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O SURF NO RIO GRANDE DO NORTE – O INÍCIO

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Aspectos da História do Surf no Mundo, no Brasil e no Rio Grande do Norte e Como Foi o Primeiro Campeonato de Surf em Terras Potiguares

Rostand Medeiros – Escritor e membro do IHGRN 

O surf é um dos mais antigos esportes praticados no planeta, onde a arte de vencer as ondas com material flutuante é uma mistura do esforço atlético e da total compreensão da beleza e do poder da natureza. Surf é também um dos poucos esportes que criou a sua própria cultura e estilo de vida.

A origem do surf é incerta. Para alguns historiadores, a prática nasceu há cerca de quatro mil anos entre moradores da atual costa do Peru, que, para pescar, deslizavam sobre as ondas em canoas de junco. Mas muitos discordam desta teoria, afirmando que não há provas de que os antigos peruanos ficassem de pé nas embarcações. E menos ainda de que fizessem manobras por diversão – a alma do esporte.

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Fonte – http://www.surfingforlife.com/history.html

Para muitos cientistas a origem do surf está na Polinésia Ocidental, quando o ato de montar ondas com uma tábua de madeira originou-se há mais de três mil anos. Os primeiros surfistas foram pescadores que descobriram que deslizar sobre as ondas era um método eficiente de chegar à costa com suas capturas. Eventualmente está sobre estas ondas passou gradativamente de ser apenas parte do trabalho de sobrevivência, para ser um passatempo. Esta mudança revolucionou o que compreendemos hoje como surf.

Não há registro exato de quando o surf tornou-se um esporte. Sabe-se que durante o século XV, reis, rainhas e outras pessoas das Ilhas Sandwich se destacaram no esporte denominado “he’enalu”, ou onda de deslizamento, no velho idioma havaiano. “He’e” significa mudar de uma forma sólida para uma forma líquida e “nalu” refere-se ao movimento de uma onda.

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Encontro dos havaianos com o capitão ingles James Cook e sua tripulação – Fonte – herbkanehawaii.com

Os primeiros registros históricos da civilização europeia sobre o surf remontam ao século XVIII, quando os europeus e os polinésios fizeram o primeiro contato. Em 1779 o capitão e navegador inglês James Cook viajou pelo Oceano Pacífico. Em meio a suas navegações aportou na baía de Kealakekua, no Havaí, onde testemunhou competições sobre as ondas que faziam parte dos festivais de ano-novo, dedicados a Lono, deus da fertilidade e da fartura, do sol e da chuva.

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Fonte – https://longboardsurfearte.wordpress.com/2012/06/04/o-longboard-e-a-origem-do-surf/

No Taiti ele descreveu maravilhado como um nativo pegou ondas com sua canoa apenas por diversão: “Ao caminhar um dia onde nossas barracas foram erguidas, vi um homem remando em uma pequena canoa tão rapidamente e olhando ao redor com muita avidez. Ele sentou-se imóvel e foi levado ao mesmo ritmo que a onda. Seguiu até que desembarcou na praia, começou a esvaziar a canoa e foi em busca de outra onda. Eu não pude deixar de concluir que esse homem sentiu um prazer supremo enquanto ele era conduzido tão rápido e tão suavemente pelo mar”.

Quase o fim e o Renascimento

Os primeiros colonos polinésios a desembarcar no Havaí eram mais aptos a surfar e depois de algumas centenas de anos montando as ondas das ilhas surgiu a conhecida forma havaiana do esporte. Mas com a chegada de missionários cristãos às ilhas, a partir de 1820, o surf perdeu força. Os religiosos estavam determinados a pôr fim aos costumes pagãos, e enfrentar as ondas de pé e sem roupa estava no topo da lista – além de indecente, minava a produtividade. As pranchas foram transformadas em mesas e cadeiras, usadas nas escolas que ensinariam religião, “bons costumes” e escrita aos “selvagens”.

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Homens e mulheres surfando em desenho de Wallace Mackay, 1874 – Fonte – http://www.surfingforlife.com/history.html

Apesar do esforço dos missionários, o surf sobreviveu. Mais de um século depois, em 1907, um havaiano de ascendência irlandesa, George Freeth, levou o esporte para a Califórnia. Naquele tempo, as pranchas costumavam ser feitas de madeira maciça, tinham três metros de comprimento, pesavam 45 kg e não possuíam quilha, o que as tornava difíceis de manobrar.

Da Califórnia, a partir dos anos 1950, o esporte conquistou o planeta – com o empurrão de Hollywood e filmes como Maldosamente Ingênua (1959), com a atriz Sandra Dee.

Na tela, corpos bronzeados disseminavam a cultura da praia, associada a hedonismo, diversão e liberdade.

No Brasil o Surf Começou no Improviso 

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Thomas Ernest Rittscher Júnior, o pioneiro do surfe brasileiro – Fonte – http://www.avisoesporte.com.br/2011/11/surf-morre-aos-94-anos-de-idade-o.html

Para alguns a ideia de surfar com algo flutuante sobre as ondas no Brasil pode ter começado desde os tempos pré-Cabralinos. Teria sido com os indígenas e suas canoas escavadas de um único tronco de árvore, que poderiam ter voltado surfando após suas pescas no mar. Mas isso é até agora pura especulação.

De certo mesmo temos a história de um garoto nascido em 1917 na cidade de Nova York, Estados Unidos, cuja família se mudou para Santos em 1930.

Seu nome era Thomas Ernest Rittscher Júnior e consta que ele surfou com sua “tábua havaiana” na Praia do Gonzaga, quando tinha apenas 16 anos de idade. Thomas Rittscher construiu sua prancha baseado em um esquema da revista americana Popular Mechanics. A primeira prancha do Brasil pesava entre 50 e 60 kg e tinha quase quatro metros de comprimento.

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Thomas e Margot Rittscher em Santos, anos 30. Foto: arquivo pessoal família Rittscher – Fonte – http://supclub.waves.com.br/sup-video-homenagem-a-thomas-rittscher/

Ao avistarem as manobras de Rittscher nas praias do litoral sul, a população de Santos se espantou, acreditando que o pioneiro do surfe conseguia andar sobre as ondas. Rittscher é considerado o primeiro homem a surfar uma onda no Brasil e sua irmã Margott, que acompanhava o irmão nas aventuras, é considerada a primeira mulher a surfar no país.

A partir dos anos 1940, no Arpoador, Rio de Janeiro, o esporte começou a se popularizar, primeiro entre os praticantes de pesca submarina. Na década seguinte, quando virava moda mundial, ficou popular entre garotos da American School of Rio de Janeiro (Escola Americana do Rio de Janeiro), que na época ficava no bairro do Leblon.

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1959 – Jorge Paulo Lemann, de sunga escura, com amigos na Praia do Arpoador, Rio – Fonte – http://revistatrip.uol.com.br/trip/lemann-broders

Em 1952, um grupo de cariocas, liderado por Paulo Preguiça, Jorge Paulo Lemann (atualmente tido como o homem mais rico do Brasil) e Irency Beltrão começaram a descer as ondas na praia de Copacabana com pranchas de madeirite e o esporte começou a popularizar-se. Já as primeiras pranchas de fibra de vidro, importadas dos Estados Unidos, só chegaram ao Brasil em 1964, mas a maioria das pranchas continuavam a ser improvisadas, sendo confeccionadas de madeirite, ou isopor revestido com sacos de sisal.

A prancha que se denominava de isopor era feita de poliestireno expandido (EPS), material descoberto em 1949, nos laboratórios da empresa alemã BASF e que ficou mais conhecido no Brasil pela marca comercial “Isopor” (depois surgiu outra marca chamada “Isonor”). Foram pranchas que marcaram época, sendo muitas vezes as primeiras pranchas de muita gente por aí, mas que normalmente quebravam na primeira onda mais forte.

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Meninas competindo no Rio. Foto do acervo de Irencyr Beltrão, extraída do livro de Alex Gutenberg: “HISTÓRIA DO SURF NO BRASIL – 50 ANOS DE AVENTURA” 1989, Editora Azul. Uma produção da REVISTA FLUIR.

A primeira fábrica de pranchas de surf mais bem elaboradas no país era a carioca São Conrado Surfboard, que inaugurou suas atividades em 1965.

Em 15 de julho deste mesmo ano foi fundada a primeira entidade de surf brasileira – a Associação de Surf do Rio de Janeiro. Esta organizou o primeiro campeonato em outubro daquele ano. No entanto, o surf só seria reconhecido como esporte pelo Conselho Nacional de Desportos em 1988. 

E em Natal, como a coisa rolou?

Pesquisando nos jornais antigos, através de uma interessante reportagem produzida por Ricardo Rosado Holanda, com fotos de Joab Fabrício, e publicada em 25 de maio de 1975 (página 24) no extinto dominical natalense “O Poti”, observamos que a rapaziada da cidade já praticava surf com as antológicas pranchas de isopor. Ainda segundo Ricardo Rosado o pessoal local dominava as ondas deslizados deitados nas pranchinhas.

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Foi quando em janeiro de 1974 um surfista, cujo nome não ficou registrado nesta reportagem, surfou na cidade com uma clássica longboard, um tipo de prancha alongada, que na década de 1960 fez sucesso entre os surfistas californianos. O desconhecido praticante do antigo esporte criado no Oceano Pacifico parece que chamou atenção da rapaziada local por deslizar nas ondas em pé e provavelmente ele deu o “start” de algo que já estava latente nas praias potiguares.

Mas existe uma dúvida nisso tudo – Ou o desenvolvimento do surf foi bem rápido em praias potiguares? Ou o pessoal local já praticava surf com materiais flutuantes de melhor qualidade do que as frágeis pranchinhas de isopor, antes mesmo da apresentação do surfista desconhecido com seu pranchão na Praia dos Artistas?

Comento isso porque dois surfistas natalenses participaram do II Campeonato Pernambucano de Surf, na Praia de Porto de Galinhas e que aconteceu nos dias 29 e 30 de março de 1974. Eles eram Fabiano e Lamartine e competiram respectivamente nas categorias Júnior e Sênior. O evento era bem organizado e chegou a ser patrocinado pela Rede Globo e os dois surfistas saídos do Rio Grande do Norte conseguiram os sextos lugares em suas respectivas categorias, competindo contra 60 surfistas de Pernambuco e de todo país. Eu entendo que isso foi uma grande mostra da capacidade destes dois surfistas potiguares, pelo fato do esporte ser ainda tão incipiente e com poucos praticantes nas praias do Rio Grande do Norte (Ver Diário de Natal, edição de 4 de abril de 1975, sexta feira, página 10). 

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Já Ricardo Rosado apontou na sua reportagem de 1975 que cerca de 30 a 35 surfistas entubavam ondas nas Praias dos Artistas, Areia Preta, Ponta Negra e na idílica Baía Formosa, a 98 km de Natal e que na época era extremamente preservada na sua natureza.

Nesta matéria os surfistas considerados “feras” foram Luruca, Ronaldo, Barata, Fabiano, Albino, Sérgio, Hugo, Chico Adolfo, Seu Braz e “mais 30 adeptos”. O repórter apontou claramente que estes surfistas eram filhos de famílias tradicionais e abonadas da cidade. E certamente muitos deles eram de famílias com bom lastro financeiro, até porque nessa época o preço médio das pranchas de surf variavam de 1.500 a 3.000 cruzeiros. Com 2.800 cruzeiros em 1975 o Governo do Estado do Rio Grande do Norte pagava o salário mensal de um dentista. Já 3.000 cruzeiros dava para efetuar uma gorda entrada no pagamento do financiamento de um Fusca 1.300 em Marpas Veículos, ou pagar o valor do aluguel mensal de uma luxuosa casa de quatro quartos no bairro de Petrópolis, até hoje um dos mais valorizados de Natal.

Além do preço não podemos esquecer que neste período a maioria das pranchas eram fabricadas no Rio de Janeiro, normalmente por surfistas famosos e campeões, os “shapers”, como Mudinho, Toni, Missary e Rico, este último o famoso surfista carioca Rico Fontes de Souza. 

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Rico de Souza na década de 1970. Surfista carioca e referência na confecção de pranchas – Fonte http://acervo.oglobo.globo.com/

Do Rio também vinha a parafina para evitar escorregar da prancha (12 cruzeiros a caixa), roupa de neoprene para não sentir frio na água (700 cruzeiros a peça da marca Cobra Sub) e o par de rack para segurar as pranchas nos tetos dos veículos durante o transporte para as praias (400 cruzeiros).

Independente destas questões é interessante perceber que aqueles primeiros surfistas potiguares já possuíam dentro de suas mentes o principal aspecto da filosofia que impulsiona até hoje o surf pelo mundo afora – A integração com a natureza. Eles também já se organizavam para fundar um clube que unisse os praticantes do esporte em Natal. Sonhavam até mesmo com o apoio do Governo do Estado para a construção de um píer na Ponta do Morcego e holofotes para a prática noturna do esporte na Praia dos Artistas.

Mas a reportagem aponta que eles tinham em mente algo mais palpável para ser trabalhado em curto prazo – A realização de um campeonato de surf em Natal.

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Mas faltava um patrocinador para adquirir uma prancha para ser entregue como premiação principal.

O I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte

Para minha surpresa a ideia de ser realizado um campeonato de surf na capital potiguar atraiu favoravelmente uma parcela da sociedade potiguar para o evento. O campeonato foi efusiva e extensamente comentado na principal coluna social da cidade naqueles tempos, a do jornalista Paulo Macedo.

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A premiação do I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte em 1975.

Mesmo sendo um evento organizado por pessoas privadas, no caso Carlos Magno Campelo, Ronaldo Barreto e José Carlos, o patrocínio para a sua realização veio da empresa de divulgação de turismo do Rio Grande do Norte, a EMPROTURN, cujo presidente na época era Valério Mesquita (Ver Diário de Natal, edição de 29 de julho de 1975, terça feira, página 2).

O palco foi a Praia dos Artistas e ficou decidido que a data para a realização do campeonato seria nos dias 16 e 17 de agosto, sábado e domingo. As inscrições tinham o valor de 50 cruzeiros por surfista e não houve premiação em dinheiro, só em materiais, sendo que o primeiro colocado levaria uma prancha de surf novinha em folha da marca “Gledson”. Prometeram até mesmo juiz do Rio, mas isso ficou só na promessa.

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Com mais de 50 participantes inscritos eu acredito que quase todo mundo que praticava surf no Rio Grande do Norte caiu na água atrás da premiação, junto com surfistas vindos da Paraíba, Ceará, Pernambuco e até mesmo do Rio de Janeiro, pelo menos nominalmente.

Ficou acordado que o I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte teria cada uma de suas baterias classificatórias formada por cinco ou seis surfistas, com cerca de 30 minutos de duração e teriam início pela manhã e o encerramento previsto para as cinco da tarde. Os juízes eram de Pernambuco, do Ceará e um do Rio Grande do Norte.

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Segundo os jornais da época se inscreveram um total de 53 surfistas, oriundos de “todos os estados do Nordeste”, mas cinco destes não participaram. Entretanto os 48 surfistas restantes realizaram um campeonato muito disputado.

Eles ficaram divididos em oito baterias, com seis concorrentes cada uma. Dois concorrentes de cada bateria foram classificados no sábado, resultando dezesseis participantes para as baterias finais no domingo.

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Público presente na Praia dos Artistas para prestigiar o I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte de 1975

Duas baterias com cinco surfista e uma com seis concorrentes aproveitaram ao máximo as ondas da Praia dos Artistas no dia 17 de agosto e o campeão foi Ronaldo Barreto, de Natal e com apenas 17 anos de idade. Em segundo ficou Alfredo (de Fortaleza, Ceará), em terceiro Luruca (Natal), em quarto o classificado foi Capibaribe (Fortaleza), em quinto Amim (de Recife, Pernambuco) e em sexto Marquinho (do Rio de Janeiro, mas que morava em Natal).

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1975 – Ronaldo Barreto foi o campeão do I Campeonato de Surf do Rio Grande do Norte, aqui recebendo sua premiação de Valério Mesquita, o então presidente da EMPROTURN

Aquele primeiro campeonato potiguar de surf, realizado há quase 42 anos, foi considerado bem organizado e seguramente serviu como um grande marco para o desenvolvimento deste esporte na região. Segundo os jornais, já durante o evento os surfistas locais debatiam a criação de uma federação de surf no estado. Não demorou muito e rolou na Praia de Ponta Negra, em outubro daquele mesmo ano, o I Campeonato de Surf do Colégio Marista.

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Visão comum em Natal a partir de 1975

Aí a coisa não parou mais!

Hoje o surf potiguar é um dos esportes mais atuantes nas praias potiguares, com uma extensa história de sucesso e nomes que alcançam o circuito mundial deste esporte.

O Rio Grande do Norte tem representantes na elite do surf desde 1995, quando Aldemir Calunga começou a “dropar” as ondas pelo mundo. Depois, vieram Danilo Costa, Marcelo Nunes e Joca Júnior, que mantiveram a presença potiguar na elite.

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Os potiguares Jadson André e Ítalo Ferreira vão disputar a elite do Circuito Mundial de Surf em 2017 (Foto: Jocaff Souza/GloboEsporte.com)

E a saga continua firme e forte – Dos nove surfistas que vão representar o Brasil no Circuito Mundial de Surf em 2017, dois deles são potiguares – Jadson André, de Natal, e Itálo Ferreira, de Baía Formosa. A mesma bela praia que testemunhou o início do surf potiguar entre 1974 e 1975.


Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/acervo/surf-uma-historia-politica.phtml#.WJSEw4WcHIV

http://www.earj.com.br/history.html

http://iml.jou.ufl.edu/projects/spring04/britton/history.htm

http://jornalzonasulnatal.blogspot.com.br/2015/03/uma-onda-sem-fim.html

http://esporte.ig.com.br/maisesportes/surfe/morre-thomas-rittscher-o-primeiro-surfista-do-brasil/n1597382505205.html

https://www.wsj.com/articles/a-short-history-of-surfing-1439479278

http://www.future-surf.com/en/surf/historia/

MARCO ARCHER – DE JOVEM CAMPEÃO DE ASA DELTA A TRAFICANTE DE DROGAS FUZILADO NA INDONÉSIA

Marco Archer, o Curumim, em foto de 1979 - Foto de José Vital
Marco Archer, o Curumim, em foto de 1979 – Foto de José Vital

Ao realizar uma pequena pesquisa na internet em relação à morte por fuzilamento do carioca Marco Archer Cardoso Moreira eu comecei a me interessar pela trajetória esportiva deste homem. Mas percebi que pouco se falou dessa fase de sua vida. Sem dúvida a mais positiva e que lhe daria certamente um destino muito mais interessante do que a morte na Ilha de Nusakambangan, na Indonésia.

O Jovem Homem Pássaro

Apesar de nascido no Rio de Janeiro, Marco Archer é descendente de uma tradicional e respeitada família amazonense. Entre seus antepassados constam os irmãos Agnaldo e Henrique Archer Pinto, que na década de 1930 criaram em Manaus o periódico “O Jornal”, durante décadas um dos principais veículos da mídia impressa do Amazonas. Inclusive existe na capital manauara a tradicional Corrida Pedestre Henrique Archer Pinto, que em 2015 estará na sua 60º edição.

Marco Archer preso na Indonésia
Marco Archer preso na Indonésia

Marco Archer era filho de Carolina Archer Pinto, moravam no bairro de Ipanema e na adolescência ele começou a se interessar por um esporte que fazia poucos anos despontava nos céus cariocas.

Em julho de 1974 um francês chamado Stephan Dunoyer de Segonzac decolou do Cristo Redentor pendurado numa asa e pousou na praia de Botafogo, fato que chamou muita atenção na época e é considerado o primeiro voo de asa delta realizado no Brasil.

Primeiro voo de asa delta no Brasil, em 1974.
Primeiro voo de asa delta no Brasil, em 1974.

Em 7 de setembro daquele mesmo ano, saltando da Pedra da Agulhinha, na praia de São Conrado, Rio de Janeiro, Luís Cláudio Mattos se tornou o primeiro brasileiro a voar neste tipo de equipamento. Para este pioneiro tudo começou como uma brincadeira e ele foi o responsável por tantos seguidores da asa delta, graças ao seu espírito brincalhão e comunicativo.

A novidade chamou atenção de outras pessoas e em 1975 foi realizado o 1º Campeonato Brasileiro de Voo Livre. Esta competição contou com provas de permanência em voo e precisão, sagrando-se campeão André Sansoldo e vice-campeão Irencyr Beltrão, que viriam a representar o Brasil no primeiro campeonato Mundial de voo livre, realizado na cidade de Kossen, Áustria, em 1976.

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Com o crescente número de adeptos construiu-se uma rampa de saltos no Rio, a da Pedra Bonita. Para a manutenção e controle deste local, foi criada em dezembro de 1975 a ABVL – Associação Brasileira de Voo Livre.

Em meio ao crescimento deste esporte, um garoto de Ipanema com 16 anos, que tinha raízes amazônicas, começou a voar em 1977 e o seu progresso neste esporte foi bem rápido.

Segundo reportagem publicada no Jornal do Brasil, página 17, edição de quinta feira, 18 de outubro de 1979, Marco Archer já era apresentado como “Instrutor de voo”, considerado pelos colegas como “um dos mais experientes no esporte” (mesmo tendo apenas 18 anos) e era detentor do recorde brasileiro de permanência no ar, com 7 horas e 10 minutos de voo ininterruptos.

Talvez pela pouca idade quando começou a voar em 1977, recebeu dos outros pilotos o apelido de “Curumim”, termo utilizado em Tupi-Guarani para criança.

Campeão Pan-americano

Mas a trajetória vitoriosa de Archer na asa delta não era sem percalços.

A reportagem do Jornal do Brasil de 18 de outubro de 1979 não tratava de alguma vitória de Curumim, mas de um acidente que ele havia sofrido em um penhasco perto da Pedra da Agulhinha.

Fonte - http://blog.livegether.com/voo-livre/
Fonte – http://blog.livegether.com/voo-livre/

A queda ocorreu por volta das dez e meia da manhã e Archer ficou no local por três horas, até que um helicóptero da Secretaria de Segurança chegou para resgatá-lo local. Como ele estava sem ferimentos de maior gravidade (a não ser um pequeno corte na testa), a tripulação lhe passou um cabo de aço e ele foi levado pendurado até a Praia de São Conrado. Na época Mauricio Figueiredo, o piloto da aeronave, comentou que aquele havia sido seu resgate mais difícil, pois ventava muito e ele posicionou o helicóptero muito próximo as pedras.

Mesmo com o susto e o tempo de espera pelo resgate Curumim não se abalou e, segundo a reportagem, no mesmo dia voltou a saltar da Pedra Bonita. Essa vontade de voar naquele momento tinha uma razão especial – Archer estava fazendo parte da equipe brasileira que iria disputar o 1º Campeonato Pan Americano de Asa Delta, a ser realizado na Colômbia.

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Além de Curumim a equipe brasileira contava com os pilotos Carlos Alberto Dourado, Bento Berenguer, José Carlos Brant e Euclides Herzog.

O campeonato foi realizado no Parque Nacional de Neusa, onde a equipe passou por vários problemas em meio a muita chuva, frio, alojamento precário e comida de péssima qualidade.

Mas tudo valeu a pena.

Segundo outra reportagem do Jornal do Brasil (1º Caderno, página 27, edição de quarta feira, 14 de novembro de 1979) os cinco brazucas se sagraram os primeiros campeões pan-americanos de voo livre. Fecharam o campeonato com 4.755 pontos, superando a forte equipe norte-americana que fechou a sua participação com 4.435 pontos.  

Evolução do piloto Bento Berenguer - Foto de Mucio Scorzelli - www,facebook.com
Manobra do piloto Bento Berenguer – Foto de Mucio Scorzelli – www,facebook.com

No retorno ao nosso país, segundo o Jornal do Brasil, não houve descanso para a equipe campeã. Os cinco seguiram para São José do Barreiro, cidade paulista próxima a Serra da Bocaina onde nesta bela localidade eles iriam participar do “Campeonato dos Mestres”.

E o lugar era fantástico. No final da década de 1970, o prefeito Josias de Marins Freire, conhecido como Sr. Dego, acreditando no potencial do município para o turismo e conhecendo os atributos da Serra da Bocaina, incentivou a prática do voo livre. Logo duas rampas foram abertas a quase 1.700 m de altitude e a Bocaina passou a ser conhecida como “O Ninho das Águias”.   

Marco Archer, o Curumim, era um dos melhores pilotos de asa delta do país, estava vivendo toda a efervescência e o crescimento do voo livre no Brasil. Crescimento que se consagraria com o título que veio no Mundial de 1981, no Japão, onde o carioca Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes, o Pepê, foi o grande campeão.

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Mas, segundo uma reportagem realizada em 2005, foi após voltar deste campeonato na Colômbia que o voo de Curumim começou a perder o rumo.

Melhor Ter Ficado “Nas Nuvens”

O jornalista Renan Antunes de Oliveira entrevistou Marco Archer como enviado especial do Jornal JÁ, quando o instrutor de voo se encontrava detido em uma prisão na Indonésia.

Em 2004 Archer foi preso ao tentar entrar naquele país com 13,5 quilos de cocaína escondidos nos tubos de uma asa delta. A droga foi descoberta pelo raio-x no Aeroporto Internacional de Jacarta e enquanto os guardas desmontavam a asa ele conseguiu fugir do aeroporto. Duas semanas depois acabou preso novamente. As leis da Indonésia contra crimes relacionados a drogas estão entre as mais rígidas do mundo e contam com o apoio da população.

Brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, condenado à morta na Indonésia, em prisão de Jacarta

Na entrevista a Oliveira o instrutor Archer afirmou que na Colômbia foi “mordido pela mosca azul do narcotráfico: sacou como ganhar dinheiro fácil. Alguém no hotel lhe deu uma caixa de fósforos com cocaína”.

Não sei em que período da década de 1980 Marco Archer foi gradativamente ampliando sua ação como traficante, mas segundo o jornalista Oliveira ele prosperou no ramo. Informou que com o dinheiro do tráfico viajou para vários países, conquistou muitas mulheres e manteve apartamentos em três países, de três continentes diferentes – Holanda, Estados Unidos e Indonésia, este último imóvel na Ilha de Bali.

Nesse meio do caminho, em 1997, ao realizar um voo livre Archer caiu. Sofreu várias fraturas, ficou bem machucado e quebrou vários dentes. Teve que ser transferido para Cingapura, país vizinho a Indonésia, onde passou por um caro tratamento. Fez vários implantes dentários, ficou um tempo em cadeira de rodas e voltou para se recuperar em casa.

Mas este não seria o único infortúnio do período. Em 2000 seu irmão Sérgio morreu de overdose. Ele era viciado em drogas e costumava bater na mãe para conseguir dinheiro e manter seu vício.

Não tenho detalhes do tratamento feito por Archer, mas os jornais noticiaram que após ele se recuperar no Rio de Janeiro, saiu desta cidade com destino ao Peru para comprar cocaína em parceria com um financiador norte-americano. Do Peru seguiu para Manaus e de lá até a Indonésia. Afirmou que realizou esta ação ilegal (depois de sete anos do acidente em Bali) para pagar uma parte da dívida contraída no hospital de Cingapura. Como não conseguiu pagar o débito integralmente, era constantemente cobrado. Diante da situação partiu para a fracassada tentativa de tráfico de cocaína para a Indonésia.

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Em 2011, provavelmente devido a todas as agruras passadas pelos filhos com as drogas, sua batalhadora mãe Carolina Archer Pinto faleceu de câncer.

Marco Archer passou mais de 10 anos tentando evitar sua execução no corredor da morte indonésio. Finalmente, na madrugada de domingo, 18 de janeiro de 2015, ele foi fuzilado em Nusakambangan.

É bobagem o que vou comentar, mas ao conhecermos um pouco da história de Marco Archer no voo livre, acredito que seria muito melhor para ele ter continuado “nas nuvens” com a sua asa delta.

Fontes – http://memoria.bn.br/hdb/periodo.aspx

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/brasileiro-marco-archer-e-executado-na-indonesia-diz-tv.html

http://acritica.uol.com.br/noticias/Neto-amazonense-brasileiro-condenado-Indonesia_0_1282071790.html

http://www.euvoeideasadeltanoriodejaneiro.com/#!voo_livre/cf2f

https://www.facebook.com/166690870160696/photos/a.167340596762390.1073741827.166690870160696/230389203790862/

http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/brasileiro-condenado-a-pena-de-morte-por-trafico-de-drogas-sera-executado-em-julho/

http://www.blogdacidadania.com.br/2015/01/marcos-archer-e-o-expresso-da-meia-noite/

AS INCRÍVEIS HISTÓRIAS DE UMA BRASILEIRA E DE UMA INDONÉSIA QUE SOBREVIVERAM AO TSUNAMI DE 2004

FONTE - AFP/Getty Images
FONTE – AFP/Getty Images

Tsunami é uma palavra de origem japonesa, ligando os termos “Porta” e “onda”. É, por definição, um maremoto provocado por um terremoto ou por uma erupção vulcânica no mar.

Em 2004 aconteceu um terremoto de magnitude 9,1 na escala Richter. Seu epicentro foi no Oceano Índico, ao largo da costa oeste de Sumatra e logo ondas varreram regiões que atingiram até a Africa do Sul.

Parte da Indonésia sofreu as piores consequências, seguido de Sri Lanka e Tailândia. No total, o fenômeno atingiu 14 países e deixou quase dois milhões de desabrigados. Milhares de corpos nunca foram encontrados. Mas muitos sobreviveram por puro acaso, como a brasileira Karina Dubeux e a indonésia Fauziah Basyariah.

* * *

Há 10 anos, na manhã de domingo, 26 de dezembro de 2004, a médica brasileira Karina Dubeux, estava de férias com o marido em Phi Phi, um pequeno arquipélago no sul da Tailândia. Um lugar verdadeiramente idílico, cuja areia branca e água azul-turquesa ficaram conhecidos no filme “A Praia”, com Leonardo Di Caprio.

Beleza das Ilhas Phi Phi, na Tailândia - Fonte - http://designtendencia.pn5.com.br/
Beleza das Ilhas Phi Phi, na Tailândia – Fonte – http://designtendencia.pn5.com.br/

Estar naquele local era um antigo sonho de seu marido, Isac Szwarc, médico como ela e há anos praticante de mergulho autônomo. Mas o barco que deveria levar o casal para o mergulho atrasou 30 minutos e a brasileira ficou chateada com aquilo.

O que ela não sabia foi que este atraso salvou sua vida!

A médica brasileira Karina Dubeux - Fonte - BBC
A médica brasileira Karina Dubeux – Fonte – BBC

No barco estavam outros dois turistas, três guias e um fotógrafo finlandês. Depois de todos acomodados este finalmente navegou em direção a Koh Bida Nok, uma pequena ilha desabitada, formada por pedra calcária e que surge magicamente do mar. Mergulhar ali é um espetáculo de coloridos recifes de coral, peixes e cavalos marinhos raros.

Dubeux, então com 41 anos, mergulhou pouco mais de meia hora, a uma profundidade de 23,5 metros. Após certo tempo começou a emergir, realizando uma parada a cinco metros da superfície, um procedimento de rotina para evitar a descompressão. Neste momento ela teve um primeiro sinal de que algo incomum estava acontecendo.

“-Quando fotografava com meu marido o guia de mergulho, algo bateu contra nós como se fosse um turbilhão”, disse Dubeux à BBC. “-O guia bateu contra as pedras”.

Fonte - www.english-online.at
Fonte – http://www.english-online.at

Tinha acabado de acontecer um dos piores desastres naturais da história moderna.

Ao chegar à superfície a brasileira sentiu uma forte corrente de água. Ela nadou com alguma dificuldade para o barco. Como este estava protegido atrás de uma pedra, em uma baía, o capitão nem sequer viu a onda.

Quando todo mundo estava de volta a bordo, outro barco passou por eles com sua tripulação gritando em tailandês a distância. Uma pessoa a bordo comentou que outro barco tinha acabado de ser destruído por uma grande onda e sete turistas que estavam a bordo haviam caído no mar. Eles desapareceram não muito distantes do lugar onde Dubeux realizava seu mergulho.

Ela comentou para a BBC que “-Se não fosse o atraso de meia hora, estaríamos no mesmo local onde os turistas morreram”.

Pouco tempo depois receberam um aviso pelo rádio, informando que uma grande onda tinha destruído uma doca e um hotel.

Karina Dubeux - Fonte - BBC
Karina Dubeux – Fonte – BBC

Dubeux, que sentia interesse por tsunamis, comentou que a razão daquele acontecimento transmitido pelo rádio poderia ter sido provocada por um destes fenômenos naturais de extrema destruição. Naquele momento o resto da tripulação riu.

“-Karina, faz 120 anos que tivemos um tsunami nesta área”, lembra que alguém respondeu.

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Logo o motivo dos sorrisos desapareceu dos rostos dos tripulantes.

Devido à destruição, o barco não poderia atracar no cais do hotel onde Dubeux estava hospedada, ela e o resto dos mergulhadores tiveram de nadar 150 metros para atingir a costa. O mar estava agitado, enlameado, com pedaços de coco flutuante. Após chegarem a praia eles caminharam até o hotel.

Hotéis tailandeses destruídos após os tsunamis de 2004 - Fonte - article.wn.com
Hotéis tailandeses destruídos após os tsunamis de 2004 – Fonte – article.wn.com

O lugar tinha certa proteção geográfica que impediu danos maiores. Mas a recepção tinha sido invadida por um barco arrastado pela onda. Dubeux e seu marido foram para o seu bangalô para tomar um banho e trocar de roupa. De repente passou um funcionário do hotel em um carrinho de golfe gritando em Inglês: “-Outra grande onda!”.

Os dois brasileiros foram às pressas para o restaurante do hotel, que estava no ponto mais alto da ilha. Foi lá onde encontraram vários feridos, alguns deitados no chão. Prontamente Szwarc foi pegar o kit de primeiros socorros e o casal de médicos começou a ajudar como podiam.

Vieram mais feridos do outro lado da ilha, onde as ondas tinham matado centenas de pessoas. Alguns tiveram escoriações, outras lesões múltiplas e outras contusões. Mas Dubeux observa que nenhum dos feridos parecia em estado grave, “-O que a maioria das pessoas teve foi em um estado de depressão de vido as suas perdas pessoais”, disse ela. “-Fui mais uma psiquiatra, onde conversei com muito com eles”.

Fonte - BBC
Fonte – BBC

Sistemas de prevenção de tsunami no Oceano Índico em 2004 eram insuficientes. A tecnologia havia sido concentrada no Oceano Pacífico, onde tais eventos são mais frequentes. Estima-se que as maiores ondas da tragédia chegaram a 20 metros de altura na província indonésia de Aceh. Foi lá onde aconteceu quase metade dos danos materiais.

Os esforços de socorro em todo o mundo atingiram recordes de arrecadação. Mas também houve denúncias de desvios, às vezes por corrupção e outros por pura incompetência.

A reconstrução foi efetuada a diferentes velocidades. As praias turísticas do sul da Tailândia, onde estava Karina Dubeux e seu marido, voltaram ao normal depois de um ou dois anos e vários instrumentos de alerta de tsunami foram instalados na região.

Fonte - www.meted.ucar.edu
Fonte – http://www.meted.ucar.edu

Dubeux e seu marido voltaram ao Brasil três dias depois da tragédia. Ela disse que nunca mais se encontrou novamente com aqueles que estavam no mergulho.

Ela voltou para o sul da Tailândia quatro anos depois e ficou surpresa com a reconstrução do local. Em seguida, ela completou o circuito de mergulho abruptamente interrompido naquele dia.

No Brasil publicou um livro sobre a experiência e intitulado “Salvos por um mergulho-A história de um casal de brasileiros que escapou do tsunami”.

Uma década mais tarde ela está separada e tem planos de viajar em breve para a Indonésia. Garante que o tsunami “-Foi um divisor de águas muito forte”.

“-Eu mudei muito, mesmo na minha profissão e me tornei mais disponível”, ela reflete. “-Mais do que nunca eu acredito que a vida é um presente.”

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O barco de madeira de 25 metros de comprimento se tornou uma atração popular no circuito turístico do tsunami - Fonte - BBC
O barco de madeira de 25 metros de comprimento se tornou uma atração popular no circuito turístico do tsunami – Fonte – BBC

Se para a brasileira foi o atraso em um mergulho que lhe salvou a vida, para a indonésia Fauziah Basyariah foi um barco em um telhado que a fez sobreviver junto com seus filhos.

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Entre os telhados vermelhos da recém-construída aldeia de Lampulo, existe uma visão extraordinária: um enorme barco de pesca em cima de duas casas.

O barco de madeira de 25 metros de comprimento se tornou uma atração popular no circuito turístico do tsunami. Há sinais que avisam “Kapal rumah di atas”, que significa “O navio em cima da casa” e uma placa dá detalhes de como a arca improvisado salvou 59 pessoas.

"Se não fosse por esse barco, todos na minha família teriam se afogado, pois nenhum de nós sabia nadar", diz a empresa local Fauziah Basyariah.
“Se não fosse por esse barco, todos na minha família teriam se afogado, pois nenhum de nós sabia nadar”, diz a empresa local Fauziah Basyariah.

Uma delas é a empresária local Fauziah Basyariah. “-Se não fosse por esse barco, todos nós teríamos se afogado, porque nenhum de nós sabia nadar”, diz ela.

Basyariah chora quando ela se lembra daquele dia. “-Não muito tempo depois do terremoto, as pessoas começaram a gritar que a água do mar estava chegando. Nós ficamos confusos, mas depois vimos a água”.

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Seu marido tinha ido fazer compras com uma moto, por isso demorou para que ela e seus cinco filhos saíssem de casa. O terremoto que provocou o tsunami havia destruído vários edifícios na sua rua, mas uma casa ainda estava de pé e os seis correram para dentro e foram para o segundo andar. Logo eles perceberam que o local não era alto o suficiente. “-Em menos de um minuto a água nos alcançou”, lembra Basyariah. “-A primeira onda era muito escura, com gosto horrível, não sei se era gasolina ou água.”

Antes de 2004, poucos sabiam o que era um tsunami, por isso, quando o mar recuou antes da onda atingir a praia, as pessoas correram para coletar peixes na areia em vez de escapar para lugares mais altos.
Antes de 2004, poucos sabiam o que era um tsunami, por isso, quando o mar recuou antes da onda atingir a praia, as pessoas correram para coletar peixes na areia em vez de escapar para lugares mais altos.

Depois veio uma segunda onda, ainda maior e a família estava presa. “-Nós estávamos flutuando com a testa tocando o teto e água até ao pescoço. Eu pensei que íamos morrer afogados.”

Através da janela viram algo estranho: um grande barco de pesca vindo em direção a eles. “-As pessoas estavam gritando, mas, em seguida, o barco ficou preso no topo da casa e parou”.

Seu filho de 14 anos conseguiu fazer um pequeno buraco no teto e ele levou toda família para o barco. Outras pessoas se juntaram a família de Basyariah na arca salvadora.

Há sinais que avisam "Kapal rumah di atas", que significa "o navio em cima da casa" e uma placa dá detalhes de como a arca improvisado salvou 59 pessoas.
Há sinais que avisam “Kapal rumah di atas”, que significa “o navio em cima da casa” e uma placa dá detalhes de como a arca improvisado salvou 59 pessoas.

“-Quando cheguei ao barco apenas rezávamos e rezávamos. Nós agradecemos a Deus que aquela nave tinha nos salvado, mas até mesmo o barco não era tão estável porque estava cheio de água”.

Eles assistiam impotentes edifícios que desabaram com as pessoas ainda dentro. “-Não havia nada que pudéssemos fazer”, disse ele, enxugando uma lágrima.

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“-Apesar de 10 anos se passarem desde o tsunami, quando eu falo sobre isso eu me sinto como se tivesse acontecido ontem. Eu me sinto tão triste, nunca me esqueço.”

Quando as águas baixaram, Basyariah e seus filhos foram morar em Lampulo Beurawe, onde voltou a encontrar alguns entes queridos, mas não todos!

Fonte - news.nationalgeographic.com
Fonte – news.nationalgeographic.com

“-Eu não sei onde meu marido estava e ele nunca foi encontrado. Nem meus pais, mas eles eram velhos e eu sabia que ia ser difícil eles escaparem.”

Basyariah de repente se viu tendo que sustentar sozinha cinco filhos. Enquanto permaneceu em um abrigo temporário, as agências de ajuda internacionais lhe ensinaram novas habilidades: como criar peixes, costurar e fazer bolos. Então surgiu a ideia de vender lanches de atum seco.

Um ano depois do tsunami, Basyariah lançou um negócio de peixe com um empréstimo de 500 mil rúpias (meros quarenta dólares). Ela agora sustenta sua família e emprega algumas mulheres da sua aldeia.

Do lado de fora de sua casa, a alguns metros do barco, mulheres preparam peixe frito com alho e cebola. O produto é chamado de “Tuna Tsunami Seco” e tem uma imagem do barco no rótulo. “-O barco nós salvou, gostaríamos de lembrar isso”, explica ela.

Fonte - galleryaceh.blogspot.com
Fonte – galleryaceh.blogspot.com

Cerca de 15 barcos de pesca ficaram presos em telhados durante o tsunami. A maioria foi removida, mas Zulfikar, o proprietário do barco salvador, concordou em deixar a nave no alto da casa como um tributo.

O barco é reverenciado pela comunidade como uma espécie de arca de Noé, mas também é um lembrete do que aconteceu.

Além de atrair turistas, memoriais existentes em Banda Aceh têm um papel educativo. Antes de 2004 poucos sabiam o que era um tsunami, por isso, quando o mar recuou antes de atingir as praias, as pessoas correram para coletar peixes na areia em vez de escaparem para lugares mais altos.

Agora escolares visitam os monumentos sobre o tsunami e são ensinados a identificar os sinais da chegada de uma grande onda.

Fonte - acehtourismagency.blogspot.com
Fonte – acehtourismagency.blogspot.com

Para Basyariah aquele barco foi uma grande sorte. Cerca de 45.000 mulheres morreram mais do que homens. O tsunami matou um número desproporcional de mulheres e crianças porque eles não sabiam nadar.

Nas áreas atingidas pelo tsunami de 2004 existem vários monumentos que lembram a tragedia. Aqui vemos o memorial da Police Boat T813, em Khao Lak, na província de  Phang-nga, Tailândia. Um barco de patrulha arrastado para terra e deixado no lugar onde as ondas o levaram.
Nas áreas atingidas pelo tsunami de 2004 existem vários monumentos que lembram a tragedia. Aqui vemos o memorial da Police Boat T813, em Khao Lak, na província de Phang-nga, Tailândia. Um barco de patrulha arrastado para terra e deixado no lugar onde as ondas o levaram.

Se na vila da atual empresaria Basyariah muitos morreram por desconhecerem os sinais da natureza, em outro local uma velha história salvou muitos da morte certa.

Em Simeulue, uma ilha ao largo da costa oeste de Aceh, apenas sete pessoas foram ali mortas pelo tsunami. Um número muito reduzido em comparação com os 167.000 óbitos em Aceh.

A geografia montanhosa da ilha ajudou, mas muitos habitantes da ilha de salvaram devido a uma antiga tradição narrativa local chamada “smong”.

De acordo com um relatório da UNESCO, essas histórias contadas para as crianças muitas vezes terminavam com um aviso: “Quando um forte terremoto ocorrer, e se o mar recuar, logo em seguida corra para as colinas porque as ondas em breve chegarão às praias”.

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Material produzido a partir dos textos de Gerardo Lissardy e Candida Beveridge, BBC

Fontes –

http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/12/141225_tsunami_sobreviviente_testimonio_gl

http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2014/12/141224_tsunami_aniversario_indonesia_barco_jp?ocid=socialflow_facebook

NATAL NO CAMINHO DOS NAZISTAS PARA A INVASÃO DOS ESTADOS UNIDOS

Mapa da revista Life que mostra Natal em uma das possíveis rotas de invasão dos Estados Unidos pelas forças do Eixo
Mapa da revista Life que mostra Natal em uma das possíveis rotas de invasão dos Estados Unidos pelas forças do Eixo

Autor – Rostand Medeiros

Entre os meses finais de 1941 e os primeiros meses de 1942, a balança da derrota na Segunda Guerra Mundial pendeu perigosamente para o lado dos países Aliados.

Nesta época os alemães estavam no controle da Áustria, Tchecoslováquia. Polônia, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França, Noruega, Iugoslávia, Finlândia, Grécia, Lituânia, Letónia e Estónia, bem como partes da União Soviética e da África do Norte. Enquanto isso a Itália, aliado dos nazistas, controlavam a Etiópia e Líbia e os japoneses, outro aliado de Hitler, tinham anexado grandes áreas da China, Sudeste da Ásia e Indonésia.

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Após o ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, os Estados Unidos estão enfrentando a ameaça real das potências do Eixo. Em meio a toda apreensão do grave momento para os americanos, na edição da revista Life do dia 2 de março de 1942, são apresentados vários cenários de possíveis invasões inimigas ao país. Em mapas que certamente geraram vários pesadelos aos mais moles, foi apresentado uma série de perspectivas de como especialistas previam um ataque das forças inimigas a terra do “Tio Sam”.

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Estes mapas foram criados pela Life a partir de um polêmico artigo escrito pelo autor de ficção científica Philip Wylie, que descreveu o terror que seria uma derrota americana na guerra.

Os mapas mostravam as pretensas movimentações de forças alemãs, italianas e japoneses invadindo o país através de vários locais – do Atlântico em direção a costa leste, um bombardeio ao Canal do Panamá e outros mais.

Seu propósito era servir como um aviso aos leitores que os Estados Unidos já não era apenas um observador da Segunda Guerra Mundial. A situação era real e uma invasão era tida como uma possibilidade muito plausível na época.

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Agora meu caro leitor, adivinhe qual era a cidade Latino Americana que, na visão da Life, primeiro serviria como ponto de arrancada das forças do Eixo em direção aos Estados Unidos no continente americano?

Acertou quem disse Natal.

E esse perigo era, em um determinado momento da Segunda Guerra, até que bem real.

Se o Feldmarschall (marechal de campo) Erwin Rommel, comandando seu Afrika Korps houvesse vencido os ingleses no Norte da África, ocupado o Egito e conquistado o então estratégico Canal de Suez, certamente que os riquíssimos campos de petróleo do Oriente Médio seriam um prêmio que chegaria de bandeja.

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Diante desta vitória retumbante os franceses que habitavam a colônia da África Ocidental, cuja capital era Dacar e eram aliados dos alemães, certamente cederiam seu estratégico porto e aeroporto aos amigos nazistas sem problemas. Alguém duvida?

Assim o Atlântico Sul estaria diante das forças de Hitler e do outro lado se encontrava a tranquila e estratégica Natal.

E talvez Rommel e seus aliados italianos não estivessem sozinhos em Dacar. É possível que tivessem a companhia dos japoneses.

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Sabemos que após o vitorioso ataque japonês a base naval de Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, estes conquistaram grande parte do Oceano Pacífico e do Oriente. Entre as conquistas estavam a então Indochina Francesa, Tailândia e Birmânia, onde o avanço nipônico parou. Eles foram detidos pelas terríveis chuvas do período de Monções, mais do que pela força de combate das tropas inglesas, hindus, australianas e chinesas.

Mas imaginemos que nem as forças Aliadas e nem as chuvas tivessem parado os japoneses. Aí certamente eles teriam chegado a Índia, onde muitos conterrâneos de Mahatma Gandhi nutriam pelos seus conquistadores ingleses nada mais do que um puro ódio. Bastaria aos japoneses prometerem uma independência (que certamente não viria) que a Índia cairia facilmente.

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Conquistada esta região seria muito fácil para as tropas japonesas alcançarem o Oriente Médio e realizarem uma ligação com as tropas alemãs e italianas comandadas por Erwin Rommel. Daí, mais da metade do planeta estaria nas mãos das tropas do Eixo e Hitler impulsionaria seus aliados a invadir e sujeitar os mais diversos povos para uma batalha final contra os Estados Unidos.

E certamente que um dos caminhos, como bem mostramos no primeiro mapa deste artigo, seria pelo Brasil e por Natal.

Reunião de nazistas no Brasil - Fonte - http://www.cartacapital.com.br/
Reunião de nazistas no Brasil – Fonte – http://www.cartacapital.com.br/

E é provável que nem sequer fossemos defender nosso território tropical desta invasão de hunos modernos. Pois no próprio gabinete do presidente Getúlio Vargas e em grande parte de nosso Exército Brasileiro, havia inúmeras autoridades e oficiais totalmente germanófilas e a favor das vitórias do Eixo.

Mas ainda bem que isso não aconteceu.

E se as forças do Eixo tivessem vencido a Segunda Guerra?

Capa do romance SS-GB, de Len Deighton, que mostra Londres ocupada pelos nazistas. Na foto Hitler acompanha um desfile da tropa SS, tendo o Big Ben ao fundo
Capa do romance SS-GB, de Len Deighton, que mostra Londres ocupada pelos nazistas. Na foto Hitler acompanha um desfile da tropa SS, tendo o Big Ben ao fundo

Certamente que na Europa os nazistas teriam restringido as liberdades básicas e introduzido severas leis raciais. A orgulhosa Grã-Bretanha teria sido reduzida a uma província de um império alemão. A Alemanha teria assumido os redutos da Europa Oriental e veteranos do exército teriam ocupado as terras conquistadas, seguindo linhas feudais. Milhares de quilômetros de autoestradas construídas por escravos, que os alemães chamam de “Autobahn”, conectariam as terras conquistadas com Berlin, definida nova “capital global”. Neste contexto não é difícil imaginar a deportação de milhões de habitantes da Europa Oriental para a Sibéria, onde certamente morreriam de frio e fome.

Quanto aos judeus, comunistas, ciganos, homossexuais, deficientes físicos, deficientes mentais, os considerados vadios, portadores de enfermidades, os mais idosos, dissidentes, pessoas de pensamento liberal e outros mais, certamente eu não preciso escrever o destino destes cidadãos de terceira categoria para os nazistas.

E quanto a Natal sob o domínio das forças do Eixo?

Bem, deixa pra lá. Pois eu não tenho capacidade de imaginar o inferno!

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