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CANGACEIROS “MÃO FOVEIRA” E “PASSO PRETO”

Serra Uman
Cangaceiro Mão Foveira, também alcunhado como Serra do Umã preso em Recife – Fonte – https://tokdehistoria.com.br/2014/09/12/cangaceiros-atras-das-grades-fim-da-ilusao/

AUTOR – Sálvio Siqueira

Naquele tempo, tempo do cangaço lampiônico, as considerações entre aqueles que participaram dos bandos cangaceiros resumia-se em acordos e poderes. Não havia, de fato, uma determinação de alguém dar sua vida pela do outro. A confiança era somente entre quantias em dinheiro e favores recíprocos. Por isso que os líderes, ou mesmo o cangaceiro mor, sempre tinha, dentre seus algozes, aqueles que deveriam ser mais ‘chegados’, mesmo por que a traição e a covardia andam juntas e em todo lugar desde os primórdios da vida humana no planeta terra.

Quando Lampião consegue levar seus ‘meninos’ as terras dominadas pelo coronel Izaías Arruda, no reduto cearense, esse lhe apronta uma das maiores arapucas que já se tenha ouvido falar. Tudo estava certo para que a cabroeira fosse almoçar na casa sede da fazenda, no momento em que se dirigiam para ela, Virgolino resolve acampar debaixo de algumas árvores na beira da vargem onde havia um canavial. O coronel, sabendo do fracassado ataque a Mossoró, RN, e tendo sido um dos mentores do plano, tinha que dar sumiço naquele que sabia de tudo… Em Lampião, o “Rei do Cangaço”.

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Lampião

Pois bem, o coronel, outrora grande coiteiro, ordena que se coloque veneno na comida da cabroeira. Em seguida, manda que se coloque fogo no canavial, formando assim uma barreira de fogo intransponível, por fim distribui seus jagunços, que não eram poucos, juntamente com o contingente de uma Força Volante cearense cercando o restante do local para que aqueles que escapassem do veneno e do fogo fossem abatidos pelas balas dos homens dispostos em lugares estratégicos. Nessa emboscada o bando de Lampião sofre a maior de suas baixas. Morreram alguns envenenados, outros, com o veneno a lhes cortarem as entranhas caem sobre as chamas vigorosas do fogo na palha da cana e outros foram abatidos pelas armas. Dentre os mais distintos pesquisadores/historiadores não há uma narrativa ‘cristalina’ de como Lampião conseguiu escapar com vida de tamanha armadinha, além de salvar a vida de alguns de seus subordinados.

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Lampião em Mossoró – Fonte –  http://blogdomendesemendes.blogspot.com.br

No longo e árduo caminho, com certeza tendo o “Rei do Cangaço” vinha queimando vários e vários milhares de neurônios procurando encontrar, ou tentando achar, respostas para o que aconteceu em território dominado pelo aliado cearense. Por que o coronel que o chamou e o incumbiu da missão sobre Mossoró estava a ponto de acabar com sua vida? Por que aquele que lhe fornecera abrigo, munição e armas acabara por lhe armar tamanha arapuca? Mais um, dentre os grandes ‘coronéis’ coiteiros caem fora do ‘negócio’ armando para ele. Primeiro havia sido o coronel José Pereira, de Princesa Isabel, PB, que vendo a maneira como os homens de Lampião haviam se portado na cidade de Souza, PB, enquanto Virgolino se restabelecia de um ferimento no pé direito, em território dominado pelo coronel, manda que um exército de jagunços seja lançado sobre a cabroeira para extermina-la. Com esse ato Zé Pereira consegue, ou pensava conseguir, eliminar dois coelhos com um só disparo: acabar com a suspeita de ser acoitador de Lampião e não saldar a dívida com ele, que, segundo o próprio Virgolino, não era pouca. Agora o grande coronel Izaias Arruda também o trai e quase acaba com a vida dele.

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Fotos de cangaceiros presos na Casa de Detenção de Recife, estampada na primeira página de um jornal da capital pernambucana

Já em terras pernambucanas, a horda perambula e avança aos solavancos rumo ao território onde encontrariam abrigo nos município de Triunfo, Vila Bela e Floresta. A cabroeira estava pra lá de desanimada, sobre tudo por ainda estarem com eles alguns companheiros feridos e/ou envenenados. Dentre os envenenados havia o ‘cabra’ “Mão Foveira”, sertanejo Domingos dos Anjos, que pede permissão ao chefe para ficar na estrada por estar sentindo muitas dores no abdome. Esse cangaceiro também era conhecido pela alcunha de Serra do Umã. Em vez de dar permissão, Virgolino manobra a alavanca do mosquetão e eleva a arma ao ombro dizendo que só o deixaria se fosse morto. Apesar de também ser cangaceiro, “Mão Foveira” pede pela vida, no que, naquele momento não parecia ser com o que Lampião concordava. Insistindo em não deixar com vida seu assecla, o cangaceiro mor é colocado à prova pelo restante dos homens. Todos tomam o partido do companheiro envenenado e falam em sua defesa. A pressão é alta e Lampião sabia que se matasse “Mão Foveira” naquele instante, seria morto pelos outros. Não tinha outra saída, tinha que deixa-lo na beira da estrada com suas dores a espera da morte.

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Cangaceiros presos – Fonte – tokdehistoria.com.br

As contrações dolorosas na altura do intestino delgado se intensificam e o cangaceiro, lá deixado no meio do nada, prossegue esperando sua hora chegar. Mais tarde, quando o sol já havia pendido para o poente um cidadão da família Pereira, o sertanejo Zuza Conrado vem viajando por aquela estrada e encontra o homem agonizante, o carrega par sua própria casa. Lá chagando, foi até a ‘panela’ onde estava o leite das vacas, e o faz beber bastante. “Mão Foveira” começa a sentir-se melhor. As dores quase que acabam por completo. Restabelecido e tendo feito um detalhado relato ao seu salvado, esse o leva até Vila Bela onde é colocado no xilindró. Naquela época os cangaceiros presos eram transferidos para os grandes presídios nas capitais dos Estados. Dentre outras coisas, para evitar um ataque do restante do bando e soltá-los.

Na região de Floresta do Navio havia uma família com cinco irmãos: Francisco Miguel do Nascimento, Pedro Miguel do Nascimento, Domingos Miguel do Nascimento, João Miguel do Nascimento e José Miguel do Nascimento. Todos dessa família viviam do trabalho nos roçados e vaqueijando gado dentro das brenhas da caatinga. Eram conhecidos nas redondezas como “os Miguel”.  O jovem Francisco Miguel do Nascimento, que era um dos bons vaqueiros daquela região, cai em desgraça e a saída para continuar vivendo foi entrar para o cangaço e ir viver da espingarda junto a Virgolino. Daí por diante seu nome passa a ser o cangaceiro “Passo Preto”.

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Seus irmãos em vez de seguirem essa ‘trilha escura’, tomam outra, totalmente oposta. Entram na Força Pública e vão dar combate ao banditismo rural que assolava o Sertão do Pajeú das Flores.

Segundo o pesquisador/historiador/ex volante, tenente João Gomes de Lira, no seu “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – 1ª edição, pg 389, de 1990, nos combates em que os irmãos estavam a se digladiarem, o cangaceiro “Passo Preto”, dono de poderosa voz, começava a chamar pelo nome dos irmãos começando uma prosa, mesmo naquelas condições, tentando relembrarem passagem de suas vidas quando jovens. O saudoso tenente da Briosa pernambucana nos diz ainda que: antes de partir para dentro da Mata Branca, em busca de abrigo, “Passo Preto” soltava um longo e penoso aboio se despedindo dos irmãos.

Pedro e Domingos foram promovidos a cabo da PMPE por merecimento. Já o irmão Francisco, o cangaceiro “Passo Preto”, depois de uma vida sangrenta no cangaço, se entrega e vai cumprir sua pena na Detenção de Fernando de Noronha. Liberto, Francisco Miguel, depois de perambular por vários lugares, pega o rumo do distrito de Nazaré do Pico, município de Floresta, PE, onde procura o capitão da PM Euclides Flor e lhe solicita trabalho. O capitão Euclides Flor lhe dar emprego e ele passa a conviver e trabalhar junto as pessoas de quem tanto fugiu e o perseguiu. Porém, se sentia seguro e protegido… Nas quebradas do Pajeú das Flores.

Fonte “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – LIRA, João Gomes de. 1ª edição. Recife, 1990

Foto TOK de HISTÓRIA

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UM POUCO DA GENEALOGIA DE MANOEL DE SOUSA NETO – UM DOS GRANDES INIMIGOS DE LAMPIÃO

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Manoel Neto está de óculos na extrema direita.

Por Sálvio Siqueira

Manoel de Sousa Neto foi um marco entre aqueles que combateram o banditismo nos sertões nordestinos, no tempo do cangaço, mais especificamente na fase lampiônica, 1919/1938.

Mané Neto, como era chamado por muitos, fez parte de uma ‘tropa’ de combatentes vingada dos filhos da região de Nazaré do Pico, distrito de Floresta, no Sertão do Pajeú pernambucano, chamados de “Os Nazarenos”.

Na verdade, as coisas começaram a ficar bem apertadas para o “Rei dos Cangaceiros” depois que foi formada essa Força Volante, que era composta por Praças e voluntários, contratados, que se dispusera a caírem no ‘mundo da caatinga’, em perseguição aos bandos de cangaceiros.

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Antes da formação da mesma, o governo pernambucano envia várias colunas da Capital com a missão de combater o banditismo no interior do Estado. Porém, a formação desses soldados nada tinha haver com a realidade do particular que consiste o bioma caatinga. Muitos ficaram fora de ação sem nem mesmo entrarem em combate contra os inimigos… Bem, isso é um assunto extenso que carece não uma, mas, várias matérias sobre o mesmo.
Manoel de Souza Neto nasceu na fazenda Algodões, no município de Floresta, PE, no dia 1º de novembro de 1901. Era primogênito de oito irmãos, “Auta, Amerina, Filomena; Alonso, Afonso, Ancilon e Arcôncio”, filho do Sr. Gregório Nogueira do Nascimento e de dona Maria Mendes de Sá. Tendo como avós paternos o casal Manoel de Souza Ferraz e dona Florência Filismina de Sá, e maternos o Sr. José Vitoriano de Sá e dona Ana Mendes de Sá.

Seu avô materno, José Vitoriano de Sá, ver-se envolvido em uma séria intriga, lá pelos idos de 1865, quando o mesmo morava na beira do “Velho Chico”, e acaba sendo preso. Seus inimigos eram tão ferrenhos e sanguinários que arrobam a cadeia e o arrancam de lá. Depois o sangram por vingança.

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Quando se inicia a década de 1920, mais precisamente no ano de 1922, segundo a escritora Marilurdes Ferraz, Mané Neto viaja para a cidade de Rio Branco, hoje Arcoverde, PE,levando peles de animais para serem vendidas. No entanto, ele estende sua ida até a Capital do Estado e, seguindo o exemplo de Arcôncio de Sousa Ferraz, terceiro filho do casal Gregório Nogueira e Maria Mendes, seu irmão, se alista na Força Pública.

Participou de vários combates contra cangaceiros tais como o da Caraíba, da Tapera, da Favela, da Serra Grande, da Maranduba… entre tantos outros. Ficando na história do Fenômeno Social como um dos mais ferrenhos perseguidores de Lampião. Aposenta-se como coronel da PM-PE. Foi Delegado e Prefeito.

Manoel Neto não casou, mas, deixou filhos com a senhora Otacília Gomes de Sá, que segundo o escritor Leonardo Gominho, em seu livro “Floresta – uma terra, um povo”, Vol. 15 da Coleção Tempo Municipal (FIAM – Governo do Estado de Pernambuco), foram Margarida Maria Siqueira Campos e Manoel Gomes de Souza. Ela constitui família e gera oito filhos, ele, casa-se com Josefa Ester de Araújo, tendo onze herdeiros que são “Maria Cícera Araújo Souza Marques (casada com Rinaldo Leite Marques de Sá, é a mãe de Raniere,de Krausia e de Rinaldo Júnior), João Gomes de Araújo, Sandra Araújo Souza Torres, Olga Maria Gomes Araújo Pires (mãe de Washington e de Letícia), Margarida Gomes Araújo,Filomena Gomes de Araújo, Carlos Vital Gomes de Souza, José Gomes Araújo, FranciscaAraújo Gomes Nunes, Emílio Gomes de Souza e Maria das Dores Araújo Souza.”

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“Às 7 horas e 45 minutos do dia 3 de novembro de 1979, no Hospital da Polícia Militar, no Derby (Recife). Seu corpo foi levado para sua terra natal, sendo sepultado no cemitério de Nazaré.”

Fonte “Floresta – uma terra, um povo”, Vol. 15 da Coleção Tempo Municipal (FIAM – Governo do Estado de Pernambuco) – Leonardo Gominho
araujo.eti.br

Foto lampiãoaceso.com
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Marcos De Carmelita Carmelita