Arquivo da tag: Pirataria

O NAVIO PIRATA BRASILEIRO

unnamed (1)
Combate no alto mar, em pintura do século XIX – Fonte – https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

A História do Navio Negreiro Brasileiro Defensor de Pedro Que Se Transformou Em Um Barco Pirata

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN 

Em 1827 o Império do Brasil era uma nação bem jovem, que apenas cinco anos antes havia deixado de ser colônia de Portugal. O país tinha Dom Pedro I como seu Imperador, que governava em uma época de instabilidades. Era um tempo em que o Brasil era majoritariamente agrário, onde utilizava e dependia da mão de obra escrava vinda da África e tinha no tráfico negreiro através do Atlântico Sul a principal maneira destes cativos chegarem a seus portos.

Engenho_na_Paraíba_1645
Engenho de cana de açúcar na Paraíba na época da invasão holandesa

Mas nessa época a Inglaterra desejava à extinção do tráfico negreiro intercontinental para o Brasil, entretanto suas razões jamais foram por questões humanitárias. Estava no fato do açúcar produzido no Brasil, devido à mão de obra servil, ser bem mais barato do que o produzido nas colônias inglesas do Caribe. Além do que as áreas de plantação nestas colônias caribenhas eram pequenas comparadas com as brasileiras, havia um número de cativos baixo e a escravidão como força de trabalho nestas colônias estava em processo de extinção definitiva[1].

E para acabar com esse tráfico humano os ingleses estavam dispostos a utilizarem até mesmo os canhões de sua poderosa marinha de guerra, a Royal Navy. Dom Pedro I ratificou então um tratado em 13 de março de 1827, que definia um prazo de três anos para extinguir o tráfico de escravos para o Brasil. A partir desta data, quem fosse pego transportando seres humanos cativos no mar seria enquadrado como pirata e a punição básica existente nas leis inglesas para esse tipo de crime marítimo era a forca.

03. Dama em literia, carregada por escravos e suas acompanhantes_Carlos Julião_17xx_Crédito_Carlos Julião
Dama em liteira carregada por escravos e suas acompanhantes. A escravidão no Brasil foi um grave e grandiosos problema que até hoje se reflete no país de muitas maneiras – Foto Carlos Julião.

Essa situação de pressão estrangeira gerou um grande desconforto entre a elite política e agrária brasileira. Estes poderosos contestaram muito o Governo Imperial por ceder aos ingleses em algo que para eles “prejudicava o Brasil”. Até por que, antes mesmo do final do prazo de três anos, navios brasileiros que estavam vindos da África com escravos e não estavam com toda a parte burocrática em concordância com as regras impostas pelos ingleses, começaram a ser detidos pelas naves de guerra. Foram criadas duas comissões mistas com a finalidade de resolver estas questões de retenção e apresamento de navios. Uma das sedes destas comissões era no Rio de Janeiro e a outra na cidade de Freetown, na África Ocidental Inglesa, hoje capital de Serra Leoa[2].

O certo é que entre janeiro de 1827 e dezembro do ano seguinte, nada menos que doze navios negreiros, sendo nove brasileiros e três espanhóis, foram capturados apenas pela corveta inglesa HMS North Star, ocasionando a libertação de um número próximo a 2.000 escravos[3].

Slave_Ship
Navio negreiro – Fonte – http://criticallegalthinking.com/2014/05/22/slave-ship-embodies-whole-story-slavery/

Realmente os dias do nefando tráfico de homens, mulheres e crianças negras vindos da África para o Brasil estava chegando ao seu final.

O Defensor de Pedro

Mas se o trafico negreiro estava com seus dias contados, não faltava no Brasil quem quisesse pagar por mão de obra escrava para tocar suas fazendas. Com a consequente diminuição do fluxo e do número de cativos vindos da África, o preço por cada escravo começou a subir. O que atiçou a cobiça dos proprietários de barcos negreiros e dos seus capitães a cruzarem o Atlântico Sul, mesmo sem toda a papelada burocrática e a presença vigilante e perigosa da Royal Navy.

mea-00505
Rio de Janeiro, entrada da Barra perto do alto-mar, 1820 – Fonte – https://culturalrio.wordpress.com/2011/05/18/rio-ontem-e-hoje-bonito-por-natureza/

Não sei se o proprietário do barco brasileiro Defensor de Pedro havia cumprido todas as exigências da burocracia para satisfazer os ingleses, mas em novembro de 1827 este zarpou do Rio de Janeiro em busca de escravos na África[4]. 

O seu comandante era Pedro Maria de Souza Mariz Sarmento, mais conhecido como Pedro de Souza Mariz Sarmento, era um português de Lisboa, nascido em 1790 e que em 1808 fez parte da esquadra portuguesa que veio para o Brasil com Dom João VI. Na época Mariz Sarmento tinha o posto de primeiro tenente e seguiu para a grande colônia portuguesa a bordo da Nau Afonso de Albuquerque. Mas em 1827 sabemos que ele estava reformado na patente de capitão-tenente da Marinha Imperial do Brasil e sua única função naquele ano era o comando do navio negreiro Defensor de Pedro[5].

brigue

Já em relação ao Defensor de Pedro as informações também são bem limitadas. Algumas fontes apontam que ele seria uma nave do tipo Brigue, que era um modelo de veleiro de dois mastros principais, muito utilizado no comércio e podendo carregar de doze a vinte canhões. Já outras fontes apontam que este barco seria do tipo Bergatin, também um veleiro com dois mastros principais, pequenos, que foram utilizados nos séculos XVIII e XIX para o comércio e transporte normalmente em rotas curtas. Os dois tipos de barcos são bastante similares em dimensões, onde as tonelagens são bem próximas e eram muito rápidos e manobráveis. Populares não apenas entre mercadores, mas também entre piratas[6].

Um Corsário Brasileiro 

No dia 22 de novembro de 1827 o Defensor de Pedro se fez ao mar com destino a Molembo, atualmente o município costeiro de Cacongo, no enclave de Cabinda, Angola.

1 (1)
Descrição da carga do Defensor de Pedro antes de sair do Rio de janeiro.

A nave transportava várias toneladas de tecidos típicos daquela época, como zuarte e chita, além de caixas com 200 dúzias de lenços. Mas o Defensor de Pedro transportava itens mais explosivos. Tais como 100 barris de pólvora, 12 arrobas de balas de chumbo (equivalente a 180 quilos), 15 caixas com espingardas, 4.600 pederneiras para detonar as armas de fogo, 200 facas de cabo de ferro e 24 pipas (barris) de cachaça. Cada uma das pipas tinha capacidade para cerca de 500 litros, ou seja, aquele barco levava 12.000 litros da mais pura “branquinha” brasileira[7].

mea-00517
Panorama circular do porto do Rio de Janeiro, 1827 (detalhe), pintado pelo artista inglês Emeric Essex Vidal – Fonte – https://culturalrio.wordpress.com/2011/05/18/rio-ontem-e-hoje-bonito-por-natureza/

Na nota existente no Jornal do Commercio do Rio, temos a informação que o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento tinha uma licença, ou carta, de corso, o que significava que para as autoridades brasileiras o Defensor de Pedro era um barco corsário.

No período inicial do Império do Brasil, assim como noutras nações, nosso país teve a sua marinha corsária e é importante aqui fazer a distinção entre corsário e pirata. Os piratas agiam ilegalmente em tempo de guerra e de paz, sem qualquer regra, sem pertencer a reis ou a qualquer governo. Ao contrário dos corsários, que agiam de acordo com seu soberano, exclusivamente em período de conflito, onde seus navios eram armados por particulares, que possuía licença do rei para combater os inimigos do Estado, visando interromper seu comércio e sua navegação. Além de ganhar dinheiro com o que fosse capturado.

tour_du_monde_bouchard
Rota do La Argentina ao redor do mundo – Fonte – http://grupolagazette.com/al/index.php?option=com_content&view=article&id=567:hyppolite-bouchard&catid=9&Itemid=109

A Argentina, por exemplo, possuiu uma frota corsária e um de seus navios realizou uma viagem de circunavegação pelo globo entre 1817 e 1819[8]. Mas essa não foi uma viagem de adestramento de Guardas Marinhas, foi uma viagem para atacar barcos e colônias espanholas. Chamado La Argentina, esta nave era comandada pelo francês Hippolyte de Bouchard, esteve em locais como Madagascar, Indonésia, Filipinas, Havaí, costa da Califórnia, negociando com barcos amigos e atacando impiedosamente os espanhóis. Nessa aventura Bouchard capturou 26 barcos, mas acabou preso no Chile pelo almirante inglês Thomas Alexander Cochrane, que na época servia junto à neófita marinha chilena e depois foi o primeiro almirante da Marinha do Brasil, onde combateu os portugueses na Bahia. Na época o cruzeiro do La Argentina se tornou um fato muito conhecido e comentado nos portos do Atlântico Sul[9].

Consta que o capitão Mariz Sarmento pretendia navegar levando toda essa mercadoria para ser trocada por escravos nos portos africanos. A ideia era trazer de 200 a 300 “Peças” de escravos, como se dizia na época. Mesmo com a mortandade média de uns 80 a 100 prisioneiros, era considerado um negócio lucrativo. 

landing-of-slaves-in-cais-do-valongo-painted-by-rugendas-in-1835-e1431619895836
Comércio de escravos no Cais do Valongo, porto do Rio de Janeiro.

Para isso ele necessitava de uma tripulação experiente e foi no porto do Rio de Janeiro que o capitão arregimentou um grupo de 40 tripulantes onde constavam brasileiros, portugueses, franceses e espanhóis, a maioria deles renegados e fugitivos da justiça de suas nações.

Quando um dos 40 tripulantes soube da rota que o Defensor de Pedro iria seguir e viu o que aquele barco carregava, certamente começou a pensar diferente do seu capitão.

O Pirata Galego 

Benito Soto Aboal é considerado pelos espanhóis não o último pirata do Atlântico Sul, mas o último de todo Oceano Atlântico. 

e95f7fe73baedfc022803c72aab85140
Benito Soto Aboal

Mais conhecido como Benito Soto nasceu na área do porto marítimo que deu origem ao atual município de Pontevedra, na Região Autônoma da Galícia, Espanha[10]Desde o século XII Pontevedra era uma das cidades mais importantes da Galícia e, graças ao comércio marítimo e seus estaleiros, um dos mais importantes portos do Atlântico Ocidental na Península Ibérica. Naquele distrito de marinheiros, Benito Soto nasceu em 22 de março de 1805. 

Segundo o pesquisador espanhol Marcos Iglesias, este jovem galego era o sétimo de uma prole de catorze filhos de um pescador e uma dona de casa. Marinheiro desde precoce idade, junto com seu pai e irmãos realizou vários trabalhos nas costas galegas, em diferentes funções, algumas delas de legalidade duvidosa. Tais atividades o levaram a ser respeitado entre os ambientes portuários e de contrabandistas. Então, por volta de 1822, Benito Soto embarca em direção a Havana, Cuba.

unnamed
Pontevedra no século XIX – Fonte – https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

De acordo com algumas fontes foi nessa ilha do Caribe que o espanhol se envolveu primeiramente com piratas e corsários, onde lutou a bordo de barcos cubanos ou colombianos. Segundo outros ele era um marinheiro honesto envolvido com tráfico de escravos, atividade que na época era considerada lícita em vários lugares. Talvez todas as versões mostrem alguma verdade, já que ele poderia estar a bordo de barcos, atacando navios escravos de outras nações para roubar suas mercadorias e suas “Peças” de cativos. E tudo isso sem ter atingido a idade de 20 anos.

Seja como for, segundo o pesquisador espanhol Marcos Iglesias, em 1823 Benito Soto viajou de Havana para o Rio de Janeiro, a bordo de um navio mercante espanhol. Mas este barco foi capturado na área costeira de Salvador, Bahia, pela marinha brasileira, que acreditou ser aquele barco uma nave pirata. Neste ponto o pesquisador Marcos Iglesias aponta no seu trabalho que o rastro deste marujo torna-se nublado e ele só volta a comentar sobre Benito Soto apenas quando este embarca no Defensor de Pedro, quatro anos depois do encontro com a nossa antiga Marinha Imperial[11].

Batalha_de_4_de_maio
A Batalha de 4 de maio de 1823 foi o maior combate naval durante a Guerra de Independência do Brasil quando as frotas brasileiras e portuguesas se enfrentaram. A frota brasileira estava sob o comando do inglês Thomas Cochrane – Fonte – Wikipedia

Talvez Benito Soto e outros companheiros, certamente marujos com vasta experiência, tenham passado a atuar como mercenários contratados a bordo de alguma das naves de guerra da nossa recém-criada Força Naval. Não podemos esquecer que em 1823 nossos navios de guerra se bateram contra as naves lusitanas na costa baiana e na Baía de Todos os Santos, na luta pela consolidação de nossa Independência. Além disso, a maioria destes barcos brasileiros eram comandados por capitães oriundos principalmente da Inglaterra, sob o comando geral do inglês Thomas Alexander Cochrane. Então neste contexto, ter um espanhol a mais, ou a menos, não fazia muita diferença nos barcos brasileiros, contanto que ele fosse um bom marinheiro, soubesse usar com destreza a espada em uma das mãos e uma pistola de pederneira na outra.

5 taunay vista morro sto antonio
Quadro de Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830)-‘Vista do Morro de Santo Antonio” – Museu Nacional de Belas Artes – Fonte – http://viticodevagamundo.blogspot.com.br/2013/03/rio-de-janeiro-by-nicolas-antoine-taunay.html

De toda forma pelos registros da época vamos encontrar Benito Soto como um homem livre no Rio de Janeiro em novembro de 1827 e pronto para zarpar. 

O Motim 

Para vários pesquisadores, talvez pela presença de patrulhas navais inglesas, ou por uma cobiça maior que a desejada, o capitão do Defensor de Pedro não seguiu para a costa do atual enclave de Cabinda, mas para o Golfo da Guiné, especificamente na atual Gana, aonde chegou em 3 de janeiro de 1828.

Para alguns pesquisadores o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento pode ter saído da área angolana para ultrapassar os limites do seu comércio e ganhar mais dinheiro. Ele seguiu para uma região onde provavelmente poderia comprar escravos a uma taxa muito menor do que seria a regular[12]. Sabemos que ele chegou a costa africana, conseguiu adquirir um número considerável de escravos, e, para completar a carga, baixou a terra para conseguir mais cativos. Foi aí o seu erro!

166
Piratas levando barris rum para trocar por escravos. No caso do Defensores de Pedro os escravos seriam trocados por cachaça e outros produtos.

Benito Soto transmitiu a ideia de tomar pela força o Defensor de Pedro ao colega Miguel Ferreira e torná-lo um barco pirata. Ferreira, um natural da Galícia, não só concordou em se juntar ao seu conterrâneo, mas declarou que ele próprio estava pensando em uma empresa similar durante a viagem.

Sem o capitão a bordo Soto e Ferreira enfrentaram o resto da equipe com gritos de “Abaixo com os portugueses”. Eles, de forma incisiva deram cinco minutos para os membros da tripulação tomar uma decisão – ou se juntavam aos amotinados para assumir o navio, ou eles seriam colocados em um barco com um par de remos. Alguns membros da tripulação leais a Mariz Sarmento recusaram o convite e tiveram de remar por dez milhas náuticas (cerca de dezoito quilômetros e meio) até a costa africana. 

Triton-Hasard-stitched
Quandro que mostra uma típica luta no convés. No caso a cena mostra o combate no barco Triton pelo corsário francês Hasard (ex- Cartier ), sob o comando de Robert Surcouf . No caso do motim do Defensor de Pedro esse tipo de luta não foi necessário.

Defensor de Pedro foi então renomeado La Burla Negra, tendo sido pintado desta cor. Existem versões que falam de um triunvirato para gerenciar o motins, com Miguel Ferreira (Cognominado pelos tripulantes como o Mercúrio e que por alguma razão foi apontado inicialmente como líder), Benito Soto (O Barredo), e um certo Victor Saint-Cyr de Barbazan (O François)[13].

Logo Benito Soto começou a entender que para impor sua autoridade em meio à corja com que convivia, só sendo mais bruto que todos aqueles brutos. E logo alguém iria sentir a sua força.

Pyle_pirate_handsome.jpg

Miguel Ferreira, o Mercúrio, como chefe dos piratas passou a agir como verdadeiro tirano. O olho agudo de Soto viu que aquele que tinha adulações com ele no dia anterior, no dia seguinte o governaria com uma barra de ferro na mão. Ele não pensou duas vezes e quando Miguel estava em um forte sono inebriado pela cachaça, colocou uma pistola em sua cabeça e atirou nele.

Soto se desculpou com a tripulação, afirmando que aquela atitude era para sua proteção e fez uma promessa a todos; que como seu novo líder traria uma colheita de ouro nos seus futuros “trabalhos”, desde que obedecessem a ele. 

pirate-ship-crew[9]
Piratas montando um ardil para atacar um barco mercante em alto mar.
Soto foi unanimemente saudado pela equipe do barco como seu capitão e reivindicou a honra de ser o último pirata real do século XIX no Atlântico.

Mas logo também impôs mão de ferro entre os homens. Alguns dos franceses reclamaram que não podiam falar na língua deles. Consta que Soto entendia os marinheiros portugueses e brasileiros, mas não os franceses, que geraram ocasionais altercações. Desconfiava destes quando falavam em “Petit comité”.

-font-b-Pirate-b-font-Ship-High-Seas-1800-s-Seascape-Lge-font-b-Oil
Fonte – http://www.aliexpress.com

O plano inicial foi cruzar o Atlântico para vender a carga de escravos no Caribe. Para este fim a pessoa necessária para o governo do barco era o brasileiro Manoel Antônio Rodrigues, que tinha prática de navegação e possuía a função de “piloto”[14]. Entretanto eu acredito que, se essa venda realmente aconteceu, o fato pode ter ocorrido na costa brasileira, mais precisamente em algum ponto na costa do Nordeste[15].

Independente desta questão, após o objetivo da venda dos escravos haver sido pretensamente alcançado, os piratas partiram para a região da Ilha de Ascensão, no meio do Atlântico Sul, abrindo a possibilidade de atacar navios que viam das ricas terras da Índia e dobravam o Cabo da Boa Esperança em direção a Europa.

Logo uma presa surgiu no horizonte.

As Chacinas e Crueldades no Morning Star 

De todos os ataques o mais conhecido e que ensejou uma forte perseguição ao La Burla Negra foi o ataque ao barco inglês Morning Star, o primeiro que Benito Soto realizou. 

Imagem2
Major William Logie

Seu capitão se chamava Thos Gibbs e havia partido de Colombo, no Ceilão, atual Sri Lanka, em 13 de dezembro de 1827, com uma carga de café, canela e alguns passageiros. O principal destes era o Major William Logie, um Representante Militar de Sua Majestade Jorge IV na Ceilão. Logie estava acompanhado de sua família, além de terem a companhia de um cirurgião assistente, dois civis, cerca de vinte soldados inválidos e três ou quatro de suas esposas e filhas. 

O navio cruzou o Cabo da Boa Esperança em 28 de janeiro de 1828 e avistou a Ilha de Ascensão ao amanhecer do dia 19 de fevereiro. Quando estavam a três milhas náuticas a oeste desta ilha, às sete da manhã, os tripulantes do Morning Star viram surgir no horizonte uma estranha nave negra. 

[The Sea: its stirring story of adventure, peril & heroism.]
Desenho do ataque do La Burla Negra contra o barco inglês Morning Star
O barco estava a seis ou sete milhas a popa, mas era rápido e logo diminuiu a distância. Os tripulantes perceberam que a nave escura era bem armada e trazia as cores britânicas. Quando este chegou a menos de meio quilômetro do Morning Star abriu fogo com seus canhões, destruindo velas e ferindo alguns marujos. Ao cruzar com a proa do barco inglês, os do barco negro içaram a bandeira argentina.

Não é a toa que vários autores apontaram o La Burla Negra, antigo Defensor de Pedro, como sendo de origem argentina, bem como o seu nefasto capitão ser cidadão argentino. Mas eu acredito que a utilização daquela bandeira tinha mais haver com a fama na época do cruzeiro do corsário La Argentina e também servia para, no caso de alguém conseguir se salvar, informar erroneamente as autoridades a origem do barco pirata pela bandeira desfraldada.

Imagem4
Foto do Morning Star no final de sua carreira – Fonte – http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

Logo ambos os veleiros ficaram a menos de cinquenta metros e os piratas jogaram ganchos com cordas e conseguiram emparelhar os barcos. As testemunhas sobreviventes narraram que os piratas eram homens atléticos e estavam todos armados. Cada um deles carregava pelo menos duas pistolas, facas e uma espada longa. Seu vestuário era composto de uma espécie de jaqueta de algodão grosseiro, camisas abertas até o peito, barretes de lã vermelha e cintos largos de lona, ​​nas quais estavam as pistolas e as facas.

172
Desenho representando a morte do capitão Thos Gibbs, do Morning Star.

Na sequência mataram o capitão do barco inglês e Benito Soto ordenou ao francês Barbazan que pilhasse o que pudesse e exterminasse todos os tripulantes a bordo. Ato contínuo os ganchos foram retirados e os barcos ficaram afastados por cerca de 100 metros. Barbazan e seus piratas começaram a matança com pistolas e espadas, pois os ingleses, mesmo em maior número, estavam completamente desarmados. Foi quando os atacantes deram conta da existência de mulheres. Estas ficaram trancadas na cabine do capitão.

Depois de prostrarem várias pessoas no convés, eles levaram a maioria dos sobreviventes para o porão principal e reservaram alguns para ajudar suas operações de pilhagem. Começaram a saquear o navio levando as velas, cordas, caixa de remédios, todos os materiais de navegação, dinheiro, sete pacotes de joias valiosas que faziam parte da carga e toda a bebida a bordo. Os piratas também saquearam os passageiros da maior parte de suas roupas, todo seu dinheiro e artigos valiosos que poderam encontrar. Durante duas horas trabalharam no saque, levando o botim em baleeiras até o La Burla Negra.

1830 De Soto - Rape
Desenho representando o ataque as mulheres no Morning Star.

Depois de muito trabalharem no transporte do material pilhado, enquanto seu capitão apreciava este material, Barbazan decidiu relaxar com seu grupo no Morning Star. Primeiramente obrigaram o mordomo a lhes servir vinhos e comestíveis, onde as testemunhas afirmaram que os Piratas se entregaram aos prazeres da garrafa por algum tempo. Depois Barbazan ordenou que seus companheiros “tratassem bem as mulheres”, então começou o terror para elas. Os gritos destas indefesas mulheres foram ouvidos durante horas por aqueles que estavam presos no porão.

Antes de voltar para o navio pirata, já de noite, depois de doze horas donos do Morning Star, Barbazan abriu buracos abaixo da linha d’água do veleiro, de modo que o barco afundaria e afogaria todos a bordo.

Imagem3
Anne Smith Logie, uma das mulheres que foram atacadas no barco inglês.

No meio da madrugada as mulheres seviciadas conseguiram arrombar a porta da cabine do capitão e libertaram o resto da tripulação. Estes conseguiram parar o afundamento, retiraram depois de penosa atividade a água a bordo, montaram algumas poucas velas e foram se arrastando em direção a Inglaterra. Pensaram em se dirigir primeiramente até Recife, mas tiveram medo de cruzar com outros piratas.

Quase um mês depois, no dia 13 de março, eles encontraram o navio inglês Guildford retornando da China e receberam provisões, instrumentos de navegação e o seu capitão emprestou marinheiros experientes para ajudar. O Morning Star chegou a Londres em 18 de abril de 1828 e sua desgraça foi notícia em todo o Império Britânico.

Navio Pirata

O La Burla Negra se tornou famoso em toda parte do Oceano Atlântico e passou a ser caçado sem dó e nem piedade por todas as marinhas de guerra, principalmente a Royal Navy.

John_Phillips_pirate
Vida de pirata – O capitão pirata John Phillips obrigando um prisioneiro sob uma arma a beber álcool.

Mas se Benito Soto era muito cruel, verdadeiramente insano, também era muito inteligente. Pois após o ataque ao Morning Star ele e sua tripulação vão continuar atacando e destruindo barcos ingleses americanos, espanhóis e portugueses.

Sabe-se que Benito Soto destruiu quase uma dúzia de navios, incluindo a galera americana Topaz, que navegava de Calcutá, na Índia, para o porto americano de Boston. Benito Soto atacou, saqueou, tocou fogo no Topaz e não deixou sobreviventes. Foram atacados também os barcos Cassnock (Capitão Thompson), o New Prospect (Capitão Cleland), o Simbry  (Ou Sumbury) e o barco português Melinda, cujos sobreviventes da tripulação afirmaram conhecer alguns membros do La Burla Negra, quando este ainda era o Defensor de Pedro e estava ancorado no Rio de Janeiro em novembro de 1827[16].

pirate_ship_a
Fonte – https://br.pinterest.com/pin/263249540694857998/

Estes portugueses certamente foram uma rara exceção de sobrevivência, pois a ideia principal de Benito Soto para navegar por mais tempo era não deixar sobreviventes para narrar as autoridades os ataques. Inclusive quando Soto soube que Barbazan não obedeceu a sua ordem explícita para matar todos no Morning Star, preferindo se divertir com as mulheres e confiar que o barco inglês afundaria pelos furos provocados, recriminou duramente seu comandado e lhe disse um velho ditado pirata – “Os homens mortos não contam contos”.

Mas agora era tarde[17]!

O barco carregava os porões e bodegas cheias e Soto decidiu ir à Galícia para reparar o La Burla Negra e vender o saque.

A1607
Luta em barco pirata – Fonte – http://www.rmg.co.uk/discover/explore/real-pirates-caribbean

Os piratas lidavam com a ideia de se aposentar, ou continuar com suas práticas. Em qualquer caso, qualquer decisão envolvia a venda dos bens. Assim, em 10 de abril de 1828, eles acabaram ancorando nas proximidades da praia de Beluso, perto de Pontevedra. Com a ajuda do tio materno de Soto, José Aboal, e pagando suborno, os piratas vendem grande parte do saque.

O movimento acabou levantando suspeitas, situação que lhes obrigou a deixar a região em direção ao porto de La Coruña. No caminho, em meio a uma situação particularmente desagradável, o La Burla Negra encontrou um pequeno barco que Soto saqueou e matou casualmente toda a tripulação – exceto por uma notável exceção: um indivíduo que havia dito a Soto que poderia encontrar o caminho mais rápido de volta a região de La Coruña, Espanha. Poucos dias depois, à vista da terra e depois de seguir o conselho desse homem, Soto, agradavelmente surpreendido, chamou-o para o olhar do Capitão:

“Amigo, esse é realmente o porto de La Coruña?”

“Sim, meu capitão”, respondeu o rapaz.

“Nesse caso”, Soto sorriu e disse, “você fez bem e agradeço seu serviço.”

Ele então atirou no homem morto e calmamente jogou seu corpo ao mar.

D6870_detail
Festa de piratas – Fonte – http://www.rmg.co.uk/discover/explore/real-pirates-caribbean

Seja esta história verdade, ou não, afirma-se que Benito Soto foi responsável por ferir e matar bem mais de 100 pessoas.

Mas em La Coruña as coisas também não correram positivamente. Mais subornos e mais obstáculos para se livrar do resto da mercadoria, para não mencionar os excessos cometidos por alguns marinheiros sob a influência do álcool, uma questão que resultou em algumas prisões. Eles então partiram para região de Gibraltar. 

O Fim Do Defensor de Pedro e Um Sortudo Pirata Brasileiro

Na noite de 9 de maio de 1828, Soto deu a ordem de encalhar propositalmente o La Burla Negra  ao sul da cidade de Cádiz, em uma praia chamada Santa Maria, na atual Comunidade Autónoma Andaluza, não muito longe de Gibraltar, até hoje uma colônia inglesa na entrada do Mar Mediterrâneo.

1 (2)
Notícia de jornal carioca de 1828 informando a destruição do Defensor de Pedro na Espanha e a condenação de Benito Soto e seus asseclas.

Quatro meses depois do início desse frenesi de loucura, o antigo Defensor de Pedro, transformado em La Burla Negra, chegou ao seu fim.

Soto rapidamente organizou a dispensa do dinheiro para possíveis subornos e forneceu ordens aos marujos para que se misturassem entre as pessoas comuns sem atrair atenção. O capitão tentou se passar por um honesto navegador de um barco naufragado, junto com seus marinheiros. Sua história foi ouvida com simpatia e durante alguns dias tudo aconteceu conforme os planos.

ce042ed35d9438b20ac28568093cf7d2
Desenho moderno representando Benito Soto sendo preso nas ruas de Gibraltar.

Mas a sorte desse grupo de piratas, com muito dinheiro para gastar nas bolsas, acabou. Os homens cometeram excessos e altercações de todos os tipos, foi quando surgiram suspeitas. Para completar a má sorte destes malfeitores, pesquisadores ingleses afirmam que, incrivelmente, um dos sobreviventes do Morning Star reconheceu um de seus algozes. A filosofia pirata de Benito Soto era, sob alguns aspectos, correta – Os homens mortos não contam histórias. Mas era impossível conseguir que uma pessoa que sobreviveu ao terrível assédio que foi vítima naquele barco inglês parasse de falar. Logo os tripulantes foram presos pelas autoridades espanholas.

Mas Soto e um membro da tripulação, que o pesquisador espanhol Marcos Iglesias aponta como sendo um brasileiro chamado “Dos Santos”, desapareceram instantaneamente de Cádiz[18].

1836 - Gibraltar Thomas Roscoe
Gibraltar, quadro de 1836, de Thomas Roscoe – Fonte – http://gibraltar-intro.blogspot.com.br/2011/10/normal-0-false-false-false-en-gb-x-none_25.html

Conseguiram fugir para Gibraltar, onde finalmente os ingleses pegaram o pirata galego. Ainda segundo Marcos Iglesias o único que escapou foi o brasileiro “Dos Santos”, o único usuário do saque, até provar o contrário, que se aproveitou do butim. Já os ingleses afirmam que este fugitivo seria um francês[19].

Charles Ellms, um autor britânico da época, que escreveu vários livros sobre piratas, parece ter conhecido Benito Soto na sua prisão em Gibraltar e visitou-o várias vezes enquanto estava detido. Ellms nos diz que, ao longo de sua permanência na colônia o antigo capitão do La Burla Negra  se vestia com roupas caras, ostentando meias de seda, calças brancas e um vistoso casaco azul. Seu chapéu branco inglês, impecavelmente limpo e da melhor qualidade. Sua aparência, longe de ser a de um bandido, era muito mais a de um comerciante de Londres, dando a impressão de ser um homem agradável e honesto.

1830 General George Don
General Sir George Don em 1830 – Fonte – http://gibraltar-intro.blogspot.com.br/2011/10/normal-0-false-false-false-en-gb-x-none_25.html

O antigo capitão foi julgado, considerado culpado de pirataria e condenado à morte. Enquanto ficou na prisão por um ano e meio, Benito Soto continuou a declarar sua inocência, reclamando constantemente sobre a injustiça que estava sendo vítima. Foi somente quando o governador de Gibraltar, o general Sir George Don, o sentenciou oficialmente a ser enforcado, esquartejado, sendo seus membros cortados e pendurados em ganchos, como aviso para todos os piratas da justiça que ali era feita. Só então Soto finalmente desistiu e admitiu sua culpa.

Ele fez uma confissão sem reservas de seus crimes e tornou-se verdadeiramente penitente. Soto entregou ao carcereiro a lâmina de uma navalha que ele escondeu entre as solas de seus sapatos para o propósito reconhecido de adicionar o suicídio como ato final de sua nojenta vida.

Kidd_compressed
Desenho representando o cadáver do famoso pirata capitão Kidd exibido após sua execução. No caso de Benito Soto o seu cadáver também foi exposto após ser enforcado, só que foi mostrado esquartejado.

Os que testemunharam sua execução no dia 25 de janeiro de 1830, entre eles Charles Ellms, parecem ter ficado impressionados com o seu comportamento, com sua calma e tranquilidade, enquanto ele avançava para facilitar as coisas para o carrasco. No final Soto parecia desejar o momento que seria colocado diante de seu Criador.

O pirata galego disse a plateia presente suas últimas palavras – Adeus, todos. Na época essas palavras criaram um grande debate em Gibraltar, pois foram ditas em bom português[20].

-font-b-Pirate-b-font-font-b-Ship-b-font-Attack-Sea-Battle-Ocean-Large
Navio pirata perseguindo sua presa – Fonte – http://www.aliexpress.com

Apesar da região da Galícia fazer fronteira com o norte de Portugal e o idioma galego possuírem proximidade linguística com o português, as pessoas do lugar achavam difícil acreditar que um espanhol teria falado em português no momento da sua morte.

Mas os que eles não sabiam na época, ou não perceberam, era que talvez para o pirata Benito Soto àquelas palavras ditas na hora da morte não tivessem ligações com fatos ocorridos em terras Lusitanas, mas lhe traziam a memória algo importante que aconteceu em uma grande e ex-colônia de Portugal no Novo Mundo[21].


NOTAS

[1] Fato que efetivamente se consumou em 1834.

[2] Ver o livro O tráfico de escravos no Atlântico. Herbert S. Klein. FUNPEC Editora, 2004.

[3] Os espanhóis transportavam escravos para suas plantações de cana de açúcar em Cuba. Já a HMS North Star era uma corveta da Classe Atholl, construída pela Woolwich Dockyard  em 1824, com 28 bocas de fogo. Ver o site http://www.pbenyon.plus.com/18-1900/N/03276.html.

[4] Apesar de todas as buscas eu não consegui apurar o nome do proprietário do barco Defensor de Pedro. Já Pedro de Souza Mariz Sarmento é apontado em todas as fontes como o capitão do barco. Ele até pode ter sido o proprietário, mas sem confirmação.

[5] Mesmo sem conseguir encontrar qualquer informação que aponte, ou conteste, a razão desse pensamento, é provável que essa situação seja um indicativo que o capitão Mariz Sarmento não conseguiu uma projeção maior na Armada Nacional. Mas qual, ou quais, seriam a causa: Talvez a sua origem portuguesa de Pedro de Souza Mariz Sarmento não tenha lhe ajudado muito na nossa Marinha? Ou ocorreu algo na sua carreira naval que o marcou de forma negativa ao ponto de ser precocemente reformado? Ou porque para ele era bem mais lucrativo transportar escravos pelo Atlântico Sul, do que está a bordo de uma nave pertencente a uma força naval que lhe pagava pouco e da qual ele não tinha espaço para progredir?

[6] Algumas fontes apontam que o Defensor de Pedro era um barco argentino, o que é errado, já que sua denominação remete especificamente ao imperador Pedro I do Brasil.

[7] Sobre aspectos da partida e da carga do barco ver o jornal Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, edições de 20 (terça-feira) e 23 (sexta-feira) de novembro de 1827, respectivamente nas páginas 2 e 4. Já sobre os detalhes das negociações para a compra de escravos, ver o livro O tráfico de escravos no Atlântico. Herbert S. Klein. FUNPEC Editora, 2004.

[8] Esses corsários argentinos deram muito trabalho aos brasileiros durante a Guerra da Cisplatina.

[9] Aparentemente, conforme narro no texto, o cruzeiro do La Argentina teve uma tênue ligação com o caso do Defensor de Pedro, quando este se tornou um barco pirata. Ainda sobre o barco La Argentina ver Nuevos Documentos sobre el Crucero de La Argentina a través del Mundo, Volumen I. Autores: Rossi Belgrano, Alejandro y Mariana, Buenos Aires, 2016.

[10] Segundo as lendas antigas o herói troiano Teucer, filho de Telamon e meio-irmão do Ajax, fundador da cidade, chegou a Terra em Pontevedra. Já de acordo com a história, também foi nesse local onde os romanos fundaram o Ad duo ponte, o atual Pontevedra.

[11] Sobre o interessante texto de Marcos Iglesias, em espanhol, ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html.

[12] Para alguns pesquisadores, pelo número de armas e pelo tipo de gente que comandava, é possível que o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento pretendesse retirar pela força o máximo de cativos que pudesse.

[13] Barbazan seria oriundo de uma aristocrática família francesa, sobrinho do marechal Laurent de Gouvion Saint-Cyr, chefe militar dos exércitos napoleônicos. Ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html.

[14] No futuro este homem vai declarar que foi obrigado a permanecer com aquela súcia durante o tempo da viagem e pilhagens. E de alguma forma isso deve ter sido verdade, pois ele foi um dos poucos que foram capturados e não morreram na forca.

[15] Em minha opinião existe uma dúvida na história deste barco. Uma viagem entre a costa africana e o Caribe parece ser muito longa, principalmente quando sabemos que o tempo total de ação do La Burla Negra como nave pirata foi de apenas quatro meses. Apesar desta viagem não ser impossível e algumas fontes consultadas afirmarem que esta nave vendeu os escravos no Caribe, eu acredito que a venda se deu mesmo foi no Nordeste do Brasil. Pois, além de haverem brasileiros no La Burla Negra que certamente conheciam a costa nordestina, nesta região não faltavam quem quisesse comprar escravos africanos de forma rápida e discreta.

[16] Ver Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3.

[17] Existem vários relatos do cruel ataque de Benito Soto ao barco inglês Morning Star. Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3. É possível encontrar este jornal no endereço eletrônico https://books.google.com.br. Existem dois textos bem detalhados no jornal carioca  ver o jornal Diário Fluminense, Rio de Janeiro, edições de 15 (terça-feira) de julho de 1828, páginas 51 e 52 e do dia 10 (segunda-feira) de maio de 1830, nas páginas 411 e 412. Mas o primeiro destes textos erra o nome do barco atacado. Existem igualmente bons sites ingleses que trazem inclusive reprodução dos depoimentos dos sobreviventes – Ver http://www.scarboroughsmaritimeheritage.org.uk/article.php?article=297 e http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

[18] Ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

[19] Ver os sites http://www.scarboroughsmaritimeheritage.org.uk/article.php?article=297 e http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

[20] Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3.

[21] Talvez o trabalho que reúne com mais precisão todos os eventos envolvendo Benito Soto foi escrito em 1892, pelo militar espanhol Joaquín Bautista Lazaga y Garay, que publicou o ensaio histórico intitulado “Los piratas del Defensor de Pedro. Extracto de las causas y proceso formados contra los piratas del bergantín brasileño Defensor de Pedro”.

Anúncios

HENRY MORGAN: O VERDADEIRO PIRATA DO CARIBE

captain-henry-morgan-portrait-color
Henry Morgan – Fonte – http://www.caribbeanvacations.net/henry-morgan-caribbean-pirate/

Desde a sua conquista pelos britânicos a Jamaica tornou-se um ninho de piratas prontos para atacar navios e cidades espanholas. O mais famoso destes “Bandoleiros do mar” foi o galês Henry Morgan. Conheça aqui um pouco de sua incrível História.

Autor – Rostand Medeiros – Escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN

Na primavera de 1655 uma armada inglesa cruzou o Oceano Atlântico e o Mar do Caribe, tendo como objetivo a ilha de La Española, ou Hispaniola (hoje ilha de Santo Domingo, onde se situa o Haiti e a República Dominicana). Este lugar era o coração do império americano da monarquia espanhola, com a qual a Inglaterra tinha entrado guerra.

2ef2b69f2523b0a4303e5825f37b84cc
Arte – 1artstyle.eu – Fonte – https://br.pinterest.com/pin/532198880939107161/

Mas o ataque falhou e os britânicos tiveram de se contentar com a captura de uma ilha seis vezes menor, chamada pelos nativos Xaymaca, “terra de madeira e água”.

Em pouco tempo, neste local nem um pouco convidativo, que ficou conhecido como Jamaica, metade dos conquistadores ingleses morreram de disenteria e outras doenças tropicais. Mesmo assim a Coroa Britânica considerava que a Jamaica era um valioso espólio. Além de madeira, água e doenças, a ilha estava no meio do caminho da passagem do ouro que era espoliado pelos espanhóis no Novo Mundo.

portroyal
Port Royal, covil de piratas – Fonte – http://www.cycroft.net/2015/05/jamaican-history-and-culture-english.html

A Jamaica, com a sua pequena comunidade de Port Royal, se tornou o foco do incêndio destinado a queimar as possessões espanholas na América. E o portador da tocha seria um galês chamado Henry Morgan.

Vida de Aventuras

Nascido em 1635, em Llanrhymny, Condado de South Glamorgan, no sul do País de Gales, Morgan veio do ramo mais pobre de uma ilustre família galesa. Aos 21 anos ele embarcou voluntariamente em uma expedição naval contra os espanhóis. Buscava fortuna e fama e nesta ocasião conseguiu seu batismo de sangue. Outra versão aponta que Morgan foi raptado ainda criança na cidade de Bristol e vendido como um servo na ilha de Barbados, no Caribe. Consta que sua chance veio em 1654, aos 19 anos de idade, quando escapou de seu dono e conseguiu ser recrutado em um barco de corsários. No outro ano participou do frustrado ataque contra Hispaniola e da ocupação da Jamaica.

SONY DSC
Barco típico da Marinha da Inglaterra, a Royal Navy, no século XVII. Neste caso vemos um quadro australiano de 1933, representando o HMS Roebuck – Fonte – http://www.aasd.com.au/index.cfm/list-all-works/?concat=allcotjohn&order=1&start=151&show=50

O certo que nos anos seguintes ele esteve presente em vários e numerosos ataques britânicos contra as fortalezas espanholas no Caribe. Estes ataques foram conduzidos por capitães de navios corsários que obtiveram da coroa britânica cartas de corso, que lhes autorizavam a agressão e a pilhagem contra navios ou enclaves hispânicos. Naturalmente que para os espanhóis estes corsários eram apenas piratas, bandidos, assaltantes e etc. Todos deveriam ser enforcados e suas cartas de corso poderiam ter outras serventias nas horas de aperto estomacal.

Apesar disso, em 1666, onze anos depois de entrar nesta vida complicada, Morgan já era capitão do seu próprio navio e o governador da Jamaica ordenou-lhe não parar de assediar os espanhóis. Ordem que foi executada com todo entusiasmo contra várias comunidades e assentamentos em Cuba, Panamá e Venezuela. Como um membro da frota de Christopher Myngs, o capitão Morgan realizou diversas ações contra o porto de Santiago, em Cuba, e a Península de Iucatã, no México.

Os Piratas Da Ilha Tortuga

Sabe-se que Morgan se associou ao famoso corsário holandês Eduard Mansvelt, então o líder dos corsários, bucaneiros e piratas da ilha Tortuga. Esta ilha, a noroeste de Santo Domingo (atualmente em território haitiano), era à base de um famoso grupo de bandidos de várias nacionalidades, que se dedicavam a atacar navios espanhóis e suas cidades portuárias. Mansvelt morreu executado pelos espanhóis logo depois que Morgan entrou no bando e o galês lhe sucedeu como chefe dos piratas de sua “Hermandad de la Costa”.

tortuga
Foto atual da costa da Ilha Tortuga – Fonte – http://www.caribvacationsguide.com/trips-and-ideas/finding-the-real-pirates-of-the-caribbean/attachment/tortuga/

No ano de 1668 Morgan realizou a primeiro de várias ações ousadas que moldaram a sua lenda e marcariam o seu nome.

Com a desculpa de frustrar um plano de ataque espanhol contra a Jamaica, Henry Morgan navegou contra uma das mais poderosas fortalezas do império espanhol no Novo Mundo: Portobello.

Localizada no atual Panamá, a cidade de Portobello era protegida pela linha de fogo proveniente de três fortalezas estrategicamente construídas, mas com reduzidas guarnições. Junto com 400 homens, Morgan lançou um ataque surpresa durante a noite e ao amanhecer tinha tomado o primeiro dos fortes. Mesmo com defensores corajosos, o segundo baluarte caiu logo em suas mãos.

exq_morgan_portobelo_800
Piratas de Morgan atacando a cidade de Portobello. Ilustração do livro de Alexander Olivier Exquemelin’s, “The Buccaneers of America”, de 1681 – Fonte – http://www.bruceruiz.net/PanamaHistory/henry_morgan_1768.htm

Tenham em mente que esses atacantes marítimos possuíam maior poder de fogo e melhor treinamento: os mosquetes dos homens de Morgan eram mais precisos do que os arcabuzes das forças espanholas.

Além disso, os piratas de Morgan não tinham regras como os militares profissionais e nem maiores escrúpulos. Isso ficou evidenciado em um dos atos mais controversos de sua carreira – Morgan e seus homens utilizaram mulheres, idosos, freiras, frades e monges como escudos humanos em uma das fortalezas conquistadas. Quando um tiro de canhão espanhol foi disparado e dois frades ficaram feridos, pouco depois veio a resposta – Da torre de uma das duas fortalezas conquistadas pelos piratas, os espanhóis visualizaram uma bandeira vermelha acenando freneticamente.

440fc2046fcabb0f21768ddaf0b6b826
Fonte – https://global.britannica.com/biography/Henry-Morgan-Welsh-buccaneer

No começo não entenderam a razão para os piratas fazerem aquilo, mas na sequência os ibéricos ficaram estarrecidos diante da morte de cinquenta espanhóis. Evidente que aquele sinal indicava que os homens de Morgan não teriam piedade com a guarnição do último ponto de resistência espanhol da cidade, caso continuassem se defendendo. Logo estes soldados se renderam e pelos dias seguintes Morgan e seus homens saquearam completamente a cidade. Foi uma verdadeira orgia de terror e sangue. As pessoas que se recusaram a entregar suas riquezas foram torturadas sem piedade.

f059ca2096
Ataque pirata – Fonte – https://global.britannica.com/biography/Henry-Morgan-Welsh-buccaneer

Quando o governador do Panamá, Don Agustín, apareceu com uma frota espanhola diante de Portobello e ameaçou os piratas de Morgan com a captura e execução, este respondeu arrogantemente através de um emissário: “Não tarde a chegar, lhe aguardamos com grande prazer. Nós temos pólvora e balas para cumprimentá-lo. E se você não vier em breve, nós, com a ajuda de Deus e de nossas armas, vamos lhe fazer uma visita no Panamá”.

Depois de uma tentativa fracassada das tropas de Don Agustín para recapturar a cidade pela força – seu exército de 800 soldados foi repelido pelos piratas – ele negociou um resgate de 100.000 pesos.

gold-doublon-coin-pirates-treasure-spanish-armada-coin
Dobrões de ouro espanhóis – Sonho dos piratas – Fonte – http://picclick.ca/Gold-Doublon-Coin-Pirates-Treasure-Spanish-Armada-Coin-291468851789.html

Após o pagamento, mais o que arrecadou na pilhagem da cidade, Morgan voltou a Port Royal com algo entre 70.000 e 100.000 mil libras em dinheiro e objetos de valor (algo entre 10,1 milhões e 14,5 milhões de libras em 2016). Cada membro do grupo recebeu 120 libras (17.400 libras em 2016) – o equivalente a cinco ou seis vezes o salário médio de um marinheiro na época. Não era a toa que seus homens lhe devotavam obediência cega! 

Morgan recebeu uma quota de cinco por cento pela sua obra e o governador da Jamaica ganhou uma quota de dez por cento sem nem tirar a espada da bainha. Com essas ações Morgan passou a ser visto como um herói nacional na Inglaterra e nem ele nem o governador da Jamaica foram repreendidos por suas ações.

efcd9fc0f8b0231a8f98c102c4f217e4
Arte – theconceptartblog.com – Fonte – https://br.pinterest.com/pin/263249540694857998/

Reza a lenda que ao voltarem para Port Royal, a maioria dos homens de Morgan gastou em farras, prostitutas e bebedeiras a quase totalidade do que receberam pelo saque de Portobello. Diziam que eles beberam tal quantidade de rum, que seria capaz de matar o próprio diabo.

Batalha Naval em Maracaibo

Mas Morgan não descansou muito tempo. Em abril de 1669, apesar da ameaça de um exército enviado contra ele pela coroa espanhola, o capitão galês organizou uma nova expedição.

655d326b60d3dbd0448d4012c203e7ea
Navio pirata no porto – Fonte – https://br.pinterest.com/pin/860469072524027786/

O evento reuniu dez barcos e 900 homens sob as suas ordens e sua intenção era atacar a rica cidade de Cartagena de Índias (atual Cartagena, na Colômbia), o centro do universo espanhol no Novo Mundo e um dos mais importantes portos comerciais durante o período colonial espanhol nas Américas.

Mas desta vez a sorte estava do lado dos espanhóis. Houve um incêndio no paiol de munições do navio de Morgan, o Oxford, e tudo explodiu. Morreram cerca de 200 pessoas, mas o capitão sobreviveu. O que não sobreviveu foi o plano para tomar Cartagena. Em vez disso ele voltou seu olhar para a cidade de Maracaibo, outra presa muito apetitosa e localizada na atual Venezuela.

Ninguém resistiu quando a frota Morgan entrou no Lago Maracaibo. Seus homens saquearam a cidade, devastada apenas dois anos antes pelo ataque do terrível pirata francês Jean-David Nau, mais conhecido como El Olonés.

e97d887cc4e26e52bc8a8321dc9f95e8
Ataque do pirata francês Jean-David Nau, mais conhecido como El Olonés, a Maracaibo em 1667 – Fonte – https://global.britannica.com/biography/Henry-Morgan-Welsh-buccaneer

Mas enquanto os piratas ficavam entretidos em saquear, roubar, pilhar, estuprar e matar quem se opunha a eles, o almirante espanhol Dom Alonso Del Campo Y Espinosa o esperava na estreita passagem que ligava o Lago de Maracaibo ao Mar do Caribe.

Espinosa ordenou o fechamento do canal posicionando alguns navios de sua propalada “Armada de Barlovento” e igualmento próximos ao ponto onde se situa a Fortaleza de San Carlos de La Barra.

castillo_san_carlos_zulia
Vista atual da Fortaleza de San Carlos de La Barra – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Henry_Morgan

Estas naves estavam equipados com um total de 126 canhões, prontos para detonarem os piratas.

Aquela era uma grande oportunidade para os espanhóis abalar, ou até mesmo acabar, com a pirataria no Caribe. Isso se daria através da morte, ou da prisão, do mais bem sucedido pirata conhecido.

picture-of-henry-morgan-at-porto-bello
Henry Morgan na posição de conquistador, diante de um prisioneiro – Imagem reproduzida do livro “Buccaneers and Marooners of the Spanish Main”, de , Howard Pyle, de 1887 – Fonte – http://www.thewayofthepirates.com/picture/picture-of-henry-morgan-at-porto-bello/

Só que naquelas eras não era anormal ocorrerem muitas negociações antes dos combates, fossem estes em terra e até mesmo no mar. E assim ocorreu entre Morgan e Espinosa. As negociações continuaram por uma semana, mas não houve acordo que permitisse que Morgan e seus homens pudessem passar pela frota sem combate. Aos piratas só havia duas alternativas: rendição ou lutar até a morte.

Parecia que os saqueadores saídos da Jamaica não teriam escapatória. Mas Morgan foi capaz de manter a calma e, acima de tudo, a inteligência.

morgan_trapped_maracaibo
Ataque de Morgan contra os navios de Don Alonso Del Campo Y Espinosa, com destaque para a explosão do Magdalen a direita – Fonte – http://www.cindyvallar.com/HenryMorgan-Ellery.html

Ele conseguiu converter um navio mercante capturado em um aparente navio de guerra. Troncos de madeira com chapéus serviram para fazer os espanhóis acreditarem que o navio estava totalmente tripulado e, para torná-lo aparentemente mais fortemente armado, vigias adicionais foram cortadas no casco e foram colocados troncos pintados de negro para se assemelharem a canhões. Mas principalmente este barco foi extensamente carregado com barris de pólvora, tornando-o uma verdadeira bomba flutuante.

Então, no dia 1 de maio de 1669, Morgan e sua flotilha atacaram a esquadra espanhola. Enquanto a fuzilaria ocorria entre os oponentes, o barco carregado com barris de pólvora foi conduzido por 12 valentes piratas no meio da refrega. Basicamente estes homens navegaram até ficarem ao lado da nau capitânia de Espinosa, o Magdalen. Estando posicionados, com muito sangue frio acenderam os estopins da pólvora e pularam na água.

henry_morgan_destroys_the_spanish_fleet_at_lake_maracaibo
Morgan destrói a “Armada de Barlovento” em 1669, com destaque para a explosão do Magdalen a direita – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Henry_Morgan#/media/File:Henry_Morgan_Destroys_the_Spanish_Fleet_at_Lake_Maracaibo.jpg

O plano do “navio bomba” funcionou perfeitamente e o Magdalen ficou logo em chamas. Espinosa abandonou seu navio e seguiu para a Fortaleza de San Carlos de La Barra, onde continuou a dirigir os eventos contra Morgan e seus homens. Mas nada deu certo para os espanhóis naquele combate. Uma segunda embarcação espanhola naufragou ao tentar escapar e uma terceira foi capturada pelos piratas.

Logo Morgan e seus homens desfrutavam da vitória na Jamaica.

Atingindo o Coração do império

Morgan ficou na sua bela ilha pelos próximos dois anos, levando uma vida de cavalheiro e latifundiário.

pirate_ship_a
Fonte – https://br.pinterest.com/pin/263249540694857998/

As autoridades britânicas tinham sido instruídas para evitar ações de pirataria contra os espanhóis e o galês teve de suspender suas pilhagens. Mas no final de 1670, em retaliação a um ataque de um corsário espanhol, Morgan preparou uma nova expedição. Seu objetivo desta vez foi a Cidade do Panamá, a “casa das máquinas” do Império Espanhol no Novo Mundo.

Quando a notícia se espalhou em todo o Caribe, respeitado como Henry Morgan era, centenas de piratas partiram para o local de encontro no sul da ilha Tortuga. Concentraram-se na região mais de cinquenta navios e 1.500 piratas: a armada pirata mais colossal na história das Índias Ocidentais.

panama_morgans_raid
Mapa do Istmo do Panamá – Fonte – http://pirates.wikia.com/wiki/Henry_Morgan

Os navios da frota de Morgan lançaram âncora na foz do rio Chagres, no Istmo do Panamá, onde conquistaram uma fortaleza espanhola. Em seguida os piratas seguiram a pé através do Istmo para alcançar à costa do Pacífico e o seu objetivo. Durante dez dias eles cruzaram montanhas, rios e pântanos. O grupo sofreu com a fome, doenças, dor, ataques de animais e emboscadas dos inimigos.

Finalmente lhes foi oferecido a visão da Cidade do Panamá no horizonte, uma das mais ricas e mais prósperas comunidades da América Espanhola. Mas a cidade era defendida por 1.200 homens de infantaria e 400 cavaleiros, todos sob o comando de Dom Juan Pérez de Guzmán.

pirates-sack-panama-1671-raid-by-captain-henry-morgan-on-the-spanish-ar919x
Ataque de Morgan a Cidade do Panamá – Fonte – http://www.alamy.com/stock-photo-pirates-sack-panama-1671-raid-by-captain-henry-morgan-on-the-spanish-15978373.html

Morgan sabia que seus homens, cansados da viagem, pouco poderiam fazer em caso de um ataque frontal e decidiu atacar pelo lado menos esperado. Forças espanholas partiram em perseguição dos piratas, mas sofreram uma salva de chumbo e fogo devastadora.

Em meio a um grande tumulto, os piratas conseguiram entrar na cidade e depois de várias horas de luta nas ruas tomaram o controle.

incendio-de-panama-por-pirata-morgan
Incêndio na Cidade do Panamá – Fonte – https://hispanoamericaunida.com/2014/04/

Mas, enquanto isso acontecia, começou um incêndio de grandes proporções. Até hoje não se sabe se isso ocorreu por ordem de Morgan, por ordem do governador espanhol, ou por acidente. O certo é que a velha Cidade do Panamá foi queimada até o chão. O estrago foi tão grande que os ibéricos tiveram de reconstruir a cidade em um novo local.

saqueo_panama
Morgan saqueando o Panamá – Fonte – http://revistadehistoria.es/wp-content/uploads/2016/04/saqueo_panama.gif

A batalha foi uma derrota total para os espanhóis. Estes perderam entre 400 e 500 homens, contra poucos corsários mortos.

Morgan e seus homens ainda permaneceram três semanas no Panamá, dedicados, como de costume, a acumular saques, torturar em busca de tesouros, estuprar por diversão e matar quem lhes fizesse alguma oposição.

No entanto, o governador espanhol tinha recebido informações da chegada dos nada discretos piratas de Morgan e havia conseguido carregar todos os barcos disponíveis com o ouro e a prata existente para a Espanha.

zpage152
Morgan impondo suas ordens – Fonte – http://www.heritage-history.com/books/stockton/buccaneers/zpage152.gif

Embora o saque dos piratas não fosse desprezível, muitos dos atacantes se queixaram de que tinham ganhado, afirmando era um valor menor do que conseguiram no ataque Portobello. Consta que Morgan saiu do Panamá com seus mais fiéis seguidores e deixou alguns dos piratas que reclamaram na foz do rio Chagres para se haverem com os inimigos.

Herói na Terra de Sua Majestade

Mas as coisas tinham ido longe demais.

Ao voltar para a Jamaica o capitão Morgan foi preso e enviado para a Inglaterra para ser julgado como um pirata.

captain_henry_morgan_before_panama_1671
Henry Morgan era visto na Inglaterra mais como um heroico conquistador, do que como um pirata – Fonte –

Mas ele não tinha nada a temer. Na sua fria terra ele foi recebido como um herói popular. Morgan permaneceu provavelmente em liberdade durante todo seu tempo em Londres, e o humor político mudou em seu favor. Morgan nunca foi acusado de um único crime em toda sua vida.

O rei Charles II o mandou de volta para a Jamaica como Vice-governador da ilha e foi sagrado cavaleiro, recebendo o título de “Sir”. Mas com a condição do capitão Morgan renegar sua vida anterior e passasse a atuar em uma batalha sem quartel contra a pirataria. E Morgan, que não era imbecil, aproveitou a oportunidade e fez valer sua autoridade.

king_charles_ii_by_john_michael_wright_or_studio-590x324
O monarca inglês Charles II (1660-1685), que sagrou Henry Morgan cavalheiro – Fonte – http://www.anglotopia.net/british-history/monarchs-charles-ii-1660-1685/

Mas na prática ele continuou suas relações amigáveis com muitos capitães piratas, e investiu algum dinheiro em seus navios.

Com a dispersão dos piratas aventureiros da Jamaica e de Tortuga, o agora Sir Henry Morgan, que tinha passado grande parte de sua vida ouvindo o som do agudo do choque das armas de aço, prosperou na tranquilidade. Mas não seu espirito!

Passou a beber muito e morreu na cama em 25 de agosto de 1688.

9b975e5e12c5fba249368fd5a7e43bab
Henry Morgan – Fonte – https://br.pinterest.com/pin/265642077994936597/

Ele foi enterrado no cemitério de Port Royal, seguido por uma salva de 22 tiros de canhões dos navios ancorados no porto. 

Sir Henry Morgan foi um homem de coragem, determinação, bravura e carisma. Ele era um planejador, um estrategista militar brilhante e intensamente leal ao seu rei, ao seu país e a Jamaica. Mas ao contrário de muitos dos seus irmãos piratas ele era flexível e adaptável, capaz de ver que o futuro para a Jamaica não estava no saque ou pilhagem, mas no comércio pacífico. Foi também era um político hábil.

b57b61460bb20c19dcfcc0bd4de8ccf7
Fonte – https://br.pinterest.com/pin/546765210990827165/

Quando Morgan morreu era um homem rico. Era dono de três fazendas, 129 escravos e sua riqueza pessoal foi avaliada em 5.263 libras na época (853,521 libras em 2016). 

Em 07 de junho de 1692 um potente terremoto atingiu Port Royal. Cerca de dois terços da cidade, uns 13 hectares de área, afundaram no porto de Kingston imediatamente após o choque principal. O cemitério, incluindo o túmulo de Morgan, foi uma das partes da cidade a cair no mar e o seu corpo nunca foi posteriormente localizado.

FONTES – https://global.britannica.com/biography/Henry-Morgan-Welsh-buccaneer

http://www.thewayofthepirates.com/famous-buccaneers/henry-morgan/

http://www.historynet.com/henry-morgan-the-pirate-who-invaded-panama-in-1671.htm

http://latinamericanhistory.about.com/od/historyofthecaribbean/p/Captain-Morgan-Greatest-Of-The-Privateers.htm

http://www.famous-pirates.com/famous-pirates/henry-morgan/

http://www.cavazzi.com/morgan/