A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE

Rostand Medeiros https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Desde que comecei a ler livros e a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular sempre me chamou muito a atenção. Foram as circunstâncias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.

Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.

Cangaceiro, de Portinari

O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural e ferido, ainda conseguiu, em um primeiro momento, fugir, sendo morto apenas alguns dias depois, através de uma emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais o ajudava em seu restabelecimento.

Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam nos inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que, no caso de a história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.

Não sabia o quanto estava enganado.

AS ORIGENS DO CONFLITO

Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.

Chico Pereira

O fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho, chamava-se Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.

Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região era de que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa. Entre os prováveis articuladores, constava o nome de Otávio Mariz.

O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas. Logo, este membro da influente família Mariz envolveu-se em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.

Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba – Fonte – http://nazarezinho.informecapital.com.br

Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira exaltou-se. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra seus inimigos em Sousa.

Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois de seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.

O coronel José Pereira, no destaque de gravata.

Por esta época, Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte.

O mais importante cangaceiro brasileiro recuperava-se na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.

Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas. Em contrapartida, seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro, 1974), afirma, na página 273, que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque àquela cidade não traria problemas junto aos seus protetores e, assim, ficaria mantido o pretenso acordo.

Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro, alto e forte, conhecido como Meia-Noite.

O cangaceiro Meia Noite

Segundo o escritor Érico de Almeida, no livro “Lampeão – Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite chamava-se Antonio Augusto Feitosa. Teria, em 1924, a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas, e possuía a fama de ser extremamente valente.

Diante de uma horda composta por um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.

Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.

O saque foi tão desenfreado que até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a tal ponto que, durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para tentar controlar as feras que ele mesmo havia incentivado a atacar a cidade.

João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor do livro “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” (Recife, 1990), afirma, na página 143, que Chico Pereira foi “quem muito defendeu Sousa de piores desatinos”.

Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história daquela cidade. Em nossas pesquisas na região, ao entrarmos em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, é facilmente perceptível o constrangimento dessas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.

Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do ocorrido espalhava-se pela Paraíba e pelo Nordeste.

Logo após tomar conhecimento dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam a lhe oferecer a mesma proteção e o apoio de outrora.

Marcolino Diniz e seus cabras

Justamente nesta hora, quando o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu, no seio do bando de Lampião, a saída de um dos seus mais destemidos membros.

Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.

Logo se iniciou uma discussão. Sem medo de nada, o cangaceiro enganado pelos companheiros apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, que, por sua vez, afirmavam inocência. O clima esquentou. Meia-Noite logo se colocou pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser.

Lampião, em pessoa, interveio no conflito, mas naturalmente se posicionou a favor dos irmãos, e a situação quase chegou a um desfecho trágico.

Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite

Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem conhecia há alguns anos, Lampião decidiu então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.

Após a entrega do dinheiro, Lampião impôs uma condição: seu companheiro teria de entregar suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que, estando desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto.

O valente negro não se fez de rogado. Colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais o acompanhava a vir tomar seu armamento.

Segundo relatos obtidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 274 e 275) junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues — que anteriormente ouviu a história do cangaceiro Lua Branca, presente à cena —, nesse momento todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião. O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado diante da afronta, baixou a guarda. Além do mais, não havia muito o que fazer, pois, se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não. O cangaceiro negro foi, então, expulso do bando e seguiu viagem pelas estradas do sertão.

Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros

Em sua juventude o Senhor Antônio Antas Dias, que vive na cidade paraibana de Manaíra e não muito distante de Princesa, conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antônio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, com Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”, e com outro homem conhecido como “Tocha”. Todos eles eram homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.

Altivo, tranquilo e prestativo, Antônio Antas foi quem me fez conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões. Em uma delas, perguntei ao amigo Antônio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa, ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje (2008), e que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada. O mais importante: havia pessoas, filhas daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.

O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra

Parti junto com Antônio Antas para visitar o local e resgatar, junto aos filhos das testemunhas — pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos e que continuam lúcidas —, a memória desse acontecimento. Essas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas em um ambiente mais tranquilo, anterior à massificação do rádio e da televisão, que era mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos fosse transmitida de forma rica em detalhes. O resultado foi muito animador.

A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS

O agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos à época de minha entrevista (2008) e morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, narrou-me que seu pai, Manuel Moraes, assistiu de sua casa (onde até hoje Anastácio reside) a todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio, homem calmo, tranquilo e calejado nas lides do campo, comentou que, para as pessoas da região, o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato de ele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular pela região sempre à noite.

Casa Grande dos Patos

Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isso ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa à fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, a atual comunidade do Saco dos Caçulas ou as casas da propriedade Tataíra. São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase fechada, um verdadeiro “saco”.

Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerada um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé André. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola ou uma coronha. Anastácio e Antônio Antas o conheceram em plena atividade e são unânimes em afirmar que André era um verdadeiro artista.

É conhecido na região que, muitas vezes, Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado de seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica dessas jogatinas eram as apostas com altas somas de dinheiro.

Os cangaceiros não ficavam fixos em uma única casa; estavam sempre passando de um refúgio para outro. A residência que eles mais apreciavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e era muito ligado a Marcolino Diniz.

Nesse refúgio, era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, local onde bailes eram frequentemente realizados. O agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas dessas festas ao lado de outras pessoas da região.

Segundo ele, sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que tenha sido em um desses bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.

Igreja de Patos do Irerê

Sobre essa sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem posicionaram-se contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo, ela fugiu com seu cangaceiro.

A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA

Mas, depois do ataque a Sousa, tudo mudou.

Lampião foi avisado de que deveria deixar a região do Saco dos Caçulas. Logo, ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e por homens contratados por José Pereira.

Diante da nova situação e do seu retorno à região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local; seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque.

Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, uma pistola e um punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.

Manoel Moraes informou a seu filho que, pela proteção e pelo silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro, que satisfaziam aqueles que lhe davam abrigo e deixavam outros se roendo de inveja.

Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, pertencente a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira o local onde Meia-Noite se encontrava.

A antiga Pincesa Isabel

Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280), o coronel ordenou a um de seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, trazendo a ordem de:

“– Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”.

Esta ordem significava que deveriam trazê-lo amarrado vivo ou, caso estivesse morto, transportá-lo amarrado a uma vara, carregada por dois homens.

Às nove da noite, Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro e logo chegou à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e com homens batendo à sua porta. Ao abrir, Zé André se assustou com as pessoas armadas, que lhe perguntaram de forma ríspida se Meia-Noite estava homiziado em sua casa ou se ele sabia de seu paradeiro. Ele negou conhecer a localização do cangaceiro; os homens aceitaram a informação e seguiram em direção às casas do sítio Tataíra.

Zé André não foi molestado, mas não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.

Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão.

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280) informa que, realmente, a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas, e que o grupo já estava desanimando com o resultado, pronto para retornar a Princesa.

Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram residências muito grandes; possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “duas águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com grandes tijolos maciços e aparentes. Perceberam que uma das casas servia de moradia e a outra funcionava como local de transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, o que deixava os atacantes em desvantagem, pois quem estava no interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.

O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não obtiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo, uma voz de mulher se fez ouvir. Os membros da volante pediram para entrar, mas a voz feminina afirmou ser de uma mulher idosa, que estava sozinha e não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força na porta. A voz feminina perguntou: “— Se são homens do coronel?”. Diante da resposta afirmativa, Meia-Noite deixou de lado o disfarce e abriu fogo, em meio a uma série de impropérios, palavrões e baixarias.

Lateral da casa do sítio Tataíra

Manoel Virgulino interpelou o cangaceiro para que se entregasse, pois iriam pegá-lo “vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu: “— Nem morto nem vivo, e quem entrar leva tiro!”.

Teve início, então, aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longos e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.

O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA

Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saíam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região quanto a literatura existente são taxativas em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.

O esperto Meia-Noite tinha certeza de que os homens de José Pereira desconheciam sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com o blefe de que seus companheiros os atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que, diante da possibilidade de seu grupo sofrer uma emboscada, Manoel Virgulino tenha dividido o contingente de ataque, e essa atitude ajudou a prolongar o cerco.

Outra vista da casa

O combate se prolongava. A madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que, com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.

Em dado momento, Meia-Noite pediu garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira, aquela zoada, aquela tensão, eram demais. Os homens de Manoel Virgulino informaram que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também teria sua vida poupada para seguir para sua cela em Princesa.

Valentão e ousado, ir para a cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite, e sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.

Mas, diante da situação da jovem e das palavras de seus inimigos, que diziam que ele era covarde por manter a mulher dentro da casa, houve uma trégua, e Zulmira deixou a casa de farinha levando alguns poucos pertences.

Após a saída de sua amada, Meia-Noite despejou fogo e novos insultos contra seus inimigos.

Tenente Manuel Benício

Já eram quatro horas de troca de tiros quando ecoou na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 66), era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado.

Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros de Tataíra e próximo à fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades enfrentadas pelo grupo de policiais para alcançar a região do conflito e, neste aspecto, estava correto.

Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra.

Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros. O grupo, então, desceu em torno de 400 a 450 metros até o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornou a subir para uma cota superior a 800 metros, seguindo em direção à casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro. Tudo isso em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.

Entrevistado de 2008 apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente, nesta hora, o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma força policial que, segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67), chegava a 84 homens.

Para a população local, o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite ficava em torno de 100 a 120 homens. Independentemente do número exato, a desproporção era enorme, e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.

Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo, dois membros da polícia foram feridos.

Manoel Moraes informou a seu filho que, depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que:

“– O negro tanto atirava como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”.

Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares para suportar o cansaço, a tensão e encontrar forças para continuar a luta.

Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros

A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha, Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente.

Só tinha duas saídas: ou se entregar ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas, Meia-Noite sabia que morreria de qualquer maneira.

Os atacantes atiravam incessantemente quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente, um frêmito de vitória percorreu o meio da tropa e, possivelmente, alguns até comemoraram antecipadamente.

Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas:

“– Que ele iria sair”.

Durante cerca de dez a quinze minutos, o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.

Existem duas versões para o que ocorreu a seguir. Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado e acreditando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, desaparecido.

Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

O autor afirma que a quantidade de tiros era tão grande que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”. O cangaceiro teria aproveitado aquele momento para fugir, deixando um rastro de sangue.

Já as pessoas da região, como Anastácio, Antônio Antas e outros, são categóricas em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala; para outros, um caçuá; e, para terceiros, um saco.

Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou o momento em que o grupo de atacantes recarregava as armas e saiu da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele correu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximar, abandonaram seus postos e fugiram.

Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Apesar de a visibilidade estar limitada pela pouca luz e de o alvo estar correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros disparos.

Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.

Para os moradores locais, o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite deveu-se ao fato de ele ter aproveitado espertamente o lusco-fusco da manhã, aquela hora em que a visibilidade ainda não é plena. Houve também um excesso de confiança dos atacantes em relação à sua superioridade numérica, o que os deixou desatentos. Outra causa possível pode estar no fato de que o grupo de Manoel Virgulino, assim como as tropas de Benício, Quelé e Oliveira, já estava muito cansado — uns pelo cerco prolongado e outros pelo sobe e desce de serras elevadas.

O certo é que, mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, apesar de ele estar ferido.

A BUSCA POR UM ABRIGO

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que, depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso, ele teria se encontrado com um agricultor, a quem entregou uma pequena soma em dinheiro para ser repassada a Zulmira.

Foto – Rostand Medeiros

Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família quem realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira e considerado uma pessoa humilde e honrada. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse: “— Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se eu voltar, eu pego novamente; se não voltar, é seu”, fugindo em seguida.

Zulmira, em um primeiro momento, foi levada para Princesa, onde ficou presa.

Na sequência, segundo a versão oficial apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo o cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas, para preparar algo que cuidasse de seus ferimentos. Mas, em vez de buscar ajuda para o rapaz, ele foi atrás do inspetor de quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, conhecido como “Ronco Grosso”. Este teria, então, ido à casa do agricultor acompanhado de mais quatro homens e dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e acabou trucidado.

Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros

Para Anastácio e Antônio Antas, a história foi “mais ou menos assim”. Eles me aconselharam, então, a procurar uma fonte mais gabaritada e que fora muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes: o seu próprio filho.

Morando perto da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem chamado Manoel Lopes Filho. Ele tem mais de 1,80 m de altura, é magro, mas ágil de corpo, tem cara de poucos amigos, usa bigode e possui uma aparência que não deixa transparecer sua idade já superior a 70 anos.

No primeiro momento, ele me olhou de uma maneira que me pareceu desconfiada. Sua voz é de barítono, grave e forte como a de seu pai. À medida que conversávamos e ele percebia que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais à vontade. Minha sorte foi estar na companhia de Antônio Antas, amigo de longa data dele, pois Lopes Filho me confessou mais tarde que não gosta de falar sobre o pai com pessoas estranhas.

Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes

Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais à vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.

Ele adiantou que, em várias ocasiões, seu pai lhe narrou diversos acontecimentos e diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou, de forma alguma, que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, para quem realizava “o que fosse necessário”. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.

No dia do tiroteio, “Ronco Grosso” estava realizando tarefas em sua propriedade; logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio-tempo, o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sítio de Manuel Lopes, que era relativamente próximo.

O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer de seu filho, era um “raizeiro”; logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez uma mistura de farinha, mastruz e pimenta-malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando escuro, e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.

Foto – Rostand Medeiros

O FIM DE UM VALENTE

Logo, Manuel Lopes tomou conhecimento de que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades, rondando em busca do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades, localizada no alto de um serrote.

Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai, chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água ao cangaceiro. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra ainda estava vivo, aos 102 anos.

Manuel Benício soube, através de outras pessoas, que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite. Seguiu então para a propriedade do homem de confiança de José Pereira, com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo.

Em 2015, sete anos depois da primeira visita, voltei a região do saco dos Caçulas e reencontrei os amigo Antônio Antas e Manoel Lopes Filho, que junto com um guia buscamos ir até agruta onde o cangaceiro Meia Noite foi morto por Manoel Lopes e Tocha.

Antes de chegar à casa de Manuel Lopes, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem, e ele “abriu o bico” sobre o que estava fazendo.

Entre seguir diretamente para o esconderijo onde estava Meia-Noite ou obter informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.

Lopes Filho informa que “Ronco Grosso”, ao saber da aproximação da volante, deixou sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo.

Aspecto do relevo da região íngreme do Saco dos Caçulas, onde Meia-Noite buscou abrigo após ficar ferido.

Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas que seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.

Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe político informou-lhe toda a situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse, pois eles não lhe perturbariam.

Mas, em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico:

“– Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.

Manuel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano. Pelo contrário, até o admirava pela valentia e coragem. Porém, desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como aquele, seria o mesmo que praticar um suicídio.

Entre esses dois grandes blocos de granito está a abertura da gruta onde morreu o cangaceiro Meia Noite. Infelizmente a sua entrada estava obstruida.

Sem outra alternativa, buscou o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.

Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já durante a noite, os dois homens encarregaram-se de levar a comida e a água ao cangaceiro.

Ao chegarem à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou ainda mais a presença daqueles dois homens armados e, conhecendo quem eles eram, ficou bastante desconfiado.

“Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda. Colocou uma bala na câmara do fuzil e permaneceu à espreita.

Obstrução da entrada da gruta do cangaceiro Meia Noite.

Os dois homens preparavam-se para sair — ou assim diziam — quando perceberam um momento de distração de Meia-Noite. Sacaram suas armas e abriram fogo.

O cangaceiro ainda tentou um salto, empunhando uma pistola na mão, mas novas descargas o atingiram e o abateram.

Sem muita cerimônia, enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formavam a pequena cavidade natural. Antes, porém, cortaram suas orelhas como prova.

Antonio Antas afirmou ter escutado muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” quem realizou a primeira deflagração. Este, por sua vez, afirmava categoricamente que havia sido “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.

Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho e Antonio Antas, mas também outras pessoas da região, afirmaram que, na tarde posterior à morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa.

José Pereira encontrava-se em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre eles algumas senhoras.

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE
Foto – Rostand Medeiros

Os dois homens valentes, porém simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe, trazendo um pacote nas mãos.

José Pereira mandou que eles se aproximassem e perguntou, animadamente, diante de todos, o que desejavam. Eles permaneceram calados, um tanto acabrunhados.

O dono da casa, imaginando que o silêncio daqueles homens rudes fosse resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentivou novamente para que falassem, mesmo diante de todos.

A partir daí, “Ronco Grosso” não se fez de rogado. Abriu o pacote, retirou um pano ensanguentado e foi desenrolando-o, apresentando a todos as orelhas de Meia-Noite.

O espanto foi geral, e o embaraço de José Pereira tornou-se evidente.

Mas eles haviam cumprido à risca aquilo que lhes fora mandado.

Foto – Rostand Medeiros

CONCLUSÃO

Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929, seguiu para a Bahia e pouco retornou à Paraíba. Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico, em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte desse sentimento estava ligado à morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.

Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia a raiva que José Pereira sentia do cangaceiro por este ter feito uma piada ou observações baixas e indecorosas sobre a esposa do líder político de Princesa. Entretanto, o próprio Lopes Filho considera essa versão falsa ou criada apenas para encobrir as verdadeiras intenções de José Pereira.

Para ele, o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como com a expulsão de Lampião da região, era afastar essa gente para evitar que seus adversários na capital paraibana o tachassem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo, de modo que sua eliminação teria sido efetuada para evitar problemas futuros.

Existe também outra versão, propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz teriam se compactuado com Lampião, dando-lhe proteção e apoio em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos e assaltos, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão do capitão da região, José Pereira e Marcolino teriam ficado com todo o dinheiro. Lopes Filho já havia ouvido falar sobre essa versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada que confirmasse tal situação.

Ao longo dos anos, a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados ao cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nessa cidade em todo o século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa. Esse foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionado basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e da política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.

Um interessante visual do Saco dos Caçulas.

Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte — respectivamente, Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria —, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas por João Pessoa e pelo seu chefe de polícia, José Américo de Almeida. Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha” e “Luiz do Triângulo” foram figuras de liderança e destaque nos combates. As narrativas obtidas na região sobre a participação desses homens nesse conflito dariam para escrever, no mínimo, três artigos como este.

Com a morte de João Pessoa em Recife e a deflagração da Revolução de 30 — que culminou com a chegada de Getúlio Vargas ao poder —, a maré mudou de lado e o conflito se encerrou. Logo, tropas do Exército ocuparam Princesa, e José Pereira fugiu, ficando incomunicável durante anos. Tempos depois, ele chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.

Não deixa de ser interessante observar como esses fatos ainda se mantêm vivos na memória da população local, mesmo entre os mais jovens. Fora dessa região, no entanto, esse conflito é praticamente desconhecido.

Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira — razão de seu retorno para uma região tão perigosa, onde ele veio a morrer — foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que ela estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, qual foi sua relação com a família e com as pessoas de seu lugar, nem o nome de seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região, e apenas apuramos que, após o nascimento da criança, ela se mudou para Campina Grande, onde se casou, teve outros filhos e viria a falecer anos mais tarde.

Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança de seu pai, o coronel Marçal, e morreu na pobreza. Antes disso, teve seu amor pela amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha”, interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.

Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo

Manuel Lopes, o “Ronco Grosso”, viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antônio Antas afirmam que ele prosperou, teve vários filhos, viu-os crescer, assistiu ao nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.

Sobre “Tocha”, sabe-se que ele seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.

Segundo Anastácio Moraes e Antônio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nessa história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu à risca o que Meia-Noite lhe pediu.

  • TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOPG TOK DE HISTÓRIA EM 2008.

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O DESCANSO DE UM GUERREIRO NORDESTINO NO RIACHO DA PRATA

A HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE LUTOU MAIS DE VINTE VEZES

CONTRA LAMPIÃO E A SUA BUSCA PELA PAZ

Autor – Rostand Medeiros

Nas ocasiões em que viajei pelo sertão do Nordeste em busca de conhecer mais sobre o cangaço, sempre esbarrava em muitas histórias de violentas lutas, valentia, covardia, honra, ódio, dor, sangue e algumas figuras que pareciam saídas de contos medievais, de verdadeiras gestas épicas.

Clementino José Furtado, o Clementino Quelé

Um destes personagens é o pernambucano Clementino José Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé.

Este sertanejo foi cangaceiro, andou ao lado de Lampião, se desentendeu com ele, foi perseguido, perdeu quase toda a família na luta contra este grande chefe cangaceiro e se tornou policial, onde ficou conhecido como um dos mais esforçados perseguidores do “Rei do Cangaço”.

Lampião

Afirmava ter travado mais de vinte confrontos contra Lampião e seu bando. Depois participou de uma guerra no meio do sertão e finalmente procurou a paz no Cariri Paraibano, em uma cidade chamada Prata, próximo a cidade de Monteiro e da fronteira com Pernambuco.

Um Lugar Tranquilo

A origem do nome se deve a uma fonte de água descoberta por uma moradora, cujas águas eram extremamente límpidas e saborosas. Logo o local ficou conhecido na região como “Poço da Água de Prata” e ficava próximo a um riacho com a mesma denominação.

Prata, Paraíba

Neste local fui extremamente bem recebido e tive uma daquelas maravilhosas oportunidades de encontrar pessoas com tantos anos de vida e muita lucidez, que puderam narrar muitos episódios interessantes sobre Clementino Quelé.

Zoroastro Bezerra da Silva nasceu na Prata, no dia 14 de junho de 1916 e Pedro Elias da Silva, este último mais conhecido como “Seu Pedrosa” veio ao mundo no dia 16 de julho de 1917, em uma localidade pernambucana conhecida como “Beira” e nos conta que sua família se mudou para a Prata ainda na década de 1920.

Pedro Elias da Silva

Seu Pedrosa, que gosta muito de história, narra que o arruado do Riacho da Prata, ou simplesmente Prata, era um lugarejo que crescia como ponto de passagem e parada de tropeiros que seguiam da Paraíba em direção a Recife, e de comerciantes pernambucanos, principalmente das cidades de Flores, Afogados da Ingazeira e São José do Egito, que seguiam em direção ao comércio da cidade paraibana de Campina Grande.

Entre os anos de 1905 e 1906, teve início uma feira semanal e o número de habitantes começou a crescer.

Entrada a partir da BR-412

Lendo o pesquisador Pedro Nunes Filho, autor do livro “Guerreiro Togado – Fatos Históricos de Monteiro” (Ed. Universitária, UFPE, 1997, pág. 62), a Prata fazia parte do território de Alagoa do Monteiro, atualmente apenas Monteiro, que no início do século XX era o município com maior extensão territorial da Paraíba. A Prata era então, junto com as localidades de São Sebastião do Umbuzeiro, São Thomé, Camalaú, São João do Tigre e Boi Velho, um dos distritos daquela importante cidade fronteiriça com Pernambuco.

O local era tranquilo, mas a região onde se localiza esta comunidade sentiu o peso das espingardas na primeira década do século XX.

“A Guerra do Dotô Santa Cruz”

Nas proximidades da Prata existe uma propriedade denominada Areal. Em 1911 estas terras pertenciam ao advogado Augusto de Santa Cruz Oliveira, cuja família tinha forte influência política na região.

Augusto de Santa Cruz Oliveira Fonte-Livro “Guerreiro Togado”

Pessoa importante, rica e conhecida por todos, ocasionalmente o “Dotô” Santa Cruz se fazia presente na pequena feira da Prata, que ocorria sempre as quarta feira.

Pedro Nunes Filho em seu trabalho (op. cit.) informa que durante o mandato do governador João Lopes Machado (1908 – 1912) este buscou diminuir a força política da família Santa Cruz em Alagoa do Monteiro através de vários ardis.

Casa grande da Fazenda Areal Fonte-http://asleyravel.blogspot.com

Valente e voluntarioso, um verdadeiro líder, Augusto Santa Cruz reagiu a esta perda de espaço político através do uso da força. Ele protagonizou uma série de episódios violentos entre os anos de 1910 a 1912, onde não faltaram perseguições, espancamentos, invasões de vilas, tiroteios e mortes. Pronunciado, decidiu cercar Alagoa do Monteiro em maio de 1911, tendo sob o seu comando 130 homens armados, que destruiram a cadeia pública, libertaram os presos e ele deixou seus “cabras” saquearem lojas e bens dos desafetos.

Ao final da invasão, que teve forte repercussão em todo o Nordeste, o advogado Santa Cruz, para muitos apenas um “Cangaceiro Togado”, tomou várias pessoas em Monteiro como reféns e preparou-se para a reação do governo. Poucos depois, tropas da polícia paraibana e pernambucana atacaram a propriedade Areal e obrigaram Santa Cruz e seus homens a fugirem.

Alagoa do Monteiro, início do século XX. Fonte- Livro “Guerreiro Togado”

O resumo da ópera foi que Santa Cruz uniu forças a outro líder do interior paraibano, Franklin Dantas, da cidade de Teixeira, que igualmente se sentia perseguido pelo governador Machado.

Com esta união os dois chefes juntam mais de 300 homens em armas e partem para a invasão de várias localidades, entre elas a cidade de Patos, causando enormes transtornos e estragos. Depois seguiram em direção ao Ceará. Mas conforme avançam para o estado vizinho, os líderes desta coluna perceberam que não possuíam muito apoio de outras lideranças e viram que a sua “guerra” não teria nenhuma possibilidade de alterar a situação política. Tempos depois Santa Cruz fugiu para Pernambuco. Processado em Alagoa do Monteiro, foi julgado a revelia e absolvido.

Homens de Augusto Santa Cruz Fonte-Livro “Guerreiro Togado”

Ocorre que entre os homens de Augusto Santa Cruz estavam muitos dos seus empregados, fugitivos da justiça, antigos cangaceiros, amigos, parentes e várias destas pessoas viviam na pequena localidade da Prata.

Passado este momento difícil, que Seu Pedrosa chama “-Da época de 12”, a Prata vai crescendo devagar, mas tranquila.

Ele comentou que naquela época, na história do lugar não existiam maiores registros de envolvimento e confrontos entre seus habitantes e cangaceiros. Mas logo uma pessoa que havia sido muito ligada a Lampião chegaria ao lugar.

O “Tamanduá Vermelho”

Clementino Quelé é descrito como um homem forte, tido como baixo, com certa obesidade, de tez branca, que quando ficava agitado, a sua pele assumia um tom avermelhado. Daí o apelido “Tamanduá Vermelho”, dado pelo próprio Lampião.

Para o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello (in “Guerreiros do Sol”, 2004, págs. 220 a 225), Quelé era natural da Ribeira do Navio, onde seguiu jovem para Alagoas, afastando-se de Pernambuco por questões de disputa familiar. No retorno a sua família segue para a região da bela cidade de Triunfo, no sítio Conceição.

Esta seria a possível casa onde Quelé e seus familiares travaram dois grandes tiroteios contra Lampião e seu bando. Santa Cruz da Baixa Verde, Pernambuco

Clementino Quelé era o chefe de sua família, tinha como irmãos Pedro, Quintino, Antônio, José e Manuel (Nezinho), todos considerados homens dispostos e valentes.

Envolvido em problemas políticos, que ocasionam perseguições a si e a membros do seu clã, Quelé e parte de seus familiares se juntam ao bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e passam a praticar a rapinagem pelos sertões.

Logo desavenças vão surgir e estas vão gerar uma forte inimizade com o famoso chefe cangaceiro. Como consequência, no início de 1924, Quelé e seus familiares sofrem dois grandes ataques do bando de Lampião no sítio Conceição, onde muitos são mortos.

Edição do jornal recifense “A Notícia”, de 14 de janeiro de 1924, existente na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco, informando erroneamente sobre a ação da polícia, durante o segundo ataque de Lampião contra Quelé

Em busca de vingança, Clementino Quelé entra na polícia paraibana, onde recebe as divisas de sargento, apesar do analfabetismo. Contra Lampião valia mais a pena uma pessoa “alfabetizada” no cano da espingarda.

O sargento Quelé era a valentia em pessoa e extremamente calejado nas lutas do sertão. Logo monta uma volante que se tornou conhecida como “Coluna Pente Fino” e que também ficou famosa na história do cangaço pela selvageria como combatia os inimigos e infligia o terror aos que apoiavam os bandos de cangaceiros. Muitos dos seus parentes fizeram parte do grupo.

Se não faltam relatos de valentia do seu pessoal, infelizmente não faltam informações que inúmeros inocentes sofreram nas mãos dos homens de Quelé, além de vários atos de pura rapinagem.

Caminhos do sertão

De toda maneira o “investimento” do governo da Paraíba em Quelé não foi em vão. Três anos e meio depois dos combates no sítio Conceição, no dia 14 de junho de 1927, ele e seus homens eram a primeira força policial a adentrar em Mossoró, após a fracassada tentativa de Lampião para conquistar a maior cidade do interior potiguar.

Durante a chamada Revolta ou Sedição de Princesa, na Paraíba, Clementino Quelé esteve lutando ao lado das tropas do governador João Pessoa, contra os homens do chefe político de Princesa, o coronel José Pereira. Foram sérios combates, com muitas mortes e atos de verdadeira selvageria.

Para conhecer maiores detalhes destes episódios ver –http://www.triunfob.com/2010/09/um-fato-da-historia-do-cangaco-na.html e https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/06/07/a-batalha-do-casarao-dos-patos/

A Chegada na Prata

Para seu Zoroastro, cujo pai era o barbeiro da cidade, consta que em Alagoa do Monteiro, onde o famoso guerreiro nordestino estava destacado, ele conheceu uma mulher com quem passou a ter um relacionamento e Quelé passou a permanecer mais tempo no Cariri Paraibano.

Seu Pedrosa informa que o ano da chegada do sargento Clementino Quelé a Prata foi em 1933 e ela teria acontecido devido um crime que ocorreu na região no ano anterior. Este problema foi uma invasão de propriedade, seguido do roubo de ração para o gado. O proprietário deu parte e foi aberto um inquérito. Tempos depois o sargento Quelé chegou ao pequeno distrito com outros militares e trazendo ordens do juiz de Monteiro para conduzir os invasores para a prisão.

Matriz de Nossa Senhora do Rosário, Prata, Paraíba

Apesar de chegar ao lugarejo para cumprir a lei, Seu Pedrosa informa que o sargento Quelé foi muito bem recebido pelo fazendeiro Ananiano Ramos Galvão, líder político do lugar. O sargento soube que a Prata estava crescendo e que havia uma pequena delegacia, mas não havia alguém com a sua patente para comandar o diminuto destacamento de dois soldados, um deles conhecido como “Mané Soldado”.

Logo a cidade soube que um novo sargento fora para lá designado e quando eles receberam a notícia de quem era o indicado, a comunidade se alvoroçou, pois o nome do sargento Clementino Quelé imprimia medo e terror em todo o sertão.

O sargento era sempre lembrado entre os habitantes locais pela forma violenta como sua volante agia, as inúmeras mortes cometidas por ele e seus homens, os vários combates contra Lampião e outras histórias que acompanhavam o “Tamanduá Vermelho” para onde ele seguia.

Evidentemente que a comunidade tinha medo do que aquele homem, que a nada temia, poderia passar a fazer contra eles devido a sua posição.

E afinal, porque este militar iria deixar um posto em Alagoa do Monteiro, uma cidade maior, para trabalhar em um lugarejo diminuto e pobre?

Além do mais na Prata os problemas que o valente Quelé iria enfrentar estavam bem longe da guerrilha que era o cangaço e das batalhas que ocorreram na Guerra de Princesa. No lugarejo o que mais perturbava a ordem eram as brigas de família, bebedeiras, pequenos roubos e coisas consideradas leves.

Seu Pedrosa informa que em pouco tempo o sargento Clementino Quelé chegou com seus “teréns” na carroceria de um caminhão, acompanhado de sua mulher chamada Alice e seus filhos. Em meio ao espanto geral ele alugou uma casinha e assumiu a função de delegado.

Um Bravo Que Desejava Ficar em Paz

Logo todo o sertão do Cariri Paraibano comentava que na Prata estava morando o sargento Quelé. O mesmo que era cantado em verso e prosa como “O valente que mais vezes brigou com Lampião”.

Não obstante a desconfiança inicial, além do fato de Quelé ser caladão e taciturno, a vida continuou. Mas o povo da Prata mantinha “Um olho no peixe e outro no gato” em relação ao novo delegado.

Até porque, na visão de Seu Pedrosa, sua figura como policial era um tanto aparatosa e ostensiva, para uma cidade onde os cachaceiros eram o maior problema. Nas horas em que estava de serviço, segundo as palavras do nosso entrevistado;

“-Quelé estava sempre com sua farda Kaki, quepe policial, um punhal atravessado no cós da calça, um vistoso e grande “Parabellum” pendurado na cartucheira e um rifle na mão.

Logo todos perceberam que apesar de sua sisudez, seu jeito fechado e caladão, seu comportamento junto aos moradores da Prata era extremamente tranquilo e suas atitudes controladas.

Para os entrevistados Quelé era muito “sabido”, pois buscava sempre “ajeitar” as situações com a conversa. Quando havia algum problema, alguma questão, ele utilizava de sua autoridade como policial e resolvia as querelas entre as pessoas da comunidade de forma equilibrada. Além da autoridade do uniforme, evidentemente havia o respeito pelo seu passado de lutas contra Lampião.

Gradativamente ele foi sendo bem aceito.

Não praticava o extermínio frio de bandidos, mas era conhecido pela moral e honestidade, além de ser considerado muito justo na sua atitude como policial, em uma forma de agir bem diferente dos tempos do cangaço. Os entrevistado afirmaram que durante o tempo em que lá esteve, não existe informações que Quelé recebia propina, tanto que morreu pobre.

Mas também não aceitava o furto e o roubo de animais de forma alguma. Se algum ladrão sem vergonha caísse na sua mão com estes crimes, segundo Seu Pedrosa;

“-Se fosse pro lado do furto de coisas e bichos, ele não dava cobertura e a peia (surra) era grande”.

Casa de Clementino Quelé na Prata

Sem ter muito problemas policiais para resolver, Clementino Quelé foi comprou uma pequena gleba de terra. Trabalhava nas horas vagas como agricultor e vendia sua pequena produção de milho e feijão na feira semanal. Era considerado um homem muito esforçado. Esta propriedade era perto do antigo sítio de Manoel Lindoso, a quem Seu Pedrosa considera o fundador da localidade.

Consta que para dar um “corretivo” nos presos, normalmente pinguços que enchiam a cara de cachaça nos bares, Quelé os levava para a sua terrinha, entregava uma enxada e mandava os detidos brocarem o terreno. Mas ficava ali do lado com o “Parabellum” no cinto.

O sargento não era visto com uma garrafa de pinga na sua frente e não andava bêbado pelas ruas.

Logo todos na Prata perceberam que o velho combatente queria ficar em paz no seu lugar. Paz para estar ao lado de sua Alice e de seus filhos.

Consta que Quelé havia sido casado com uma Senhora conhecida como “Toinha” e desta união nasceu uma filha e um filho chamado Zacarias. Depois, em Alagoa do Monteiro, ele se uniu a Alice e vieram mais três filhas.

Novo Encontro com Cangaceiros e Quem Era Lampião para Quelé

Naquele tempo Quelé, em algumas ocasiões e por ordem do Poder Judiciário, saiu da cidade para atuar em funções policiais. Mas em 1936 o sargento foi convocado para perseguir um grupo de cangaceiros que atacou a região próxima a Monteiro.

Jornal natalense “A Republica”, 23 de maio de 1936

Os nossos entrevistados não esquecem o desassombro e o impacto que causou no lugarejo a passagem deste bando que era comandado pelo chefe alcunhado “Moderno”, cujo nome real era Virgínio Fortunato da Silva. Este havia sido cunhado de Lampião, andava com ele a anos e era pessoa de sua extrema confiança.

Apesar de todo este medo e apreensão, os cangaceiros não passaram pela Prata e não consta que Quelé tenha novamente mantido algum combate contra Virgínio.

Fui informado que o assalto do bando de Virgínio foi extremamente rentável, mas que após a região do atual município de Camalaú, ponto máximo alcançado pelo grupo de cangaceiros em 1936, havia interessantes e ricas propriedades, principalmente nas proximidades da atual cidade paraibana de Barra de São Miguel. As testemunhas acreditam que este cangaceiro não seguiu adiante na sua rapinagem, justamente porque Virgínio sabia que ali perto se encontrava “um velho conhecido”.

Se isso é verdade eu não pude apurar e somente uma pesquisa específica para checar a veracidade desta informação.

Seu Pedrosa comenta que não tinha maior aproximação com Quelé, mas nunca deixou de ficar por perto quando o velho combatente conversava com os amigos da cidade sobre seu passado de lutas.

Fim de Lampião

Uma situação interessante foi no dia 28 de julho de 1938, quando Lampião e seu bando foram massacrados na Grota do Angico, várias pessoas da pequena urbe vieram até o sargento Quelé para narrar o acontecido. O espanto foi a sua quase total ausência de emoção. Apenas balançou a cabeça e nada falou.

Mas Seu Pedrosa comentou que nas palestras que ouviu de Quelé, escutou uma ocasião em que ele descreveu Lampião como sendo “-Um valente”. Para quem conheceu o sargento, este demonstrava um enorme ódio do “Rei do Cangaço”, mas também muito respeito.

Uma coisa que chamou atenção dos entrevistados foi que Clementino Quelé nunca negou que esteve lado a lado com Lampião no seu bando e que, devido às desavenças com este chefe cangaceiro, pagou um preço muito alto com a morte de vários familiares.

Sobre os familiares sobreviventes, soube que para a Prata vieram viver dois irmãos de Quelé, mas em circunstâncias bem diferenciadas do sargento que protegia a localidade.

Havia um deles, de nome José, mas conhecido como Zé Quelé, que era soldado da polícia paraibana e servia para os lados da região de Mãe D’Água, onde praticou um crime de morte. Ele busca então apoio no irmão Clementino, que não nega ajuda. Zé Quelé ficou homiziado nas proximidades, mas não vinha a feira, algumas vezes dormia nos matos e logo toda a cidade da Prata sabia daquela situação. Mas ninguém o denunciou.

Evidentemente que havia medo nesta conta, mas também houve um acordo tácito entre a comunidade e o delegado Clementino. Além disso ele era Clementino Quelé e não valia a pena uma inimizade com este homem.

Já o outro irmão era conhecido como Nezinho, também policial, mas tido como pistoleiro. Entretanto não criou nenhum problema na Prata.

Respeito

Um fato interessante ocorreu quando Quelé já estava aposentado. Então veio para ser o delegado na pequena localidade um sargento jovem e cheio de disposição. Este vendo Clementino Quelé andar ostensivamente armado, começou a comentar entre as pessoas que;

“-Aquele sargento véio não é mais da Força. Vou desarmar ele”.

Quando Quelé soube não fez nada. Apenas disse;

“-Tô esperando”.

Aparentemente o novo sargento foi mais bem informado quem era o idoso e já um tanto gordo ex-policial. Foi aconselhado que o melhor que tinha a fazer era deixar aquele homem em paz. Quelé nunca foi desarmado por ninguém.

Uma das facetas do valente sargento era sempre receber os chefes municipais e os políticos da região, tanto os de prestígio estadual e até mesmo pessoas de forte presença no cenário político nacional da época.

Nestas ocasiões, mesmo com pouca instrução, o velho perseguidor de Lampião sempre se apresentava bem uniformizado, sendo reconhecido por muitos destes homens do poder, que igualmente o tratavam com deferência.

Inácio Mariano e Walfrido Siqueira, homens fortes de São José do Egito e Jacinto Dantas, do lugar Ouro Velho, eram todos seus amigos e o visitavam quando estavam de passagem pela Prata.

João Agripino de Vasconcelos Maia Filho, de Catolé do Rocha, que foi deputado federal, senador e governador paraibano, quando ainda um jovem politico, fez questão de parar na Prata para conversar com o velho combatente.

José Américo de Almeida Fonte-http://www.onordeste.com

Em 1951, depois de haver realizado um comício em Sumé, o então candidato ao governo paraibano, José Américo de Almeida, veio a Prata em campanha eleitoral. Não era nenhuma surpresa a presença de políticos em campanha pela pequena cidade para pedir votos. Mas surpresa mesmo para muita gente foi quando o grande político e formidável homem de letras paraibano, autor de “A Bagaceira”, pediu para se encontrar com o sargento Clementino Quelé.

Os mais jovens não sabiam, mas José Américo havia sido um dos comandantes das forças legalistas do governador João Pessoa contra as tropas do coronel José Pereira, da cidade de Princesa, e o sargento Quelé foi um dos seus comandados. Houve um encontro de velhos conhecidos, cercado de alegria e abraços.

Paz no Fim da Vida

Uma coisa animava Clementino Quelé, visitar o coronel Manuel Benício, antigo caçador de cangaceiros e oficial da Polícia Militar da Paraíba. Segundo Seu Pedrosa, o coronel Benício morava em Pombal e ocasionalmente estes sertanejos afeitos as armas se encontravam nesta cidade para rememorar e conversar.

Outro local onde Quelé ocasionalmente visitava, era a região de Triunfo e Santa Cruz da Baixa Verde, em Pernambuco. Ali ele viveu momentos de muita tensão, mas não deixava de visitar amigos e parentes.

Conforme os anos foram passando o velho combatente ficou mais a vontade na cidade, frequentava bastante a igreja de Nossa Senhora do Rosário, passou a ser mais falante, mais tranquilo, mais alegre. Não tinha nenhum problema de narrar, como assim fez com várias pessoas, sobre suas andanças no cangaço, a entrada na polícia, a perseguição a cangaceiros e tinha um extremo orgulho em dizer que combateu Lampião em mais de 20 ocasiões distintas. Seu Zoroastro comentou que perdeu as contas em que o velho sargento vinha à casa de seu pai e narrava os episódios do passado. Quelé só não gostava de comentar sobre a “Guerra de Princesa”.

O problema é que suas histórias, para os ouvidos incautos, eram tão mirabolantes, tão incríveis, tão fantásticas, que muitos comentavam, principalmente os mais jovens, que o sargento Clementino Quelé era “mentiroso”. Já os mais velhos, que tinham escutado muito cantador de feira declamar em verso e prosa as peripécias daquele homem e diziam a moçada que tomassem cuidado, pois aquelas histórias eram totalmente reais. Tanto assim que ninguém nunca chegou na frente de Quelé para perguntar se o que ele falava era verdade ou não.

Uma situação que ele gostava de comentar e que tinha muito orgulho, foi o fato do seu filho Zacarias ter se tornado um alfaiate renomado na cidade e suas filhas não lhe darem problemas. Falava que sua família  “-Podia ser pobre, mas eram pessoas de bem e não se meteram em questões”.

Possível túmulo de Quelé

Clementino Furtado, segundo Seu Pedrosa, faleceu em 1955, ainda lúcido. Até o fim nunca deixou de andar com uma arma na cintura e tem certeza que ele morreu em paz.

Para as pessoas com quem conversei, ele era um homem normal, não deixava transparecer as perturbadoras experiências que viveu. Na opinião dos velhos moradores da Prata, que na época eram jovens, admiravam o antigo caçador de cangaceiros e ficavam extasiados com a memória das velhas lutas daquele valente, o grande fator de sua mudança foi a mulher Alice, verdadeiro porto de paz e tranquilidade em sua vida.

No dia do seu falecimento a cidade parou. Veio gente de toda a região e várias autoridades foram ao velório. Para nossos entrevistados todos sentiram a sua morte.

Seu filho Zacarias, suas filhas e o irmão Nezinho foram com o tempo para Campina Grande. Já Zé Quelé, apesar do seu problema com a justiça, nunca foi preso e ficou mesmo pela Prata.

Aqui o amigo Ary Prata, professor e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri Paraibano. Um agradecimento especial pelo apoio na sua simpática cidade

Tentei encontrar seu atestado de óbito, ou alguma informação da data de seu falecimento no cemitério local, mas nada consegui.

As pessoas da região me apontaram um túmulo recentemente pintado, mas sem nenhuma indicação que ali seria o local de seu repouso eterno. Fotografei o local, mas sem uma comprovação eficiente, afora a palavra das pessoas desta simpática cidade.

Mas ocorre uma situação interessante.

Fiquei intrigado, pois sabia não haver mais familiares de Quelé na Prata, então quem conservava seu tumulo?

Comentaram-me que pelo respeito a sua pessoa, a sua história tão marcada pelas inúmeras lutas e pelos bons serviços que o velho combatente realizou na cidade, seu antigo túmulo é conservado pela comunidade.

MAIS UMA VEZ AGRADEÇO AO AMIGO ARY PRATA E AO ADVOGADO ANTÔNIO ELIAS DA SILVA, MAIS CONHECIDO COMO “TÔTA”. MEMBROS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO CARIRI PARAIBANO . MUITO OBRIGADO PELO APOIO E ATENÇÃO.

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A BATALHA DO CASARÃO DOS PATOS

Um episódio da (quase) esquecida Guerra de Princesa, na Paraíba

Autor – Rostand Medeiros

Ao longo da história da região Nordeste do Brasil, não faltam ocorrências que perpetuam a valentia de alguns e a covardia de muitos. Onde muitas histórias são regadas a sangue, com muitos tiros, correrias e tropelias.

Em toda a região os relatos sobre estes fatos são continuamente passados as novas gerações, muitas vezes através da tradição oral, do folheto de cordel, sendo depois documentados em livros, servindo então de temas para teses acadêmicas, que contestam ou corroboram os fatos. Outras vezes o espectro é ampliado e estas sagas chegam ao teatro, a televisão e ao cinema. Mas a tônica é uma só; estes episódios são sempre conhecidos e repetidos pela região.

Localização de Patos do Irerê e Princesa Isabel no mapa da Paraíba, onde está o casarão

Neste sentido, é de se estranhar que atualmente na região ocorra um acentuado desconhecimento e uma estranha falta de informações sobre o conflito deflagrado no ano de 1930, na região da atual cidade paraibana de Princesa Isabel, próximo à fronteira com Pernambuco e conhecido como a “Guerra ou Sedição de Princesa”.

Um Cruel Momento da História Paraibana

Esta guerra (e não a nenhum exagero de assim chamá-la) foi pródiga de episódios interessantes e cruéis, onde tudo começou através de discórdias políticas e econômicas, envolvendo poderosos coronéis do interior do estado e o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.

Governador João Pessoa

João Pessoa discordava da forma como o grupo político que o elegera conduzia a política paraibana, onde era valorizado o grande latifundiário de terras do interior, possuidores de grandes riquezas baseadas no cultivo do algodão e na pecuária. Estes “coronéis” atuavam através de uma estrutura política arcaica, que se valia entre outras coisas do mandonismo, da utilização de grupo de jagunços armados, da conivência com grupos de cangaceiros e outras ações as quais o novo governador não concordava.

Entre os embates ocorridos, podemos listar uma maior perseguição do governo estadual aos grupos de cangaceiros e a cobrança de taxas de exportação do algodão. Por esta época, os coronéis exportavam o produto principalmente através do principal porto de Pernambuco, em Recife, provocando enormes perdas de divisas tributárias para a Paraíba. Procurando evitar esta sangria financeira e efetivamente cobrar os coronéis, João Pessoa implantou diversos postos de fiscalização nas fronteiras da Paraíba, irritando de tal forma estes caudilhos, que pejorativamente passaram a chamar o governador de “João Cancela”.

O coronel José Pereira

Os embates políticos entre o governador e os coronéis foram crescendo. A maior liderança entre estes poderosos, sem dúvida foi o coronel José Pereira Lima, verdadeiro imperador da região oeste da Paraíba, na área da fronteira com Pernambuco, tendo como base, a cidade de Princesa. Do embate entre estes dois homens resultou em um dos maiores conflitos armados do Brasil Republicano.

Sertão em Armas

A contenda teve início em 28 de fevereiro de 1930, quando ocorreu a invasão da então vila do Teixeira (PB), por parte da polícia paraibana, com o aprisionamento da família Dantas, ligada por profundos laços de parentescos e interesses ao coronel José Pereira.

Apesar de governador João Pessoa não contar com o apoio do Palácio do Catete, onde o titular, Washington Luís, não viabilizou uma efetiva ajuda as forças policiais paraibanas, o mandatário paraibano foi à luta.

José Pereira e seus comandados durante a Guerra de Princesa

Com o apoio discreto, mas efetivo, do Presidente da República e dos governadores de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, e do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria, o coronel José Pereira decidiu criar o “Território Livre de Princesa” com absoluta autonomia, separando-se durante o período do conflito do restante do estado da Paraíba.

Princesa se tornou uma fortaleza inexpugnável, resistindo palmo a palmo ao assédio das milícias leais ao governador João Pessoa. O exército particular do coronel José Pereira era estimado em mais de 1.800 combatentes, onde diversos desses lutadores eram egressos das hostes do cangaço e muitos eram desertores da própria polícia paraibana.

No lado do presidente João Pessoa, suas tropas estavam sob o comando do Coronel Comandante da Polícia Militar da Paraíba, Elísio Sobreira, do então Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, e do Secretário de Interior e Justiça, José Américo de Almeida. Na tentativa de desbaratar os sediciosos de Princesa, estes comandantes dividiram os efetivos policiais, compostos por cerca de 890 homens, em colunas volantes.

Como a guerra era vista no Rio de Janeiro

No povoado de Olho D’Água, então pertencente ao município de Piancó (PB), estava aquartelado o comando geral de operações da polícia paraibana, que decidiu enviar à Princesa uma de suas colunas volantes, conhecida como “Coluna Oeste”. Esta coluna era comandada pelo Tenente Raimundo Nonato, que tinha entre seus principais comandados o valente sargento Clementino Furtado, mais conhecido como Clementino Quelé, ou “Tamanduá Vermelho” (por ser branco e ficar “avermelhado” quando nervoso).

Clementino Quelé

Quelé era a valentia em pessoa, calejado nas lutas do sertão, podia se vangloriar de possuir no seu “currículo”, mais de vinte combates contra Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Foi a volante de policiais comandadas por Quelé, a primeira a entrar em Mossoró, em 13 de junho de 1927, perseguindo Lampião e seu bando, logo após este ter tentado invadir esta importante cidade potiguar.

Composta de valentes combatentes foi para a “Coluna Oeste”  que o comando designou uma missão especial.

Marcolino Diniz na época da Guerra de Princesa

Em Princesa, entre um dos mais importantes líderes das tropas locais estava o fazendeiro Marçal Florentino Diniz, poderoso e influente agropecuarista da região, que juntamente com seu filho, Marcolino Pereira Diniz, eram parentes e pessoas da inteira confiança do coronel José Pereira. O coronel Marçal Diniz possuía no então distrito de Patos de Princesa, a 18 quilômetros da cidade, uma fazenda localizada no sopé da grande serra do Pau Ferrado, o segundo ponto mais elevado da Paraíba, com cota máxima em torno de 1.120 metros de altitude e foi para esta fazenda que o comando da polícia paraibana ordenou que Clementino Quelé atacasse a casa grande do poderoso coronel.

O Assalto de Quelé

Este episódio é conhecido na região como o “Fogo ou Batalha do Casarão dos Patos”.

A ideia deste ataque visava dividir as forças do coronel José Pereira, que teria de retirar homens da frente de combate de Teixeira, para socorrer os familiares da família Diniz que estavam no casarão, bem como formar com as reféns uma espécie de cordão de isolamento, um escudo humano, que objetivava garantir a segurança dos militares. Pensavam que, agindo assim, nenhum defensor de Princesa ousaria atirar nos combatentes do governo paraibano.

A imprensa oficial potiguar e o próprio governo de Juvenal Lamartine eram contra João Pessoa e a favor de José Pereira

Outra teoria seria a de levar as mulheres como prisioneiras, ou reféns, para a cidade de Paraíba do Norte (atual João Pessoa) e forçar os comandantes de Princesa a alguma espécie de negociação.

No dia do ataque, 22 de março de 1930, Quelé e seus policiais, em número estimado entre sessenta para alguns, e entre setenta a cem homens para outros, seguiram atravessando a zona urbana da pequena vila de Alagoa Nova (atual MANAÍRA-PB) e daí subiram a grande Serra do Pau Ferrado. Ao passarem pela propriedade de Antônio Né, pessoa ligada à família Diniz, no homônimo Sítio Pau Ferrado, assassinaram um cidadão por nome Silvino, depois, desceram a serra.

Dona Xandu, imortalizada pelo grande Luís Gonzaga na música “Xandusinha”

Não havia muitos defensores pertencentes aos grupos do coronel José Pereira, ou de Marcolino Diniz e a força policial de Quelé ocupa o local sem maior oposição. Na casa estavam entre outras pessoas, às mulheres de Marcolino Diniz, Alexandrina Diniz (também conhecida como Dona Xandu, ou Xanduzinha) e a de Luís do Triângulo, Dona Mitonha. Luís do Triângulo era um dos mais valentes e destacados chefes dos combatentes de José Pereira.

Neste interregno, o grupo de combate comandando por Marcolino encontrou um soldado da polícia de nome Zeferino, o qual seguia com uma mensagem do Sargento Quelé ao Delegado Geral do Estado, Severino Procópio, informando da ação contra o casarão.

O Casarão em 2006

José Pereira e Marcolino Diniz recebem a notícia da prisão de seus familiares. Eles tomam esta ação como um acinte, uma falta de respeito e preparam o contra ataque. Ordenam que uma parte de suas tropas que combatiam as forças policiais do governador João Pessoa na região de Tavares, se deslocasse para Patos de Princesa e ordenam que os homens levem farta munição. Outros combatentes conclamam moradores da região para o ataque, enaltecendo a covardia de Quelé, que usava mulheres como escudos. Este chamamento dos líderes de Princesa e de seus homens encontra eco entre membros das comunidades de Princesa e Alagoa Nova e estes decidem seguir com o grupo que vai retomar o “Casarão dos Patos”.

A Batalha Pela Reconquista do Casarão

Na noite do segundo dia após o bem sucedido ataque de Quelé, a situação permanece inalterada. Segundo relatos dos reféns, os soldados, com raras exceções, se portaram de forma vândala e arrogante durante a ocupação.

Na minha última visita a casa já praticamente coberta pelo mato

Enquanto isso os combatentes de Princesa vão discretamente fechando o cerco ao casarão. Aparentemente, por falta de comunicação com seus comandantes, Quelé não abandonou a posição e levou seus prisioneiros. Outros acreditam que ele logo percebeu que estava cercado e esperou o inevitável.

O certo é que na manhã do terceiro dia de ocupação, o céu se apresentava nublado, os defensores do casarão estavam tranquilos, apesar da tensão existente na região. Alguns esperavam o café, outros até jogavam uma improvisada partida de futebol (possivelmente com uma bola de meia), no pátio defronte a casa. É quando o primeiro tiro é detonado em um soldado que vinha do Sítio Pedra e trazia um carneiro para abate, aí tem início um inferno no “Casarão dos Patos”.

A polícia estava cercada na casa, se defendendo como podia, o sargento Quelé vai animando seus policiais em meio a uma intensa troca de tiros e insultos entre as forças combatentes.

Lateral do casarão, mostrando a construção maciça

Marcolino Diniz, à frente dos seus homens, está com o “cão no couro”, comandando, disparando e mandando buscar cachaça nas bodegas da pequena vila de Patos de Princesa para “esquentar” seus “cabras”. Esta cachaça era trazida em sacos, distribuída francamente entre seus combatentes. Até hoje se comenta na região como os distribuidores da bebida terminaram os combates totalmente embriagados e sem dispararem um só tiro.

O tiroteio é cerrado. Colocar a cabeça muito exposta nas janelas do casarão é motivo para que algum policial se torne um alvo fácil. Já os homens de Diniz continuam disparando sem cessar. Eles estão espalhados em todo o perímetro, protegidos por árvores, pedras, pelos muros e paredes das poucas casas vizinhas.

O combate prolongou-se até às dezesseis horas do mesmo dia, quando a polícia praticamente estava sem munição e seus disparos tornam-se esparsos. É quando os homens de Marcolino, aproveitando uma forte chuva que desabava e a existência de um canavial nas imediações do casarão, partem para o assalto final.

Sótão do casarão. Neste local, segundo os moradores da região, vários soldados paraibanos foram mortos. Até algum tempo atrás ainda haviam marcas de sangue nas paredes

Durante a invasão é travado um forte combate corpo a corpo em cada uma das dependências da casa. Gritos, pancadas, socos, pontapés, dentadas, tiros, facadas e sons de lutas ocupam o ambiente. Os homens de Quelé procuram à fuga, mas estando o casarão cercado, muitos são abatidos impiedosamente pelos combatentes de Marcolino.

Alguns policiais fugiam feridos ou não, pelo mesmo canavial que serviu de abrigo para os atacantes e de lá seguiam para a serra do Pau Ferrado. Nesta fuga, muitos combatentes se cruzavam, às vezes cara a cara, dentro do canavial e tiros ou facadas eram desferidas a curta distância.

O mato é tanto, que só derrubando algumas plantas para entrar no local

Marcolino, atiçado pela bebida e já dentro do casarão, prometia aos gritos “vou sangrar todo mundo, até Xandu” que no seu entendimento de valentão do sertão, com um pensamento extremamente machista, imaginava que a sua mulher já havia sido estuprada e aí só “sangrando para limpar o corpo”. Mas Xandu e as outras mulheres estavam bem e foram preservadas por Quelé e seus homens. Todas estavam em um quarto, acompanhadas de um soldado ferido na perna, que conseguira desarmar uma bomba (ou granada?), que o sargento Quelé colocara no recinto. O soldado salvou a vida das reféns, sendo igualmente salvo pelas mulheres de ser impiedosamente sangrado por Marcolino e seus “cabras”.

Marcas do passado

Após isto, Marcolino e seus homens seguiram pelos vários recintos do “Casarão dos Patos”, chacinando os policiais que não fugiram. Dos militares que lá dentro se encontravam, não sobrou nenhum vivo, pois até o soldado que havia salvado as mulheres, morreu no mesmo dia, devido aos ferimentos, quando era transportado para a vizinha cidade pernambucana de Triunfo.

Marcas Sangrentas

Segundo relatos dos moradores da região, havia até recentemente, em alguns quartos da casa, registros de mãos ensanguentadas nas paredes, mostrando a agonia deste dia terrível.

Um esquecido oratório dentro do casarão

Quanto a Quelé, vendo-se acossado pelos homens de Marcolino e escutando o próprio caudilho dos Patos de Princesa gritando dentro do casarão que “queria pegar Clementino e matá-lo sangrado”, pulou do andar superior, juntamente com dois soldados e juntos fugiram em direção ao canavial. Já era noite quando conseguiram chegar à serra do Pau Ferrado, depois seguem para Alagoa Nova e ao encontro das forças de João Pessoa. O restante dos militares que escapou com vida embrenhou-se em território pernambucano.

Uma dispensa aberta na parede, para guardar mantimentos

Das forças de José Pereira e Marcolino Diniz houve apenas uma baixa, um senhor de nome Sinhô Salviano, possivelmente sob efeito da cachaça, desprezou as ordens e ficou sob a mira dos soldados. Para alguns pesquisadores, as forças paraibanas perderam mais da metade do efetivo, mas segundo os relatos que se perpetuam na região, contados por aqueles que participaram do conflito e transmitidos para seus descendentes, foram mortos em torno de cinquenta policiais, sendo seus corpos enterrados em uma vala comum nas proximidades do casarão. Os equipamentos bélicos dos policiais mortos foram recolhidos pelos combatentes de Princesa para reforço de arsenal.

Fato comum; morador da região com um cartucho de fuzil Mauser intacto, encontrado ao arar o terreno próximo ao casarão.

Final da Guerra de Princesa

Houve outros episódios sangrentos e terríveis na Guerra de Princesa, mas após a morte, em Recife, do governador João Pessoa e a consequente eclosão da Revolução de 30, o conflito em Princesa acabou, era o dia 26 de julho de 1930.

O coronel José Pereira Lima organizou a defesa dos seus domínios de forma impressionante, provocando baixas estrondosas à força pública paraibana durante os quatro meses e vinte e oito dias que durou sua resistência.

A partir de um caminhão foi desenvolvido em Campina Grande um veículo blindado para combater os revoltosos de Princesa

Princesa não foi conquistada pela polícia paraibana. Após a eclosão da Revolução de 30, tropas do exército, de forma tranquila, ocuparam a cidade.

O coronel José Pereira e muitos dos que lutaram com ele fugiram da região e a família Diniz se retraiu diante do novo sistema governamental imposto. O tempo dos caudilhos do sertão estava chegando ao fim, pelo menos naquele formato utilizado por José Pereira.

Com o fim da guerra, a fortuna da família Diniz ficou seriamente comprometida. O combate e, principalmente, a ira dos soldados, destruiu tudo. Canaviais, engenhos de rapadura, moendas, casas e outros bens foram alvo da vingança dos fardados, quase nada escapou.

Depois da Guerra

Mesmo com as perseguições sofridas após o fim da guerra, todos os anos Marcolino Diniz e sua gente, comemoravam o aniversário da retomada do casarão com muita festa.

Marcolino Diniz próximo a sua morte

Marcolino sempre foi um homem controverso, valente, prepotente, astuto e sagaz. Era proprietário das fazendas Saco dos Caçulas e Manga, onde diversas vezes Lampião descansava dos combates. Esta polêmica amizade entre Marcolino e Lampião é bem retratada em um episódio; em 30 de dezembro de 1923, Marcolino, juntamente com seu guarda-costas conhecido por “Tocha”, por conta de uma briga, matam o então magistrado da cidade de Triunfo (PE), o Dr. Ulisses Wanderley. Marcolino fica ferido e é feito prisioneiro na cadeia pública local. Seu pai, o coronel Marçal, recorreu aos préstimos do cangaceiro a fim de libertar o filho. Não demora muito e um grupo armado, com um número de homens estimado em torno de 100 a 150 homens, retira tranquilamente o prisioneiro ferido da cadeia.

Igreja de Patos do Irerê, onde está enterrado Marcolino Diniz

Marcolino e a sua adorável Xandu, continuaram unidos até a morte, tendo seu amor sido imortalizado em 1950, por Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, com a música “Xanduzinha”. Marcolino nasceu em 10 de agosto de 1894 e faleceu em Irerê, em 21 de dezembro de 1980, com 86 anos, conforme está inscrito em sua lapide, na igreja deste atraente lugarejo.

Casa de Marcolino e Xandu em Patos do Irerê

Já o sargento Clementino Quelé sobreviveu à Guerra de Princesa e ainda teria fôlego para perseguir, no ano de 1936, o bando do cangaceiro Virgínio Fortunato da Silva. Conhecido como “Moderno”, foi cunhado de Lampião, homem de sua mais alta confiança, que neste ano investiu contra a região conhecida como “Tigre paraibano”, atacando várias fazendas na área próxima a cidade de Monteiro. Quelé, possivelmente pelo analfabetismo, nunca passou da patente de sargento, tendo morrido idoso na cidade paraibana de Prata. Coincidentemente, Quelé também foi lembrado em uma música de Luís Gonzaga intitulada “No Piancó”.

Quem visita atualmente a antiga Patos de Princesa, atual Irerê, município de São José de Princesa, com suas casas antigas e bem preservadas, nem imagina que o carcomido e arruinado casarão existente no fim da rua principal, foi palco de tamanho conflito.

O grande amigo Antônio Antas apontando a área onde o pessoal de Princesa atacou as tropas de Quelé. Uma verdadeira memória viva da região

Mesmo em ruínas, o casarão impressiona pela imponência da sua estrutura, pela grandiosidade da sua construção. Nele existe um andar superior, com dois sótãos independentes, vários quartos e dependências, sendo um exemplo do poder emanado pelos coronéis da região. Em meio ao silêncio atual, se o visitante puxar pela imaginação, é possível ouvir os sons da batalha ali ocorrida no longínquo ano de 1930.

Nota – Especificamente sobre o “Fogo do Casarão dos Patos”, utilizo principalmente as lembranças de várias pessoas que vivem na região de Princesa Isabel, Irerê e Manaíra. Sendo as informações do senhor Antônio Antas Dias, residente na cidade de Manaíra, as narrativas mais utilizadas. Este senhor comentou sobre este momento histórico, em uma entrevista concedida no dia 14 de agosto de 2006. O Sr. Antônio Antas tinha 61 anos na época da entrevista, onde as informações que ele prestou lhe foram transmitidas principalmente por Marcolino Diniz, de quem era parente, pelo guarda costas deste último, Manoel “Ronco Grosso” Lopes, por José Florentino Dias, seu pai, e pelo senhor Sebastião Martins, morador do atual distrito de Irerê.

Igualmente utilizei os trabalhos do amigo e professor de geografia José Romero Araújo Cardoso, lotado na UERN-Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, em Mossoró. Estes artigos são “Marcolino Pereira Diniz e Xanduzinha: Imortalizados através da arte de Luiz “Lua” Gonzaga”, no link –

http://www.turismosertanejo.com.br/?target=artigos&id=69

Outro Trabalho do professor Romero, ao qual utilizei material para a confecção deste artigo, foi uma série de interessantes entrevistas realizadas entre 1989 e 1991, com diversas testemunhas sobre episódios do cangaço e da Guerra de Princesa, que está inserido no link –http://www.marcoslacerdapb.hpg.ig.com.br/romero/cangaco.htm

 – Este artigo já havia sido anteriormente publicado e reproduzido em sites de vários de amigos por este Nordeste afora, que colocam a devida referência em relação ao autor e vários outros sites que nem se preocupam com isso. Mas decidi colocar o meu próprio blog, com novas fotos para quem gosta destas antigas histórias do nosso sertão.

Um detalhe importante. Já faz um tempo que não vou por lá, nem sei se o casarão está mais de pé, mas se tiver, visite enquanto é tempo.

 Um abraço a todos

 Rostand 

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QUANDO LAMPIÃO QUASE FOI ANIQUILADO

O COMBATE NA LAGOA DO VIEIRA

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Nos primeiros meses do ano de 1924, o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o temido Lampião, mantinha junto com seu bando uma intensa atividade de pilhagens, assaltos e ataque aos seus inimigos na região fronteiriça entre os estados de Pernambuco e da Paraíba. Neste setor não eram incomuns as notícias dos cangaceiros nas cidades de Princesa (PB), Triunfo e São José de Belmonte (PE). São deste período dois grandes ataques do bando de Lampião contra o ex-companheiro de cangaço, Clementino Furtado, ou o famoso “Clementino Quelé”.

Lampião

Segundo o livro “Pernambuco no tempo do cangaço, Volume I”, de Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho (Recife,2002), em sua página 328, informa que segundo o Boletim Geral nº 05, da Polícia Militar de Pernambuco, as primeiras horas da manhã de seis de janeiro e 1924, dia dedicado aos Santos Reis, o chefe cangaceiro atacou um sítio próximo a vila de Santa Cruz, atual cidade de Santa Cruz da Baixa Verde, a apenas seis quilômetros de Triunfo, acompanhado de um grupo de cangaceiros calculado em sessenta homens.

Durante seis horas de nutrido tiroteio, Clementino Quelé suportou juntamente com outros membros de sua família, uma terrível provação. Mesmo tão próximo a cidade de Triunfo, somente as onze daquela manhã foi que o sargento Higino Belarmino, ordenou o deslocamento de sua tropa para salvar os sitiantes. Diante do fogo dos policiais, Lampião ordenou a retirada. Na casa ficaram três mortos, sendo um deles irmão de Quelé, e um ferido.

Não satisfeito pelo fato de ter conseguido matar o ex-companheiro de bando, o chefe Lampião retorna cinco dias depois a casa de Quelé, com igual número de cangaceiros, e reinicia o ataque. Aparentemente desta vez a tropa veio em socorro dos sitiantes mais rapidamente. Entretanto, como na ocorrência anterior novamente Quelé perdeu outros parentes e amigos.

Diante da situação, Clementino Quelé o homem que suportou is ataques de Lampião, cruzou a fronteira e seguiu para a cidade de Princesa, onde através da influência do “dono” do lugar, o coronel José Pereira, sentou praça na polícia paraibana. Ele recebeu a patente de sargento e tratou logo de montar uma força volante para caçar seu maior inimigo e o seu bando.

Diante da repercussão destes combates, as forças policiais dos dois estados aumentam a pressão contra os cangaceiros. Pelos próximos dois meses circulam notícias da presença do bando na proximidade da vila de Nazaré e informações de um assalto ao sítio São Domingos. (Ferraz, op. cit. Págs. 331 e 332).

Theophanes Ferraz Torres, o notório oficial da polícia pernambucana

Entre os oficiais da polícia pernambucana que desejavam capturar, ou abater, Lampião estava o major Theophanes Torres Ferraz. Aos 30 anos de idade, este militar era considerado uma verdadeira lenda no seio da corporação em que atuava. Ferraz havia se notabilizado pela prisão do famoso cangaceiro Antônio Silvino, em novembro de 1914, após o tiroteio ocorrido no sítio Lagoa da Laje, na zona rural do atual município pernambucano de Vertentes. Há algum tempo ele estava baseado na cidade de Vila Bela, atual Serra Talhada, atuando no desbaratamento de grupos cangaceiros.

Considerado atuante, enérgico e determinado, o nome do major Ferraz é visto costumeiramente nas páginas dos antigos jornais conservados na hemeroteca do Arquivo Público do Estado de Pernambuco. Estes periódicos estampavam principalmente seus telegramas destinados a Eurico Souza Leão, então Chefe de Polícia de Pernambuco, cargo atualmente equivalente ao de Secretário de Segurança. Nestes relatos o major Ferraz dava conta da atuação da força policial no interior.

Em março de 1924, a frente de uma tropa de vinte e cinco policiais, o major Ferraz seguiu de Vila Bela para várias localidades da região do Pajeú pernambucano. Consta que uma das missões do major Ferraz era arregimentar o maior número de homens para formar uma grande volante destinada a combater os cangaceiros que assolavam a região.

Um dos locais para onde a tropa seguiu foi a Serra do Catolé, distante cerca de 30 quilômetros de São José de Belmonte. Este elevado maciço granítico, que possui altitudes que ultrapassam os mil metros, está fincada na região onde as fronteiras dos estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba se encontram, tendo seu nome originado a partir da existência de uma grande quantidade de pequenas palmeiras conhecidas como coqueiro catolé. A força policial chegou à região da serra no dia 23 de março.

Na capa do jornal recifense “A Notícia”, de 26 de março de 1924,com a narrativa do combate da Lagoa do Vieira feito pelo major Ferraz.

Segundo João Gomes de Lira, ex-oficial da Polícia Militar de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião na década de 1930 e autor do livro “Memórias de um soldado de Volante” (Recife,1990), informa na página 129 que ao passarem pela  serra, os policiais souberam que três cangaceiros montados em alimárias haviam seguido em direção a região da fronteira da Paraíba. Provavelmente o major Ferraz recebeu a informação que entre os membros daquele pequeno grupo de bandidos estava Lampião e partiu para a perseguição.

Antônio Amaury Correa de Araújo e Vera Ferreira, autores do livro “De Virgulino a Lampião” (São Paulo,1999), na página 96, informam que o chefe cangaceiro seguia com os companheiros que tinham a alcunha de Moitinha e Juriti. Para estes autores os celerados seguiram para a região da Lagoa do Vieira, na intenção de receberem uma encomenda feita a um coiteiro da região.

Durante a nossa visita a região (dezembro de 2008) a área apontada como sendo a Lagoa Vieira estava praticamente seca-Foto Alex Gomes

Por volta das dez horas da manhã os policiais vinham cautelosos ante a aproximação dos cangaceiros. Segundo Lira (op. cit. Pág. 129), o major Ferraz determinou que habitantes da região que buscassem o rastro dos fora das lei. Nesta movimentação os policiais ouviram a aproximação de alimárias, viram os três homens montados e o tiroteio começou.

Logo o animal que transportava o chefe cangaceiro caiu varado de balas e um destes disparos igualmente atingiu o calcanhar direito de Virgulino. O cavaleiro caiu ao solo, onde na seqüência a sua montaria tombou sobre seu pé ferido e Lampião ficou momentaneamente preso. Se não fosse a ação destemida de Moitinha e Juriti, provavelmente aquele seria o dia derradeiro do “Rei do Cangaço”.

Próximo a Lagoa Vieira se encontra a famosa Pedra do Reino, palco de trágicos acontecimentos em 1838

Teria sido o próprio major Ferraz quem atingiu o chefe cangaceiro. De alguma forma Lampião se livra do peso do animal morto e mesmo ferido consegue reagir a altura da situação. Logo, segundo a nota publicada no jornal “A Noticia” ele e seus companheiros fogem em direção a uma serra, que o oficial pernambucano declara ser a “Serra da Catinga”, existente nas proximidades.

Foto-Alex Gomes

Segundo as pessoas que atualmente habitam a isolada região da Lagoa do Vieira, o local deste combate é demarcado pela existência de uma árvore do tipo “pau-ferro”, em uma parte mais baixa do terreno, próximo as margens desta lagoa. Em relação aos detalhes deste acontecimento, os atuais moradores não transmitiram muitas informações, mas foram categóricos em apontar o local do combate, através de relatos passados pelos mais velhos.

O abundante rastro de sangue mostra o caminho para onde a tropa deve seguir. Ainda segundo a nota publicada no jornal recifense, a cerca de uma légua de distância, ou seja, seis quilômetros, na altura de um lugar chamado “Barro”, outros cangaceiros vieram em socorro do chefe e montaram o ponto de disparos. Logo a tropa é violentamente atacada em uma emboscada.

Neste ponto a tropa do major Theophanes Ferraz se encontra em desvantagem, o tiroteio cresce e logo claros são abertos no lado dos militares. Em pouco tempo três policiais são feridos, sendo dois com gravidade.

As estradas da região próxima a Lagoa do Vieira são péssimas, mantendo a região ainda bastante isolada.

Em sua nota na imprensa pernambucana, o major Ferraz informa que diante da situação dos dois feridos, os praças Manoel Amaro de Souza, que havia sido atingido no olho direito e de Manoel Gomes de Sá, baleado no braço esquerdo e na coxa direita, ele decidiu se retirar do combate para buscar um local apropriado para aplicar os primeiros tratamentos, além de conseguir a remoção dos mesmos para Belmonte e Vila Bela. Ainda segundo o oficial, os homens atingidos gravemente foram transportados nas costas dos seus companheiros de farda até uma propriedade denominada Montevidéu. O soldado João Demetrio de Souza, o terceiro ferido, este sem gravidade, consegue seguir por seus próprios meios.

Nas imediações desta árvore, neste mesmo antigo caminho de barro, segundo os moradores da região, foi o local onde se deu este combate do dia 23 de março de 1924.

Da parte dos cangaceiros, o ferimento no pé de Lampião preocupa. O cangaceiro paraibano Cícero Costa de Lacerda propõem conduzir o chefe para o alto a Serra das Panelas, que ficava nas proximidades.

Vendo seu ferimento melhorar Lampião Imaginava que, juntamente com seus cangaceiros, todos estavam bem protegidos no alto da grande serra, mas logo ele teria um encontro com um dos seus mais terríveis inimigos, Clementino Quelé.

Na altitude de mil metros da Serra do Catolé, a esquerda o Ceará e a direita a Paraíba. A partir da esquerda para a direita a equipe participante, Alex Gomes, Solón Almeida Netto (Fotógrafos), os nossos guias na região Luiz Severino dos Santos (Morador do Sítio Catolé, no alto da serra e neto do cangaceiro Luís Padre, primo do mítico chefe cangaceiro Sinhô Pereira), Antônio Antas (Grande amigo e verdadeira biblioteca ambulante sobre o cangaço na região, de Manaíra-PB) e o autor deste artigo.