OS VELHOS CAMINHOS DO RIO GRANDE DO NORTE

Luís da Câmara Cascudo – Publicado originalmente no livro HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE, Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1955. 1ª EDIÇÃO, Capítulo XIII, páginas 307 a 312.

A primeira estrada conhecida no Rio Grande do Norte e, durante séculos, a mais trilhada, foi pelo litoral, beirando quase o mar, rumo da Paraíba. Os colonizadores vieram pelo Atlântico, mas a parte da tropa que devia vir por via terrestre recuou na baía da Traição ante a peste de bexigas. Mascarenhas Homem, fundador do Forte dos Reis Magos, regressou por terra. Esse primeiro caminho teve, no correr da guerra contra os indígenas no final do século XVII, uma série de casas fortes, protegendo o trânsito que seria relativamente vultoso. Vinha-se pela baía da Traição ou Mamanguape, Tamatanduba, Cunhaú, Goianinha, Guaraíras (Arês), Mipibu, Potengi, Utinga, ou seguindo o vale do Cajupiranga, diretamente a Natal. A jornada para o interior ia até o vale do Ceará Mirim, limite do conhecimento geográfico, útil até mesmo depois da expulsão do holandês em 1654.

Fortaleza dos Reis Magos no período colonial

Quando o mestre de campo Luís Barbalho Bezerra realizou a famosa contramarcha de fevereiro-maio de 1640, calcou a estrada já histórica. O genealogista Pedro Taques diz ter sido o desembarque a 7 de fevereiro no porto de Aguaçu, topônimo desaparecido, junto ou nos arredores da atual cidade de Touros. Em nomeações reais encontro baixios de São Roque. O caso é que Barbalho Bezerra veio até o Potengi, quase vendo Natal ou vendo, onde se bateu, derrotou e aprisionou Joris Gartsman, capitão flamengo do Reis Magos, e o conduziu para a cidade do Salvador. De Cunhaú é que o mestre-de-campo escreveu ao conde de Nassau pedindo passagem. Encontramos sua espada vencendo Alexandre Picard em Goiana. Era a trilha secular para ó sul, Natal, vale do Cajupiranga, vale do Capió, Cunhaú, rio Guaju para a Paraíba e daí para Pernambuco, por Mamanguape e Goiana como ainda nos nossos dias é a maior rodovia interestadual.

Riacho seco no Vale do Cafundó, zona rural da cidade pernambucana de Flores, Região do Pajeú. No passado essas eram as primeiras estradas da ocupação do interior do Nordeste. – Foto de Alex Gomes.

A repressão oficial à revolta da indiaria provocou o alargamento das fronteiras corográficas. Antônio de Albuquerque Câmara bate-se em 1688 nas cabeceiras do rio Açu e entre as serras do João do Vale e Santana do Matos. A revolta abrangia as ribeiras do Açu e Jaguaribe. A zona teve de ser batida e trespassada pelas colunas militares. Nesse 1688 os paulistas vieram ajudar a corrigir a indiada e se encontraram, vindos da Paraíba, com Albuquerque Câmara que se batia no baixo Açu. Domingos Jorge Velho viera de seus currais do São Francisco, por terra e mergulhara pelo boqueirão de Parelhas, no chamado “Sertão de Acauã”, que enrolava serras e capoeirões desde os atuais Jardim do Seridó até Currais Novos. Toda essa região, Focinho dos Picos, Picuí, Caiçara e Bico da Arara, até roçar o rio Acauã, era terra do gentio da nação Canindé e Janduí (Cariri) que se alargava por Quacari, Quimbico, Quintururé, Umvibico, Amoré, Onaxi, Acinum, Quindê, Arari, Jucurutu até a misteriosa serra, do Araridu ou Papuiré até Ticoiji e Tipuí, julgadamente a serra do Coité no território paraibano. São topônimos ·cariris que orlam a peregrinação dos aldeamentos e ficaram como testemunhando a passagem dos Janduí e Canindé antes do desaparecimento. Esse povo dos Canindé foi derrotado em 1690 por Afonso d’Albuquerque Maranhão, da casa de Cunhaú, neto de Jerônimo, 1.º capitão-mor do Rio Grande. O tuxaúa Canindé, soberano do sertão da Acauã, foi batizado e tomou o nome de João Fernandes Vieira. Dois anos depois o Senado da Câmara de Natal pedia a criação de arraiais, povoados com defensão militar nos quatro pontos extremos da região pacificada: Jaguaribe, Açu, Acauã e Curimataú. As estradas ligavam entre si esses lugares e se articulavam nas duas vias-tronco para o sul, o caminho do litoral, já mencionado, e a estrada por onde nasceria a estrada das boiadas. Em 1697 os indígenas Paiacu e Caratéu, da nação cearense dos Icó que viviam desde o Catolé do Rocha até as margens do rio Piranhas, na Paraíba, fixaram-se entre as ribeiras do Apodi e Jaguaribe, formando um liame de ativa comunicação pela chapada.

Ilustração de Jean Baptiste Debret

Por onde, durante as guerras contra o cariri, entraram os Terços Paulistas, as tropas de auxílio, vindas para conter os Janduí, Icó, Paiacu, Pega e Panati insubmissos?

Desceram da Paraíba, vindos por Soledade-Picuí ou Piranhas, depois Pombal, Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, varando a fronteira depois da reentrância paraibana, ou vinham pela mesopotâmia do Panema-Açu? As tropas que voaram em socorro de Albuquerque Câmara tomaram o primeiro caminho e as do sertanista Domingos Jorge Velho creio que escolheram o segundo, ainda hoje piso batido e tradicional.

Passada a guerra ficou a lembrança da terra pisada para baixo e para cima. Do Açu sobe-se pelo rio Paraú até o fim e apanha-se a estrada paraibana depois de Belém. Lembremo-nos que a Paraíba não tinha gado e sim açúcar. O Rio Grande do Norte possuía tanto gado que podia suprir a Paraíba, Itamaracá e Recife. Os currais paraibanos são posteriores ao domínio holandês na vigência do qual o Rio Grande exportava, de graça e a força, milhares de cabeças. Irineu Joffily (Notas sôbre a Paraíba, 124) diz que as “fazendas apareceram normalmente quando os exploradores galgaram o planalto da Borborema e os paulistas penetraram no Piancó. Depois de 1690 é que temos indícios das atividades bandeirantes dos Oliveira Lêdo no Piancó e Piranhas. Os núcleos iniciais foram o Boqueirão a leste e Piranhas a oeste até que Oliveira Lêdo reuniu e sistematizou o esquema do povoamento pela fixação das tribos disseminadas.

Estrada de rodagem do Seridó, início da década de 1920

Durante muitos anos os pontos povoados do sertão paraibano não tiveram intercomunicação. Piancó conhecia a ligação com a Bahia, e Boqueirão, nos Cariris Velhos, com Pernambuco. Entre nós, já no século XIX, sucedia o mesmo. Mossoró ia para o Aracati e Caicó para Campina Grande. O sertão escapou secularmente à capital que vegetava, humilde e minúscula, junto ao Potengi. As ligações orientavam-se para Pernambuco e Paraíba, para as grandes feiras de gado, Igaraçu, Goiana, També (Pedra de Fogo), Itabaiana e depois Campina Grande. Daí a rede de estradas e variantes que sempre aglutinaram esses lugares e os articulavam às regiões do Seridó e sertão de Piranhas, ribeira da Panema, enquanto a zona do Mossoró se escoava para o Ceará pelo chapadão do Apodi. Com o desenvolvimento do Aracati passou este a dirigir Mossoró e Mossoró ao seu sertão na linde do Oeste.

Do Mossoró, a velha estrada ia a São Sebastião (Governador Dix-Sept Rosado), como presentemente a estrada de ferro, Jurumenha, perto de Caraúbas, Atoleiros, Piranhas, Mombaça, Boa Esperança (Demétrio Lemos, atual Antônio Martins) nos batentes da serra do Martins, Carnaúba, Barriguda (Alexandria), Tabuleiro Formoso onde se bipartia. Um ramal ia para o Catolé do Rocha e outro à cidade de Sousa, tocando em Santa Rosa. Em Sousa entroncava-se com a estrada-das-boiadas que era uma reminiscência das estradas de penetração povoadora. Daí a importância de Sousa, Cajazeiras e Pombal na formação comercial de uma zona do Rio Grande do Norte. Para lá, como depois para o Caicó, envia-se o menino aos estudos do latim e o passador-de-gado, afoito e lendário.

Antiga estação ferroviária de Demétrio Lemos, atual Antônio Masrtins – Foto – Rostand Medeiros

Sousa centralizava muito e uma sua estrada vinha morrer na antiga rota dos conquistadores de Natal. Partia de Sousa e atravessava sucessivamente Catolé, Belém, Amazonas, São Miguel (já em nossa província), Serra de Santana por Flores (hoje Florânia). Santa Cruz, centro de irradiação do Seridó depois de passar a serra do Doutor nas vizinhanças de Currais Novos, daí para Nova Cruz por Campestre (São José do Campestre) onde se via o caminho que levava à Paraíba ou Pernambuco por Mamanguape. Quando se criou o correio, Mamanguape era o ponto de intersecção entre Paraíba e Rio Grande do Norte. Aí o estafeta recebia a correspondência para Pernambuco e distribuía a carga entre as duas coterminas. A posição de Mamanguape explica a predileção dos grandes latifundiários por suas terras. Os Albuquerques Maranhões, da casa de Cunhaú, possuíam vários sítios e engenhos em Mamanguape.

Vaqueiros potiguares – Foto – Rostand Medeiros

A estrada-das-boiadas na Paraíba era muito mais seguida pelos vaqueiros norte-rio-grandenses que qualquer outra nossa. Ia-se por ela para o Piauí e o Piauí, de fins do século XVIII em diante, muito valia à nossa vida de pastorícia. Irineu Joffily reconstruiu-a e posso completá-la.

Do oeste do Espinharas, ribeira de Santa Rosa, Milagres, tocando depois na lagoa do Batalhão (Taperoá), seguia-se o rio, descendo a Borborema até Piranharas e daí a Patos, Piranhas (Pombal), Sousa, São João do Rio do Peixe (Um ramal recebia a contribuição de Cajazeiras) ia-se ao Ceará pelos Cariris Novos, Icó, Tauá, atingindo-se Crateús, inesquecível pelo encontro de centenas de vaqueiros que demandavam o Piauí. Outros preferiam acompanhar a vaqueirama divertida e pousar ali mesmo, mas eram em parte menor. A maioria furava, do Tauá, diretamente para o Piauí. De Crateús comprava-se a gadaria em Santo Antônio do Surubim de Campo Maior, núcleo influenciador de cantigas sobre o ciclo do gado, Valença, Oeiras, que fora capital até 1852, Jatobá (São João do Piauí) e Picos, fornecedor dos primeiros cavalos pampas, ornamentais e vistosos, orgulho do patriarcado rural no Rio Grande do Norte. uns vaqueiros arrastavam a jornada até São Gonçalo de Amarante e outros a Jerumenha. As maiores feiras eram nas localidades citadas.

Foto – Rostand Medeiros

Os norte-rio-grandenses do oeste iam via Ceará. De Tauá para Crateús e daí seguiam galgando a Ibiapaba para Campo Maior, ·banhado pelo rio Surubim ou, dos cearenses Arneiros e Cococi, alcançavam Valença no Piauí ou em diagonal para Picos.

Essa toponímia ficou registrada na cantiga velha. Desaparecida quase a estrada das boiadas, rara a viagem do vaqueiro, a poesia tradicional guardou os nomes dos lugares de outrora. Essa toada, verdadeira canção de marcha dos vaqueiros, recorda o percurso (!) de Campo Grande (Augusto Severo) no Rio Grande do· Norte até o ·Piauí, envolvendo dois perfis femininos, cuidados amorosos do vaqueiro cantador.

Como Xiquinha não tem

Como Totonha não há;

Xiquinha de Campo Grande

Totonha do Lagamá !

Xiquinha vale dez fio (filhos)

Totonha vale dez vó. . . (avós)

Xiquinha do COCOCl

Totonha do Arneiró …

Xiquinha prá querer bem

Totonha prá carinhá;

Xiquinha é de Crateús

Totonha é lá do Tauá

Xiquinha vale uma vila,

Totonha vale ela só;

Xiquinha nasceu nos Pico (Picos)

Totonha em Campo Maió …

Um ramal da estrada das boiadas ficou popularíssimo na “cantoria”. É o do Piancó, Misericórdia, Milagres (Ceará), Missão Velha, Crato, nos Cariris Novos. Do Mossoró viajava-se outrora, como atualmente, pelo araxá do Apodi (Pedra de Abelha, atual Felipe Guerra). Outras estradas partindo de Mossoró, iam rio acima até as cabeceiras do Apodi, Portalegre, Pau dos. Ferros, São Miguel e Luís Gomes. Uma variante de Pau dos Ferros, velhíssimo rancho de comboieiros e tangedores de gado, chega a Alexandria, antiga Barriguda e seguia para Tabuleiro Formoso, pegando o caminho paraibano. De Pau dos Perros a vizinhança cearense animava as visitas por Pereiro. Do Patu ia-se para Catolé do Rocha. Do Açu caminhava-se para Campo Grande (Triunfo, Augusto Severo), Martins, no pé da serra, onde se continuava em um dos ramos para a estrada das boiadas pela Ribeira do Rio do Peixe.

Foto – Rostand Medeiros

O inverno era mais cedo. Dizia tão certo como chuva em janeiro. No Piauí as águas vinham em novembro. Iam vaqueiros de toda parte comprar bois de carro e de corte e novilhos para reprodução e engorda. Voltava-se em fins de dezembro ou começos de janeiro, tocando, para aproveitar as babugens verdes e ralas que as chuvas faziam nascer.

As datas quase infalíveis criavam ponto de reunião para que a jornada fosse menos enfadonha e monótona. Especialmente ficavam juntos no regresso para o auxílio mútuo nas travessias sem água ou passagens difíceis nos rios e riachos, estouro de boiada e moléstias súbitas na gadaria. Essas estradas todas, como vimos, em pleno sertão, determinaram a necessidade das vendas, feiras rápidas de suprimento ligeiro e descanso ao longo da rota. Fizeram casas. As fazendas se aproximaram. Ergueram a capela. Foi vila e muitas são sedes municipais.

Para o sul do Rio Grande do Norte a viagem continuava margeando. As praias, caminho feito por Nosso Senhor. Assim voltou, agonizante, Pêro Coelho de Sousa, em 1605, passando Amargosa e Guamaré na costa de Macau.

Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, município de Canguaretama, no litoral sul potiguar, onde aconteceu o Massacre de Cunhaú em 16 de julho de 1645 – Foto – https://joaobosco.wordpress.com/2007/09/22/onde-esta-a-verdade-sobre-o-masacre-de-cunhau/

Em 1810 Henry Koster fez sua excursão ao Ceará partindo do Recife, por Goiana, Espírito Santo, Mamanguape (Paraíba), Cunhaú (Rio Grande do Norte), Papari (Nísia Floresta), São José de Mipibu, Natal, Açu, Santa Luzia (Mossoró), praia do Tibau, Aracati (Ceará) e Fortaleza.

Quando o bispo de Pernambuco, Dom João da Purificação Marques Perdigão, visitou o Rio Grande do Norte em 1839, vinha do Ceará. Penetrou pelo Apodi, descansando em “Sabe Muito”, nos arredores da cidade de Caraúbas, dormindo no então povoado; almoçou em Coroas, perto da vila de Campo Grande (Augusto Severo), alcançando o Açu. Atravessou Santa Quitéria, depois Patachoca (Pataxó), vila dos Angicos e pelo seu Itinerário sabemos que o prelado veio por São Romão (Fernando Pedrosa), Santa Cruz, ambas estações da Estrada de Ferro Sampaio Correia, Riacho Fechado, Várzea dos Bois, Umari, Boa Água, Ladeira Grande, Taipu do Meio (sede municipal), Capela, no vale do Ceará-Mirim e Extremoz. É a travessia do poente ao nascente, oeste-leste. De Natal, Dom João partiu para a Paraíba repetindo quase o trajeto de Mascarenhas Homem no percurso de regresso em 1598. Natal, São Gonçalo, São José de Mipibu, Papari, Arez, Goianinha, Vila Flor, Tamanduba, Comatanduba (Paraíba), Mamanguape. É a descida norte-sul.

Pelos caminhos do sertão potiguar – Foto – Rostand Medeiros.

No interior as primitivas e grandes vias de povoamento e penetração foram as margens dos álveos dos rios Piranhas e Apodi-Mossoró. A oeste a chapada do Apodi com o rush cearense. A linha Natal-Macau estirão solitário de areias inúteis, com água rara, esteve despovoado, afora os breves oásis de coqueirais plantados na segunda metade do século XVIII em diante e que abrigaram povoações de pescadores, Genipabu (estrema do mapa de Marcgrav). Pitangui, Jacumã, Muriú, Maxaranguape, Caraúbas, Maracajaú, Touros, Olhos d’Agua, Santo Cristo, Reduto, Caiçara, Galinhos; Diogo Lopes, etc.

A IMPONENTE CASA GRANDE DA FAZENDA TRIGUEIRO

Fazenda Trigueiro em 2005. Fonte - http://www.flickr.com/photos/53023424

EXEMPLO ÙNICO DAS VELHAS CASAS DO SERTÃO – PEREIRO, CEARÁ

Autor – Rostand Medeiros

Quando estava realizando a pesquisa para a elaboração do meu livro “João Rufino-Um Visionário de Fé”, em uma ocasião tive de seguir para a região do Jaguaribe no Ceará, na tentativa de compreender as origens da família do homem que criou o grupo industrial de torrefação de café chamado Santa Clara/3Corações.

Seguia nesta viagem com os amigos Francisco Pessoa Sobrinho, mais conhecido em São Miguel como Mazinho e o Técnico da Emater Joaquim Rêgo.

Ao adentrarmos o Ceará pela área territorial da cidade de Pereiro, que se limita com São Miguel, seguimos pela sinuosa estrada CE-138. Em certo ponto fui informado que uma casa de fazenda, pintada na cor branca, de estilo moderno, era a Fazenda Campos, pertencente ao pecuarista Mardônio Diógenes, na época ainda vivo. Este homem ficaria marcado na história da região por um sério conflito entre famílias, ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980.

Lateral da grande casa

Quando mal começávamos a entabular um diálogo para que eu pudesse conhecer um pouco mais desta história, a nossa direita passou uma grande casa, que logo me chamou a atenção. Pelo aspecto, sem dúvida nenhuma era uma casa de fazenda bem antiga, mas que se mostrou bem conservada.

Surpreso, fui informado pelos meus companheiros de viagem que esta era a casa grande da propriedade Trigueiro, pertencente a família Diógenes e que a mesma era muito antiga, tendo sido erguida por escravos.

Guardei a informação para visitar o local em uma ocasião futura.

Período da Construção

Em abril de 2010, na época do lançamento do meu livro em São Miguel, quando tive oportunidade de passar vários dias naquela bela cidade serrana potiguar, decidi realizar uma visita a sede da Fazenda Trigueiro. Nesta ocasião, uma tarde de sábado, fui sozinho e, por não conhecer seus proprietários, não sabia se eles se interessariam de mostrar a sua residência para um estranho saído lá de Natal.

Parte frontal

Ao adentrar o pátio, a minha visão foi tomada pela grande altura da lateral da vetusta e imponente casa grande.  Certamente um dos poucos exemplares de sua época ainda de pé e sendo habitada por descendentes diretos da mesma família que construiu o local.

Do curral de gado saiu um cidadão de riso farto e semblante tranquilo, que me recebeu da melhor maneira possível. Este era José Dênis Vieira Diógenes, mais conhecido como Zé Dênis, que não colocou nenhum obstáculo em apresentar o velho casarão.

Em meio ao diálogo na grande mesa da sala de jantar, soube algumas interessantes informações daquele local preservado no tempo. Segundo Zé Dênis, a casa grande foi construída pelo seu antepassado Manoel Diógenes Maia e teria sido concluída em 1794, a 216 anos atrás. Toda a edificação foi realizada por escravos. Estes traziam a areia utilizada para a construção desde as margens do Rio Jaguaribe, distante da Fazenda Trigueiro 35 quilômetros. Consta que nesta época o proprietário possuía nada menos que 115 escravos.

Uma chave típica da parte interna do casarão

Um dado interessante é que a Fazenda Trigueiro foi edificada praticamente na mesma época em que a povoação que ficaria conhecida como Serra do Pereiro crescia.

Consta que em 1777 deu-se a chegada à região de Manoel Pereira e de sua família, atraídos pelas terras férteis propícias a agricultura, com inúmeras fontes naturais de água potável e clima agradável com chuvas regulares. As principais atividades econômicas que caracterizaram esta época era a plantação de milho, feijão e a criação de bovinos e esta produção seguia para o município vizinho de Icó. A área onde Manoel Pereira buscou para cuidar de sua família passa a ser conhecida primeiramente como Serra do Pereira, passando depois a Serra do Pereiro. Depois o lugar foi desmembrado de Icó e elevado à categoria de vila pela lei provincial nº 242, de 21 e outubro de 1842, com a denominação de Santos Cosme e Damião da Serra do Pereiro.

Uma das vistas da janela

Ao longo do século XIX houve na região o crescimento da plantação da cana e da produção de algodão. Ambos os produtos alcançaram altos índices de produtividade até a metade do século XX.  Consta que a rapadura produzida na serra do Pereiro era conhecida pela sua ótima qualidade

Imponência

No grande casarão de 38 cômodos e 45 portas e janelas, Zé Dênis narra que seu avô Napoleão Diógenes Paes Botão foi outro grande impulsionador do crescimento econômico da Fazenda Trigueiro e da região.

Napoleão Diógenes Paes Botão

Já seu pai, José Diógenes Maia, mais conhecido na região como “Coronel Zé Diógenes”, já falecido, foi político, mas deixou a atividade para se dedicar exclusivamente a agropecuária. Nesta área obteve muito sucesso, chegando a possuir quase trinta propriedades em várias localidades. Economicamente Zé Diógenes comandava a região que ia da fronteira com o Rio Grande do Norte até a localidade onde passa o Rio Figueiredo. Casado duas vezes, Zé Diógenes foi pai de quatorze filhos, sendo que o primeiro casamento, com a Senhora Tereza Dantas, trouxe ao mundo nove filhas.

Zé Diógenes, esposa e filhas

Mas voltando ao casarão, Zé Dênis não sabe dizer com exatidão se o telhado existente ainda é o original. Ele acredita que sim, em todo caso me apresentou uma pesada e grande telha, que lhe foi informado ser original do imóvel. É uma peça de uns 50 a 60 centímetros de comprimento, por uns 25 centímetros de diâmetros, com as marcas dos dedos de quem as fez, provavelmente a mais de duzentos anos.

Ele informa que a madeira existente no teto, linhas, ripas e escadas ou são originárias de pau d’arco, ou de aroeira, ou angico. Todas árvores nobres da flora nordestina, mas atualmente são praticamente extintas na região. Neste quesito ele não tem dúvida de afirmar que toda a madeira interna da casa é original, daquelas que “cupim não rói”. Já a madeira das pesadas e grossas ripas que compõem as portas e o assoalho do sótão são todas feitas de cedro.

Zé Dênis mostrando a largura das paredes externas da casa

O sótão da casa é um caso a parte de tão grande. Acaba sendo uma outra casa dentro da casa. No “olhômetro” eu nem me arrisco a dizer a metragem daquele enorme compartimento. Ali, segundo Zé Dênis, ficavam anteriormente os escravos. Depois do fim do regime de servidão, os Diógenes trouxeram para o sótão trabalhadores contratados e junto a estes viviam alguns homens que faziam a proteção da propriedade, os famosos “cabras” . Outra função do sótão era a guarda de grandes quantidades de produtos rurais em seis quartos, além de queijo.

Coisas do “Outro Mundo”

Desde o primeiro momento que vi a casa grande do Trigueiro, os amigos Mazinho e Joaquim Rêgo me falaram que na região se sabia que no lugar apareciam almas penadas, visagens, choros e barulhos sem motivo aparente. Durante meu período em São Miguel, se por acaso surgia em alguma conversa uma referência sobre coisas do “outro mundo”, era certo que as histórias da Fazenda Trigueiro entravam na conversa.

Sótão do casarão da Trigueiro

Durante a minha visita a casa Zé Dênis confirmou que os fatos eram reais e me passou algumas informações.

Não era raro os moradores ouvirem sons de instrumentos musicais sendo tocados, em “apresentações” que duravam horas. Ele comentou que os homens que faziam a proteção do lugar, gente disposta, que só andavam armados, se borravam de medo com estes fatos e não raro um desses “cabras machos” iam embora ligeirinho da fazenda. Zé Dênis me mostrou um dos cômodos da casa que, segundo contam, morreu no local de forma inexplicável uma pessoa que ali adentrou.

Local onde eram acondicionados os queijos produzidos na fazenda. As pequenas “meias luas” aqui mostradas, eram ali colocadas para evitar que ratos chegassem aos produtos

O negócio cresceu ao ponto de sua mãe, Delcides Vieira Diógenes, a segunda esposa de Zé Diógenes, ir procurar frei Damião de Bozano, em uma das ocasiões em que ele passou pela região serrana realizando uma de suas “Santas Missões”, lá pelos anos entre 1974 e 1976. O famoso frade capuchinho recebeu D. Delcides e então recomendou simpatias e missas para as “almas do outro mundo”. Logo a situação melhorou.

Uma das simpatias de frei Damião para afastar as aparições era derramar água benta em três cantos que ele indicasse na casa.

Orgulho e Luta

Outra visão do sótão da Fazenda Trigueiro. Uma grande estrutura em "L"

Zé Dênis e sua família tem um grande orgulho em viver neste local. Chama a atenção o nível de consciência que eles possuem sobre a importância da casa grande da Fazenda Trigueiro em termos históricos e sabem que locais como aquele são raros nos dias atuais. Eles se sentem muito bem em receber visitantes que desejam conhecer o bicentenário imóvel, principalmente alunos de universidades. Ocasionalmente a família Diógenes recebe visitas de membros de órgãos governamentais, que tem ideias de incluir a residência rural em roteiros turísticos. Mas na prática Zé Dênis e seus familiares não contam com a ajuda de ninguém para manter o histórico imóvel. Ele me informou que é uma luta manter uma casa tão grande.

A família sabe que, mesmo com toda a importância histórica e as características únicas da Fazenda Trigueiro, a burocracia brasileira é extremamente complicada quando o assunto é apoiar a manutenção de um imóvel privado. Mas Zé Dênis segue na esperança que possa ser dado a imponente casa um destino que seja positivo tanto para a família Diógenes, quanto ao imóvel, que possui inegável importância para a comunidade de Pereiro e o estado do Ceará.

Zé Dênis e seus familiares. Conciencia e orgulho em morar na Fazenda Trigueiro

Depois de fotografar o interior da casa fui embora tranquilo e feliz. Enfim, em um país com pouco mais de 500 anos de história pós descobrimento, não é todo dia que visito uma casa bicentenária, com tamanho peso histórico para a compreensão da vida privada da elite agrária sertaneja.

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