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MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL VISITARAM A CIDADE DE RIACHUELO PARA CONHECER A HISTÓRIA DO DESASTRE DE UM HIDROAVIÃO CATALINA OCORRIDO DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

VIERAM IGUALMENTE DEBATER SOBRE AS HOMENAGENS À TRIPULAÇÃO DESSA AERONAVE, QUANDO ESSE EPISÓDIO HISTÓRICO COMPLETARÁ 75 ANOS EM 10 DE MAIO PRÓXIMO.  

Foto de um hidroavião PBY-5A Catalina, do VP-45, junto com militares desse esquadrão de patrulha aérea da Marinha dos Estados Unidos – Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Fonte – Prefeitura Municipal de Riachuelo-RN

Em 29 de março de 2019, estiveram em Riachuelo o diplomata americanos Daniel A. Stewart e funcionário do Consulado Stuart Alan Beechler, do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife.

A Prefeita Mara Cavalcanti junto ao diplomata americano Daniel A. Stewart, do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife- Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Entre os objetivos da visita estava um encontro com a prefeita Mara Cavalcanti para conhecer aspectos gerais o município e buscar detalhes sobre o acidente de um hidroavião modelo PBY-5A Catalina da Marinha dos Estados Unidos, ocorrido em 10 de maio de 1944, em pleno período da Segunda Guerra Mundial.

Nesse dia a quase 75 anos, em um dia bastante nublado, por volta das 3 da tarde, antigos membros da nossa comunidade testemunharam a queda e destruição dessa aeronave a cerca de 20 quilômetros da pequena Riachuelo, onde então viviam cerca de 200 habitantes.

Foto da época da Segunda Guerra Mundial de um hidroavião Catalina, igual ao que se acidentou próximo a Riachuelo– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

No desastre pereceram dez aviadores navais americanos, entre eles o oficial Calder Atkinson, Comandante do esquadrão de patrulha antissubmarino VP-45, que nesse período tinha base em Belém, estado do Pará. Nessa época as forças armadas brasileiras lutavam em conjunto com militares dos Estados Unidos contra as ações beligerantes dos submarinos alemães e italianos no Oceano Atlântico, que atacaram e destruíram vários navios mercantes brasileiros e de outros países. O Catalina do VP-45 que caiu próximo a nossa cidade era uma das aeronaves que participavam das ações de combate.

Outra visão de um Catalina– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Em meio aos destroços foram encontrados os corpos desfigurados do Comandante Calder Atkinson e nove outros tripulantes. Mesmo diante do quadro sinistro, os nossos antepassados tiveram todo o cuidado para trazer esses restos mortais para o cemitério da cidade, onde foram enterrados com todo o respeito, dignidade e atenção.

Foto do Comandante Calder Atkinson, que pereceu na queda do Catalina em 10 de maio de 1944– Fonte – NARA – através do pesquisador Rostand Medeiros.

Essa atitude honrada do povo riachuelense chamou à atenção de Daniel Stewart e Stuart Beechler, que informaram que o Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife vai participar das homenagens planejadas pela nossa administração municipal para marcar os 75 anos desse episódio. Nessa ocasião estará presente em nossa cidade o Sr. John Barrett, atual Cônsul Geral dos Estados Unidos na capital pernambucana.

Os visitantes que estiveram em Riachuelo. Da esquerda para a direita vemos os Srs.
Stuart Alan Beechler e Daniel A. Stewart , do Consulado Geral dos Estados Unidos em Recife, seguido de Rostand Medeiros , escrito e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e o Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Além dos membros dessa representação diplomática e do executivo municipal, vão participar das homenagens a Marinha do Brasil, que estará presente com a Banda de Música do Corpo de Fuzileiros Navais e uma representação oficial do Terceiro Distrito Naval de Natal. Apoiando esse importante intercâmbio entre a Marinha e a Prefeitura de Riachuelo, contamos com a inestimável participação do Capitão de Mar e Guerra Fuzileiro Naval (R.R.) Edison Nonato de Faria, que também esteve junto aos americanos na visita a nossa cidade.

Reunião dos visitantes junto com a Prefeita Mara Cavalcanti – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Esse episódio histórico é bastante conhecido dos habitantes da nossa comunidade. Mas recentemente o escritor e pesquisador Rostand Medeiros, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN esteve em Riachuelo em busca de maiores informações sobre o acidente. Esse pesquisador desejava conseguir mais subsídios para o desenvolvimento de um livro sobre a Segunda Guerra no Rio Grande do Norte. Na realização dessa pesquisa Rostand Medeiros contou com o apoio de Aílton de Freitas Macedo, Secretário de Administração de Riachuelo, que buscou ajudar com todas as informações possíveis.

O Secretário de Administração Aílton Freitas apresentando um dos possíveis locais para a realização do evento dia 10 de maio– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Uma das últimas testemunhas diretas desse episódio é o Sr. José Lourenço Filho, que foi entrevistado, como também moradores da zona rural e sítios da região. O resultado dessa pesquisa é um dos capítulos do livro “Sobrevoo – Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, lançado em 2 de abril do corrente na sede estadual do SEBRAE-RN, que apoiou a confecção dessa obra.

Livro onde está inserido o episódio da queda dessa aeronave próximo a Riachuelo em 1944. Segundo Rostand Medeiros esse livro faz parte da coleção “A participação do Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial”, coleção de três livros produzida pela editora Caravela Selo Cultural e apoio do SEBRAE-RN. Fazem parte dessa coleção os livros “A engenharia norte-americana em Natal na Segunda Guerra Mundial”, de Leonardo Dantas de Oliveira, Osvaldo Pires de Souza e Giovanni Maciel de Araújo Silva., além da obra “Observações sobre a Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, reunindo artigos científicos e organizados pelo escritor e editor da Caravela José Correia Torres Neto .

Rostand Medeiros igualmente esteve acompanhando Daniel Stewart e Stuart Beechler nessa visita.

Por volta de oito da manhã eles chegaram à sede da prefeitura, onde mantiveram uma reunião preliminar com a Prefeita Mara Cavalcanti, Secretário de Administração Aílton Freitas e Sara Gardênia, Secretária Adjunta. Nesse contato ficou definido como será a realização do evento de caráter histórico/educativo do próximo dia 10 de maio e foram tratados aspectos como a localização da cerimônia e a participação das entidades envolvidas. Depois os visitantes percorreram vários locais da cidade, seguindo para um encontro com o Sr. José Lourenço Filho, que bastante emocionado recebeu a todos e narrou alguns fatos relativos ao episódio corrido em maio de 1944.

O Sr. José Lourenço Filho rememorando para os americanos o episódio de 10 de maio de 1944
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Depois a comitiva seguiu para o Cemitério Municipal, onde os funcionários americanos desejaram conhecer o local onde foram depositados pelos Riachuelenses os restos mortais dos dez aviadores navais. A cova coletiva ficava na área antiga dessa necrópole, junto ao muro da parte posterior desse local. Um dado interessante narrado pelo pesquisador Rostand Medeiros é que na atualidade esses aviadores navais se encontram sepultados em um cemitério militar no estado de Illinois, Estados Unidos, onde seus despojos estão reunidos em um único túmulo, tal como em Riachuelo. 

O grupo de visitantes, tendo à frente o Secretário Aílton Freitas visitando o local onde os aviadores navais do seu país foram enterrados em 1944 – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Antes do grupo seguir para o local onde a aeronave Catalina caiu, de forma surpreendente eles puderam conhecer um objeto original oriundo dos destroços: uma colher de prata com o símbolo da Marinha dos Estados Unidos e bastante conservada. Essa verdadeira relíquia histórica atualmente está de posse de uma família riachuelense, que tem enorme respeito pela peça e a preserva da melhor maneira possível.

Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Na sequência todos seguiram por estradas da zona rural, circulando por áreas que estão recebendo boas chuvas neste ano de 2019. O grupo foi até a área da queda do Catalina, onde debateram aspectos históricos do episódio.

Daniel Stewart , Stuart Beechler, Aílton Freitas e Rostand Medeiros na área do desastre do Catalina – Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

No retorno a sede de nossa prefeitura, houve um novo encontro com a Prefeita Mara Cavalcanti e ficaram acertadas várias deliberações para o evento que ocorrerá em 10 de maio próximo.

A Prefeita Mara Cavalcanti recebendo um presente do diplomata Daniel A. Stewart
– Foto – Charles Franklin de Freitas Gois.

Com essa atividade a Prefeitura Municipal de Riachuelo honrará de forma digna a memória dos militares aliados que sacrificaram suas vidas em prol da liberdade, bem como a dos nossos antepassados que souberam com extrema dignidade e atenção conceder a esses aviadores navais o descanso em solo riachuelense.

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MEUS APONTAMENTOS SOBRE A REUNIÃO NO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL DO RN RELATIVA A QUESTÕES LIGADAS A HISTÓRIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM NATAL E PARNAMIRIM

A grande base de Parnamirim Field durante a Segunda Guerra Mundial – Fonte – NARA.

Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Na tarde da última quinta-feira, 14 de março de 2019, ocorreu no prédio anexo da Procuradoria do Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte-MPF-RN, através da ação do seu Núcleo de Cidadania e Ambiental, uma importante e interessante audiência extrajudicial com o objetivo de tratar de assuntos pertinentes ao resgate, preservação e valorização do patrimônio histórico existente em Natal e Parnamirim ligados ao período da Segunda Guerra Mundial.

O Dr. Victor Manoel Mariz, Procurador Federal.

Essa reunião foi provocada pela positiva iniciativa do amigo Ricardo da Silva Tersuliano, do Instituto dos Amigos do Patrimônio Histórico e Artístico Cultural e da Cidadania-IAPHACC, que em 29 de agosto do ano passado deu entrada no MPF-RN com um ofício solicitando a realização de uma audiência para debater temas ligados ao período da Segunda Guerra Mundial. Nesse documento, entre outras coisas, Ricardo sugeriu a criação de um inventário do patrimônio histórico utilizado pelas forças militares estrangeiras e brasileiras que se encontravam sediadas no Rio Grande do Norte durante o conflito, a criação de uma possível rota histórico-turística abrangendo essas edificações, além do tombamento e preservação desse patrimônio.

Em 15 de fevereiro de 2019 recebi um ofício do MPF-RN convidando-me para participar dessa reunião, fato que me trouxe muita satisfação.

Da esquerda para direita Ricardo Tersuliano do IAPHACC, Leonardo Dantas da Fundação Rampa, o autor desse texto e João Hélio do SEBRAE.

Estiveram presentes o vereador Felipe Alves, representando a Câmara de Vereadores de Natal, João Hélio Cavalcanti, Diretor do Serviço de Apoio da Micro e Pequena Empresa do Rio Grande do Norte-SEBRAE, Leonardo Dantas e Augusto Maranhão como representantes da Fundação Rampa, Maximiniano Braga representando a Secretaria Municipal de Turismo, Hélio de Oliveira da Fundação Cultural Capitania das Artes-FUNCARTE, Márcio Alekssander como representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio Grande do Norte-IPHAN/RN, os comandantes Henrique Afonso e João Leal Neto representando o 3º Distrito Naval da Marinha do Brasil, o coronel Tito Tavares como representante da 7ª Brigada de Infantaria Motorizada do Exército Brasileiro, o major Cidney Paiva Ribeiro, a 2º tenente Rosa Célia Gonçalves e a professora Grazielly dos Anjos Fontes representando a ALA-10 da Força Aérea Brasileira, a Procuradora Estadual Majore Madruga representando a Procuradoria Geral do Estado, além de Sérgio W. B. Paiva e Harryson Magalhães como representantes da Fundação José Augusto.   

Participantes.

A audiência foi presidida pelo Procurador Federal Victor Manoel Mariz, que me pareceu uma autoridade do judiciário bastante centrado no desenvolvimento do seu trabalho, além de interessado e preocupado com as questões envolvendo o patrimônio histórico potiguar. Fato esse bastante alvissareiro em uma terra onde eu tenho a impressão que tudo ligado a questões sobre a sua própria história é tratado de forma irresponsável, desleixada e secundária por muitas de suas autoridades.

Inicialmente o Dr. Victor Mariz ressaltou que o MPF-RN não pode interferir de maneira abrangente na execução de políticas públicas, mas informou que esse órgão tem a incumbência constitucional de fomentar o debate e instar o Poder Público a adotar medidas voltadas a conferir proteção aos valores históricos e culturais.

Na sequência o Procurador Federal apontou duas questões que para ele estavam bastante claras: a enorme importância histórica da região de Natal e Parnamirim em relação a história da Segunda Guerra Mundial e o descaso do Poder Público no tocante a valorização e ao resgate da memória desses fatos. Finalizou seus apontamentos iniciais comentando que o objetivo daquela reunião era provocar a ação dos atores interessados nesse tema, que permitisse promover o resgate desse patrimônio histórico, bem como sua valorização.

Depois ocorreram várias manifestações dos presentes, das quais separei as que eu considero as mais relevantes, além da minha própria manifestação perante o Procurador Federal.

Ricardo Tersuliano, do IAPHACC, comentou que o motivo que levou a sua instituição a provocar o MPF-RN foi a percepção que Natal e Parnamirim estão perdendo de maneira célere as suas respectivas identidades históricas em relação à importância que tiveram durante o período da Segunda Guerra. Para ele não existe até o presente momento ações concretas destinadas ao resgate e a preservação desse importante patrimônio histórico.

Já a Procuradora do Estado Majore Madruga comentou que tem visualizado a subutilização do patrimônio histórico do Estado do Rio Grande do Norte, notadamente no âmbito das atividades turísticas. Acrescentou que é preciso conhecer quais das edificações que foram importantes para a época, saber o estado que se encontram e adotar as medidas necessárias para evitar possíveis demolições. 

Procuradora do Estado Majore Madruga e o Dr. Victor.

Os representantes da Fundação Rampa Leonardo Dantas e Augusto Maranhão informaram que essa entidade vem desde 2008 realizando estudos sobre a Segunda Guerra e promovendo ações como o resgate do passeio de Jeep realizado por Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt por Natal e ocorrido em janeiro de 1943. Esse resgate é realizado através de uma interessante encenação histórica pelas ruas da cidade. 

Tripulação de um avião da marinha norte americana do tipo PB4Y-1 LIBERATOR, do esquadrão VPB-107, com base em Natal, Rio Grande do Norte, que patrulhava e caçava submarinos na costa brasileira.

Já João Hélio Cavalcanti, Diretor do Serviço de Apoio da Micro e Pequena Empresa do Rio Grande do Norte-SEBRAE-RN, informou que esta entidade está trabalhando há quatro anos na elaboração de um projeto que tem como tema a importância de Natal no cenário histórico da Segunda Guerra e visa a criação de uma rota turística, onde tanto a Governadora do Estado quanto o Prefeito de Natal tem conhecimento desse projeto.

Como escritor, pesquisador e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte-IHGRN, eu tive a oportunidade de compartilhar minhas experiências com estudos e pesquisas sobre a Segunda Guerra Mundial no meu estado.

Aproveitei a ocasião para ressaltar o positivo trabalho realizado na cidade de Mossoró em relação ao resgate da memória histórica da resistência cívica, efetuada pela sua população em 1927 contra o ataque do bando de cangaceiros de Lampião. Apontei a importância das ações em prol desse projeto e da existência do conhecido Memorial da Resistência como um local que ajudou e vem ajudando a população mossoroense a ampliar a percepção relativa a esse episódio e, consequentemente, valorizar a história da sua cidade.

´Memorial da Resistência, um exemplo de como Mossoró preserva a memória do ataque de Lampião d um exemplo para Natal e Parnamirim.

Como muitos dos presentes afirmaram nessa reunião, eu também endossei que pouco tem sido feito para resgatar e preservar a memória da Segunda Guerra em Natal e Parnamirim, um momento histórico tão intenso e importante dessas duas cidades. Mas na minha fala igualmente eu fiz questão de enaltecer que é primordial a criação de um memorial da Segunda Guerra Mundial em Natal. Como vários comentaram nessa reunião, igualmente apontei que certamente o melhor local para existir esse espaço é o prédio histórico da Rampa, com a sua utilização sendo administrada pela Fundação Rampa.

Não tenho dúvidas que a existência desse espaço será de suma importância para ampliar o conhecimento e a própria valorização sobre esse tema que, mesmo de forma limitada, é referenciado por uma grande parcela da população potiguar.

Inclusive informei situações e problemas pela não existência de um local de memória especializado no período da Segunda Guerra no Rio Grande do Norte e a minha atuação profissional junto ao turismo potiguar. Citei como exemplo que durante o período de grande fluxo de turistas estrangeiros ao Rio Grande do Norte, ocorrido entre o final da década de 1990 e início da década seguinte, quando então desenvolvia atividades laborais como Guia de turismo cadastrado pela EMBRATUR e atendia visitantes oriundos da Península Ibérica, após relatar com detalhes as histórias relativas a Segunda Guerra na nossa região, em algumas ocasiões fui cobrado a apresentar os locais históricos citados, ou algum museu que mostrasse com detalhes o período. Essas situações me causaram constrangimento junto a esses turistas, por ter pouco a apresentar e a inexistência de um museu especializado para a realização de visitas.

Ainda durante a minha fala trouxe para o Dr. Victor Mariz a informação que em junho de 2015 o Dr. João Batista Machado, então Promotor de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte, na época titular da 41ª Promotoria de Justiça da Comarca de Natal, me solicitou a elaboração de um relatório preliminar sobre os locais utilizados pelas forças militares norte-americanas que se encontravam estacionados em Natal durante a Segunda Guerra Mundial. Como resultado desse relatório o Dr. João Batista decidiu organizar uma visita a esses locais, o que efetivamente ocorreu no dia 20 de junho de 2015. Participaram dessa visitação membros do Ministério Público Estadual, do IAPHACC, outras entidades e convidados.     

Convite da 41ª Promotoria de Justiça da Comarca de Natal para a realização das visitas aqui comentadas.

Quando da elaboração do documento apresentado ao Ministério Público Estadual encontrei na bibliografia e fontes existentes a referência de 32 locais utilizados em Natal. Mas como o relatório focava nos pontos utilizados pelos norte-americanos eu listei e detalhei então 17 edificações, as quais foram efetivamente visitadas em 20 de junho de 2015. Quanto aos outros 15 locais os mesmo não foram visitados por não terem sido inseridos no relatório, em razão de possuírem utilizações históricas diversas da focada no objetivo solicitado.

Comprovante da entrega do relatório de 2015.

Por determinação do Dr. Victor Mariz, como uma das deliberações finais dessa reunião, coube a mim e ao amigo Leonardo Dantas ampliar o relatório que entreguei ao Ministério Público Estadual em 2015, coletando todas as informações disponíveis sobre as 32 edificações consideradas interessantes para a época histórica pesquisada. Isso não impede que outros locais sejam apontados como importantes para aquele período histórico e sejam acrescentados a esse novo relatório. Igualmente foi solicitado a outros representantes das entidades presentes na reunião o cumprimento de outras deliberações.

“Sobrevoo-Episódios da Segunda Guerra Mundial no Rio Grande do Norte”, meu quinto e mais novo livro, que faz parte da “Coleção A Participação do RN na Segunda Guerra Mundial”, material que contou com o apoio do SEBRAE-RN para sua elaboração, através do Edital Economia Criativa 2018. Esse livros será lançado no dia 2 de abril de 2019, na sede do SEBRAE de Natal, junto com os livros dos amigos Leonardo Dantas e José Correia Torres Neto.

Junto com o amigo Leonardo Dantas vamos entregar ao MPF-RN o material solicitado. Interessante informar que junto com Leonardo e o amigo José Correia Torres Neto, estamos cada um com um livro na “Coleção A Participação do RN na Segunda Guerra Mundial”, material que contou com o apoio do SEBRAE-RN, através do Edital Economia Criativa 2018. Esses livros serão lançados no dia 2 de abril de 2019, na sede do SEBRAE de Natal.

Acredito que essa reunião foi extremamente positiva, bem como positiva é a ideia do MPF-RN de provocar a ação dos atores interessados nesse tema. Talvez os desdobramentos desse momento possam promover o resgate desse patrimônio histórico, bem como sua valorização. Fico na torcida para que tudo funcione corretamente.

Na tarde da última quinta-feira, 14 de março de 2019, ocorreu no prédio anexo da Procuradoria do Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte-MPF-RN, através da ação do seu Núcleo de Cidadania e Ambiental, uma importante e interessante audiência extrajudicial com o objetivo de tratar de assuntos pertinentes ao resgate, preservação e valorização do patrimônio histórico existente em Natal e Parnamirim ligados ao período da Segunda Guerra Mundial.
No nariz de um PBSY-1 LIBERATOR, em meio a uma pintura de mulher, conhecida como “pin-up art”, o nome da cidade potiguar de Macaíba, escrito na forma antiga.

Entretanto não tenho muitas ilusões sobre uma possível atuação de maior relevância do Poder Público nesse caso. Apesar desse tema ser de alta relevância para a história e memória potiguar, devido a continuada omissão desse mesmo Poder Público, creio que eu tenho direito a não ter ilusões.

MARY DEL PRIORE: ‘A FALTA DE PRESTÍGIO DA HISTÓRIA É HISTÓRICA NO BRASIL’

Image: Firefighters try to extinguish a fire at the National Museum of Brazil in Rio de Janeiro

Para historiadora, responsabilidade de incêndio no Museu Nacional é de toda a sociedade brasileira, que não valoriza sua memória

Fonte – http://port.pravda.ru/news/sociedade/05-09-2018/46236-mary_del_priore-0/

Fotos – Agências nacionais e internacionais.

A falta de interesse pela preservação da memória no Brasil, explícita no incêndio que atingiu o Museu Nacional na noite do domingo 2, é uma característica histórica e cultural da sociedade brasileira.

A analise é da historiadora, pesquisadora e professora Mary del Priore, que lista, entre tanto motivos, a falta de investimentos das autoridades públicas na manutenção e valorização do patrimônio, os maus professores de histórias que não transmitem a paixão sobre o passado para seus alunos, os pais que preferem levar seus filhos ao shopping e não a um museu.

A responsabilidade, diz a professora, é de toda a sociedade, que agora se sensibiliza ao ver um patrimônio depredado. “Todos nós temos que jogar as cinzas do Museu na nossa cabeça. Foi culpa nossa”, disse a Carta Capital nesta segunda-feira 3.

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“Nunca foi valorizado no Brasil o nosso passado, a nossa memória, a disciplina histórica. As faculdades de história, por exemplo, só começam no País no século XX. A falta de prestígio da história é histórica”, afirma.

O edifício que abriga o Museu Nacional e mais de 20 milhões de itens , agora carbonizados, foi palco de momentos cruciais na história do País. Para citar apenas dois, nele foi assinada a declaração da Independência do Brasil e, mais tarde, abrigou a reunião dos republicanos que definiram a primeira Constituição, de 1891. O lugar também guardam as histórias do dia-a-dia de dom João VI, Pedro I e Pedro II

Ainda que tamanho descaso esteja tão enraizada na cultura, Del Priore vê espaço para mudanças. Leia a entrevista a seguir.

Mary del Priore afirma que o descaso com a memória do País é cultural: Qual a dimensão do incêndio do Museu Nacional na sociedade?
Mary Del Priori: Venho batendo muito tempo nessa falta de total interesse pela preservação da memória, que não é uma característica do Rio, é do Brasil todo. A gente está cansado de saber que em Minas Gerais, por exemplo, destroem casarões do século XVIII para fazer estacionamento, fazer supermercado. Mas no Rio de Janeiro eu diria que isso é mais grave, porque obviamente temos uma política feita por canalhas, por ladrões. Se você imaginar que foi gasto fortunas para fazer o Museu do Amanhã quando havia necessidade de restaurar uma série de salas do Museu Nacional, aí você tem uma dimensão de que a preservação dos bens privados é sempre melhor do que dos públicos.

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Nós tivemos antecedentes: o incêndio do MAM [em 1978], que ficou na história; o incêndio da Capela Imperial, que não faz tanto tempo assim. Além disso, temos outros edifícios de patrimônio, como a Santa Casa de Misericórdia, que é um dos edifícios mais antigos da cidade e está totalmente abandonado. A primeira igreja positivista do Brasil, que está sem telhado… Enfim, é a história do descaso não só das autoridades que preferem meter a mão do bolso para roubar, mas sobretudo do cidadão que passa em frente a um monumento, vê o monumento pichado e não se sensibiliza; de roubarem o busto de bronze da praça e não se sensibilizar; de pais que levam os filhos para o shopping no final de semana em vez de fazer uma visita ao Museu. De professores de História – e falo como professora que eu sou – que não transmitem na sala de aula a paixão pela História, pelo passado, pela memória. Tudo isso faz um combustível bastante ruim. Não temos como alimentar a nossa paixão pelo passado.

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CC: Qual era a importância histórica do edifício que abrigava o Museu Nacional?
MP: O caso do Museu Nacional é dramático porque ele é um lugar de memória da história do Império brasileiro. Ele é dado como presente do dia 1º de janeiro de 1819 pelo comerciante Elias Antonio Lopes a dom João, que na época é regente. Mas ele não faz isso gratuitamente. Antonio Lopes, depois, vai receber uma série de títulos: se torna moço-fidalgo da Casa Real, alcaide-mor, também recebe dinheiro.

A partir daí esse espaço vai ter uma função importantíssima. É ali que dom João VI vai receber seus súditos, vai se aproximar de seus súditos brasileiros. Eles vão lá no beija-mão, pedir favores, conhecer aquele que depois será o futuro monarca quando ele ainda é regente. As primeiras transformações arquitetônicas vão sendo feitas também para o casamento do dom Pedro com a Leopoldina, que vai ter nove filhos. É o local onde ela morreu. Na janela desse palácio que dom Pedro vai olhar a casa da marquesa de Santos e vigiar sua amante. É nessa casa que ele vai mandar construir um chafariz enorme, que fosse visto da sala de jantar e também de seus aposentos.

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As maiores reformas são feitas em 1866 pelo dom Pedro II. Ele vai reformar os jardins e fazer uma alameda de sapucaia. Também vai repartir o lago em dois para dar um acesso mais imperial, fazendo uma estrada para os políticos que agora se reúnem com o imperador, na casa dele. É nesses jardins que brincaram a princesa Isabel e a princesa Leopoldina, no mesmo lugar que brincaram suas tias, a princesa Francisca, as princesas Paula e Januaria, catando conchas e fazendo, com cacos de louça, a ornamentação do chamado Jardins das Princesas.

Por tudo isso, é um espaço que não só tem muito da grande história – porque ali que vai ser assinada a declaração da Independência e depois, mais tarde, a reunião dos republicanos para definirem nossa primeira Constituição de 1891 -, mas também é o lugar da pequena história. Isso que é bacana.

Com o incêndio, também perdemos uma loucura de patrimônio. Inclusive o patrimônio que a Dona Tereza Cristina, quando casou com o imperador Dom Pedro II, trouxe que foram os famosos afrescos do Templo de Ísis, que são comentados até por Lord Byron em sua poesia.

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CCÉ possível identificar os responsáveis neste momento?
MP: Acho fácil a gente achar culpados. Espero realmente um laudo para poder dizer o que aconteceu. Dizer que a culpa é do governo federal e que a Cultura sangra no Brasil é fácil, porque não há dinheiro nem para a Saúde, nem para a Segurança. Para trazer dinheiro para a Cultura é preciso fazer reformas, e ninguém quer fazer reformas.

Atribuir [a culpa] só as autoridades é muito fácil. Eu conheço muito diretores de museus, todos eles se matam de trabalhar para conseguir verbas. Há um desinteresse profundo da sociedade civil, mesmo das pessoas que podem, e estou falando aqui nos empresários… Tirando a Fundação Roberto Marinho e o Carlos Lessa, quando presidiu o BNDES, a gente nunca viu dinheiro ser dado para patrimônio.

Nos países civilizados você pode contribuir para o museu com um centavo se você quiser para restauração de um quadro, para a restauração de uma sala. Aqui no Brasil falta a participação da comunidade, da vizinhança, das organizações não-governamentais e digo: dos professores, dos historiadores de todos nós, do cidadão comum.

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CC: A culpa é de todos?
MP: Eu acho. Todos nós temos que jogar as cinzas do Museu na nossa cabeça. Foi culpa nossa.

CC: O Museu está sob os cuidados da esfera federal
MP: O Ministério da Cultura não tem dinheiro e só terá dinheiro se forem feitas as reformas neste País. E antes da Cultura, vem a saúde dos brasileiros que é muito mais importante, obviamente também a questão da segurança. Para nós termos recursos do governo federal é preciso gastar…

CC: Ainda que não se saiba as causas que provocaram o incêndio, era um caso de fazer como o que foi feito no Museu do Ipiranga, em São Paulo? Fechar as portas para reforma?
MP: Sim. E até de chamar a comunidade para participar da restauração com doações, com movimentos. Sem dúvida, teria sido uma solução. A questão toda é que o Museu Nacional recebe uma infinidade. Ele tem toda parte de ciências naturais dentro do museu e ele tem milhares de pesquisadores que fazem tese em suas dependências.

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CC: Você fez críticas ao ensino de História na escolas. O que poderia ser feito para melhorar?
MP: O professor tem que transmitir compaixão à matéria que ele está lecionando. A História é uma matéria que necessita uma forma narrativa, um entusiasmo, passeios e visitas a museus e locais históricos. É preciso transmitir esse amor pela História aos alunos.

Eu digo sempre: o mau professor de história vai fazer um cidadão descomprometido, um cidadão inconsciente. É preciso que o professor de história tenha a consciência também do papel que ele tem na transmissão do conhecimento. Cabe a cada um ser criativo. Vamos inventar maneiras de transmitir o conhecimento histórico de forma séria, porém apaixonado.

CC: Acredita que o incêndio pode ser um divisor de águas nessas questões?
MP: Não acho que seja um divisor de águas. O brasileiro precisa ter mais consideração pelo seu passado, mais respeito pelo seu passado. Infelizmente a televisão transformam os personagens históricos em caricatura, isso também não ajuda. Mas eu acho que isso tem que vir realmente de baixo, não de cima. Porque só de cima e com dinheiro não vai resolver o problema, os museus vão continuar vazios. É preciso que as pessoas entendam que é indo ao museu que elas vão adquirir a cidadania, a memória, a história, o passado, valorizar o seu país. É muito importante que isso venha de baixo.

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CC: A que se deve essa desvalorização da memória no País?
MP: Sempre houve [essa desvalorização]. Nos anos 40, Gilberto Freyre e José Mariano fizeram uma campanha enorme para que houvesse a preservação da memória no momento em estava ocorrendo uma grande renovação em muitos bairros das grandes capitais brasileiras. Naquela ocasião começava-se a substituir bairros inteiros de casas e moradias antigas. Muitos bairros coloniais no Rio de Janeiro, Salvador e Recife foram sendo transformados em bairros de cimento, em um edifício colado ao outro.

Eu, particularmente, acho que o brasileiro gosta do novo pelo novo. Eles querem sempre o novo. Então o velho tem que ser banido, tem que ser jogado fora, tem que ser destruído. Nunca foi valorizado no Brasil o nosso passado, a nossa memória, a disciplina histórica. As faculdades de história, por exemplo, só começam no País no século XX. A falta de prestígio da história é histórica.

CC: É um aspecto cultura?
MP: Sim, e econômico. O Brasil sempre foi um país paupérrimo e a essas de classe subalterna, entre ter uma casa antiga e que tivesse que ser preservada e dava muito trabalho, e uma casa nova, preferiam a última opção. A gente pode pensar nisso, no conforto, na chegada da água, da eletricidade e nessas transformações tecnológicas todas que fizeram com que essas pessoas que não tinham educação privilegiar o novo pelo novo.

CC: É possível mudar essa característica cultural do brasileiro?
MP: Todos nós somos criaturas de cultura, homens e mulheres, e a cultura é uma coisa transformável, não é fixa. Então eu acredito que é possível transformar com muita educação.

INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL NÃO É TRAGÉDIA, MAS FRUTO DE UM PROJETO DE PAÍS

Leonardo Sakamoto – https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/09/03/incendio-do-museu-nacional-nao-e-tragedia-mas-fruto-de-um-projeto-de-pais/

Fotos – theguardian.com, sputniknews.com, ccn.com, upi.com

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O incêndio que consumiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, não pode ser encarado como uma tragédia. Um foco de fogo que destruísse uma obra, mas fosse rapidamente debelado seria uma tragédia. A queima de uma instituição com 200 anos e um acervo de 20 milhões de itens, que não contava com estrutura adequada de prevenção a incêndios, não é um acidente, mas um empreendimento. Um projeto coletivo, pacientemente implementado ao longo do tempo por um Estado e uma sociedade que condenaram seu patrimônio histórico, natural, científico e cultural à inanição. O Brasil talvez acredite que uma instituição como essa diga respeito ao passado e não ao entendimento do presente e, portanto, à construção do futuro. Sua queima não é, consequentemente, apenas fruto das crises econômica e política que minguaram os repasses federais, mas faz parte de uma sistema que atua abertamente para que o país continue ignorante sobre si mesmo e suas possibilidades. Esse projeto coletivo não enxerga barreiras ideológicas e matizes políticos.

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Não começou neste governo (apesar dele ter se esforçado bastante nesse sentido) e nem irá terminar com ele (a PEC do Teto dos Gastos limitou o investimento em áreas como cultura por 20 anos). Pois não se trata apenas de recursos financeiros e vontade. Um fogo que consome um museu inteiro é paradigmático da ausência de um projeto nacional que veja esse patrimônio como subsídio fundamental para a construção de um país melhor. E que, portanto, precisaria ser protegido a qualquer custo. Se assim fosse, haveria recursos para monitorar, conservar e estudar nosso patrimônio da mesma forma que existe para garantir o funcionamento dos mais diversos palácios que hospedam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário pelo país. Até porque representantes políticos vêm e vão, mas nossa história fica. O povo seria o primeiro a ocupar palácios para pedir recursos a museus. Mas parte da população não se sente proprietária e corresponsável pela coisa pública pelos mais diferentes motivos. Empurrada para a franja da cidadania, uma parcela aprendeu que o patrimônio nacional não lhe diz respeito – uma falsa conclusão incutida em suas cabeças cuja reversão depende de um trabalho longo e demorado. 

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Em outro extremo, há quem conheça bem os museus na Europa e nos Estados Unidos, mas conta nos dedos de uma mão o número de instituições brasileiras que já visitou por falta de interesse ou preconceito. Há também os que celebram os estádios superfaturados, mas não perdem o sono se uma fração dos desvios teria trazido alívio à cultura. Desta vez, esse projeto coletivo destruiu o museu mais antigo do país. Mas, em maio de 2010, atingiu o maior e mais importante acervo de espécies de cobras tropicais do, com mais de um século de existência, quando o Instituto Butantan, em São Paulo, pegou fogo. A coleção contava com mais de 80 mil espécimes, além de aranhas e outros animais, muitos dos quais nem haviam sido registrados ainda. Um patrimônio que poderia trazer respostas à biologia e à medicina. Quando a notícia de 2010 correu o mundo, cientistas soaram o alarme – que hoje, assume-se, tinha caráter profético: ”tragédias” semelhantes aconteceriam em outras instituições dada a precariedade da manutenção desses espaços. Hoje, da mesma forma, sem medo de errar, podemos repetir: isso vai voltar a acontecer. 

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A história não se repete mais como farsa, mas como escárnio. Vivemos um momento em que pessoas, sem o mínimo pudor, celebram nas redes sociais a queima do acervo, pois ele contaria uma história mentirosa, que não se encaixa a certas visões de mundo. Claro que são apenas uma (barulhenta) minoria, mas a burrice violenta sempre assusta. Tal qual as pessoas que comemoraram as montanhas de livros queimadas nas praças de diversas cidades da Alemanha nazista em 10 de maio de 1933. Lembrando que burrice não é característica de quem separa sujeito e predicado por vírgula ou não sabe calcular uma raiz quadrada, mas de quem menospreza o conhecimento, chegando a odiar quem o detém ou quem busca seu aprendizado. O burro é aquele que tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre ele próprio. Essas pessoas têm sido essenciais para esse projeto coletivo que destrói o passado para construir um futuro à sua imagem e semelhança. Nesse contexto, é irônico que o reluzente Museu do Amanhã tenha se tornado o centro das atenções da capital carioca – apesar de sua falta de importância relativa, enquanto o guardião da memória brasileira permanecia esquecido na Quinta da Boa Vista.

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Talvez o Museu Nacional, ao se deparar com o momento atual do país, em que o conhecimento científico parece valer menos que achismos e opiniões sem embasamento e no qual fatos históricos são tratados como ”notícias falsas” diante das certezas anônimas e absolutas das redes sociais, tenha simplesmente desistido de resistir. E queimado mais rápido, por conta do desgosto. O problema não resolvido é que, quando alheio à história de sua própria caminhada, o povo não é povo, mas gado. E, como gado, pode ser tocado por qualquer um. Ver esse prédio em chamas pela TV traz a sensação de que somos um amontoado de mugidos difusos que não tem ideia para onde está indo. Tampouco faz questão de saber.

A TRISTE SITUAÇÃO DO RICO ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

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Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Desde 2005 que eu frequento o nosso Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte e desde essa época ele está localizado na antiga sede do extinto supermercado “Superete Queiroz”, na esquina da Avenida Coronel Estevam, antiga Avenida “9”, com a Rua Dr. Alfredo Lyra, no Alecrim.

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Também desde 2005 existe a promessa de mudança do Arquivo para uma sede definitiva, mas nada até o presente momento foi feito. Acompanhei nesta época o trabalho árduo, mas infelizmente infrutífero, do Promotor de Justiça João Batista Machado na busca de uma solução para o local.

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Em agosto de 2017 eu solicitei ao então Diretor da casa, o Professor Claudio Augusto Pinto Galvão, para fotografar alguns exemplares do jornal “A República” para uma pesquisa que atualmente realizo. Durante este trabalho eu testemunhei o esforço do Professor Claudio e dos abnegados funcionários da casa solicitando apoio a Secretaria da Administração do Estado para a solução dos problemas ali existentes. Mas nada vi de solução durante o período que lá estive.

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E que problemas são estes?

Muito mofo, estrutura deficiente, o gesso do teto prestes a cair, falta de pessoal, de material, muitas goteiras que formavam poças na parte interna e outros mais! 

Os problemas são tantos e tão visíveis, que prefiro lhes trazer as fotos que fiz no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte em setembro passado.

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Recentemente o Sobre o Professor Claudio Galvão me enviou um vídeo de uma verdadeira “cachoeira” dentro do Arquivo. A gravação foi realizada recentemente, neste último período de chuvas mais fortes que atingiram Natal agora em fevereiro. 

Veja o vídeo neste link

https://www.youtube.com/watch?v=WcI1Eh0lUL8&feature=youtu.be

 

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Se nada for realmente feito, tudo ali corre perigo.

Às vezes penso que o atual estado do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte é uma ação deliberada de grande parte da classe política do nosso estado. 

Bem eu acredito que todos no Rio Grande do Norte sabem que grande parte da estrutura política potiguar é tradicionalmente formada por oligarquias. Sendo assim, penso que no intuito de evitar que  pesquisadores mostrem através de suas pesquisas históricas os erros dos membros mais velhos destas oligarquias ao longo de sua trajetória política, o melhor era que o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Norte e seu acervo fossem totalmente destruídos.

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Grande parte da memoria estadual, inclusive do judiciário, repousa naquele local. A quantidade de tesouros ali existentes é fenomenal. Creio que a perda deste patrimônio será um duro golpe na memória e na formação do pensamento do povo potiguar sobre sua própria existência.

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Enfim não podemos esquecer que para muitos políticos a melhor maneira de conduzir seus eleitores como se fosse gado, ocorre quando esse povo não tem nenhuma noção sobre a História e a formação do seu lugar, nem como essas pessoas se enquadram no contexto histórico de sua região. Como resultado desse desconhecimento o povo dessa terra acaba por não ter muito orgulho do seu lugar, de suas tradições e de sua herança cultural.

No final esse povo acaba sem saber quem ele realmente é, de onde veio e a razão do porque está aqui.

CERIMÔNIA DE ENTREGA DA MEDALHA DO MÉRITO ACADÊMICO AGNELO ALVES, CONCEDIDA PELA ACADEMIA NORTE RIO GRANDENSE DE LETRAS AO BLOG TOK DE HISTÓRIA

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Rostand Medeiros – Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Na última terça-feira, dia 14 de novembro de 2017, tive a grata satisfação como responsável pelo blog TOK DE HISTÓRIA de está presente na sede da Academia Norte Rio Grandense de Letras para receber a Medalha do Mérito Acadêmico Jornalista Agnelo Alves.

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O nosso veículo digital de propagação de informações históricas recebeu este importante reconhecimento formal na categoria blog, fato que me deixou muito honrado e com uma maravilhosa sensação de dever cumprido.

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Junto aos meus amigos o jornalista José Pinto Junior, igualmente agraciado com a Medalha Agnelo Alves, e Lívio Oliveira, membro da Academia Norte Rio Grandense de Letras.

A indicação entre os acadêmicos para honrar o TOK DE HISTÓRIA com esta medalha partiu do Professor Carlos de Miranda Gomes, a quem só tenho agradecimentos. Fui informado que a ideia de outorgar esta medalha ao nosso blog contou com a unanimidade dos integrantes desta respeitada instituição cultural potiguar, entre estes os amigos Iaperi Araújo e Lívio Oliveira, a amiga Leide Câmara, além do Presidente Diógenes da Cunha Lima, a quem tive o privilégio de receber dele uma acolhida muito carinhosa.

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Junto ao Professor e advogado Carlos de Miranda Gomes. Só agradecimentos pela indicação do nosso blog TOK DE HISTÓRIA para receber essa honraria.

O fato dos membros da tradicional Academia Norte Rio Grandense de Letras outorgarem ao blog TOK DE HISTÓRIA esta honraria demonstra como seus integrantes observam com atenção o mundo digital e as infinitas possibilidades de divulgação e acesso as informações que as ferramentas digitais proporcionam. Para mim isso ficou bem claro no discurso de boas vindas proferido a todos os agraciados pelo Presidente Diógenes da Cunha Lima quando elencou os atuais feitos, as conquistas e a atuação desta casa em prol da nossa memória e cultura.

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Junto ao Presidente da Academia Norte Rio Grandense de Letras Diógenes da Cunha Lima.

E vale ressaltar essa instituição não tem uma História curta. No mesmo dia em que eu recebi essa medalha, a Academia Norte Rio Grandense de Letras comemorava 81 anos de criação.

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Jornal natalense “A República”, de 15 de novembro de 1936.

Nos meus arquivos guardo uma cópia fotografada do jornal natalense “A República”, de 15 de novembro de 1936, um domingo, noticiando que no dia anterior, na sede do Instituto de Música do Rio Grande do Norte havia ocorrido a primeira reunião oficial da Academia Norte Rio Grandense de Letras.

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Recebendo essa honraria dos Acadêmicos Carlos Gomes e do amigo Iaperi Araújo.

Neste encontro histórico foi lido e aprovado, com algumas pequenas alterações, os estatuto da nova Academia de Letras, elaborados pelo acadêmico Mathias Maciel, além da votação para a escolha da sua primeira diretoria.

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Agraciados e membros da da Academia Norte Rio Grandense de Letras.

Entre os escolhidos para dirigir a nova instituição pela primeira vez figuraram Henrique Castriciano de Souza – Presidente, Luiz da Câmara Cascudo – Secretário Geral, Edgar Ferreira Barbosa – 1° Secretário, Aderbal de França – 2° Secretário e Clementino Hermógenes da Silva Câmara – Tesoureiro.

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Junto ao amigo Ormuz Barbalho Simonetti, digno e esforçado Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, instituição a qual sou sócio efetivo com muito orgulho.

Na sequência foram oficialmente criadas três comissões acadêmicas, sendo estas as do regimento interno, a de contas e a que deveria criar a revista da instituição, até hoje editada. Para finalizar ficou decidido que a próxima reunião da Academia seria dedicada a escolha dos patronos da instituição, escolhidos entre norte rio grandenses ilustres já falecidos.

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Com a amiga de todas as horas Isa Cristina.

No seu estatuto, no seu Artigo 1°, está descrito de forma simples e direta a que fins se destinava aquela nova instituição cultural – “A cultura da língua e da literatura nacional, especialmente a do Rio Grande do Norte”.

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Com meu querido tio Joaquim Paulino de Medeiros Neto. Dois descendentes do Coronel Quincó, lá do pé da Serra da Rajada, do Sertão do Seridó.

O fato desta primeira reunião da Academia de Letras haver sido realizada no Instituto de Música do Rio Grande do Norte, além da inexistência da sede da Academia na Rua Mipibu, 443, acredito que teve ligação com o fato da instituição dirigida na época pelo Maestro Waldemar de Almeida e ter uma intensa movimentação musical e cultura que agitava a cidade e congregava os que se dedicavam a cultura potiguar.

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Nosso grande amigo Ricardo Sávio Trigueiro de Morais presente na cerimônia.

Ao tomar conhecimento desta rica História não posso deixar de comentar o quanto me senti feliz e realizado ao receber esta Medalha do Mérito Acadêmico Jornalista Agnelo Alves.

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É antes de tudo um grande estímulo para continuar propagando através do TOK DE HISTÓRIA interessantes episódios do passado, tendo sempre como foco a ideia de democratizar para o maior número possível de pessoas essas informações.

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O BLOG TOK DE HISTÓRIA FOI AGRACIADO COM MEDALHA DA ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS

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Aos amigos e amigas, o nosso blog TOK DE HISTÓRIA foi agraciado com a MEDALHA DO MÉRITO ACADÊMICO AGNELO ALVES pela ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LETRAS, na categoria blog.

É um reconhecimento maravilhoso desse projeto, pautado na ideia da democratização da informação histórica.

Muito feliz.

Um forte abraço a todos.

Rostand Medeiros