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1921 – OS PRIMÓRDIOS DA SAGA DE LAMPIÃO

O cangaceiro Lampião nos primeiros momentos de sua vida no Cangaço.

AINDA VIVE O HOME M QUE EM 1921 SEPULTOU O PAI DE LAMPIÃO

Diário de Pernambuco , 29 de março de 1973, Terceiro Caderno, Página 3.

Pesquisa – Tadeu Rocha / Fotos José Valdério

Diário de Pernambuco, 29 de março de 1973, Terceiro Caderno, Página 3.

Num velho casarão alpendrado de uma fazenda sertaneja, em plena caatinga pernambucana do Município de Itaíba reside o ancião Maurício Vieira de Barros, que em maio de 1921 sepultou o pai de Lampião, morto por uma força volante da Policia alagoana. Nos seus bem vividos e muito sofridos 86 anos de idade, ele viu e também fez muita coisa, por esse Nordeste das caatingas e das secas, dos beatos e dos cangaceiros, dos soldados de verdade e dos coronéis da extinta Guarda Nacional.

O Sr. Maurício Vieira de Barros nasceu em 2 de abril de 1886, Na casa dos seus 30 anos, foi Subcomissário de Polícia no Estado de Alagoas e, na dos 40, chegou ao posto de Sargento na Polícia Militar de Pernambuco. Depois, respondeu a dois júris por excesso de autoridade e, desde 1955, está vivendo uma velhice descansada no Sítio dos Meios, em companhia de sua filha Dona Jocelina Cavalcanti de Barros Freire.

Se não fossem as ouças, que já estão fracas, o velho Maurício não aparentaria os seus quase 87 anos, pois ainda caminha com passo firme e guarda boa lembrança dos fatos de sua mocidade e maturidade. Ele é, agora, a derradeira testemunha viva do início de uma tragédia sertaneja: a transformação do cangaceiro manso Virgulino Ferreira em bandido profissional que convulsionaria os sertões nordestinos durante 17 anos.

Casa do Sítio do Meio em 1973.

UM ATOR NO PROSCÊNIO

A primeira indicação do Sr. Maurício Vieira de Barros como a autoridade policial que sepultou o pai de Lampião nos foi dada, há mais de 20 anos, pelo Major Optato Gueiros, no segundo capítulo do seu livro sobre Virgulino Ferreira. O autor das “Memórias de um oficial ex-comandante de forças volantes” ouviu o relato da morte de José Ferreira da boca do próprio Virgulino, nos começos da década de 1920, quando Lampião ainda era um simples cabra de Sinhô Pereira. Optato Gueiros também informa que, anos mais tarde, Lampião poupou a vida de Maurício, no povoado de Mariana, em gratidão pelo sepultamento de seu pai.

Maurício Vieira de Barros sendo entrevistado pelo professor e escritor Tadeu Rocha e acompanhado de Bruno Rocha.

Nos meados de dezembro do ano passado, após concluirmos que não foi feito, absolutamente, o registro dos óbitos de Sinhô Fragoso e do pai de Lampião (mortos na primeira “diligência” da volante do Tenente Lucena), julgamos necessário ouvir o Sr. Maurício Vieira de Barros, que nos constou ainda estar vivo e residir para os lados das cidades de Águas Belas ou Buíque. Somente o antigo policial que sepultou os dois cadáveres poderia revelar-nos a data precisa da morte de José Ferreira.

NO RASTO DA TESTEMUNHA

Após consultarmos inúmeras pessoas sobre o paradeiro do ancião Maurício de Barros, afinal soubemos do Sr. Audálio Tenório de Albuquerque que esse seu compadre estava morando na fazenda Sítio dos Meios, no Município de Itaíba. Rumando para Águas Belas, entramos em contato com os nossos parentes do clã dos Cardosos, entre os quais fomos encontrar o jovem veterinário Ricardo Gueiros Cavalcanti, neto do velho Maurício, por parte de pai.

Notícia do ataque dos cangaceiro ao lugar Pariconha em 1921, hoje município alagoano distante 354 km de Maceió.

Na tarde quente do dia 17 de janeiro, em companhia do veterinário Ricardo Gueiros Cavalcanti, do fotógrafo José Valdério e do jovem estudante Bruno Rocha, deixamos a cidade de Águas Belas pela rodovia PE—300, na direção de Itaíba. Após cruzarmos o rio Ipanema e o riacho Craíbas. Pegamos uma estrada vicinal, por onde atingimos, dificilmente, o Sítio dos Meios, a uns 2.5 km de Águas Belas, a outros tantos de Itaíba e a 9 da cidade alagoana de Ouro Branco.

Fomos encontrar o velho Maurício no alpendre do casarão da fazenda de sua filha, jovialmente vestido de blusão de mangas compridas c calçado com sandálias havaianas. A presença do seu neto Ricardo e a delicadeza de sua filha Dona Jocelina permitiram-nos conversar longamente com o Sr. Maurício Vieira de Barros. O fotógrafo Jose Valdério documentou a nossa visita e o estudante Bruno Rocha gravou a nossa conversa.

Lampião nos primeiros anos.

SUBCOMISSÁRIO SEPULTA DOIS MORTOS

O Sr. Maurício Vieira de Barros  já exercia o cargo de Subcomissário de Polícia da cidade de Mata Grande, em maio de 1921, quando o Bacharel Augusto Galvão, Secretário do Interior e Justiça de Alagoas na segunda administração do Governador Fernandes Lima, enviou ao sertão uma força volante da Polícia, sob o comando do 2º Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, a fim de dar combate ao banditismo. Antes que essa força chegasse ao sertão, os cangaceiros saquearam o povoado de Pariconha, na tarde de 9 de maio. Logo que a volante do Tenente Lucena atingiu seu destino, cuidou de prender os participantes desse saque, entre os quais estavam os irmãos Fragoso e os irmãos Ferreira, residentes no lugar Engenho Velho. A volante cercou a casa dos Fragoso e do tiroteio resultou a morte de José Ferreira e Sinhô Fragoso, ficando baleado Zeca Fragoso e saindo ileso Luís Fragoso.

Avisado em Mata Grande das mortes ocorridas no Engenho Velho, o Subcomissário Maurício de Barros dirigiu-se a esse lugar e fez transportar, em redes, os dois cadáveres para a povoação de Santa Cruz do Deserto, em cujo o cemitério os sepultou. O fato de José Ferreira e Sinhô Fragoso terem sidos deixados mortos por uma “diligência” da Polícia Militar de Alagoas levou o Subcomissário de Mata Grande a enterrá-los no cemitério mais próximo.

DATA DA MORTE DO PAI DE LAMPIÃO

Na breve história de 17 anos, qual foi a do cangaceiro Virgulino Ferreira (que se fez bandido profissional em 1921 e foi eliminado em 1938), existem erros de datas de mais de um ano, como no caso da morte de seu pai pela volante do Tenente Lucena. Tem-se escrito que esse fato aconteceu em abril de 1920, o que não corresponde, em absoluto, à verdade histórica.

Ao que apuramos no Arquivo Público e Instituto Histórico de Alagoas, 2º Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão foi nomeado Comissário de Polícia da cidade alagoana de Viçosa em 10 de abril de 1920, assumiu o exercício do cargo logo no dia 15 e permaneceu nessa comissão até princípios de maio do ano seguinte. Ele ainda assinou ofício na qualidade de Comissário de Viçosa em 28 de abril de 1921. No dia 4 de maio esteve no Palácio do Governo, em Maceió. E no dia 10 desse mês, deixava Palmeira dos índios “com destino ao sertão”, estando “acompanhado de um contingente de 24 praças”, conforme registrou o seminário palmeirense O Índio, de 15 de maio, em seu número 16, página 3.

Nota sobre a volante do Tenente Lucena no seminário palmeirense O Índio, de 15 de maio, em seu número 16, página 3.

Viajando a pé, a volante do Tenente Lucena só alcançou o sertão ocidental de Alagoas uma semana mais tarde. Por isso mesmo, sua “diligência” no Engenho Velho somente pode ter ocorrido nos começos da segunda quinzena de maio de 1921. O Sr. Mauricio de Barros não se recorda mais da data do sepultamento dos mortos pela “diligência” no Engenho Velho. Lembra-se, porém, que foi numa quinta-feira. Ora, a primeira quinta-feira da segunda quinzena de maio de 1921 caiu no dia 19, o que permitiu ao Correio da Tarde, de Maceió, publicar no fim desse mês uma carta de Mata Grande, sobre os acontecimentos do Engenho Velho. A esse tempo, os estafetas do Correi levavam, a cavalo, três dias entre as cidades de Mata Grande e Quebrangulo, de onde as malas postais seguiam de trem para Maceió.  

Detalhe da carta enviada de Mata Grande e publicada no final do mês de maio de 1921 pelo jornal Correio da Tarde, de Maceió, sobre os acontecimentos do Engenho Velho.   

EPISÓDIO MUITO CONTROVERTIDO

Sempre foram muito controvertidas as circunstancias da morte do pai de Lampião. Na primeira entrevista que concedeu a um jornal (o recifense Diário da Noite, de 3 de agosto de 1953), o Sr. João Ferreira, irmão de Virgulino, declarou o seguinte sobre a morte de seu pai: “Findo o tiroteio, seguido pelo abandono do local pela tropa, eu o fui encontrar sem vida, caído sobre um cesto, tendo às mãos uma espiga de milho, que estava debulhando, ao morrer”.

Por seu turno, parentes e amigos do Cel. José Lucena de Albuquerque Maranhão costumam dizer que o velho José Ferreira resistiu à Polícia, atirando de dentro da casa dos Fragoso. Parece-nos que há engano em ambas as versões, pois o Sr. Maurício Vieira de Barros nos disse que encontrou o cadáver do pai de Lampião no terreiro da casa dos Fragosos.

O Tenente José Lucena de Albuquerque Maranhão, comandante da desastrada volante que matou o pai de Lampião.

Este depoimento se harmoniza com o informe que nos deu o Sargento reformado Euclides Calu, residente em Mata Grande, e a história que contava o velho Manoel Paulo dos Santos, Inspetor de Quarteirão no Engenho Velho, ao tempo da morte do pai de Lampião. História que nos foi transmitida por seu filho Gabriel Paulo dos Santos e pelo magistrado alagoano Dr. Dumouriez Monteiro Amaral.

O informe do velho Calu e a história contada pelo velho Manoel Paulo referem que José Ferreira foi morto durante o tiroteio do Engenho Velho, quando ia tirar leite em um curral. De fato, o cerco da casa da casa dos Fragosos foi feito ao amanhecer do dia 19 de maio de 1921. E o tiroteio que se seguiu e vitimou José Ferreira ocorreu “antes do café da manhã de um dia muito chuvoso”, como declarou, textualmente, João Ferreira, na citada entrevista a um jornal recifense. E não há dúvida que o Inspetor de Quarteirão Manoel Paulo dos Santos foi a testemunha mais isenta de paixões no episódio da morte do pai de Lampião.

QUANDO A ESTRELA FOI LAMPIÃO

A SAGA DO LIBANÊS BENJAMIM ABRAHÃO PARA FILMAR O REI DO CANGAÇO

E A REPERCUSSÃO NAS PÁGINAS DO “DIÁRIO DE PERNAMBUCO”

Autor – Rostand Medeiros

Nesta clássica foto vemos Benjamin Abrahão, o armado Lampião e a sua Maria Bonita ostentando uma profusão de correntes de ouro. Este instantâneo foi conseguido em uma das visitas de Abrahão ao “Rei do Cangaço”. Foto do acervo da AbaFilm, reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 42, 1ª edição.

No início da vida bandida de Virgulino Ferreira da Silva, o famoso cangaceiro Lampião, as suas ações, os seus feitos de armas, eram basicamente conhecidos pelos sertanejos através dos cantadores, dos emboladores, das conversas dos mascates nos dias de feira.

Estes meios de divulgação tradicionais, mesmo de forma lenta, ajudaram cada vez mais a criar na população do sertão o temor e, igualmente, contribuíram na propagação do mito ao redor da figura verdadeira.

Durante certo tempo muitos sertanejos não tiveram ideia da aparência e de outros aspectos ligados à figura de Lampião. Logo surgiu na imprensa uma boa quantidade de fotografias do chefe cangaceiro e este fazia questão de se deixar reproduzir diante das câmeras. Ele não tinha a aversão que o grande cangaceiro Antônio Silvino, preso em 1914, nutria pelas lentes fotográficas. Pelo contrário, gostava tanto que até cartões com a sua foto estampada foram um dia produzidos.

Na proporção em que cresciam as suas ações e a fama do seu bando nos sertões nordestinos, a sua figura ultrapassava limites regionais e as pessoas de todas as partes passaram a ouvir falar no conhecido “Rei do Cangaço”. Mas para o público dos grandes centros terem a oportunidade de visualizarem a figura de Lampião e seu bando, em uma película cinematográfica, no interior de uma confortável sala de projeção, era algo mais complicado.

Desde que o cinema chegou ao Brasil, em 8 de julho de 1896, com a inauguração de um “omniographo” na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, o seu desenvolvimento era cada vez mais intenso. Novas salas de exibição eram inauguradas pelo país afora, onde o público consumidor desejava através das imagens, tanto o entretenimento, quanto o conhecimento dos aspectos do imenso país.

Para uma pessoa de iniciativa e coragem, a ideia de filmar Lampião e seu bando poderia gerar muita fama e dinheiro.

Somente através da iniciativa de um emigrante libanês, foi possível imagens do famoso cangaceiro e do seu bando, sendo este o único registro cinematográfico desta controversa figura.

UM HOMEM SEM FRONTEIRAS 

Benjamin Abrahão em fotografia realizada em um estúdio fotográfico pernambucano. A partir do livro “Lampião o mito”, autoria de Roberto Tapioca, 9ª edição, página 50.

Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 313 a 317), seu nome completo era Benjamin Abrahão Calil Botto, sendo originário do Líbano. Sua terra natal era Zahle, uma cidade situada na parte central deste país, no chamado Vale do Bekaa, próxima a cadeia de montanhas do Monte Líbano, em uma área extremamente fértil para agricultura e onde até hoje predomina uma população cristã.

Para alguns estudiosos ele teria vindo para o Brasil em 1910 e para outros ele aqui chegou em 1915. A razão de sua saída seria a ideia de buscar novas paragens para progredir na vida e deixar uma região então dominada pelo Império Turco Otomano desde 1517. Outra teoria aponta que a vinda de Abrahão seria uma fuga da convocação do exército que ocupava sua terra, para combater na Primeira Guerra Mundial.

Nesta época a nação libanesa ainda não havia sido oficialmente criada e os imigrantes que deixavam esta região e se dirigiam para o Brasil, eram normalmente conhecidos como “Turcos” ou “Sírios”. Apenas em 1926 foi oficialmente criada à República do Líbano, por interesses dos franceses.

Foto atual da cidade de Zahle, Líbano. Com uma população em torno de 100.000 habitantes, é a terceira maior cidade deste país, sendo bastante conhecida pela qualidade do vinho aí produzido. Coleção do autor.

Quis o destino que Benjamin Abrahão viesse para Recife, onde conseguiu um emprego de vendedor. Depois, impulsionado pelo espirito aventureiro e senso de oportunidade, foi até a cidade de Juazeiro, no interior do Ceará, onde conheceu o mítico e venerado líder religioso Padre Cícero Romão Batista.

Após os primeiros contatos com o homem considerado santo pelos romeiros que afluíam de todos os lugares do Nordeste, o libanês passou a ser conhecido na cidade como jornalista, secretário particular, fotógrafo e acompanhante do “Padim Ciço”. Existe a versão que o libanês de fala enrolada conquistou o coração do severo clérigo quando mentiu descaradamente ao afirmar ter nascido em Belém, a cidade natal de Jesus Cristo.

Para estas duas interessantes figuras este encontro foi extremamente positivo. Para o eterno cura dos desvalidos do Cariri, a figura de um secretário estrangeiro, nascido na terra de Jesus, certamente trazia respeitabilidade junto a elite local e chamava a atenção dos milhares de romeiros que vinham atrás de suas bênçãos. Já Benjamim sabia que o Padre Cícero era um líder prestigiado, sendo um porto seguro em um país desconhecido, em meio a uma Juazeiro em franco crescimento.

Era bem melhor o calor de Juazeiro, do que vestir um uniforme turco e levar um tiro dos ingleses na península de Gallipoli.

Tudo indica que o imigrante se deu muito bem nas terras do “Padim Ciço” e se entrosou perfeitamente com a sociedade local. Segundo o jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936, ao apresentar o “Sírio” Abrahão, o periódico informava que o imigrante teria fundado um jornal chamado “O Cariri”.

Acervo do professor Renato Cassimiro publicado no http://www.cariricangaco.com

O FILME DO PADRE CÍCERO E O

ENCONTRO COM LAMPIÃO

O libanês esperto se encontrava em Juazeiro, quando no dia 4 de março de 1926 chega à urbe sagrada o famoso cangaceiro Lampião e todo o seu séquito.  O bandoleiro das caatingas vem a “cidade santa” para se juntar aos membros de uma força militar denominada “Batalhão Patriótico”, com a intenção de combater uma coluna de revoltosos comandados por Luís Carlos Prestes, Isidoro Dias Lopes, Siqueira Campos e outros oficiais rebelados do Exército Brasileiro contra o governo de Arthur Bernardes, então Presidente da República.

Lampião recebe uniformes, armas novas, se encontra com Padre Cícero, concede entrevistas e se deixa fotografar. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), a figura que coordena o assédio ao “Rei do Cangaço” não é outro se não o próprio Benjamim Abrahão. Afirma o pesquisador que a partir deste encontro surgiu uma amizade entre o libanês e o cangaceiro, bem como o germe da ideia de ser realizada uma película mostrando a vida de Lampião.

Assim o jornal recifense “A Província”, edição de 3 de junho de 1926, analisou a exibição do filme “Joaseiro do Padre Cícero”, ocorrida no dia anterior, no prestigiado Cinema São José. Coleção do autor.

Apesar do autor de “Guerreiros do sol” haver entrevistado Lauro Cabral de Oliveira, uma das pessoas que esteve com Lampião naquela ocasião para realizar entrevistas e fotografá-lo, que teve seu acesso ao cangaceiro garantido por Abrahão, acreditamos que a ideia surgiu na cabeça do libanês algum tempo antes.

Em 1925 foi produzido “Joaseiro do Padre Cícero”, um filme que buscava contar a vida e o trabalho do Padre Cícero Romão Batista. Rodado em película de 35 milímetros, a um custo de 40 contos de réis, esta obra tinha o objetivo de criar uma propaganda positiva em relação à ação política e social do padre, além de mostrar o desenvolvimento da cidade de Juazeiro. Nesta época o Padre Cícero sofria na imprensa dos grandes centros do Brasil uma feroz enxurrada de críticas e comentários negativos sobre a sua figura, a sua trajetória política e a mistificação que se criava em torno de sua pessoa.

A direção do filme coube ao cearense Adhemar Bezerra de Albuquerque e sua primeira exibição ocorreu no mesmo ano de sua produção. O local escolhido foi o Cinema Moderno, em Fortaleza, um empreendimento que foi inaugurado em 1921 e ficava na Praça do Ferreira.

Fachada do Cinema Moderno, em Fortaleza. A partir do livro “Ah, Fortaleza!”, vários autores, 1ª edição, página 143.

Depois de seu lançamento, a película foi apresentada em várias capitais brasileiras, chamando a atenção da crítica e do público. Certamente um dos que se impressionou com o sucesso da obra foi Benjamim Abrahão.

Provavelmente o diretor Adhemar Bezerra de Albuquerque, seguramente um dos principais pioneiros e expoentes do cinema cearense, que produziu muitos documentários em35 milímetros, deve ter criado laços de amizade com o libanês durante a produção deste filme e certamente o imigrante participou de alguma maneira da concretização desta produção.

A BUSCA POR LAMPIÃO

Ao longo dos anos o libanês continuou com o seu trabalho ao lado do Padre Cícero, mas em julho de 1934, aos 90 anos o seu patrão e protetor faleceu. É provável que sem maiores perspectivas ressurja na cabeça do libanês a ideia de mostrar ao mundo o cangaceiro Lampião, entrevistá-lo e conseguir assim se tornar o primeiro homem a filmar o “Grande Rei do Sertão”.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 27 de dezembro de 1936. Coleção do autor.

No ano seguinte Abrahão busca na capital cearense um empreendedor que o ajude nesta empreitada. Este apoio surge na pessoa do velho conhecido Ademar Albuquerque, agora proprietário da empresa Aba-Film, que tinha apenas um ano de funcionamento. Ademar percebe que o libanês é suficientemente arrojado (ou maluco) para procurar Lampião no “Oco do Mundo” e se ele não morresse tentando, a distribuição deste documentário poderia render um bom dinheiro.

Percebemos que não é de hoje que a figura de Lampião alavanca negócios.

O proprietário da Aba-Film lhe cedeu uma câmera, que segundo Frederico Pernambucano de Mello (op. cit.), seria de 35 milímetros, da marca Ica. Rolos de filmagem da empresa Gevaert-Belgium, um tripé e uma câmera fotográfica desenvolvida pela empresa alemã de produtos óticos Carl Zeiss, até hoje uma conceituada marca no meio fotográfico.

Benjamim estava munido com máquinas de conhecida qualidade e portabilidade, que certamente lhe trariam um ótimo resultado visual.

Evidentemente que o imigrante libanês não seria tão louco a ponto de comentar quem o ajudou nesta empreitada. Mas seria praticamente impossível ele chegar próximo a Lampião sem a ajuda dos grandes coronéis do interior de Pernambuco. Ele teria buscado o apoio de Audálio Tenório de Albuquerque, então o todo poderoso comandante da cidade de Águas Belas e de outros coronéis da região próxima ao rio São Francisco. Esta hipótese se baseia na informação transmitida por Frederico Pernambucano de Mello, que nos seus últimos anos da vida de Lampião, teria sido o coronel Audálio Tenório uma pessoa com forte aproximação com este chefe cangaceiro. (Mello, op. cit., pág. 325).

De toda maneira Benjamim Abrahão conseguiu seu intento. No jornal Diário de Pernambuco, nas edições de 27 de dezembro de 1936 e 12 de janeiro de 1937, Abrahão relatou detalhes dos seus encontros com Lampião e seu bando.

Segundo o relato de Abrahão a jornal Diário de Pernambuco, os dois primeiros cangaceiros que ele encontrou foram Mergulhão (dir.) e Juriti (sentado a esq.). Coleção do autor.

Em narrativa franca e aberta, o libanês demonstra ao seu entrevistador, com certo orgulho, que a sua empreitada havia durado mais de um ano, precisamente 18 meses. Informava que havia passado pelos estados da Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia. Ele entrou no sertão com uma roupa de “brim azulão” e suas máquinas a tiracolo. Afirmou que passou “fome e sede”, mas trouxe “um punhado de notas suficiente para seu livro de impressões”. Aparentemente estas impressões estariam contidas em seus diários.

O contato inicial de Abrahão com o bando de Lampião, segundo suas afirmações para o Diário de Pernambuco, foi num dia bastante quente e os primeiros com quem ele esteve foram os cangaceiros Mergulhão e Juriti.

Mas o encontro teve certa tensão, pois os dois guerreiros das caatingas chegaram totalmente equipados. Ao visualizarem o estranho apontaram seus fuzis e gritaram “-Não se mexa cabra. Vai morrer” e colocaram balas nas agulhas de suas armas. Foi um momento “angustioso” para o documentarista, mas logo o ambiente serenou. Abrahão afirmou ao jornalista que lhe entrevistava que “se impressionou”, pois os dois cangaceiros já sabiam quem ele era e qual era seu objetivo.

É provável que nada disso tenha ocorrido. O Mais lógico foi que Abrahão deve ter sido guiado por uma pessoa de confiança dos coronéis da região, onde os cangaceiros já tinham conhecimento de sua chegada e que tudo estava previamente acertado.

Tanto é que sobre estes primeiros momentos junto a estes cangaceiros, Abrahão chega ao ponto de transmitir uma opinião jocosa sobre um dos seus acompanhantes armados. Este era Juriti, que ele considerou “-Um sujeito de boa aparência, tem os cabelos bons, é metido à almofadinha e gosta de luxar”.

Afirmou que teve de caminhar três quilômetros com os dois homens armados. Eles primeiramente entraram em entendimento com uma sentinela posicionado em local estratégico. Daí Mergulhão se embrenhou nos matos e desapareceu.

Voltou algum tempo depois afirmando que Lampião queria vê-lo.

AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE UM ESTRANHO MUNDO 

Quando chegou ao local onde estava o bando, após passarem por uma área de caatinga bastante fechada, todos os cangaceiros estavam de pé, menos Lampião que se encontrava encostado em um tronco, lhe observando com olhos que o libanês classificou como “indagadores”. Era hora do almoço e todos comiam carne de bode com farofa.

O capitão Virgulino veio até ele, lhe ofereceu comida e um copo com conhaque, demonstrando boas maneiras no tratamento ao estranho de fala enrolada. Lampião afirmou “-Não sei como você veio bater aqui com vida, bicho véio. Só mesmo obra de Mergulhão que é muito camarada”. Abrahão não informou ao jornalista o que achou da tirada do chefe cangaceiro.

Logo se dispôs a montar o tripé com uma das suas máquinas para dar início à seção de captação de imagens.

Nisto Lampião gritou “-Para, para”.

Ele queria ver de perto o maquinário. Queria se certificar que daquele mecanismo estranho não poderia sair uma bala. Satisfeito nas suas dúvidas, o chefe liberou o libanês para trabalhar tranquilamente.

Ele continuou captando imagens, mas em pouco tempo Lampião mandou parar a seção afirmando “-Basta. O resto fica para outra vez”.

Abrahão retrucou com Lampião, afirmando que tinha lutado muito por este momento e que queria continuar. Ao que o chefe responde taxativamente “-Quem anda comigo tem de ter paciência”.

Insatisfeito com a resposta, o imigrante voltou à carga “-E onde poderia (Lampião) ser encontrado na próxima vez?”.

“-Sou homem que não tem pouso certo. Hoje estou aqui, amanhã posso estar na Bahia, em Sergipe ou Pernambuco.”

Seja pelo fato de Abrahão ter se sentido a vontade com o “Rei do Cangaço”, ou porque era uma figura completamente maluca, mais uma vez ele continuou retrucando com Lampião. Para sua sorte este nada falou.

Depois, segundo sua narrativa, levaria quatro meses para ocorrer um segundo encontro com o bando. Por sorte este momento foi muito mais duradouro, calmo e positivo. Segundo Abrahão o local do esconderijo ficava “do outro lado do São Francisco”, a “36 léguas”. Ele só não disse de onde.

Afirmou que era um domingo, sendo este “um grande dia, pois ninguém trabalhava e se reza de manhã e no começo da noite”.

Para o imigrante os cangaceiros são muito religiosos e sobre o momento da oração ele fez interessantes observações. Um dos membros do grupo colocou um quadro do Sagrado Coração de Jesus em um tronco de arvore e Lampião, com um livro de orações, comanda a ladainha. Todos estão ajoelhados, contritos, alguns com rosários, ouvindo atentamente o chefe declamar em voz alta a prédica de um velho “adoremos”, que todos repetiam em coro.

Para o observador Abrahão “as mulheres, neste dia, vestem-se melhor, enfeitam-se mesmo”. Para ele é como se elas fossem a uma missa em alguma paróquia. O imigrante apontava que aquelas mulheres, mesmo vivendo escondidas no meio do mato, em meio às correrias e violências, pareciam querer manter de alguma maneira os mesmos hábitos da vida “civil”.

Durante o almoço todos os cangaceiros comem em grupos, uns em pé e outros sentados. Lampião, talvez por precaução, degusta a alimentação no meio de todos. Abrahão repetiu varias vezes ao repórter o quanto Lampião era desconfiado, sempre planejando mudanças de seus esconderijos.

FILMANDO OUTROS GUPOS DE CANGACEIROS E PRESENCIANDO O COMBATE DE PIRANHAS

Abrahão afirma textualmente que filmou e fotografou os grupos dos chefes Corisco, Luís Pedro, Português, Zé Sereno, Mané Moreno, Pancada, Canário e Gato. Praticamente ele teve a oportunidade de filmar todo o movimento de cangaceiros que gravitavam ao redor de Lampião. Apenas os instantâneos chegaram até os nossos dias.

Em relação ao chefe cangaceiro Gato, Abrahão afirma que estava no combate ocorrido em Piranhas, dois meses antes da entrevista ao Diário de Pernambuco e que viu este cangaceiro ferido.

Segundo a sua narrativa, ele se encontrava a cerca de meia légua (três quilômetros) de Piranhas, atravessando o Rio São Francisco, quando se deu o tiroteio e logo seguiu em direção à refrega. Afirmou que “era uma oportunidade que não poderia deixar passar”.

O primeiro combate entre os cangaceiros e os policiais ocorreu a cerca de 4 ou 5 léguas de distância da cidade, “no meio da caatinga bruta”.

A tropa volante era comandada pelo tenente João Bezerra e neste combate foi ferida e capturada a companheira de Gato, conhecida como Inacinha. Este buscou apoio de Corisco e de outros cangaceiros que circulavam na região, para invadirem a cidade de Piranhas e tentaram resgatar a cangaceira ferida. Era por volta meio dia quando um grupo de 26 cangaceiros tentou realizar o ataque, mas a cidade recebeu seus “visitantes” com forte fuzilaria.

Os cangaceiros Gato e Inacinha, fotografados por Abrahão. Acervo AbaFilm, Fortaleza. Reproduzida a partir do livro “Cangaceiros”, de Élise Jasmin, página 90, 1ª edição.

No momento em que Abrahão encontrou os cangaceiros estes já se retiravam de Piranhas. Afirma que viu o chefe Gato ainda ferido, deitado em um “sofá”. Comenta (certamente com exagero) que quando tentou entrar na cidade os defensores lhe tomaram como um cangaceiro e mandaram bala.

Segundo o pesquisador paraibano Bismarck Martins de Oliveira (in “O cangaceirismo no Nordeste”, 2ª

edição, págs. 228 e 229) o nome verdadeiro do cangaceiro Gato era Josias Vieira e era natural de Santana do Ipanema, Alagoas. Ele teria entrado no cangaço em 1922, tendo participado de inúmeras ações importantes ao lado de Lampião, era tido como um cangaceiro de extrema violência e periculosidade acentuada. Fez parte do bando de Corisco, mas depois decidiu montar seu próprio grupo. Já o pesquisador baiano Oleone Coelho Pontes (in “Lampião na Bahia”, 4 edição, pág. 329) informa que o combate se deu no dia 28 de outubro de 1936, que Gato chamou Corisco para tentaram entrar na cidade, mas a intenção era sequestrar a mulher de João Bezerra, Cira Britto Bezerra, filha do prefeito da cidade, a fim de vingar-se da captura da sua companheira.

Quanto à questão do “sofá”, realmente imaginava que naquele lugar, naquele tempo, naquelas condições de combate, um cangaceiro ferido seria normalmente transportado em uma rede. Mas como eles ainda combateram no perímetro da cidade de Piranhas e eu não tenho muito conhecimento sobre o mobiliário do sertão nordestino da década de 30 do século passado, deixo a questão em aberto.

                                  SENHORA DE BARAÇO E CUTELO DOS SERTÕES NORDESTINOS

Em relação à companheira de Lampião, de quem Abrahão em nenhum momento da reportagem declamou o nome com o qual ela seria imortalizada, ele praticamente se restringe a informar que a mesma, por razão de uma promessa, não trabalhava entre o sábado e a segunda feira. Mas Abrahão não diz qual seria este “trabalho” e a chamava de “Maria Oliveira”, ou “Maria do Capitão”.

Mas aparentemente são os jornalistas da redação do Diário de Pernambuco que se impressionam com a morena baiana.

Maria Bonita e os cachorros do bando de Lampião na primeira página do “Diário de Pernambuco”, edição de 17 de fevereiro de 1936. Para Abrahão ela não trabalhava entre os sábados e as segundas feiras. Coleção do autor.

Na edição do dia 17 de fevereiro de 1937, uma quarta-feira, como sempre na primeira página e com amplo destaque, a jovem sertaneja aparece sentada ao lado de dois cachorros que pertenciam a Lampião, um dos quais se chamava “Ligeiro”, em uma pose que foi classificada como “cinematográfica de uma Greta Garbo”. Dizia que ela era a única pessoa com “ascendência moral sobre Lampião” e que chamava a atenção até mesmo pela simplicidade.

Para os jornalistas Abrahão descreveu que a companheira de Virgulino estava “com os cabelos alisados a banha cheirosa, meias de algodão, sapatos tresé e seu vestido azul claro de linho”. Estando correta a descrição do imigrante libanês sobre a vestimenta de “Maria do Capitão”, no meio daquela caatinga cheias de espinhos, esta fina indumentária servia apenas para rezar e bater fotografias.

Chama atenção a descrição da utilidade das mulheres do bando nos combates. Abrahão informou que elas “Abrem nas caatingas cerradas os caminhos que possam fugir os cangaceiros, ante a eminencia de se verem cercados”.

Se a pose de “Maria do Capitão” na foto era simples, como o leitor deste artigo pode observar, a manchete chamava bastante atenção.

Os jornalistas passaram a comparar a companheira de Lampião com a francesa Jeanne-Antoinette Poisson, a Marquesa de Pompadour, ou como ficou mais conhecida Madame de Pompadour. Esta foi uma burguesa, nascida em Paris em 1721, que usou a sedução para conquistar um lugar entre os mais nobres e se tornar a principal amante do rei da França daquela época, Luís XV. Mas além de ser bela, sedutora e encantadora, era extremamente inteligente e se tornou decisiva na política francesa. Logo através de sua influência, conseguia audiências a embaixadores, tomava decisões sobre todas as questões ligadas à concessão de favores, de forma tão absoluta quanto qualquer monarca.

A comparação entre a cortesã francesa e a cangaceira brasileira surgiu provavelmente após Abrahão comentar e ser publicado que “os asseclas de Lampião lhe rendem as mais servis homenagens, tudo fazendo para não cair no desagrado dessa Madame Pompadour do cangaço, senhora de baraço e cutelo dos sertões nordestinos”.

Não pudemos comprovar com exatidão, mas certamente esta é a uma das primeiras grandes reportagens sobre uma jovem sertaneja chamada Maria Gomes de Oliveira. Baiana nascida em 1901, no sítio Malhada da Caiçara, que um dia encantou o “Rei dos Cangaceiros” e seria conhecida em toda parte como Maria Bonita. 

A VOLTA A “CIVILIZAÇÃO” E O SANGRENTO

FIM DE ABRAHÃO

Abrahão volta ao Recife e novas matérias são publicadas no Diário de Pernambuco, sempre com muito destaque e na primeira página. Elas informavam detalhes do encontro de Abrahão com os cangaceiros e que a sociedade pernambucana em breve teria a oportunidade de assistir nos cinemas da capital o “film” sobre Lampião.

Benjamim Abrahão aproveitava sua notoriedade.

Sobre o tamanho do rolo de filme e sua duração, não conseguimos apurar corretamente, pois o tamanho foi crescendo e diminuindo. Dependia do lugar, provavelmente do gosto dos editores, ou através de informações equivocadas de Benjamim Abrahão. Segundo o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do sol, 2ª edição”, págs. 339), em dezembro de 1936 o libanês teria entregue a Ademar Albuquerque cerca de “quinhentos metros de filme”, mas em abril do ano seguinte os jornais cearenses noticiavam que havia “mais de mil metros”. Em Recife a película esticou mais ainda. No Diário de Pernambuco, na edição de 12 de fevereiro de 1937, Abrahão afirmava que o filme tinha “2.000 metros”, que seria exibido no Rio de Janeiro e anunciava que além do filme, seria publicado um livro “com a maior e mais completa reportagem sobre Lampião”.

Relato de seus encontros com o bando de Lampião no jornal “Diário de Pernambuco”, edição de 12 de fevereiro de 1937. Coleção do autor.

Mas foi a mesma atenção dispensada pela imprensa que gradativamente foi lhe criando problemas. Os jornais mostravam com destaque a façanha de um simples imigrante libanês, que havia conseguido encontrar Lampião, filmá-lo tranquilamente com o seu bando, enquanto que as forças de segurança nunca davam cabo dos cangaceiros.

No Rio de Janeiro, então capital do país, a revista “O Cruzeiro”, um dos principais veículos da imprensa brasileira da época, estampou no exemplar de 6 de março de 1937 uma manchete com cinco fotos do bando. De forma crítica afirmava que “onde os policiais falharam, Abrahão havia triunfado”.

No dia 2 de julho de 1938, no mesmo Cinema Moderno que apresentou a película sobre o padre Cícero, ocorreu à única exibição conhecida do filme de Benjamin Abrahão. A fita cinematográfica foi assistida por autoridades que se revoltaram diante do destaque dado a Lampião e seus acompanhantes. Logo os membros do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o órgão de censura do chamado Estado Novo, como ficou conhecida a ditadura comandada por Getúlio Vargas e implantada no ano anterior, apreenderam o filme.

Benjamin Abrahão tentou reverter, sem sucesso, a situação. Ele fica em uma posição difícil e parte para o interior em busca de apoio.

Em 9 de maio de 1938, na então vila de Pau Ferro (atual município pernambucano de Itaíba), a cerca de 45 quilômetros de Águas Belas, Abrahão foi morto com 42 facadas por um homem que seria deficiente físico e que trabalhava como sapateiro. A razão foi uma vingança ocorrida pelo fato do libanês ter mantido relações com a mulher deste sapateiro.

Entretanto, segundo as edições do Diário de Pernambuco de 10 e 19 de maio de 1938, ao comentar sobre a morte de Benjamin Abrahão, trazem algumas informações interessantes.

Foi divulgado que o inquérito realizado pelo delegado do 2º Distrito Policial de Águas Belas, concluiu que o assassino do imigrante libanês se chamava José Rodrigues Lins, conhecido como Zé de Ritinha ou Zé de Rita e que teria sido ajudado por uma mulher chamada Alayde Rodrigues de Siqueira. Mas as reportagens não especificavam maiores detalhes do ocorrido e nem o grau de participação desta mulher.

Para muitos pesquisadores a verdadeira razão da morte de Abrahão teria sido as insistentes cobranças que ele fazia aos coronéis da região, sobre uma pretensa ajuda financeira prometida para a realização do filme. Aparentemente, diante das recursas, ele possivelmente teria feito algum tipo de ameaça e encontrou a morte.

Certamente que em meio a um momento político onde o poder do Estado Novo estava muito forte e centralizado, onde as velhas lideranças do sertão já não possuíam a mesma desenvoltura nos círculos do poder, onde a desconfiança e o temor de perda de prestígio e de força política eram evidentes, a figura de um imigrante que sabia de muita coisa, impertinentemente exigindo dinheiro, deveria ser uma fonte de preocupação.

Seja qual for a verdadeira razão, percebemos que faltou a Benjamin Abrahão, mesmo depois de estar vivendo a cerca de vinte anos no Nordeste, uma maior percepção em relação as suas atitudes e o que elas poderiam gerar.

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O ATAQUE DE LAMPIÃO A BELMONTE

Autor – Rostand Medeiros

Como já foi bastante comentado, devido as sérias perseguições contra a família de Virgulino Ferreira da Silva, seguido do assassinato do seu pai pela ação desastrosa de um grupo de policiais alagoanos no lugar Matinha de Água Branca, em 9 de junho de 1920, fez com que ele e seus irmãos Antônio e Livino, se transformem definitivamente em cangaceiros.

Lampião

Os irmãos Ferreiras se juntam ao bando conhecido como Porcinos e depois, em agosto de 1920, passaram a servir sob as ordens do chefe cangaceiro Sebastião Pereira, o conhecido Sinhô Pereira. Em meio às ações junto com Sinhô, Virgulino recebe a alcunha de Lampião.

A ligação de amizade entre Sinhô e Lampião vai ocasionar, em outubro de 1922, a morte de um importante comerciante chamado Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz, da cidade de Belmonte (atual São José do Belmonte), no sertão pernambucano. Este caso, um dos mais emblemáticos do período em que parte do Nordeste foi flagelado pela figura do temido cangaceiro Lampião, teve uma grande repercussão.

A cidade de Belmonte, atual São José do Belmonte, no mapa de Pernambuco

Muito já foi comentado sobre este episódio, mas no Arquivo Público do Estado de Pernambuco, nas amareladas páginas dos antigos jornais, foi possível encontrar novas informações.

Uma Interessante Carta

No domingo, 11 de março de 1923, foi publicada no jornal recifense “A Província”, uma grande carta vinda da cidade de Belmonte, cujo autor se intitulou “Um Assignante”. Neste volumoso documento ele narra pormenorizadamente o conflito ocorrido na sua cidade em outubro do ano anterior, que culminou na morte do comerciante Gonzaga.

Sinhô Pereira sobreviveu para contar sua história

Em maio de 1922, segundo o autor da missiva publicada no periódico, se encontrava em Belmonte a volante policial Pernambucana, comandada pelo tenente Cardim. Esta volante estava a caça do grupo de cangaceiros de Sinhô Pereira e tinham informações que estes se encontravam no lugar “Olho D’água”, uma serra próximo a fronteira do Ceará e da Paraíba.

Para alcançar seu objetivo o tenente Cardim solicitou apoio de uma volante da polícia cearense, que teria em torno de sessenta membros, cujo autor da carta não declina o nome do comandante, mas afirma que este era “um antigo cangaceiro”.

Consta que Cardim desejava realizar um cerco contando com o apoio dos cearenses. Mas o comandante desta volante não participou da ação policial e, pior, saiu a praticar toda sorte de atrocidades contra a população, principalmente terríveis surras. Este fato assustou toda a comunidade e alertou o bando de Sinhô Pereira que desapareceu na caatinga. A carta afirmava que Cardim se encontrou com seu colega cearense, dispensou seu apoio, mas antes passou uma ríspida descompostura no seu comandante pela ação dos seus soldados.

Evidentemente insatisfeito com a reprimenda, com a frustrada ação policial no estado vizinho ao Ceará, onde a sua marca principal era a tortura em larga escala na busca de informações, o tenente cearense buscava alguma compensação. Consta que o militar recebeu uma informação sobre um possível coiteiro e parente de Sinhô Pereira e, para não “perder a viagem”,  no caminho de volta para casa fez uma “visitinha” a esta pessoa e sua família. A propriedade era conhecida como Cristóvão, pertencia a Crispim Pereira de Araújo, conhecido como Ioiô Maroto, um homem pacato e que vivia longe de complicações, apesar de ser membro da família de Sinhô Pereira.[1]

Documentação mostrando Crispim Pereira, proprietário das terras denominadas Cristóvão

Segundo comenta a tradição oral da região , e que conseguimos apurar em nossa visita a Belmonte em 2008, o mínimo que posso dizer em relação à visita da volante cearense ao pobre do Ioiô Maroto foi que “o cacete comeu”. Sobrou até para sua já vetusta mulher e suas filhas. Consta que um policial negro, conhecido como “Uberaba”, teria praticado contra as mulheres “toda sorte de misérias e imoralidades, entre a risadaria de todos, inclusive do tenente que achava em tudo muito espirito”.[2]

Depois do ocorrido, segundo a versão publicada no jornal de 1923, consta que Ioiô Maroto soube que o oficial da polícia cearense esteve na cidade de Belmonte, onde se arranchou na casa de seu compadre e amigo, o comerciante Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Foi informado ao fazendeiro ultrajado que Gonzaga declinou ao perverso tenente que Ioiô Maroto era parente de Sinhô Pereira.

Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz. Fonte-Blog Lampião Aceso

O autor da carta publicada no jornal, por razões óbvias, não declinou o nome do militar, mas se sabe que ele era o tenente Peregrino de Albuquerque Montenegro.[3]

Versões

Em seu livro “O Canto do Acauã” (2011, pág. 157), a pesquisadora Marilourdes Ferraz dá outra versão para o caso. Ela afirma que o tenente Montenegro recebeu uma carta, onde havia uma denúncia contra Ioiô Maroto, informando ser ele um coiteiro de cangaceiros. Segundo afirma a autora de “O Canto do Acauã”,  a dita carta foi falsamente atribuída ao comerciante de Belmonte. Por saber de qual família vinha Maroto, Gonzaga correu a afirmar ao fazendeiro que não tinha culpa neste caso.

A ilustre visita do Bispo D. AUGUSTO ÁLVARO DA SILVA a paróquia de Belmonte em 1912. Da esquerda para a direita sentados: Frei Lucas, D. Augusto Álvaro da Silva e Padre Sizenando de Sá Barreto. De pé: Coronel José de Carvalho e Sá Moraes, Capitão Tertuliano Donato de Moura, Manoel de Medeiros Filho, Dr. Isídio Moreira,Coronel Luiz Gonzaga Gomes Ferraz, Dr. Felisberto dos Santos Pereira, Capitão Miguel Lopes Gomes Ferraz, Capitão João Lopes Gomes Ferraz, Major Manoel da Mota e Silva, Tenente Augusto Nunes da Silva e o Major Joaquim Leonel Pires de Alencar. Crianças: Antônio Brandão de Alencar, Luiz Alencar de Carvalho (Luzinho), Otacílio Gomes Ferraz e Napoleão Gomes Ferraz. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

Já autora de “As Táticas de Guerra dos Cangaceiros”, Maria Christina Russi da Matta Machado (1969, pág. 73), não afirma que Ioiô Maroto e Gonzaga eram amigos e nem compadres, mas que os dois tinham uma desavença antiga. A autora aponta, sem detalhar nada, que o problema entre os dois “foi coisa sem importância” e que Ioiô Maroto não imaginava que Gonzaga aguardasse a oportunidade de “liquidar as contas”, lhe denunciando a volante cearense que lhe desonrou em sua própria casa.

Já João Gomes de Lira, autor de “Memórias de um Soldado de Volante” (1990, págs. 77 e 78) tem outra versão. Segundo este antigo membro de volantes que perseguiu cangaceiros, Ioiô Maroto residia em um lugar chamado “Queimada Grande” e durante a surra aplicada pelos militares cearenses, soube da boca do próprio tenente Montenegro que  foi o comerciante Gonzaga a pessoa que lhe havia denunciado.

Mas é a própria Marilourdes Ferraz que aponta duas ocorrências, que mostram uma possível solução deste pequeno mistério.

A primeira razão teria ocorrido em maio de 1922, quando foi saqueada por Sinhô Pereira e seu bando, composto inclusive de Lampião e seus irmãos, uma carga de tecidos de Gonzaga que era transportada para Rio Branco, atual Arcoverde. Parte da carga foi distribuída entre os bandidos e o resto eles atearam fogo.

Segundo Valdenor Neves Feitosa, neto de Crispim Pereira de Araújo, o Ioiô Maroto, quem está a direita de seu avô é Raimundo Neves Pereira, nascido em 12 de setembro de 1935, em Parambu-CE, conhecido como “Edmundo” e filho de Ioiô. Sentado no seu colo está o seu neto Dario, e à a sua esquerda se encontra a sua filha caçula, Francisca Neves Pereira. Esta foto foi tirada, na década de 40, do século XX, na fazenda Malhada, Município de Parambu, nos sertões dos Inhamuns, Estado do Ceará, próximo a fronteira com o Piauí. Agradeço a Valdenor Neves Feitosa pela informação.

A outra razão seria o fato que, depois desta ocorrência, Gonzaga começou a atender as exigências dos cangaceiros que viviam pela região. O comerciante, para se ver livre desta corja de malfeitores, entregava mercadorias e dinheiro. Entretanto, em uma ocasião em que estava ausente, consta que sua esposa, a Senhora Martina, tratou muito rispidamente o portador da mensagem dos bandoleiros. Diante dos episódios ocorridos, a autora afirma que Gonzaga contratou homens para a sua proteção, de sua família, de seus negócios e de suas propriedades.[4]

A notícia da desatenção da esposa de Gonzaga e do fato dele contratar homens para sua proteção chegou aos chefes dos cangaceiros causando insatisfação. Estes guardavam muito rancor de quem não lhes atendia seus pedidos e de quem tomava estas atitudes de defesa.

Sabendo destes fatos narrados em “O Canto do Acauã” e lendo o teor do material publicado no jornal recifense “A Província”, em 11 de março de 1923, ao cruzarmos as informações, podemos facilmente deduzir que Gonzaga estando com homens armados para lhe proteger e com o comandante da volante cearense arranchado em sua casa, se sentiu seguro para relatar ao tenente Montenegro os problemas que acontecia consigo e a ligação de parentesco entre Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.

Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1922

Depois do fracasso da atuação de sua volante em Pernambuco, da reprimenda do tenente Cardim, não é difícil imaginar que o tenente Montenegro deduziu que fazer uma visita ao parente de Sinhô Pereira poderia lhe trazer alguma vantagem. [5]

Evidente que isso é apenas uma dedução e nada impede que a triste sina de muitas pessoas de “botarem lenha na fogueira”, possa ter desencadeado tudo que ocorreu depois.

Lampião Chefe de Bando

No meio de toda esta história, enquanto Ioiô Maroto tentava curar suas feridas e Gonzaga se preocupava com seu futuro, no dia 4 de junho de 1922, no sítio Feijão, zona rural do município pernambucano de Belmonte, próximo a fronteira do Ceará, Sinhô Pereira informou ao membros do seu bando, que em breve vai entregar o comando a Lampião.

Apesar de ter menos de 27 anos de idade, Sinhô alegou problemas de saúde para a sua decisão e que seguia um apelo do mítico Padre Cícero Romão Batista, da cidade de Juazeiro, Ceará, que havia lhe pedido para deixar esta vida e ir embora para o sul do país.[6]

Vinte e dois dias depois de receber a notícia que a passagem de comando está próximo, Lampião efetivamente já é chefe de grupo. Neste momento começa a imprimir sua horrenda marca pelo Nordeste e vai se tornar o maior cangaceiro do Brasil.

Na edição de 29 de junho de 1922, do jornal “Diário de Alagoas”, afirma que “Cangaceiros, em numeroso bando assaltaram a cidade de Água Branca, penetrando na residência da Baronesa”.

Casa da Baronesa atacada e roubada por Lampião e seu bando. Fonte-Blog Cariri Cangaço

Esta era a octogenária Joana de Siqueira Torres, viúva do Barão do Império Joaquim Antônio de Siqueira Torres. Os cangaceiros chegaram de madrugada entraram pelos fundos do casarão e roubaram o que puderam. Apesar de ocorrer uma resistência das pessoas do lugar, eles escaparam ilesos.

No dia 1 de julhos este periódico alagoano informou através de “viajantes vindos do sertão”, que os esforços da polícia para prender os assaltantes foram nulos.[7]

Lampião segue para Pernambuco, feliz pelo resultado do saque. Em uma tarde, junto com seus companheiros de rapinagem, dançaram xaxado e cantaram a mítica melodia “Mulher Rendeira” embaixo de uma quixabeira no centro do povoado de Nazaré e o fato foi presenciado por Manuel de Souza Ferraz, o conhecido Manuel Flor. Este se transformaria em um dos maiores perseguidores de Lampião.[8]

Manuel Flor. Fonte-Blog Lampião Aceso

Finalmente, no dia 22 de agosto de 1922, Sinhô Pereira parte da fazenda Caraúbas, perto do lugar Bom Nome, em Pernambuco, para o estado de Goiás.[9]

Mas antes de partir, Pereira pediu a Lampião que fosse a Belmonte resolver a desfeita sofrida por seu parente Ioiô Maroto. Lampião certamente possuía uma dívida de gratidão com Sinhô Pereira, por tudo que ele havia lhe ensinado em meios as andanças pelas caatingas e jamais iria lhe negar esta solicitação. Além do mais, ele sabia que Gonzaga tinha dinheiro e isto era o que realmente lhe interessava.

Gonzaga não Acreditou no Vaqueiro

Marilourdes Ferraz informa que Ioiô Maroto agiu de forma dissimulada e buscou a paz com seu amigo e compadre, que diante desta atitude decidiu dispensar seus guarda costas.[10]

A cidade de Belmonte atualmente

A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada no domingo, 11 de março de 1923, dá um informação que se aproxima da versão de “O Canto do Acauã”. Consta que diante da surra em Ioiô Maroto, o comerciante Gonzaga começou a se desfazer de seus negócios em Belmonte, seguindo com a família para a cidade pernambucana de Bom Conselho. Então o próprio Ioiô Maroto teria escrito uma carta a Gonzaga, afirmando que não iria lhe fazer retaliações, que “era seu compadre e amigo”, que a amizade “voltaria a ser o que era”. A carta de “Um Assignante” afirma que Ioiô pediu então, certamente como prova de boa vontade, para Gonzaga dispensar os seis rapazes armados que ficavam em sua casa.

A casa de Gonzaga em 2008. Fonte-Alex Gomes

O jornal afirma que às dez da noite do dia 19 de agosto de 1922, um vaqueiro de Gonzaga conhecido como “Manoel Pilet”, foi a sua casa e afirmou ter visto muitos cangaceiros na propriedade “Cristóvão” de Ioiô Maroto, mas Gonzaga não acreditou. O vaqueiro chegou a se oferecer para fazer companhia e proteger o patrão em sua casa na cidade de Belmonte, mas Gonzaga recusou.

Sua sorte estava selada.[11]

O Fogo de Belmonte

No livro “Serrote Preto”, de Rodrigues de Carvalho (1961. Págs, 157 a 161), o autor comenta que certa noite, provavelmente um ou dois dias antes da manhã de 20 de outubro, Lampião e seu bando chegaram a propriedade de Ioiô Maroto, prontos para resolverem a questão. Rodrigues de Carvalho afirma que o parente de Sinhô Pereira não queria mais a vingança e que seguiu com Lampião praticamente obrigado.[12]

Lampião e seu bando a cavalo

Já a carta publicada no jornal “A Província”, comenta que nesta época a cidade de Belmonte era guarnecida pelo sargento José Alencar de Carvalho Pires e mais 10 praças. Havia uma ordem que, no caso de serem ouvidos disparos, os comandados do sargento Alencar deveriam ir para o pequeno aquartelamento policial para serem tomadas as medidas de defesa[13].

Depois de uma noite de muita chuva, que facilitou o ataque dos cangaceiros, as quatro da manhã do dia 20 de outubro de 1922, uma sexta feira, foram ouvidos tiros espaçados e depois a fuzilaria aumentou. Nesta manhã o sargento Alencar se achava adoentado na casa do seu sogro, o coronel João Lopes, irmão de Gonzaga. Mesmo assim Alencar saiu a rua e disparou contra os cangaceiros “cerca de 40 tiros” e foi para o pequeno quartel para dar ordens ao seu pessoal. Mas no lugar, ao invés dos 10 militares só estavam os praças Manoel Rodrigues de Carvalho, José Francisco e José Oliveira.

A cidade entrou em polvorosa. Pessoas buscavam refúgio em baixo dos poucos móveis existentes nas suas casas. Muitos correram para o mato, deixando tudo para trás e saindo apenas com os familiares e a roupa do corpo.

Jornal recifense “A Província”, 11 de março de 1923

Em pouco tempo chegaram para defender a urbe os soldados Severino Eleutério da Silva e Heleno Tavares de Freitas. Este último foi logo alvejado e morto.[14]

Após isso o sargento Alencar distribuiu a munição e saiu a rua acompanhado dos soldados Manoel Rodrigues de Carvalho e José Oliveira. Ele deixou um soldado na casa do coronel João Lopes e outro na casa do escrivão Manoel Medeiros. O militar posicionado na casa do escrivão tinha ordens de abrir fogo contra o prédio do açougue, onde estava alojado um grande número de cangaceiros, pois o sargento Alencar iria atacar o açougue pela retaguarda. A fuzilaria era cerrada e desigual, pois a cidade era defendida, segundo afirma o jornal, por apenas 6 militares, uns poucos civis, contra 65 cangaceiros.[15]

Os militares que estavam no quartel, mesmo cercados, mataram Antônio Pereira da Silva, conhecido vulgarmente como “Antônio da Cachoeira” e primo de Ioiô Maroto e Sinhô Pereira.[16]

Outras notícias sobre o ataque

Pessoas da localidade participavam da defesa. Entre estes estavam Manuel Gomes de Sá, conhecido como Manuel Justino e seu filho João Gomes de Sá, que foi ferido. Um cangaceiro alcunhado “Baliza”, vendo este cidadão em apuros pulou o muro de sua casa disposto a matá-lo. A ajuda veio de Dona Luzia Gomes, esposa de João Gomes, que municiou o rifle e animou o esposo para a luta. João Gomes matou “Baliza” com um tiro no peito.

Outro que pegou em armas foi o cidadão Luís Mariano, que junto com outros disparava contra a corja de bandidos de dentro do curral de Tertuliano Donato.[17]

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O sargento, depois coronel, JOSÉ ALENCAR DE CARVALHO PIRES (em pé, a esquerda com a espada) era filho do Alferes José Leonel de Alencar (sobrinho de dona Bárbara de Alencar e tio do romancista José de Alencar) e de Antônia da Assunção Pires. Nasceu em 13/03/1892 na fazenda Várzea, no município de Belmonte, e faleceu em 19/03/1960, no Recife. Foto do pesquisador Valdir José Nogueira, de Belmonte – PE.

Consta que o sargento Alencar expulsou os cangaceiros do açougue e de uma janela deste estabelecimento comercial, gritava palavras de apoio a Gonzaga e mandava bala contra os cangaceiros. O sargento imaginava que Gonzaga estava resistindo dentro de sua casa. Mas aí, segundo está textualmente descrito no jornal, o próprio Lampião gritou “-Eu levo daqui um comboio de fazenda; eu vou ficar rico!…”. Deixando entender que a situação do comerciante não era das melhores.

Alencar percebeu que a única maneira de expulsar os cangaceiros seria atacar pela retaguarda da casa de Gonzaga. Mesmo com poucos homens e a munição acabando, ele seguiu para o local e abriu fogo contra a “cabroeira”.

Antiga Rua do Comércio. No primeiro plano a famosa loja “A Rosa do Monte” do Coronel Gonzaga Ferraz e mais adiante a sua famosa residência, adquirida tempos mais tarde pelo Sr. João de Pádua. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

De dentro da casa eram ouvidos gritos de euforia e de pavor. Dona Martina, a mulher de Gonzaga, suas filhas e outras mulheres que estavam no interior gritavam pedindo proteção aos céus. Quando estive em Belmonte me narraram  que um cangaceiro chamado José Tertuliano, conhecido como Zé Terto, e possuindo o vulgo de “Cajueiro”, protegeu as mulheres da família de Gonzaga da sanha de seus companheiros, empurrando-as para dentro de uma dispensa.

Ainda dentro da casa os cangaceiros gritavam de euforia, parecendo que haviam alcançado a vitória desejada. Mas para o sargento Alencar e parte do seu valoroso destacamento, o que importava era entrar na residência e expulsar aquela corja para longe de sua cidade. A tática deu certo. Era perto das oito da manhã e depois de um fogo intenso o bando de Lampião saiu de Belmonte cantando a “Mulher Rendeira”.[18]

Provavelmente ao entrar na casa do comerciante, o sargento Alencar entendeu o porquê dos cangaceiros e Ioiô Maroto irem embora cantando.

Saldo do Ataque

Gonzaga Ferraz jazia morto na sala existente logo na entrada. Estava envolto em panos, onde certamente os atacantes iriam atear fogo no falecido e consequentemente na casa.[19]

Ele teria tentado se defender da turba que buscava invadir o local pela porta dos fundos. Havia chegado a atirar com o que tinha, mas diante da desvantagem empreendeu fuga indo para o grande sótão. Ao tentar se esconder, ou buscar fuga utilizando uma janela, ele despencou na sala e teria morrido da queda, ou então sido chacinado pelos cangaceiros.

Sótão da casa de Gonzaga. Fonte-Solón Almeida Netto

O certo foi que Ioiô Maroto, mesmo ferido levemente, alcançou sua pretendida vingança. Já Lampião e seus homens roubaram o que puderam do comerciante. Para o “Rei do Cangaço” o produto do butim que mais lhe chamou atenção foi a aliança de Gonzaga.

O saldo para o povo de Belmonte, além da morte de Gonzaga e do soldado Heleno Tavares de Freitas, foi a morte de um civil, que “A Província” chama apenas como “um velhinho” e que se achava na porta de sua casa quando foi alvejado. Já o jornal “Diário de Pernambuco”, transcrevendo um telegrama enviado pelo delegado Manuel Guedes ao então Chefe de Polícia, Desembargador Silva Rêgo, dá conta que o civil morto se chamava Joaquim Gomes de Lyra. [20]

Entre os defensores de Belmonte feridos, além do citado João Gomes de Sá, o próprio sargento Alencar estava com um ferimento leve, em decorrência de ter tido sua arma destroçada por um balaço dos cangaceiros. O jornal “A Província” de 1923 dá conta que depois de encerrado o tiroteio, cinco pessoas da cidade vieram “participar da defesa”, ajudando a transportar o “corpo” do sargento Alencar. Como este não estava morto, provavelmente desfalecido devido ao seu ferimento de natureza leve, se levantou e passou a maior descompostura naqueles que só ajudavam “carregando os defuntos”.[21]

Corredor da casa. Por aqui passaram os cangaceiros.Fonte-Solón Rodrigues Netto

Além de “Antônio da Cachoeira” e “Baliza”, os cangaceiros aparentemente tiveram um terceiro homem mortalmente alvejado pelos defensores da cidade. As fontes apontam que poderia ser um antigo membro do grupo de Sinhô Pereira, de alcunha “Pilão”, ou um cangaceiro conhecido como “Berdo”.[22]

Já as fontes apontam sempre de forma controversa, que o número de feridos entre os atacantes chegou a até cinco homens e os nomes variam. A unanimidade é o nome do paraibano Cícero Costa, que seria uma espécie de enfermeiro do grupo e em menos de dois anos seria morto no tiroteio da Serra das Panelas.

Consequências

A notícia do ataque a Belmonte teve forte repercussão na imprensa pernambucana. Uma semana depois do ocorrido, o periódico recifense “Jornal do Commercio” fazia uma severa crítica ao então governador pernambucano, Sérgio Teixeira Lins de Barros Loreto pela falta de segurança no sertão. O jornal traz estampada uma carta da viúva de Gonzaga, datada do dia da morte do seu marido, pormenorizando os fatos e responsabilizando Ioiô Maroto.

Casa de Gonzaga.Fonte-Solón Almeida Netto.

O Desembargador Silva Rêgo, Chefe de Polícia de Pernambuco, divulgou na imprensa que havia recebido informes de seus colegas da Paraíba, Alagoas e do Ceará. Estas autoridades transmitiam as tradicionais solidariedades, criticavam a ação dos cangaceiros e se colocavam a disposição. Mas de prático só o telegrama do Dr. Demócrito de Almeida, da Paraíba, afirmando ter informações vindas do bacharel Severino Procópio, que se encontrava na cidade de Conceição, dando conta que os cangaceiros estavam acoitados no velho esconderijo de Sinhô Pereira, na Serra do Olho D’água.

Família do Coronel Luiz Gonzaga. Foto tirada no Porto da Madeira, Recife, onde passaram a residir logo depois do ocorrido em Belmonte. Sua esposa é a senhora vestida do preto, de luto pelo falecimento de Gonzaga. Fonte – Arquivo de Valdir Nogueira, Belmonte-PE, através do pesquisador Artur Carvalho.

Dias depois, o “Diário de Pernambuco”, de 1 de novembro, reproduz na página 4 uma nota do jornal oficial do governo paraibano, “A União”, informando que o bando havia sido visto na Serra do Catolé, ainda em território pernambucano, mas próximo a fronteira paraibana, onde estariam nesta serra 50 bandidos. O bacharel Severino Procópio, junto com o tenente Manuel Benício e uma força paraibana, estavam a postos para atacar os cangaceiros. Mas o bacharel solicitava reforços de Pernambuco, para assim alcançarem um número de 150 policiais, pois devido às condições geográficas da região, só um número grande de homens para desalojar os cangaceiros do alto das serras. Mas aparentemente nada foi feito.[23]

Na sequência a família de Gonzaga vendeu tudo que tinha na região, partiu primeiramente para Recife e depois para o sul do país.[24]

Pesquisando sobre cangaço no sertão de Pernambuco

Não é novidade que a pesquisa em jornais antigos, associada à pesquisa em livros, artigos em revista, internet e, obviamente, a uma pesquisa de campo junto aos descendentes dos que presenciaram os fatos, se não traz nenhuma grande informação bombástica, mostra que é sempre possível conseguir novos detalhes e informações sobre o cangaço que, como me disse em certa ocasião um respeitado autor do tema “-São fontes de informações pequenas, mas que sempre dá para saciar a todos”.

NOTAS


[1] Sobre a posse da propriedade de Ioiô Maroto, ver “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 34, 1925, onde o “Cristóvão” é sua única propriedade listada no município de Belmonte.

[2] Sobre esta visita, foram realizadas entrevistas com pessoas da comunidade, que trazem apenas lembranças transmitidas pelos seus antepassados. Em minha opinião as fontes escritas foram mais proveitosas.

[3] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. A carta do misterioso “Um Assignante”, publicada em quase um ano após os fatos “A Província” , corrobora a tradição oral da região em muitas informações.

[4] Na “Relação dos Proprietarios dos Estabelecimentos Ruraes Recenseados no Estado de Pernambuco”. DIRECTORIA GERAL DE ESTATÍSTICAS, Pág. 33, 1925, são listadas as propriedades “Varzeota” e “Contendas” como pertencentes a “Luiz Gonzaga Torres Ferraz”, ao invés de “Luiz Gonzaga Lopes Gomes Ferraz”, onde acreditamos que ocorreu um erro de datilografia na feitura deste documento.

[5] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco e “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011.

[6] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Págs. 144 e 145, 2007.

[7] Para muitos esta seria a primeira grande proeza de Lampião e seu bando, tendo o fato sido noticiado com destaque nas edições de 5 e 7 de julho de 1922, no respeitado periódico “Diário de Pernambuco”.

[8] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 154, 2011. A competente autora, mesmo ligada por laços de parentesco ao comerciante Gonzaga, no nosso entendimento busca apontar de forma bastante aproximada o que destaca a tradição oral da região em relação aos acontecimentos.

[9] Ver “A Cabeça do Rei”, ARAÚJO, I. Pág. 146, 2007.

[10] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Pág. 157, 2011.

[11] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[12] Neste livro o autor tem um posicionamento extremamente crítico contra Gonzaga e um tanto complacente em relação a Crispim Pereira. Não se pode negar que este autor viveu na região na época dos fatos, mas sua versão literária é diametralmente contrária em relação à figura de Gonzaga, tanto quando comparamos com os antigos jornais, como na tradição oral da região.

[13] O jornal “A Província” afirma que o sargento Alencar só tinha cinco anos que havia se incorporado a polícia pernambucana.

[14] No centro da cidade de São José do Belmonte existe Rua Sd. Heleno, em honra a este militar.

[15] Os jornais de época apontam apenas seis soldados defendendo a cidade e três civis. Outros autores dizem que foram 8 os militares e quatro civis. Em relação ao número de cangaceiros que atacaram Belmonte, os autores que se debruçaram sobre o assunto apontam um mínimo de 30 e um máximo de 70. Rodrigues de Carvalho afirma que eram 70 homens comandados por Lampião. Ver “Serrote Preto”, Rodrigues C. Pág. 158, 1961. Já João Gomes de Lira afirma que eram “trinta e tantos ou quarenta cangaceiros”. Nesta obra o autor informa que foram denunciados pelo Promotor Público de Olinda 33 pessoas pelo ataque a Belmonte e o assassinato de Gonzaga. Mas o autor aponta que faltaram vários nomes de cangaceiros participantes, como os irmãos de Lampião e Lavandeira. Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 78, 1990.

[16] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987.

[17] Ver “Memórias de um Soldado de Volante”, LIRA, J. G. Pág. 79, 1990 e “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987. Já Bismarck Martins de Oliveira, em “Cangaceiros do Nordeste”, pág. 208, 2002, informa que “Baliza” seria o primeiro cangaceiro a ter esta alcunha que andou com Lampião, que ele era pernambucano, havia sido membro do bando de Sinhô Pereira e se chamava Gabriel Lima. Já Erico de Almeida, em “Lampeão, sua história”, pág. 27, 1926, diz que o nome de “Baliza” era José Dedé. Este foi o primeiro livro a dar destaque ao ataque a Belmonte.

[18] Entre as várias fontes pesquisadas existe uma grande disparidade sobre a duração do ataque, que variam de uma a até quase quatro horas de combate.

[19] Ver “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 55, 1987. Em 2008 quando visitei a região e esta casa, ela se mantinha bem conservada e original em muitos aspectos, graças aos esforços de suas atuais proprietárias, professoras da rede pública de ensino.

[20] Em “Lampião Seu Tempo e Seu Reinado-II A Guerra de Guerrilhas (Fase de Vinditas)”, Maciel, F. B. Pág. 54, 1987, afirma este civil chamado Cicero Januário, seria um padeiro e também um espião de Lampião. Mas apenas este autor dá esta informação.

[21] Ver jornal “A Província”, edição de 11 de março de 1923, pág. 2. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[22] Em relação a esta questão, o periódico recifense “Jornal do Commercio”, edição de 8 de novembro de 1922, na sua página 3, dá conta que, desde o dia 3 de outubro de 1922 estava preso na cadeia de Belmonte um cangaceiro conhecido como “Bêrdo”. O mesmo, depois de atacar a propriedade denominada “Três Passagens”, onde teria assassinado o proprietário e sua esposa, sofreu forte de populares e estava ferido no peito. Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco.

[23] Ver na Hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, o “Diário de Pernambuco”, edições de 21 e 28 de outubro e 1 de novembro de 1922, sempre nas páginas 4.

[24] Ver “O Canto do Acauã”, FERRAZ, M. Págs. 159 e 161, 2011.

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