidade de York (Toronto, Canadá) acaba de publicar um livro imprescindível sobre a Juventude Hitlerista, organização sobre a qual girou especialmente o esforço dos nazistas para se aproveitar dessa geração alemã.

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Fonte – https://www.amazon.com/Hitler-Youth-Michael-H-Kater/dp/0674019911

Hitler Youth (Juventude Hitleriana) é uma obra tão exaustiva quanto apaixonante e comovente que combina a investigação científica com o relato humano – explica que os acampamentos da Juventude Hitlerista, onde proliferava o sadismo, eram um mau lugar para molhar a cama. E instala em seu centro uma profunda reflexão moral.

“As organizações juvenis, como as Wandervögel, existiam na Alemanha desde a era guilhermina e o início do século”, diz Kater, “elas se voltaram mais para a direita, de acordo com o espectro político geral; na última metade da República de Weimar (1925-1932), quando Hitler estava em alta, membros de grupos de juventude nacionalista simpatizavam secreta ou abertamente com o NSDAP, o partido nazista, embora menos do que com a Juventude Hitlerista, que teve um início fraco e tardio. À medida que os padrões democráticos foram derrubados, uma estrutura com um Führer passou a ser aceitável entre a juventude alemã, e isso facilitou para que todos os grupos juvenis fossem incorporados à Juventude Hitlerista. Isso aconteceu em etapas. Aqueles que resistiram foram forçados a fazê-lo em 1935”. Uma das chaves do sucesso da Juventude Hitlerista é que ela se apresentava como excitante, moderna e progressista.

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Que conceito Hitler tinha da juventude? “No começo, realmente nenhum”, responde o historiador. “Não estava interessado nos jovens porque não podiam votar. Eventualmente Hitler se convenceu de que criar jovens seguidores não era uma má ideia: um movimento milenar deveria ter uma retaguarda”.

Ante a imagem do jovem soldado da Life e a de dois meninos do bunker de Hitler, Michael H. Kater deixa claro seus sentimentos: “Pessoalmente sinto uma imensa compaixão por eles. Para mim, nesse tempo, eram obviamente meninos inocentes que tinham sido explorados por políticos fascistas criminosos”.

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Com a guerra, recorreu-se aos membros da Juventude Hitlerista para ajudarem após os bombardeios das cidades alemãs, o que obrigou meninos de 12, 13 e 14 anos a terem experiências espantosas, desenterrando famílias inteiras carbonizadas. Pior ainda foi o recrutamento para as defesas antiaéreas, em que 200.000 meninos e meninas da Juventude Hitlerista prestaram serviço como pessoal auxiliar de artilharia (Flakhelfer). Saiam das escolas diretamente aos canhões, e muitos sofriam crises nervosas devido ao medo.

Junto a isso, afirma Kater, está o fato de que o doutrinamento da Juventude Hitleriana desempenhou um importante papel nos crimes de guerra da Wehrmacht e das SS, quando esses jovens ingressaram em suas fileiras convertidos em soldados políticos. “É possível identificar dois importantes ingredientes da formação ideológica da Juventude Hitlerista que os jovens transferiram para a Wehrmacht e as SS: um é a crença de que a Alemanha deveria dominar outras partes do mundo, e o outro, a hierarquia racial, que colocava os alemães arianos no cume e os judeus na parte mais baixa”. Um hábito sinistro dos jovens recrutas provenientes da Juventude Hitlerista era o “turismo de execução”: assistir aos assassinatos coletivos de judeus sobre o terreno.

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A Juventude Hitlerista foi realmente útil militarmente?

Kater responde que foi fundamental para que os nazistas pudessem colocar tantas forças no campo de batalha. “Tinham recebido treinamento paramilitar, inclusive antes de março de 1935, quando se introduziu o recrutamento geral, e de setembro de 1939 (início da II Guerra Mundial). É preciso lembrar que o selo distintivo da socialização da Juventude Hitlerista foi a militarização, com os acampamentos, as marchas e os jogos de guerra”. A Juventude Hitlerista, inclusive, tinha áreas especializadas como a naval, a equestre e a de pilotos de planadores, cujos integrantes eram cobiçados por Hermann Göering. “Ao passar a fazer parte das forças regulares da Wehrmacht ou das SS, os jovens da Juventude Hitlerista se misturavam facilmente em suas fileiras e reforçavam sua agressividade”.

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Houve inclusive uma divisão de elite vinculada à Juventude Hitlerista, a 12ª Divisão Panzer Hitlerjugend, formada em 1943 com 16.000 membros da Juventude Hitlerista nascidos em 1926. “Eram combatentes nazistas particularmente fanáticos, tendo sido socializados sem problemas desde os campos da Juventude Hitlerista até as casernas das SS”. A Juventude Hitlerista cometeu crimes de guerra. Também houve membros da organização no supervalorizado Werwolf, a guerrilha nazista que enfrentou a ocupação aliada.

O historiador concorda que os meninos da Juventude Hitlerista com bazucas Panzerfaust tão habituais ao final da guerra como membros do Volkssturm, a milícia popular de último recurso, eram claros precedentes dos modernos meninos soldados. “Desde cedo. No grande conflito prévio, a I Guerra Mundial, o Exército alemão foi muito cuidadoso em não admitir recrutas com menos de 18 anos – por exemplo, o próprio Heinrich Himmler -, inclusive apesar de alguns menores terem entrado furtivamente no exército imperial (como Ernst Jünger). Mas o fenômeno dos meninos soldados é uma marca das últimas fases desesperadas da II Guerra Mundial”. Kater aponta que com os recrutas da Juventude Hitlerista enviados para os Panzer em 1943 e 1944 não se compartilhava cigarros como com os soldados adultos, mas sim… doces.

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Responsabilidade e culpa estão no núcleo do livro de Kater, que, além de ser sobre história, é um livro sobre moral, e inclusive sobre juízo moral. “Qualquer um que escreva sobre a Juventude Hitlerista tem de se ocupar desses temas. É um assunto muito delicado, e responder de maneira satisfatória a todas às perguntas que surgem, impossível”. Ser de origem alemã deve complicar as coisas. “O fato de ter nascido na Alemanha e de ter estado, em 1945, a apenas dois anos de ser incorporado à Juventude Hitlerista provavelmente me faz ser especialmente sensível ao tema. Me considero um democrata liberal de esquerda, e hoje tremo ante o que teria me aguardado como membro da Juventude Hitlerista se a guerra tivesse durado o suficiente. Nascido em 1937, me mudei para o Canadá em 1953 e me converti em cidadão canadense, deixando para trás de propósito minha nacionalidade alemã. Graças a Deus o Canadá é uma terra de tolerância e integração. Não existe Marine Le Pen aqui, nem Trump, nem NSDAP”.

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Percebe-se no livro uma tensão entre a visão do historiador – e seu impecável exame dos pecados das Juventudes Hitlerianas – e a compaixão ante determinados casos dessa juventude abreviada.

Qual é a avaliação final de Kater?

Vítimas e perpetradores?

“Sim, ambas as coisas. É preciso diferenciar entre adolescentes suficientemente mais velhos para aceitar responsabilidade (e inclusive culpa) por certas atitudes e ações, e meninos que em um tribunal de justiça, inclusive em um nazista, deveriam ter sido considerados inocentes. Obviamente, essas duas categorias sempre se sobrepõem, e quem pode dizer onde estão os limites claros?”.

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A Juventude Hitlerista não teve muita sorte – se é possível se dizer assim – com seus dois líderes: Von Schirach (julgado em Nuremberg) e Artur Axmann. “Ambos foram personagens impessoais na maquina nazista e intercambiáveis no que diz respeito à Juventude Hitlerista. Nenhum tinha carisma, eram meros funcionários. Schirach, não muito brilhante, era particularmente vazio, mas com enormes pretensões, mais culturais do que políticas. Axmann ao menos havia lutado na guerra, na frente do Leste, onde foi gravemente ferido e teve o braço direito amputado”.

O líder das Juventudes Hitlerianas pediu a seus rapazes e moças que defendessem Berlim até o fim: mantiveram abertas as pontes sobre o rio Havel para que escapassem os faisões dourados nazistas, os hierarcas, entre eles o próprios Axmann.

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Nem toda juventude alemã seguiu Hitler. Houve dissidentes. Individuais e em grupo. Como os Jovens do Swing, atraídos pelo jazz norte-americano, as gangues (era difícil ser rebelde sem causa na Alemanha nazista) e os integrantes do grupo de resistência da Rosa Branca.

O historiador aborda em profundidade um tema característico da Juventude Hitlerista: o gênero. “Sempre houve no partido nazista duas tendências, uma que queria que as meninas e mulheres fossem colocadas em massa para trabalhar, especialmente em tempo de guerra, e a outra que esperava que se dedicassem a ser amas do lar e paridoras de nazistas. Hitler pertencia ao segundo grupo. Albert Speer e Joseph Goebbels, ao primeiro. Em última instância, Hitler ganhou. Inclusive as mulheres nazistas que se revoltaram contra isso foram rapidamente silenciadas. Assim como as feministas na Juventude Hitlerista. A ala feminina, a BDM – cuja saída militar poderia ser a de ajudantes nos distintos ramos das Forças Armadas -, tinha que obedecer sempre aos membros masculinos, inclusive as líderes”.

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O assunto do sexo é bastante sinistro.

“Apesar da ideologia oficial que afirmava que as mulheres deveriam ser honradas e que o sexo era só um catalizador necessário para a reprodução eugênica, os nazistas (homens) se aproveitavam de suas posições hierárquicas para explorar sexualmente meninas e mulheres. Na Juventude Hitlerista havia jovens (com energia e libido alta) muitas vezes bonitos (uma boa isca para a luxuria) misturados com uma estrutura autoritária, onde sempre havia alguém que podia mandar e outro que não estava autorizado a dizer que não, a promiscuidade era muito alta”. De fato, o acrônimo da Liga das Meninas Alemãs, BDM, passou a ser lido como Bund Deutscher Matrazen (liga de colchões alemães) ou Bubi Drück Mich (vamos rapaz, me aperte forte).

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Fonte – http://dachaukz.blogspot.com.br/2011/03/my-own-surrender-to-3rd-us-army-9th-may.html

Qual é o legado da Juventude Hitlerista?

“Depois da guerra, praticamente todo mundo havia feito parte delas e podiam se sentir envergonhados ou culpados, então não se falava do tema. Os de ultradireita são uma exceção, claro”. 

AUTOR – Jacinto Antón

FONTE – http://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/01/internacional/1478025759_957657.html

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EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS ALEMÃS NA AMAZÔNIA

                   MISSÃO ARTÍSTICA AUSTRO-ALEMÃ- 1819/1820 
 
Carl Friedrich Philipp Von Martius

A arquiduquesa da Áustria, Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, filha de Francisco I, ex-imperador da Alemanha e então Imperador da Áustria, que contraiu núpcias com Pedro de Alcântara, em 1817, tinha grande interesse pela botânica. Isto ficou evidente quando ela veio para o Rio de Janeiro a fim de unir-se ao príncipe Pedro de Alcântara, com o qual havia contraído núpcias. Á época, a Corte português encontrava-se no Rio de Janeiro e D.João, genitor de D. Pedro, exercia a regência devido à demência da rainha Maria I, sua mãe. Integrando a comitiva da arquiduquesa Leopoldina vieram vários naturalistas, com destaque para o médico, botânico e antropólogo Carl Friedrich Philipp Von Martius e o zoólogo Johann Baptiste Von Spix, integrantes da chamada “Missão Artística Austro-Alemâ”. Eles tinham sido convidados para uma expedição ao Brasil, com o propósito de descrever a fauna e a flora do país. Ambos estavam credenciados pela Academia de Ciências da Baviera. Carl e Spix iniciaram suas pesquisas em 1818, passando por São Paulo, Minas Gerais (Ouro Preto e Diamantina), Bahia, Pernambuco, Piauí e Maranhão e Pará. O percurso foi feito a pé, com uso de animais resistentes ao transporte de carga. De Belém, já em 1819, a expedição subiu o rio Amazonas até atingir o rio Solimões, onde a expedição foi desmembrada. Carl Martius enveredou pelo rio Japurá até alcançar a fronteira com a Colômbia. Johann Spix  seguiu sozinho o curso do Solimões, de Tefé a Tabatinga e do rio Negro, de Manaus a Barcelos, estendendo a viagem até o Peru. No retorno, os dois cientistas se encontraram no rio Negro e subiram o rio Madeira. Carl Martius teria permanecido apenas 10 meses na Amazônia. Ao retornar a Alemanha, levou entre objetos de sua pesquisa as 470 plantas medicinais que relacionou junto aos indígenas. Johann Spix demorou mais tempo, cerca  de 3 anos, passando por agruras diversas.Percorreu cerca de 10 mil km e só retornou a Alemanha em 1820, conduzindo um apreciável acervo: 6.500 variedades da flora, 85 espécies de mamíferos, 350 aves, 130 anfíbios, 146 peles e 2.700 insetos. O conjunto do material adquirido se constitui na base da coleção do Museu de História Natural de Munique. Sua extraordinária aventura foi registrada no Livro “Reise In Brasilien” cujo titulo em português é “Viagem pelo Brasil -1817 a 1820”. Carl Von Martius também publicou um livro, denominado “Flora Brasilienses”.  

Johann Baptiste Von Spix

A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA ALEMÃ – 1935/1937

Expedição alemã singrando as águas do Rio Jari, no trecho navegável antes da cachoeira Santo Antônio. Na popa da embarcação pode ser vista uma bandeira com a cruz suástica, simbolo do nazismo.

 Heinrich Himmler, chefe do Departamento Central de Segurança do III Reich, subordinado a SS, acreditava que era possível encontrar na Amazônia, descendentes da Atlântida, de raça pura e vestígios genéticos da “raça ariana”. Ele já havia organizado e enviado expedições cientificas a várias regiões da terra com este propósito. Em 1934, chegou a relacionar entre os enviados ao Tibet, o pesquisador Otto Schulz, filiado ao partido nazista NSDAP, mas este não topou a empreitada. Entretanto, aceitou compor uma expedição formada com apoio de Herman Goring, cujo destino era o vale do rio Jarí, na região norte do Brasil. Otto Schulz-Kampfhenkel era de família rica, formado em geografia e ciências naturais. Tinha paixão pela aviação e integrou a missão cientifica como piloto de hidroavião “Seekadett”, apelidado “Águia Marinha”. Apenas quatro alemães faziam parte da expedição que chegou a Belém no inicio de 1935. O chefe era Gerd Kahh. Joseph Greiner cuidaria da segurança do grupo e guarda do material vindo da Alemanha.

Hidroavião “Seekadett”, apelidado “Águia Marinha”, estacionado na rampa destinada a aviões anfíbios, na atual área ocupada pela Aeronáutica, em Belém. Os 3 alemães que chegaram à capital do Pará, em 1935, são vistos entre militares brasileiros.

Otto Schulz pilotaria o hidroavião, cuja manutenção ficou a cargo do mecânico Gerhard Krause, também técnico de som que operaria os gravadores e as filmadoras. Os quatro alemães eram oficiais do exército nazista de Hitler, e deveriam proceder ao levantamento topográfico da bacia do ri Jarí até suas cachoeiras, com interesse cientifico de pesquisar a fauna e a flora da região e de outra ordem. Schulz-Kampfhenkel e seus companheiros passaram 2 meses, em Belém, requerendo autorização para subir o rio Jarí. Para provar que o objetivo da expedição era eminentemente cientifico, mostrou às autoridades brasileiras as cartas de credenciamento expedidas por institutos de pesquisa e museus de história natural da Alemanha. Foi bastante convincente nas suas explicações, tanto que, conseguiu a adesão do Instituto Emílio Goeldi, de Belém e do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Porém, embora o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas fosse simpático ao nazismo, o aval das Forças Armadas custou a sair.

Os alemães contrataram 30 caboclos da região do Jari para auxiliá-los nos trabalhos da expedição. Nesta fotografia, aparecem 16 homesns engajados na empreitada, acostumados a enfrentar as corredeiras e as cachoeiras do Rio Jari.

Na oportunidade era governador do Estado do Pará o Senhor José Carneiro da Gama Malcher, que tomara posse a 4/5/1934 e nele permaneceu até 25/1/1943. O general baiano Manuel Cerqueira Daltro Filho, que comandava a 8ª Região Militar desde o mês de maio de 1935, exigiu dos alemães o máximo de respeito à soberania nacional e os prestigiou até julho de 1937, ocasião em que foi transferido para o Rio Grande do Sul. Outro importante apoio os alemães receberam do coronel José Júlio de Andrade, afinal de contas, as terras que eles iriam percorrer lhes pertenciam. Indagados sobre tanto interesse pela região do rio Jari, os membros da expedição afirmavam: “Aqui é oferecido um espaço suficiente para imigração e o estabelecimento dos povos nórdicos. Para a mais avançada raça, oferece infinitas possibilidades de exploração”. Comentava-se, entretanto, que a expedição tinha a missão de explorar a região fronteiriça do Brasil com a Guiana Francesa e colonizá-la para o “Terceiro Reich”.

O experiente indio Winnetou foi contratado para servir de guia da expedição. Na proa de sua canoa havia dos poleiros improvisados onde viajavam sossegadamente duas araras e três papagaios.Uma rústica esteira de arumã protege a carga.

 Os exploradores trouxeram da Alemanha 11 toneladas de suprimentos e munições para 5 mil tiros. Este material foi transportado para a vila Santo Antônio, próximo à cachoeira que ostenta este nome, no navio “José Júlio”, gentilmente cedido pelo coronel e ali ficou estocado. O acampamento foi montado acima do curso médio do rio Jari, junto à cachoeira Macaquara, em área onde havia uma aldeia dos índios Aparai.  Sempre que se fazia necessário, Joseph Greiner, com uso de um pequeno barco de madeira, ia à vila de Santo Antônio para buscar viveres e outros produtos. Apenas ele fazia este trabalho, contando com a ajuda de alguns caboclos engajados na expedição.

Dois membros da expedição, provavelmente o piloto Schulz e o mecânico Gerhard, remam sentados nos flutuadores do hidroavião.Os alemães pretendiam subir o Rio Jari na aeronave, desistindo de fazê-lo depois que conheceram melhor o trecho que precisariam transpor.

O hidroavião “Águia Marinha”, que tanto encantou a população de Belém e causaria tanta perplexidade no vale do Jari, estava dotado de flutuadores revestidos com compensado e equipado com instrumentos de navegação. Nos vôos para registro fotogramétrico, o mecânico, que também era técnico de som, Gerhard Krause, fazia as filmagens. Com alguma freqüência o avião fazia vôos para Belém, levando parte do material coletado nas pesquisas. Consta que o acervo ficava sob a guarda do Instituto Emílio Goeldi.

Uma das corredeiras do Rio Jari sendo transposta com muita dificuldade.

A expedição sempre contou com a especial atenção do coronel José Júlio de Andrade, dos caboclos da região e dos índios Aparai. Além dos Aparai, moravam na área entre o rio Jari e o rio Parú, os Uruguianos, de pele morena e estatura mediana. Estabelecidos em ponto mais distante do local ocupado pelos Aparai, não participaram da expedição. As duas tribos eram materialmente assistidas pelo coronel José Júlio para não cometerem desatinos. No primeiro contato com os Aparai, os alemães disseram que eram filhos do “Pai Grande da Ciência”. Frequentavam assiduamente a aldeia Aparai e chegaram a morar um ano às entre os índios. O geólogo Otto Schulz, por ser piloto, era visto com soberba admiração e acabou se amasiando com a índia Macarrani, tendo com ela teve uma filha chamada Ceçé. Consta que, a criança tinha a pele clara e os olhos incrivelmente azuis. Aliás, os Aparai não eram tão morenos como habitualmente são os gentios brasileiros.

Gerhard Krause mostra a uma velha india como funciona um gravador.

Além de ser o capataz da expedição e cuidar da segurança de seus patrícios, Joseph Greiner era uma espécie de porta-voz do grupo alemão. Ele era o único que não veio com a expedição, pois migrou para o Brasil com 15 anos de idade. Em 1935, morava em São Paulo quando tomou conhecimento da presença da expedição em Belém. Ofereceu seus préstimos aos conterrâneos e foi contratado como mestre bagageiro, capataz e encarregado das provisões Falava fluentemente o português e teve participação importante nas relações que a expedição manteve com o governo brasileiro. Era Greiner quem indicava o local mais adequado para o pouso do hidroavião, mudando-o de acordo com o estágio em que se encontrava a maré. Quando o piloto Otto Schulz retornava de suas atividades diárias ao anoitecer, Greiner acendia uma fogueira para orientá-lo.

A bela e exótica india Okoi, da etnia Aparai, fotografada pelos alemães.

Otto Schulz era um bom piloto, mas as vezes abusava da sorte e da paciência dos patrícios. Certa vez tentou subir o rio Jarí com o avião deslizando em seus flutuadores, deixando de fazê-lo ao ver que a empreitada era impossível de ser realizada. Certa vez, realizando voo para levantamento topográfico, o hidroavião perdeu altura e espatifou-se sobre toras de madeira que flutuavam sobre as águas do rio Amazonas, entre Gurupá e Arumanduba. O piloto Otto Schulz e o mecânico Gerhard sobreviveram e passaram horas agarrados a um dos flutuadores do avião. Foram resgatados por caboclos da região que os encontraram bastante exaustos. Em outra ocasião, sob forte chuva, Oto Schulz subia o rio Jarí, tendo a bordo de uma canoa câmara fotográfica, filmadora, bússola, armas, munições, material cartográfico, comida e roupas, quando foi surpreendido por um repiquete de inicio do inverno. Só não perdeu a vida, mas ficou vagando perdido pela floresta. Os índios o encontraram completamente desnorteado.

A velha india usa um fone de ouvido e ouve as vozes gravadas por Gehard.

Atuando em uma região hostil, os alemães enfrentaram sérios problemas de saúde. Malária, repetidos acidentes, diarreia e apendicite os atacaram. Valiam-se dos remédios trazidos da Alemanha e do conhecimento que os índios tinham das ervas medicinais. No dia 1º de janeiro de 1936, dia da confraternização universal ou ano novo, Joseph Greiner deixou o acampamento da cachoeira Macaquara com destino a vila Santo Antônio, onde pernoitou. Ao amanhecer do dia 2 de janeiro, ele e seus auxiliares iniciaram o transporte de mercadoria para o lombo dos burros que o coronel José Júlio lhes havia emprestado. Os animais levariam a carga até o local onde o barco que utilizavam na viagem tinha ficado atracado. Ao chegar ao atracadouro do barco, bem acima de corredeiras e queda d’água, Greiner ardia em febre e passava mal. Foi levado de volta para a filial de Santo Antônio da Cachoeira onde seu quadro de saúde se agravou.

Índios Aparai junto a cruz de acapu feita em Belém e fixada no local onde morreu o alemão Joseph Greiner.

Sentindo que fatalmente não resistiria à malária, Greiner pediu que sua mercadoria fosse guardada e entregue a seus patrícios, que estavam ausentes. Entrou em coma e faleceu às 20 horas do mesmo dia, aos 30 anos de idade.  Na manhã do dia 3 de janeiro, enquanto um mensageiro foi avisar os demais membros da expedição, o pessoal da filial de Santo Antônio realizou o sepultamento de Joseph Greiner no pequeno cemitério local. Na Vila de Santo Antônio, os alemães conheceram os detalhes da morte de Greiner e imediatamente seguiram para Belém, em uma embarcação cedida pelo coronel José Júlio de Andrade. Otto Schulz, Gerd Kahh e Gerhard Krause agiram com prudência, porque também já haviam contraído malária e outras doenças. Permaneceram dois meses em Belém, em busca de cuidados médicos. Ao retornarem ao Jari, levaram uma cruz gamada de origem indo-tibetana, popularizada pelo nazismo, confeccionada em acapú. A haste vertical mede 3 metros de altura e o patíbulo ou braço, tem 2 metros. Ela se destaca de modo imponente entre as demais cruzes do cemitério da antiga Vila da Cachoeira, demarcando o local onde Joseph Greiner foi sepultado.

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Estágio atual (2013) do local onde Joseph Greiner foi sepultado.

Na parte superior da haste, está a suástica, símbolo do nazismo. No batibulo, consta o nome do morto: JOSEPH GREINER. No restante da haste, abaixo do patíbulo, lê-se: “Joseph Greiner. Starb Hier. Am 2-1-36. Den Fiebertod In Dienste. Deustscher Furschungs. Arbeit Deustsche. Amazonas. Jary Expedition 1935-37”. A tradução literal para a língua portuguesa quer dizer: “Joseph Greiner Faleceu Aqui Em 2-1-36 De Morte de Febre Em Serviço de Exploração Para Alemanha. Expedição Alemanha. Amazonas. Jary 1935-37”. Durante muito tempo a cruz ficou exposta às intempéries. Recentemente um rústico telhado de fibra-cimento a protege da chuva. Há 76 anos a cruz permanece erguida na sepultura de Greiner.

Gerhard Krauser, mecânico de avião e técnico de som, mostra a alguns índios, as gravações que realizou contendo suas vozes. Os índios Aparai eram bem amistosos, fato que favoreceu a rápida ambientação dos alemães.

A expedição levou para a Alemanha um apreciável acervo: peles de 500 mamíferos diferentes, centenas de répteis e anfíbios e 1500 peças arqueológicas. Produziu 2.500 fotografias e 2.700 metros de filmes de 35 mm focando índios, caboclos, animais, peles, cobras, etc. Detalhes marcantes da expedição estão contidos em um livro editado em 1939, em Berlim, pela editora Deutscher Verlag, com o nome de “Rätsel der Urwaldholle”, significando em português “Mistérios do Inferno na Mata Virgem”, que corresponde ao diário do geólogo e piloto Otto Schulz-Kampfhrnkel. Na edição de 1938, há 60 fotografias. Algumas delas que mostram a cruz suástica e a bandeira nazista. Na reedição de 1953, as fotos foram banidas. As fotografias mostradas neste artigo estão contidas no livro acima identificado.

Por Nilson Montoril (Fonte – http://montorilaraujo.blogspot.com.br/)