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O NAVIO PIRATA BRASILEIRO

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Combate no alto mar, em pintura do século XIX – Fonte – https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

A História do Navio Negreiro Brasileiro Defensor de Pedro Que Se Transformou Em Um Barco Pirata

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN 

Em 1827 o Império do Brasil era uma nação bem jovem, que apenas cinco anos antes havia deixado de ser colônia de Portugal. O país tinha Dom Pedro I como seu Imperador, que governava em uma época de instabilidades. Era um tempo em que o Brasil era majoritariamente agrário, onde utilizava e dependia da mão de obra escrava vinda da África e tinha no tráfico negreiro através do Atlântico Sul a principal maneira destes cativos chegarem a seus portos.

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Engenho de cana de açúcar na Paraíba na época da invasão holandesa

Mas nessa época a Inglaterra desejava à extinção do tráfico negreiro intercontinental para o Brasil, entretanto suas razões jamais foram por questões humanitárias. Estava no fato do açúcar produzido no Brasil, devido à mão de obra servil, ser bem mais barato do que o produzido nas colônias inglesas do Caribe. Além do que as áreas de plantação nestas colônias caribenhas eram pequenas comparadas com as brasileiras, havia um número de cativos baixo e a escravidão como força de trabalho nestas colônias estava em processo de extinção definitiva[1].

E para acabar com esse tráfico humano os ingleses estavam dispostos a utilizarem até mesmo os canhões de sua poderosa marinha de guerra, a Royal Navy. Dom Pedro I ratificou então um tratado em 13 de março de 1827, que definia um prazo de três anos para extinguir o tráfico de escravos para o Brasil. A partir desta data, quem fosse pego transportando seres humanos cativos no mar seria enquadrado como pirata e a punição básica existente nas leis inglesas para esse tipo de crime marítimo era a forca.

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Dama em liteira carregada por escravos e suas acompanhantes. A escravidão no Brasil foi um grave e grandiosos problema que até hoje se reflete no país de muitas maneiras – Foto Carlos Julião.

Essa situação de pressão estrangeira gerou um grande desconforto entre a elite política e agrária brasileira. Estes poderosos contestaram muito o Governo Imperial por ceder aos ingleses em algo que para eles “prejudicava o Brasil”. Até por que, antes mesmo do final do prazo de três anos, navios brasileiros que estavam vindos da África com escravos e não estavam com toda a parte burocrática em concordância com as regras impostas pelos ingleses, começaram a ser detidos pelas naves de guerra. Foram criadas duas comissões mistas com a finalidade de resolver estas questões de retenção e apresamento de navios. Uma das sedes destas comissões era no Rio de Janeiro e a outra na cidade de Freetown, na África Ocidental Inglesa, hoje capital de Serra Leoa[2].

O certo é que entre janeiro de 1827 e dezembro do ano seguinte, nada menos que doze navios negreiros, sendo nove brasileiros e três espanhóis, foram capturados apenas pela corveta inglesa HMS North Star, ocasionando a libertação de um número próximo a 2.000 escravos[3].

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Navio negreiro – Fonte – http://criticallegalthinking.com/2014/05/22/slave-ship-embodies-whole-story-slavery/

Realmente os dias do nefando tráfico de homens, mulheres e crianças negras vindos da África para o Brasil estava chegando ao seu final.

O Defensor de Pedro

Mas se o trafico negreiro estava com seus dias contados, não faltava no Brasil quem quisesse pagar por mão de obra escrava para tocar suas fazendas. Com a consequente diminuição do fluxo e do número de cativos vindos da África, o preço por cada escravo começou a subir. O que atiçou a cobiça dos proprietários de barcos negreiros e dos seus capitães a cruzarem o Atlântico Sul, mesmo sem toda a papelada burocrática e a presença vigilante e perigosa da Royal Navy.

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Rio de Janeiro, entrada da Barra perto do alto-mar, 1820 – Fonte – https://culturalrio.wordpress.com/2011/05/18/rio-ontem-e-hoje-bonito-por-natureza/

Não sei se o proprietário do barco brasileiro Defensor de Pedro havia cumprido todas as exigências da burocracia para satisfazer os ingleses, mas em novembro de 1827 este zarpou do Rio de Janeiro em busca de escravos na África[4]. 

O seu comandante era Pedro Maria de Souza Mariz Sarmento, mais conhecido como Pedro de Souza Mariz Sarmento, era um português de Lisboa, nascido em 1790 e que em 1808 fez parte da esquadra portuguesa que veio para o Brasil com Dom João VI. Na época Mariz Sarmento tinha o posto de primeiro tenente e seguiu para a grande colônia portuguesa a bordo da Nau Afonso de Albuquerque. Mas em 1827 sabemos que ele estava reformado na patente de capitão-tenente da Marinha Imperial do Brasil e sua única função naquele ano era o comando do navio negreiro Defensor de Pedro[5].

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Já em relação ao Defensor de Pedro as informações também são bem limitadas. Algumas fontes apontam que ele seria uma nave do tipo Brigue, que era um modelo de veleiro de dois mastros principais, muito utilizado no comércio e podendo carregar de doze a vinte canhões. Já outras fontes apontam que este barco seria do tipo Bergatin, também um veleiro com dois mastros principais, pequenos, que foram utilizados nos séculos XVIII e XIX para o comércio e transporte normalmente em rotas curtas. Os dois tipos de barcos são bastante similares em dimensões, onde as tonelagens são bem próximas e eram muito rápidos e manobráveis. Populares não apenas entre mercadores, mas também entre piratas[6].

Um Corsário Brasileiro 

No dia 22 de novembro de 1827 o Defensor de Pedro se fez ao mar com destino a Molembo, atualmente o município costeiro de Cacongo, no enclave de Cabinda, Angola.

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Descrição da carga do Defensor de Pedro antes de sair do Rio de janeiro.

A nave transportava várias toneladas de tecidos típicos daquela época, como zuarte e chita, além de caixas com 200 dúzias de lenços. Mas o Defensor de Pedro transportava itens mais explosivos. Tais como 100 barris de pólvora, 12 arrobas de balas de chumbo (equivalente a 180 quilos), 15 caixas com espingardas, 4.600 pederneiras para detonar as armas de fogo, 200 facas de cabo de ferro e 24 pipas (barris) de cachaça. Cada uma das pipas tinha capacidade para cerca de 500 litros, ou seja, aquele barco levava 12.000 litros da mais pura “branquinha” brasileira[7].

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Panorama circular do porto do Rio de Janeiro, 1827 (detalhe), pintado pelo artista inglês Emeric Essex Vidal – Fonte – https://culturalrio.wordpress.com/2011/05/18/rio-ontem-e-hoje-bonito-por-natureza/

Na nota existente no Jornal do Commercio do Rio, temos a informação que o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento tinha uma licença, ou carta, de corso, o que significava que para as autoridades brasileiras o Defensor de Pedro era um barco corsário.

No período inicial do Império do Brasil, assim como noutras nações, nosso país teve a sua marinha corsária e é importante aqui fazer a distinção entre corsário e pirata. Os piratas agiam ilegalmente em tempo de guerra e de paz, sem qualquer regra, sem pertencer a reis ou a qualquer governo. Ao contrário dos corsários, que agiam de acordo com seu soberano, exclusivamente em período de conflito, onde seus navios eram armados por particulares, que possuía licença do rei para combater os inimigos do Estado, visando interromper seu comércio e sua navegação. Além de ganhar dinheiro com o que fosse capturado.

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Rota do La Argentina ao redor do mundo – Fonte – http://grupolagazette.com/al/index.php?option=com_content&view=article&id=567:hyppolite-bouchard&catid=9&Itemid=109

A Argentina, por exemplo, possuiu uma frota corsária e um de seus navios realizou uma viagem de circunavegação pelo globo entre 1817 e 1819[8]. Mas essa não foi uma viagem de adestramento de Guardas Marinhas, foi uma viagem para atacar barcos e colônias espanholas. Chamado La Argentina, esta nave era comandada pelo francês Hippolyte de Bouchard, esteve em locais como Madagascar, Indonésia, Filipinas, Havaí, costa da Califórnia, negociando com barcos amigos e atacando impiedosamente os espanhóis. Nessa aventura Bouchard capturou 26 barcos, mas acabou preso no Chile pelo almirante inglês Thomas Alexander Cochrane, que na época servia junto à neófita marinha chilena e depois foi o primeiro almirante da Marinha do Brasil, onde combateu os portugueses na Bahia. Na época o cruzeiro do La Argentina se tornou um fato muito conhecido e comentado nos portos do Atlântico Sul[9].

Consta que o capitão Mariz Sarmento pretendia navegar levando toda essa mercadoria para ser trocada por escravos nos portos africanos. A ideia era trazer de 200 a 300 “Peças” de escravos, como se dizia na época. Mesmo com a mortandade média de uns 80 a 100 prisioneiros, era considerado um negócio lucrativo. 

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Comércio de escravos no Cais do Valongo, porto do Rio de Janeiro.

Para isso ele necessitava de uma tripulação experiente e foi no porto do Rio de Janeiro que o capitão arregimentou um grupo de 40 tripulantes onde constavam brasileiros, portugueses, franceses e espanhóis, a maioria deles renegados e fugitivos da justiça de suas nações.

Quando um dos 40 tripulantes soube da rota que o Defensor de Pedro iria seguir e viu o que aquele barco carregava, certamente começou a pensar diferente do seu capitão.

O Pirata Galego 

Benito Soto Aboal é considerado pelos espanhóis não o último pirata do Atlântico Sul, mas o último de todo Oceano Atlântico. 

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Benito Soto Aboal

Mais conhecido como Benito Soto nasceu na área do porto marítimo que deu origem ao atual município de Pontevedra, na Região Autônoma da Galícia, Espanha[10]Desde o século XII Pontevedra era uma das cidades mais importantes da Galícia e, graças ao comércio marítimo e seus estaleiros, um dos mais importantes portos do Atlântico Ocidental na Península Ibérica. Naquele distrito de marinheiros, Benito Soto nasceu em 22 de março de 1805. 

Segundo o pesquisador espanhol Marcos Iglesias, este jovem galego era o sétimo de uma prole de catorze filhos de um pescador e uma dona de casa. Marinheiro desde precoce idade, junto com seu pai e irmãos realizou vários trabalhos nas costas galegas, em diferentes funções, algumas delas de legalidade duvidosa. Tais atividades o levaram a ser respeitado entre os ambientes portuários e de contrabandistas. Então, por volta de 1822, Benito Soto embarca em direção a Havana, Cuba.

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Pontevedra no século XIX – Fonte – https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

De acordo com algumas fontes foi nessa ilha do Caribe que o espanhol se envolveu primeiramente com piratas e corsários, onde lutou a bordo de barcos cubanos ou colombianos. Segundo outros ele era um marinheiro honesto envolvido com tráfico de escravos, atividade que na época era considerada lícita em vários lugares. Talvez todas as versões mostrem alguma verdade, já que ele poderia estar a bordo de barcos, atacando navios escravos de outras nações para roubar suas mercadorias e suas “Peças” de cativos. E tudo isso sem ter atingido a idade de 20 anos.

Seja como for, segundo o pesquisador espanhol Marcos Iglesias, em 1823 Benito Soto viajou de Havana para o Rio de Janeiro, a bordo de um navio mercante espanhol. Mas este barco foi capturado na área costeira de Salvador, Bahia, pela marinha brasileira, que acreditou ser aquele barco uma nave pirata. Neste ponto o pesquisador Marcos Iglesias aponta no seu trabalho que o rastro deste marujo torna-se nublado e ele só volta a comentar sobre Benito Soto apenas quando este embarca no Defensor de Pedro, quatro anos depois do encontro com a nossa antiga Marinha Imperial[11].

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A Batalha de 4 de maio de 1823 foi o maior combate naval durante a Guerra de Independência do Brasil quando as frotas brasileiras e portuguesas se enfrentaram. A frota brasileira estava sob o comando do inglês Thomas Cochrane – Fonte – Wikipedia

Talvez Benito Soto e outros companheiros, certamente marujos com vasta experiência, tenham passado a atuar como mercenários contratados a bordo de alguma das naves de guerra da nossa recém-criada Força Naval. Não podemos esquecer que em 1823 nossos navios de guerra se bateram contra as naves lusitanas na costa baiana e na Baía de Todos os Santos, na luta pela consolidação de nossa Independência. Além disso, a maioria destes barcos brasileiros eram comandados por capitães oriundos principalmente da Inglaterra, sob o comando geral do inglês Thomas Alexander Cochrane. Então neste contexto, ter um espanhol a mais, ou a menos, não fazia muita diferença nos barcos brasileiros, contanto que ele fosse um bom marinheiro, soubesse usar com destreza a espada em uma das mãos e uma pistola de pederneira na outra.

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Quadro de Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830)-‘Vista do Morro de Santo Antonio” – Museu Nacional de Belas Artes – Fonte – http://viticodevagamundo.blogspot.com.br/2013/03/rio-de-janeiro-by-nicolas-antoine-taunay.html

De toda forma pelos registros da época vamos encontrar Benito Soto como um homem livre no Rio de Janeiro em novembro de 1827 e pronto para zarpar. 

O Motim 

Para vários pesquisadores, talvez pela presença de patrulhas navais inglesas, ou por uma cobiça maior que a desejada, o capitão do Defensor de Pedro não seguiu para a costa do atual enclave de Cabinda, mas para o Golfo da Guiné, especificamente na atual Gana, aonde chegou em 3 de janeiro de 1828.

Para alguns pesquisadores o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento pode ter saído da área angolana para ultrapassar os limites do seu comércio e ganhar mais dinheiro. Ele seguiu para uma região onde provavelmente poderia comprar escravos a uma taxa muito menor do que seria a regular[12]. Sabemos que ele chegou a costa africana, conseguiu adquirir um número considerável de escravos, e, para completar a carga, baixou a terra para conseguir mais cativos. Foi aí o seu erro!

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Piratas levando barris rum para trocar por escravos. No caso do Defensores de Pedro os escravos seriam trocados por cachaça e outros produtos.

Benito Soto transmitiu a ideia de tomar pela força o Defensor de Pedro ao colega Miguel Ferreira e torná-lo um barco pirata. Ferreira, um natural da Galícia, não só concordou em se juntar ao seu conterrâneo, mas declarou que ele próprio estava pensando em uma empresa similar durante a viagem.

Sem o capitão a bordo Soto e Ferreira enfrentaram o resto da equipe com gritos de “Abaixo com os portugueses”. Eles, de forma incisiva deram cinco minutos para os membros da tripulação tomar uma decisão – ou se juntavam aos amotinados para assumir o navio, ou eles seriam colocados em um barco com um par de remos. Alguns membros da tripulação leais a Mariz Sarmento recusaram o convite e tiveram de remar por dez milhas náuticas (cerca de dezoito quilômetros e meio) até a costa africana. 

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Quandro que mostra uma típica luta no convés. No caso a cena mostra o combate no barco Triton pelo corsário francês Hasard (ex- Cartier ), sob o comando de Robert Surcouf . No caso do motim do Defensor de Pedro esse tipo de luta não foi necessário.

Defensor de Pedro foi então renomeado La Burla Negra, tendo sido pintado desta cor. Existem versões que falam de um triunvirato para gerenciar o motins, com Miguel Ferreira (Cognominado pelos tripulantes como o Mercúrio e que por alguma razão foi apontado inicialmente como líder), Benito Soto (O Barredo), e um certo Victor Saint-Cyr de Barbazan (O François)[13].

Logo Benito Soto começou a entender que para impor sua autoridade em meio à corja com que convivia, só sendo mais bruto que todos aqueles brutos. E logo alguém iria sentir a sua força.

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Miguel Ferreira, o Mercúrio, como chefe dos piratas passou a agir como verdadeiro tirano. O olho agudo de Soto viu que aquele que tinha adulações com ele no dia anterior, no dia seguinte o governaria com uma barra de ferro na mão. Ele não pensou duas vezes e quando Miguel estava em um forte sono inebriado pela cachaça, colocou uma pistola em sua cabeça e atirou nele.

Soto se desculpou com a tripulação, afirmando que aquela atitude era para sua proteção e fez uma promessa a todos; que como seu novo líder traria uma colheita de ouro nos seus futuros “trabalhos”, desde que obedecessem a ele. 

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Piratas montando um ardil para atacar um barco mercante em alto mar.
Soto foi unanimemente saudado pela equipe do barco como seu capitão e reivindicou a honra de ser o último pirata real do século XIX no Atlântico.

Mas logo também impôs mão de ferro entre os homens. Alguns dos franceses reclamaram que não podiam falar na língua deles. Consta que Soto entendia os marinheiros portugueses e brasileiros, mas não os franceses, que geraram ocasionais altercações. Desconfiava destes quando falavam em “Petit comité”.

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Fonte – http://www.aliexpress.com

O plano inicial foi cruzar o Atlântico para vender a carga de escravos no Caribe. Para este fim a pessoa necessária para o governo do barco era o brasileiro Manoel Antônio Rodrigues, que tinha prática de navegação e possuía a função de “piloto”[14]. Entretanto eu acredito que, se essa venda realmente aconteceu, o fato pode ter ocorrido na costa brasileira, mais precisamente em algum ponto na costa do Nordeste[15].

Independente desta questão, após o objetivo da venda dos escravos haver sido pretensamente alcançado, os piratas partiram para a região da Ilha de Ascensão, no meio do Atlântico Sul, abrindo a possibilidade de atacar navios que viam das ricas terras da Índia e dobravam o Cabo da Boa Esperança em direção a Europa.

Logo uma presa surgiu no horizonte.

As Chacinas e Crueldades no Morning Star 

De todos os ataques o mais conhecido e que ensejou uma forte perseguição ao La Burla Negra foi o ataque ao barco inglês Morning Star, o primeiro que Benito Soto realizou. 

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Major William Logie

Seu capitão se chamava Thos Gibbs e havia partido de Colombo, no Ceilão, atual Sri Lanka, em 13 de dezembro de 1827, com uma carga de café, canela e alguns passageiros. O principal destes era o Major William Logie, um Representante Militar de Sua Majestade Jorge IV na Ceilão. Logie estava acompanhado de sua família, além de terem a companhia de um cirurgião assistente, dois civis, cerca de vinte soldados inválidos e três ou quatro de suas esposas e filhas. 

O navio cruzou o Cabo da Boa Esperança em 28 de janeiro de 1828 e avistou a Ilha de Ascensão ao amanhecer do dia 19 de fevereiro. Quando estavam a três milhas náuticas a oeste desta ilha, às sete da manhã, os tripulantes do Morning Star viram surgir no horizonte uma estranha nave negra. 

[The Sea: its stirring story of adventure, peril & heroism.]
Desenho do ataque do La Burla Negra contra o barco inglês Morning Star
O barco estava a seis ou sete milhas a popa, mas era rápido e logo diminuiu a distância. Os tripulantes perceberam que a nave escura era bem armada e trazia as cores britânicas. Quando este chegou a menos de meio quilômetro do Morning Star abriu fogo com seus canhões, destruindo velas e ferindo alguns marujos. Ao cruzar com a proa do barco inglês, os do barco negro içaram a bandeira argentina.

Não é a toa que vários autores apontaram o La Burla Negra, antigo Defensor de Pedro, como sendo de origem argentina, bem como o seu nefasto capitão ser cidadão argentino. Mas eu acredito que a utilização daquela bandeira tinha mais haver com a fama na época do cruzeiro do corsário La Argentina e também servia para, no caso de alguém conseguir se salvar, informar erroneamente as autoridades a origem do barco pirata pela bandeira desfraldada.

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Foto do Morning Star no final de sua carreira – Fonte – http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

Logo ambos os veleiros ficaram a menos de cinquenta metros e os piratas jogaram ganchos com cordas e conseguiram emparelhar os barcos. As testemunhas sobreviventes narraram que os piratas eram homens atléticos e estavam todos armados. Cada um deles carregava pelo menos duas pistolas, facas e uma espada longa. Seu vestuário era composto de uma espécie de jaqueta de algodão grosseiro, camisas abertas até o peito, barretes de lã vermelha e cintos largos de lona, ​​nas quais estavam as pistolas e as facas.

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Desenho representando a morte do capitão Thos Gibbs, do Morning Star.

Na sequência mataram o capitão do barco inglês e Benito Soto ordenou ao francês Barbazan que pilhasse o que pudesse e exterminasse todos os tripulantes a bordo. Ato contínuo os ganchos foram retirados e os barcos ficaram afastados por cerca de 100 metros. Barbazan e seus piratas começaram a matança com pistolas e espadas, pois os ingleses, mesmo em maior número, estavam completamente desarmados. Foi quando os atacantes deram conta da existência de mulheres. Estas ficaram trancadas na cabine do capitão.

Depois de prostrarem várias pessoas no convés, eles levaram a maioria dos sobreviventes para o porão principal e reservaram alguns para ajudar suas operações de pilhagem. Começaram a saquear o navio levando as velas, cordas, caixa de remédios, todos os materiais de navegação, dinheiro, sete pacotes de joias valiosas que faziam parte da carga e toda a bebida a bordo. Os piratas também saquearam os passageiros da maior parte de suas roupas, todo seu dinheiro e artigos valiosos que poderam encontrar. Durante duas horas trabalharam no saque, levando o botim em baleeiras até o La Burla Negra.

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Desenho representando o ataque as mulheres no Morning Star.

Depois de muito trabalharem no transporte do material pilhado, enquanto seu capitão apreciava este material, Barbazan decidiu relaxar com seu grupo no Morning Star. Primeiramente obrigaram o mordomo a lhes servir vinhos e comestíveis, onde as testemunhas afirmaram que os Piratas se entregaram aos prazeres da garrafa por algum tempo. Depois Barbazan ordenou que seus companheiros “tratassem bem as mulheres”, então começou o terror para elas. Os gritos destas indefesas mulheres foram ouvidos durante horas por aqueles que estavam presos no porão.

Antes de voltar para o navio pirata, já de noite, depois de doze horas donos do Morning Star, Barbazan abriu buracos abaixo da linha d’água do veleiro, de modo que o barco afundaria e afogaria todos a bordo.

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Anne Smith Logie, uma das mulheres que foram atacadas no barco inglês.

No meio da madrugada as mulheres seviciadas conseguiram arrombar a porta da cabine do capitão e libertaram o resto da tripulação. Estes conseguiram parar o afundamento, retiraram depois de penosa atividade a água a bordo, montaram algumas poucas velas e foram se arrastando em direção a Inglaterra. Pensaram em se dirigir primeiramente até Recife, mas tiveram medo de cruzar com outros piratas.

Quase um mês depois, no dia 13 de março, eles encontraram o navio inglês Guildford retornando da China e receberam provisões, instrumentos de navegação e o seu capitão emprestou marinheiros experientes para ajudar. O Morning Star chegou a Londres em 18 de abril de 1828 e sua desgraça foi notícia em todo o Império Britânico.

Navio Pirata

O La Burla Negra se tornou famoso em toda parte do Oceano Atlântico e passou a ser caçado sem dó e nem piedade por todas as marinhas de guerra, principalmente a Royal Navy.

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Vida de pirata – O capitão pirata John Phillips obrigando um prisioneiro sob uma arma a beber álcool.

Mas se Benito Soto era muito cruel, verdadeiramente insano, também era muito inteligente. Pois após o ataque ao Morning Star ele e sua tripulação vão continuar atacando e destruindo barcos ingleses americanos, espanhóis e portugueses.

Sabe-se que Benito Soto destruiu quase uma dúzia de navios, incluindo a galera americana Topaz, que navegava de Calcutá, na Índia, para o porto americano de Boston. Benito Soto atacou, saqueou, tocou fogo no Topaz e não deixou sobreviventes. Foram atacados também os barcos Cassnock (Capitão Thompson), o New Prospect (Capitão Cleland), o Simbry  (Ou Sumbury) e o barco português Melinda, cujos sobreviventes da tripulação afirmaram conhecer alguns membros do La Burla Negra, quando este ainda era o Defensor de Pedro e estava ancorado no Rio de Janeiro em novembro de 1827[16].

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Fonte – https://br.pinterest.com/pin/263249540694857998/

Estes portugueses certamente foram uma rara exceção de sobrevivência, pois a ideia principal de Benito Soto para navegar por mais tempo era não deixar sobreviventes para narrar as autoridades os ataques. Inclusive quando Soto soube que Barbazan não obedeceu a sua ordem explícita para matar todos no Morning Star, preferindo se divertir com as mulheres e confiar que o barco inglês afundaria pelos furos provocados, recriminou duramente seu comandado e lhe disse um velho ditado pirata – “Os homens mortos não contam contos”.

Mas agora era tarde[17]!

O barco carregava os porões e bodegas cheias e Soto decidiu ir à Galícia para reparar o La Burla Negra e vender o saque.

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Luta em barco pirata – Fonte – http://www.rmg.co.uk/discover/explore/real-pirates-caribbean

Os piratas lidavam com a ideia de se aposentar, ou continuar com suas práticas. Em qualquer caso, qualquer decisão envolvia a venda dos bens. Assim, em 10 de abril de 1828, eles acabaram ancorando nas proximidades da praia de Beluso, perto de Pontevedra. Com a ajuda do tio materno de Soto, José Aboal, e pagando suborno, os piratas vendem grande parte do saque.

O movimento acabou levantando suspeitas, situação que lhes obrigou a deixar a região em direção ao porto de La Coruña. No caminho, em meio a uma situação particularmente desagradável, o La Burla Negra encontrou um pequeno barco que Soto saqueou e matou casualmente toda a tripulação – exceto por uma notável exceção: um indivíduo que havia dito a Soto que poderia encontrar o caminho mais rápido de volta a região de La Coruña, Espanha. Poucos dias depois, à vista da terra e depois de seguir o conselho desse homem, Soto, agradavelmente surpreendido, chamou-o para o olhar do Capitão:

“Amigo, esse é realmente o porto de La Coruña?”

“Sim, meu capitão”, respondeu o rapaz.

“Nesse caso”, Soto sorriu e disse, “você fez bem e agradeço seu serviço.”

Ele então atirou no homem morto e calmamente jogou seu corpo ao mar.

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Festa de piratas – Fonte – http://www.rmg.co.uk/discover/explore/real-pirates-caribbean

Seja esta história verdade, ou não, afirma-se que Benito Soto foi responsável por ferir e matar bem mais de 100 pessoas.

Mas em La Coruña as coisas também não correram positivamente. Mais subornos e mais obstáculos para se livrar do resto da mercadoria, para não mencionar os excessos cometidos por alguns marinheiros sob a influência do álcool, uma questão que resultou em algumas prisões. Eles então partiram para região de Gibraltar. 

O Fim Do Defensor de Pedro e Um Sortudo Pirata Brasileiro

Na noite de 9 de maio de 1828, Soto deu a ordem de encalhar propositalmente o La Burla Negra  ao sul da cidade de Cádiz, em uma praia chamada Santa Maria, na atual Comunidade Autónoma Andaluza, não muito longe de Gibraltar, até hoje uma colônia inglesa na entrada do Mar Mediterrâneo.

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Notícia de jornal carioca de 1828 informando a destruição do Defensor de Pedro na Espanha e a condenação de Benito Soto e seus asseclas.

Quatro meses depois do início desse frenesi de loucura, o antigo Defensor de Pedro, transformado em La Burla Negra, chegou ao seu fim.

Soto rapidamente organizou a dispensa do dinheiro para possíveis subornos e forneceu ordens aos marujos para que se misturassem entre as pessoas comuns sem atrair atenção. O capitão tentou se passar por um honesto navegador de um barco naufragado, junto com seus marinheiros. Sua história foi ouvida com simpatia e durante alguns dias tudo aconteceu conforme os planos.

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Desenho moderno representando Benito Soto sendo preso nas ruas de Gibraltar.

Mas a sorte desse grupo de piratas, com muito dinheiro para gastar nas bolsas, acabou. Os homens cometeram excessos e altercações de todos os tipos, foi quando surgiram suspeitas. Para completar a má sorte destes malfeitores, pesquisadores ingleses afirmam que, incrivelmente, um dos sobreviventes do Morning Star reconheceu um de seus algozes. A filosofia pirata de Benito Soto era, sob alguns aspectos, correta – Os homens mortos não contam histórias. Mas era impossível conseguir que uma pessoa que sobreviveu ao terrível assédio que foi vítima naquele barco inglês parasse de falar. Logo os tripulantes foram presos pelas autoridades espanholas.

Mas Soto e um membro da tripulação, que o pesquisador espanhol Marcos Iglesias aponta como sendo um brasileiro chamado “Dos Santos”, desapareceram instantaneamente de Cádiz[18].

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Gibraltar, quadro de 1836, de Thomas Roscoe – Fonte – http://gibraltar-intro.blogspot.com.br/2011/10/normal-0-false-false-false-en-gb-x-none_25.html

Conseguiram fugir para Gibraltar, onde finalmente os ingleses pegaram o pirata galego. Ainda segundo Marcos Iglesias o único que escapou foi o brasileiro “Dos Santos”, o único usuário do saque, até provar o contrário, que se aproveitou do butim. Já os ingleses afirmam que este fugitivo seria um francês[19].

Charles Ellms, um autor britânico da época, que escreveu vários livros sobre piratas, parece ter conhecido Benito Soto na sua prisão em Gibraltar e visitou-o várias vezes enquanto estava detido. Ellms nos diz que, ao longo de sua permanência na colônia o antigo capitão do La Burla Negra  se vestia com roupas caras, ostentando meias de seda, calças brancas e um vistoso casaco azul. Seu chapéu branco inglês, impecavelmente limpo e da melhor qualidade. Sua aparência, longe de ser a de um bandido, era muito mais a de um comerciante de Londres, dando a impressão de ser um homem agradável e honesto.

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General Sir George Don em 1830 – Fonte – http://gibraltar-intro.blogspot.com.br/2011/10/normal-0-false-false-false-en-gb-x-none_25.html

O antigo capitão foi julgado, considerado culpado de pirataria e condenado à morte. Enquanto ficou na prisão por um ano e meio, Benito Soto continuou a declarar sua inocência, reclamando constantemente sobre a injustiça que estava sendo vítima. Foi somente quando o governador de Gibraltar, o general Sir George Don, o sentenciou oficialmente a ser enforcado, esquartejado, sendo seus membros cortados e pendurados em ganchos, como aviso para todos os piratas da justiça que ali era feita. Só então Soto finalmente desistiu e admitiu sua culpa.

Ele fez uma confissão sem reservas de seus crimes e tornou-se verdadeiramente penitente. Soto entregou ao carcereiro a lâmina de uma navalha que ele escondeu entre as solas de seus sapatos para o propósito reconhecido de adicionar o suicídio como ato final de sua nojenta vida.

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Desenho representando o cadáver do famoso pirata capitão Kidd exibido após sua execução. No caso de Benito Soto o seu cadáver também foi exposto após ser enforcado, só que foi mostrado esquartejado.

Os que testemunharam sua execução no dia 25 de janeiro de 1830, entre eles Charles Ellms, parecem ter ficado impressionados com o seu comportamento, com sua calma e tranquilidade, enquanto ele avançava para facilitar as coisas para o carrasco. No final Soto parecia desejar o momento que seria colocado diante de seu Criador.

O pirata galego disse a plateia presente suas últimas palavras – Adeus, todos. Na época essas palavras criaram um grande debate em Gibraltar, pois foram ditas em bom português[20].

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Navio pirata perseguindo sua presa – Fonte – http://www.aliexpress.com

Apesar da região da Galícia fazer fronteira com o norte de Portugal e o idioma galego possuírem proximidade linguística com o português, as pessoas do lugar achavam difícil acreditar que um espanhol teria falado em português no momento da sua morte.

Mas os que eles não sabiam na época, ou não perceberam, era que talvez para o pirata Benito Soto àquelas palavras ditas na hora da morte não tivessem ligações com fatos ocorridos em terras Lusitanas, mas lhe traziam a memória algo importante que aconteceu em uma grande e ex-colônia de Portugal no Novo Mundo[21].


NOTAS

[1] Fato que efetivamente se consumou em 1834.

[2] Ver o livro O tráfico de escravos no Atlântico. Herbert S. Klein. FUNPEC Editora, 2004.

[3] Os espanhóis transportavam escravos para suas plantações de cana de açúcar em Cuba. Já a HMS North Star era uma corveta da Classe Atholl, construída pela Woolwich Dockyard  em 1824, com 28 bocas de fogo. Ver o site http://www.pbenyon.plus.com/18-1900/N/03276.html.

[4] Apesar de todas as buscas eu não consegui apurar o nome do proprietário do barco Defensor de Pedro. Já Pedro de Souza Mariz Sarmento é apontado em todas as fontes como o capitão do barco. Ele até pode ter sido o proprietário, mas sem confirmação.

[5] Mesmo sem conseguir encontrar qualquer informação que aponte, ou conteste, a razão desse pensamento, é provável que essa situação seja um indicativo que o capitão Mariz Sarmento não conseguiu uma projeção maior na Armada Nacional. Mas qual, ou quais, seriam a causa: Talvez a sua origem portuguesa de Pedro de Souza Mariz Sarmento não tenha lhe ajudado muito na nossa Marinha? Ou ocorreu algo na sua carreira naval que o marcou de forma negativa ao ponto de ser precocemente reformado? Ou porque para ele era bem mais lucrativo transportar escravos pelo Atlântico Sul, do que está a bordo de uma nave pertencente a uma força naval que lhe pagava pouco e da qual ele não tinha espaço para progredir?

[6] Algumas fontes apontam que o Defensor de Pedro era um barco argentino, o que é errado, já que sua denominação remete especificamente ao imperador Pedro I do Brasil.

[7] Sobre aspectos da partida e da carga do barco ver o jornal Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, edições de 20 (terça-feira) e 23 (sexta-feira) de novembro de 1827, respectivamente nas páginas 2 e 4. Já sobre os detalhes das negociações para a compra de escravos, ver o livro O tráfico de escravos no Atlântico. Herbert S. Klein. FUNPEC Editora, 2004.

[8] Esses corsários argentinos deram muito trabalho aos brasileiros durante a Guerra da Cisplatina.

[9] Aparentemente, conforme narro no texto, o cruzeiro do La Argentina teve uma tênue ligação com o caso do Defensor de Pedro, quando este se tornou um barco pirata. Ainda sobre o barco La Argentina ver Nuevos Documentos sobre el Crucero de La Argentina a través del Mundo, Volumen I. Autores: Rossi Belgrano, Alejandro y Mariana, Buenos Aires, 2016.

[10] Segundo as lendas antigas o herói troiano Teucer, filho de Telamon e meio-irmão do Ajax, fundador da cidade, chegou a Terra em Pontevedra. Já de acordo com a história, também foi nesse local onde os romanos fundaram o Ad duo ponte, o atual Pontevedra.

[11] Sobre o interessante texto de Marcos Iglesias, em espanhol, ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html.

[12] Para alguns pesquisadores, pelo número de armas e pelo tipo de gente que comandava, é possível que o capitão Pedro de Souza Mariz Sarmento pretendesse retirar pela força o máximo de cativos que pudesse.

[13] Barbazan seria oriundo de uma aristocrática família francesa, sobrinho do marechal Laurent de Gouvion Saint-Cyr, chefe militar dos exércitos napoleônicos. Ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html.

[14] No futuro este homem vai declarar que foi obrigado a permanecer com aquela súcia durante o tempo da viagem e pilhagens. E de alguma forma isso deve ter sido verdade, pois ele foi um dos poucos que foram capturados e não morreram na forca.

[15] Em minha opinião existe uma dúvida na história deste barco. Uma viagem entre a costa africana e o Caribe parece ser muito longa, principalmente quando sabemos que o tempo total de ação do La Burla Negra como nave pirata foi de apenas quatro meses. Apesar desta viagem não ser impossível e algumas fontes consultadas afirmarem que esta nave vendeu os escravos no Caribe, eu acredito que a venda se deu mesmo foi no Nordeste do Brasil. Pois, além de haverem brasileiros no La Burla Negra que certamente conheciam a costa nordestina, nesta região não faltavam quem quisesse comprar escravos africanos de forma rápida e discreta.

[16] Ver Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3.

[17] Existem vários relatos do cruel ataque de Benito Soto ao barco inglês Morning Star. Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3. É possível encontrar este jornal no endereço eletrônico https://books.google.com.br. Existem dois textos bem detalhados no jornal carioca  ver o jornal Diário Fluminense, Rio de Janeiro, edições de 15 (terça-feira) de julho de 1828, páginas 51 e 52 e do dia 10 (segunda-feira) de maio de 1830, nas páginas 411 e 412. Mas o primeiro destes textos erra o nome do barco atacado. Existem igualmente bons sites ingleses que trazem inclusive reprodução dos depoimentos dos sobreviventes – Ver http://www.scarboroughsmaritimeheritage.org.uk/article.php?article=297 e http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

[18] Ver https://infinda.blogspot.com.br/2013/11/benito-soto-fulgor-y-muerte-de-un.html

[19] Ver os sites http://www.scarboroughsmaritimeheritage.org.uk/article.php?article=297 e http://www.lineagekeeper.com/2009/05/pirate-attack-on-bark-star.html

[20] Ver o jornal A Gazeta de Lisboa, edição de sábado, 27 de fevereiro de 1830, pág. 3.

[21] Talvez o trabalho que reúne com mais precisão todos os eventos envolvendo Benito Soto foi escrito em 1892, pelo militar espanhol Joaquín Bautista Lazaga y Garay, que publicou o ensaio histórico intitulado “Los piratas del Defensor de Pedro. Extracto de las causas y proceso formados contra los piratas del bergantín brasileño Defensor de Pedro”.

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A ÍNCRIVEL HISTÓRIA DOS ESCRAVOS QUE FORAM ABANDONADOS POR QUINZE ANOS EM UMA ILHA

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A incrível saga dos escravos abandonados por quinze anos em uma ilha perdida do Oceano Índico

Como um Grupo de Pessoas Sobreviveu Por Tanto Tempo, em um Lugar Inóspito, Após Serem Abandonados Por Serem Considerados Seres Humanos Inferiores.

Autor – Rostand Medeiros

Em 1776, 57 anos depois de Daniel Defoe escrever o clássico da literatura Robinson Crusoe, oito pessoas foram resgatadas de uma pequena ilha chamada Tromelin, um lugar perdido no meio do Oceano Índico. Sete destes eram mulheres que tinham sobrevivido na ilha por 15 anos e o oitavo um menino que nasceu naquele fim de mundo.

Aqueles náufragos faziam parte de um grupo de 88 seres humanos que em 1761 foram abandonados e esquecidos naquele pedaço inóspito de coral e areia, em um ponto a 280 milhas náuticas (450 quilômetros) da costa mais próxima.

E tudo por uma razão simples – eles eram escravos negros.

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Ilha de Tromelin – Fonte – static.panoramio.com-1

Recentemente uma equipe de cientistas, liderados por Max Guérout, arqueólogo e ex-oficial naval francês, vem realizando sistemáticas pesquisas em busca dos destroços do navio que levou estes escravos e escavando na ilha para descobrir alguns segredos de como estas pessoas se agarraram desesperadamente a vida, desenvolveram uma comunidade elaborada em um fragmento de terra estéril, frequentemente varrida por violentos tufões.

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Escavações arqueológicas em Tromelin.

A investigação arqueológica, patrocinada pela UNESCO, era parte de comemorações pela luta contra a escravidão e tinha a intenção de ampliar uma história quase esquecida da desumanidade do homem contra o próprio o homem. Mas a pesquisa descobriu um extraordinário conto de tenacidade humana, de determinação para sobreviver e da capacidade de organização em face das adversidades.

A História do Acidente

O que se sabe sobre a Ilha de Tromelin é que este pequeno local foi descoberto no dia 11 de agosto de 1722, pelo capitão Jean Marie Briand De La Feuillée, que comandava o barco Diana, pertencente à Companhia Francesa das Índias Orientais (Compagnie Française des Indes Orientales). Este chegou ao inóspito lugar após se afastar das rotas tradicionalmente utilizadas pelos barcos da empresa por conta de uma tempestade.

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Localização da ilha.

Como era praxe na época o capitão La Feuillée fez uma breve descrição da ilha e um cálculo de posição, que foram anotados no diário de bordo do Diana. La Feuillée batizou o local simplesmente como L’Ile du Sable, ou Sand Island, ou Ilha da Areia.

A partir daí ninguém relatou ter visto a ilha por quase 32 anos. 

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No dia 17 de novembro de 1760, o Utile, um antigo navio de guerra francês, pertencente à mesma Companhia Francesa das Índias Orientais, zarpou de Bayonne, no sudoeste da França, com destino à Ile de France, local atualmente conhecido como República de Maurício.

Na época a França estava em luta contra a Grã-Bretanha, na chamada Guerra dos Sete Anos e o governador de Ile de France estava esperando um ataque vindo da Índia. Por esta razão ele havia proibido a importação de escravos, temendo que estes se tornassem mais bocas para alimentar durante um possível cerco naval.

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Representação do embarque dos escravos no Utile, em Madagascar.

Mesmo com esta ordem o capitão do Utile, Jean De La Fargue, ancorou em Madagascar e comprou clandestinamente cerca de 160 escravos malgaxes. Neste momento o tráfico de escravos era algo muito rentável e os lucros daquela empreitada deveriam trazer para o bolso do capitão La Fargue o equivalente a doze anos de trabalho.

Em 23 de julho o Utile  retomou a sua viagem para o leste, mas foi pego por uma violenta tempestade e no dia 31 de julho de 1761, por volta de 22:30, o barco bateu duas vezes nos recifes de coral submerso da Ilha da Areia, que anos depois ficaria conhecida como Ilha de Tromelin.

Hilarion Dubuisson De Keraudic, oficial do navio Utile, escreveu um dramático e conciso relato do naufrágio. Mais de 240 anos depois este documento foi descoberto por Max Guérout nos arquivos marítimos da cidade de Lorient, na França.

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Dos 143 homens que formavam a tripulação, 21 deles morreram afogados. Mas dos 160 escravos, apenas 88 “peças” que compunham a carga sobreviveram milagrosamente. Quando se diz milagrosamente é porque os outros escravos ficaram presos no convés inferior, com as escotilhas fechadas e morreram todos afogados.

Diante do episódio o capitão La Fargue foi incapaz de tomar iniciativas confiáveis e caiu em desgraça perante seus homens. O oficial Keraudic o descreveu como “indisposto” e a liderança foi assumida pelo primeiro tenente Barthelemy Castellan De Vernet.

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Praia da ilha.

São estabelecidos dois campos (um para a tripulação e outro para os escravos negros) e armadas barracas. Os muitos materiais jogados pelas ondas na praia (barris, comida, utensílios) são armazenados sob vigilância armada e longe dos cativos.

Entre os apontamentos feitos por Keraudic, fica bem clara a razão de quase um terço dos 88 escravos originalmente resgatados, morrerem pouco tempo depois – “Fizemos uma grande tenda com a vela principal e algumas bandeiras. Nós vivíamos lá com todas as fontes de suprimento. A tripulação foi colocada em pequenas tendas. Nós começamos a sentir muito fortemente a escassez de água. Um número de negros morreu, não sendo entregue a eles qualquer assistência”.

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Uma ideia de como ficou o barco após bater nos recifes de coral

Foram Vistos Como Animais Que Não Valia a Pena Serem Salvos

Encontrar água potável então se tornou rapidamente uma prioridade e o artilheiro mestre Louis Taillefer ficou responsável por cavar um poço. Depois de um primeiro teste negativo, uma segunda tentativa realizada em 4 de agosto conseguiu água salobra. Além da comida recuperada, os sobreviventes comiam ovos das aves (principalmente andorinhas) e carne de tartaruga.

Consciente de que ninguém iria procurá-los naquela ilhota, pois eles estavam longe da rota usual dos barcos, o primeiro tenente Castellan De Vernet começou a desenhar planos para a construção de um barco de salvamento. 

Versátil e engenhoso, o primeiro tenente improvisa uma forja especial com um tronco e assim consegue moldar peças de metal necessárias para a construção de uma barcaça com 33.5 pés de comprimento, 12 pés de largura e 5 pés de altura. 

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Os canhões do Utile em uma praia de Tromelin.

Em 27 de setembro de 1761, às 17:00, quase dois meses após o naufrágio, o barco de resgate batizado como Providência, é colocado na água e os 122 marinheiros brancos sobem a bordo. Por falta de espaço 60 escravos negros sobreviventes são deixados na ilha com três meses de alimentos. Os marinheiros prometem voltar rapidamente e resgatá-los.

Partiram em direção a Madagascar, aonde chegaram quatro dias depois na localidade Foulepointe e apenas um homem foi perdido durante a travessia. Os marinheiros dão testemunho do naufrágio e desenham um mapa detalhado da ilha (provavelmente feito pelo piloto do Utile). 

Em 23 de outubro a maioria dos sobreviventes embarcou no veleiro Silhouette e vai para a cidade de Port Louis, na Ile de France, a atual capital da República de Maurício. Esta será a última viagem do capitão Jean De la Fargue, que morre em 12 de novembro e tem seu corpo jogado ao mar. 

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Após a partida dos marinheiros brancos, os escravos ficaram esperando o cumprimento da promessa de que alguém viria salvá-los.

Na chegada (25 de novembro), o Governador Antoine-Marie Desforges-Boucher é informado do naufrágio. Após saber os detalhes ele fica furioso e recusa a enviar um barco para resgatar os escravos deixados na ilha. Documentos da época apontam que o Governador referiu-se aos escravos como “animais” e que “não valia o gasto para ir salvá-los”.

O Governador era um funcionário da mesma Companhia Francesa das Índias Orientais e alegou que não queria arriscar a perda de outro navio para resgatar um grupo de escravos indesejados e ilícitos. Vários dignitários locais tentaram persuadir o Governador a mudar de ideia, mas este recusou.

Talvez desejando proteger a reputação da empresa, Desforges-Boucher buscou nitidamente abafar o caso e não tornar público o negócio escuso do falecido capitão La Fargue.

Após um período de indignação com a decisão do governador, os escravos abandonados acabam caindo no esquecimento e a promessa de Castellan não foi cumprida. 

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Max Guérout, arqueólogo e ex-oficial naval francês.

Achados Arqueológicos

Como aqueles náufragos sobreviveram tanto tempo, em um lugar tão inóspito?

A princípio eles tinham a água salobra do poço cavado pelos marinheiros. Tinham também alguns implementos básicos de cozinha e a ilha é, até hoje, um terreno fértil para tartarugas, peixes e aves marinhas.

Essa explicação simplista bastaria como uma resposta para os muitos que desejassem uma explicação sobre a sobrevivência deste grupo de pessoas naquele local e por tantos anos. Mas o arqueólogo Max Guérout, criador do GRAN – Group de Recherches en Archéologie Navale (Grupo de Investigação e Arqueologia Naval), foi para aquela parte perdida do Oceano Índico determinado a descobrir mais.

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Mergulhadores próximo a uma das pontas da âncora do Utile – Fonte – Max Guérout, Groupe de Recherche en Archéologie Navale

Seus colegas arqueólogos avisaram que seria pouco provável que algum vestígio se mantivesse em um solo fino, arenoso, em meio a uma ilha plana. Um lugar com altitude máxima de meros sete metros, batido por ondas fortes e que localizado no caminho dos ciclones anuais que varrem o Oceano Índico.

Guérout insistiu que muito deveria ter permanecido na ilha e que os registros arqueológicos encontrados poderiam contar uma interessante história. A crença do cientista francês se baseava em intrigantes referências anotadas por oficiais e marinheiros ingleses, quando estes realizaram visitas à ilha durante o século 19 em navios da Royal Navy (Marinha Real). Os marinheiros britânicos registraram que observaram restos de “casas de pedra” e túmulos dispostos ordenadamente.

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Mergulhador do Groupe de Recherche en Archéologie Navale realizando pesquisas subaquáticas em Tromelin.

Com o início das pesquisas os arqueólogos e mergulhadores estiveram no naufrágio do Utile e resgataram muitos objetos interessantes, mas nada que avançasse muito no conhecimento desta história. Mas as escavações na areia rasa da ilha produziram descobertas significativas.

Ficou evidenciado que, pelos vestígios (cinzas) encontrados em camadas de sedimentos desenterrados, os náufragos conseguiram manter com a madeira do barco o mesmo fogo aceso por anos. Eles construíram um forno coletivo e sobreviveram com uma dieta de tartarugas, aves marinhas e crustáceos.

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Uma das milhares de aves de Tromelin.

Seus utensílios de cozinha confeccionados em cobre, salvos dos restos do navio, foram reparados várias vezes de forma engenhosa e prática. Um destes tinha sido reparado pelos escravos pelo menos oito vezes. “-Eles remendavam a peça danificada com outras peças de cobre, usando rebites feitos à mão e forjados no fogo do forno. Conseguimos até mesmo encontrar alguns dos rebites”, disse Guérout.

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Tacho de cobre descoberto pelos arqueólogos, com inúmeros remendos feito pelos escravos nos quinze anos que ficaram isolados na ilha.

Os cientistas franceses descobriram que os náufragos desenvolveram abrigos com paredes elaboradas, formadas por blocos de coral e areia compactada. Foram erguidos com sabedoria, resultando em paredes sólidas e capazes de enfrentar fortes ventos. Uma habitação coletiva foi organizada no ponto mais alto da ilha e esta teria sido construída com restos do navio e cobertos com cascos de tartaruga.

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Abrigos descobertos na ilha.

Escavações também ajudaram a encontrar uma grande quantidade de utensílios (eixos, raspadeiras, colheres, recipientes), algumas confeccionadas pelos náufragos.

Mas o que aconteceu com os sobreviventes da Ilha de Tromelin? 

A tripulação de um navio que ancorou em Port Louis na segunda metade de 1775, anunciou haver passado perto da ilha e visto os náufragos.

O novo Governador em Ile de France é então Charles-Henri-Louis d’Arsac de Ternay, oChevalier de Ternay” (Cavaleiro de Ternay). Este foi nomeado pelo Rei da França e não pela Companhia Francesa das Índias Orientais. Então o veleiro Sauterelle é enviado para realizar o resgate.

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Mapa antigo da Ilha de Tromelin, provavelmente feito pelo piloto do veleiro Utile.

Na ilha a tripulação tenta desembarcar com uma baleeira, mas esta é destruída nos recifes de coral. Um marinheiro nada para o Sauterelle, enquanto o outro, o marujo Grasshopper, se juntou os náufragos na ilha.

Na sequência dois outros veleiros foram enviados já em 1776, mas permanecem incapazes de se aproximar da ilha. Frustrado com essas falhas e cansados ​​de esperar, o marujo Grasshopper tenta deixar a ilha em uma precária jangada, na companhia de três homens e três mulheres. Mas eles desapareceram no mar. 

Após estas falhas o governador Louis d’Arsac de Ternay envia a corveta Dauphine, capitaneado pelo nobre Jacques Marie Boudin, conhecido como “Chevalier de Tromelin” (Cavaleiro de Tromelin).

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Selo francês, comemorativo ao capitão Jacques Marie Boudin

Tendo aprendido as lições de fracassos anteriores, um dos oficiais do Dauphine assumiu as operações e um barco e uma canoa foi utilizada ​​para desembarcar na costa oeste da ilha. Em três horas os últimos náufragos são recuperados, incluindo um grupo de uma mesma família que tinha uma avó, a filha e a neta.

Por ocasião deste salvamento a bandeira francesa foi hasteada na ilha e oficialmente a França toma posse em nome do rei Luís XVI. Era 29 de novembro de 1776 e o local passa a ser definitivamente conhecido como Ilha de Tromelin.

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Foto de Richard Bouhet, da Getty Images, que mostra claramente o grau de dificuldade para se aportar nesta ilha.

As mulheres resgatadas comentaram que um grupo de 18 dos náufragos malgaxes construiu um pequeno barco à vela e partiram da ilha alguns anos antes. Mas sumiram!

Na Ile de France os oito sobreviventes foram declarados livres.

Jacques Maillard De Mesle, um alto funcionário francês na região, dá asilo à criança, sua mãe (Eva) e sua avó (Dauphine). Ele insistiu que os náufragos não eram escravos, mas pessoas livres, uma vez que eles tinham sido comprados ilegalmente. Em 15 de dezembro de 1776 a criança salva é batizada em Port Louis e recebe o nome de Jacques Moise. “Moise” é a forma francesa de Moisés – um bebê resgatado da água.

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Outro aspecto dos abrigos encontrados na ilha.

O que aconteceu com Jacques Moise e os outros depois disso?

Max Guérout tem pesquisado os registros na França e na República de Maurício, mas sem sucesso. Ele acredita que os sobreviventes devem ter sido incorporados pela comunidade de escravos libertos em Maurício e provavelmente seus descendentes estão vivendo lá até hoje.

A Ilha de Tromelin é atualmente uma possessão ultramarina francesa, reivindicada pelos governos de Madagascar e da República de Maurício e tem sido o local de uma estação meteorológica francesa desde 1953. Em 60 anos de funcionamento esta estação meteorológica sofreu muitos danos causados ​​pelos violentos tufões e ciclones que danificaram, ou destruíram, as suas instalações. 

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Foto que mostra a estação meteorológica francesa sendo abastecida por um helicóptero, devido as dificuldades de desembarque na Ilha de Tromelin.

O lugar é apelidado de “Encruzilhada dos Ciclones” ou “Ilha Ciclone”, pois foi alvo de uma dúzia destes fenômenos meteorológicos desde 1975.

Exemplo de Sobrevivência

“-É uma história muito humana, uma história do engenho e instinto de sobrevivência de pessoas que foram abandonadas porque eram considerados seres humanos inferiores”, comentou Max Guérout.

O arqueólogo analisou que os náufragos da ilha “-Não eram pessoas que se deixaram oprimir pelo seu destino. Foram pessoas que trabalharam juntas, de forma ordenada, na intenção de sobreviver de alguma forma”.

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Outros abrigos.

Os arqueólogos franceses falharam na busca dos túmulos mencionadas nos registros da Royal Navy. “-Eles certamente ainda estão lá”, disse Guérout, que vai retornar a Ilha de Tromelin com melhores equipamentos de escavação.

Para o arqueólogo francês os estudos realizados na ilha são de extrema importância, pois oferecem uma oportunidade única para estudar como um pequeno grupo humano sobreviveu em meio a condições tão hostis, em um lugar diminuto e por tanto tempo. A Ilha de Tromelin possui 3.700 metros de largura, por cerca de 1.700 metros de comprimento, é cercada de recifes de coral e sem pontos fáceis de atracação.

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Ilha de Tromelin

Para Guérout, as análises arqueológicas deste caso talvez possam se transformar em ferramentas que ajudem os cientistas a compreender como pequenos grupos humanos conseguiram realizar a migração entre os continentes e sobreviver em locais inóspitos e isolados durante seus trajetos.

Ainda há muito a ser encontrado e Max Guérout espera liderar novas expedição para a Ilha de Tromelin.

Para mais informações, consulte:

– http://www.independent.co.uk/news/world/africa/shipwrecked-and-abandoned-the-story-of-the-slave-crusoes-435092.html

http://archeonavale.org/gran2012/index.php/2012-02-13-18-51-03/mission-2013

https://fr.wikipedia.org/wiki/Bernard_Boudin_de_Tromelin

http://historiasdelahistoria.com/2016/01/07/los-esclavos-que-sobrevivieron-15-anos-abandonados-en-un-islote-casi-desertico

https://fr.wikipedia.org/wiki/Île_Tromelin