UM HOMEM CARREGA HÁ 40 ANOS O DESPREZO DE SUA CIDADE
Autor – Roberto Vilanova
Fonte – Jornal do Brasil – Caderno B – 11 de maio de 1977, página 5.
Maceió – Hoje é dia de feira na cidade de Piranhas, a quase 400 quilômetros da Capital de Alagoas. É o dia do encontro semanal, muitas vezes cara a cara, das duas mais sacrificadas testemunhas da morte de Lampião: o coiteiro que traiu o cangaceiro e o único sobrevivente da família dizimada por Corisco, numa vingança resultante de uma segunda perfídia do traidor.
Os dois não se falam. Por trás, acusam-se mutuamente de covardia e mentira. Se até hoje não explodiram em violência física um contra o outro, isso se deve a um trabalho de catequese das famílias tradicionais daquela cidade do alto sertão alagoano, principal cenário do planejamento da morte de Lampião, há 39 anos. O coiteiro é Joca Bernardo; o sobrevivente é José Silvino Ventura.
Jornalista Roberto Vilanova.
Só um milagre terá feito Silvino escapar das mãos de Corisco – o segundo homem do bando de Lampião – quando o cangaceiro veio se vingar da morte do chefe e “sangrou” seu pai, sua mãe e quatro irmãos. Ele era o mais novo: tinha seis anos, idade que provavelmente o salvou.
“Corisco chegou lá em casa quase às sete da noite. Meu pai, Domingos Silvino, não sabia de nada e o recebeu alegremente. Corisco foi logo dizendo: – Domingos, vim te matar. Você vai morrer com toda a sua raça, para nunca mais trair homem. Já sei que foi você quem traiu Lampião. O Joca Bernardo me contou tudo.“
Silvino não conta detalhes da chacina. Só diz que foi muito cruel ter de levar, em um saco, as cabeças de seus pais e irmãos para entregá-las, em Piranhas, ao tenente José Bezerra, comandante da tropa que exterminou Lampião e seu bando. Revela também, agora por ouvir dizer, como se deu o encontro de Joca Bernardo com o cangaceiro e como a polícia, orientada pelo coiteiro, chegou à Grota do Angico, onde Lampião e alguns de seus comparsas estavam escondidos e foram mortos.
Continua Silvino – Corisco encontrou-se com Joca Bernardo uma semana depois da morte de Lampião – Queria vingar o chefe. Bernardo disse que meu pai, que era vaqueiro do sogro do tenente Bezerra, tinha sido o delator.
Mapa de Alagoas, com destaque para a região dos acontecimentos.
Corisco reuniu seu estado-maior e resolveu decidir a sorte de Domingos Silvino. Conta-se que Dadá, mulher de Corisco, advogou a honestidade de Bernardo, tal a segurança com que ele sustentava a culpabilidade de Silvino.
Continua Silvino – Corisco acreditou porque o Bernardo armou tudo direitinho. Eu não sei se ele tinha queixas de meu pai. Eu era criança e não sabia de nada.
Nas consultas que fez a seu estado maior. Corisco alinhou três argumentos para condenar Domingos Silvino:
Lampião, Maria Bonita e parte do seu bando na escadaria da Prefeitura de Piranhas, Alagoas, 1938.
1) parecia difícil que o coiteiro Bernardo fosse inventar, sem mais nem menos, o nome de outra pessoa:
2) Domingos era vaqueiro na fazenda do Senhor Antônio Brito, sogro do tenente Bezerra;
3) o Tenente Bezerra comanda tropa policial na invasão do esconderijo de Angico.
O coiteiro traidor vive hoje de uma aposentadoria pelo Funrural. Tem uma casa de taipa, esburacada, e um burrico no qual vai a Piranhas nas quartas-feiras. Depois de ajeitar o cigarro de palha, molhando-o com saliva para fechá-lo adequadamente, ele concorda em falar.
O cangaceiro Corisco.
– É verdade que o senhor denunciou Domingos Silvino como o homem que traiu Lampião?
– Isso é história. Eu não faria uma coisa dessas.
– Mas senhor se encontrou com Corisco, não foi?
– Isso é verdade.
– Como se deu esse encontro?
José Bezerra.
– Eu tinha acabado de juntar o gado, aqui perto, em Entremontes, quando ele pulou na estrada, a fumaçar pelo nariz que nem um touro. Aí eu disse: “O que é que há, camarada?” Ele respondeu: “É verdade que mataram Lampião?”. Aí eu afirmei que tinha ouvido falar.
– Foi esse o diálogo?
– Só isso. Aí ele foi embora, me parece chorando.
Bernardo está cercado, os olhares são de desprezo. Ele está acostumado a ser olhado assim até por pessoas que combatiam veementemente o cangaço. Julgava ter contribuído para o sossego público em Piranhas, a cidade alagoana mais sobressaltada no tempo dos cangaceiros, que vinham repousar no até então inexpugnável esconderijo do Angico. Seu degredo começou quando não cumpriram a professa de pagamento pelo serviço prestado. Prometeram-lhe cinco contos de réis, mas só lhe deram pouco mais de um. Se tivesse aceito a patente de sargento da polícia alagoana, que lhe foi oferecida, estaria hoje na reserva remunerada da corporação, no posto de coronel.
– Quem lhe prometeu cinco contos de réis para trair Lampião?
– A polícia.
Belo Rio São Francisco – Foto Rostand Medeiros.
– Por que não aceitou a patente de sargento?
– Prá morrer de fome, prefiro ficar no sertão cuidando do gado. Eu tinha onze filhos. Um sargento de polícia ganha quanto? E ainda tem de viver aqui e acolá, por onde ordena o Governador. E eu só sei tratar de gado e plantar. Por isso, não aceitei.
Por não ter aceito a patente de sargento, Joca Bernardo perdeu a mulher e os 11 filhos, que lhe abandonaram. Segundo conta, a mulher fez muita força para que ele aceitasse as divisas. Quando viu que não conseguiria convencê-lo, forçou-o a uma decisão: aceitar a patente ou ficar sem mulher e sem filhos.
– Então o senhor preferiu perder a mulher e os meninos?
– Na minha casa quem manda sou eu. Não quer viver comigo? Então que se dane.
O desprezado Joca Bernardo na feira de Piranhas.
– Por que o senhor aceitou trair Lampião?
– Eu não trai Lampião. O que eu queria, na verdade, era que um coiteiro dele, Pedro de Cândido, levasse uma surra da polícia.
– O que teve a ver uma coisa com outra?
-O Pedro de Cândido sabia que eu fabricava queijos. Uma vez chegou em casa e me disse que compraria todos os queijos que eu fabricasse. Pudesse guardar que ele comprava tudo. No outro dia, lá vem ele atrás de queijo. Eu disse que não tinha. Ele olhou para uns queijos que eu ia entregar, de encomenda, e disse: “E esses aí, cabra safado, de quem são?” Respondi que eram do juiz de Pão de Açúcar e que não poderia vendê-los. Al ele disse: “Juiz coisa nenhuma”. E levou tudo.
-E dai?
1938 – Curiosos diante dos corpos dos cangaceiros.
– Fiquei com raiva. Logo arranjei um jeito de me vingar de Pedro. Descobri que os queijos eram para Lampião e seu bando. Aí procurei o Sargento Aniceto, em Piranhas, e disse a ele que não sabia onde estava Lampião, mas que ele apertasse o Pedro de Cândido que o Pedro diria tudo. Assim foi feito.
Pedro recebeu o aperte e disse onde Lampião estava. Acabou agraciado com as divisas de cabo da polícia alagoana, e, mais tarde, ganhou uma delegacia no sertão. No posto de delegado, foi assassinado.
Joca Bernardo estava, afinal, vingado. Silvino não quis vingança. Parece considerar que está se consuma toda quarta-feira, quando Joca Bernardo é hoje olhado com desprezo por todos os que estão na feira de Piranhas.
SEMANÁRIO DESAFIO, ALAGOAS – Antigo e extinto periódico de circulação semanal. Infelizmente não consegui a data em que foi publicada essa entrevista.
O prêmio máximo seria a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. No mínimo cinco contos de réis ou o seu equivalente hoje a Cr$50 mil. Em troca pedia-se a cabeça de um homem: Virgulino Ferreira — O Lampião — exaustivamente caçado pelas caatingas do sertão de vários Estados. Mas a pessoa que aceitou a oferta, o antigo coiteiro Joca Bernardo, recusou ser sargento. E declara, nessa reportagem de Roberto Vilanova, que nunca pensou trair Lampião, mas fazer outro coiteiro, Pedro de Cândido, levar uma surra da Polícia. Joca vive, hoje, no Piau, distrito de Piranhas, a mais de 320 Km de Maceió, com a aposentadoria do Funrural. Não gosta de falar sobre o assunto, mas teve de quebrar o silêncio porque carrega, nas costas, a responsabilidade pelo massacre de uma família, dizimada por Corisco por culpa sua.
Jornalista Roberto Vilanova.
A história não reservou para Joca Bernardo, quase 80 anos de idade, uma linha sequer. Mas é bem melhor assim, porque ele entrou para a história íntima do sertão como traidor de Virgulino Ferreira – o Lampião, e, talvez por arrependimento, recusou receber o prêmio maior pela delação: a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. Por causa disso sua esposa, desde essa época, lhe abandonou depois de argumentar e tentar convencê-lo de que não deveria jogar fora a sorte. Como jogou, ela preferiu ir embora para São Paulo no primeiro pau-de-arara que cortou as estradas secas do sertão, não lhe dando mais notícias.
A bela cidade de Piranhas, Alagoas, a margem do Rio São Francisco – Foto – Rostand Medeiros.
Mas não é fácil encontrar Joca, apesar dele viver discretamente no distrito do Piau, pertencente a Piranhas, a mais de 350 quilômetros de Maceió, porque o sertanejo é, também, antes e tudo, muito desconfiado. Aliás, a sua própria existência só é sabida por quem conhece a fundo a história de Lampião, como o presidente da ARENA (Aliança Renovadora Nacional) de Piranhas, Antônio Rodrigues, que lhe descobriu para essa reportagem.
Medo de Morrer
A troca de identidade, complementada pelos cumprimentos à mão estendida, durou pouco, mas Joca Bernardo mantinha-se olhando por baixo dos olhos, como se estivesse diante de um Tribunal. À pergunta se escondia com medo de morrer, respondeu que não. E explicou que era para evitar comentários que, na certa, iria lhe trazer recordações. E ele não desejava recordar as inconveniências naturais de um traidor.
Joca Bernardo em 1977 – Foto – Hélder Monteiro.
Nesse pé a conversa se expandiu e tomou gosto, porque se Joca se manteve, durante todo esse tempo calado, chega mesmo um momento, principalmente na sua idade, em que o peso da consciência rompe a barreira do silêncio que se impõe por conveniências. Silêncio que é quebrado também pelo conflito interno que Joca passou a viver logo depois da morte de Lampião. Não porque traiu o bandido, mas porque, para escapar da morte que Corisco espalhou como vingança, acabou delatando um inocente.
Ou seja, disse a Corisco, com quem se encontrou mais tarde, que o vaqueiro Domingos Silvino, empregado do sogro do tenente Bezerra, é quem havia delatado Lampião à polícia. Corisco foi à casa de Josias e matou ele, a mulher, uma visita, três filhos e deixou vivo apenas o de menor idade, Antônio Silvino, que mora hoje em Piranhas e não quer ver Joca na sua frente. Foi o próprio Antônio Silvino quem relatou o massacre aos seus familiares e, conforme Corisco disse a seu pai, Joca é o único responsável.
A casa extremada era a residência do tenente José Bezerra, para onde a criança Silvino Ventura trouxe as cabeças ensanguentadas de seus familiares dentro de um caçuá, transportado por um animal – Foto -Rostand Medeiros.
Silvino falou que um dos cangaceiros chegou a puxar o punhal para matá-lo, mas Corisco o conteve. Nessa época Antônio tinha seis anos de idade e recebeu a missão de conduzir um burro com as cabeças de toda a sua família, que deveria ser entregue ao tenente Bezerra em Piranhas, com um bilhete atrevido. “Quando eu passei pelas ruas de Piranhas era dia de feira. O Corisco juntou as cabeças dentro de um caçuá e mandou eu tanger o burro. Nas ruas o povo pensava que o sangue que escorria era carne de boi. E quando eu parei na porta do tenente Bezerra foi que juntou gente”, conta Silvino.
Nega Tudo
Joca Bernardo nega a delação ao vaqueiro Domingos Silvino, mas confirma que se encontrou com Corisco. Até o seu relato do encontro – surpresa e, até mesmo, as circunstâncias dele, Joca parece não mentir. Mas na reprodução do diálogo ele acaba revelando uma certa frieza:
Silvino Ventura tinha seis anos de idade quando viu sua família ser covardemente trucidada pelo famigerado Corisco na Fazenda Patos e foi obrigado a transportar em um animal as cabeças cortadas de seus familiares para a casa do tenente José Bezerra, em Piranhas. Faleceu de um acidente em Piranhas, no dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos de idade – Foto – Hélder Monteiro..
“Eu estava juntando o gado quando o Corisco pulou de cima de um lajedo. O Corisco e mais uns cinco cabras, inclusive a Dadá, que foi a minha salvação. Aí o Corisco falou se era verdade que tinham matado Lampião? Eu respondi que ouvi dizer. Aí ele disse: vou matar muita gente para vingar a morte. E vou começar logo por você. Aí a Dadá disse – “óxente, home. Que história é essa? A gente mata quem tem culpa, inocente não”.
A História é bem diferente, segundo conta o Senhor Antônio Rodrigues, de tradicional família de Piranhas e político influente na região.
Ruínas da propriedade Patos, onde a família Ventura foi trucidada – Foto – Rostand Medeiros.
“Corisco soube que Joca havia traído Lampião e foi procurá-lo. No encontro, disse que ia matá-lo e Joca, com medo, falou que se morresse seria inocente. E lamentou que tivesse servido de coiteiro para Lampião e, agora, qual o pagamento que recebia?”.
Corisco titubeou, principalmente diante da interferência de Dadá, e resolveu tirar a história a limpo. Foi então que Joca Bernardo lembrou, maliciosamente, “onde Lampião teria passado antes de ir para Angico”, seu até então inexpugnável esconderijo.
Corisco
Lampião, antes de atravessar o rio São Francisco, passou na fazenda do sogro do tenente Bezerra (o fazendeiro Antônio Brito). Com isso, Joca quis insinuar que o vaqueiro Domingos Silvino Ventura, sempre à disposição para cumprir ordens e fazer recado do bando, teria denunciado os planos de Lampião de se alojar em Angico por alguns dias.
A verdade é que Corisco aceitou a justificativa, se não teria evitado o massacre da família Silvino Ventura, de quem sobrou, a propósito, apenas Antônio Silvino, o filho mais novo na época.
Foto – Rostand Medeiros.
Traição a Lampião
Na verdade, Joca Bernardo não tinha nada contra Lampião – a quem ajudava, na medida do possível, para poder ir levando a vida sem ser molestado pelo seu bando. Se bem que tivesse de enfrentar as inconveniências da polícia que sempre se confundia, pelas arbitrariedades cometidas, com os cangaceiros, muitas vezes praticando horrores em nome da Lei, que a bem da verdade era material, porque estava simbolizada na mira de um fuzil “bem azeitado e municiado”.
Assim, dentro do possível ou de acordo com os conformes, Joca e tantos outros coiteiros se prestavam ao serviço de acoitar Lampião e seu bando porque não tinha mesmo escolha. E entre ser morto pelos cangaceiros ou pela polícia, o que no fundo dá no mesmo, era preferível morrer tentando ser fiel a Deus e ao diabo, mesmo sem saber quem era quem. Ou seja, quem era Deus e quem era o diabo.
Pedro de Cândido
Mas como a miséria só quer começo, um dos maiores coiteiros de Lampião, Pedro de Cândido – que ninguém duvidava da sua ligação com Lampião e vivia imune em Piranhas – foi comprar queijo que Joca fabricava no dia em que os cangaceiros se arrancharam em Angico. E apesar de Pedro sempre levar dinheiro suficiente dado por Lampião, acabava usurpando o chefe e não pagava as mercadorias, o que criava, naturalmente, um clima de animosidade não só para ele, como para o bando.
Tiro Fatal
Naquele dia, porém, Pedro de Cândido, inadvertidamente, engatilhou a arma que desfechou em Lampião o tiro fatal.
Utilizando-se da fama de valente, talvez imposta pela condição de coiteiro chefe de Lampião, Pedro bateu à casa de Joca Bernardo para comprar “todos os que queijos que tivesse na hora ou a fazer durante os próximos 15 dias”, que era o tempo de descanso dos cangaceiros.
Manchete do jornal natalense A República sobre a morte de Lampião.
Joca respondeu que tinha uma encomenda de queijo do juiz da cidade de Pão de Açúcar e não podia ceder o volume que já se encontrava pronto. O argumento não foi levado em consideração, porque Pedro de Cândido retrucou abusado:
“Cabra safado, eu estou pedindo o queijo e não quero saber de história. Vou levar tudo agorinha mesmo”, recordou Joca.
Apesar de se saber que Pedro era coiteiro de Lampião, Joca ainda duvidou para quem seria tamanho carregamento de queijo. Até que descobriu:
“Eu pensei assim” – conta ele – “o Pedro não negocia e se quer tanto queijo só pode ser pra muita gente. Se é para muita gente, Lampião tá por aqui.”
Manchete do jornal natalense A República sobre a morte de Lampião.
Joca não reagiu e Pedro de Cândido levou todo o carregamento de queijo que havia sido encomendado pelo juiz de Pão de Açúcar. Mas naquele mesmo dia o sargento Aniceto foi informado da situação. Ele tinha ficado em Piranhas, enquanto o coronel Lucena, o tenente Bezerra e o aspirante Chico Ferreira saíram em diligência atrás de Lampião na localidade de Pedra, atual município alagoano de Delmiro Gouveia. O relato ainda é de Joca:
“Eu fui procurar o tenente Bezerra, mas ele não estava. Encontrei o sargento Aniceto, que me perguntou se sabia sobre algo, e lhe contei: sargento, eu não sei o que o senhor quer, mas se o senhor quiser saber onde Lampião tá escondido, aperta o Pedro de Cândido que ele diz. Agora só digo uma coisa ao senhor: Lampião está aqui por perto e não veio com pouca gente não. Têm uns 100 homens com ele. E contei também o caso dos queijos que o Pedro me tomou.”
A partir daquele momento começou a contagem regressiva da vida de Lampião e seu bando.
Mas como o próprio Joca admite a delação não tinha a intenção de trair Lampião porque, do jeito que até hoje alguém afirma que o cangaceiro não morreu, naquele tempo acreditava-se na sua imortalidade, pelo menos à bala ou à faca. Joca desejava que Pedro levasse uma surra através do “aperto” da polícia, e não admitia que a polícia desse fim a Lampião, porque o bandido sempre escapava aos cercos ilesos. Mas não foi assim que aconteceu: o cangaceiro morreu mesmo.
Recusa
O sargento Aniceto se encarregou de assegurar junto ao tenente Bezerra e ao coronel Lucena o trabalho decisivo de Joca Bernardo, ajudando à Polícia. Aí os dois oficiais chamaram Joca a Piranhas e anunciaram o prêmio: cinco contos de réis e a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas, que lhe seria dada pelo Governo do Estado.
Sargento José Bezerra.
Joca recusou as divisas e aceitou apenas o dinheiro, que acabou não recebendo em toda sua totalidade.
“Eu acho que o Governador mandou o dinheiro todo, mas o portador ficou com um pedaço. Eu só recebi um conto de réis”, relembra.
Ele recusou as divisas de sargento, porque teria de vir morar em Maceió e um sargento naquela época não ganhava suficiente para sustentar uma família. Então Joca preferiu continuar tangendo gado e fazendo queijo, sem pagar aluguel de casa e sem ter outros gastos que naturalmente teria de assumir se mudasse de cidade e de vida.
Entrada na propriedade Patos. – Foto – Rostand Medeiros.
Mas sua mulher não aceitou a argumentação e como não pôde fazê-lo receber a patente, preferiu abandonar a casa. Foi morar em São Paulo. Por ironia, quem recebeu as divisas foi o Pedro de Cândido.
Joca, que pensava em se vingar da sua violência, não só proporcionou a Pedro sua reaproximação com as autoridades de Piranhas e de Alagoas, como lhe deu a própria chance de ser autoridade, porque logo em seguida foi incorporado à polícia como sargento e nomeado delegado no sertão. E morreu assassinado por culpa, ao que se sabe, de seus dotes de “Dom Juan”, sem que lhe respeitassem, ao menos, a posição de delegado.
Bela região do Rio São Francisco – Foto – Ricardo Trigueiro Morais.
Joca amargou a fama de traidor – na verdade o traidor é ele mesmo e se não fosse a aposentadoria do Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural), engordada pelo frete que consegue tangendo um burro carregado de água, estaria na miséria.
Sequer Joca conseguiu o intento de fazer Pedro de Cândido levar uma surra dos policiais, porque este ao ser preso não reagiu e nem criou maiores dificuldades para contar aonde era o esconderijo de Lampião.
Introdução – Na época dessa reportagem da revista O Cruzeiro, o Coronel Chico Romão, de Serrita Pernambuco, foi acusado de ser o mentor intelectual de um crime ocorrido em Recife, de extrema repercussão, inclusive a nível nacional, conhecido como “Crime de Apipucos”. Chico Romão se encontrava foragido quando o jornalista da revista esteve nessa cidade.
SERRITA, IMPÉRIO AUTOCRÁTICO DO CORONEL CHICO ROMÃO
Revista O Cruzeiro – 1 de março de 1952. Texto: Neiva Moreira. Fotos: Utaro Kanai.
Um município onde só uma vontade predomina e atua – Quando o juiz tentou ficar neutro, teve de imigrar sem um copo d’água para beber ou um amigo para falar A pitoresca figura desse mandachuva da caatinga, que é, ao mesmo tempo, a sociedade e a lei – Braços do feudo chegam ao Ceará – Desaparecido, o coronel é uma presença invisível naquela cidadezinha traumatizada.
A Vila Maria, o “castelo” do Coronel Chico Romão, de onde ele comandava seu verdadeiro feudo chamado Serrita.
– SENHOR vai mesmo à Serrita? Perguntavam, inquietas as pessoas, desde que o nosso automóvel começou rodar para Salgueiro, deixando para trás o São Francisco.
De Feira de Santana até lá, passando por Serrinha, Euclides da Cunha, Tucano, Canudos, Jatinan[1], e em todo o percurso da rodovia central de Pernambuco, de Salgueiro, Serra Talhada, Arcoverde, Pesqueira, Caruaru ao Recife, Serrita é um nome mágico que empolga a imaginação e alimenta fantasias. Inúmeras vezes nos detivemos ao longo dos caminhos, sob aquele sol inclemente da caatinga nordestina, para ouvir histórias daquele espantoso reduto de um poder pessoal que não encontra paralelo em qualquer parte deste país.
Nos dias atuais, o nome de Serrita ligado ao de Chico Romão é uma espécie de “background” de um dos crimes que mais emocionaram o nordeste. Mas, antes mesmo que aquele “comando” do cangaço se abastasse do sertão para um ajuste de contas sangrento e odioso em pleno coração do Recife, não havia pernambucano, letrado, que não se tivesse debruçado sobre os mapas para indicar naquela localidade perdida nas distâncias, mundo fabuloso que nasceu, cresce, progride, se rejubila ou sofre sob o império de uma só vontade e ao sopro de uma única inspiração.
Vila Maria em janeiro de 2025.
Em várias eleições, Serrita foi o desespero da oposição, e, sobre as urnas invioláveis de Chico Romão, repousou Agamenon[2], na certeza de que funcionara como um maquinismo de precisão, aquele eleitorado monotonamente uniforme e disciplinado. Mais do que isso: mesmo quando as divisões partidárias levaram ramos mais inquietos do clã a uma atitude destoante no campo político, era aquela numa esfera distante que não tocava a liderança indiscutível desse caudilho da caatinga, em cuja cintura nunca se viu um revólver e nem uma daquelas clássicas peixeiras que as ocasiões fazem brotar por encanto, nos ajustes de contas das estradas ermas.
CHICO FAZ O SEU MUNDO
Até parece que o mundo de Chico Romão começa ali em Salgueiro, naquela esquina movimentada do Nordeste, símbolo dessa civilização sobre rodas que está invadindo o interior.
Chico Romão em Recife.
O arrendatário do hotel nos diz que é ele uma propriedade de uma irmã de Chico e mesmo em frente, está à mercearia de Filinto Sampaio, seu irmão.
Durante muitos anos, o coronel fez política em Salgueiro, mas o que ele queria era o seu próprio feudo, onde uma vontade autocrática exercesse sem contraste, o seu domínio. Foi assim que nasceu Serrinha, um distrito municipal, enfiado num fundo de montanhas e que se isola do mundo no inverno inteiro pela precariedade do seu ramal rodoviário.
Quando se fez a revisão dos nomes dos municípios constou que o técnico em nomenclatura municipal, Mario Melo tinha um para lhe impor, como tantos outros que nos fizeram desaprender corografia, em 24 horas. Chico preveniu que a mudança deveria fica mesmo em duas (2) letras, pois nunca consentiria numa transformação, que fosse além de sua atual denominação de Serrita e assim se fez.
Aspecto em janeiro de 2025da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.
A localidade é pequena e parece sempre dormindo, como lembrou certa vez o deputado e sociólogo pernambucano Luiz Magalhães Melo. A trinta quilômetros de Salgueiro, poucos se animam em ir até lá. No conjunto, dá-nos uma ideia de asseio e até de cuidados administrativos. Os prédios públicos são confortáveis, há luz, a água e boa, o mercado amplo, uma igreja bem tratada e um grupo escolar que é uma contrafação de estilo moderno meio despropositado e sem ambiente.
O grupo velho é, hoje, o hotel que mestre José afilhado e leal amigo de Chico administra, “mais para agradar o padrinho e completar a féria da carceragem”, por ele até a pouco exercida, segundo nos confessa, enquanto nos conta a história do retrato do velho por cuja reposição ostensiva teve de sustentar discussões com os policiais.
Soldados da polícia pernambucana circulando pelas ruas de Serrita na época do “Crime de Apipucos”.
PRESENÇA INVISÍVEL, MAS ATUANTE.
Parecia que encontrávamos no hotel o primeiro sintoma da posse. Já, antes, no entanto, nas luzes que brilhavam havia a marca da propriedade do Coronel e, dali, para diante, até o ar estava impregnado daquela presença invisível, mas atuante. No rádio do automóvel, ouvíramos a notícia de que a polícia cercara Serrita. Evadido Chico Romão, grande tem sido o empenho dos policiais em lhe deitar a mão. Toda a zona Sampaio, que compreende áreas entre Salgueiro, Serrita, Bodocó e Exú esta sob vigilância severa e intensas investigações e buscas se efetivaram logo em seguida ao mandado de prisão. De Exu, o Major Presciliano Pereira de Morais dirige a operação de busca, assistido, naquele comando, pelo Tenente Olímpio Correia dos Santos. Em Bodocó, está o Tenente Propecio, em Salgueiro, o Sargento Waldomiro e, em Serrita, o suave e jeitoso Tenente José Gonçalves Lopes, com um destacamento de trinta praças, veículos e uma estação de rádio portátil que o coloca em comunicação permanente com a Secretaria de Segurança no Recife.
Em 1952, Antônio de Sá Sampaio, primo de Chico Romão, era o líder da |UDN em Serrita.
Os parentes de Chico atribuem à nomeação do Major a amenização das medidas coercitivas que o Tenente Lopes teria tomado a sua chegada. Penetrando numa cidade em que só da Chico, não havia policial, por mais suave que fosse que não tomasse medidas de segurança, tanto mais que devia ele prender um homem que, para o comum dos sertanejos, é um ente inviolável e inatingível. Foi esse o argumento com que o Tenente Lopes explicou a sua conduta.
– O senhor avalia – diz-nos ele – o que é estar aqui para uma tarefa dessas. Não encontro uma só pessoa que preste depoimento num inquérito sobre o Coronel Romão. É um cerco inverso que a população exerce sobre nós.
A HISTÓRIA DO JUIZ QUE NÃO BEBIA E NEM CONVERSAVA
Na verdade, o tenente queria muito. Não sabia ele da história daquele juiz de direito, que, desentendido com o Coronel, teve de imigrar para Salgueiro, sem encontrar uma só pessoa que lhe abrigasse o juizado, lhe desse água para beber e o consolo de uma palavra para suavizar a solidão. Vinha da outra cidade para trabalho, com o frito nos alforjes e as garrafas d’água, voltando tão pronto ultimasse as audiências.
Dona Maroca, esposa de Chico Romão, e seu filho Francisco Sampaio Filho.
Encontramos Serrita num estado de espírito de profunda consternação. Chamo pessoas a esmo, nas ruas, e todas suspiram pela volta do velho numa revivescência agreste do queremismo. Ninguém fala sobre o crime e os poucos que se aventuram para opinar são para dizer que Chico é inocente, “mas se é que ele fez, tinha razão, pois tudo que faz, está bem feito”. Quase nem ousamos pedir informes a seu respeito, para não incorrer na violação do código de segurança que protege o desaparecimento do chefe.
Esmerino Sampaio nos informou que muitas famílias se mudaram e outras estão no interior. A feira, que assistimos, foi fraca, mas não de todo inoperante. E a impressão que a polícia nos dava era a de que cansara de esperar pelo regresso de Chico. O Tenente Lopes engordou onze quilos e queixa-se muito dos queijos de Serrita e de um leite que tem fama de pureza e de proteínas. Na rua, os soldados começam a quebrar a ordem de não confraternizar, mesmo porque quem resiste um mês sem um bate-papo tão ao agrado de policiais destacados? Um deles está popular. Esbelto, bem apresentado, consciente de sua tarefa, não entra na intimidade de Serrita. Por isso mesmo, ganhou um apelido de “Simpatia”, que muitas pessoas nos pediram entendesse pelo método vice-versa.
Vizinho a Vila Maria vemos o prédio da Câmara de Vereadores de Serrita e do Centro Cultural Mansueto de Lavor.
DANÇA QUADRILHA, NÃO USA LINHO, FALA POUCO E QUASE NÃO RI
Francisco Filgueira Sampaio, que incorporou ao apelido de Chico Romão o nome do pai, é o centro desse mundo à parte, o qual a maioria das pessoas não teve notícia da bomba atômica e, para tantas outras não há informações exatas sobre o fim da Segunda Guerra.
As estatísticas mais rigorosas que o mano José Romão nos fornece, dá vinte irmãos vivos, além de quatro mortos, e cerca de seiscentos sobrinhos, sem falar num aguerrido regimento de primos e parentes afins ou colaterais.
Aos 64 anos, casado com Dona Maroca (Maria Maia Arrais Sampaio), é, ele próprio cearense de Barbalha, enquanto a esposa nos conta, com orgulho, que veio criança do Piauí fazendo lastro numa carga de jumentos. O único filho homem que tem, Francisco Sampaio Filho é comerciante, tendo desistido, cedo, dos estudos, desinteressado igualmente da carreira política. O casal tem sete filhas, sendo duas casadas e quase todas professoras, educadas em Triunfo para não se distanciar muito da terra. Os casamentos, quase sempre ocorrem entre primos e, no estado atual, teríamos que recorrer a operações holeríticas para precisar graus de parentescos. Um primo nos disse: “Nós, aqui, casamos por edital. O velho é quem ajeita tudo e indica a noiva”.
Segundo a reportagem da revista O Cruzeiro essas tres jovens eram Terezinha, Neuza e Letice, filhas mais novas de Chico Romão, que rezavam pelo retorno do pai.
Baixo, alvo, meio ruivo com traços holandeses no aspecto, Chico Romão tem hábitos rijamente sertanejos. Deita cedo e as quatro horas está de pé para o café que compreende, pão de milho com leite. Dirige suas cinco fábricas de caroá, três engenhos e cerca de oito fazendas e está sempre à frente dos negócios próprios e dos do município, do qual é prefeito. É um homem que fala pouco e tem fama de não repetir uma declaração duas vezes. Quase não ri, mas no dia de festa, dança de sobrolho fechado, uma quadrilha da qual participam as suas filhas.
Suas viagens são, de raro em raro ao Recife e ai se hospeda em pensões baratíssimas, porque considera o Grande Hotel incompatível com a maneira de viver dos homens do interior. Nos círculos de suas relações, não há noticia de que tenha visto com roupa de linho ou de casimira. É sempre aquele brim de carregação, tipicamente interior.
Retrato do Coronel Romão Pereira Filgueira Sampaio, pai de Chico Romão.
Nosso confrade Gomes Maranhão que faz, agora, manchetes na Secretaria de Agricultura, com tratores e algodão, rememora as vezes que Chico esteve em sua repartição para pleitear coisas para Serrita. Homem precavido, sua infiltração maior foi na política, onde empregava afilhados, amigos e até parentes. Um detalhe curioso é que não é ele filho legítimo do casal, mas se impôs desde cedo, como a figura dominante da família e todos fazem questão de olvidar a circunstância. Em Serrita é magistrado, executivo, legislativo e juiz de paz.
Pilheria-se que o padre da freguesia dava a absolvição, “em nome do Coronel Chico” e sua senhora se queixa de que boa parte das noites foi roubada das amenidades do lar para que fosse ele pacificar esposos desavindos em distritos distantes.
Antigo prédio da Prefeitura de Serrita, hoje demolido.
Certa vez no Recife, um amigo, que desertara da polícia, pediu a colaboração de Chico na tarefa de fazer um casamento que o responsável sonegara de realizar. O Coronel mandou chamar “aquele pilantrinha” e nem precisou muitos esforços: Moço você não quer casar amanhã? O rapaz rapidamente convertido ás leis morais do matrimônio, não teve outra resposta: “Quero, sim, senhor…” E Chico testemunhava vinte quatro horas depois mais uma união que se iniciara, ilegalmente, nos desvios dos comandos ilícitos.
OS BRAÇOS DO FEUDO ABRAÇAM O CARIRI
Seu domínio espiritual vai até o lado cearense do cariri, onde o Deputado Federal Leal Sampaio é figura dominante. No Recife, Cid e Leal Sampaio são seus parentes, e o Brigadeiro Macedo[3] como o Coronel Sampson, são primos próximos. Nertan Macedo[4], seu sobrinho, inquieto e fértil repórter associado que o asfalto do Recife não conseguia “civilizar” de todo, nos conta que a atração da terra sobre a família é tão grande, que o Brigadeiro, reformado da FAB, cria bois em Quixeramobim e nunca perdeu as comunicações com Serrita. Essa história de partido, para Chico, é secundária, o que vale e reter o domínio e ser leal aos amigos.
Placa com o nome da rua que homenageava o pai de Chico Romão em 1952 e que ainda existe. Inclusive o Coronel Chico Romão batiza na atualidade a pricipal artéria de Serrita.
Em Bodocó, seu irmão José chefia o PTB[5] e quando nós pedimos que nos apresentem aos udenistas[6] de Serrita, quem nos aparece, Chico até debaixo d’água, são primos do Coronel, que, de logo, confessam que a “eterna vigilância” cedera, agora, lugar a defesa do clã ameaçado.
Ninguém resiste à atração natural de amparar parentes, mas na escala de Serrita, não deve haver algo parecido no Brasil. A única autoridade não Romão foi o Promotor Manoel Ozório, e agora, os policiais retirados, aqueles que o crime de Apipucos que encontrou nos seus postos. Vejamos essa lista realmente sensacional: Prefeito Chico Romão, licenciado por um ano; Presidente da Câmara e prefeito em exercício, José Xavier Sampaio, genro; Coletor Estadual, Antônio de Oliveira Sampaio, sobrinho; Escrivão, Walter Cruz Sampaio, sobrinho; Diretora do grupo, Maria Lima Sampaio Xavier, sendo outra, professora; Agente de Correio, Laura Filgueira Sampaio, irmã; Agente de Estatística, Vadeci da Franca Sampaio, sobrinho; Tabelião, Otávio Angelim, casado com uma sobrinha; Chefes da UDN[7], os primos e sobrinhos: Romão da Cruz Sampaio, Caraciole Filgueira Sampaio, Antonio Sá Sampaio.
Um ardoroso jovem de Missão Velha, e sobrinho Wilson Sampaio, que Edith Lucena recorda como um dos que atirou em seu irmão Edmilson, nos diz, com convicção: “Para mudar isso aqui, o governador deve começar, primeiro, trazendo gente de fora. Aqui mesmo só dá Sampaio”. O trabalhista José Romão, que perdeu um irmão trocando tiros com adversários na praça pública de Bodocó, acrescenta visivelmente orgulhoso: “Não somos um Estado, como dizem ai pelo Recife, mas na verdade, constituímos um poder para todas as épocas”. Onde houver um Sampaio, Chico conta com um leal amigo, pronto a tudo”. Vários outros bateram no peito de que atirarão até na lua, se Chico mandar, e mensagens semelhantes estão chegando de outros municípios até onde vão às influências da família.
SERRITA OLHA PARA AS GALERIAS DA ASSEMBLÉIA
Serrita é isto. Vida, agonia e paixão de Chico. O bloco Sampaio acredita-se com um eleitorado de 10 mil votos e ramificações extensas em outros “colégios”. Todos se mostram muito ressentidos com o governador. Um primo de Esmerino nos indica os filhinhos gêmeos desse deputado e herdeiro presuntivo de Chico e nos conta: “O Otávio Correia queria que o Esmerino desse os nomes de Agamenon e Etelvino. Veja que contrariedade não estaríamos nós, agora, pelo menos na metade”.
Vaqueiros encourados da região de Serrita – Foto – Álvaro Severo.
É possível que o governador chame de novo Serrita ao aprisco. Mas isso terá que ser feito via Chico Romão. De outro modo, deve haver uma recolonização intensa. Mas poderá fazê-lo? Esmerino Sampaio mostra-se muito atento às galerias da Assembleia. “A opinião do Recife está mudando, informa ele: Já recebemos palmas, quando defendemos Chico”.
Na verdade, a esta altura, dificilmente se separará Serrita do crime de Apipucos. Mais ainda: apesar de aparente suavidade do domínio, é um sistema feudal que encontra a repugnância nas camadas populares do Recife. Por outro lado, a extensão e a profundidade daquele império familiar trazem para a ordem do dia o problema que procuraremos abordar na reportagem seguinte: poderá o Coronel Roberto de Pessoa levar a bom termo a sua tarefa? A conjugação do esforço policial, dos aviões e das estradas, derrotará os coronéis ou lhes imporá novos métodos de liderança municipal?
Vamos ver isso. Para começo de conversa, o simples fato de que o poderoso caudilho de Serrita foi envolvido em investigações sobre um crime fez deflagrar uma crise política, que contornada agora, será um rastilho quando as definições forem mais oportunas e cômodas. O Deputado João Roma insiste: há uma injustiça em tudo isso porque Chico é inocente.
O Governador Agamenon Magalhães reúne três condições para fazer um juízo exato da situação – é um homem de Estado, um sociólogo e um jornalista. Ele sabe que o crime de Apipucos pode ser o começo de uma reforma política e de métodos, jogando por terra uma estrutura solidamente instaurada em Pernambuco. Para os coronéis, muitos dos quais desfilarão impressões na reportagem futura, é este um tema fascinante, que a sua comunidade encara com uma rara consciência de classe e uma aguda atenção aos movimentos da ofensiva deflagrada por aquele “servicinho mal feito” de Apipucos, como o consideram alguns caudilhos do agreste e do sertão.
NOTAS – ———————————————————————-
[1] Atual município pernambucano de Belém de São Francisco.
[2] Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães (Serra Talhada, 5 de novembro de 1893 — Recife, 24 de agosto de 1952) foi um promotor de direito, geógrafo, professor (de Geografia) e político brasileiro; deputado estadual (1918), federal (1924, 1928, 1932, 1945), governador de estado (1937, 1950) e ministro (Trabalho e Justiça).
[3] José Sampaio de Macedo (Crato, 17 de outubro de 1907 — Fortaleza, 14 de fevereiro de 1992) também conhecido como Zé do Crato ou Sertanejo da FAB foi um major-brigadeiro do ar da Força Aérea Brasileira, piloto militar, empresário, desbravador e pioneiro da aviação brasileira.
[4] Nertan Macêdo de Alcântara (Crato, 20 de maio de 1929 — Rio de Janeiro, 30 de agosto de 1989), foi um escritor com obras dedicadas aos aspectos culturais e históricos do Nordeste brasileiro.
[6] Como eram conhecidos os membros do partido UDN.
[7] A UDN – União Democrática Nacional foi um partido político brasileiro, fundado em 1945, de orientação conservadora e frontalmente opositor às políticas e à figura de Getúlio Vargas. Era um partido conhecido por sua defesa da democracia, do liberalismo clássico, da moralidade e pela forte oposição ao populismo. Além disso, algumas de suas bandeiras eram a abertura econômica para o capital estrangeiro, a valorização da educação pública e a austeridade econômica. Detinha forte apoio das classes médias urbanas e de alguns setores da elite, pela posição favorável às influências do imperialismo americano no Brasil. Concorreu às eleições presidenciais de 1945, 1950 e 1955, postulando o brigadeiro Eduardo Gomes nas duas primeiras e o general Juarez Távora na última, perdendo nas três ocasiões. Em 1960, apoiou Jânio Quadros (que não era filiado à UDN), obtendo assim uma vitória histórica. Seu principal rival nas urnas era o Partido Social Democrático (PSD). Como todos os demais partidos, a UDN foi extinta pela ditadura militar em 27 de outubro de 1965.
Luís da Câmara Cascudo – Publicado originalmente no livro HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE, Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1955. 1ª EDIÇÃO, Capítulo XIII, páginas 307 a 312.
A primeira estrada conhecida no Rio Grande do Norte e, durante séculos, a mais trilhada, foi pelo litoral, beirando quase o mar, rumo da Paraíba. Os colonizadores vieram pelo Atlântico, mas a parte da tropa que devia vir por via terrestre recuou na baía da Traição ante a peste de bexigas. Mascarenhas Homem, fundador do Forte dos Reis Magos, regressou por terra. Esse primeiro caminho teve, no correr da guerra contra os indígenas no final do século XVII, uma série de casas fortes, protegendo o trânsito que seria relativamente vultoso. Vinha-se pela baía da Traição ou Mamanguape, Tamatanduba, Cunhaú, Goianinha, Guaraíras (Arês), Mipibu, Potengi, Utinga, ou seguindo o vale do Cajupiranga, diretamente a Natal. A jornada para o interior ia até o vale do Ceará Mirim, limite do conhecimento geográfico, útil até mesmo depois da expulsão do holandês em 1654.
Fortaleza dos Reis Magos no período colonial
Quando o mestre de campo Luís Barbalho Bezerra realizou a famosa contramarcha de fevereiro-maio de 1640, calcou a estrada já histórica. O genealogista Pedro Taques diz ter sido o desembarque a 7 de fevereiro no porto de Aguaçu, topônimo desaparecido, junto ou nos arredores da atual cidade de Touros. Em nomeações reais encontro baixios de São Roque. O caso é que Barbalho Bezerra veio até o Potengi, quase vendo Natal ou vendo, onde se bateu, derrotou e aprisionou Joris Gartsman, capitão flamengo do Reis Magos, e o conduziu para a cidade do Salvador. De Cunhaú é que o mestre-de-campo escreveu ao conde de Nassau pedindo passagem. Encontramos sua espada vencendo Alexandre Picard em Goiana. Era a trilha secular para ó sul, Natal, vale do Cajupiranga, vale do Capió, Cunhaú, rio Guaju para a Paraíba e daí para Pernambuco, por Mamanguape e Goiana como ainda nos nossos dias é a maior rodovia interestadual.
Riacho seco no Vale do Cafundó, zona rural da cidade pernambucana de Flores, Região do Pajeú. No passado essas eram as primeiras estradas da ocupação do interior do Nordeste. – Foto de Alex Gomes.
A repressão oficial à revolta da indiaria provocou o alargamento das fronteiras corográficas. Antônio de Albuquerque Câmara bate-se em 1688 nas cabeceiras do rio Açu e entre as serras do João do Vale e Santana do Matos. A revolta abrangia as ribeiras do Açu e Jaguaribe. A zona teve de ser batida e trespassada pelas colunas militares. Nesse 1688 os paulistas vieram ajudar a corrigir a indiada e se encontraram, vindos da Paraíba, com Albuquerque Câmara que se batia no baixo Açu. Domingos Jorge Velho viera de seus currais do São Francisco, por terra e mergulhara pelo boqueirão de Parelhas, no chamado “Sertão de Acauã”, que enrolava serras e capoeirões desde os atuais Jardim do Seridó até Currais Novos. Toda essa região, Focinho dos Picos, Picuí, Caiçara e Bico da Arara, até roçar o rio Acauã, era terra do gentio da nação Canindé e Janduí (Cariri) que se alargava por Quacari, Quimbico, Quintururé, Umvibico, Amoré, Onaxi, Acinum, Quindê, Arari, Jucurutu até a misteriosa serra, do Araridu ou Papuiré até Ticoiji e Tipuí, julgadamente a serra do Coité no território paraibano. São topônimos ·cariris que orlam a peregrinação dos aldeamentos e ficaram como testemunhando a passagem dos Janduí e Canindé antes do desaparecimento. Esse povo dos Canindé foi derrotado em 1690 por Afonso d’Albuquerque Maranhão, da casa de Cunhaú, neto de Jerônimo, 1.º capitão-mor do Rio Grande. O tuxaúa Canindé, soberano do sertão da Acauã, foi batizado e tomou o nome de João Fernandes Vieira. Dois anos depois o Senado da Câmara de Natal pedia a criação de arraiais, povoados com defensão militar nos quatro pontos extremos da região pacificada: Jaguaribe, Açu, Acauã e Curimataú. As estradas ligavam entre si esses lugares e se articulavam nas duas vias-tronco para o sul, o caminho do litoral, já mencionado, e a estrada por onde nasceria a estrada das boiadas. Em 1697 os indígenas Paiacu e Caratéu, da nação cearense dos Icó que viviam desde o Catolé do Rocha até as margens do rio Piranhas, na Paraíba, fixaram-se entre as ribeiras do Apodi e Jaguaribe, formando um liame de ativa comunicação pela chapada.
Ilustração de Jean Baptiste Debret
Por onde, durante as guerras contra o cariri, entraram os Terços Paulistas, as tropas de auxílio, vindas para conter os Janduí, Icó, Paiacu, Pega e Panati insubmissos?
Desceram da Paraíba, vindos por Soledade-Picuí ou Piranhas, depois Pombal, Brejo do Cruz e Catolé do Rocha, varando a fronteira depois da reentrância paraibana, ou vinham pela mesopotâmia do Panema-Açu? As tropas que voaram em socorro de Albuquerque Câmara tomaram o primeiro caminho e as do sertanista Domingos Jorge Velho creio que escolheram o segundo, ainda hoje piso batido e tradicional.
Passada a guerra ficou a lembrança da terra pisada para baixo e para cima. Do Açu sobe-se pelo rio Paraú até o fim e apanha-se a estrada paraibana depois de Belém. Lembremo-nos que a Paraíba não tinha gado e sim açúcar. O Rio Grande do Norte possuía tanto gado que podia suprir a Paraíba, Itamaracá e Recife. Os currais paraibanos são posteriores ao domínio holandês na vigência do qual o Rio Grande exportava, de graça e a força, milhares de cabeças. Irineu Joffily (Notas sôbre a Paraíba, 124) diz que as “fazendas apareceram normalmente quando os exploradores galgaram o planalto da Borborema e os paulistas penetraram no Piancó. Depois de 1690 é que temos indícios das atividades bandeirantes dos Oliveira Lêdo no Piancó e Piranhas. Os núcleos iniciais foram o Boqueirão a leste e Piranhas a oeste até que Oliveira Lêdo reuniu e sistematizou o esquema do povoamento pela fixação das tribos disseminadas.
Estrada de rodagem do Seridó, início da década de 1920
Durante muitos anos os pontos povoados do sertão paraibano não tiveram intercomunicação. Piancó conhecia a ligação com a Bahia, e Boqueirão, nos Cariris Velhos, com Pernambuco. Entre nós, já no século XIX, sucedia o mesmo. Mossoró ia para o Aracati e Caicó para Campina Grande. O sertão escapou secularmente à capital que vegetava, humilde e minúscula, junto ao Potengi. As ligações orientavam-se para Pernambuco e Paraíba, para as grandes feiras de gado, Igaraçu, Goiana, També (Pedra de Fogo), Itabaiana e depois Campina Grande. Daí a rede de estradas e variantes que sempre aglutinaram esses lugares e os articulavam às regiões do Seridó e sertão de Piranhas, ribeira da Panema, enquanto a zona do Mossoró se escoava para o Ceará pelo chapadão do Apodi. Com o desenvolvimento do Aracati passou este a dirigir Mossoró e Mossoró ao seu sertão na linde do Oeste.
Do Mossoró, a velha estrada ia a São Sebastião (Governador Dix-Sept Rosado), como presentemente a estrada de ferro, Jurumenha, perto de Caraúbas, Atoleiros, Piranhas, Mombaça, Boa Esperança (Demétrio Lemos, atual Antônio Martins) nos batentes da serra do Martins, Carnaúba, Barriguda (Alexandria), Tabuleiro Formoso onde se bipartia. Um ramal ia para o Catolé do Rocha e outro à cidade de Sousa, tocando em Santa Rosa. Em Sousa entroncava-se com a estrada-das-boiadas que era uma reminiscência das estradas de penetração povoadora. Daí a importância de Sousa, Cajazeiras e Pombal na formação comercial de uma zona do Rio Grande do Norte. Para lá, como depois para o Caicó, envia-se o menino aos estudos do latim e o passador-de-gado, afoito e lendário.
Antiga estação ferroviária de Demétrio Lemos, atual Antônio Masrtins – Foto – Rostand Medeiros
Sousa centralizava muito e uma sua estrada vinha morrer na antiga rota dos conquistadores de Natal. Partia de Sousa e atravessava sucessivamente Catolé, Belém, Amazonas, São Miguel (já em nossa província), Serra de Santana por Flores (hoje Florânia). Santa Cruz, centro de irradiação do Seridó depois de passar a serra do Doutor nas vizinhanças de Currais Novos, daí para Nova Cruz por Campestre (São José do Campestre) onde se via o caminho que levava à Paraíba ou Pernambuco por Mamanguape. Quando se criou o correio, Mamanguape era o ponto de intersecção entre Paraíba e Rio Grande do Norte. Aí o estafeta recebia a correspondência para Pernambuco e distribuía a carga entre as duas coterminas. A posição de Mamanguape explica a predileção dos grandes latifundiários por suas terras. Os Albuquerques Maranhões, da casa de Cunhaú, possuíam vários sítios e engenhos em Mamanguape.
Vaqueiros potiguares – Foto – Rostand Medeiros
A estrada-das-boiadas na Paraíba era muito mais seguida pelos vaqueiros norte-rio-grandenses que qualquer outra nossa. Ia-se por ela para o Piauí e o Piauí, de fins do século XVIII em diante, muito valia à nossa vida de pastorícia. Irineu Joffily reconstruiu-a e posso completá-la.
Do oeste do Espinharas, ribeira de Santa Rosa, Milagres, tocando depois na lagoa do Batalhão (Taperoá), seguia-se o rio, descendo a Borborema até Piranharas e daí a Patos, Piranhas (Pombal), Sousa, São João do Rio do Peixe (Um ramal recebia a contribuição de Cajazeiras) ia-se ao Ceará pelos Cariris Novos, Icó, Tauá, atingindo-se Crateús, inesquecível pelo encontro de centenas de vaqueiros que demandavam o Piauí. Outros preferiam acompanhar a vaqueirama divertida e pousar ali mesmo, mas eram em parte menor. A maioria furava, do Tauá, diretamente para o Piauí. De Crateús comprava-se a gadaria em Santo Antônio do Surubim de Campo Maior, núcleo influenciador de cantigas sobre o ciclo do gado, Valença, Oeiras, que fora capital até 1852, Jatobá (São João do Piauí) e Picos, fornecedor dos primeiros cavalos pampas, ornamentais e vistosos, orgulho do patriarcado rural no Rio Grande do Norte. uns vaqueiros arrastavam a jornada até São Gonçalo de Amarante e outros a Jerumenha. As maiores feiras eram nas localidades citadas.
Foto – Rostand Medeiros
Os norte-rio-grandenses do oeste iam via Ceará. De Tauá para Crateús e daí seguiam galgando a Ibiapaba para Campo Maior, ·banhado pelo rio Surubim ou, dos cearenses Arneiros e Cococi, alcançavam Valença no Piauí ou em diagonal para Picos.
Essa toponímia ficou registrada na cantiga velha. Desaparecida quase a estrada das boiadas, rara a viagem do vaqueiro, a poesia tradicional guardou os nomes dos lugares de outrora. Essa toada, verdadeira canção de marcha dos vaqueiros, recorda o percurso (!) de Campo Grande (Augusto Severo) no Rio Grande do· Norte até o ·Piauí, envolvendo dois perfis femininos, cuidados amorosos do vaqueiro cantador.
Como Xiquinha não tem
Como Totonha não há;
Xiquinha de Campo Grande
Totonha do Lagamá !
Xiquinha vale dez fio (filhos)
Totonha vale dez vó. . . (avós)
Xiquinha do COCOCl
Totonha do Arneiró …
Xiquinha prá querer bem
Totonha prá carinhá;
Xiquinha é de Crateús
Totonha é lá do Tauá
Xiquinha vale uma vila,
Totonha vale ela só;
Xiquinha nasceu nos Pico (Picos)
Totonha em Campo Maió …
Um ramal da estrada das boiadas ficou popularíssimo na “cantoria”. É o do Piancó, Misericórdia, Milagres (Ceará), Missão Velha, Crato, nos Cariris Novos. Do Mossoró viajava-se outrora, como atualmente, pelo araxá do Apodi (Pedra de Abelha, atual Felipe Guerra). Outras estradas partindo de Mossoró, iam rio acima até as cabeceiras do Apodi, Portalegre, Pau dos. Ferros, São Miguel e Luís Gomes. Uma variante de Pau dos Ferros, velhíssimo rancho de comboieiros e tangedores de gado, chega a Alexandria, antiga Barriguda e seguia para Tabuleiro Formoso, pegando o caminho paraibano. De Pau dos Perros a vizinhança cearense animava as visitas por Pereiro. Do Patu ia-se para Catolé do Rocha. Do Açu caminhava-se para Campo Grande (Triunfo, Augusto Severo), Martins, no pé da serra, onde se continuava em um dos ramos para a estrada das boiadas pela Ribeira do Rio do Peixe.
Foto – Rostand Medeiros
O inverno era mais cedo. Dizia tão certo como chuva em janeiro. No Piauí as águas vinham em novembro. Iam vaqueiros de toda parte comprar bois de carro e de corte e novilhos para reprodução e engorda. Voltava-se em fins de dezembro ou começos de janeiro, tocando, para aproveitar as babugens verdes e ralas que as chuvas faziam nascer.
As datas quase infalíveis criavam ponto de reunião para que a jornada fosse menos enfadonha e monótona. Especialmente ficavam juntos no regresso para o auxílio mútuo nas travessias sem água ou passagens difíceis nos rios e riachos, estouro de boiada e moléstias súbitas na gadaria. Essas estradas todas, como vimos, em pleno sertão, determinaram a necessidade das vendas, feiras rápidas de suprimento ligeiro e descanso ao longo da rota. Fizeram casas. As fazendas se aproximaram. Ergueram a capela. Foi vila e muitas são sedes municipais.
Para o sul do Rio Grande do Norte a viagem continuava margeando. As praias, caminho feito por Nosso Senhor. Assim voltou, agonizante, Pêro Coelho de Sousa, em 1605, passando Amargosa e Guamaré na costa de Macau.
Em 1810 Henry Koster fez sua excursão ao Ceará partindo do Recife, por Goiana, Espírito Santo, Mamanguape (Paraíba), Cunhaú (Rio Grande do Norte), Papari (Nísia Floresta), São José de Mipibu, Natal, Açu, Santa Luzia (Mossoró), praia do Tibau, Aracati (Ceará) e Fortaleza.
Quando o bispo de Pernambuco, Dom João da Purificação Marques Perdigão, visitou o Rio Grande do Norte em 1839, vinha do Ceará. Penetrou pelo Apodi, descansando em “Sabe Muito”, nos arredores da cidade de Caraúbas, dormindo no então povoado; almoçou em Coroas, perto da vila de Campo Grande (Augusto Severo), alcançando o Açu. Atravessou Santa Quitéria, depois Patachoca (Pataxó), vila dos Angicos e pelo seu Itinerário sabemos que o prelado veio por São Romão (Fernando Pedrosa), Santa Cruz, ambas estações da Estrada de Ferro Sampaio Correia, Riacho Fechado, Várzea dos Bois, Umari, Boa Água, Ladeira Grande, Taipu do Meio (sede municipal), Capela, no vale do Ceará-Mirim e Extremoz. É a travessia do poente ao nascente, oeste-leste. De Natal, Dom João partiu para a Paraíba repetindo quase o trajeto de Mascarenhas Homem no percurso de regresso em 1598. Natal, São Gonçalo, São José de Mipibu, Papari, Arez, Goianinha, Vila Flor, Tamanduba, Comatanduba (Paraíba), Mamanguape. É a descida norte-sul.
Pelos caminhos do sertão potiguar – Foto – Rostand Medeiros.
No interior as primitivas e grandes vias de povoamento e penetração foram as margens dos álveos dos rios Piranhas e Apodi-Mossoró. A oeste a chapada do Apodi com o rush cearense. A linha Natal-Macau estirão solitário de areias inúteis, com água rara, esteve despovoado, afora os breves oásis de coqueirais plantados na segunda metade do século XVIII em diante e que abrigaram povoações de pescadores, Genipabu (estrema do mapa de Marcgrav). Pitangui, Jacumã, Muriú, Maxaranguape, Caraúbas, Maracajaú, Touros, Olhos d’Agua, Santo Cristo, Reduto, Caiçara, Galinhos; Diogo Lopes, etc.
Durante os conturbados anos 20 do século passado, ocorreram inúmeras agitações políticas que abalaram o então agrário Brasil. Entre estes movimentos, o que ficou conhecido como Tenentismo marcou aquele período. Tendo se caracterizado pelas críticas destes jovens oficiais militares às instituições republicanas e às condições da sociedade brasileira da época. Os tenentes defendiam a modernização econômica do país e combatiam a corrupção política. Com o endurecimento do governo federal em relação ao tenentismo, remanescentes da malfadada Revolução de 1924 e dissidentes do Rio Grande do Sul, uniram-se e seguiram em uma coluna de combatentes para o interior do país, defendendo reformas políticas e sociais e lutando para depor o governo do presidente Artur Bernardes (1922-1926).
Sempre conseguindo vitórias, a coluna revolucionária combateu forças regulares e milícias privadas de fazendeiros. A Coluna empregava táticas de guerrilha, possuía um número de combatentes que chegava em média a cerca de 1.200 homens, acompanhado de algumas mulheres e sendo chefiados por Miguel Costa, Siqueira Campos e Luís Carlos Prestes. Conforme a coluna avançava, muitos eram os insatisfeitos militares de baixa patente, que conspiravam pelo Brasil afora para se unir a Coluna, esperando levantar as populações rurais injustiçadas, se possível levando combatentes, armas e provisões para o grupo revoltoso. Um destes idealistas foi o recifense Cleto Campeloe esta é a sua esquecida saga.
O Revolucionário
Cleto da Costa Campelo Filho nasceu em 29 de dezembro de 1898, era filho de um contador e uma dona de casa, onde desde cedo demonstrou vocação pela carreira militar. Em 1913 ingressou no 4º Batalhão de Infantaria, no Recife, de onde partiu para cursar a Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, concluindo o curso em 1916. Ao sair da Academia retorna a capital pernambucana para servir como aspirante no 21º Batalhão de Caçadores. Vale ressaltar que este batalhão seria anos depois transferido para Natal, onde dentro desta unidade militar, iria eclodir a Intentona Comunista de novembro de 1935 na capital potiguar.
Pernambuco, Recife particularmente, era um fervente caldeirão de exaltações partidárias. O então comando do exército brasileiro na região, a 6ª Região Militar, também não ficava alheia às lutas das facções. Cleto Campelo, então 2º tenente, sempre se interessou pela política de seu tempo, onde acabou entrando em choque contra pessoas ligadas ao grupo dominante da poderosa família Pessoa de Queiroz. Fora então transferido, em maio de 1922, para o 6º Batalhão de Caçadores, sediado em Goiás. Inconformado, na passagem pelo Rio de Janeiro, concede uma entrevista ao jornal “Correio da Manhã” e por isso ficou preso por 30 dias na Fortaleza de Santa Cruz.
Dois anos mais tarde, já promovido a 1º tenente, Cleto Campelo retornou a Recife e ao 21º batalhão de Caçadores, mas estava marcado como revolucionário. É deste período à foto acima, onde vemos a oficialidade do 21º Batalhão de Caçadores. Cleto Campelo é o segundo oficial, em pé, posicionado da direita para a esquerda. Repare a sua face tranquila, confiante e como se coloca encarando a objetiva. Outro detalhe que chama a atenção, não sei se proposital, é como os outros oficiais se encontram afastados deste militar, posicionando-se a certa distância, como evitando uma possível ideia de associação por parte de algum observador.
Sempre solidário aos que lutava contra o governo, ele acompanhava os avanços da coluna revoltosa pelo interior do Brasil e procurou aliciar alguns camaradas nos quartéis da capital para se unir aos revoltosos.
Nada conseguiu e desertou. Preferiu destruir a carreira a sacrificar as aspirações. Partiu para a Argentina para se unir a militares brasileiros no exílio, receber ordens, montar planos, conseguir apoio e conspirar novamente em Pernambuco. Voltou clandestinamente no início de 1926, em aventurosa viagem, onde até foguista se tornou em navio costeiro. Tinha ordens de preparar o levante que apoiasse e servisse de suporte à coluna rebelada, quando esta cruzasse o sertão pernambucano.
A Descoberta do Plano e o Início da Revolta
Após ter atravessado o Rio Grande do Norte, invadindo as cidades de São Miguel e Luis Gomes e perpetrar um verdadeiro massacre na cidade de Piancó, na Paraíba, a Coluna Prestes chegou a Pernambuco no dia 2 de fevereiro de 1926, entrando pelo Vale do Pajeú.
No Recife, entre os mais destacados participantes da rebelião de Cleto Campelo estava Anfilóquio Cavalcante. Este mantinha um arsenal na Rua Alecrim, nº 105, o que levou pânico a sua família, tendo o seu cunhado, o alfaiate José Pedro da Silva denunciado as autoridades à existência do armamento. Alguns conspiradores foram presos e o levante no Recife fracassou.
Avisado do fato Cleto Campelo não desistiu do plano e conseguiu fugir para Jaboatão. Às 4 da manhã do dia 17 de fevereiro, em pleno Carnaval, deu início ao seu plano junto com 25 companheiros. O grupo tomou de assalto a cadeia pública, libertaram os prisioneiros, prenderam os policiais e cortaram as linhas telefônicas para o Recife. Após isso requisitaram o dinheiro das coletorias de rendas e dos correios, saquearam algumas casas comerciais e tomaram as oficinas da empresa ferroviária Great-Western. Nesta empresa apossaram-se da munição que existia na estação ferroviária, tomaram o trem de passageiros e descarrilaram os vagões que não precisavam utilizar. Alguns operários da Great-Western decidiram integrar o movimento.
O Caminho para o Agreste.
Marcha de um trem em direção ao agreste pernambucano.
Seguiu viagem pela então Ferrovia Central, onde iniciaram a tentativa de alcançar o Rio São Francisco, na região da cidade de Floresta, ainda em Pernambuco, onde se encontrava uma parte da Coluna comandada pelo tenente João Alberto Lins de Barros.
Durante o trajeto, os revoltosos realizaram paradas sucessivas em Moreno, Tapera, Vitória de Santo Antão e São José dos Pombos.
Em Vitória de Santo Antão, o grupo parou a composição na estação da fazenda Mufumbo, próximo à área urbana, para onde seguiram a pé. Nesta cidade tornaram a destruir o telégrafo, a soltarem os presos, a prenderem os policiais e tomar suas armas. Almoçaram no Hotel Fortunato e seguiram em frente, procurando antes destruir a linha férrea na ponte sobre o Rio Tapacurá. O grupo então já passava de 80 homens, todos com lenços vermelhos ao pescoço.
Muito chamou a atenção das testemunhas o trato cordial do comandante com a atônita população, sempre passando “recibos revolucionários” de tudo que requisitava e que não fosse do governo. A sua liderança junto aos seus homens crescia a cada momento.
Ao chegarem próximos ao 1º túnel da encosta da Serra da Borborema, os revoltosos dinamitaram um pontilhão em uma curva e danificaram o túnel nº 7, cortando a linha férrea.
A Luta em Gravatá e a Morte de Cleto Campelo
Por volta das 16 horas se aproximaram de Gravatá, onde o comandante sabia que haveria resistência. Afinal, depois de 14 horas e meia do ataque a Jaboatão, o governo já tivera tempo de organizar uma tropa entrincheirada na estação ferroviária. Cleto Campelo ordenou ao maquinista Saturnino que diminuísse a marcha da máquina e entraram lentamente na cidade, que aparentava estar desabitada. A composição seguia lenta entre as ruas e praças da cidade, parou a trezentos metros da estação, próximo a cadeia pública e o tiroteio começou.
Antiga Cadeia Pública de Gravatá, atualmente uma biblioteca e museu.
Segundo historiadores pernambucanos, Cleto Campelo arremeteu a frente do grupo contra o edifício da cadeia, cabeça erguida, de revólver na mão, acompanhado de perto do engraxate Ezequiel, neste local jogou uma dinamite, que produziu aterradora explosão. Ao sair do prédio, segundo alguns, inadvertidamente o foguista da composição, Artur Cipriano, abriu fogo contra Cleto Campelo e Ezequiel e ambos foram mortos.
Foto do cadáver de Cleto Campelo
Segundo outros foram tiros efetuados da trincheira legalista mataram os dois revoltosos. O certo é que esta derrota trouxe grande desgosto para os revoltosos, o pânico tomou conta da tropa e começou a desistência de vários componentes. O agora comandante tenente Valdemar Paula de Lima dominou a situação e convenceu parte do grupo a voltar ao trem e seguir em frente. Valdemar Lima era pernambucano de Recife, fora sargento da marinha e era conhecido como “Tenente Limão”.
Uma das muitas fotos do cadáver do Tenente Cleto, publicada pelos jornais recifenses. Certamente com isso o governo federal desejava mostrar aos militares rebeldes que a mesma situação poderia ocorrer com os participantes de novas rebeliões militares tornassem a acontecer.
Três quilômetros depois de Gravatá, no quilometro 91, no lugar conhecido como “Curva da Caatinga Vermelha”, as margens do Rio Ipojuca, o militar revolucionário ordenou ao maquinista desligar a locomotiva da composição e deixasse a máquina seguir sozinha em direção a cidade de Bezerros. No povoado denominado Gonçalves Ferreira, as tropas do 20º Batalhão de Caçadores assistiram o descarrilamento desta maquina solitária.
Movimentação popular diante da Cadeia Pública de Gravatá, após os combates entre legalistas e a tropa rebelada de Cleto Campelo.
Valdemar de Lima, Comandante
Após deixar o trem, aproveitando a noite que surgia, outros rebeldes fugiram, ficando Valdemar com apenas 30 companheiros. Sem condições de seguir adiante, o grupo desistiu da intenção de chegar ao Rio São Francisco, eles se apossam de cavalos e fogem rumo norte, mata adentro, para o município de Vertentes, de onde pretendiam fugir para o vizinho Estado da Paraíba.
Valdemar sabia das dificuldades que enfrentava para sobreviver, pois estava cercado pela polícia com ordens para matar e na Paraíba pretendia dispensar a tropa.
Antiga estação ferroviária de Gravatá.
Segundo alguns historiadores, Valdemar tinha um contato junto ao fazendeiro Pessoa Monteiro, para onde seguiu em direção a fazenda deste. Lá chegando, ao amanhecer do dia 19 de fevereiro, o grupo teve abrigo e comida. Pessoa Monteiro ofereceu os serviços do seu morador, Manuel Botelho, para servir de guia até a Paraíba. Mais tranquilo Valdemar relaxou na segurança e colocou o grupo para descansar. Só seguiriam viagem na manhã do dia 22
O Combate Final
O fim definitivo do grupo revoltoso de Cleto Campelo, segundo uma teoria existente, teria ocorrido porque o morador Manoel Botelho teria informado ao coronel Francisco Heráclio do Rego, chefe político da cidade pernambucana de Limoeiro, da presença dos revoltosos. Para não seguir com o grupo, Botelho teria alegado um problema de saúde e colocando outro morador, o senhor Amaro Jerônimo, conhecido como “Pai-né”, como novo guia.
O chefe político avisa o sargento legalista José Joaquim, que acompanhado de um grupo de soldados, seguiu margeando o Rio Capibaribe, até o ponto de travessia da fazenda Pitombeira, bem perto do povoado de Topada, pertencente na época ao município de Vertentes e atualmente ao município de Frei Miguelinho. O sargento José Joaquim e seus comandados, estrategicamente montaram uma emboscada por trás de algumas pedras graníticas, ficando muito bem protegidos, com as armas à espera da tropa revoltosa.
Fim do grupo de Cleto Campelo, com a morte de Valdemar Lima – Fonte – Arquivo Público do Estado de Pernambuco.
Os revoltosos, durante o trajeto para a Paraíba, estavam tranquilos e aparentemente não tomaram as precauções devidas. Na hora em que iam atravessando o Rio Capibaribe, receberam muitos tiros vindos dos esconderijos dos policiais. O tenente Valdemar Lima, sem ver seus inimigos, foi o primeiro que caiu do cavalo, morrendo imediatamente. Dois soldados também caíram sem vida, um outro soldado recebeu ferimentos leves e o senhor Amaro Jerônimo foi atingido, ficando esses dois últimos sem condições de correr. O resto da tropa, sem comando, desertou, fugindo pelo mato adentro.
O soldado ferido foi fuzilado, já o senhor Amaro Jerônimo, depois de provada a sua inocência, foi levado para Vertentes e se recuperou. Os quatro cadáveres foram expostos como troféus na calçada da capela de Topada e em seguida levados com desprezo para serem sepultados no cemitério de Vertentes, sendo os três soldados numa cova só e o tenente em outro lugar, junto à parede do cemitério.
Cadeia Pública de Gravatá em 1917.
Problemas Entre os Legalistas
Após algumas horas da triste ocorrência, chegou a Topada o tenente da polícia pernambucana de nome Zumba, tendo sob seu comando quase 40 soldados e foram ao encontro do sargento José Joaquim e seus quase 20 subalternos. O tenente Zumba foi chegando e se arvorando de herói e o sargento José Joaquim não aceitou aquilo.
Mapa da região de Pernambuco onde se desenrolou o conflito.
A discussão aumentou ainda mais quando o tenente Zumba exigiu do subordinado uma bolsa que continha o dinheiro das coletorias e dos correios. Homem valente e obediente, o sargento José Joaquim entregou a referida bolsa com um montante avaliado em 32 contos de réis, uma fortuna para época. O tenente Zumba duvidou que o valor total estava no bisaco e por muito pouco o tempo não fechou entre os policiais. Para maior irritação do sargento José Joaquim, o tenente tomou o revólver de Valdemar Lima que o sargento desejava guardar como troféu. Na troca de ofensas o sargento acusou o tenente de covarde, comentando que o mesmo, comandando quase 40 soldados acampados em Vertentes e tendo conhecimento da aproximação dos revoltosos, permitiu que o sargento chegasse primeiro para evitar o confronto com os revolucionários. Com o fim da altercação, os militares foram embora e seriam recebidos como heróis em Recife e os mortos foram considerados traidores.
Consequências
Os companheiros sobreviventes do grupo de Valdemar, ajudados por fazendeiros amigos de Pessoa Monteiro, foram ajudados ou obrigaram moradores da região a lhe socorrerem às escondidas. Muitos trocaram as fardas, coturnos, armas e munição do exército por roupas de camponeses, alpercatas e caíram “no oco do mundo”.
Quanto ao pessoal da Coluna revoltosa, que entraria para a história como a ”Coluna Prestes”, ao receberem a notícia do fracasso dos companheiros do Recife, atravessaram o Rio São Francisco com destino ao Sul.
Jornal recifense de 1930, mostrando a mudança em relação a figura de Cleto Campelo, então um herói da Revolução de 1930.
Quatro anos depois, vitoriosa a Revolução de 1930, o Exército veio buscar os restos mortais de Valdemar Lima e dos três soldados no cemitério de Vertentes. Foram prestadas honras militares e foi mudando o nome do povoado de Topada para “Capitão Valdemar Lima”. Cleto Campelo e Valdemar Lima ainda seriam homenageados com seus nomes estampados em ruas e praças em Recife e outras cidades. Contudo, sua saga de idealismo e bravura, seria quase totalmente esquecida.
Este não foi o único combate histórico a ocorrer nas proximidades do antigo povoado de Topada. Ainda em 1914, na fazenda da Laje, próxima a povoação de Olho D’água da Onça, ocorreu o tiroteio entre a volante do então tenente Teófanes Ferraz e o bando de Antônio Silvino, em 27 de novembro de 1914, onde morreria neste combate o cangaceiro Joaquim Moura, conhecido como “Serra Branca” e o famoso chefe cangaceiro seria ferido e capturado, sendo libertado apenas em fevereiro de 1937.
Fontes bibliográfica;
– Aragão, José, in “História de Vitória de Santo Antão”, 2º Volume (1843 – 1982). Biblioteca Pernambucana de História Municipal – CEHM/FIDEM, Recife, 1982.
– Ferraz Filho, Geraldo de Sá Torres, in “Pernambuco no tempo do cangaço (Antônio Silvino – Sinhô Pereira – Virgulino Ferreira ”Lampião”) Theophones Ferraz de Barros, um bravo militar, 1926 – 1933”. 2º Volume , Coleção Tempo Municipal, número 22, Centro de Estudos de História Municipal – CEHM/FIDEM, Recife, 2003.
– Joffily, José, in “Revolta e Revolução – Cinqüenta anos depois”. Editora Paz e terra, Rio de Janeiro, 1979.
– Lins, Alberto Frederico, in “História de Gravatá”. INOJOSA. Recife, 1993.
– Jornal “Vida Rural”, novembro de 2000, autor Severino de Moura.
– Jornal “A Republica”, várias edições de fevereiro e março de 1926. Coleção do APE-RN / Arquivo Público do Rio Grande do Norte.
Fiscais encontraram pinturas rupestres às margens do rio São Francisco, em Alagoas – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas
Pinturas rupestres de povos que viveram às margens do rio São Francisco na pré-história foram descobertas nessa terça-feira (29) em uma região rural do município de Olho D’Água do Casado, no sertão alagoano. As imagens estavam em rochas em três pontos diferentes e foram achadas durante uma força-tarefa de vários órgãos que investiga e previne irregularidades na região ribeirinha.
O belo Rio São Francisco – Foto Rostand Medeiros
As imagens estão localizadas dentro do território do assentamento Nova Esperança. A maioria das pinturas é de formas geométricas. Ao lado dos desenhos, há alguns pequenos buracos no chão, que devem ser espécies de pilões cavados com intuito de amassar sementes para produção de tinta.
Segundo a arqueóloga Rute Barbosa, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), não é possível definir há quanto tempo as pinturas foram feitas. “Sabemos que se trata de sítios arqueológicos relacionados a povos que habitaram o baixo São Francisco na pré-história, mas não temos o período exato”, disse.
Entre os sertanejos, as imagens são conhecidas como ‘letreiro de caboclo brabo’ – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas
Ao todo, o Instituto já possui mais de 300 sítios arqueológicos na região do Baixo São Francisco. Entre os sertanejos, as imagens são conhecidas como “letreiro de caboclo brabo”. As imagens dão indícios de que vários povos passaram pelo local, mas apenas pesquisas mais detalhadas podem confirmar a hipótese.
Ocupação antes de Cristo
A arqueóloga conta que descobertas já realizadas garantem a presença de comunidades há pelo menos 3.500 anos na região. “O registro mais antigo até o presente momento encontrado em Alagoas foi localizado no sítio arqueológico ‘São José 2’, no município de Delmiro Gouveia [sertão alagoano], onde foram encontrados 29 esqueletos humanos, além de outros artefatos líticos e cerâmicos, com datação aproximada de 3.500 AP [anos presentes]”, afirmou.
A região tem presença de comunidades há pelo menos 3.500 anos – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas
Barbosa ressalta a nova descoberta vai ajudar nas pesquisas sobre como era a vida pré-histórica na região. “Estamos ampliando o conhecimento sobre o homem na pré-história, seus costumes e modos de viver. Os sítios encontrados contribuirão nesse sentindo, dão maiores subsídios para o aprofundamento dessa compreensão”, disse.
Com a descoberta das novas pinturas, haverá agora o início uma série de ações do setor público. “O Iphan irá registrar o sítio arqueológico e pretende desenvolver, a curto prazo para região, um projeto de educação patrimonial junto a comunidade local. É necessário um trabalho de conservação nesses sítios e iremos trabalhar nisso”, explicou.
Foto – Rostand Medeiros
Barbosa ressalta a nova descoberta vai ajudar nas pesquisas sobre como era a vida pré-histórica na região. “Estamos ampliando o conhecimento sobre o homem na pré-história, seus costumes e modos de viver. Os sítios encontrados contribuirão nesse sentindo, dão maiores subsídios para o aprofundamento dessa compreensão”, disse.
Com a descoberta das novas pinturas, haverá agora o início uma série de ações do setor público. “O Iphan irá registrar o sítio arqueológico e pretende desenvolver, a curto prazo para região, um projeto de educação patrimonial junto a comunidade local. É necessário um trabalho de conservação nesses sítios e iremos trabalhar nisso”, explicou.
As imagens estavam em rochas em três pontos diferentes das margens do rio – Fonte – Divulgação/Ministério Público de Alagoas
Segundo o Ministério Público Estadual, as pinturas sofrem com a ameaça da degradação do homem. Em um dos sítios arqueológicos visitados, o MP encontrou um desenho coma palavra “Erica”, ao lado das rochas com os desenhos e gravuras.
Outro problema seriam as queimadas, que soltam fuligem que podem encobrir e até mesmo apagar os desenhos. A força-tarefa encontrou vários locais com vegetação queimada durante a visita aos sítios.
Autor – Carlos Madeiro -Colaboração para o UOL, em Maceió
Acho que foi em novembro de 2015 que a minha mãe, Creuza de França Medeiros, uma pessoa bastante interessada em artes e pinturas, me comentou sobre uma exposição que estava acontecendo em Natal, no velho e suntuoso Solar Bela Vista, no bairro da Ribeira.
Ela me falou que um jovem pintor estava apresentando vários quadros sobre Lampião e o Cangaço, mas que estes eram criados de uma forma diferenciada, com uma apresentação bastante interessante e que certamente eu gostaria de ir lá ver.
Bom, como eu frequentemente não sou de discordar da minha mãe e como estes temas nordestinos sempre me interessaram desde que me entendo por gente, eu não perdi tempo e fui lá visitar a exposição.
Realmente para alguém muito pouco ligado aos pincéis, como é o meu caso, os quadros que encontrei no velho Solar eram bem diferentes do que eu já havia visto. Vi trabalhos de variadas dimensões, com muito colorido, pinceladas livres, que na minha visão possuíam algo de muito interessante, belo e poético.
Logo fui apresentado ao artista plástico Sérgio Azol pelo jornalista Thiago Cavalcanti, que realizava a assessoria de imprensa do evento. Na conversa, para minha surpresa, descobri que Azol conhecia o nosso blog TOK DE HISTÓRIA, que era de Natal e que havíamos estudado em turmas deferentes no velho Salesiano da Ribeira, na época do ensino colegial.
No contato soube que a família de Sérgio Azol possui profundas raízes sertanejas, que ele tem um forte sentimento de orgulho em relação a estas origens e a sua arte tem muito dessa ligação afetiva com a sua história familiar.
Apesar disso ele me comentou que cedo deixou Natal, viveu em grandes cidades do sul do Brasil e nos Estados Unidos e pouco conhecia do sertão. Ele desejava ter um maior contato com a região, principalmente na área aonde o chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, atuou mais fortemente junto com seus homens.
Comentei-lhe que compartilhávamos origens parecidas e que tenho o mesmo sentimento de orgulho em relação ao fato de ser um nordestino. Daí o papo correu solto e logo estávamos planejando uma viagem que pudesse abranger, em um espaço determinado de tempo, o máximo de locais que lhe proporcionasse descortinar muito da intensa vida deste cangaceiro.
Na estrada. Aqui realizando uma visita ao Museu do Artesanato de Bezerro e agradecendo o profissionalismo do pessoal.
Este planejamento ocorreu sem maiores alterações, pois, além de escritor e pesquisador de temas nordestinos, eu sou um Guia de Turismo credenciado pelo Ministério do Turismo, com mais de quinze anos de experiência e já possuo muitos quilômetros de estradas percorrendo o Nordeste.
Neste sentido o objetivo ficou centrado principalmente na região do Pajeú Pernambucano, área de nascimento de Lampião. Depois seguiríamos para a cidade de Piranhas, no oeste do estado de Alagoas, as margens do Rio São Francisco e próximo da Grota do Angico, local da morte de Lampião e localizado no belo estado de Sergipe.
Em Floresta estivemos juntos dos maravilhosos amigos (da esq. para dir.) Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, Djanilson Pedro e Marcos Antonio de Sá, o conhecido como “Marcos De Carmelita”.
Logo contatei pessoas maravilhosas, grandes amigos, que se colocaram a disposição para ajudar no que fosse necessário. Entre estes estava Carmelo Mandu, da cidade paraibana de Princesa Isabel e André Vasconcelos, em Triunfo, Pernambuco. Já da bela cidade de Floresta, também em Pernambuco, os escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá, conhecido como “Marcos De Carmelita”, e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, autores do livro “As cruzes do Cangaço – Os fatos e personagens de Floresta – PE”, recentemente lançado, se prontificaram a ajudar.
Apesar deste contato extremamente positivo, por diversas razões o “OK” para iniciarmos esta viagem demorou um pouco mais do que planejamos. Mas finalmente a ordem de partida foi dada e caímos na estrada.
Saí de Natal para me encontrar com Azol em uma segunda-feira de madrugada, seguindo para Recife, onde ele desembarcaria no Aeroporto dos Guararapes. Ocorre que cheguei na capital de todos os pernambucanos em um dia que esta cidade literalmente ficou debaixo d’água. Trechos que levaria 20 minutos para percorrer foram completados em uma hora e meia e era tanta água que cheguei a duvidar se conseguiria mesmo alcançar ao aeroporto. Graças a Deus deu tudo certo.
Partimos com uma paisagem e um clima que mais lembravam a Serra Gaúcha, do que o agreste pernambucano. Mas foi legal para ambientar Azol e lhe contar aspectos da história da expansão da cultura canavieira e como se deu à ocupação do sertão pelos portugueses, a origem dos cangaceiros e vários outros temas.
O papo ia rolando, a BR-232 se abrindo na nossa frente e isso tudo com o som do carro tocando o Mestre Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, Quinteto Armorial e o Quinteto da Paraíba, Zé Ramalho, Elomar, Fagner, Genival Lacerda, Alceu Valença, Antônio Nóbrega, Mestre Ambrosio e muito mais.
Inspirado, logo Azol foi pedindo para que eu realizasse várias paradas para executar muitas fotos. Muitas delas estão aqui para os leitores do TOK DE HISTÓRIA.
Pelos dias seguintes estivemos nas cidades de Bezerros, Belo Jardim, Arcoverde, Serra Talhada, São José de Belmonte, no local da mística Pedra do Reino, na região da cidade de Floresta, nas ruínas da casa onde nasceu Lampião, em Piranhas, navegamos pelo Rio São Francisco, caminhamos pela trilha que leva até a Grota do Angico. Depois retornamos por Garanhuns, Caruaru e Recife. Infelizmente, devido ao tempo curto que dispúnhamos e da necessidade de realizar muitas paradas, não foi possível visitar Princesa Isabel e Triunfo. Peço desculpas aos amigos Carmelo Mandu e André Vasconcelos.
Mas percorremos muitas estradas de barro em plena caatinga braba. Paramos para conversar com sertanejos, com vaqueiros e outros mais. Conversamos com pessoas que sabem transmitir, com narrativas extremamente dignas, várias histórias sobre Lampião, sobre outros cangaceiros, sobre as volantes policiais, as sangrentas guerras de famílias no sertão, sobre as secas, as enchentes e outros temas. Foi possível apresentar o rico artesanato, a culinária e a história desta região extremamente singular e representativa desta parte do Brasil.
Para mim (e acredito que igualmente para Sérgio) os momentos particularmente mais interessantes foram em Floresta.
Conhecendo o gosto do cacto “Coroa de frade”.
Maravilhosamente apoiados pelos escritores e pesquisadores Marcos Antonio de Sá e Cristiano Luiz Feitosa Ferraz, percorremos inúmeros locais que foram palco de lutas entre valentes florestanos contra Lampião e seus cangaceiros.
Marcos de Carmelita explicando a Sérgio Azol aspectos históricos da luta travada na Tapera dos Gilo em 1926.
Entre estes locais o mais significativo sem dúvida alguma foi à visita a propriedade da Tapera dos Gilo, local do maior massacre da história do Cangaço. Nesta propriedade conhecemos o nobre sertanejo Djanilson Pedro, o conhecido “Pané”, descendente dos membros da família Gilo.
Cemitério onde descansam eternamente os membros da família Gilo massacrados por Lampião em 1926.
Em razão de um ardiloso e nefasto estratagema orquestrado por um inimigo, esta família foi atacada no dia 26 de agosto de 1926 pelo bando de Lampião e um grupo em torno de 120 cangaceiros. Neste dia sangrento mais de 10 pessoas foram mortas na propriedade e nas redondezas pelos bandoleiros das caatingas. Tivemos a oportunidade de ouvir a narrativa oral que é transmitida pela família de Djanilson sobre os episódios de 1926, sua opinião sobre aquele momento extremamente difícil para sua família, as consequências disso e foi possível visitar os locais de luta. Foi um dia muito positivo e produtivo, que só engrandeceu a nossa busca pelo conhecimento.
Djailson relatando a tradição oral referente ao massacre da família Gilo.
Eu acredito que o mais importante em qualquer viagem não é o destino, mas o caminho e não existe coisa melhor na profissão de Guia de Turismo do que conhecer pessoas. Principalmente pessoas que amam aprender viajando e que gostam de transmitir aquilo que conhecem. E isso fica ainda melhor quando a estrada é percorrida junto de alguém que possui muita humildade, algo fundamental em um bom viajante.
E por isso considero Sérgio Azol é um ótimo viajante…
Barreira e a cabeça de Atividade, 5 de setembro de 1938, propriedade Santo Antônio, Pão de Açúcar, Alagoas – CLIQUE NAS FOTOS PARA AMPLIAR
Como Uma Atitude Nefasta e Uma Foto Impactante Marcaram a
Vida de Um Cangaceiro Que Buscou a Regeneração
Autor – Rostand Medeiros
Recentemente eu tive a grata oportunidade de participar de mais um encontro de pesquisadores e escritores do tema do Cangaço, desta vez realizado na bela cidade alagoana de Piranhas.
Em meio a encontros amistosos (e outros mais protocolares), em meio a ótimas palestras (e outras verdadeiramente sorumbáticas), eu conheci o livro Fim do Cangaço: As Entregas, do escritor e pesquisador Luiz Ruben de F. de A. Bonfim, baiano da cidade de Paulo Afonso[1].
Não conheço toda a eclética obra de doze livros publicados por este autor, que possui um foco maior no cangaço. Mas o trabalho de Luiz Ruben também tem obras com temas ligados a ferrovias, livro de poesias, sobre a história de sua região e até mesmo um trabalho, ainda no prelo, que trata do alcance da Guerra Civil dos Estados Unidos na Bahia.
Mas em relação ao seu Fim do Cangaço: As Entregas, este livro foi para mim uma grata surpresa, onde temos a reprodução de documentos e reportagens oriundos dos arquivos, de jornais, de instituições militares e de revistas de alcance nacional. Um rico material, muito útil para os pesquisadores do cangaço e aqueles que desejam conhecer mais sobre a história das lutas no Nordeste.
Autor Luiz Ruben – Fonte – cariricangaco.blogspot.com
Li o livro praticamente de um folego só e fiquei muito satisfeito.
Já no primeiro capítulo Luiz Ruben reproduz uma reportagem do periódico “Jornal de Alagoas”, edição de sexta-feira, 9 de setembro de 1938 e intitulada “Bandido mata bandido”. Aí me lembrei de um pequeno artigo jornalístico da década de 1980, que me foi presentado pelo amigo Paulo Moreira, potiguar que há muitos anos vive no Rio de Janeiro.
O relato de 1938 é sobre o cangaceiro Barreira, um antigo bandoleiro dos sertões que para deixar este, como dizia o professor Estácio de Lima, “Estranho Mundo dos Cangaceiros”, levou como salvo-conduto a cabeça de um companheiro. Junto com sua horrenda atitude ficou para história uma impactante foto que mostra vários aspectos de um momento de muita violência no Nordeste do Brasil.
Macabro Salvo-Conduto
Em uma segunda-feira, dia 5 de setembro, dia de feira livre na cidade alagoana de Pão de Açúcar, as margens do Rio São Francisco, logo começou a correr a notícia que em uma propriedade distante cerca de 36 quilômetros havia um cangaceiro desejando entregar-se as autoridades[2].
Antiga foto da cidade de Pão de Açúcar, vendo a Matriz do Sagrado Coração de Jesus – Fonte – sertao24horas.com.br
Prontamente o tenente José Tenório Cavalcanti, a maior autoridade policial presente, preparou um grupo de policiais para seguir ao encontro deste cangaceiro na propriedade Santo Antônio[3]. Aparentemente esta gleba era localizada próxima a uma área denominada Caboclo[4].
Mapa de Alagoas, com destaque para a região dos acontecimentos
Quando lá chegaram os policiais encontraram um jovem com a tradicional roupa de cangaceiro, com cerca de 20 anos de idade, boa aparência, muito calmo, tranquilo, que trazia consigo um rifle Winchester e a cabeça decapitada de um homem de tez clara, igualmente jovem, bastante cabeludo e que havia sido morto horas antes.
Ele se apresentou como sendo o cangaceiro Barreira e a cabeça era a do cangaceiro Atividade, seu companheiro no grupo que tinha como chefe o cangaceiro alcunhado como Português. Comentou que seu nome era João Correia dos Santos, sendo filho de Manoel e Maria Correia e era natural da região, do lugar Furna[5].
Barreira depois de detido – Coleção do autor
Logo alguém, que não sei quem foi, sacou de uma máquina fotográfica e clicou o macabro salvo-conduto. Provavelmente o cenário deste instantâneo foi de alguma maneira produzido e esta é sem dúvida uma das fotos mais marcantes do período do cangaço.
Logo o jovem cangaceiro e a cabeça de Atividade foram levados para Pão de Açúcar, onde chamaram muita atenção da população local. Depois seguiram para a cidade de Santana do Ipanema, a cerca de 50 quilômetros de distância, onde um repórter do “Jornal de Alagoas” ouviu Barreira.
Lampião, Maria Bonita e parte do seu bando na escadaria da Prefeitura de Piranhas, Alagoas, 1938
O fora da lei comentou que a cerca de um ano vivia em contato com os cangaceiros do grupo de Português, sendo inicialmente convidado a seguir pelas veredas do sertão de arma na mão. Mas o jovem recusou o quanto pode, até que foi ameaçado de morte pelo chefe se não fizesse parte do bando.
Já sobre a ideia de entregar-se a polícia e usar a cabeça de Atividade como uma espécie de salvo-conduto junto às autoridades, provavelmente surgiu após Barreira ver algumas das muitas reproduções da famosa foto com as cabeças cortadas de Lampião, Maria Bonita e nove outros integrantes do bando e expostas um mês e uma semana antes na escadaria do prédio da prefeitura da cidade de Piranhas. Talvez tenha imaginado que se fizesse igual aos policiais, poderia ser mais bem aceito por estes.
Seu pai inclusive havia entrado em entendimento com o tenente José Tenório e o então todo poderoso coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão, maior inimigo conhecido do cangaceiro Lampião e comandante do 2º Batalhão da Polícia Militar de Alagoas, sediado na cidade de Santana do Ipanema. O coronel Lucena comentou ao velho Manoel Correia que seu filho não sofreria problemas, desde que auxiliasse as forças volantes no combate aos cangaceiros. Barreira então aguardou uma oportunidade de sair fora daquela vida de arma na mão.
Corisco
Percebemos igualmente no relato de Barreira ao jornalista que para ele, após as mortes na Grota do Angico, o desbaratamento dos grupos de cangaceiros era eminente e isso foi relevante para sua decisão. Além disso o conhecido chefe Corisco teria “fracassado terrivelmente” (talvez em uma provável rearticulação dos bandos) e estava “bebendo muito”. Quanto a Português, seu ex-chefe, Barreira o considerou “covardíssimo”, que “fugia das lutas” e apenas enviava seus cangaceiros em “missões” de extorsão e punição a fazendeiros da região que não lhes dava dinheiro.
E foi numa dessas “missões” que Barreira colocou seu plano de sair do cangaço em funcionamento[6].
Negociando Com Uma Cabeça
Ele, Atividade e o irmão deste, alcunhado Velocidade, seguiram na madrugada do dia 5 de setembro para o povoado de Belo Horizonte, próximo a propriedade Santo Antônio. O trio de cangaceiros era comandado por Atividade e tinham como missão incendiar uma casa no povoado, cujo proprietário era Elísio Maia. Porém Atividade ordenou a Barreira algo muito impactante e muito controverso – o jovem cangaceiro teria de “matar o seu próprio irmão e um seu tio, que lá moravam”[7].
Segundo o relato de Barreira ao jornalista do periódico “Jornal de Alagoas”, sem especificar como, este começou a “azucrinar” propositadamente a paciência do cangaceiro Atividade para evitar cumprir esta função. Na sequência, ao passarem próximo a um riacho, Atividade ordenou a Barreira que fosse buscar água para os cantis e teve início uma nova discussão. Nisso, a fim de evitar problemas, Velocidade se prontificou a fazer a tarefa, descendo por uma rampa até o riacho.
Era a oportunidade que Barreira queria e sem titubear este desfechou um tiro de rifle nas costas de Atividade!
Velocidade voltou rapidamente para socorrer o irmão e Barreira passou a descarregar vários balaços na direção deste. Ao jornalista do periódico alagoano Barreira afirmou que atingiu e matou Velocidade com seus tiros, o que é uma mentira, pois este cangaceiro foi capturado meses depois.
Após isso Barreira chegou próximo de Atividade, que segundo o seu algoz ainda estava vivo, e com um facão decepou lhe a cabeça[8].
Queria Ser Policial, Mas Ficou na Cadeia…
A história da decapitação de Atividade foi publicada em pequenas notas em alguns jornais do Rio de Janeiro e de outras capitais do Brasil. Não encontrei registros que a terrível fotografia circulou na imprensa.
Jornal A República, Natal, edição de 12 de setembro de 1938
Pouco tempo após a detenção de Barreira outros cangaceiros foram se entregando as autoridades, como o grupo do cangaceiro Pancada. Além deste chefe faziam parte do bando sua mulher Maria Jovina (ou Maria de Pancada), Cobra Verde, Peitica, Vinte e Cinco, Vila Nova e Santa Cruz. Todos foram levados para o quartel de Santana de Ipanema, onde Barreira se encontrava.
Entrega do grupo do cangaceiro Pancada – Fonte – cariricangaco.blogspot.com
Apesar do crime hediondo praticado por Barreira, que poderia ocasionar retaliação por parte dos outros cangaceiros, nada aconteceu. Acredito que os cangaceiros estavam mais preocupados com o seus incertos destinos naquele momento.
Sob as ordens do coronel Lucena havia uma atmosfera positiva no quartel e uma relação entre cangaceiros e seus antigos perseguidores que pode ser considerada como amistosa. Até porque os policiais precisavam da ajuda dos cangaceiros detidos para prender os que ainda se encontravam soltos, principalmente Corisco[9].
Atual fachada do antigo quartel de Santana de Ipanema onde ficaram detidos os cangaceiros. Depois foi o Ginásio Santana, atual Colégio Cenesista
Em novembro este grupo de cangaceiros estive em Maceió, a capital alagoana. Ali foram alvos de extrema curiosidade pública, tomaram banho de mar, realizaram compras no comércio acompanhados dos soldados e pagaram regiamente o que adquiriram. Os antigos cangaceiros estavam felizes e muitos comentavam aos jornalistas que desejavam ser policiais e não queriam mais ser chamados pelos seus antigos “nomes de guerra”[10].
O jornal carioca “A Noite”, na sua edição de segunda-feira, 14 de novembro de 1938, página 8, trás uma interessante reportagem sobre estes cangaceiros em Maceió. Os membros do antigo grupo de Pancada, além de Barreira, tiveram oportunidade de narrar um pouco de suas vidas antes e durante o período como cangaceiros.
João Correia dos Santos, o Barreira, então com apenas vinte anos de idade, era o mais novo dos bandidos. Nesta nova entrevista não negou que matou Atividade, não escondeu os motivos e nem que o decapitou. Mas acrescentou que era sempre “insultado” por ele. Daí em diante nesta entrevista, Barreira começou a mudar os relatos sobre sua vida pregressa.
Ele já não vinha mais do lugar Furnas, mas havia sido “vaqueiro do fazendeiro João Lessa, da cidade de Propriá” (quase 90 quilômetros de Pão de Açúcar). Já não havia entrado no grupo de Português obrigado, mas por vingança. Informou que passou apenas seis meses no cangaço e soltou a pérola que durante os combates “tinha vontade de passar para o outro lado, mas tinha medo de ser assassinado”. Finalizou que estava feliz, desejava ser policial e caçar seus antigos companheiros!
Barreira
Se assim desejava aparentemente ficou só na vontade, pois tudo indica que a polícia alagoana dispensou seus serviços como “caçador de cangaceiros”. Além disso, se Barreira imaginava que conseguiria amenizar alguma condenação trazendo a cabeça do cangaceiro Atividade para os policiais, isso funcionou em parte, pois ele ficou atrás das grades por quatro anos e seis meses.
Liberdade
Em uma entrevista realizada em 2012, concedida ao jornalista Antônio Sapucaia, do jornal “Gazeta de Alagoas”, o funcionário público aposentado José Alves de Matos, o antigo cangaceiro Vinte e Cinco, comentou que após passar mais de quatro anos na Penitenciária do Estado, em Maceió, gozava de certo privilégio naquele ambiente, a ponto de tornar-se o “chaveiro” da prisão.
Certa vez, provavelmente no segundo semestre de 1942, Vinte e Cinco recebeu a visita do Promotor Público Rodriguez de Melo, o qual ao se inteirar da situação dos ex-cangaceiros afirmou que nada poderia fazer em favor deles, a não ser que surgisse um milagre e o fato chegasse ao conhecimento do então Presidente da República, Getúlio Vargas, haja vista que todos estavam presos sem nenhum processo formalizado, à disposição do Governo do Estado.
Utilizando-se da confiança de que desfrutava, Vinte e Cinco recorreu ao engenheiro Ernesto Bueno, que estava preso por crime de homicídio contra um cidadão de Coruripe, pedindo-lhe que, em seu nome, escrevesse uma carta a Getúlio Vargas expondo a situação vexatória em que se encontravam. Seu pedido foi atendido e, usando de uma manobra habilidosa, apelou para uma mulher de nome Maria Madalena, que era encarregada de vender os produtos de artesanato que os presos fabricavam na prisão, a qual escondeu a carta no seio e depois a postou nos correios.
Segundo relata Vinte e Cinco, o Presidente Vargas, depois de manter contato com o Interventor alagoano Ismar de Góes Monteiro e com o Dr. José Romão de Castro, diretor da penitenciária, baixou um ato e pediu-lhes que os colocassem em liberdade, conseguissem empregos para todos, objetivando evitar o retorno deles à vida nômade e violenta no Sertão[11].
Cangaceiro Pancada na cadeia – Fonte – fotonahistoria.blogspot.com
Mas na reportagem do jornal carioca “O Globo”, edição de quinta-feira, 7 de janeiro de 1943, existe uma outra versão.
Nela o diretor da penitenciária, Dr. José Romão de Castro, informa que encaminhou para Alexandre Marcondes Machado Filho, então Ministro da Justiça e dos Negócios Interiores, através do Interventor Ismar de Góes Monteiro, uma exposição do aspecto jurídico e social da prisão, onde apresentou em linhas gerais o seu pensamento a respeito daqueles ex-cangaceiros, que se mostravam extremamente trabalhadores, obedientes e alguns muito estudiosos. Dos dez remanescentes, sete haviam se alfabetizado com o professor Manoel de Almeida Leite, dentre estes Barreira. Mérito dele!
Vale a leitura dos argumentos apresentados pelo Dr. José Romão de Castro para a soltura daqueles antigos combatentes das caatingas:
“Pois eles não podem ser encerrados como verdadeiros delinquentes uma vez que não havia entre eles e a sociedade aquilo que se chama semelhança social, harmonia de compreensão de deveres. Para eles, a figura de Lampião não era somente de chefe, a quem obedeciam, mas, sobretudo representava um princípio de autoridade, e, em torno de certas determinações, eles sentiam a última extensão da influência do poder público. Logo, penso que podem regressar ao meio social os últimos homens do grupo de Lampião, embora vigiados e sendo dado a cada um profissão certa.”
Seja pela carta enviada por Vinte Cinco, seja pelo parecer do Dr. José Romão de Castro, o certo é que no dia 10 de fevereiro de 1943, ao meio-dia, em meio a uma solenidade presidida pelo Dr. Ari Pitombo, Secretário do Interior, Educação e Saúde de Alagoas, os antigos cangaceiros foram libertados.
Barreira foi um dos que foram empregados pelo poder público de Alagoas e não perdeu a oportunidade oferecida[12].
Marcado Para Sempre
Vamos reencontrar este controverso ex-cangaceiro em uma reportagem de 1982 e em um momento muito festivo. Presentado pelo amigo Paulo Moreira, esta reportagem mostra que depois de quase 40 anos de trabalho como funcionário público estadual, lotado na Secretária da Fazenda do Estado de Alagoas, João Correia dos Santos se aposentava.
Gazeta de Alagoas, 7 de maio de 1982 – Fonte – Paulo Moreira
Neste período o antigo Barreira estava com 64 anos, era casado e pai de cinco filhos. Consta que sua passagem como funcionário público foi bastante positiva, a ponto dele ser considerado o “Funcionário Modelo do Estado” do ano de 1976 e receber um prêmio e um diploma das mãos de Divaldo Suruagy, então Governador de Alagoas.
Ainda nesta reportagem de 1982, o velho Barreira falou em tom bastante crítico sobre a minissérie da TV Globo “Lampião e Maria Bonita”, um grande sucesso na época. Para ele a obra televisiva “Nada tinha a ver com a história real”[13]. Que a protagonista de Maria Bonita na minissérie, a ótima atriz Tânia Alves, não era “branca o suficiente e os dedos da original eram mais curtos”.
Mas concordava que a Maria Bonita real, tanto quanto o personagem apresentado na minissérie, tinha influência sobre Lampião. Outra concordância estava no fato de que realmente Corisco recusou-se a se “amoitar” com Lampião na Grota do Angico. Barreira ainda discorreu sobre vários outros aspectos relativos ao local do derradeiro combate do chefe cangaceiro e de como seu desparecimento contribuiu para o fim do cangaço, principalmente diante das perdas dos contatos dos fornecedores de armas e munições[14].
Nesta reportagem Barreira pouco comentou especificamente sobre seu período como cangaceiro e nada sobre a morte de Atividade. Aquele degolamento e a triste foto daquele ato era um passado que não valia a pena recordar.
Igualmente não sabemos quando Barreira faleceu, mas sua passagem em relação a história do cangaço está firmemente associada à fotografia do degolamento de Atividade. Para a grande maioria dos pesquisadores do cangaço a figura de Barreira praticamente se centraliza apenas em seu ato covarde.
NOTAS
[1]Para aqueles que desejarem adquirir este livro entrem em contato com Luiz Ruben pelo telefone 75 – 3281 – 5080, ou pelo email –luiz.ruben54@gmail.com
[2]Pesquisadores apontam a data deste acontecimento como sendo em 5 de julho de 1938, o que acreditamos ser um equívoco.
[3]O periódico “Jornal de Alagoas”, edição de sexta-feira, 9 de setembro de 1938, apresenta o oficial José Tenório Cavalcanti com a patente de tenente. Mas o periódico “Diário de Pernambuco”, edição de 4 de agosto de 1938, quarta-feira, apresenta o oficial com a patente de capitão. Ficamos devendo a exatidão da informação neste detalhe e seguimos o pensamento do autor Luiz Ruben.
[5]No passado existia nesta região uma propriedade denominada Furna da Onça. Não sabemos se é o mesmo local, mas na atualidade existe na zona rural de Pão de Açúcar uma comunidade denominada Furnas, ou Furnas de Cima, localizada a cerca de 40 quilômetros da sede do município. Ver –http://www.paodeacucar.al.gov.br/?p=1692
[6]Ver BONFIM, Luiz Ruben F. de A. Fim do Cangaço: As Entregas. Paulo Afonso-BA: Edição do autor, 2015. Págs. 19.
[7]Na atualidade encontramos referência em Pão de Açúcar a uma propriedade rural denominada Belo Horizonte, mas não a um povoado. Ver –http://www.paodeacucar.al.gov.br/?p=3222
[8]Os irmãos Atividade e Velocidade eram nascidos na zona rural de Pão de Açúcar, sendo conhecidos na “vida civil” como Manoel e Pedro Pau Ferro. Integrantes da família destes rapazes já militavam nas fileiras do Cangaço quando eles iniciaram suas atividades no bando de Corisco. Existe a informação que Atividade era exímio castrador de homens, função que exercia com a maior presteza, eficiência e naturalidade, onde propalava que perdeu as contas das vítimas do seu horrendo oficio. Já Velocidade sobreviveu aos pretensos tiros disparados por Barreira. Segundo reportagem publicada no “Jornal de Alagoas”, em sua edição de 17 de dezembro de 1938, ele foi preso na fazenda Boa Vista, em Pão de Açúcar, pelo tenente José Joaquim Grande e sua volante, ajudados pelo ex-cangaceiro Pancada. Existe inclusive um interessante foto com o tenente Joaquim Grande, Velocidade, Pancada e outro militar. Os cangaceiros Atividade e Velocidade podem ser oriundos de uma propriedade denominada Pau Ferro, em Pão de Açúcar, que foi de João Vieira Damasceno em 1923. Sobre o cangaceiro Atividade e sua função de castrador ver –http://blogsolvermelho.blogspot.com.br/2012/09/manoel-pau-ferro-o-cangaceiro-capador.html
Sobre a notícia da prisão de Velocidade ver BONFIM, Luiz Ruben F. de A. Fim do Cangaço: As Entregas. Paulo Afonso-BA: Edição do autor, 2015. Págs. 53 a 55.
Sobre a foto do tenente Joaquim Grande, Velocidade, Pancada e outro militar ver ALBUQUERQUE, Ricardo (org). Iconografia do Cangaço. São Paulo-SP: Editora Terceiro Nome, 2012. Pág. 183.
Sobre a propriedade Pau Ferro ver Relação dos Proprietários dos Estabelecimentos Ruraes Resenceados, Directoria Geral de Estatística. Rio de Janeiro-RJ: Typografia da Estatística, 1923. Pág. 84.
[12]Ver BONFIM, Luiz Ruben F. de A. Fim do Cangaço: As Entregas. Paulo Afonso-BA: Edição do autor, 2015. Págs. 198 a 207.
[13]Primeira minissérie da TV Globo, “Lampião e Maria Bonita” foi exibida originalmente em 1982. Com os atores Nelson Xavier e Tânia Alves nos papéis principais, a trama contou como foram os últimos meses de vida do rei do cangaço. Com cenas gravadas no sertão nordestino, nos mesmos locais por onde andou Lampião, a minissérie ganhou prêmios internacionais e marcou a teledramaturgia da TV Globo. Ver –http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/minisseries/lampiao-e-maria-bonita.htm
[14]Consta que Barreira deu uma entrevista para uma revista alagoana em setembro de 1984, onde nada falou sobre o caso de Atividade. Ver BONFIM, Luiz Ruben F. de A. Fim do Cangaço: As Entregas. Paulo Afonso-BA: Edição do autor, 2015. Págs. 233 a 235. Existe a informação que no ano de 1990, por uma semana, o pesquisador Frederico Pernambucano de Mello recebeu o ex-cangaceiro Barreira em sua casa no Recife, onde este estudioso realizou entrevistas com o antigo celerado. Verhttp://lentescangaceiras.blogspot.com.br/2010/11/resposta-alcino.html
Extensão do domínio holandês no Nordeste do Brasil
Os holandeses do norte vinham em rebelião aberta contra a Coroa espanhola desde 1568, mas foi em 1602 e 1621 que eles levaram a guerra ao campo do inimigo. E foram eles, também chamados neerlandeses ou batavos, os primeiros europeus a arrancarem do controle dos conquistadores ibéricos um grande naco de terra no que hoje chamamos de América do Sul. Isso ocorreu no Brasil.
Para realizar estas conquistas os holandeses utilizaram uma empresa. A organização da Companhia das Índias Ocidentais, o empreendimento comercial conquistador holandês, é muitas vezes atribuída por historiadores ibéricos às maquinações de capitalistas judeus que fugiram (ou foram expulsos) de Espanha e Portugal, mas essa visão é insustentável. O investimento judaico no início de ações da Companhia (nominalmente capitalizada em sete milhões de florins) foi relativamente insignificante. Mas o verdadeiro impulso veio de exilados calvinistas holandeses, sendo estes particularmente proeminentes na formação da Companhia e nas listas de seus acionistas. Para os calvinistas o sentimento contra os espanhóis e portugueses era muito forte, onde a luta era considerada uma verdadeira guerra santa contra os católicos.
Prédio em Amsterdã, Holanda, sede histórica da Companhia das Índias Ocidentais, ou West-Indische Compagnie – WIC
Ao longo de sua história os holandeses reclamam que os ingleses apenas seguiram o rastro de suas conquistas; e, embora esta alegação não possa ser sempre justificada, não há dúvida de que foram os holandeses que suportaram o peso esmagador do monopólio colonial católico ibérico, que parecia tão maciçamente intacto em 1600.
As duas coroas ibéricas estavam unidas desde 1580 (a chamada união dinástica) e as Américas se tornaram um grande alvo para os holandeses, que decidiram iniciar suas operações militares atacando o Brasil, ao invés de México ou Peru. Pensavam os estrategistas batavos que os portugueses seriam vítimas mais fáceis e o governo de Madrid não reagiria de forma tão violenta a perda de terras portuguesas.
Uma vez estabelecidos no Brasil, os holandeses teriam uma base americana para operações contra os tesouros das frotas espanholas que traziam incalculáveis tesouros do Novo Mundo. Além de administrarem o crescente comércio de açúcar na sua origem e, eventualmente no futuro, marcharem por terra para as minas de prata de Potosi (Bolívia), grande manancial de riqueza da Espanha no Novo Mundo.
O Primeiro ataque
O golpe inicial da Companhia das Índias Ocidentais foi um sucesso espetacular e São Salvador, Bahia, caiu em maio de 1624.
Barco holandês
Foi alegado pelo célebre Lope de Vega, em seu “El Brasil Restituído”, que esta vitória holandesa ocorreu devido à traição dos judeus “cristão-novo”, ou cidadãos cripto judeu, que vislumbravam com os batavos a liberdade religiosa do culto judaico em terra de conquistadores católicos. A verdade foi que a derrota aconteceu pela covardia dos defensores de Salvador e a pela audácia do vice-almirante holandês Pieter Pietersen Heyn.
Mais ou menos ao mesmo tempo, na costa oposta da América do Sul, outra frota holandesa tentou dominar Callao, no Peru. Esta audaciosa tentativa falhou, mas os assentamentos espanhóis na costa do Pacífico foram jogados em um estado de tremenda confusão e alarme.
Contrariando as expectativas holandesas, a perda da Bahia despertou para uma ação decisiva o lento governo em Madri. Provavelmente porque eles reconheceram que o objetivo final holandesa não era o açúcar do Brasil, mas a prata andina.
Fonte – peregrinacultural.wordpress.com
Com uma velocidade e rigor excepcionais para o padrão administrativo ibérico, uma armada combinada portuguesa e espanhola foi mobilizada. Na verdade aquela era a maior frota que já tinha cruzado a linha do Equador em direção ao Brasil desde seu descobrimento em 1500. 52 navios, 14.000 homens e 1.185 armas de fogo surgiram fora de Salvador na véspera da Páscoa de 1625. Em 1 de maio a guarnição holandesa, que não era composta de idiotas, entregou-se a Dom Fadrique de Toledo Osorio, Capitão Geral da Armada. Logo uma frota chegou da Holanda e rapidinho se retirou, sem se aventurar a um contragolpe contra a grande esquadra combinada ibérica.
Enquanto os holandeses eram pela primeira expulsos do Brasil, os esforços deles para capturar um dos mercados de escravos portugueses na costa oeste da África também falhou desastrosamente e por negligência dos seus comandantes. Um cronista holandês escreveu que “no verdadeiro estilo militar, cada um jogou a culpa no outro”.
Se os protestantes holandeses venceram o primeiro round, os seus adversários católicos haviam decididamente vencido a segunda fase e a Companhia das Índias Ocidentais estava quase falida. Mas os calvinistas das Terras Baixas do Mar do Norte eram homens teimosos. Eles não desanimavam com golpes pesados e logo recomeçaram a afiar suas espadas.
Piet Hein – Fonte – en.wikipedia.org
Em pouco tempo o brilhante almirante Pieter Pietersen Heyn varreu os barcos de transporte ibéricos na costa brasileira entre 1626-1627. Em setembro de 1628 conquistou toda a frota de prata espanhola na Baía de Matanzas, Cuba, um feito sem paralelo.
Com o tesouro derivados destes e de outros ataques navais, a Companhia das Índias Ocidentais pagou todas as suas dívidas, declarou um dividendo de 50 por cento e em 1630 equipou outra expedição poderosa contra o Brasil (65 navios e 8.000 homens). Desta vez seu objetivo não era a Bahia, mas Olinda e Recife, na província de Pernambuco, a região produtora de açúcar mais rica do mundo e a parte mais próspera do Império Colonial Português.
O Doce Nordeste
O açúcar havia sido introduzido no Brasil a partir da Madeira e de São Tomé em 1530, mas foi no século XVII que se tornou “o século do açúcar”, devido ao grande aumento da procura por este produto na Europa, onde constantemente se tornou uma necessidade, em vez de um luxo.
A plantação de açúcar tipicamente brasileira era centrada no engenho, ou moinho para moer a cana-de-açúcar não refinado. Os principais centros de produção foram os distritos férteis conhecidos em torno de Olinda e Recife, em Pernambuco, e do Recôncavo, nos arredores de Salvador. Os plantadores de açúcar, ou senhores de engenho, geralmente viviam em suas propriedades e vinha para a cidade apenas para festas, ou para fiscalizar o transporte de suas colheitas. Com o aumento da produção cada vez mais os lusos importavam escravos negros africanos para o Brasil.
Engenho e tropas holandesas
Isso deu a sociedade brasileira colonial um selo marcadamente rural, em contraste com a da América contemporânea espanhola, onde os líderes da sociedade preferiam morar nas cidades do vice-reino do México e de Lima (Peru), ou no grande centro de mineração de Potosí.
Frei Manoel Calado escreveu um relato da luta Luso-Holandesa pelo nordeste do Brasil. Comenta que por volta de 1630 a produção de açúcar em Pernambuco havia chegado a um ponto em que os pilotos e mestres das grandes frotas de naus mercantes, que diariamente entravam e saíam do porto de Recife, competiam entre si em entreter os plantadores locais, a fim de conseguirem obter o transporte do doce produto.
Os seletos vinhos e víveres europeus foram importados de Portugal e dos Açores, enquanto sedas asiáticas e têxteis de qualidade eram tão abundantes nas lojas de Olinda como nas de Lisboa. O padrão de vida era excessivamente alto e qualquer chefe de família cuja tabela de serviço não era tabelada em prata maciça era considerado como miseravelmente pobre.
Olinda e ações navais holandesas
Pyrard de Laval, um marinheiro francês muito viajado, que visitou a colônia portuguesa em 1610, observou que “em nenhum país que eu tenho visto a prata é tão comum como nesta terra do Brasil. Você nunca vê pouco dinheiro por aqui”.
Mesmo que Olinda não se comparasse em tamanho ou em riqueza com a Cidade do México, Lima, ou Potosí, a doce riqueza que vinha do interior da província tornou a região um prêmio que valia a pena conquistar. A descrição de Manoel Calado desta região como o “espelho de um paraíso terrestre” não era mera hipérbole.
Vitória e Dominação
As ordens para os comandantes da força expedicionária holandesa de 1630 previam não só a captura de Olinda, mas, posteriormente o Rio de Janeiro (ou, alternativamente Salvador) e até mesmo de Buenos Ayres. Este programa revelou-se demasiado ambicioso.
As tropas invasoras não eram apenas compostas de holandeses, havia muitos mercenários de outras localidades na Europa, com líderes militares como excelente polonês Crestofle d’Artischau Arciszewski e o alemão Sigismund von Schoppe. Combateram em solo pernambucano muitos alemães, franceses e escandinavos formando talvez os maiores contingentes no serviço militar da Companhia. Havia até mesmo um bom número de ingleses – tantos que um capelão inglês protestante chamado Samuel Batchelor ficou alguns anos em Recife.
Apesar de Olinda e Recife terem sido tomadas sem muitas dificuldades, a resistência portuguesa no interior foi forte e teimosa. Para acabar este problema foi trazido um grande combatente, que se mostrou igualmente um grande administrador.
Nassau – Fonte – pt.wikipedia.org
A partir de janeiro 1637, até maio de 1644, a conquista holandesa no Brasil foi governada pelo príncipe Johan Maurits van Nassau-Siegen (ou simplesmente Mauricio de Nassau). Pouco depois de sua chegada, ele infligiu uma grave derrota ao napolitano Giovanni Vincenzo di San Felice, o Conde de Bagnolo, que comandou as forças portuguesas, espanholas em Porto Calvo (Alagoas) e as levou-o ao sul do Rio São Francisco.
Os defensores do Brasil foram desmoralizados por esta derrota, e Frei Manoel Calado, sem grande admiração pelos “senhores barrigudos”, como ele frequentemente chamava os líderes militares da resistência contra os batavos. O Frei maliciosamente relata como muitos deles fugiram para o sul.
Se Mauricio de Nassau seguisse o processo de avanço militar em direção sul, provavelmente ele teria tomado novamente Salvador para os holandeses. Mas o líder conquistador não percebeu toda a extensão de seu sucesso e quando um ano depois ele atacou a capital colonial, descobriu que aquele objetivo “não era o tipo de gato para ser tomada sem luvas”. Foi repelido com grandes perdas.
Este reverso foi mais do que compensado pela derrota, em janeiro de 1639, de uma grande armada português-espanhola que o governo Ibérico tinha finalmente conseguido mobilizar, após anos de esforços abortivos, para a recuperação de Pernambuco.
Com a captura de São Jorge da Mina, na Guiné (o mais antigo assentamento europeu na África Ocidental) e de Luanda, em Angola, os holandeses conseguiram o controle total do tráfico de escravos do Oeste Africano.
Engenho de açucar
Até o final de 1641, Mauricio de Nassau governou uma área no Brasil cujo litoral possuía mais de mil quilômetros.
Um Príncipe que Amava o Brasil
Mauricio de Nassau não era apenas um general capaz, mas um administrador de primeira classe e um governante que estava, em muitos aspectos, muito à frente de seu tempo.
No dia em que ele desembarcou em Recife ele se apaixonou pelo Brasil e não poupou esforços, dinheiro e energia para melhorar a colônia. No momento da sua chegada Recife tinha uma população com cerca de três mil almas e a superlotação foi terrível. Casas custavam a partir de 5.000 a 14.000 florins, enquanto a remuneração mensal dos empregados comuns da Companhia era de cerca de 60 florins.
Mapa de Recife
Ele melhorou e ampliou a cidade existente com novas (e pavimentadas) ruas, estradas e pontes. Ele construiu uma nova cidade chamada Mauritia (ou Mauritstadt) em uma ilha adjacente.
Nassau tinha trazido da Holanda uma comitiva cuidadosamente selecionada de quarenta e seis acadêmicos, artistas, cientistas, artesãos e naturalistas, os quais tiveram suas próprias funções e tarefas especiais.
Assim Pintores como Frans Post e Albert Eckhout (este último possivelmente um aluno de Rembrandt) pintaram vários aspectos da vida e da cultura local. Franciscus Plante estudou a antropologia social ameríndia, flora e fauna exóticas. O astrônomo saxão Georg Marcgraff fez observações celestes no Brasil e em Angola. Os trabalhos de cartografia de Cornelis Golijath, junto com Johannes Vingboons, contribuíram para consolidar o conhecimento das costas brasileiras naquela época. Já Caspar Barlaeus escreveu um relato da atuação de Mauricio de Nassau no Brasil, que foi denominado “História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil e Noutras Partes sob o Governo de Wesel, Tenente-General de Cavalaria das Províncias-Unidas sob o Príncipe de Orange” e publicado em 1647. Este livro contém grande número de mapas e ilustrações da região.
Nenhuma equipe de trabalho científico e artística dirigida por homens brancos nos trópicos foi novamente vista com tamanha capacidade e magnitude até as grandes expedições do capitão inglês James Cook e seus sucessores.
Não era de admirar que seus compatriotas o apelidassem de “Maurits, de Braziliaan” (Mauricio, o brasileiro).
Idade do Ouro
Nassau entendeu perfeitamente a importância de conciliar os plantadores de cana com a dominação holandesa e seus esforços conseguiram um considerável grau de sucesso neste item. Mesmo sendo um protestante convicto, numa época em que os calvinistas e católicos consideravam-se uns aos outros como inevitavelmente condenados ao fogo do inferno, Nassau deliberadamente tolerou os clérigos católicos locais, apesar da oposição dos ministros calvinistas coloniais.
Em um esforço para evitar os males da monocultura do açúcar, ele promoveu o cultivo de outras culturas, além de reduzir a tributação. Ajudou os plantadores a reconstruírem seus engenhos arruinados pela guerra e a comprar escravos em Angola. Até 1641 nada menos do que 120, de 160 engenhos de açúcar destruídos voltaram a funcionar. A produção total de açúcar durante o seu mandato foi estimado em 218.220 caixas, no valor de 28 milhões de florins.
Nassau observou que o segredo de governar Pernambuco foi lembrar aos comerciantes holandeses a importância objetiva do seu dinheiro e dos seus bens para as suas vidas. Enquanto aos portugueses ele buscava tratá-los com cortesia e polidez excessiva e não com justiça rigorosa e imparcial.
Dança dos Tapuias, índios aliados dos holandeses. Quadro de Albert Eckhout
Os fazendeiros portugueses, segundo ele, eram em sua maioria “muito pobres e muito orgulhosos”. Nassau substituiu os vereadores portugueses pelos magistrados e subdividiu as capitanias em distritos, locais onde as câmaras neerlandesas se fixariam posteriormente. Durante o governo de Nassau a paz entre luso-brasileiros e os neerlandeses se estabeleceu no Brasil e este período ficou conhecido como “Idade do Ouro”.
Mudanças Importantes
Nesse meio tempo, em dezembro de 1640, um complô aristocrático liquidou 60 anos de domínio espanhol sobre Portugal. A revolta bem sucedida foi rapidamente seguida pela adesão de todas as colónias portuguesas (com exceção solitária de Ceuta, até hoje uma das últimas possessões espanholas). Em Junho de 1641 Portugal e a Holanda celebram um tratado de trégua de dez anos quanto às respectivas colônias. No Brasil esta trégua foi vista de forma negativa por ambos os lados.
Dom João IV se tornou o primeiro monarca português da Casa de Bragança e isso apresentou os holandeses com um delicado problema diplomático. Por um lado saudaram o enfraquecimento de seu inimigo tradicional espanhol (com quem os batavos só fizeram a paz em 1648), mas por outro lado eles estavam relutantes em parar seus ataques rentáveis na desintegração do Império Colonial Português.
Antes da trégua de dez anos entrar em vigor os neerlandeses tiveram o cuidado de dominar tanto território ultramarino Português quanto fosse possível. Maurício de Nassau por recomendação dos diretores da Companhia das Índias Ocidentais mandou ocupar Sergipe e o Maranhão.
Naturalmente esta atitude foi vista de forma muito amarga pelos portugueses, que ao se livrarem jugo espanhol esperavam poder até voltar a dominar parte do que eles tinham perdido no nordeste do Brasil, ou por negociação mediante compra, ou por troca.
Nisso outros problemas foram prejudicando os holandeses no Brasil.
Membro de um grupo de reencenação histórica, com uniforme típico holandês do século XVII.
Devido a fortes enchentes, a safra de açúcar entre 1641 e 1642 foi baixa. A escravaria foi atacada por uma praga de “bexigas” (varíola) vinda de Angola. A queda dos preços do açúcar refletiu-se no valor do preço dos imóveis em Recife, que se reduziu em 1/3. A receita fiscal da Companhia caiu na mesma proporção. Em quatro anos, o tráfego marítimo com a metrópole se reduziu de 56 para 14 embarcações anuais.
Após sete anos, mesmo tendo desenvolvido uma política conciliadora e tolerante, Nassau não conseguiu impedir contradições insolúveis. Divergências entre sua forma de governar e os lucros esperados pela Companhia levaram-no a deixar o cargo e retornar à Holanda e ele partiu em 23 de maio de 1644. A saída de nassau foi lamentada por toda a colônia e marcou o início do declínio da Holanda Brasil.
Logo os novos dirigentes holandeses que sucederam Nassau, sem considerar o testamento político realizado anteriormente pelo príncipe, passaram a cobrar a liquidação das dívidas aos produtores de cana inadimplentes. Senhores de engenho e lavradores de cana deviam à Companhia 5,7 milhões de florins e começou a existir a ideia que somente expulsando os batavos é que “se livrariam das dívidas”. Em meio à crise social e econômica, a animosidade mútua entre rígidos calvinistas e católicos fanáticos aumentou rapidamente.
A Rebelião
Consta que em 15 de maio de 1645 (para outros foi em 23 de maio) dezoito líderes insurretos, liderados por João Fernandes Vieira, se reuniram no Engenho de São João, onde assinaram um compromisso para lutar contra o domínio holandês. Afirma-se que neste documento foi escrito pela primeira vez o vocábulo pátria em terras brasileiras.
Retrato anônimo de João Fernandes Vieira, século XVII, Museu do Estado de Pernambuco.
O líder João Fernandes Vieira era ex-sócio dos holandeses no tempo de Nassau e o segundo maior devedor da Companhia quando assumiu a liderança dos insurretos. Uma das primeiras medidas de João Fernandes foi decretar nulas as dívidas que os rebeldes tinham com os holandeses. Houve grande adesão da “nobreza da terra”, entusiasmada com esta “proclamação heroica”.
A rebelião explodiu em 13 de junho de 1645, dia de Santo Antônio de Lisboa. Uma Guerra de Reconquista, ou Guerra de Restauração, que sangrou basicamente Pernambuco por nove anos.
Teoricamente as chances holandesas de eventualmente esmagar a rebelião continuavam excelentes. Estes possuíam o domínio indiscutível do mar, uma vez que os insurgentes não tinha um barco maior do que uma canoa à sua disposição. Mas embora os holandeses pudessem aliviar Recife, ou mesmo bloquear Salvador, eles não fizeram maiores esforços para afastar e dominar os insurgentes.
Embora os insurgentes pedissem auxílio ao rei D. João IV, o monarca português não podia dar ao luxo de antagonizar os holandeses, ajudando abertamente seus súditos no Brasil. Em público ele abandonou a colônia, enquanto secretamente enviava homens e suprimentos por meio da Bahia.
As mal armadas caravelas portuguesas, que levaram estes reforços periódicos, foram frequentemente interceptados pelos holandeses, cujos corsários também realizavam estragos contra os barcos que transportavam açúcar e se dirigiam para Portugal. 249 navios portugueses foram tomados entre 1647 e 1648. Se as perdas portuguesas continuassem neste ritmo a rebelião teria inevitavelmente em colapso, já que não havia uma indústria de armas no Brasil.
Vitória Luso-brasileira
O ponto decisivo da luta veio em abril de 1648, justamente quando as coisas pareciam ficar mais difíceis para os luso-brasileiros. Em março deste ano fortes reforços holandeses chegaram a Recife. Mas um grave problema existia no seio da tropa – os oficiais dos reforços recém-chegados tinham recebido um bônus considerável em dinheiro, ao passo que os soldados não tinham recebido nada e os salários estavam em grande parte atrasados. Muitos dos homens que compunham as tropas batavas se recusaram a lutar no dia da batalha, gritando “deixar que aqueles que foram pagos vão a luta; não vamos lutar sem remuneração”.
As Batalhas dos Guararapes, episódios decisivos na Insurreição Pernambucana, são consideradas a origem do Exército Brasileiro. Quadro de Domingos Meireles – Fonte – pt.wikipedia.org
Foi quando em 19 de abril ocorreu a derrota holandesa nos Guararapes!
Os holandeses ainda nem tinham se recuperado deste revés quando veio a notícia da perda de Luanda, em Angola, recapturada em agosto por um esquadrão Português vindo do Rio de Janeiro.
O desastre de Guararapes se repetiu em fevereiro de 1649, em situações ainda pior, mostrando a disposição dos portugueses e dos brasileiros nativos em expulsar os hereges. A partir deste momento os holandeses ficaram praticamente confinados em Olinda e Recife.
Apesar destas derrotas em terra, o resultado da luta ainda estava em jogo. A força naval holandesa permaneceu esmagadoramente superior a de Portugal, mas a eclosão da guerra anglo-holandesa em 1652 (a chamada Primeira Guerra Anglo-Holandesa e travada inteiramente no mar) impediu um esforço realmente determinado de reconquistar Pernambuco. Esta guerra deu a D. João IV a chance de ajudar abertamente os combatentes luso-brasileiros em Pernambuco.
Uma frota partiu de Lisboa para o Brasil em Outubro de 1653 e recebeu ordens de não apenas bloquear Recife a partir do mar, mas de “invadir o local”. Foi uma oportunidade fugaz, mas muito valiosa para Dom João IV. Quando em dezembro a frota chegou diante de Recife e desembarcou homens para reforçar os insurgentes em terra, a guarnição e burgueses holandeses praticamente perderam a vontade de lutar.
Em 26 de janeiro de 1654 os termos da capitulação foram assinados em Recife e todos os outros fortes e lugares ainda em mãos dos holandeses ao longo da costa do nordeste brasileiro se renderam, com todas as honras de guerra, a Francisco Barreto, o comandante de campo português.
Era o fim da ocupação holandesa no Brasil.
Conclusão
O tratado de paz que Portugal concluiu em 1661 com a Holanda (sob forte pressão inglesa), fez os holandeses reconhecerem formalmente a perda de sua colônia sul-americana. Mas o desastre de 1654 marcou duramente este povo em todo o mundo.
Quando prisioneiros holandeses encarcerados pelos portugueses em Goa, na Índia, foram informados da derrota no Brasil, eles se recusaram a acreditar. Comentavam desesperados que “um dia o português pode levar Amsterdam, mas Recife nunca!”. Mas levaram!
Houvessem os holandeses continuado e ampliado a politica administrativa desenvolvida por Mauricio de Nassau, talvez o nordeste brasileiro jamais tivesse voltado a ser português e toda a história holandesa poderia ter cambiado drasticamente.
Mais tarde, gerações de holandeses consideravam que a verdadeira negligência em na perda territorial do nordeste do Brasil foi o fim da idade de ouro da expansão colonial holandesa, que tinha começado com a fundação da Batávia por Jan Pieterszoon Coen, na atual Indonésia, em 1619.
Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte
Os fatos relacionados ao fenômeno do cangaceirismo possuem em suas variadas narrativas, locais que são referências pelos acontecimentos ali ocorridos. Pontos que se tornaram conhecidos por batalhas, ataques a cidades, assaltos e outros episódios, quase sempre associados ao sangue derramado, a valentia apresentada ou a derrota sofrida.
Serras na fronteira entre a Paraíba e Pernambuco.Foto Sólon R. A. Netto.
Na área onde as fronteiras entre os Estados de Pernambuco, da Paraíba e do Ceará se encontram, existem no lado pernambucano um destes locais. Trata-se de uma elevação natural, com altitudes que chegam a mais de 1.000 metros e conhecida como Serra do Catolé. Este ponto geográfico, localizado ao norte da cidade pernambucana de São José de Belmonte, se tornou conhecido dentro do chamado “Ciclo do Cangaço”, por ser apontado por consagrados autores, como o local onde existiam grutas que serviam de esconderijos a cangaceiros famosos, como os de Sinhô Pereira e Luís Padre, além do “aluno” do primeiro, Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião.
Junto com os amigos Sólon Rodrigues Almeida Netto e Alex Gomes partimos da cidade paraibana de Manaíra, na fronteira com Pernambuco, seguimos acompanhados do amigo Antônio Antas, que estava nos ajudando na função de guia na região. Conhecedor das histórias dos cangaceiros e dos inúmeros confrontos na região do Pajeú pernambucano, além de privilegiada fonte de informações, Seu Antonio é um homem da conversa franca, aberta e prazerosa.
Nosso guia na região e verdadeira enciclopédia do cangaço, Sr. Antônio Antas. Foto-Sólon R. A. Netto.
A Saga dos Pereiras
Ele nos conta como se deu a luta dos Pereiras, hoje um verdadeiro mito na região.
Sinhô Pereira ou Sebastião Pereira e Silva nasceu em 1896, na antiga Vila Bela, atual Serra Talhada, na região do Pajeú, Pernambuco. Era sobrinho-neto de um rico fazendeiro, que possuía o titulo nobiliárquico de Barão do Pajeú.
Desde os tempos que os primeiros brancos chegaram ao Pajeú, estes viveram principalmente da criação de gado. Como a pecuária requer uma larga extensão de terras, em meio a uma região de gente valente, com a quase total ausência do Estado, não era rara a ocorrência de conflitos sanguinolentos entre famílias, que chegaram a durar décadas.
Em 1848, quase cinquenta anos antes do nascimento de Sinhô Pereira, sua família entra em desavenças políticas com a família Carvalho. Em 1907, com o endurecimento deste conflito, foi assassinado o então líder dos Pereiras, Manoel Pereira da Silva Jacobina, conhecido como Padre Pereira, que era assim conhecido por ter estudado em um seminário em Olinda, Pernambuco. Terra de bravos e com a quase total ausência do Estado, Pouco tempo depois, em resposta, um dos chefes dos Carvalhos é morto.
Três irmãos de Sinhô Pereira assumem por parte da família o combate contra os Carvalhos. Em 1916, um destes irmãos, conhecido como Né Dadu é morto no conflito e Sinhô Pereira assume seu papel no conflito fratricida.
Sinhô Pereira e Luís Padre (em pé).
O falecido Padre Pereira tinha como filho Luiz Pereira Jacobina, conhecido como Luiz Padre e primo de Sinhô Pereira. Logo os primos estarão à frente de um grupo de cangaceiros, que não vão se caracterizar pela rapinagem franca e aberta contra alvos aleatórios, mas pela missão proeminente de destruir a tudo e a todos que pertenciam, ou eram ligados aos Carvalhos. Os primos utilizavam o vilarejo de São Francisco, na época crescendo em número de habitantes, como sua principal base de apoio.
A forma de combate dos Pereiras é a guerrilha sertaneja. Para eles não existe outra opção, pois além de poderosos e bem armados, as ligações políticas dos Carvalhos com o poder constituído de Pernambuco, colocava ao lado destes a força policial.
Os fatos envolvendo estas lutas se perpetuaram na região; em uma manhã de junho de 1917, à frente de sete homens, Sinhô Pereira e Luís Padre atacaram a fazenda Piranhas, em Serra Talhada. Apesar de perderem um dos seus companheiros e terem outros feridos, o saque foi alto e a destruição intensa.
Em outro caso, o grupo dos Pereiras chegou um dia antes do casamento de um aliado dos Carvalhos, que evidentemente não ocorreu mais, onde a lua de meu do noivo foi de rifle na mão e perseguindo os Pereiras no meio da caatinga.
A perseguição das autoridades aos Pereiras era intensa, as vezes absurda. Em abril de 1919, após um combate contra o bando onde morrerem nove soldados. Os policiais pernambucanos, comandados pelo Coronel João Nunes, como forma de quebrar a resistência dos primos cangaceiros, simplesmente decidiram saquear e queimar totalmente o vilarejo de São Francisco. E assim foi feito!
Em meio a estes conflitos, os Pereiras utilizaram o apoio de fazendeiros da região para terem proteção e aproveitarem os vários esconderijos oferecidos, ou “coitos”.
Segundo o livro do jornalista cearense Nertan Macedo, intitulado “Sinhô Pereira-O comandante de Lampião” (pág. 87, Ed. Artenova, 1975), afirma que Luís Padre possuía terras na Serra do Catolé, onde o bando se escondia. Teriam eles utilizado cavernas?
Para nós que estávamos na região pesquisando, a suspeita era pertinente, pois outras publicações clássicas sobre o cangaço narram que grutas da Serra do Catolé foram utilizadas como esconderijos por Lampião e seu bando (Optato Gueiros, in “Lampeão-Memórias de um oficial de Forças Volante”, 4ª Ed., Editora Livraria Progresso, 1956, págs. 83 a 92 e Francisco Bezerra Maciel in “Lampião, seu tempo e seu reinado-Livro II-A Guerra de Guerrilhas-Fase de Vendetas”, 2ª Ed., Editora Vozes, 1987, págs. 115 a 129). Como sabemos que muito do aprendizado de Lampião e seus irmãos no cangaço foi passado por Sinhô Pereira, era bem possível que este tenha ensinado ao “Rei dos Cangaceiros”, os principais locais de esconderijo na serra?
Para tirar a dúvida, bastava ir lá.
Até o encontro com o Senhor Antonio Antas, estas eram a únicas informações que possuíamos sobre a passagem do bando dos cangaceiros pela serra. Nosso informante confirmou tudo que fora escrito nos velhos livros e acrescentou outras informações, nos animando para continuar a jornada.
Indicações
Seguimos pela bela cidade serrana de Triunfo, em direção a Serra Talhada, depois pela BR-232, até o entroncamento em direção a São José de Belmonte, percorrendo mais de 50 quilômetros de boas estradas de asfalto.
A partir de São José de Belmonte o caminho para a Serra do Catolé segue por 25 quilômetros de estradas de barro, até o distrito do Carmo. Neste aglomerado urbano, soubemos da existência do Senhor Francisco Maciel da Silva que poderia nos dar boas informações.
Carmo, em São José de Belmonte, Pernambuco. Foto-Alex Gomes.
Vivendo em uma casa simples do lugarejo, idoso, mas lúcido, o Senhor Maciel é um homem de pequena estatura, lento nos gestos e que utiliza um par de óculos com grossas lentes para poder enxergar. Apesar disto, a firmeza da sua voz, a lucidez e o forte aperto de mão, não deixam transparecer que ele possui 97 anos de idade. E comentou que durante anos viveu no alto da Serra do Catolé e que na sua propriedade existe uma gruta que foi utilizada como esconderijos de cangaceiros.
Já sua filha Maria do Carmo Rodrigues da Silva, de 66 anos, informou que quando ainda moravam no alto da serra, muitas vezes seus filhos traziam desta cavidade, cascas de balas de fuzis detonadas ou ainda intactas e em uma ocasião, um deles achou uma espécie de chave de fendas, aparentemente utilizada para manutenção rifles. Dona Maria nos informa que estes fatos não se restringiram apenas a pequenos objetos. Em anos passados, ela não recorda quando, em outro sítio existente na região da serra, em uma ocasião em que trabalhadores capinavam próximos a uma pequena gruta, foram encontrados dentro desta, segundo suas palavras; “um mundo de rifles socados nas furnas”.
Devido à idade, o Senhor Maciel não pode nos acompanhar, mas informou que um amigo por nome de Luiz Severino dos Santos, morador do Sítio Catolé, saberia muita coisa sobre estes esconderijos.
Os Caminhos para A Serra do Catolé
Seguimos então para a serra por uma estrada de péssima qualidade.
No trajeto percebemos a pequena quantidade de habitações existentes ao longo do caminho, onde a maioria delas se encontra com as portas fechadas, sendo difícil acharmos pessoas quem possa nos dar alguma informação. Vimos pequenas estradas vicinais, seguindo para pontos ignorados, onde mesmo com a ajuda do GPS, acabamos nos perdendo em algumas ocasiões.
Ao buscarmos informações com as poucas pessoas que encontramos, estes se mostraram arredios, desconfiados com quatro homens em um jipe EcoSport. Este comportamento estranho, bastante diferente do que estamos acostumados a encontrar nas nossas andanças pelo sertão nordestino, se explica pelo isolamento do local e a proximidade de três fronteiras estaduais, por onde “passa todo tipo de gente e bicho” como nos disse um lavrador local. Se hoje é assim, imaginemos então no tempo do cangaço.
Apesar dos percalços, cada vez mais a serra surgia imponente.
Subindo a Serra do Catolé. A árvore que da nome a serra são as palmeiras a direita do carro. Foto-Alex Gomes.
A Serra do Catolé possui características interessantes; além de elevada, extensa, é coberta com uma imensa quantidade de palmeiras conhecidas como coqueiro catolé (Syagus cromosa). Esta árvore, característica dos cerrados, é igualmente vista em praticamente toda a região Nordeste do Brasil, principalmente em locais com maior altitude, chega a ter em media 7 metros de altura e fornece uma amêndoa que se produz um fino óleo que é utilizado na culinária nordestina. Da sua polpa, principalmente no Ceará, se produz uma bebida chamada aluá e antigamente o sertanejo encontrava nesta caridosa árvore um palmito de gosto amargo, utilizado para temperar carne.
Entre esta verdadeira floresta de coqueiros catolé, vemos uma grande concentração de enormes blocos de granito, sendo esta outra característica desta interessante serra. Foi devido à ação da erosão, ao longo de milênios, que estes blocos rolaram ao longo dos declives da serra, e, ao se juntarem a outros blocos, formaram as cavidades naturais que os valentes cangaceiros do bando de Sinhô Pereira utilizaram em meio as suas lutas.
O “Coito” dos Pereiras e a Gruta da Pedra de Dé Araújo
Em meio a tantas pessoas com o semblante desconfiado, foi uma benção encontrar o riso aberto do Senhor Luiz Severino dos Santos. Homem tranqüilo, forte para seus 66 anos, comenta que nasceu na serra e de lá, no máximo só saiu até Serra Talhada. Para nossa surpresa, no começo do nosso diálogo, ao ser perguntado sobre estes esconderijos, ele confirma a existência das grutas e comenta que elas foram esconderijos usados pelo bando do seu avô, o próprio Luis Padre.
Surpresos diante desta declaração, passamos a conversar e buscar novas informações.
Conhecendo a história. Foto-Alex Gomes.
Segundo o Senhor Severino, a família de Luís Padre era proprietária do Sítio Catolé antes mesmo do inicio das “brigadas” contra os Carvalhos. Entre uma pausa e outra da luta, Luis Padre, Sinhô Pereira e o bando seguiam para a Serra do Catolé, onde se refaziam para novos combates. Aparentemente, entre estas pausas, Luís Padre iniciou um relacionamento com a sertaneja Ana Maria de Jesus. Logo deste encontro nasceram duas filhas do célebre cangaceiro, Emília e Agostinha Pereira da Silva, a última foi a genitora do nosso informante, sendo ela quem narrou as peripécias e as andanças do seu pai no cangaço.
As características de isolamento e as dificuldades naturais de acesso a serra, proporcionaram aos cangaceiros um verdadeiro local de descanso e apoio, mas por medo da polícia descobrir estes locais, o Senhor Severino informou que a permanência do grupo era sempre rápida e controlada. Todos os acessos eram vigiados, ninguém entrava ou saia da serra sem que Luis Padre e Sinhô Pereira soubessem. Percebemos a importância estratégica da serra e do Sítio Catolé, pois estamos a somente 18 quilômetros da fronteira cearense e a 3 da Paraíba, mostrando que a partir deste local estas fronteiras poderiam ser ultrapassadas e outros locais de apoios e de combate poderiam ser alcançados.
Em relação às cavidades, Seu Severino comenta que existem várias na região, que o grupo se escondia nelas quando havia notícias das proximidades da polícia, ou quando algum dos cangaceiros estava ferido.
No abrigo de “Dé Araújo”. Foto-Alex Gomes.
Devido ao nosso tempo curto, pedimos para conhecer a mais representativa em sua opinião. Ele escolhe para uma que sua mãe lhe contou ter ido a este local, ainda criança, levada pelo pai cangaceiro, para ver um dos seus companheiros de luta que se recuperava de um balaço recebido. Ela lhe contou que o cangaceiro se chamava “Dé Araújo”, que havia sido ferido no combate das “Piranhas”, sendo trazido nas costas dos companheiros, onde foi tratado com raízes e produtos naturais. Na medicina destes cangaceiros, eles utilizavam um cipó facilmente encontrado na serra, que chamavam “cipó de baleado”, onde o mesmo era pilado, colocado sobre a ferida da bala, que cicatrizava o ferimento.
A cavidade passou a ser conhecida na região como “Gruta da Pedra de Dé Araújo”, sendo formada por um matacão granítico rolado e internamente, no centro da cavidade existe uma área arenosa, plana, onde sua mãe lhe dizia ser o “leito” do cangaceiro “Dé Araújo”, que se recuperou plenamente e voltou a luta. O Senhor Severino não soube informar se este lugar “Piranhas”, fora a mesma fazenda Piranhas, atacada pelo bando dos Pereiras em junho de 1917.
Religiosidade do sertanejo. Foto-Sólon R. A. Netto.
Em 1919, com o endurecimento da luta, onde a vitória total era impossível, mas a honra da família estava mantida, o conflito entra em um impasse. Neste momento surge a figura do famoso Padre Cícero, da cidade de Juazeiro, Ceará. O sacerdote pede aos Pereiras que deixem a região, que sigam para “o Goiás em busca de paz”. Eles acatam o pedido do religioso e decidem partir separadamente, levando cada um deles, um número reduzido de homens, os de maior confiança. Luís Padre consegue chegar a Goiás, mas Sinhô Pereira entra em combate no Piauí e, sem conseguir ir adiante, retorna para o violento Pajeú.
Tempos depois, em 1920, um pequeno grupo de seis cangaceiros, comandado pelo caçula dos três irmãos Ferreira, de nome Virgulino, entra no bando de Sinhô Pereira. Eles buscam vingança contra um vizinho de propriedade e de um tenente da polícia alagoana que havia matado seu pai. Durante dois anos Virgulino Ferreira da Silva, seria tornaria braço direito de Sinhô Pereira e aprenderia muito com o chefe, inclusive os esconderijos da Serra do Catolé. Em agosto de 1922, atendendo a outro pedido do Padre Cícero e acometido de problemas reumáticos, Sinhô Pereira deixa o Nordeste em direção a Goiás, onde reencontra o primo e juntos vão participar de outras lutas.
A Gruta que salvou Lampião
Chico Barbosa, já falecido, foi um agricultor que possuía uma pequena propriedade na Serra do Catolé. Morava próximo ao Senhor Severino, de quem era grande amigo e lhe contou ter sido durante algum tempo, cangaceiro do bando de Lampião.
Lampião, o “Rei do Cangaço”.
A razão da entrada do bando, de onde ele veio, o “nome de guerra” que adotou no bando e como Chico Barbosa deixou o cangaço, ele nunca declinou ao amigo e nem o Senhor Severino perguntou.
Ocasionalmente, quando queria, Chico Barbosa comentava ao vizinho suas andanças “nos tempos dos clavinotes”. Em um destes relatos comentou que chegou à Serra do Catolé através da passagem do bando pelo lugar, quando Lampião foi ferido no pé.
O caso se deu assim; no dia 23 de março de 1924, por volta das dez da manhã, uma volante comandada pelo major da polícia de Pernambuco, Thoephanes Ferraz, teve um encontro com Lampião e dois cangaceiros em uma área próxima a Lagoa do Vieira, distante apenas cinco quilômetros da Serra do Catolé. Na luta, o chefe cangaceiro foi seriamente atingido no pé e sua montaria foi morta, caindo sobre a perna de Lampião. Apesar disto, o bandoleiro consegue fugir. Seu bando então segue para o alto de uma serra, onde o chefe passa por uma recuperação. Sobre este caso ver https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/02/10/quando-lampiao-quase-foi-aniquilado/
Alguns dias depois, segundo o boletim oficial emitido pelo mesmo major Theophanes Ferraz, às cinco e meia da tarde do dia 2 de abril, uma tropa do seu setor de ação, ataca o acampamento dos cangaceiros e morrem dois perigosos bandidos, Lavadeira e Cícero Costa. Já Lampião, ao empreender fuga, abre o ferimento e tem início uma séria hemorragia.
O chefe se esconde nas moitas, por pouco não é descoberto pela polícia. Durante três dias Lampião padece no meio da caatinga sem água ou alimentos, com uma grave ferida aberta. Por sorte um garoto o encontra, este chama seu pai, que começa a tratar do cangaceiro. Após se recuperar, Lampião manda comunicar a seus irmãos, que chegam ao local com um bando calculado em cinqüenta cangaceiros, entre eles supostamente estaria Chico Barbosa. Neste ínterim, a polícia sabia do grave ferimento de Lampião e as buscas na região eram intensas. Sem condições de seguir para algum local aberto para um tratamento melhor, o grupo seguiu para a Serra do Catolé.
Gruta que salvou Lampião. Foto Alex Gomes.
Chico Barbosa comentou que primeiramente Lampião veio para a gruta da “Casa de Pedra da Boa Esperança”.
O Senhor Severino, com extrema boa vontade nos levou a esta cavidade natural. Seguimos de carro em torno de dois quilômetros, até um ponto onde subimos uma parte da serra a pé, seguindo no meio de uma plantação de milho. O que vemos a partir do ponto onde se localiza a gruta é estonteante, é possível visualizar parte do Ceará e da Paraíba.
Chico Barbosa comentou ter Lampião sido transferido para outras cavidades na Serra do Catolé, como a Furna da Onça, localizada na fazenda Ingá. Mas foi na Casa de Pedra da Boa Esperança que ele passou mais tempo se recuperando. A razão era o isolamento do lugar e sua localização privilegiada.
Um mês após esta peregrinação por cavidades, o chefe cangaceiro será protegido por ricos latifundiários da fronteira entre Pernambuco e Paraíba, aonde vai se recuperar plenamente combatendo por mais quatorze anos, até ser liquidado em julho de 1938, na Grota de Angico, em Sergipe. Durante a continuidade da sua luta, onde vão morrer todos os seus irmãos que aderiram ao cangaço, ele vai incorporar ao bando mulheres, como a sua Maria Bonita e vai participar de inúmeros combates. Apenas ocasionalmente, na região próxima a zona do rio São Francisco, e de forma ocasional, o “Rei do Cangaço” voltara a utilizar cavidades naturais como abrigo.
Conclusão
Ainda criança, Agostinha Pereira viu seu pai Luís Padre, fugir para terras distantes e dele então não teve mais notícias.
Nos anos 50, chega a Serra Talhada um jovem bem instruído, simpático, de fala tranquila e vindo do sul do país. Ele busca entrar em contato com parentes de Luiz Pereira Jacobina, o temido Luiz Padre.
Foto de Luís Padre (a direita), entregue pelo seu filho. Foto- Solón R. A. Netto.
Era o goiano Hagaús Pereira, ativo membro da sociedade da cidade goiana de Dianópolis, filho de Luiz Padre, que a seu pedido buscava entrar em contato com a família deixada na Serra do Catolé. O Senhor Severino nos conta que uma parte da sua família seguiu para Goiás. Ele foi convidado, mas na última hora as belezas da serra falaram mais alto e ele está por lá até hoje.
Luiz Padre faleceu em 1965. Do avô que não conheceu ficou uma foto.
Para os privilegiados moradores deste local, a utilização da Serra do Catolé pelos cangaceiros no passado é um momento da história que cada dia mais se perde diante da concorrência desleal da televisão, provocando o desinteresse dos jovens em ouvir dos mais velhos os “causos” do passado.