Arquivo da tag: Wehrmacht

A FÁBRICA DE FILHOTES NAZISTAS

www-deviantart-14
Fonte – http://www.deviantart

Hitler recrutou crianças e adolescentes alemães para doutriná-los. Um livro analisa os crimes de guerra que eles cometeram e como foram precursores das crianças-soldado

A juventude sob Hitler não podia ser boa. De 1933 a 1945, os jovens alemães foram incorporados em massa à trituradora ideológica e militar do nazismo e muitos se tornaram autores dos crimes do regime.

A cumplicidade genérica da juventude da Alemanha com seu Führer é indiscutível, mas também é verdade que esses meninos e meninas que ofereceram sua alma ao perverso ditador, seduzidos ou forçados, foram de alguma forma, e em maior ou menor grau, dependendo do caso, vítimas. Doutrinados até o indizível, coagidos, intimidados, despojados de sua infância e adolescência, arrancados de suas casas e escolas, muitas vezes entregues pelos próprios pais ao ogro da suástica, os jovens alemães foram usados pelos nazistas, que os tornaram sujeitos de um experimento social atroz, reservatório de suas ideias abomináveis e, em última instância, bucha de canhão para sua guerra com o mundo.

www-deviantart-17
Fonte – http://www.deviantart

A principal ferramenta usada pelos nazistas para se apropriar dos jovens alemães e unificá-los em seu credo foi a Juventude Hitlerista (JH), que recebeu o nome em 1926 a partir de formações anteriores, inicialmente ligada às SA (unidades de choque do partido nazista).

Na Juventude Hitlerista serviram 9 de cada 10 jovens alemães. De tipo paramilitar (com belos uniformes – de cor negra e mostarda – e insígnias próprias), era destinada a meninos com idades entre 14 e 18 anos. Para os menores, de 10 a 14 anos, havia um ramo infantil, o Deutsches Jungvolk (DJ), que desembocava naturalmente na Juventude Hitlerista e cujos membros eram chamados de pimpfe. Quanto às meninas, existia a seção feminina da Juventude Hitlerista, a Liga das Meninas Alemãs, com seu próprio ramo para as meninas. Todas usavam saia azul-marinho e uma camisa branca, muito à la mode, de acordo com o gosto nazista, e usavam tranças ou coques.

Uma das meninas mais famosas egressas da Juventude Hitlerista foi Irma Grese, a Bela Besta, a terrível guardiã de campos como Ravensbrück, Auschwitz e Bergen-Belsen.

www-deviantart-16
Fonte – http://www.deviantart

A Juventude Hitlerista tornou-se a única organização juvenil da Alemanha a partir de 1936, quando foram proibidas todas as outras. A filiação passou a ser obrigatória por lei em 1939 para todos os adolescentes com idade entre 10 e 18 anos. Da Juventude Hitlerista, que passou de 100.000 membros quando Hitler chegou ao poder (1933) para dois milhões no fim de 1933 e 5,4 milhões em dezembro de 1936, se saía para ingressar no partido (nazista), na Frente Alemã do Trabalho, nas tropas de assalto ou na SS (principal organização militar, policial e de segurança do Reich), ou no serviço da Waffen-SS (corpo de combate de elite da SS) e na Wehrmacht (Exército).

No início de 1939, 98,1% dos jovens alemães pertenciam à Juventude Hitlerista. Entre os que escaparam de suas garras, com grande risco, porque havia pesadas sanções (recorria-se a Heinrich Himmler e sua polícia e à SS para fazer cumprir o serviço), figurava aquele que depois seria escritor e prêmio Nobel de Literatura, Heinrich Böll, com 16 anos em 1933. No entanto, outro autor e também prêmio Nobel, Günter Grass, fez um percurso clássico completo: pimpfe aos 10 anos, auxiliar antiaéreo aos 15 e artilheiro de carro de combate da Waffen-SS aos 17.

www-deviantart-6
Fonte – http://www.deviantart

Nosso olhar se dirige a esses jovens frequentemente com uma perturbadora ambivalência. Ficamos espantados e indignados com imagens de jovens multidões ruidosas e entusiasmadas diante do líder, alinhadas em ordem militar, desfilando com arrebatamento marcial, cantando com endemoniada pureza diabólica (como na icônica e impressionante cena de Tomorrow Belongs To Me, do filme Cabaret); os mais fanáticos, incorporados ao combate nas divisões mecanizadas de elite ou na luta política e racial: a juventude que queima livros, persegue e maltratada –e até assassina –os opositores e os judeus nas ruas (ou nos campos de concentração), denuncia seus próprios vizinhos e até mesmo seus pais para a Gestapo.

a-15-years-old-german-luftwaffe-anti-aircraft-crew-member-crying-after-being-taken-prisoner-by-american-forces2
Fonte – http://ww2images.blogspot.com.br/2013/04/15-year-old-german-soldier-cries-after.html

Tudo isso indica que este foi um conflito intergeracional. A outra face é a da foto (que foi capa da Life) do soldado de 15 anos, enfiado num casaco muito grande, chorando como o que é, um menino, depois de sua captura em 1945 pelos norte-americanos.

Ou a dos 20 soldadinhos condecorados com a Cruz de Ferro, um deles um “pequeno herói” (como foi batizado pela propaganda) de 12 anos, recebidos no bunker da chancelaria do Reich no dia 19 de março de 1945 por um Hitler já espectral, mas ainda capaz de enviá-los para a morte mais absurda e inútil diante dos tanques russos depois de lhes dar um beliscão na bochecha. “Não voltarão a ser livres pelo resto de suas vidas”, profetizara em 1938 o grande flautista de Hamelin da Alemanha.

O historiador nascido na Alemanha, mas naturalizado canadense Michael H. Kater (Zittau, 1937), um especialista na cultura do Terceiro Reich, doutor em História e Sociologia pela Universidade de Heidelberg e professor da Universidade de York (Toronto, Canadá) acaba de publicar um livro imprescindível sobre a Juventude Hitlerista, organização sobre a qual girou especialmente o esforço dos nazistas para se aproveitar dessa geração alemã.

51jxbtdy8l-_sx331_bo1204203200_
Fonte – https://www.amazon.com/Hitler-Youth-Michael-H-Kater/dp/0674019911

Hitler Youth (Juventude Hitleriana) é uma obra tão exaustiva quanto apaixonante e comovente que combina a investigação científica com o relato humano – explica que os acampamentos da Juventude Hitlerista, onde proliferava o sadismo, eram um mau lugar para molhar a cama. E instala em seu centro uma profunda reflexão moral.

“As organizações juvenis, como as Wandervögel, existiam na Alemanha desde a era guilhermina e o início do século”, diz Kater, “elas se voltaram mais para a direita, de acordo com o espectro político geral; na última metade da República de Weimar (1925-1932), quando Hitler estava em alta, membros de grupos de juventude nacionalista simpatizavam secreta ou abertamente com o NSDAP, o partido nazista, embora menos do que com a Juventude Hitlerista, que teve um início fraco e tardio. À medida que os padrões democráticos foram derrubados, uma estrutura com um Führer passou a ser aceitável entre a juventude alemã, e isso facilitou para que todos os grupos juvenis fossem incorporados à Juventude Hitlerista. Isso aconteceu em etapas. Aqueles que resistiram foram forçados a fazê-lo em 1935”. Uma das chaves do sucesso da Juventude Hitlerista é que ela se apresentava como excitante, moderna e progressista.

www-deviantart-11
Fonte – http://www.deviantart

Que conceito Hitler tinha da juventude? “No começo, realmente nenhum”, responde o historiador. “Não estava interessado nos jovens porque não podiam votar. Eventualmente Hitler se convenceu de que criar jovens seguidores não era uma má ideia: um movimento milenar deveria ter uma retaguarda”.

Ante a imagem do jovem soldado da Life e a de dois meninos do bunker de Hitler, Michael H. Kater deixa claro seus sentimentos: “Pessoalmente sinto uma imensa compaixão por eles. Para mim, nesse tempo, eram obviamente meninos inocentes que tinham sido explorados por políticos fascistas criminosos”.

www-deviantart-15
Fonte – http://www.deviantart

Com a guerra, recorreu-se aos membros da Juventude Hitlerista para ajudarem após os bombardeios das cidades alemãs, o que obrigou meninos de 12, 13 e 14 anos a terem experiências espantosas, desenterrando famílias inteiras carbonizadas. Pior ainda foi o recrutamento para as defesas antiaéreas, em que 200.000 meninos e meninas da Juventude Hitlerista prestaram serviço como pessoal auxiliar de artilharia (Flakhelfer). Saiam das escolas diretamente aos canhões, e muitos sofriam crises nervosas devido ao medo.

Junto a isso, afirma Kater, está o fato de que o doutrinamento da Juventude Hitleriana desempenhou um importante papel nos crimes de guerra da Wehrmacht e das SS, quando esses jovens ingressaram em suas fileiras convertidos em soldados políticos. “É possível identificar dois importantes ingredientes da formação ideológica da Juventude Hitlerista que os jovens transferiram para a Wehrmacht e as SS: um é a crença de que a Alemanha deveria dominar outras partes do mundo, e o outro, a hierarquia racial, que colocava os alemães arianos no cume e os judeus na parte mais baixa”. Um hábito sinistro dos jovens recrutas provenientes da Juventude Hitlerista era o “turismo de execução”: assistir aos assassinatos coletivos de judeus sobre o terreno.

www-deviantart-8
Fonte – http://www.deviantart

A Juventude Hitlerista foi realmente útil militarmente?

Kater responde que foi fundamental para que os nazistas pudessem colocar tantas forças no campo de batalha. “Tinham recebido treinamento paramilitar, inclusive antes de março de 1935, quando se introduziu o recrutamento geral, e de setembro de 1939 (início da II Guerra Mundial). É preciso lembrar que o selo distintivo da socialização da Juventude Hitlerista foi a militarização, com os acampamentos, as marchas e os jogos de guerra”. A Juventude Hitlerista, inclusive, tinha áreas especializadas como a naval, a equestre e a de pilotos de planadores, cujos integrantes eram cobiçados por Hermann Göering. “Ao passar a fazer parte das forças regulares da Wehrmacht ou das SS, os jovens da Juventude Hitlerista se misturavam facilmente em suas fileiras e reforçavam sua agressividade”.

www-deviantart-4
Fonte – http://www.deviantart

 

Houve inclusive uma divisão de elite vinculada à Juventude Hitlerista, a 12ª Divisão Panzer Hitlerjugend, formada em 1943 com 16.000 membros da Juventude Hitlerista nascidos em 1926. “Eram combatentes nazistas particularmente fanáticos, tendo sido socializados sem problemas desde os campos da Juventude Hitlerista até as casernas das SS”. A Juventude Hitlerista cometeu crimes de guerra. Também houve membros da organização no supervalorizado Werwolf, a guerrilha nazista que enfrentou a ocupação aliada.

O historiador concorda que os meninos da Juventude Hitlerista com bazucas Panzerfaust tão habituais ao final da guerra como membros do Volkssturm, a milícia popular de último recurso, eram claros precedentes dos modernos meninos soldados. “Desde cedo. No grande conflito prévio, a I Guerra Mundial, o Exército alemão foi muito cuidadoso em não admitir recrutas com menos de 18 anos – por exemplo, o próprio Heinrich Himmler -, inclusive apesar de alguns menores terem entrado furtivamente no exército imperial (como Ernst Jünger). Mas o fenômeno dos meninos soldados é uma marca das últimas fases desesperadas da II Guerra Mundial”. Kater aponta que com os recrutas da Juventude Hitlerista enviados para os Panzer em 1943 e 1944 não se compartilhava cigarros como com os soldados adultos, mas sim… doces.

www-deviantart-13
Fonte – http://www.deviantart

Responsabilidade e culpa estão no núcleo do livro de Kater, que, além de ser sobre história, é um livro sobre moral, e inclusive sobre juízo moral. “Qualquer um que escreva sobre a Juventude Hitlerista tem de se ocupar desses temas. É um assunto muito delicado, e responder de maneira satisfatória a todas às perguntas que surgem, impossível”. Ser de origem alemã deve complicar as coisas. “O fato de ter nascido na Alemanha e de ter estado, em 1945, a apenas dois anos de ser incorporado à Juventude Hitlerista provavelmente me faz ser especialmente sensível ao tema. Me considero um democrata liberal de esquerda, e hoje tremo ante o que teria me aguardado como membro da Juventude Hitlerista se a guerra tivesse durado o suficiente. Nascido em 1937, me mudei para o Canadá em 1953 e me converti em cidadão canadense, deixando para trás de propósito minha nacionalidade alemã. Graças a Deus o Canadá é uma terra de tolerância e integração. Não existe Marine Le Pen aqui, nem Trump, nem NSDAP”.

www-deviantart-3
Fonte – http://www.deviantart

Percebe-se no livro uma tensão entre a visão do historiador – e seu impecável exame dos pecados das Juventudes Hitlerianas – e a compaixão ante determinados casos dessa juventude abreviada.

Qual é a avaliação final de Kater?

Vítimas e perpetradores?

“Sim, ambas as coisas. É preciso diferenciar entre adolescentes suficientemente mais velhos para aceitar responsabilidade (e inclusive culpa) por certas atitudes e ações, e meninos que em um tribunal de justiça, inclusive em um nazista, deveriam ter sido considerados inocentes. Obviamente, essas duas categorias sempre se sobrepõem, e quem pode dizer onde estão os limites claros?”.

www-deviantart-10
Fonte – http://www.deviantart

A Juventude Hitlerista não teve muita sorte – se é possível se dizer assim – com seus dois líderes: Von Schirach (julgado em Nuremberg) e Artur Axmann. “Ambos foram personagens impessoais na maquina nazista e intercambiáveis no que diz respeito à Juventude Hitlerista. Nenhum tinha carisma, eram meros funcionários. Schirach, não muito brilhante, era particularmente vazio, mas com enormes pretensões, mais culturais do que políticas. Axmann ao menos havia lutado na guerra, na frente do Leste, onde foi gravemente ferido e teve o braço direito amputado”.

O líder das Juventudes Hitlerianas pediu a seus rapazes e moças que defendessem Berlim até o fim: mantiveram abertas as pontes sobre o rio Havel para que escapassem os faisões dourados nazistas, os hierarcas, entre eles o próprios Axmann.

www-deviantart-5
Fonte – http://www.deviantart

Nem toda juventude alemã seguiu Hitler. Houve dissidentes. Individuais e em grupo. Como os Jovens do Swing, atraídos pelo jazz norte-americano, as gangues (era difícil ser rebelde sem causa na Alemanha nazista) e os integrantes do grupo de resistência da Rosa Branca.

O historiador aborda em profundidade um tema característico da Juventude Hitlerista: o gênero. “Sempre houve no partido nazista duas tendências, uma que queria que as meninas e mulheres fossem colocadas em massa para trabalhar, especialmente em tempo de guerra, e a outra que esperava que se dedicassem a ser amas do lar e paridoras de nazistas. Hitler pertencia ao segundo grupo. Albert Speer e Joseph Goebbels, ao primeiro. Em última instância, Hitler ganhou. Inclusive as mulheres nazistas que se revoltaram contra isso foram rapidamente silenciadas. Assim como as feministas na Juventude Hitlerista. A ala feminina, a BDM – cuja saída militar poderia ser a de ajudantes nos distintos ramos das Forças Armadas -, tinha que obedecer sempre aos membros masculinos, inclusive as líderes”.

www-deviantart-9
Fonte – http://www.deviantart

O assunto do sexo é bastante sinistro.

“Apesar da ideologia oficial que afirmava que as mulheres deveriam ser honradas e que o sexo era só um catalizador necessário para a reprodução eugênica, os nazistas (homens) se aproveitavam de suas posições hierárquicas para explorar sexualmente meninas e mulheres. Na Juventude Hitlerista havia jovens (com energia e libido alta) muitas vezes bonitos (uma boa isca para a luxuria) misturados com uma estrutura autoritária, onde sempre havia alguém que podia mandar e outro que não estava autorizado a dizer que não, a promiscuidade era muito alta”. De fato, o acrônimo da Liga das Meninas Alemãs, BDM, passou a ser lido como Bund Deutscher Matrazen (liga de colchões alemães) ou Bubi Drück Mich (vamos rapaz, me aperte forte).

insert_pic_01_0001
Fonte – http://dachaukz.blogspot.com.br/2011/03/my-own-surrender-to-3rd-us-army-9th-may.html

Qual é o legado da Juventude Hitlerista?

“Depois da guerra, praticamente todo mundo havia feito parte delas e podiam se sentir envergonhados ou culpados, então não se falava do tema. Os de ultradireita são uma exceção, claro”. 

AUTOR – Jacinto Antón

FONTE – http://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/01/internacional/1478025759_957657.html

JOÃO GAMBARRA E A LUTA PELA MEMÓRIA DOS QUE LUTARAM

O responsável pelo TOK DE HISTÓRIA, junto com o Sr. João Gambarra, no monumento aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial em Santa Luzia, Praíba
O responsável pelo TOK DE HISTÓRIA, junto com o Sr. João Gambarra, no monumento aos combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial em Santa Luzia, Paraíba-CLIQUE PARA AMPLIAR AS FOTOS.

Um ex-combatente de 96 anos, que mantém vivo no sertão a memória dos paraibanos que lutaram na Segunda Guerra Mundial 

Junto a Rudolf Thales Diniz Lourenço e German Zaunseder, bons amigos que gostam de história, estivemos recentemente no sertão da Paraíba, mais precisamente na cidade de Santa Luzia, também conhecida tradicionalmente como Santa Luzia do Sabugy, onde conhecemos um ser humano muito especial.

Através da minha querida prima Fátima Cavalcanti, respeitada odontóloga que residente em João Pessoa, conseguimos chegar ao Senhor João Bezerra da Nóbrega Gambarra, um odontólogo aposentado, muito respeitado profissionalmente na sua terra e nascido no longínquo ano de 1919.

Rostand Medeiros, Seu João e Dona Dagmar
Rostand Medeiros, Seu João e Dona Dagmar

Verdadeira memória da viva da sua região, tivemos o privilégio e a honra de sermos muito bem recebidos em sua casa, onde ele e sua esposa, Dona Dagmar, foram de extrema cortesia e atenção.

Junto a Seu João conversamos algumas horas sobre a história do nosso sertão nordestino, o cangaço na Paraíba, as antigas revoluções ocorridas na primeira metade do século XX e a Segunda Guerra Mundial.

O interessante foi que descobri que seu pai, o vaqueiro José Alves Bezerra, no início do século XX negociava gado entre a Paraíba e a região do Seridó Potiguar (Santa Luzia é próxima a fronteira do Rio Grande do Norte). José Alves também trazia gado do distante Piauí, percorrendo antigos caminhos coloniais, aonde seus negócios chegavam a alcançar a região da Serra da Rajada, próximo ao Rio Carnaúba e da pequena vila homônima ao rio. Ali mantinha negócios e tinha amizade com o fazendeiro Joaquim Paulino de Medeiros, conhecido como coronel Quincó da Ramada e meu bisavô. Através de Seu João soube interessantes detalhes do ataque que a minha família sofreu de cangaceiros supostamente comandados por Chico Pereira, no dia 1 de fevereiro de 1927, na Fazenda Rajada, município de Acari. O papo rolou solto!

O amigo German Zaunseder, argentino de Buenos Aires e descendente de alemães, conhecendo o sertão potiguar. Ao fundo a Serra da Rajada.
O amigo German Zaunseder, argentino de Buenos Aires e descendente de alemães, conhecendo o sertão potiguar. Ao fundo a Serra da Rajada.

Já em relação a segunda Guerra Mundial Seu João contou que foi o terceiro sargento Gambarra, lotado entre os anos de 1942 e 1945 no 40º Batalhão de Caçadores da cidade de Campina Grande. Ele não seguiu para a Itália com a FEB – Força Expedicionária Brasileira, mas vivenciou a partida de amigos e a tristeza da perda de alguns deles em combate. Esteve vigilante nas nossas praias, patrulhando extensas faixas do então praticamente deserto litoral paraibano.

Mas o fato mais intenso e relevante da nossa visita foi quando Seu João, com extremo orgulho e satisfação, levou os três amantes da história vindos de Natal até o monumento existente em sua cidade para honrar a memória dos ex-combatentes paraibanos que participaram da Segunda Guerra Mundial.

Localizado as margens da BR-230, que corta toda Paraíba de lesta a oeste, o monumento impressiona bela beleza e singeleza. Encimado por três grandes pilares retangulares que sustentam uma grande coluna, possui no alto uma estátua que representa um combatente brasileiro da Segunda Guerra. Nos três pilares que servem de base estão os nomes dos paraibanos que seguiram para a Itália e dos que protegeram nosso litoral, além dos símbolos da FEB e do 5º Exército dos Estados Unidos. Não faltam os nomes daqueles que participaram do conselho gestor para a existência deste monumento, entre eles está o nome de João Gambarra. Foi uma visita muito especial.

German, Rudolf e Seu João no monumento de Santa Luzia
German, Rudolf e Seu João no monumento de Santa Luzia

Após o fim da guerra Seu João estudou em Recife, onde se formou em odontologia. Foi amigo de turma do respeitado odontólogo potiguar Sólon Galvão.

O Seu João Gambarra é sempre prestigiado pelo Exército Brasileiro
O Seu João Gambarra é sempre prestigiado pelo Exército Brasileiro

Seu João é um homem que possui uma lucidez, uma vitalidade e um prazer pela vida que são fantásticos!

Rijo, lúcido, ativo, seus olhos brilham ao relembrar o passado. Ao lembrar-se do velho sertão que não existe mais, da época da guerra e dos que partiram. Mas Seu João vive a vida cada momento intensamente, onde memorizar este passado não é um peso, mas uma satisfação. Uma satisfação que ele faz questão de dividir, principalmente com os mais jovens. Mas ele se entristece ao comentar que atualmente poucos se interessam pela história.

Rudolf junto ao AT-26 Xavante da FAB, espetado em Parelhas, Rio Grande do Norte, ao lado da Igreja de São Sebastião
Rudolf junto ao AT-26 Xavante da FAB, espetado em Parelhas, Rio Grande do Norte, ao lado da Igreja de São Sebastião

Espero na minha vida poder encontrar outras pessoas como João Gambarra.

Um encontro destes não seria tão especial se não tivesse ao meu lado amigos que também gostam de história. Rudolf Lourenço é paraibano de Campina Grande, radicado em Natal, estudou economia na UFRN, é casado com a minha amiga Erika Leite e possui um grande interesse na história Segunda Guerra por influência de seu pai Josemar Lourenço da Silva, tenente da reserva da FAB.

Já German Zaunseder é argentino de Buenos Aires, estudou direito na Universadad Federal de Buenos Aires, reside em Natal há seis anos, é casado com uma potiguar, tem um filho de quatro anos e um grande interesse na história da Segunda Guerra Mundial por razões pessoais. Sua família é originária da Bavária, mas emigrou para a cidade de Duseldorff, onde nasceu seu tataravô Siegfredo.

1Gambarra (7)

Por uma razão que German desconhece, seu tataravô colocou em um dos seus filhos o nome muito pouco germânico de Antônio Zaunseder, avô do nosso amigo. Fugindo da crise que se abateu sobre a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, a família Zaunseder emigrou para a Argentina no início da década de 1920. Mas em 1939 os homens em idade de servirem as forças armadas de Hitler retornaram ao país de origem para lutar na guerra. Segundo German os irmãos do seu avô morreram em combate, mas Antônio sobreviveu, falecendo na Alemanha em 1954. Entretanto nosso amigo desconhece como foi a história do seu avô na Wehrmacht.  

A MAIOR MATADORA DE HOMENS – E AÍ, ENCARAVA?

Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko
Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko

Conheça a história da atiradora de elite Lyudmila Pavlichenko. Até o final da Segunda Guerra Mundial esta ucraniana tornou-se a atiradora mais bem sucedida da história, com 309 soldados inimigos mortos

Autor – Rostand Medeiros

É interessante como a extinta União Soviética, um país comunista, não pareceu ter muitos problemas em matéria de igualdade de gênero durante a sua história, em comparação com os países europeus e os Estados Unidos, que promoviam a liberdade e igualdade para todos. Não podemos esquecer que foram os soviéticos que enviaram a primeira astronauta ao espaço exterior no início da década de 1960 (Valentina Tereshkova) e um par de décadas antes, promoveu as suas mulheres para combaterem os invasores nazistas. Aqui temos a história da maior matadora destes inimigos de seu país e, talvez, a mulher que comprovadamente matou mais homens em toda história.

No seu trabalho
No seu trabalho

Pelas fotos que aqui trago eu não posso dizer que a mulher da foto acima, com belos olhos castanhos, um uniforme de corte extremamente masculino e muito condecorada, é alguma grande referência em termos de beleza feminina. Inclusive nas fotos que temos neste artigo podemos ver que esta militar parecia estar até acima do peso. Ou seria o corte do seu uniforme que a deixava cheinha?

c

Mas esta mulher de olhos extremamente luminosos, aparência simples, tranquila e serena, matou mais de três centenas de homens dos exércitos que um dia vieram do oeste e ousaram invadir a sua terra.

3440636120_e1806db797_o

Seu nome era Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko, nasceu na cidade ucraniana de Balaya Tserkov, em 1916, filha de um operário e de uma professora. Na adolescência se mudou para a cidade de Kiev, a capital ucraniana, na época um estado satélite da União das Republicas Socialistas Soviéticas, a URSS. Desta época ela descreveu-se como uma menina “indisciplinada na sala de aula”, mas atleticamente competitiva, e que não se permitiria ser superada por meninos “em nada”.

Neste período a garota participava de um clube de tiro e se deu bem nesta atividade. Mesmo depois de aceitar um emprego em uma fábrica de armas, ela continuou a praticar a sua pontaria. Em 1937 a jovem Lyudmila se matriculou na Universidade de Kiev, onde estudava história com a intenção de tornar-se uma professora.

Os exércitos de Hitler, a Wehrmacht, arrasando a Europa
Os exércitos de Hitler, a Wehrmacht, arrasando a Europa

Mas em junho de 1941, os alemães lançaram  contra a União Soviética a Operação Barbarossa e a garota imediatamente alistou-se na 25ª Divisão de Rifles, começando sua carreira militar como uma simples recruta. No alistamento ela teve que forçar a barra para ser designada como uma franco atiradora, ou “sniper”, pois o pessoal do alistamento, provavelmente levado pela sua aparência, queria que ela fosse enfermeira.

Lyudmila em ação.
Lyudmila em ação.

No seu primeiro dia no campo de batalha ela estava em uma posição próxima ao inimigo e ficou paralisada de medo. Incapaz de levantar a sua arma, um rifle M1891/30 Mosin Nagant, de 7,62 mm. Um jovem soldado russo ficou ao seu lado na sua posição de tiro. Mas antes que eles tivessem a chance de estabelecer seus alvos, um tiro ecoou e uma bala alemã tirou a vida de seu camarada. Lyudmila ficou chocada. “Ele era um bom menino e tão feliz”, ela lembrou. “Ele foi morto repentinamente ao meu lado. Depois disso, nada poderia me impedir”. Em pouco tempo ela registrou suas primeiras vitórias; com precisão matou dois batedores alemães que tentavam reconhecer uma área perto da localidade rural de Belyayevka.

Rifle M1891/30 Mosin Nagant, de 7,62 mm, similar ao utilizado pela atiradora de elite
Rifle M1891/30 Mosin Nagant, de 7,62 mm, similar ao utilizado pela atiradora de elite

A jovem soldado lutou tanto na região de Odessa e na Moldávia, onde acumulou a maioria de suas mortes. Extremamente seletiva, como toda mulher deve ser, Lyudmila tinha uma enorme preferência por homens que utilizavam no peito e nos ombros muitas fitas, condecorações e outros penduricalhos que os oficiais militares se ornamentam para mostrar a sua bravura em combate. Consta que mais de 100 oficiais nazistas pagaram com a vida por andar com estes prêmios diante da mira telescópica do rifle de Lyudmila.

Ela se tornou um dos mais de 2.000 atiradores de elite do sexo feminino no Exército Vermelho, dos quais apenas cerca de 500 sobreviveram à guerra. Creio que não vale nem a pena descrever o que os nazistas faziam com as atiradoras que eles capturavam vivas!

Um atirador de elite alemão. Igal a este Lyudmila matou 36.
Um atirador de elite alemão. Igual a este Lyudmila matou 36.

Como a contagem de homens mortos pela ucraniana só crescia, ela recebeu mais e mais missões perigosas, incluindo a mais arriscada de todas – o duelo à distância com franco-atiradores inimigos. Lyudmila Pavlichenko nunca perdeu um único embate contra seus opositores, matando 36 atiradores em caçadas que poderia durar todo um dia e uma noite. Em um caso o duelo durou três dias.

d

Sobre este caso em particular ela comentou que “Essa foi uma das experiências mais tensas da minha vida”. É  interessante ver como esta jovem teve resistência e força de vontade que a levou a ficar 15 ou 20 horas deitada, mantendo a calma, silêncio e o sangue frio necessário para apertar o gatilho no momento certo. “Finalmente”, disse ela sobre seu perseguidor nazista, “ele fez um movimento e atirei”. Um a menos!

cm_snipessegundaguerra_15

Quando os alemães ganharam o controle de Odessa, sua unidade foi enviada para a região da cidade de Sevastopol, ou Sebastopol, ao sul da península da Criméia, onde Lyudmila passou oito meses de intensos combates.

Em maio de 1942 ela já tinha alcançado o posto de tenente, quando foi citada pelo Conselho do Exército do Sul por ter matado 257 soldados alemães, incluindo 187 em seus primeiros 75 dias neste estranho trabalho para uma mulher.

68f49caa-7d05-45d1-8657-ad6720d6f1d4

Seu total de mortes confirmadas durante a Segunda Guerra Mundial foi de 309. Também deve ser notado que o número real de inimigos abatidos por Lyudmila foi, provavelmente, muito mais do que os 309 confirmados por testemunhas. Historiadores acreditam que esta mulher pode ter matado mais de 500 inimigos.

Lyudmila foi ferida em quatro ocasiões distintas. A mais grave ocorreu em junho de 1942, quando sua posição de tiro foi bombardeada por fogo de morteiros e ela recebeu estilhaços no rosto.

Lyudmila com a Primeira Dama dos Estados Unidos, a Sra. Eleanor Roosevelt
Lyudmila com a Primeira Dama dos Estados Unidos, a Sra. Eleanor Roosevelt

Apenas dois meses depois de deixar Sevastopol, a jovem oficial estava nos Estados Unidos, em um trabalho puramente propagandístico. Ela se tornou o primeiro cidadão soviético a ser recebido pelo Presidente Roosevelt na Casa Branca e manteve uma ótima relação com Eleanor Roosevelt, a Primeira Dama.

lyudmila pavlichenko-2

Para a imprensa americana Lyudmila relatou que suas botas negras tinham “Conhecido a sujeira e o sangue de batalha”. Ela deu entrevistas com descrições contundentes de seu dia como uma franco atiradora. A ucraniana relatava sua odisseia com extrema sinceridade, olhando os repórteres nos olhos, falando com delicadeza, mas de maneira firme e muito orgulhosa em relação aos seus feitos. Matar nazistas, disse ela, não lhe despertou emoções complicadas. Na época afirmou “A única sensação que tenho é a grande satisfação que um caçador sente ao matar um animal de rapina”.

cm_snipessegundaguerra_08

A atiradora fez tanto sucesso na terra de Tio Sam que até mesmo virou “hit” de canção popular. Isso ocorreu quando o músico americano Woody Guthrie gravou uma canção Intitulada “Senhorita Pavlichenko”, em homenagem a durona atiradora de olhos suaves. Neste país Lyudmila ainda foi agraciada com uma pistola Colt calibre 45, com gravações exclusivas de sua visita, e um rifle Winchester 70. O último dos quais pode ser visto em Moscou, no Museu Central das Forças Armadas.

cm_snipessegundaguerra_10

Tendo alcançado o posto de major, Lyudmila nunca mais voltou a combater, mas tornou-se instrutora de franco atiradores soviéticos até o fim da guerra. Em 1943, ela foi premiada com a Estrela de Ouro de Herói da União Soviética.

Pav-Stamp

Lyudmila Mykhailvna Pavlichenko foi destaque em dois selos postais comemorativos na União Soviética depois da guerra (um deles trago ao lado). Ela terminou um mestrado em história na Universidade de Kiev, foi ativa no comitê soviético de veteranos de guerra e, entre outras coisas, trabalhou como assistente de pesquisa na sede da marinha soviética.

Morreu em 10 de outubro de 1974, aos 58 anos de idade.

Apesar do número elevado de mortos, não podemos esquecer que esta mulher era apenas uma militar em combate, nunca foi uma “serial killer”. Ela cumpria seu dever de defender seu país, que havia sido invadido e, como em todas as guerras, se espera que os militares matem o maior número de invasores inimigos.

Ou alguém acha que por ser mulher ela não poderia cumprir a sua missão?

NOTA  – Todos os direitos reservados

É permitida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de
comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte e o autor.

PRISIONEIROS ALEMÃES DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL CONSTRUÍRAM BAIRRO NOBRE DE GOIÂNIA

Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944
Prisioneiros alemães capturados por tropas norte americanas, em junho de 1944

Protocolo assinado entre governos goiano e inglês resultou na vinda de 50 oficiais das Forças Armadas alemãs aprisionados no Reino Unido para Goiás. Supostos nazistas teriam desenhado planta urbanística ao estilo alemão

Autor – Frederico Vitor

Não é segredo que de­pois da derrocada da Alemanha nazista do ditador Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), dezenas de partidários do nacional-socialismo — Partido Nazista —, a maioria criminosos de guerra e genocidas, se refugiaram na América Latina. Muito deles se esconderam na Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil. Porém é pouco conhecida a história de uma leva de oficiais da Wehrmacht — forças armadas da Alemanha hitlerista — que desembarcou em Goiânia. Mais desconhecido ainda — e surpreendente — é que eles teriam desenhado a planta e construíram as avenidas e ruas do que é hoje o Setor Jaó, bairro nobre da capital goiana.

Tal história, que é rodeada de enigmas e muito segredo, não é muito explorada pelos historiadores locais. Contudo é fato que 50 prisioneiros alemães vieram do Reino Unido para Goiás em 1947, durante a administração do governador Jerô­ni­mo Coimbra Bueno.

Prisioneiros alemães ajudando na colheita em solo britânico. Existiram 1.026 campos de prisioneiros na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial – Foto - Hulton Archive/Getty Images
Prisioneiros alemães ajudando na colheita em solo britânico. Existiram 1.026 campos de prisioneiros na Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial – Foto – Hulton Archive/Getty Images

O início desta fas­cinante saga germânica por terras goia­nas se deu em uma visita do che­fe do Executivo estadual ao em­bai­xador britânico, na sede da embaixada, no imponente palácio localizado na Rua São Clemente, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, que nos anos 40 ainda era capital federal.

Durante a conversa, regada por muito “scotch” — legítimo uísque escocês —, o embaixador pediu ao governador de Goiás um favor um tanto quanto inusitado: acolher no Estado 50 prisioneiros de guerra alemães. Coimbra Bueno, surpreendido e desconcertado com o pedido, elegantemente, teria acatado o desejo do representante inglês no Brasil. Assinado o protocolo junto à embaixada britânica, numa data desconhecida de 1947, um avião que provavelmente pertencia à Royal Air Force (RAF) — Força Aérea Real — aterrissou em Goiânia com os 50 militares alemães a bordo.

Palestra de um oficial inglês, junto a prisioneiros alemães.
Palestra de um oficial inglês, junto a prisioneiros alemães.

Ao desembarcarem da aeronave, um capitão do Exército britânico teria estendido o braço a uma autoridade estadual, passando-lhe um recibo que deveria ser assinado. O documento atestaria ao governo de Vossa Majestade a posse dos prisioneiros alemães por parte do Estado de Goiás. Ao pisarem em solo goiano, os alemães, todos oficiais e de elevado nível intelectual, não vieram apenas com a roupa do corpo. Eles trouxeram malas e demais pertences pessoais que, juntamente com eles, foram transportados para a penitenciária de Goiânia — à época localizada na Avenida Independência, atual área de treinamento da Delegacia de Operações Especiais, Grupo Tático 3 (GT3) da Polícia Civil e antiga Casa de Prisão Provisória (CPP) —, no Centro da capital.

Típico oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial
Típico oficial alemão durante a Segunda Guerra Mundial

Toda a operação de traslado dos europeus até a prisão foi realizada de forma secreta, sem mídia e sem alardes. O vazamento da no­tícia de que o governo de Goiás teria recebido um grupo de prisioneiros “nazistas” poderia se transformar em um grande escândalo, provocaria um alvoroço sem precedentes. Por isso, para não chamar muita atenção e para primar pelo sigilo que o caso exigia, os alemães foram transferidos da penitenciária para a Fazenda Retiro da Interestadual Mercantil S/A, pertencente a José Maga­lhães Pinto, banqueiro e político mi­neiro da antiga UDN, que depois seria go­vernador de Minas Gerais (1961-1966), e principal acionista do então Banco Nacional, uma das maiores instituições bancárias do País.

Surge o Jaó

Coimbra Bueno, formado na Escola Politécnica de Engenharia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1933, especialista em urbanismo, teve a ideia de urbanizar a Fazenda Retiro, às margens do Rio Meia Ponte, que servia de acampamento aos alemães. Magalhães Pinto aprovou a ideia e o governo goiano teria total autonomia nas decisões do projeto. O único pedido do banqueiro foi a denominação das avenidas Pampulha e Belo Horizonte, para homenagear a capital mineira, no que viria ser o Setor Jaó.

Advogado Artur Rios é entusiasta e pesquisador  do assunto: "Estado deve ter lista com o nome dos 50"
Advogado Artur Rios é entusiasta e pesquisador do assunto: “Estado deve ter lista com o nome dos 50”

O advogado e morador do bairro Arthur Rios é um pesquisador do assunto e detém uma cópia da planta original do setor que, provavelmente, teria sido desenhada pelos alemães e assinada pelo engenheiro Tristão Pereira da Fonseca, já que os europeus não tinham registro no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) para tal. Ele conta que os prisioneiros ficavam acampados em barracas às margens do que é hoje a represa Jaó, e eram vigiados pelo Estado. Mais tarde, todos eles empregados pelo loteador, ganhariam a liberdade. “Apresentem o mapa do loteamento a um urbanista brasileiro, vão notar ideias alienígenas para o Brasil em 1947 e 1950”, diz Arthur Rios.

Livres para decidirem como seria o novo bairro, os alemães adotaram o nome Setor Jaó, em alusão a um pássaro comum à região. Eles impuseram os padrões germânicos aos logradouros, com ruas e avenidas largas e encurvadas, com os espaços verdes extremamente valorizados. Com exceção das Avenidas Belo Hori­zon­te e Pam­pulha, os nomes das demais vias começavam o “J” de Jaó, uma característica alemã de não atribuir nomes aos endereços. Esse sistema de nomenclatura também era usado em outras áreas, como por exemplo, nos submarinos na Segunda Guerra Mun­dial. A temida força U-boat sempre denominava os submergíveis de “U” sucedido de frios três dígitos. O mesmo sistema seria adotado para batizar as ruas do recém-criado loteamento de Goiânia, como Rua J-33, por exemplo, e assim em diante.

Soldados ou criminosos?

Mesmo hoje, o traçado do Setor Jaó impressiona. O conceituado arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira, responsável pelo projeto urbano da cidade de Pal­mas, capital do Estado do To­cantins, ao analisar a planta original do Jaó desenhada pelos alemães, afirma que o projeto valoriza o orgânico, ou seja, houve um alto aproveitamento da natureza do local.

O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira ressalta que planta urbanística valorizou o orgânico
O arquiteto e urbanista Luiz Fernando Cruvinel Teixeira ressalta que planta urbanística valorizou o orgânico

“Isso mostra certa diferença do que se fazia antes aqui, embora o Setor Sul seja um dos projetos mais interessantes que eu vejo em Goiânia”, diz. “Essa característica de organicidade do desenho prova que tirou-se partido da natureza. Até hoje os alemães são muito mais ligados à natureza do que nós latinos. Florestas já foram replantadas na Alemanha e o próprio Partido Verde começou por lá.”

Ao término dos trabalhos de loteamento do Setor Jaó, em 1952, os alemães receberam uma recompensa pela colaboração. A maioria foi convidada pelo presidente Juan Domingos Perón a mudar-se para Argen­tina. Outros, por conta própria, foram para São Paulo. Em Goiânia permaneceram apenas três: Werner Sonnenberg, Otto Hoffmann e Paul Boetcher. Pouco se sabe do paradeiro do restante. Possivelmente, os arquivos do Estado de Goiás devem ter a lista com os nomes dos 50. Há a possibilidade real de que alguns deles possam ser de fato nazistas ou criminosos de guerra, da mesma forma que possam ser apenas militares aprisionados pelo inimigo.

A dedução se baseia no fato de que vários genocidas partidários do nacional-socialismo se refugiaram na América do Sul após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Muitos deles foram presos pelo Mossad — serviço secreto israelense — em Buenos Aires e na Patagônia argentina. Uma parte destes fugitivos esteve no Paraguai durante regime do ditador Alfredo Stroessner, e até mesmo no Brasil. O caso mais emblemático foi o de Josef Mengele, morto por afogamento em 1979, em Bertioga, no litoral paulista. O médico alemão, conhecido como “anjo da morte”, foi acusado de ter cometido atrocidades vis contra prisioneiros judeus e ciganos no complexo de Aus­chwitz-Birkenau, campo de concentração operado pelos nazistas no sul da Polônia.

Parque Beija Flor; avenidas curvas e muita área verde ao estilo alemão
Parque Beija Flor; avenidas curvas e muita área verde ao estilo alemão

Mas, nem todos os alemães que lutaram na Segunda Guerra eram partidários do nazifascismo. O advogado Arthur Rios alerta para este detalhe no caso dos 50 prisioneiros germânicos que construíram o Jaó. Ele afirma que o engenheiro Tristão Pereira lhe confidenciou que, naquela época, era vítima de desconfiança de terceiros por não esconder sua admiração e simpatia pela técnica aprimorada dos alemães do Jaó. “A verdade é que a história é contada pelos vencedores e não pelos vencidos. Fica a dúvida se a maioria deste grupo era de nazista ou eram apenas soldados alemães, conhecidos por serem bons cumpridores de ordens.”

Atual planta urbanística do Setor Jaó; bairro idealizado por prisioneiros alemães privilegia área verde do local
Atual planta urbanística do Setor Jaó; bairro idealizado por prisioneiros alemães privilegia área verde do local

O professor de História da Universidade Federal de Goiás (UFG) Luís Sérgio Duarte da Silva ressalta que não há importância se os alemães do Jaó eram ou não nazistas. Para ele, o fundamental é que o fato reforça a história de uma nova cidade que acolhia a todos e que abria novas fronteiras, neste caso, o da imensidão do Brasil Central. “Goiânia foi uma cidade que abrigou comunistas nos anos 30 e 40, Pedro Ludovico os protegia. Agora mais essa notícia de que outro governador trouxe supostos nazistas. Uma característica importante é que o governo, naquela época, trazia qualquer um que pudesse ajudar na construção da cidade.”

Técnicos estrangeiros

Em novembro de 1934, os irmãos Abelardo e Coimbra Bueno, originário de Rio Verde, aceitam a proposta de tocar o projeto de urbanização de Goiânia por meio da empresa Coimbra Bueno & Pena Chaves Ltda. Na década de 40, a empresa trouxe técnicos do exterior para dar continuidade ao projeto, entre eles o engenheiro civil belga Gustav von Aderup, responsável pelos cálculos das estruturas de vários edifícios, como por exemplo, o Cine Teatro Goiânia.

Mapa de Goiânia, mostrando a área onde os alemães trabalharam
Mapa de Goiânia, mostrando a área onde os alemães trabalharam

A empresa dos irmãos Coimbra Bueno também trouxe para seu corpo técnico Salvador Trotta, arquiteto italiano que trabalhou como desenhista na seção de arquitetura. Jan Wladyslaw Kaufer Wisniewski, engenheiro cartógrafo polonês, demarcou o Setor Aeroporto. O engenheiro e sanitarista alemão Werner Sonnemberg, um dos integrantes da leva dos 50 prisioneiros que desenharam o Jaó, foi o responsável pelo projeto de água e esgoto da cidade. O arquiteto e agrimensor alemão Josef Neddermeyer dirigiu a seção técnica de arquitetura e topografia das obras. Stefan Szucs, pintor húngaro, trabalhou no acabamento do Palácio das Esmeraldas, sede do governo goiano.

Desenho urbanístico de Goiânia é do arquiteto e urbanista Atílio Correa Lima sob modelo francês
Desenho urbanístico de Goiânia é do arquiteto e urbanista Atílio Correa Lima sob modelo francês

Em relação ao Setor Jaó, antes de abandonar o projeto de Goiânia, Atílio teria sugerido a utilização da represa para uma base de hidroaviões, comum naquela época, já que o transporte por terra era muito deficiente. Mas, de fato, naquele leito, mais especificamente na cachoeira Jaó, foi construída a primeira usina que produziria eletricidade para a nova capital. A usina começou a ser construída no dia 4 de janeiro de 1935, mas a obra esteve paralisada por longo período por falta de verba até ser inaugurada em 1938.

No dia 3 de abril de 1945, o excesso de chuvas danificou seriamente a estrutura e os equipamentos da usina. Goiânia enfrentou grande período de falta de energia elétrica e a alternativa encontrada foram os geradores particulares. Para suprir a iluminação pública, se usou motor de um submarino alemão. Por breve período, a máquina foi o responsável pela geração de energia que iluminaria as noites da capital. Para que pudesse ser refrigerado, o propulsor foi instalado às margens do córrego Botafogo. Já a usina do Jaó só foi completamente reconstruída em 1947, justamente o ano da chegada dos 50 prisioneiros alemães. Hoje, a construção em que se encontrava o antigo maquinário está completamente abandonada.

Ás alemão trabalhou para o governo goiano e ajudou na construção de Brasília

A relação de Goiás com ex-oficiais alemães que combateram os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, não ficou restrita aos alemães que ajudaram a construir o Setor Jaó.

O alemão Martin Drewes, que combateu na Segunda Guer­ra Mundial como piloto de caça noturno, teve Goiás como primeiro destino em terras brasileiras. No país desde 1949, esteve a serviço do governo estadual em 1951, e trabalhou na aerofotogrametria do Estado, inclusive fez fotos aéreas para a construção de Brasília. Sua carreira começou no Exército alemão, teve breve passagem pela divisão Panzer — regimento de tanques de guerra —, mas sua vo­cação o levou para a força aérea,  alcançando o posto de major.

Martin Drewes
Martin Drewes

Durante o conflito, o aviador abateu 52 aeronaves aliadas em 235 missões de combate.  Um de seus artilheiros de bordo, Walter Scheer, se tornou presidente da Alemanha Ocidental em 1974. Ele chegou ser prisioneiro dos ingleses na Alemanha ocupada e mudou-se para o Brasil depois da guerra, onde trabalhou como piloto civil. Em sua casa, na cidade catarinense de Blumenau, guardava na parede um telegrama recebido do próprio Hitler, em abril de 1945, que lhe concedia uma das maiores condecorações militares alemãs. Em entrevista à televisão brasileira, Drewes negou-se a comentar sobre a política da época: o nazismo e o holocausto.

O piloto alemão morreu no dia 16 de outubro deste ano, aos 94 anos, por falência múltipla dos órgãos. Viúvo, ele teve uma filha na Alemanha e um filho no Brasil.

Fonte – http://jornalopcao.com.br/posts/reportagens/prisioneiros-alemaes-da-segunda-guerra-mundial-construiram-bairro-nobre-de-goiania#.UnXEDYYjqxI.facebook

P.S. – AGRADEÇO DE CORAÇÃO A AMIGA CARINA DOURADO, O ENVIO DESTE INTERESSANTE MATERIAL. CARINA,  UMA ORGULHOSA FILHA DE GOIÁS, É UMA COMPETENTE E ATENCIOSA JORNALISTA DA TV BRASIL, A QUAL TIVE O PRIVILÉGIO DE PERCORRER, JUNTO COM A SUA COMPETENTE EQUIPE, O CINEGRAFISTA OSVALDO SANTOS E O TÉCNICO ALEXANDRE, OS CAMINHOS DO CANGAÇO PELO NOSSO NORDESTE. VEJAM ESTE TRABALHO NESTE LINK – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/09/11/link-para-o-programa-caminhos-da-reportagem-e-a-rota-do-cangaco-na-tv-brasil/