PROGRAMA DE TURISMO DESENVOLVIDO POR HISTORIADORAS FOCA NO PERÍODO DA ESCRAVATURA NO BRASIL

RIO - Integrante do projeto em frente ao que restou do casarão da fazenda - Divulgação / divulgação Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/design-rio/programa-de-turismo-desenvolvido-por-historiadoras-foca-no-periodo-da-escravatura-no-brasil-17131966#ixzz3iRQQ3p6h  © 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
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PRINCIPAL FERRAMENTA É APLICATIVO QUE VAI INDICAR ENDEREÇOS EMBLEMÁTICOS

Por – SIMONE CÂNDIDA

Fonte – http://oglobo.globo.com/rio/design-rio/programa-de-turismo-desenvolvido-por-historiadoras-foca-no-periodo-da-escravatura-no-brasil-17131966

RIO DE JANEIRO – Há quem prefira apagar da memória qualquer lembrança de que o Brasil — e, mais especificamente, o Rio de Janeiro — foi um dos principais destinos do tráfico de milhões de africanos escravizados, entre os séculos XVI e XIX. E há aqueles que acreditam valer muito a pena revisitar cada capítulo dessa história, recordando não apenas os horrores, mas os casos de resistência da cultura negra ao longo dos séculos. As pesquisadoras e professoras Martha Abreu, Hebe Mattos, ambas da Universidade Federal Fluminense (UFF), e Keila Grinberg, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), fazem parte do segundo grupo.

À frente do projeto Passados Presentes: Memória da Escravidão no Brasil, elas desenvolveram um programa de turismo com foco nesse período da escravatura no país. O objetivo é aproximar os visitantes dos marcos arquitetônicos e culturais que ainda podem ser vistos no Rio (quilombos, senzalas, casas de capoeira), além de permitir que o turista ouça relatos desse passado — contados pelos próprios descendentes de escravos. A principal ferramenta desta viagem que une o ontem e o hoje é um aplicativo que vai indicar endereços emblemáticos, entre eles quatro roteiros especiais.

Mostra no memorial de Pinheiral, cidade que cultiva a dança africana - Divulgação / Divulgação Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/design-rio/programa-de-turismo-desenvolvido-por-historiadoras-foca-no-periodo-da-escravatura-no-brasil-17131966#ixzz3iRQmCTjt  © 1996 - 2015. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.
Mostra no memorial de Pinheiral, cidade que cultiva a dança africana – Divulgação / Divulgação – Fonte – http://oglobo.globo.com/rio/design-rio/programa-de-turismo-desenvolvido-por-historiadoras-foca-no-periodo-da-escravatura-no-brasil

Um deles fica no Centro do Rio e gira em torno do Cais do Valongo (sítio arqueológico encontrado durante as obras de revitalização da Região Portuária) e de todas as marcas do passado escravagista enraizadas na Zona Portuária.

Os outros três destinos levarão o visitante à cidade de Pinheiral (sede do Jongo de Pinheiral), ao Quilombo de São José, na Fazenda São José, em Valença, e ao Quilombo do Bracuí, em Angra dos Reis, um dos portos clandestinos que recebiam escravos quando o tráfico já estava proibido no país. Nesses locais, as pesquisadoras trabalharam com descendentes de escravos e construíram três memoriais permanentes, com exposições multimídias abertas à visitação.

A escavação e a redescoberta do Cais do Valongo, em meio às obras de requalificação da Região Portuária do Rio - Fonte - http://portomaravilha.com.br/conteudo/ccjb.aspx
A escavação e a redescoberta do Cais do Valongo, em meio às obras de requalificação da Região Portuária do Rio – Fonte – http://portomaravilha.com.br/conteudo/ccjb.aspx

— É um projeto acadêmico com dimensão de história pública. O objetivo é fazer com que as pessoas conheçam pessoalmente a história desses lugares, ouvindo os casos, vendo os prédios. Tudo com a ajuda do aplicativo — diz Martha.

APLICATIVO INCENTIVA VISITAÇÃO

Para incentivar a visitação física, as pesquisadoras contaram com a tecnologia. O acesso aos áudios e a algumas pérolas das exposições só será liberado aos visitantes que optarem por ir até lá. Os pontos de interesse histórico estão sinalizados com a logomarca de Passados Presentes e um código QR. O visitante deverá baixar o aplicativo, que será lançado em setembro, e aproximar o celular do código para ter acesso às informações. O software vai apontar 50 locais no estado, 20 deles na capital, além de endereços ligados ao patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, listados no Inventário UFF/Unesco dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e dos Africanos Escravizados no Brasil.

Escravos africanos na segunda metade do século XIX - Fonte - http://arquivo.geledes.org.br/
Escravos africanos na segunda metade do século XIX – Fonte – http://arquivo.geledes.org.br/

— Fizemos esta opção porque não queremos um passeio virtual. O aplicativo tem música, foto, vídeo, mas nada substitui a experiência de ir lá e conhecer aquelas pessoas — comenta Keila.

No dia 26 de julho, foi inaugurado o primeiro memorial, em Pinheiral. Em setembro, será aberto o do Quilombo São José, e em novembro, o do Bracuí. Nas três comunidades, o jongo ainda hoje é dançado.

— O memorial do Pinheiral foi montado junto ao casarão de José de Souza Breves, um dos maiores proprietários de terras e traficantes de escravos do país. O dono da fazenda tinha uma banda de música composta por escravos; na exposição, temos uma foto deles — conta Martha Abreu, acrescentando que a montagem dos trabalhos contou com participação de moradores, descendentes de escravos e do Centro de Referência Afro do Sul Fluminense.

Para a historiadora Hebe Mattos, os roteiros da memória da escravidão se completam.

— Eles são uma narrativa dessa história meio invisível de uma última geração de recém-chegados e uma homenagem aos que não sobreviveram. — diz.

MAIORIA DOS AFRICANOS DO CAIS DO VALONGO

Milhares de africanos desembarcaram no Brasil durante o século XIX. A maioria chegou pelo Cais do Valongo, onde hoje está a Zona Portuária do Rio de Janeiro. Depois de 1831, com a proibição do tráfico de escravos, muitos navios negreiros passaram procurar portos clandestinos do litoral. Um dos mais movimentados ficava junto à antiga fazenda do Bracuí, em Angra dos Reis, onde hoje está o Quilombo do Bracuí (ou Quilombo Santa Rita do Bracuí). O trabalho das historiadoras Martha Abreu, Hebe Mattos, e Keila Grinberg é divulgar estas historias. Além de recorrer a documentos, fotos e publicações, elas contaram com as narrativas dos descendentes de escravos, que dão vida ao memorial.

Obras do binário no Porto do Rio
Obras do binário no Porto do Rio

—Existe uma memória muito forte destas pessoas, principalmente sobre o período que vai do final do tráfico de escravos para o Brasil, desde quando ele ficou ilegal, em 1831, passando pela abolição, e ao longo do seculo XX. — diz Keila Grinberg — Não é um passado distante da gente, é presente. Os descendentes destes africanos estão lá, eles cultuam, eles têm esta memória do final da escravidão — completa.

Para a historiadora, a descoberta do Cais do Valongo deflagrou um sentimento de valorização da cultura negra:

— O Valongo é a ponta de uma iceberg de um movimento muito mais amplo de reconhecimento da identidade negra como algo positivo. Uma das coisas incríveis é a persistência do Jongo, que nestes três grupos que a gente está trabalhando teve um papel muito forte — explica 
Keila Grinberg.

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