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O NAVIO PIRATA BRASILEIRO

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Combate no alto mar, em pintura do século XIX – Fonte – https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

A História do Navio Negreiro Brasileiro Defensor de Pedro Que Se Transformou Em Um Barco Pirata

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN 

Em 1827 o Império do Brasil era uma nação bem jovem, que apenas cinco anos antes havia deixado de ser colônia de Portugal. O país tinha Dom Pedro I como seu Imperador, que governava em uma época de instabilidades. Era um tempo em que o Brasil era majoritariamente agrário, onde utilizava e dependia da mão de obra escrava vinda da África e tinha no tráfico negreiro através do Atlântico Sul a principal maneira destes cativos chegarem a seus portos.

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Engenho de cana de açúcar na Paraíba na época da invasão holandesa

Mas nessa época a Inglaterra desejava à extinção do tráfico negreiro intercontinental para o Brasil, entretanto suas razões jamais foram por questões humanitárias. Estava no fato do açúcar produzido no Brasil, devido à mão de obra servil, ser bem mais barato do que o produzido nas colônias inglesas do Caribe. Além do que as áreas de plantação nestas colônias caribenhas eram pequenas comparadas com as brasileiras, havia um número de cativos baixo e a escravidão como força de trabalho nestas colônias estava em processo de extinção definitiva[1].

E para acabar com esse tráfico humano os ingleses estavam dispostos a utilizarem até mesmo os canhões de sua poderosa marinha de guerra, a Royal Navy. Dom Pedro I ratificou então um tratado em 13 de março de 1827, que definia um prazo de três anos para extinguir o tráfico de escravos para o Brasil. A partir desta data, quem fosse pego transportando seres humanos cativos no mar seria enquadrado como pirata e a punição básica existente nas leis inglesas para esse tipo de crime marítimo era a forca.

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Dama em liteira carregada por escravos e suas acompanhantes. A escravidão no Brasil foi um grave e grandiosos problema que até hoje se reflete no país de muitas maneiras – Foto Carlos Julião.

Essa situação de pressão estrangeira gerou um grande desconforto entre a elite política e agrária brasileira. Estes poderosos contestaram muito o Governo Imperial por ceder aos ingleses em algo que para eles “prejudicava o Brasil”. Até por que, antes mesmo do final do prazo de três anos, navios brasileiros que estavam vindos da África com escravos e não estavam com toda a parte burocrática em concordância com as regras impostas pelos ingleses, começaram a ser detidos pelas naves de guerra. Foram criadas duas comissões mistas com a finalidade de resolver estas questões de retenção e apresamento de navios. Uma das sedes destas comissões era no Rio de Janeiro e a outra na cidade de Freetown, na África Ocidental Inglesa, hoje capital de Serra Leoa[2].

O certo é que entre janeiro de 1827 e dezembro do ano seguinte, nada menos que doze navios negreiros, sendo nove brasileiros e três espanhóis, foram capturados apenas pela corveta inglesa HMS North Star, ocasionando a libertação de um número próximo a 2.000 escravos[3].

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Navio negreiro – Fonte – http://criticallegalthinking.com/2014/05/22/slave-ship-embodies-whole-story-slavery/

Realmente os dias do nefando tráfico de homens, mulheres e crianças negras vindos da África para o Brasil estava chegando ao seu final.

O Defensor de Pedro

Mas se o trafico negreiro estava com seus dias contados, não faltava no Brasil quem quisesse pagar por mão de obra escrava para tocar suas fazendas. Com a consequente diminuição do fluxo e do número de cativos vindos da África, o preço por cada escravo começou a subir. O que atiçou a cobiça dos proprietários de barcos negreiros e dos seus capitães a cruzarem o Atlântico Sul, mesmo sem toda a papelada burocrática e a presença vigilante e perigosa da Royal Navy.

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Rio de Janeiro, entrada da Barra perto do alto-mar, 1820 – Fonte – https://culturalrio.wordpress.com/2011/05/18/rio-ontem-e-hoje-bonito-por-natureza/

Não sei se o proprietário do barco brasileiro Defensor de Pedro havia cumprido todas as exigências da burocracia para satisfazer os ingleses, mas em novembro de 1827 este zarpou do Rio de Janeiro em busca de escravos na África[4]. 

O seu comandante era Pedro Maria de Souza Mariz Sarmento, mais conhecido como Pedro de Souza Mariz Sarmento, era um português de Lisboa, nascido em 1790 e que em 1808 fez parte da esquadra portuguesa que veio para o Brasil com Dom João VI. Na época Mariz Sarmento tinha o posto de primeiro tenente e seguiu para a grande colônia portuguesa a bordo da Nau Afonso de Albuquerque. Mas em 1827 sabemos que ele estava reformado na patente de capitão-tenente da Marinha Imperial do Brasil e sua única função naquele ano era o comando do navio negreiro Defensor de Pedro[5].

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Já em relação ao Defensor de Pedro as informações também são bem limitadas. Algumas fontes apontam que ele seria uma nave do tipo Brigue, que era um modelo de veleiro de dois mastros principais, muito utilizado no comércio e podendo carregar de doze a vinte canhões. Já outras fontes apontam que este barco seria do tipo Bergatin, também um veleiro com dois mastros principais, pequenos, que foram utilizados nos séculos XVIII e XIX para o comércio e transporte normalmente em rotas curtas. Os dois tipos de barcos são bastante similares em dimensões, onde as tonelagens são bem próximas e eram muito rápidos e manobráveis. Populares não apenas entre mercadores, mas também entre piratas[6].

Um Corsário Brasileiro 

No dia 22 de novembro de 1827 o Defensor de Pedro se fez ao mar com destino a Molembo, atualmente o município costeiro de Cacongo, no enclave de Cabinda, Angola.

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Descrição da carga do Defensor de Pedro antes de sair do Rio de janeiro.

A nave transportava várias toneladas de tecidos típicos daquela época, como zuarte e chita, além de caixas com 200 dúzias de lenços. Mas o Defensor de Pedro transportava itens mais explosivos. Tais como 100 barris de pólvora, 12 arrobas de balas de chumbo (equivalente a 180 quilos), 15 caixas com espingardas, 4.600 pederneiras para detonar as armas de fogo, 200 facas de cabo de ferro e 24 pipas (barris) de cachaça. Cada uma das pipas tinha capacidade para cerca de 500 litros, ou seja, aquele barco levava 12.000 litros da mais pura “branquinha” brasileira[7].

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Panorama circular do porto do Rio de Janeiro, 1827 (detalhe), pintado pelo artista inglês Emeric Essex Vidal – Fonte – https://culturalrio.wordpress.com/2011/05/18/rio-ontem-e-hoje-bonito-por-natureza/

Na nota existente no Jornal do Commercio do Rio, temos a informação que o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento tinha uma licença, ou carta, de corso, o que significava que para as autoridades brasileiras o Defensor de Pedro era um barco corsário.

No período inicial do Império do Brasil, assim como noutras nações, nosso país teve a sua marinha corsária e é importante aqui fazer a distinção entre corsário e pirata. Os piratas agiam ilegalmente em tempo de guerra e de paz, sem qualquer regra, sem pertencer a reis ou a qualquer governo. Ao contrário dos corsários, que agiam de acordo com seu soberano, exclusivamente em período de conflito, onde seus navios eram armados por particulares, que possuía licença do rei para combater os inimigos do Estado, visando interromper seu comércio e sua navegação. Além de ganhar dinheiro com o que fosse capturado.

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Rota do La Argentina ao redor do mundo – Fonte – http://grupolagazette.com/al/index.php?option=com_content&view=article&id=567:hyppolite-bouchard&catid=9&Itemid=109

A Argentina, por exemplo, possuiu uma frota corsária e um de seus navios realizou uma viagem de circunavegação pelo globo entre 1817 e 1819[8]. Mas essa não foi uma viagem de adestramento de Guardas Marinhas, foi uma viagem para atacar barcos e colônias espanholas. Chamado La Argentina, esta nave era comandada pelo francês Hippolyte de Bouchard, esteve em locais como Madagascar, Indonésia, Filipinas, Havaí, costa da Califórnia, negociando com barcos amigos e atacando impiedosamente os espanhóis. Nessa aventura Bouchard capturou 26 barcos, mas acabou preso no Chile pelo almirante inglês Thomas Alexander Cochrane, que na época servia junto à neófita marinha chilena e depois foi o primeiro almirante da Marinha do Brasil, onde combateu os portugueses na Bahia. Na época o cruzeiro do La Argentina se tornou um fato muito conhecido e comentado nos portos do Atlântico Sul[9].

Consta que o capitão Mariz Sarmento pretendia navegar levando toda essa mercadoria para ser trocada por escravos nos portos africanos. A ideia era trazer de 200 a 300 “Peças” de escravos, como se dizia na época. Mesmo com a mortandade média de uns 80 a 100 prisioneiros, era considerado um negócio lucrativo. 

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Comércio de escravos no Cais do Valongo, porto do Rio de Janeiro.

Para isso ele necessitava de uma tripulação experiente e foi no porto do Rio de Janeiro que o capitão arregimentou um grupo de 40 tripulantes onde constavam brasileiros, portugueses, franceses e espanhóis, a maioria deles renegados e fugitivos da justiça de suas nações.

Quando um dos 40 tripulantes soube da rota que o Defensor de Pedro iria seguir e viu o que aquele barco carregava, certamente começou a pensar diferente do seu capitão.

O Pirata Galego 

Benito Soto Aboal é considerado pelos espanhóis não o último pirata do Atlântico Sul, mas o último de todo Oceano Atlântico. 

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Benito Soto Aboal

Mais conhecido como Benito Soto nasceu na área do porto marítimo que deu origem ao atual município de Pontevedra, na Região Autônoma da Galícia, Espanha[10]Desde o século XII Pontevedra era uma das cidades mais importantes da Galícia e, graças ao comércio marítimo e seus estaleiros, um dos mais importantes portos do Atlântico Ocidental na Península Ibérica. Naquele distrito de marinheiros, Benito Soto nasceu em 22 de março de 1805. 

Segundo o pesquisador espanhol Marcos Iglesias, este jovem galego era o sétimo de uma prole de catorze filhos de um pescador e uma dona de casa. Marinheiro desde precoce idade, junto com seu pai e irmãos realizou vários trabalhos nas costas galegas, em diferentes funções, algumas delas de legalidade duvidosa. Tais atividades o levaram a ser respeitado entre os ambientes portuários e de contrabandistas. Então, por volta de 1822, Benito Soto embarca em direção a Havana, Cuba.

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Pontevedra no século XIX – Fonte – https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

De acordo com algumas fontes foi nessa ilha do Caribe que o espanhol se envolveu primeiramente com piratas e corsários, onde lutou a bordo de barcos cubanos ou colombianos. Segundo outros ele era um marinheiro honesto envolvido com tráfico de escravos, atividade que na época era considerada lícita em vários lugares. Talvez todas as versões mostrem alguma verdade, já que ele poderia estar a bordo de barcos, atacando navios escravos de outras nações para roubar suas mercadorias e suas “Peças” de cativos. E tudo isso sem ter atingido a idade de 20 anos.

Seja como for, segundo o pesquisador espanhol Marcos Iglesias, em 1823 Benito Soto viajou de Havana para o Rio de Janeiro, a bordo de um navio mercante espanhol. Mas este barco foi capturado na área costeira de Salvador, Bahia, pela marinha brasileira, que acreditou ser aquele barco uma nave pirata. Neste ponto o pesquisador Marcos Iglesias aponta no seu trabalho que o rastro deste marujo torna-se nublado e ele só volta a comentar sobre Benito Soto apenas quando este embarca no Defensor de Pedro, quatro anos depois do encontro com a nossa antiga Marinha Imperial[11].

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A Batalha de 4 de maio de 1823 foi o maior combate naval durante a Guerra de Independência do Brasil quando as frotas brasileiras e portuguesas se enfrentaram. A frota brasileira estava sob o comando do inglês Thomas Cochrane – Fonte – Wikipedia

Talvez Benito Soto e outros companheiros, certamente marujos com vasta experiência, tenham passado a atuar como mercenários contratados a bordo de alguma das naves de guerra da nossa recém-criada Força Naval. Não podemos esquecer que em 1823 nossos navios de guerra se bateram contra as naves lusitanas na costa baiana e na Baía de Todos os Santos, na luta pela consolidação de nossa Independência. Além disso, a maioria destes barcos brasileiros eram comandados por capitães oriundos principalmente da Inglaterra, sob o comando geral do inglês Thomas Alexander Cochrane. Então neste contexto, ter um espanhol a mais, ou a menos, não fazia muita diferença nos barcos brasileiros, contanto que ele fosse um bom marinheiro, soubesse usar com destreza a espada em uma das mãos e uma pistola de pederneira na outra.

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Quadro de Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830)-‘Vista do Morro de Santo Antonio” – Museu Nacional de Belas Artes – Fonte – http://viticodevagamundo.blogspot.com.br/2013/03/rio-de-janeiro-by-nicolas-antoine-taunay.html

De toda forma pelos registros da época vamos encontrar Benito Soto como um homem livre no Rio de Janeiro em novembro de 1827 e pronto para zarpar. 

O Motim 

Para vários pesquisadores, talvez pela presença de patrulhas navais inglesas, ou por uma cobiça maior que a desejada, o capitão do Defensor de Pedro não seguiu para a costa do atual enclave de Cabinda, mas para o Golfo da Guiné, especificamente na atual Gana, aonde chegou em 3 de janeiro de 1828.

Para alguns pesquisadores o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento pode ter saído da área angolana para ultrapassar os limites do seu comércio e ganhar mais dinheiro. Ele seguiu para uma região onde provavelmente poderia comprar escravos a uma taxa muito menor do que seria a regular[12]. Sabemos que ele chegou a costa africana, conseguiu adquirir um número considerável de escravos, e, para completar a carga, baixou a terra para conseguir mais cativos. Foi aí o seu erro!

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Piratas levando barris rum para trocar por escravos. No caso do Defensores de Pedro os escravos seriam trocados por cachaça e outros produtos.

Benito Soto transmitiu a ideia de tomar pela força o Defensor de Pedro ao colega Miguel Ferreira e torná-lo um barco pirata. Ferreira, um natural da Galícia, não só concordou em se juntar ao seu conterrâneo, mas declarou que ele próprio estava pensando em uma empresa similar durante a viagem.

Sem o capitão a bordo Soto e Ferreira enfrentaram o resto da equipe com gritos de “Abaixo com os portugueses”. Eles, de forma incisiva deram cinco minutos para os membros da tripulação tomar uma decisão – ou se juntavam aos amotinados para assumir o navio, ou eles seriam colocados em um barco com um par de remos. Alguns membros da tripulação leais a Mariz Sarmento recusaram o convite e tiveram de remar por dez milhas náuticas (cerca de dezoito quilômetros e meio) até a costa africana. 

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Quandro que mostra uma típica luta no convés. No caso a cena mostra o combate no barco Triton pelo corsário francês Hasard (ex- Cartier ), sob o comando de Robert Surcouf . No caso do motim do Defensor de Pedro esse tipo de luta não foi necessário.

Defensor de Pedro foi então renomeado La Burla Negra, tendo sido pintado desta cor. Existem versões que falam de um triunvirato para gerenciar o motins, com Miguel Ferreira (Cognominado pelos tripulantes como o Mercúrio e que por alguma razão foi apontado inicialmente como líder), Benito Soto (O Barredo), e um certo Victor Saint-Cyr de Barbazan (O François)[13].

Logo Benito Soto começou a entender que para impor sua autoridade em meio à corja com que convivia, só sendo mais bruto que todos aqueles brutos. E logo alguém iria sentir a sua força.

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Miguel Ferreira, o Mercúrio, como chefe dos piratas passou a agir como verdadeiro tirano. O olho agudo de Soto viu que aquele que tinha adulações com ele no dia anterior, no dia seguinte o governaria com uma barra de ferro na mão. Ele não pensou duas vezes e quando Miguel estava em um forte sono inebriado pela cachaça, colocou uma pistola em sua cabeça e atirou nele.

Soto se desculpou com a tripulação, afirmando que aquela atitude era para sua proteção e fez uma promessa a todos; que como seu novo líder traria uma colheita de ouro nos seus futuros “trabalhos”, desde que obedecessem a ele. 

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Piratas montando um ardil para atacar um barco mercante em alto mar.
Soto foi unanimemente saudado pela equipe do barco como seu capitão e reivindicou a honra de ser o último pirata real do século XIX no Atlântico.

Mas logo também impôs mão de ferro entre os homens. Alguns dos franceses reclamaram que não podiam falar na língua deles. Consta que Soto entendia os marinheiros portugueses e brasileiros, mas não os franceses, que geraram ocasionais altercações. Desconfiava destes quando falavam em “Petit comité”.

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Fonte – http://www.aliexpress.com

O plano inicial foi cruzar o Atlântico para vender a carga de escravos no Caribe. Para este fim a pessoa necessária para o governo do barco era o brasileiro Manoel Antônio Rodrigues, que tinha prática de navegação e possuía a função de “piloto”[14]. Entretanto eu acredito que, se essa venda realmente aconteceu, o fato pode ter ocorrido na costa brasileira, mais precisamente em algum ponto na costa do Nordeste[15].

Independente desta questão, após o objetivo da venda dos escravos haver sido pretensamente alcançado, os piratas partiram para a região da Ilha de Ascensão, no meio do Atlântico Sul, abrindo a possibilidade de atacar navios que viam das ricas terras da Índia e dobravam o Cabo da Boa Esperança em direção a Europa.

Logo uma presa surgiu no horizonte.

As Chacinas e Crueldades no Morning Star 

De todos os ataques o mais conhecido e que ensejou uma forte perseguição ao La Burla Negra foi o ataque ao barco inglês Morning Star, o primeiro que Benito Soto realizou. 

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Major William Logie

Seu capitão se chamava Thos Gibbs e havia partido de Colombo, no Ceilão, atual Sri Lanka, em 13 de dezembro de 1827, com uma carga de café, canela e alguns passageiros. O principal destes era o Major William Logie, um Representante Militar de Sua Majestade Jorge IV na Ceilão. Logie estava acompanhado de sua família, além de terem a companhia de um cirurgião assistente, dois civis, cerca de vinte soldados inválidos e três ou quatro de suas esposas e filhas. 

O navio cruzou o Cabo da Boa Esperança em 28 de janeiro de 1828 e avistou a Ilha de Ascensão ao amanhecer do dia 19 de fevereiro. Quando estavam a três milhas náuticas a oeste desta ilha, às sete da manhã, os tripulantes do Morning Star viram surgir no horizonte uma estranha nave negra. 

[The Sea: its stirring story of adventure, peril & heroism.]
Desenho do ataque do La Burla Negra contra o barco inglês Morning Star
O barco estava a seis ou sete milhas a popa, mas era rápido e logo diminuiu a distância. Os tripulantes perceberam que a nave escura era bem armada e trazia as cores britânicas. Quando este chegou a menos de meio quilômetro do Morning Star abriu fogo com seus canhões, destruindo velas e ferindo alguns marujos. Ao cruzar com a proa do barco inglês, os do barco negro içaram a bandeira argentina.

Não é a toa que vários autores apontaram o La Burla Negra, antigo Defensor de Pedro, como sendo de origem argentina, bem como o seu nefasto capitão ser cidadão argentino. Mas eu acredito que a utilização daquela bandeira tinha mais haver com a fama na época do cruzeiro do corsário La Argentina e também servia para, no caso de alguém conseguir se salvar, informar erroneamente as autoridades a origem do barco pirata pela bandeira desfraldada.

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Foto do Morning Star no final de sua carreira – Fonte – http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

Logo ambos os veleiros ficaram a menos de cinquenta metros e os piratas jogaram ganchos com cordas e conseguiram emparelhar os barcos. As testemunhas sobreviventes narraram que os piratas eram homens atléticos e estavam todos armados. Cada um deles carregava pelo menos duas pistolas, facas e uma espada longa. Seu vestuário era composto de uma espécie de jaqueta de algodão grosseiro, camisas abertas até o peito, barretes de lã vermelha e cintos largos de lona, ​​nas quais estavam as pistolas e as facas.

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Desenho representando a morte do capitão Thos Gibbs, do Morning Star.

Na sequência mataram o capitão do barco inglês e Benito Soto ordenou ao francês Barbazan que pilhasse o que pudesse e exterminasse todos os tripulantes a bordo. Ato contínuo os ganchos foram retirados e os barcos ficaram afastados por cerca de 100 metros. Barbazan e seus piratas começaram a matança com pistolas e espadas, pois os ingleses, mesmo em maior número, estavam completamente desarmados. Foi quando os atacantes deram conta da existência de mulheres. Estas ficaram trancadas na cabine do capitão.

Depois de prostrarem várias pessoas no convés, eles levaram a maioria dos sobreviventes para o porão principal e reservaram alguns para ajudar suas operações de pilhagem. Começaram a saquear o navio levando as velas, cordas, caixa de remédios, todos os materiais de navegação, dinheiro, sete pacotes de joias valiosas que faziam parte da carga e toda a bebida a bordo. Os piratas também saquearam os passageiros da maior parte de suas roupas, todo seu dinheiro e artigos valiosos que poderam encontrar. Durante duas horas trabalharam no saque, levando o botim em baleeiras até o La Burla Negra.

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Desenho representando o ataque as mulheres no Morning Star.

Depois de muito trabalharem no transporte do material pilhado, enquanto seu capitão apreciava este material, Barbazan decidiu relaxar com seu grupo no Morning Star. Primeiramente obrigaram o mordomo a lhes servir vinhos e comestíveis, onde as testemunhas afirmaram que os Piratas se entregaram aos prazeres da garrafa por algum tempo. Depois Barbazan ordenou que seus companheiros “tratassem bem as mulheres”, então começou o terror para elas. Os gritos destas indefesas mulheres foram ouvidos durante horas por aqueles que estavam presos no porão.

Antes de voltar para o navio pirata, já de noite, depois de doze horas donos do Morning Star, Barbazan abriu buracos abaixo da linha d’água do veleiro, de modo que o barco afundaria e afogaria todos a bordo.

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Anne Smith Logie, uma das mulheres que foram atacadas no barco inglês.

No meio da madrugada as mulheres seviciadas conseguiram arrombar a porta da cabine do capitão e libertaram o resto da tripulação. Estes conseguiram parar o afundamento, retiraram depois de penosa atividade a água a bordo, montaram algumas poucas velas e foram se arrastando em direção a Inglaterra. Pensaram em se dirigir primeiramente até Recife, mas tiveram medo de cruzar com outros piratas.

Quase um mês depois, no dia 13 de março, eles encontraram o navio inglês Guildford retornando da China e receberam provisões, instrumentos de navegação e o seu capitão emprestou marinheiros experientes para ajudar. O Morning Star chegou a Londres em 18 de abril de 1828 e sua desgraça foi notícia em todo o Império Britânico.

Navio Pirata

O La Burla Negra se tornou famoso em toda parte do Oceano Atlântico e passou a ser caçado sem dó e nem piedade por todas as marinhas de guerra, principalmente a Royal Navy.

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Vida de pirata – O capitão pirata John Phillips obrigando um prisioneiro sob uma arma a beber álcool.

Mas se Benito Soto era muito cruel, verdadeiramente insano, também era muito inteligente. Pois após o ataque ao Morning Star ele e sua tripulação vão continuar atacando e destruindo barcos ingleses americanos, espanhóis e portugueses.

Sabe-se que Benito Soto destruiu quase uma dúzia de navios, incluindo a galera americana Topaz, que navegava de Calcutá, na Índia, para o porto americano de Boston. Benito Soto atacou, saqueou, tocou fogo no Topaz e não deixou sobreviventes. Foram atacados também os barcos Cassnock (Capitão Thompson), o New Prospect (Capitão Cleland), o Simbry  (Ou Sumbury) e o barco português Melinda, cujos sobreviventes da tripulação afirmaram conhecer alguns membros do La Burla Negra, quando este ainda era o Defensor de Pedro e estava ancorado no Rio de Janeiro em novembro de 1827[16].

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Fonte – https://br.pinterest.com/pin/263249540694857998/

Estes portugueses certamente foram uma rara exceção de sobrevivência, pois a ideia principal de Benito Soto para navegar por mais tempo era não deixar sobreviventes para narrar as autoridades os ataques. Inclusive quando Soto soube que Barbazan não obedeceu a sua ordem explícita para matar todos no Morning Star, preferindo se divertir com as mulheres e confiar que o barco inglês afundaria pelos furos provocados, recriminou duramente seu comandado e lhe disse um velho ditado pirata – “Os homens mortos não contam contos”.

Mas agora era tarde[17]!

O barco carregava os porões e bodegas cheias e Soto decidiu ir à Galícia para reparar o La Burla Negra e vender o saque.

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Luta em barco pirata – Fonte – http://www.rmg.co.uk/discover/explore/real-pirates-caribbean

Os piratas lidavam com a ideia de se aposentar, ou continuar com suas práticas. Em qualquer caso, qualquer decisão envolvia a venda dos bens. Assim, em 10 de abril de 1828, eles acabaram ancorando nas proximidades da praia de Beluso, perto de Pontevedra. Com a ajuda do tio materno de Soto, José Aboal, e pagando suborno, os piratas vendem grande parte do saque.

O movimento acabou levantando suspeitas, situação que lhes obrigou a deixar a região em direção ao porto de La Coruña. No caminho, em meio a uma situação particularmente desagradável, o La Burla Negra encontrou um pequeno barco que Soto saqueou e matou casualmente toda a tripulação – exceto por uma notável exceção: um indivíduo que havia dito a Soto que poderia encontrar o caminho mais rápido de volta a região de La Coruña, Espanha. Poucos dias depois, à vista da terra e depois de seguir o conselho desse homem, Soto, agradavelmente surpreendido, chamou-o para o olhar do Capitão:

“Amigo, esse é realmente o porto de La Coruña?”

“Sim, meu capitão”, respondeu o rapaz.

“Nesse caso”, Soto sorriu e disse, “você fez bem e agradeço seu serviço.”

Ele então atirou no homem morto e calmamente jogou seu corpo ao mar.

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Festa de piratas – Fonte – http://www.rmg.co.uk/discover/explore/real-pirates-caribbean

Seja esta história verdade, ou não, afirma-se que Benito Soto foi responsável por ferir e matar bem mais de 100 pessoas.

Mas em La Coruña as coisas também não correram positivamente. Mais subornos e mais obstáculos para se livrar do resto da mercadoria, para não mencionar os excessos cometidos por alguns marinheiros sob a influência do álcool, uma questão que resultou em algumas prisões. Eles então partiram para região de Gibraltar. 

O Fim Do Defensor de Pedro e Um Sortudo Pirata Brasileiro

Na noite de 9 de maio de 1828, Soto deu a ordem de encalhar propositalmente o La Burla Negra  ao sul da cidade de Cádiz, em uma praia chamada Santa Maria, na atual Comunidade Autónoma Andaluza, não muito longe de Gibraltar, até hoje uma colônia inglesa na entrada do Mar Mediterrâneo.

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Notícia de jornal carioca de 1828 informando a destruição do Defensor de Pedro na Espanha e a condenação de Benito Soto e seus asseclas.

Quatro meses depois do início desse frenesi de loucura, o antigo Defensor de Pedro, transformado em La Burla Negra, chegou ao seu fim.

Soto rapidamente organizou a dispensa do dinheiro para possíveis subornos e forneceu ordens aos marujos para que se misturassem entre as pessoas comuns sem atrair atenção. O capitão tentou se passar por um honesto navegador de um barco naufragado, junto com seus marinheiros. Sua história foi ouvida com simpatia e durante alguns dias tudo aconteceu conforme os planos.

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Desenho moderno representando Benito Soto sendo preso nas ruas de Gibraltar.

Mas a sorte desse grupo de piratas, com muito dinheiro para gastar nas bolsas, acabou. Os homens cometeram excessos e altercações de todos os tipos, foi quando surgiram suspeitas. Para completar a má sorte destes malfeitores, pesquisadores ingleses afirmam que, incrivelmente, um dos sobreviventes do Morning Star reconheceu um de seus algozes. A filosofia pirata de Benito Soto era, sob alguns aspectos, correta – Os homens mortos não contam histórias. Mas era impossível conseguir que uma pessoa que sobreviveu ao terrível assédio que foi vítima naquele barco inglês parasse de falar. Logo os tripulantes foram presos pelas autoridades espanholas.

Mas Soto e um membro da tripulação, que o pesquisador espanhol Marcos Iglesias aponta como sendo um brasileiro chamado “Dos Santos”, desapareceram instantaneamente de Cádiz[18].

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Gibraltar, quadro de 1836, de Thomas Roscoe – Fonte – http://gibraltar-intro.blogspot.com.br/2011/10/normal-0-false-false-false-en-gb-x-none_25.html

Conseguiram fugir para Gibraltar, onde finalmente os ingleses pegaram o pirata galego. Ainda segundo Marcos Iglesias o único que escapou foi o brasileiro “Dos Santos”, o único usuário do saque, até provar o contrário, que se aproveitou do butim. Já os ingleses afirmam que este fugitivo seria um francês[19].

Charles Ellms, um autor britânico da época, que escreveu vários livros sobre piratas, parece ter conhecido Benito Soto na sua prisão em Gibraltar e visitou-o várias vezes enquanto estava detido. Ellms nos diz que, ao longo de sua permanência na colônia o antigo capitão do La Burla Negra  se vestia com roupas caras, ostentando meias de seda, calças brancas e um vistoso casaco azul. Seu chapéu branco inglês, impecavelmente limpo e da melhor qualidade. Sua aparência, longe de ser a de um bandido, era muito mais a de um comerciante de Londres, dando a impressão de ser um homem agradável e honesto.

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General Sir George Don em 1830 – Fonte – http://gibraltar-intro.blogspot.com.br/2011/10/normal-0-false-false-false-en-gb-x-none_25.html

O antigo capitão foi julgado, considerado culpado de pirataria e condenado à morte. Enquanto ficou na prisão por um ano e meio, Benito Soto continuou a declarar sua inocência, reclamando constantemente sobre a injustiça que estava sendo vítima. Foi somente quando o governador de Gibraltar, o general Sir George Don, o sentenciou oficialmente a ser enforcado, esquartejado, sendo seus membros cortados e pendurados em ganchos, como aviso para todos os piratas da justiça que ali era feita. Só então Soto finalmente desistiu e admitiu sua culpa.

Ele fez uma confissão sem reservas de seus crimes e tornou-se verdadeiramente penitente. Soto entregou ao carcereiro a lâmina de uma navalha que ele escondeu entre as solas de seus sapatos para o propósito reconhecido de adicionar o suicídio como ato final de sua nojenta vida.

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Desenho representando o cadáver do famoso pirata capitão Kidd exibido após sua execução. No caso de Benito Soto o seu cadáver também foi exposto após ser enforcado, só que foi mostrado esquartejado.

Os que testemunharam sua execução no dia 25 de janeiro de 1830, entre eles Charles Ellms, parecem ter ficado impressionados com o seu comportamento, com sua calma e tranquilidade, enquanto ele avançava para facilitar as coisas para o carrasco. No final Soto parecia desejar o momento que seria colocado diante de seu Criador.

O pirata galego disse a plateia presente suas últimas palavras – Adeus, todos. Na época essas palavras criaram um grande debate em Gibraltar, pois foram ditas em bom português[20].

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Navio pirata perseguindo sua presa – Fonte – http://www.aliexpress.com

Apesar da região da Galícia fazer fronteira com o norte de Portugal e o idioma galego possuírem proximidade linguística com o português, as pessoas do lugar achavam difícil acreditar que um espanhol teria falado em português no momento da sua morte.

Mas os que eles não sabiam na época, ou não perceberam, era que talvez para o pirata Benito Soto àquelas palavras ditas na hora da morte não tivessem ligações com fatos ocorridos em terras Lusitanas, mas lhe traziam a memória algo importante que aconteceu em uma grande e ex-colônia de Portugal no Novo Mundo[21].


NOTAS

[1] Fato que efetivamente se consumou em 1834.

[2] Ver o livro O tráfico de escravos no Atlântico. Herbert S. Klein. FUNPEC Editora, 2004.

[3] Os espanhóis transportavam escravos para suas plantações de cana de açúcar em Cuba. Já a HMS North Star era uma corveta da Classe Atholl, construída pela Woolwich Dockyard  em 1824, com 28 bocas de fogo. Ver o site http://www.pbenyon.plus.com/18-1900/N/03276.html.

[4] Apesar de todas as buscas eu não consegui apurar o nome do proprietário do barco Defensor de Pedro. Já Pedro de Souza Mariz Sarmento é apontado em todas as fontes como o capitão do barco. Ele até pode ter sido o proprietário, mas sem confirmação.

[5] Mesmo sem conseguir encontrar qualquer informação que aponte, ou conteste, a razão desse pensamento, é provável que essa situação seja um indicativo que o capitão Mariz Sarmento não conseguiu uma projeção maior na Armada Nacional. Mas qual, ou quais, seriam a causa: Talvez a sua origem portuguesa de Pedro de Souza Mariz Sarmento não tenha lhe ajudado muito na nossa Marinha? Ou ocorreu algo na sua carreira naval que o marcou de forma negativa ao ponto de ser precocemente reformado? Ou porque para ele era bem mais lucrativo transportar escravos pelo Atlântico Sul, do que está a bordo de uma nave pertencente a uma força naval que lhe pagava pouco e da qual ele não tinha espaço para progredir?

[6] Algumas fontes apontam que o Defensor de Pedro era um barco argentino, o que é errado, já que sua denominação remete especificamente ao imperador Pedro I do Brasil.

[7] Sobre aspectos da partida e da carga do barco ver o jornal Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, edições de 20 (terça-feira) e 23 (sexta-feira) de novembro de 1827, respectivamente nas páginas 2 e 4. Já sobre os detalhes das negociações para a compra de escravos, ver o livro O tráfico de escravos no Atlântico. Herbert S. Klein. FUNPEC Editora, 2004.

[8] Esses corsários argentinos deram muito trabalho aos brasileiros durante a Guerra da Cisplatina.

[9] Aparentemente, conforme narro no texto, o cruzeiro do La Argentina teve uma tênue ligação com o caso do Defensor de Pedro, quando este se tornou um barco pirata. Ainda sobre o barco La Argentina ver Nuevos Documentos sobre el Crucero de La Argentina a través del Mundo, Volumen I. Autores: Rossi Belgrano, Alejandro y Mariana, Buenos Aires, 2016.

[10] Segundo as lendas antigas o herói troiano Teucer, filho de Telamon e meio-irmão do Ajax, fundador da cidade, chegou a Terra em Pontevedra. Já de acordo com a história, também foi nesse local onde os romanos fundaram o Ad duo ponte, o atual Pontevedra.

[11] Sobre o interessante texto de Marcos Iglesias, em espanhol, ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html.

[12] Para alguns pesquisadores, pelo número de armas e pelo tipo de gente que comandava, é possível que o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento pretendesse retirar pela força o máximo de cativos que pudesse.

[13] Barbazan seria oriundo de uma aristocrática família francesa, sobrinho do marechal Laurent de Gouvion Saint-Cyr, chefe militar dos exércitos napoleônicos. Ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html.

[14] No futuro este homem vai declarar que foi obrigado a permanecer com aquela súcia durante o tempo da viagem e pilhagens. E de alguma forma isso deve ter sido verdade, pois ele foi um dos poucos que foram capturados e não morreram na forca.

[15] Em minha opinião existe uma dúvida na história deste barco. Uma viagem entre a costa africana e o Caribe parece ser muito longa, principalmente quando sabemos que o tempo total de ação do La Burla Negra como nave pirata foi de apenas quatro meses. Apesar desta viagem não ser impossível e algumas fontes consultadas afirmarem que esta nave vendeu os escravos no Caribe, eu acredito que a venda se deu mesmo foi no Nordeste do Brasil. Pois, além de haverem brasileiros no La Burla Negra que certamente conheciam a costa nordestina, nesta região não faltavam quem quisesse comprar escravos africanos de forma rápida e discreta.

[16] Ver Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3.

[17] Existem vários relatos do cruel ataque de Benito Soto ao barco inglês Morning Star. Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3. É possível encontrar este jornal no endereço eletrônico https://books.google.com.br. Existem dois textos bem detalhados no jornal carioca  ver o jornal Diário Fluminense, Rio de Janeiro, edições de 15 (terça-feira) de julho de 1828, páginas 51 e 52 e do dia 10 (segunda-feira) de maio de 1830, nas páginas 411 e 412. Mas o primeiro destes textos erra o nome do barco atacado. Existem igualmente bons sites ingleses que trazem inclusive reprodução dos depoimentos dos sobreviventes – Ver http://www.scarboroughsmaritimeheritage.org.uk/article.php?article=297 e http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

[18] Ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

[19] Ver os sites http://www.scarboroughsmaritimeheritage.org.uk/article.php?article=297 e http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

[20] Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3.

[21] Talvez o trabalho que reúne com mais precisão todos os eventos envolvendo Benito Soto foi escrito em 1892, pelo militar espanhol Joaquín Bautista Lazaga y Garay, que publicou o ensaio histórico intitulado “Los piratas del Defensor de Pedro. Extracto de las causas y proceso formados contra los piratas del bergantín brasileño Defensor de Pedro”.

A VERDADE SOBRE CHE

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Fonte – d3va.deviantart.comartChe-65685962

Se Che Guevara fosse uma marca, estaria entre as mais valiosas do mundo até hoje, meio século depois da Revolução Cubana. A imagem dele continua em todo lugar – tatuagens, camisetas, na capa da SUPER… Por quê?

Como um guerrilheiro latino-americano se transformou em El Che, a lenda?

Quem é o homem de verdade por trás do mito?

É o que você vai ver aqui.

Ernesto e seu fim

Mas antes, vamos fazer uma escala onde a lenda começou a tomar forma: a Sierra Maestra, quartel-general dos rebeldes cubanos em 1958. Lá, Fidel, Che outros líderes resistiram a todo tipo de ataque. E foi de onde Guevara saiu para comandar uma batalha cujo resultado mudaria a história de Cuba. E marcaria a da humanidade.

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Fonte – http://d3va.deviantart.com

O tenente boliviano Mario Terán empunhou seu fuzil semiautomático. Tinha diante de si o guerrilheiro Ernesto Guevara de la Serna, que havia sido capturado no dia anterior e agora esperava pela morte numa escola de La Higuera, sudeste da Bolívia. Terán tinha fama de durão, mas não conseguiu puxar o gatilho. Ficou paralisado ao ver o homem esquálido, o cabelo grudado, as roupas em trapos e os pés cobertos de lama seca. Estava ferido, mas intimidava. “Achei que ele se lançaria sobre mim. E, quando me olhou fixamente, fiquei tonto”, disse depois. Mas Guevara o encorajou: “Fique calmo e aponte bem! Você vai matar um homem”. Terán fechou os olhos e lançou a primeira rajada. Ernesto caiu com as pernas destroçadas, jorrando sangue. Terán disparou outra leva de balas. Uma delas perfurou o coração, fazendo-o parar com 39 anos. Era 9 de outubro de 1967. Data do nascimento da divindade Che Guevara uma figura lapidada pelo próprio Ernesto.

O médico errante

Ele nasceu como mais um garoto de classe média. Os pais descendiam de nobres europeus e latifundiários argentinos, mas não herdaram muito mais que os sobrenomes. Quando Celia de la Serna deu à luz seu primogênito em Rosário, em 1928, seu marido, Ernesto Guevara Lynch, investia numa plantação de erva-mate na província vizinha de Misiones.

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Celia de la Serna e seu primogênito Ernesto, em Rosário, Argentina, em 1928 – Fonte – http://www.revistaanfibia.com/cronica/segun-su-madre-fue-un-alumno-normal/

Lynch era um empresário mambembe: uma hora plantava mate, na outra construía iates, e aos poucos foi torrando as posses da família.

Para complicar, o filho tinha saúde precária. “A asma furiosa de Ernestito determinou grande parte de nossa vida. A cada dia ficávamos mais à mercê dessa maldita doença”, disse Lynch em 1967. O garoto passava dias na cama, sem poder ir à escola, e acabou aprendendo a ler com a mãe.

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Outra imagem de Ernesto e sua mãe – Fonte – http://aristeguinoticias.com

Nos anos 40, os negócios da família iam mal, e os Guevara foram tentar a vida na cidade de Córdoba. Lá, as garotas se encantavam com o bonitão tímido de ombros largos, que sabia francês, jogava rúgbi para superar a asma e se fantasiava de Gandhi no Carnaval. Ernesto era um galã diferente: enquanto os amigos caprichavam na roupinha engomada, ele andava de blusa larga e capa de chuva, declamando poesias e orgulhoso de não tomar banho o que lhe valeu o apelido de Chancho (Porco). Mas, vai entender era dele que as meninas gostavam mais. “Todas nós estávamos apaixonadas por Ernesto”, disse depois Miriam Urrutia, colega dele naqueles tempos.

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A familia Guevara completa em Mar del Plata. O futuro Che é o primeiro a esquerda – Fonte – http://aristeguinoticias.com

Mas quem inaugurou oficialmente o rapaz, na época com 14, 15 anos, não foi nenhuma delas, e sim a empregada de um amigo, conhecida como La Negra Cabrera. No dia da primeira vez, os amigos espreitaram pelo buraco da fechadura e viram que Ernesto interrompia o ato, de tempos em tempos, para aliviar ataques de asma um espetáculo que virou motivo de piada entre a turma. Mas não para a senhorita Cabrera, que continuou encontrando Ernesto por anos.

No curso de medicina, em Buenos Aires, ele chamou a atenção dos colegas por outro motivo: a falta de ativismo político. “O país vivia um golpe militar atrás do outro, mas Ernesto se recusava a protestar nas ruas. Apesar da curiosidade pelo socialismo, ele até então não demonstrava qualquer inclinação por se afiliar à esquerda””, diz o jornalista americano Jon Lee Anderson, autor do livro Che Guevara – Uma Biografia. O que fascinava mesmo o rapaz eram os livros e as viagens. Lia de tudo de Freud a Aldous Huxley, filosofia grega e indiana, resumindo as ideias em seu Dicionário Filosófico. E gostava de enfiar o pé na estrada: antes de terminar a faculdade, acoplou um motor numa bicicleta e rodou pelo seu país.

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Ernesto Guevara de la Serna no curso de medicina na Universidade de Buenos Aires – Fonte – http://aristeguinoticias.com

Assim Ernesto cresceu na Argentina como um cara qualquer. Che ainda estava adormecido lá dentro. E só começaria a acordar quando ele saiu de moto pela América do Sul com o amigo Alberto Granado. Nessas andanças, pediu comida e abrigo em beira de estrada, atravessou o rio Amazonas de balsa e estreou como médico numa colônia de leprosos no Peru. Enquanto isso, afiava suas leituras de Karl Marx e de filósofos socialistas, como o peruano José Mariátegui e a polonesa Rosa Luxemburgo. E, à medida que se distanciava da Argentina branca e metropolitana, descobria a outra cara do continente.

“-Quando fizemos a viagem, tudo o que tínhamos lido se multiplicou por 100”, recordaria Granado anos depois.Uma coisa é ler sobre a miséria e a perseguição política; outra é ver um casal passando fome e frio.”

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Alberto Granado e Ernesto Guevara na sua primeira viagem pela América Latina (1951-1952) – Fonte – http://aristeguinoticias.com

Granado voltou à vida de médico, mas Ernesto seguiu sua jornada rumo à América Central. A essa altura, já se dizia discípulo de San Karl (como chamava Marx) e queria viver na Guatemala, onde o presidente Jacobo Arbenz iniciava uma reforma agrária. Quando chegou lá, com 25 anos e US$ 3 no bolso, ele conheceu a pessoa que mudaria sua vida: a peruana Hilda Gadea, líder exilada da Aliança Popular Revolucionária Americana. Hilda se apaixonou por ele, mas nunca foi correspondida à altura. Como o próprio Che confessou anos depois a um amigo russo, os dois só se casaram em 1955 porque ela engravidou. A relação entre os dois tinha um caráter mais fraterno e ideológico que romântico ou erótico, diz o cientista político mexicano Jorge Castañeda, autor da biografia Che Guevara.

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Alberto Granados e Che durante viagem pela América Latina. – Fonte – http://www.sintesecubana.com.br

O mais importante, porém, é que Hilda o apresentou a Nico López e outros exilados cubanos que tinham atacado o Quartel de Moncada, em Cuba, na esperança de deflagrar uma rebelião contra o ditador Fulgencio Batista. Foram eles que o apelidaram de Che (tirando sarro da coisa de os argentinos chamarem os outros de chê, como os gaúchos fazem). Os cubanos lhe contaram sobre as proezas dos irmãos Fidel e Raúl Castro, líderes do movimento, presos após o assalto. “Pela primeira vez, Ernesto se identificava abertamente com uma causa política”, diz Jon. Boa ou má, ele tinha escolhido a revolução esquerdista da Guatemala.”

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Che com sua primeira mulher, Hilda Gadea – Fonte – http://www.latinitude.com.br

Os EUA não estavam dispostos a tolerar um regime socialista em seu quintal. Assim, quando Arbenz expropriou os latifúndios da empresa americana United Fruit Company, a resposta da CIA não tardou: pilotos mercenários bombardearam a capital para forçar a renúncia do presidente. Ernesto ficou excitado sob o fogo. “Me senti envergonhado por me divertir como um macaco”, confessou à mãe numa carta, dizendo que Arbenz era corajoso e morreria defendendo o país.

E aí veio a mudança: até então um espectador anônimo, Ernesto resolveu partir para a ação ao ver a inércia do governo. “Pegou lápis e papel e começou a traçar um sistema defensivo, com batalhões de operários”, diz o jornalista argentino Hugo Gambini na biografia El Che Guevara. Ele acreditava que a revolução só sobreviveria se armasse o povo. E saiu por bares e alojamentos estudantis chamando as pessoas a pegar em armas. Não funcionou.

Che então se juntou a uma milícia armada da juventude comunista, esperando chegar à frente de batalha. Depois foi trabalhar em um hospital onde mais uma vez se ofereceu para combater. Resultado: ficou conhecido como vermelho, acabou expulso do emprego e precisou viver escondido na casa de conhecidos. Sua vida corria perigo. O diplomata argentino Nicácio Sánchez advertiu que parasse de defender a luta armada, pois estava na mira de agentes americanos”, diz Gambini. Além do mais, Arbenz tinha renunciado e não havia mais nada a fazer. Essa frustração marcou Ernesto.

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Junta militar que tomou o poder na Guatemala em 1954 – Fonte – http://www.lawyersgunsmoneyblog.com

Por uns anos, ele deu fim a sua busca filosófica. Declarou que os EUA eram inimigos da humanidade e se transformou num jovem mais dogmático e doutrinário, afirma Jon. Isso lhe deu forças para se converter em Che, deixando para trás o Ernesto Guevara. A embaixada argentina ofereceu repatriá-lo, mas ainda não era hora de voltar para casa. Sua bússola apontava para o México, o santuário dos exilados políticos da América Latina. Lá ele conheceria Fidel Castro e descobriria o caminho rumo à glória e à morte.

Guerrilheiro

O encontro aconteceu no apartamento da cubana Maria Antonia González, uma espécie de quartel-general dos revolucionários. Depois de 22 meses preso em Cuba, Fidel acabara de chegar à capital mexicana para reorganizar seu grupo guerrilheiro o Movimento 26 de Julho (de 1953, data do assalto ao Moncada) e arrecadar fundos para a compra de armas com outros cubanos que queriam derrubar Batista.

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Na prisão mexicana, incluindo Fidel e Che – Fonte – http://www.cubadebate.cu

Quando convidou o excitado argentino a participar da expedição, ele topou na hora. Seria o médico da tropa.

Na verdade, a decisão final não foi tomada naquela noite. Em cartas à família, ele ainda expressava seu desejo de continuar viajando e, quem sabe, estudar em Paris. Mas tudo isso ficou para trás ante o novo projeto. “A paixão de Fidel por Cuba e as idéias revolucionárias de Guevara se uniram como a chama de uma centelha”, disse Lucila Velazquez, ex-namorada de Fidel.

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Em pleno debate. Ernesto Guevara e Fidel Castro – Fonte – http://aristeguinoticias.com

Olhando bem, Che e Fidel pareciam dois opostos. Um era médico, o outro, advogado. Um vinha de uma família aristocrata falida, o outro era filho de um proprietário de terras emergente. Che nunca tinha feito militância, ao passo que Fidel, apenas dois anos mais velho, já despontava como líder do Partido Ortodoxo (antigovernista) em Cuba. Guevara era um marxista convicto, enquanto Fidel ainda era contra o comunismo. Por outro lado, havia semelhanças: ambos tinham sido mimados pela família, compartilhavam um inimigo comum (os EUA) e queriam fazer revoluções.

O treinamento do M-26-7 ficou a cargo do cubano Alberto Bayo, antigo oficial do exército republicano espanhol. Durante três meses, Bayo ensinou-lhes os segredos da guerrilha na fazenda Santa Rosa, que reproduzia as condições geográficas da Sierra Maestra, em Cuba.

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A prática de tiro ao alvo em 1956. A partir do verão de 1955, Ernesto se juntou ao destacamento de cubanos no México, em preparação para a guerra revolucionária em Cuba contra a brutal ditadura de Fulgencio Batista – Fonte – http://www.cubadebate.cu

Eles aprenderam  atirar com pistola, rifle e metralhadora, fabricar bombas, explodir barricadas, e se camuflar na selva. Apesar da asma, Che foi o melhor aluno do grupo um belo estímulo para quem havia sido dispensado do Exército argentino. Assim, no final daquele ano o grupo zarpou para Cuba a bordo do iate Granma (do inglês grandmother, avó). Pequeno e instável, o barco não deveria levar mais de 20 guerrilheiros. Acabou suportando 82, além de comida e um arsenal que incluía dois canhões antitanque, 35 rifles, 55 fuzis e 40 metralhadoras. Arriba la revolución!

A semente do mito

A missão começou mal. Depois de 7 dias vomitando no iate, os revolucionários foram descobertos ao se aproximar da costa cubana. Nos 3 dias seguintes, caminharam em pântanos tentando despistar os aviões de Batista, comendo só cana-de-açúcar. Finalmente alcançaram o lugarejo de Alegria del Pio, onde foram surpreendidos pelo fogo inimigo. Che se viu num dilema. “Tinha diante de mim uma caixa de remédios e outra de balas, e as duas eram pesadas demais para que as carregasse juntas. Apanhei a caixa de balas”, diz ele no livro Nossa Luta em Sierra Maestra.

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Granma, iate que fez a travessia do México para Cuba – http://www.mccrow.org.uk

Não se sabe o número exato de sobreviventes do Granma. Dos 82 homens, Jon Lee Anderson estima que 22 se reagruparam na sierra (os relatos oficiais falam em 12, numa alusão aos apóstolos). Certo é que o grupo aproveitou o isolamento na mata fechada para se recompor aos poucos. Atraiu novos combatentes e recebeu apoio dos camponeses, que ofereciam suas choças como esconderijo e seus cavalos para matar a fome. Não só eles: salvo a alta burguesia, o país inteiro estava unido contra Batista. A Revolução Cubana não foi feita apenas pelo M-26-7 mas também por outras forças, como o Partido Socialista Popular (comunista) e os social-democratas, que tinham em comum a rejeição ao ditador.

O sujeito estava praticamente sozinho: o exército de Batista se recusava a sair dos quartéis. E, quando saía, não queria combater. Sofria de desânimo generalizado e já não contava com o apoio dos EUA.

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Guerrilheiros cubanos – Fonte – http://www.cubadebate.cu

Mesmo assim, eram 10 mil soldados contra algumas centenas de guerrilheiros que tinham de se virar para arranjar armas. Um dos lugares para consegui-las era o quartel El Uvero. E foi lá, num ataque para tomar o quartel em maio de 1957, que o mito de Che germinou entre os guerrilheiros. Ernesto se destacou no combate e no cuidado de feridos dos dois lados, e Fidel o promoveu a comandante da 2a coluna do Exército Rebelde. Só Castro tinha um posto tão alto. Che montou sua base de operações em El Hombrito, onde improvisou um hospital, deu aulas de alfabetização a camponeses, fabricou granadas e editou o jornal El Cubano Libre. Além do trabalho na retaguarda, ele lutou na linha de frente e se tornou especialista em destruir pontes para bloquear o acesso de guarnições inimigas. Os jornalistas ficaram fascinados com o comunista radical que se tornava o emblema da revolução.

As mulheres também. Para variar, se derretiam por ele. Che não costumava se aproveitar disso e evitava que seus homens frequentassem bordéis. Mas mandou a ética às favas com Zoila Rodríguez, uma bela mulata de 18 anos. Depois, uma companheira de armas, Aleida Marsh, viraria também companheira de lençol.

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Feliz ano novo! Os guerrilheiros e a chegada de 1958 em plena selva. Havía pouco mais de um ano que iniciaram a sua luta e exatamente um ano depois conseguiriam seu triunfo – Fonte – http://aristeguinoticias.com

De volta ao front: além de Che, Raúl Castro, Camilo Cienfuegos e Juan Almeida ganharam postos de comando, e assim os rebeldes foram ocupando as montanhas em direção às cidades. No fim de 1958, as tropas do governo estavam cercadas. Logo a cidade de Santa Clara cairia. E viria o desfile de tanques em Havana.

Herói fora, vilão em casa

Em 1959, a revolução finalmente triunfou o problema era o que fazer com ela. Algumas centenas de homens foram fuzilados na fortaleza de La Cabaña muitos sem ter nada a ver com a história. Che incumbiu Miguel Angel Duque de Estrada de dirigir a Comissão de Depuração dos suspeitos de crimes de guerra, embora a maioria dos detidos não passasse de chivatos (delatores). Nem sabíamos o nome de todos os presos. Mas tínhamos um trabalho a fazer, disse Estrada. É nesse ponto que os historiadores se dividem. Alguns acusam Che de ser um carniceiro no cargo de promotor supremo de La Cabaña. Outros dizem que ele perdoou quantos pôde.

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Fuzilamento executado por guerrilheiros cubanos em 1959 – Fonte – http://cubanexilequarter.blogspot.com.br

O certo é que, com Hilda Gadea, Ernesto não foi exatamente sensível. Enquanto ele dava seus tiros, sua mulher tinha ficado no continente cuidando da filha do casal. Aí, logo que a guerra acabou, Hilda correu para Cuba. Mas Che não tinha boas notícias: avisou que queria o divórcio. Estava pronto para casar com Aleida, que lhe daria mais quatro filhos.

Quando a poeira assentou, Ernesto virou presidente do Banco Nacional de Cuba – o Banco do Brasil de lá. Quem diria: o argentino errante agora era banqueiro. Fidel sabia que Che entendia pouco de economia, mas não confiava em nenhum economista para o cargo. Erro: Ernesto reduziu o salário dos funcionários, que eram considerados honestos e competentes. Muitos pediram demissão, mas ele não ligou, dizendo que estivadores e camponeses dariam conta do trabalho. Depois percebeu na prática que não, eles não tinham como, e mudou de ideia. Mesmo com fiascos desse tipo no currículo, acabou nomeado ministro da Indústria  sabendo que também não aguentaria muito tempo.Ficaremos cinco anos aqui e depois vamos embora fazer uma guerrilha, disse a um assessor.

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Che Guevara como ministro da Industria de Cuba – Fonte – cheguevara.forumfree.it

Vocação à parte, essa foi a época de ouro de Che na ilha. Sua popularidade bateu no auge com o combate da baía dos Porcos, onde seus soldados frustraram um plano da Casa Branca para derrubar Fidel. Publicou livros como Guerra de Guerrilhas e fez de seu gabinete uma passarela de intelectuais. Por ali desfilou gente como o escritor argentino Ernesto Sabato e o filósofo francês Jean-Paul Sartre, que mais tarde o exaltaria como o ser humano mais completo da nossa época. A imagem de Che começava a ficar maior que a da revolução: ele agora era o guerreiro ilustrado e francófono, o estrategista bonito e cobiçado pelas mulheres. Em suma, um popstar adulado por gente tão distante quanto o político mexicano Lázaro Cárdenas e o ex-presidente Jânio Quadros que o condecorou com a Ordem do Cruzeiro do Sul.

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O presidente brasileiro Jânio Quadros condecora Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Capa da extinta revista “Manchete” – Veja em – https://br.pinterest.com/pin/336714509614116260/

Mas ele logo se sentiu sozinho na ilha. Fez inimigos dentro do partido, e sua relação com Fidel se complicou. Che era um sujeito incômodo. Não se calava nunca, diz o historiador argentino Felipe Pigna. Já não aceitava a ingerência da URSS em Cuba, cada vez mais forte depois do bloqueio americano e da expulsão da Organização dos Estados Americanos.”

Enquanto as divergências aumentavam, o mito de Che ganhava alcance mundial. Suas viagens eram acompanhadas de multidões gritando “Cuba sim, ianques não!”, como aconteceu na cúpula da OEA em Punta del Este, no Uruguai. No discurso que fez na sede da ONU, em 1964, ele deixou claro sua opção pelos países pobres não alinhados; e, logo depois, na Argélia, acusou a URSS de ser cúmplice do imperialismo. Claro que isso enfureceu comunistas dentro e fora do Kremlin.

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Che com filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Cuba – Fonte – spotniks.com

De volta a Cuba, Che percebeu que não estava contra Fidel, mas tampouco com ele. Nem casamento nem divórcio, definiu. E então os dois chegaram a um acordo. Che queria continuar fazendo a revolução em outros países. Não nasci para ser ministro nem avô, já tinha dito. E Fidel deu sinal verde.

Tragédia anunciada

O Congo parecia o destino ideal: no coração da África, ele serviria para irradiar a guerrilha por todo o continente. Mas, quando chegou lá, em 1965, a principal insurreição já havia terminado. Sua única participação num combate acabou em derrota. Foi tudo a história de um fracasso, escreveu Che em seu diário. Pudera: ele quis repetir na África a epopeia da Sierra Maestra, mas acabou num país 20 vezes maior que Cuba e ceifado por lutas tribais.

Teve que dar ordens a comandantes que não queriam ir à frente de batalha e soldados que se recusavam a carregar suprimentos, dizendo “Mimi hapana motocar” (Não sou caminhão). Com o tempo, diziam “Mimi hapana cuban” (Não sou cubano). Che reconheceu: chegou lá sem ser convidado. Mas não desistiu. Saiu da África disposto a realizar seu sonho: fazer a revolução na Argentina. O problema é que nem a URSS e nem os Partidos Comunistas queriam saber de luta armada na América Latina. Os cubanos buscaram então uma alternativa que não resultasse em novo fracasso. E ainda precisavam convencer Che de que o país escolhido seria apenas uma escala rumo a sua terra natal. Acabaram optando pela Bolívia, cujo Partido Comunista manifestou menos rechaço à luta armada que os demais.

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Che e seus companheiros na selva boliviana – Fonte – adst.org

Che chegou à Bolívia incógnito, disfarçado como um homem de 60 anos e com passaporte falso arranjado pelo serviço de inteligência cubano. Sofisticado, mas a operação foi outro tiro na água. Os índios bolivianos não se uniram aos guerrilheiros. Não entendiam o idioma nem objetivo deles naquelas terras. Ao contrário da Sierra Maestra, na Bolívia a guerrilha acabou denunciada pelos próprios camponeses. Eles sentiram que viera uma invasão, diz Pigna.

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Che Guevara capturado na Bolívia – Fonte – http://www.profjuliososa.com.br

Bastaram 11 meses para que as tropas de Che fossem dizimadas. Um dos poucos sobreviventes, Dariel Alarcón Ramirez o comandante Benigno, acusou Fidel de ter abandonado Che à própria sorte. Assim, Castro teria se livrado do homem que o ofuscava em Cuba. Outros discordam, dizendo que Che nunca pretendeu suplantar Fidel. É provável que Fidel tenha decidido que um Che mártir na Bolívia serviria mais à revolução do que um Che vivo, abatido e melancólico em Havana. O primeiro permitiria a criação de um mito. O outro acarretaria enormes discussões e divergências, todas insolúveis, diz Castañeda.

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Corpo de Che Guevara exibido por militares bolivianos – Fonte – g1.globo.com

Julgar Fidel incapaz de um cálculo de tamanha frieza e cinismo seria desconhecer os meios que garantiram sua permanência no poder por mais de 40 anos. Segundo Castañeda, Fidel não enviou o Che à morte. Nem o traiu. Nem o sacrificou. Só deixou que a história seguisse seu curso, com plena consciência de qual seria o desfecho.

Jon Lee e Pigna também concordam que Che se autocondenou à morte quando partiu para a Bolívia. Suas chances de vitória eram mínimas. O próprio Benigno notou que o Che seguiu uma estratégia irracional em seus últimos dias, quando a asma sugava suas últimas forças. Precisava-se de remédios, por que não ordenou que seus homens assaltassem uma farmácia? Na opinião de Benigno, Che pretendia se sacrificar num último e glorioso combate. Ele aconteceu na manhã de 8 de outubro, quando Che e seus homens se viram cercados por militares bolivianos na Quebrada del Churro, uma garganta cheia de arbustos.

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Fonte – http://www.celebritymorgue.com

O argentino disparou sua carabina até que ela levou um tiro no cano e ficou inutilizada. Uma segunda bala perfurou sua perna esquerda. Ernesto ainda tentou fugir pela margem da garganta, mas deu de cara com a arma do sargento Bernardino Huanca, que o ouviu dizer: Não atire. Valho para você mais vivo do que morto”.

Alvoroçados com a captura, os militares levaram o guerrilheiro para uma escola de La Higuera. No dia seguinte, o tenente Mario Terán se ofereceu para dar cabo dele. Ansioso por vingar a morte de três companheiros, não teve dúvidas: escolheu um fuzil semiautomático. Matou o guerrilheiro Ernesto. Tirou a vida do argentino aventureiro, obstinado e devorador de livros. Só que deu à luz algo bem maior – um mito ancestral, cuja história se repete desde o início dos tempos: o mito do herói para quem os ideais são algo acima da vida e da morte. O mito do santo que se sacrifica para salvar a humanidade. O semideus. O Cristo. Deu à luz Che Guevara.

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Fonte – d3va.deviantart.com

Che Guevara nem Combate

Depois de conquistar adeptos na mata, o médico Ernesto Guevara parte para a batalha que selaria a vitória rebelde. E se torna Che, o mito.

Depois de virar mito, ele chegou ainda mais alto: tornou-se uma divindade. Como um garoto argentino de classe média e com espírito aventureiro conseguiu tanto mesmo tendo feito um monte de besteiras (e de atrocidades).

1. Recrutamento
Estamos no ano de 1958. Gente do país todo peregrinava até a Sierra Maestra, aqui, para aderir à guerrilha. Tudo começara dois anos antes com cerca de 20 homens. Agora já eram centenas.

2. Treino
Mesmo assim era pouco em comparação com os 10 mil homens do Exército cubano. Então os treinos eram intensivos, com bastante prática de tiro ao alvo, para que cada rebelde pudesse valer por soldados.

3. De grão em grão
Os rebeldes esperavam ser atacados. Na selva, é bem mais fácil matar se você está na defensiva, já que quem avança tem de fazer isso em fila indiana. Atiradores nas árvores tinham a missão de alvejá-los. E campos minados também ajudavam.

4. Vira-casaca
O exército de Batista era grande, mas desmotivado (quase todo cidadão cubano odiava o ditador). Então muitos soldados viraram a casaca e reforçaram a guerrilha.

5. Assaltos
Fidel e seus “generais”, Raúl Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos, sistematicamente lideravam ataques a comboios do Exército. Objetivo: cortar o suprimento de armas aos quartéis e reforçar o arsenal da guerrilha.

6. Guerra urbana
Fidel decidiu atacar: mandou Cienfuegos tomar a cidade de Yaguajay e Che dominar Santa Clara. Camponeses se juntaram aos guerrilheiros no caminho. Cienfuegos saiu com 60 homens e chegou com 450, mais do que o número de soldados em Yaguajay. Ernesto juntou 300. Só que 3,5 mil soldados esperavam por ele aqui, em Santa Clara.

7. Jogada de mestre
O comando do Exército tinha mandado um trem com 400 soldados, 600 rifles, bazucas e canhões para reforçar Santa Clara. Che, esperto, ficou sabendo e destruiu os trilhos. O trem descarrilhou e os rebeldes acabaram armados até os dentes.

8. Franco-atiradores
Fortalecidos pelas armas do trem, os homens de Che usaram táticas aperfeiçoadas na floresta: franco-atiradores em lugares altos, como a torre da igreja, aterrorizavam o inimigo. E bazucas detinham os tanques do Exército.

9. Fim de papo
Depois de 3 dias de batalha, o Exército cubano se rendeu a Che Guevara. Fulgencio Batista viu que estava tudo acabado e, no dia seguinte, 1° de janeiro de 1959, fugiu do país. Fidel e Raúl, então, tomaram conta de Santiago de Cuba, perto da Sierra Maestra.

10. Rumo a Havana!
Depois da vitória, as tropas de Cienfuegos se uniram às de Che em Santa Clara e todos partiram para o destino final: Havana. O caminho foi tranquilo: um passeio de caminhões, jipes e tanques tomados pelos rebeldes. E, quando chegaram à capital…

11. Na Sapucaí
Che e Cienfuegos chegaram a Havana no dia 2 de janeiro de 1959 recebidos com festa. Fidel e Raúl viriam, e desfilariam, no dia 8. E os rebeldes tomavam o controle do país – coisa que não largaram até hoje.

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Che, By Lobo – Fonte – http://www.pinterest.com

O Che herói… 

Anos 1930 – Bom samaritano

O menino Ernesto tinha uma sensibilidade distinta da dos colegas. Sempre saía em defesa dos mais fracos. Muitas vezes voltava da escola sem o casaco, pois tinha dado a alguém que precisava no caminho, diz o historiador argentino Felipe Pigna.

1952 – Médico gente boa
Na viagem que fez com o amigo Alberto Granado pela América do Sul, Che trabalhou num leprosário no Peru. Foi sua estreia na medicina. Jogava bola com os leprosos e os acompanhava em excursões pela selva. Gratos, construíram uma balsa e lhe deram de presente.

1956 – Fiel aos princípios
Foi preso no México com Fidel e outros cubanos por posse ilegal de armas. Mas não ficou quieto atrás das grades. Em vez de dissimular sua fé marxista, se vangloriou dela, tentando converter os guardas. Resultado: foi o último a sair da prisão, depois de 57 dias.

1956 – Melhor sobrado
Apesar da asma, foi considerado o melhor aluno do grupo guerrilheiro treinado pelo militar cubano Alberto Bayo no México. Disparou 650 cartuchos e conquistou a admiração do professor. Sem dúvida, Guevara é o melhor aluno, anotou Bayo em seu livro de memórias.

1958 – Líder exemplar
Ficava sempre na linha de frente dos combates e não media riscos para proteger seus homens. Alberto Castellanos, um dos soldados rebeldes, conta que Che correu em direção ao fogo inimigo para buscá-lo de volta quando ele estava sob perigo.

1959 – Senhor da guerra
Esquadrões com 1.200 exilados cubanos financiados pela CIA tentaram invadir Cuba pela praia de Girón, na baía dos Porcos, esperando desestabilizar o governo de Fidel Castro. Mas a operação foi por água abaixo: soldados treinados por Che repeliram a invasão.

1959 – Executor justo
Centenas de pessoas foram fuziladas nos seis meses em que Che ficou encarregado das execuções de presos políticos. Mesmo assim, alguns consideram que ele perdoou o quanto pôde: Até surpreende que a quantidade de execuções tenha sido tão pequena, diz Jorge Castañeda.

1959 – Salva a lavoura
Imprimiu sua marca na lei de reforma agrária, promulgada antes de Cuba virar comunista. O texto foi muito além do projeto original de Fidel: proibiu o latifúndio e limitou as terras privadas em até 400 hectares. As propriedades seriam distribuídas entre os camponeses.

1960 – Cérebro
Virou capa da Time. A revista americana disse: Castro é o coração da Cuba atual. Seu irmão Raúl é o primeiro a segurar a adaga da revolução. O presidente do Banco Nacional, Che Guevara, é o cérebro. Ele é o mais fascinante e o mais perigoso membro do triunvirato”.

1961 – Incansável
Quando se tornou um dos chefes do governo cubano, chegava ao escritório de manhã e só saía de madrugada. Tinha aulas de matemática, economia e russo. E trabalhava como voluntário, em tarefas braçais, aos domingos. “Ele realmente via o trabalho como diversão, diz um amigo.

1967 – Mártir
Depois da morte, o corpo de Che foi exposto no leito de um hospital boliviano. Com o rosto lavado pelos soldados, a barba aparada e a cabeça na lápide de concreto, sua imagem ficou parecida com a do quadro Lamentação sobre o Cristo Morto. Morreu o homem, nasceu o deus.

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Fonte – d3va.deviantart.com

…E o Che vilão.

1943 – Muy amigo
Ernesto se recusou a marchar na rua pela liberdade do amigo Alberto Granado, preso num protesto estudantil contra a ditadura. Disse que a marcha era um gesto inútil e os estudantes levariam uma surra com cassetetes e que só iria se lhe dessem um revólver.

1957 – Matador frio
Durante a luta em Sierra Maestra, Che suspeitou que o camponês Eutimio Guerra estava traindo o grupo. Acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no lobo temporal direito, escreveu Che em seu diário.

1959 – Psicopata
Mandou matar um menino de 15 anos acusado de grafitar muros com mensagens contra Fidel. Quando a mãe foi pedir clemência, ordenou a execução imediata. Para alguns hitoriadores, casos como esse mostram como foi a atuação de Che ao julgar presos políticos.

Anos 60 – Ditador
A revolução substituiu uma ditadura, a de Batista, por outra, comandada por Fidel, Raúl e Che. Em 1961, o país se tornou comunista. Milhares perderam suas propriedades  muitos fugiram ou acabaram mortos. Por isso, hoje 20% dos 11 milhões de Cubanos vivem fora da ilha.

1961 – Moratória burra
Quase enfiou Cuba num buraco financeiro quando decidiu romper com o FMI. Seu assessor Ernesto Betancourt advertiu: se pulasse fora, o país teria que pagar ao Fundo um empréstimo de US$ 25 milhões e ficaria sem um tostão até a próxima safra de açúcar. Só aí Che voltou atrás.

1962 – Diplomacia zero
No auge da Guerra Fria via os EUA como inimigos. E a URSS também. Criticou publicamente os russos por não apoiarem a industrialização da ilha. Chegou a acusá-los de cúmplices dos americanos a maior ofensa que os soviéticos poderiam ouvir.

1962 – Estratégia suicida
A URSS instalou mísseis na ilha, apontados para o território americano. Os EUA exigiram a retirada, e o mundo ficou à beira de uma guerra nuclear. Os soviéticos voltam atrás. Fidel aprovou. Mas Guevara não: queria os mísseis lá, custasse o que custasse.

1962 – Suicida mesmo!
Defendeu a guerra nuclear dizendo que ela era necessária. Foi um pouco de excesso de oratória, talvez dentro da tradição latina de exagerar, diz Jon Lee Anderson. Ok: Che cresceu numa época apocalíptica, em que o assunto bomba atômica era banal. Mas exagerou mesmo.

1962 – Plano furado
Guevara enviou o jornalista argentino Jorge Masetti (que o havia entrevistado na Sierra Maestra) para formar uma base guerrilheira na Argentina. A missão era preparar o terreno para que Che então assumisse o comando. Mas o grupo foi liquidado pelo governo argentino.

1967 – Morte patética
Ao levar a guerrilha para outros cantos do mundo, se desligou da realidade. Na Bolívia, não sabia se teria apoio popular ou condições de vencer. Não teve nenhum dos dois. E morreu encurralado. Do ponto de vista de quem reprova Che, seu final não poderia ter sido mais humilhante.

Para saber mais
Che Guevara – Uma Biografia
Jon Lee Anderson, Editora Objetiva.
Che Guevara – A Vida em Vermelho
Jorge Castañeda, Companhia das Letras.

AUTOR – EDUARDO SZKLARZ

FONTE – http://super.abril.com.br/historia/a-verdade-sobre-che?utm_source=redesabril_jovem&utm_medium=facebook&utm_campaign=redesabril_super