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DE POBRE ABANDONADO A RICO ESCRITOR – JACK LONDON PREDESTINADO A NUNCA ENVELHECER

Fonte – https://www.designdoescritor.com/single-post/2018/11/27/De-pobre-abandonado-a-rico-Escritor—Jack-London-predestinado-a-nunca-envelhecer

Um extremista, radical e pesquisador, Jack London nunca foi destinado a envelhecer. Em 22 de novembro de 1916, London, autor de Chamado Selvagem, morreu aos 40 anos. Sua curta vida foi controversa e contraditória.

Nascido em 1876, o ano da Batalha de Little Bighorn e da morte do general George Amstrong Custer, o escritor prolífico morreria no ano em que John T. Thompson inventou a submetralhadora. A vida de London personificava a frenética modernização dos Estados Unidos da América entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. Com sua sede de aventura, sua história de sucesso e suas ideias políticas progressistas,os seus escritos espelhavam a transformação do poder global urbano-industrial. 

Com um olhar atento e um senso inato, London reconheceu que um crescente número de leitores do país estava pronto para um tipo diferente de escrita. O estilo precisava ser direto,robusto e vívido. E ele tinha um forte atrativo para os leitores americanos, que eram propensos à nostalgia criativa. Notavelmente, as suas histórias endossavam reciprocidade, cooperação, adaptabilidade e determinação. Em seu universo fictício, lobos solitários morrem e machos alfas abusivos nunca vencem no final.  

Local de Memória de London

O Parque Histórico Estadual Jack London, de 566 hectares, fica no coração da região vinícola de Sonoma Valley, a cerca de 100 quilômetros ao norte de San Francisco, em Glen Ellen, Califórnia. 

Originalmente essa terra era o local do Beauty Ranch, onde Jack London buscava realizar pesquisas em agricultura científica e na criação de animais, mas também servia para suas inspirações. “Eu saio do meu lindo rancho”, escreveu London. “Entre minhas pernas está um lindo cavalo. O ar é vinho. As uvas são vermelhas com chamas de outono. Do outro lado da montanha Sonoma, neblinas do mar estão volteando. O sol da tarde arde no céu sonolento. Eu tenho tudo para me fazer feliz por estar vivo”.


Parque Histórico Estadual Jack London – Fonte – http://jacklondonpark.com/jack-london-docent-beauty-ranch.html

A variada paisagem bucólica do parque ainda exala essa mesma vibração cativante. Os terrenos oferecem quase 47 quilômetros de trilhas, bosques de sequoias, prados, vinhedos, paisagens deslumbrantes, um museu e exposições. Uma recompensa idílica da paisagem intocada do norte da Califórnia está em plena exibição. Para um viajante em busca de uma fuga distintamente pastoral, fortificada com uma dose rústica da história cultural da Califórnia, o Parque Histórico Estadual Jack London é um local intenso. Também não faz mal o fato do parque estar rodeado por uma infinidade de importantes vinícolas do mundo.

Início Difícil

London cresceu nas ruas mais agitadas de San Francisco e Oakland, em uma família de trabalhadores. Sua mãe era uma espiritualista, que ganhava uma vida conduzindo sessões e ensinando música. Seu padrasto era um veterano incapacitado da Guerra Civil, que trabalhava como fazendeiro, merceeiro e vigia noturno. O provável pai biológico de London, um astrólogo viajante, saiu abruptamente do local antes da chegada do futuro autor.


London aos nove anos de idade com seu cachorro Rollo, 1885 – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/32/Jack_London_age_9_-_crop.jpg

Quando criança London trabalhava na fazenda, vendia jornais, entregava gelo e levantava pinos em uma pista de boliche. Aos 14 anos ele ganhava dez centavos por hora como operário de uma fábrica de conservas. As miscelâneas e o tédio da vida de trabalho eram sufocantes para um garoto durão, mas imaginativo, que descobrir ao tesouro de livros na Biblioteca Livre de Oakland. Obras de Herman Melville,Robert Louis Stevenson e Washington Irving fortificaram-no para as perigosas delícias da orla de Oakland, onde se aventurou aos 15 anos de idade.

Usando seu pequeno veleiro,o  “Razzle-Dazzle”, para pescar ostras e vendê-las a restaurantes e bares locais, ele passou a ganhar mais dinheiro em uma única noite, do que ele poderia trabalhar um mês inteiro na fábrica de conservas. Aqui, na orla decadente entre um submundo de vagabundos e delinquentes, ele rapidamente se juntou a uma tripulação mal-humorada de marinheiros e perdulários. 

O roubo, o deboche e a camaradagem eram totalmente estimulantes – pelo menos por um tempo. Mas London queria ver mais do mundo. Então ele embarcou em uma expedição de caça às focas a bordo da escuna “Sophia Sutherland”  e viajou pelo Oceano Pacífico até o Japão e as Ilhas Bonin. Ele retornou a San Francisco,trabalhou em uma usina de juta como um aquecedor de carvão, depois partiu para andar nos trilhos, onde caminhou por toda a América e viveu um tempo para a vagabundagem. Tudo antes dos 20 anos de idade.

“Eu nasci na classe operária”,lembrou ele, “e eu estava agora com dezoito anos, abaixo do ponto em que comecei. Eu estava no porão da sociedade, nas profundezas subterrâneas da miséria. Eu estava no abismo, no abismo, na fossa humana, na desordem e no cemitério da nossa civilização. Eu estava com medo de pensar”. Ele então resolveu parar de depender de sua força muscular e se tornar um “comerciante de cérebros”.

De volta à Califórnia, London matriculou-se no ensino médio e ingressou no Partido Trabalhista Socialista. Em 1896 ele entrou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde durou um semestre antes do seu dinheiro acabar. Em seguida, em julho de 1897, fugiu para o Klondike, Alasca, quando teve a chance de se juntar à famosa “Corrida do Ouro”. Ele passou onze meses mergulhando na vibração sublime das terras do norte, com seu elenco único de garimpeiros e viajantes.


London tinha apenas 21 anos quando desembarcou no Alasca em 1897 para encontrar sua fortuna em ouro – Fonte – https://truewestmagazine.com/jack-londons-alaska/

Os silvestres congelados proporcionavam a paisagem agourenta que inflamava suas energias criativas. “Foi no Klondike que me encontrei”, disse London. “Lá ninguém fala muito. Todo mundo pensa. Lá você tem sua perspectiva. Eu tenho a minha”. 

Em 1899 ele havia aperfeiçoado seu ofício e grandes revistas começaram a abocanhar suas histórias vigorosas. Quando se tratava de evocar sensações elementares, ele era um perito literário. Se você quiser saber como é congelar até a morte, leia a história contida em Para fazer fogo.Se você quiser saber como é um trabalhador de fábrica se transformar em uma máquina, leia O Apóstata. Se você quiser saber como é sentir o êxtase da vida em seu corpo, leia Chamado Selvagem. E se quiser saber como é viver livre ou morrer, leia Koolau,o Leproso.

A publicação de suas primeiras histórias do Klondike lhe garantiu uma vida de classe média segura. Em 1900 ele se casou com sua ex-professora de matemática Bess Maddern e eles tiveram duas filhas. A aparição de Chamado Selvagem em 1903 fez do autor de 27 anos de idade uma enorme celebridade. Revistas e jornais frequentemente publicaram fotografias mostrando sua aparência robusta, que exalava um ar de vitalidade juvenil. Suas viagens, ativismo político e proezas pessoais contribuíram bastante para os repórteres políticos e colunistas de fofocas.

Intelectual Intenso

London se tornou subitamente um ícone da masculinidade e um importante intelectual público. Ainda assim, a escrita continuou sendo a atividade dominante de sua vida. O novelista E. L. Doctorow descreveu-o apropriadamente como “um grande palavrão do mundo,física e intelectualmente, o tipo de escritor que foi a um lugar e escreveu seus sonhos nele, o tipo de escritor que encontrou uma ideia e girou sua mente sobre isto”.

Em suas histórias, London simultaneamente ocupa perspectivas opostas. Às vezes, por exemplo, o darwinismo social parece ultrapassar o seu igualitarismo declarado, mas em outro trabalho (ou mais tarde no mesmo) seu idealismo político se reafirmará,apenas para ser desafiado novamente mais tarde. 

London flutua e se contradiz,fornecendo uma série de pontos de vista que mudam dialeticamente e que resistem à fácil resolução. Ele foi um dos primeiros escritores a enfrentar seriamente, embora nem sempre com sucesso, as multiplicidades singulares do modernismo. A raça continua sendo um tópico agitado nos estudos sobre London. Angustiantemente, como outros intelectuais importantes do período,suas visões raciais foram moldadas pelas teorias predominantes do racismo científico, que falsamente propagavam uma hierarquia racial e valorizavam os anglo-saxões.

Ao mesmo tempo ele escreveu muitas histórias que eram antirracistas e anticoloniais e que exibiam caracteres não brancos excepcionalmente capazes. Earle Labor, estudioso de Jack London e seu biógrafo oficial descreve as visões raciais do autor como”um feixe de contradições”, e suas inconsistências na raça certamente exigem um exame minucioso.


Eu estava na porta aberta”, detalhe de uma fotografia de Jack London de seu livro de memórias 
A Estrada (1907)  – Fonte – https://publicdomainreview.org/2016/11/22/astral-travels-with-jack-london/

Uma curiosidade insaciável impeliu London a investigar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos e questões. Muito do seu trabalho menos conhecido permanece altamente legível e intelectualmente envolvente. O Tacão de Ferro (1908) é um romance despótico, pioneiro, que prevê a ascensão do fascismo nascido a partir da desigualdade de renda do capitalismo. Esse romance, o mais explicitamente político do autor, foi um precursor crucial para o livro de George Orwell com 1984, e Sinclar Lewis com Não vai acontecer aqui.

Dada a turbulência econômica dos últimos anos, os leitores do O Tacão de Ferro compreenderam prontamente a representação londoniana de uma oligarquia totalitária que constitui “nove décimos de um por cento” da população dos Estados Unidos, detentora de 70% da riqueza total do país.

Seus colegas socialistas criticaram o livro quando ele saiu, porque a utopia coletivista do romance leva 300 anos para surgir – não exatamente a revolução que os compatriotas radicais de London imaginavam. Um realista político, neste caso, ele reconheceu como os mestres capitalistas eram realmente arraigados, astutos e venais.

O Problema do Álcool e Viagens

Jack London também produziu uma exposição do mercado literário em seu romance de 1909,  Martin Eden, que critica a loucura da celebridade moderna. Intimamente modelado em sua própria ascensão ao estrelato, a história traça a ascensão de um autor aspirante que, depois de escrever sobre sua saída da classe trabalhadora e alcançar renome, descobre a complexidade estética em um mundo inclinado ao brilho e ao lucro. Tematicamente, o romance antecipa O  Grande Gatsby, de Fitzgerald e sempre foi uma espécie de clássico underground entre os escritores, incluindo Vladimir Nabokov, Jack Kerouac e Susan Sontag.

London se tornou ainda mais pessoal em seu livro de memórias confessional de 1913,  Memórias de um alcoólico – John Barleycor, onde ele relata o significado pesado que o álcool – personificado como John Barleycorn – desempenha em sua vida. London parece ciente de que abusa de álcool com muita frequência, mas também proclama que continuará a beber quando necessário. Para muitos esse livro é um estudo de caso clássico de negação pessoal, enquanto outros o veem como uma descida existencial e honesta em direção à essência da autoconsciência. 

O problema com John Barleycorn para London (e o resto de nós) é que ele dá e tira. A bebida abre caminho para a camaradagem, oferece um antídoto à monotonia da vida e aumenta as aventuras do ser exaltado. Mas o preço é a debilidade, a dependência e um desânimo niilista que ele chama de “lógica branca”. Notavelmente desprotegida e franca,London revela como a difundida disponibilidade de bebida cria uma cultura de vício.

Como jornalista os artigos de London sobre política, esportes e guerra frequentemente apareciam nos principais jornais. Especializado em fotografia documental e fotojornalismo,tirou milhares de fotografias ao longo dos anos, desde as favelas do lado leste de Londres, até as ilhas do Pacífico Sul. Em 1904 viajou como correspondente de guerra na Coréia para relatar a Guerra Russo-Japonesa.

No ano seguinte London comprou o primeiro pedaço de terra em Glen Ellen, Califórnia, que acabaria se tornando o seu Beauty Ranch. Naquele mesmo ano ele também embarcou por um tour de palestras socialista em todo o país.

London e Charmian Kittrege – Fonte – https://www.lpm-blog.com.br/?tag=jack-london

Depois do colapso do seu casamento, em 1904, London casou com Charmian Kittrege, o epítome da progressista “New Woman” — atlética e independente —com quem teve um caso durante o seu primeiro casamento. Eles permaneceriam juntos até a morte de London.

Após a publicação de dois romances que se tornariam clássicos,  O Lobo do Mar e Caninos Brancos, London começou a projetar seu próprio veleiro de 45 pés, o Snark. Em 1907 partiu para o Havaí e os mares do sul com sua esposa. Uma série de doenças tropicais iria aterrá-lo em um hospital australiano, quando ele foi forçado a terminar a viagem no mês de dezembro seguinte. Embora ele projetasse enorme energia pessoal e carisma, Jack London teve problemas frequentes de saúde ao longo dos anos e seu consumo excessivo de bebidas e cigarros, associados a uma dieta ruim, só pioraram as coisas.

O Fim

London estava bem à frente no jogo imobiliário em 1905, quando começou a comprar terras agrícolas exaustas ao redor de Glen Ellen. Sua intenção era restaurar a terra usando métodos agrícolas inovadores, como terraços e fertilizantes orgânicos. Hoje,docentes conduzem turnês mostrando as práticas agrícolas progressistas e agrícolas sustentáveis ​​de London.

O chalé do autor foi meticulosamente restaurado. O espaço de trabalho, a escrivaninha e a maior parte da mobília é original. A arte e os acessórios de London estão expostos. Os visitantes podem aprender muito sobre a vida repleta de ação de London e a sua visão agrária. “Eu vejo a minha fazenda”, declarou ele, “em termos do mundo e do mundo em termos da minha fazenda”.


London, com um porquinho, seis dias antes de morrer, como retratado em O Livro de Jack London (1921) por sua esposa Charmian London – https://publicdomainreview.org/2016/11/22/astral-travels-with-jack-london/

Mas London tirou um tempo de sua fazenda para excursões prolongadas. Em 1911, ele e sua esposa dirigiram uma carroça de quatro cavalos em uma viagem de quase 2.500 quilômetros pelo Oregon. Em 1912 eles navegaram de Baltimore para Seattle, passando pelo temível Cabo Horn como passageiros a bordo do navio “Dirigo”.

No ano seguinte, London passou por uma apendicectomia, e os médicos descobriram seus rins gravemente doentes. Semanas depois a nova casa da fazenda de London, apelidada de Wolf House, foi incendiada pouco antes de sua construção ser concluída. Construída a partir de rochas vulcânicas nativas, era para ser o cume rústico do Beauty Ranch e o avatar arquitetônico de Jack London. Ele ficou arrasado com o fogo e prometeu reconstruir o local, mas nunca teria a chance.

Fotografias tardias mostram London desengonçado e notavelmente inchado – efeitos de seus rins doentes. Apesar de sua saúde se deteriorar, ele continuou produtivo e também permaneceu politicamente engajado. 

Nos últimos dois anos de sua vida ele sofreu crises de disenteria, distúrbios gástricos e reumatismo. Ele e sua esposa fizeram duas viagens de recuperação prolongadas para o Havaí, mas London morreu no Beauty Ranch em 22 de novembro de 1916 de intoxicação urêmica e um provável derrame cerebral. Em 18 anos, ele escreveu 50 livros, 20 deles romances.

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A TRÁGICA HISTÓRIA DO MECÂNICO QUE ROUBOU UM AVIÃO MILITAR PARA REENCONTRAR A MULHER AMADA

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Hércules C-130 do 36º Esquadrão de Transporte da Força Aérea dos Estados Unidos, número 37789, envolvido nos acontecimentos trágicos.

Em 1969, Paul Meyer assumiu o controle de uma aeronave militar e desapareceu no Canal da Mancha, em um caso até hoje inconclusivo e que será alvo de novas buscas.

Às cinco da manhã do dia 22 de maio de 1969, na Base Aérea de Mildenhall, na região de Suffolk, leste da Inglaterra, um grande avião de transporte Hércules C-130 do 36º Esquadrão de Transporte da Força Aérea dos Estados Unidos ligou seus quatro motores.

Mas o supervisor de voo daquela manhã achou algo estranho naquela situação, pois não tinha visto um piloto embarcando no avião. Viu a certa distância no interior da aeronave um capitão da área de logística e sem uniforme regulamentar de voo. E se não havia um piloto nos controles, por que então as hélices estavam girando?

O supervisor de voo se dirigiu para frente da aeronave e olhou para cabine de comando e ficou surpreso ao ver o rosto do sargento mecânico Paul Meyer, vestido com um uniforme de oficial. Pior ainda, Meyer estava gesticulando violentamente para ele sair do caminho. Para seu horror, o poder das quatro máquinas rugindo aumentou, o Hércules então avançou e o supervisor de voo rapidamente saiu do caminho para evitar ser atropelado e esmagado.

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O Lockheed C-130 Hércules, um dos mais versáteis aviões da história – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Lockheed_C-130_Hercules

Nos dois minutos seguintes houve um estado de pânico na Base de Mildenhall. O supervisor de voo pediu ajuda por rádio e duas patrulhas de segurança correram até o local. Mas estes homens ficaram relutantes em atirar com seus fuzis M-16 nos pneus do Hércules C-130, pois não tinham certeza se esse era o procedimento correto para parar uma aeronave como aquela.

Precisamente às cinco horas e oito minutos o Hércules começou a decolar. Meyer começou a guinar para a esquerda e a ponta da asa chegou perigosamente perto do chão, mas ele endireitou a grande máquina voadora e seguiu trovejando no céu. O avião camuflado foi visto pela última vez voando em direção sudoeste.

Logo se descobriu que aquela máquina era comandada por um homem que estava bêbado, não tinha dormido a noite toda e que mal sabia pilotar um leve avião de turismo, muito menos um Hércules de 60 toneladas.

Noite Difícil

Paul A. Meyer era um sargento mecânico da Força Aérea dos Estados Unidos, chefe de equipe, com 23 anos de idade, veterano da Guerra do Vietnã e que estava em missão temporária na Inglaterra.

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Paul Meyer e o avião que ele pilotava desapareceram no Canal da Mancha; há quem diga que ele caiu e quem ache que ele foi abatido no ar – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-43789482

Constava no seu prontuário que ele havia pedido para deixar seu posto europeu e ser transferido para uma base americana em Langley, Estado da Virgínia, em seu país natal. Mas sua solicitação havia sido negada.

Desapontado e amargurado, Meyer e seis amigos foram a uma festa na casa de colegas do Exército, perto da sua base aérea. Depois de algumas horas, ele embebedou-se e passou a se comportar de modo agressivo e acabou sendo forçado a ir para a cama por seus amigos. Mas o sargento recusou descansar e escapou por uma janela, onde começou a perambular pela vizinhança.

Em um ponto ele foi visto tentando subir no telhado de uma casa das proximidades e os moradores, temendo que ele fosse um ladrão, chamaram a polícia local. Meyer foi preso e acusado de causar desordem devido à embriaguez. Seu humor era descrito como “passivo e agressivo” e também “sarcástico e beligerante”.

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O caso como foi noticiado pelo principal jornal das forças armadas dos Estados Unidos.

Às duas da manhã, a Polícia de Segurança de Mildenhall, da Royal Air Force, assumiu a custódia de Meyer e levou-o de volta para o seu alojamento, sob ordens de dormir até o efeito do álcool passar. Lá seu temperamento ficou ainda mais violento e ele escapou por uma janela de um banheiro, onde foi pego tentando escalar a cerca de segurança do perímetro.

Mesmo depois de toda essa bagunça, incrivelmente, em vez de ser corretamente trancafiado, o sargento Meyer foi simplesmente enviado de volta ao seu aquartelamento. 

Ainda bêbado, quase pela manhã, Meyer entrou na sala de um capitão do setor de logística chamado Upton, onde roubou seu uniforme, a chave do seu veículo e agora chamava a si mesmo de “Capitão Epstein” (nome talvez inspirado no inglês Brian Epstein, empresário musical britânico que tornou famoso os Beatles).

O alucinado Meyer ligou para o setor de abastecimento ordenando que fosse colocado combustível suficiente no Hércules C-130, número 37789, para uma viagem com destino até os Estados Unidos.

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Um C-130 da FAB taxiando. Essa aeronave é conhecida na Força Aerea Brasileira como “Gordo” – Fonte – https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2017/07/fuscao-velho-e-gordo-conheca-o-aviao-que-transferiu-os-presos-na-operacao-pulso-firme-9855469.html

Ele então dirigiu o veículo para a linha de voo, onde chegou e ficou supervisionando enquanto o Hércules estava sendo carregado com 27 toneladas de combustível. A equipe obedeceu às ordens sem contestação alguma. O “capitão” então subiu a bordo do avião, soltou os freios e, depois de quase atropelar o supervisor de voo, começou a taxiar rapidamente em direção à pista número 29.

“Você Está Pilotando o Avião? Meu Deus!”

Completamente sozinho na cabine de comando do avião militar roubado, uma aeronave que Meyer não estava habilitado a pilotar, o jovem de 23 anos iniciou o processo de voo.

Interpelados pela segurança da base, os homens que abasteceram o Hércules em momento algum consideram suspeita as atividades do “Capitão Epstein”, já que suas ações eram todas consistentes com a de um membro de uma tripulação de voo, preparando uma aeronave antes de uma decolagem. Apenas o supervisor de voo conhecia Meyer, que, recordemos, estava em missão temporária na Inglaterra. Ele também parecia ter se recuperado um pouco da bebedeira, embora um membro da equipe de terra tenha sentido o cheiro de álcool em sua respiração.
Enquanto tudo isso se desenrolava, a aeronave sobrevoava os subúrbios do norte e do oeste de Londres, onde centenas de milhares de pessoas dormiam inconscientes do perigo que pairava sobre suas cabeças. Depois de contornar o Aeroporto Internacional de Heathrow, o avião seguiu para o sul e acabou deixando a costa entre Portsmouth e Southampton. Então simplesmente desapareceu.

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Quadro do pintor Simon Cattlin retratando o Hércules roubado deixando a Inglaterra – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-43789482

Surpreendentemente surgiu a informação que Meyer havia conseguido fazer contato por rádio com sua esposa e falara com ela durante quase toda a duração do voo.
Do outro lado do Atlântico, passava da meia-noite na Virgínia quando Mary Ann Meyer, conhecida como Jane, foi acordada pelo telefone. “Oi, meu amor!”, dizia a voz animada no outro lado da linha. Era seu marido Paul. “Adivinhe só? Estou indo para casa!”

Ainda sonolenta, Jane resmungou uma comemoração e perguntou quando exatamente ele e sua equipe chegariam aos Estados Unidos. “Agora!”, ele respondeu triunfante. “Estou com meu pássaro no céu e estou indo para casa!”

Jane ficou paralisada. “Você?”, ela perguntou, incrédula. “Você está pilotando o avião? Meu Deus!”

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Hoje, passados quase 50 anos, Mary Ann Jane Goodson (seu nome atual) conta que a conversa, que acabou se estendendo por mais de uma hora, ainda reverbera na sua cabeça.

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Quando Jane se deu conta de que Meyer havia abandonado seu posto sem permissão e roubado o Hércules, ela implorou para que ele desse meia-volta, lembrando que ele seria severamente advertido pelas Forças Armadas. Ela não se recorda das últimas palavras que disse ao marido, mas se lembra claramente das últimas palavras dele.

“Meu bem”, ele disse pelo rádio conectado à rede telefônica, “te ligo de volta em cinco minutos. Estou com um problema”. Então a linha caiu.

Após uma hora e 45 minutos de voo, Meyer desapareceu no Canal da Mancha, em águas ao sul da Inglaterra.

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Um North American F-100F Super Sabre da base de Lakenheath, Inglaterra, em 1965 – Fonte – https://abpic.co.uk/pictures/model/North%20American%20F-100F%20Super%20Sabre

Já Jane diz que seu marido lhe contou ter deliberadamente voado a baixa altitude, para evitar a detecção por radar.

Alguns dias depois, pequenas peças dos destroços do Hercules, incluindo um bote salva-vidas, apareceram em um ponto ao norte da ilha de Alderney. O corpo de Meyer e o resto da aeronave nunca foram encontrados. Um inquérito oficial da Força Aérea sobre o caso revelou mais tarde que o contato radar havia sido perdido as seis e cinquenta e cinco da manhã, diz também que um jato americano da base de Lakenheath, modelo North American F-100 Super Sabre, dois interceptadores da RAF e um outro C-130 de Mildenhall partiram pouco depois da decolagem de Meyer, “em uma tentativa de ajudá-lo”. Entretanto todas as tripulações dessas aeronaves afirmaram que “não tiveram sucesso em estabelecer contato visual ou de rádio com ele”.

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Paul Meyer era sargento e mecânico da Força Aérea Norte-americana – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-43789482

Jane afirmou que, passados 20 minutos da última conversa entre ela e Meyer, ela escutou a voz de um homem na linha, pedindo que ela continuasse a falar com o marido para que a Força Aérea pudessem identificar onde ele estava. 

“Por que será que ele se acidentou daquela forma?”, questiona Jane. “Sabe, a Força Aérea dos Estados Unidos nunca me disse como o avião caiu, eu só recebi um telegrama dizendo que o avião havia se perdido… Tenho certeza de que não me contaram a verdade completa. Quando (Meyer) me disse que estava com problemas, já deduzi que haviam enviado jatos militares para derrubá-lo.”

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Ilha de Alderney. Foi ao norte deste local onde provavelmente o sargento Meyer morreu – Fonte -https://aurelioschmitt.blogspot.com.br/2012/10/fotos-das-ilhas-do-canal-dependenci

Ainda que Meyer não tivesse qualificação para pilotar o Hércules, ele estava extremamente familiarizado com o avião, por ser seu mecânico chefe. Na conversa com um repórter da BBC, Jane contou que, durante os voos da aeronave, os pilotos frequentemente deixavam que Meyer assumisse temporariamente o controle. Ele às vezes ligava para ela via rádio nesses momentos.

O Hércules Caiu, Ou Foi Derrubado?

No dia do acontecimento as condições climáticas apontavam que havia na região ao sul da Inglaterra nuvens baixas, chuva e a chegada de uma frente fria. Isso pode, talvez, explicar porque Meyer voou em direção sul, sobre o Canal da Mancha, em vez de seguir para o oeste, diretamente rumo aos Estados Unidos.

Mas, embora Meyer estivesse voando abaixo do nível das nuvens pelo Canal, em algum momento ele teria de começar a elevar sua altitude para ter eficiência no gasto do combustível e para assim conseguir chegar ao seu destino. Alguns acreditam que ele pode ter entrado em uma nuvem carregada e – sob os efeitos da embriaguez da noite passada e da privação de sono – simplesmente perdido o controle do avião. Os que defendem essa tese afirmam que sem orientação visual, pode ser que ele tenha entrado em processo de descida descontrolada, batido na água e explodido a aeronave.

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Henry Ayer no memorial de seu padrasto; ele se lembra de como a tragédia marcou a vida familiar – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-43789482

Ou ele foi abatido?

Henry Ayer tinha apenas sete anos quando perdeu seu padrasto no episódio, mas até hoje se emociona ao lembrar o dia em que um representante das Forças Armadas bateu na porta da casa da família para contar a Jane que seu marido estava desaparecido. Eles haviam se casado apenas 55 dias antes.

“Me lembro da minha mãe caindo no chão como se fosse uma boneca de pano”, diz Ayer, com voz embargada. “Paul era um cara legal que havia nos dado uma estabilidade de que muito precisávamos. Ele era muito maduro para sua idade – nos levava para caçar, passear com o cachorro, sentava conosco nos jantares de família. Então a ideia de que o nosso governo possa ter tido um papel (na morte de Meyer) é muito perturbadora.”

O relatório oficial do caso descreve Meyer de modo diferente: como um homem “sob considerável estresse emocional” que estava irado por ter sido preterido em uma promoção.

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Túmulo de Meyer nos Estados Unidos; família espera que novas buscas traga alguma sensação de encerramento, após quase 50 anos – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-43789482

Durante os últimos 30 anos, Ayer tem lutado para obter mais informações das autoridades americanas. Ele alega que as provas que ele levou aos advogados da Força Aérea foram perdidas e que os pedidos que ele fez foram direcionados à CIA (que diz ter operado o Hércules) e nunca respondidos.

Ayer lembra de que seu padrasto não estava habilitado a pilotar o Hércules roubado – e que uma tragédia ainda maior poderia ter ocorrido se ele tivesse caído com o avião sobre alguma cidade britânica. E se o voo de Meyer tiver sido abatido para prevenir justamente isso? “Certamente entenderíamos isso”, diz Ayer. “Mas precisamos sabê-lo de modo conclusivo. Precisamos que o governo seja franco conosco.”

Um relatório britânico aponta que o então parlamentar Eldon Griffiths exigiu saber à época por que um enorme avião Hercules passara “um período de tempo considerável” no ar sem ser encontrado por radares britânicos ou americanos.

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Certamente foi o amor irresistível de Meyer por sua esposa que fornece a melhor pista para sua motivação naquela situação fatídica. Meyer havia sido enviado dos Estados Unidos para a Inglaterra no final de fevereiro de 1969, apenas oito semanas após seu casamento – Fonte – http://www.dailymail.co.uk/news/article-5540107/Mystery-lost-love-plane-drunken-homesick-serviceman-steal-giant-Hercules.html

O Ministério da Defesa respondeu que as autoridades foram notificadas minutos depois da decolagem não autorizada de Meyer.

“Tudo o que ele queria era vir para casa”

Nos dois lados do Atlântico houve à época um grande desconforto público com a notícia de que um mecânico bêbado havia conseguido assumir o controle de um grande avião cargueiro militar e voado por quase duas horas pelo espaço aéreo britânico.

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A imprensa teve acesso a poucos detalhes do incidente, e a história foi abafada. Mas, pelos últimos 49 anos, boatos e teorias da conspiração se proliferaram em fóruns online pelo mundo.

Há quem diga que o avião foi derrubado porque estava sendo operado pela CIA e conteria documentos secretos. Outros sugerem que Meyer teria sobrevivido ao acidente e passado a vida escondido, talvez no Leste Europeu.

Provavelmente a resposta mais sensata seja mesmo a de um mecânico bêbado e perturbado, com pouco treinamento como piloto, que simplesmente perdeu o controle do avião em meio a uma loucura trágica, baseada no amor que sentia pela sua mulher.

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O pesquisador Grahame Knott prepara uma missão de buscas pelo Canal da Mancha em busca dos destroços do Hércules – Fonte – http://www.bbc.com/portuguese/internacional-43789482

Recentemente, uma equipe de mergulhadores em Dorset, chamada Deeper Dorset, lançou uma oferta de crowdfunding para arrecadar 6.000 libras (ou cerca de 8.500 dólares, ou ainda 31.000 reais) para usar técnicas de busca por sonar para localizar os restos do Hércules e seu piloto desaparecidos. Os sucessos anteriores da equipe de mergulho incluem a localização do “La Mahenge”, um cargueiro de 8.000 toneladas encontrado a 120 metros de profundidade no Canal da Mancha e um submarino inglês encontrado a 81 metros de profundidade nas águas do porto de Plymouth.

O grupo estudou os registros oficiais, bem como os movimentos de maré e condições climáticas em maio de 1969, para identificar cinco bons alvos dentro de 10 milhas náuticas quadradas do fundo do Canal da Mancha. Pretendem utilizar tecnologia de ponta com fotogrametria em 3D, para construir modelos detalhados dos destroços submarinos, com o objetivo de descobrir a verdade do que aconteceu com Meyer. Mas caso encontrem o avião, o grupo está proibido de mexer ou tirar algo do lugar. Só o que poderá fazer é tirar fotografias extremamente detalhadas, para serem mostradas a um investigador de acidentes aéreos.

Para Jane e Ayer, a expectativa é de que a busca traga alguma sensação de encerramento da história.

“Sabe, ele só queria vir para casa. Tudo o que ele queria era vir para casa”, repete Jane.

Fontes – https://g1.globo.com/mundo/noticia/a-misteriosa-tragedia-do-mecanico-com-saudades-que-roubou-um-aviao-para-voltar-pra-casa.ghtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=g1

http://www.dailymail.co.uk/news/article-5540107/Mystery-lost-love-plane-drunken-homesick-serviceman-steal-giant-Hercules.html#ixzz5GZ8HQWn2

https://www.stripes.com/news/in-1969-an-airman-crashed-a-stolen-c-130-into-the-english-channel-now-divers-want-to-find-the-plane-1.520151

https://www.airforcetimes.com/news/your-air-force/2018/03/29/what-happened-to-the-air-force-mechanic-who-stole-a-c-130-in-a-drunken-desperate-bid-to-return-home/

COCAÍNA HÁ 100 ANOS – UMA HISTÓRIA ATUAL

Cocaine

 PRAGA DA COCAÍNA É ALGO JÁ MUITO ANTIGO, QUE JÁ DESTRUÍA MENTES E CORPOS NO BRASIL DO INÍCIO DO SÉCULO XX

Autor – Rostand Medeiros

Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma palestra  destinada aos jovens, sobre os malefícios e os problemas gerados pelo consumo de drogas.

A palestra, muito boa por sinal, foi proferida por técnicos de uma instituição estadual de combate as drogas e ocorreu em uma escola pública, num dos bairros periféricos mais violentos da Zona Norte da capital potiguar. No local vi os alunos extremamente atentos em relação ao assunto, calados, observando tudo e fazendo perguntas bem pertinentes. Isso tudo apesar do desconforto das cadeiras e de um calor de doer o crânio.

Em dado momento, um dos alunos perguntou ao palestrante, pessoa com nível superior na área de humanas, “-A quanto tempo que existia cocaína no Brasil?”. E a resposta do palestrante foi “a cerca de 40, ou 45 anos”, como associada aos processos de inovações culturais e ao experimentalismo das drogas da década de 1960.

Bem, vamos dá o desconto do erro, da formação do palestrante não ser na área de História, do calor na sala, etc.

Policial militar potiguar proferindo uma palestras para jovens na cidade de Apodi-RN - Imagem meramente ilustrativa
Policial militar potiguar e um ex-traficante proferindo uma palestra para jovens na cidade de Apodi-RN. Ação que deve ser sempre incentivada. – Imagem meramente ilustrativa – Fonte – Santananoticias.blogspot.coom

Provavelmente devido à forte influência da mídia em apontar os processos de experimentalismos das drogas ocorridos na década de 1960, com muita associação a popularização do rock e suas várias vertentes, é que as pessoas associam o início do consumo de cocaína no nosso país a este período recente de nossa História.

Curioso com isso tudo, comecei a perceber que existe uma falsa ideia que na época dos nosso avós e bisavós a única droga que existia era o álcool, com preferência no Brasil para a cachaça.

Isso é um engano.

Uma Droga Antiga

Na atualidade, basicamente conhecemos a cocaína como um estimulante, sendo atualmente considerada uma droga ilegal. É extraída a partir das folhas da planta da coca, vegetal da família Erythroxylaceae, cujo nome científico é Erythroxylum coca. Possui porte arbustivo, pode ficar frondosa e suas flores são amarelo-alvacentas.

Folha de Coca - Fonte - www.montanha.bio.br
Folha de Coca – Fonte – http://www.montanha.bio.br

Mas a mais de 4.000 ou 5.000 anos que a coca vem sendo utilizada como um remédio e estimulante no que hoje é a Colômbia, Peru e Bolívia. A partir do século XVI europeus descreveram a prática de povos sul americanos de mascar uma mistura de tabaco e folhas de coca.

Este hábito de mastigar as folhas de coca, o consumo tradicional da coca pelos povos andinos, possui certas características que o distinguem nitidamente do consumo da cocaína. Ao introduzir a folha de coca oralmente, suas propriedades psicoativas são absorvidos lentamente através do sistema digestivo, sem causar efeitos nocivos.

Mascar folha de coca na Bolívia é tradição cultural - Fonte - www.newsrondonia.com.br
Mascar folha de coca na Bolívia é tradição cultural – Fonte – http://www.newsrondonia.com.br

Visitantes ilustres que já estiveram na Bolívia, incluindo o Papa João Paulo II e a princesa Anne, beberam chá de coca (mate de coca), pois é a maneira tradicional de se evitar a doença da altitude (hipóxia) na região andina. Investigações imparciais e científicas demonstraram que o uso regular da folha de coca não é prejudicial.

No início do século XIX pesquisadores europeus que visitavam a América do Sul tiveram a sua atenção voltada para as folhas de coca e começaram a fazer experiências para descobrir os segredos da planta mágica. Foi o cientista alemão Albert Niemann, da Universidade de Gottingen, que em 1859 isolou com sucesso o alcaloide da planta de coca responsável por seu efeito estimulante. Logo um mercado global disparou em busca da nova droga, a cocaína.

Início do Uso Comercial

Em 1860, Ângelo Mariani introduziu “Vin Mariani”, um vinho tinto com a nova droga na sua composição. Mariani acumulou uma fortuna a partir desta bebida, com a venda sendo estimulada por pessoas notáveis, como a atriz Sarah Bernhardt, a rainha Vitória da Inglaterra, o inventor americano Thomas Edison e até o Papa Leão XIII.

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Não demorou para que empresas farmacêuticas americanas começassem a explorar a folha de coca e em pouco tempo os Estados Unidos se tornaram o maior importador e principal mercado legal de cocaína no planeta.

Por volta de 1880 a cocaína na terra do Tio Sam era receitada livremente pelos médicos em doenças como a exaustão, depressão e estava disponível em muitos medicamentos patenteados.

Como a cocaína era amplamente disponível neste país, não é difícil de entender porque o xarope da primitiva Coca-Cola continha aproximadamente 4,5 mg/180 ml de cocaína até os primeiros anos do século XX.

John S. Pemberton
John S. Pemberton

A História desta famosa bebida, tem início indireto em 1879, quando a cocaína foi usada até mesmo para tratar o vício da morfina. Após o fim da Guerra Civil Americana, um veterano chamado John S. Pemberton começou a usar morfina para diminuir a dor dos seus ferimentos e ele rapidamente tornou-se viciado. Ele leu em uma revista médica que a cocaína poderia ajudar a curar o “morfinismo” e passou a produzir seu próprio tônico à base de vinho que continha cocaína. Quando o Estado da Geórgia impôs a sua própria proibição do álcool, ele começou a misturar cocaína com extrato de noz de cola e água de soda. Depois comercializou o produto e este se tornou um sucesso instantâneo. Pemberton vendeu sua fórmula a outro farmacêutico (que certamente não consumia nem morfina, nem cocaína), que fundou a Coca-Cola Company em 1892.

Uso Médico

A cocaína foi introduzida como um anestésico em 1884 pelo Dr. Karl Koller. Este era um estagiário de oftalmologia no Hospital Geral de Viena e em um experimento público, ele aplicou no seu próprio olho uma solução de cocaína e depois, para espanto da plateia, o picou com alfinetes sem problemas.

Karl Koller - Fonte - Wikipédia.com
Karl Koller – Fonte – Wikipédia.com

O Dr. Koller foi o primeiro a escrever sobre as propriedades anestésicas da cocaína. Pouco depois, a cocaína fez manchetes em todo o mundo e os médicos aproveitaram a droga.

A fabricação do medicamento envolve um processamento onde entram na composição um determinado número de outras substâncias químicas, formando o pó branco vulgarmente conhecido como cloridrato de cocaína. Como fármaco os efeitos da dosagem podiam variar significativamente. A cocaína foi considerada primeiramente um estimulante seguro e um ótimo tônico para os nervos.

Freud publicou em 1884 o tratado "Über Coca", sobre a droga - Fonte - afkra.blogspot.com
Freud publicou em 1884 o tratado “Über Coca”, sobre a droga – Fonte – afkra.blogspot.com

Consta que nesta época Sigmund Freud, o pai da psicanalise, usou cocaína em seus pacientes, escreveu um tratado sobre o tema e tornou-se viciado através da auto experimentação. Freud era conhecido por levar cocaína para idas ao teatro, danças sociais, esportes e passeios. Ele se tornou um viciado contumaz até que finalmente parou de usar cocaína em 1886. Atormentado com câncer e dor, Freud acabou por morrer de uma overdose intencional de morfina em 1939.

Mas não demorou muito para os usuários e os médicos começassem a perceber que as propriedades da cocaína causavam dependência e logo vários regulamentos limitantes ao uso foram introduzidos. Um dos primeiros, o Food and Drug Act americano (Lei Federal sobre Alimentos e Drogas), de 1906, ainda não instituía a proibição, mas regulamentava a produção e venda, inaugurando a intervenção governamental no tema.

No Nosso Brasil Tropical

Bem afirmar quando a cocaína chegou ao Brasil, eu não sei. Mas sei que ela já estava no país nos trinta anos finais do século XIX.

Cocaína vendida como bebida em Juiz de Fora - MG, na década de 1880
Cocaína vendida como bebida em Juiz de Fora – MG, na década de 1880

Encontramos em antigos jornais da década de 1880, ainda no período do Império de Dom Pedro II, a propaganda de um armazém de secos e molhados da cidade mineira de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde na sua parte destinada a bebidas, vemos o anúncio que ali se vendia cocaína aparentemente como uma bebida.

Seria uma percursora da famosa Coca-Cola, ou do “Vin Mariani”?

Além da importação como bebida, a cocaína evidentemente também aportou no Brasil como um medicamento.

Em 1890, na Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto, no Centro do Rio de Janeiro, que na época era a Capital Federal, havia a “Pharmacia Central do Brazil”. Este estabelecimento comercial vendia medicamentos que eram lá mesmo preparados. Conforme a foto que segue, a mistureba de produtos medicamentosos parece mais uma receita de algum caldeirão de bruxa.

Pastilhas de cocaína vendidas no Rio em 1890
Pastilhas de cocaína vendidas no Rio em 1890

Entre os ditos medicamentos encontramos as “Pastilhas de Clorato de Potássio e Cocaína”, que serviam para as moléstias bucais e da laringe.

Interessante esta ideia de pastilhas com cocaína e clorato de potássio, pois até onde eu sei esta última substância foi um ingrediente utilizado nas antigas espoletas de armas de fogo, chamado então de “clorato de potassa” e quando misturado com outros materiais, pode gerar explosivos de forte potência.

Bom, então quem chupava as pastilhas da “Pharmacia Central do Brazil”, abria a garganta e melhorava o hálito, mas também poderia ficar doidão e explodir?

Brincadeiras à parte, esta questão da chegada cocaína no Brasil no final do século XIX e início do século XX, não estava restrita apenas a região centro sul do país. A droga extraída da folha de coca também chegou ao caloroso Nordeste.

Venda de cocaína em Recife em 1900
Venda de cocaína em Recife em 1900

Em um jornal pernambucano de 1900, temos na Rua Barão da Vitória, número 51, atual Rua Nova, no tradicional bairro de Santo Antônio, no centro de Recife, a antiga botica do Sr. Idelfonso de Azevedo, que vendia cocaína misturada com salsa, caroba, elixir de antipirina e esmaltina. Podendo o cliente escolher esta mistura liquida ou em pó.

Bem, mesmo sem ser farmacêutico, realizando uma rápida pesquisa, descobri algo interessante sobre este medicamento. O sumo de salsa (em dosagem dupla, como diz o anúncio) é rico em vitaminas B e C e a sua celulose ajuda o movimento intestinal. Já a planta caroba (também conhecido como caroba-do-mato, marupá, simauba-falsa, caraúca, carabussú, caruba, curoba, marupauba e parapará) é o que podemos chamar de “um santo remédio”, pois suas propriedades medicinais são adstringente, aperiente, cicatrizante, depurativo, diurético, emético, laxante, sudorífera, tônico. As indicações da caroba são para as afecção da pele, artritismo, blenorragia, cancro, catarro crônico da bexiga e uretra, coriza, dispepsia (falta de suco digestivo ou nervosa), dor (reumática, muscular), estômago, febre, gases, inflamação (próstata, rins, garganta), picada de insetos, mau hálito, sífilis, úlcera estomacal e até no combate as vermes.

Rua Barão de Vitória, Recife - Fonte - http://peregrinacultural.wordpress.com/
Rua Barão de Vitória,, ou Vitória, em Recife – Fonte – http://peregrinacultural.wordpress.com/

Bem, junto a misturada de salsa e caroba vinha o elixir de Antipirina, que é uma substância medicamentosa usada como antitérmico e um sedativo utilizado para identificar o efeito de outras drogas. No meio desta mistura o Sr. Idelfonso de Azevedo acrescentava esmaltina, que é um mineral de cor cinza claro, uma combinação de cobalto e arsênico, utilizado na fabricação de esmaltes azuis.

No final de tudo isso vinha a cocaína.

Para que este medicamento (medicamento?) servia eu não sei! Mas acho que o Sr. Idelfonso de Azevedo quis fazer um tipo de produto que levantava até defunto! Ou servia para fazer defuntos?

As duas próximas propagandas são respectivamente de 1900 e 1901. Originalmente publicadas em jornais baianos, estão bem explicativas na composição e servem para se conhecer o uso medicinal da cocaína no Brasil. O interessante nestas duas propagandas é que estes remédios à base de cocaína vinham da França.

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Arrancar Dente Com Cocaína Era Normal

O leitor pode perceber que a cocaína chegou no grande país tropical e simplesmente não havia restrições a sua importação, manipulação e venda. Era tudo liberado. Daí para começar o consumo no sentido alucinógeno foi um passo. Correto? Aparentemente não!

No início do século XX vemos as notícias antigas se referindo basicamente a cocaína como um produto ligado a área médica. Praticamente não se encontra uma utilização ilícita do seu uso. Se havia era algo privado, talvez restrito a determinados ambientes (cabarés, prostíbulo, lupanares, etc.), sem aparentemente afetar o dia a dia da sociedade, sem atrapalhar vida das comunidades, principalmente nas maiores áreas urbanizadas do país.

Gabinete de uma odontóloga no final do séc. XIX, em Paris - Fonte - www.sciencephoto.com
Gabinete de uma odontóloga no final do séc. XIX, em Paris – Fonte – http://www.sciencephoto.com

Logo um outro tipo de profissional brasileiro passou a utilizar a cocaína; os dentistas. Voltando um pouco no tempo, sabemos que a cocaína foi o primeiro anestésico local introduzida por Karl Koller em 1884 e foi inicialmente utilizado em cirurgias oftalmológicas. Consta que neste mesmo ano, um médico chamado R.J. Hall solicitou ao seu dentista que utiliza-se cocaína como um anestésico para tratá-lo e aparentemente funcionou.

Na virada do século, por volta de 1903, a cocaína foi misturada com epinefrina, de modo a melhorar a sua eficácia clínica e utilizada para amortecer as gengivas. Mas devido a várias mortes ligadas à combinação de cocaína e epinefrina, este foi descartado por volta de 1924. No entanto, a cocaína continuou a ser utilizada e considerada uma droga útil para anestesia tópica na região do ouvidos, nariz e garganta.

Interessante lista de preços de atendimento odontológico no início do séc. XX, A cocaína era anestésico.
Interessante lista de preços de atendimento odontológico no início do séc. XX, A cocaína era anestésico.

Na imagem que apresentamos, temos uma propaganda do dentista Paulo (ou Paul) Kieffer, que coincidentemente atendia na mesma Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto, no Centro do Rio de Janeiro, na área onde estava estabelecida a “Pharmacia Central do Brazil”. O Dr. Kieffer aplicava anestesia local com cocaína, ou “nevarnina” (talvez um sub produto), ao preço de 2$000 réis.

Morrer Com Cocaína Era Moda…

Mas observando os jornais antigos das décadas de 1900 e 1910, é claramente perceptível que havia sim o consumo de cocaína, mas aparentemente não no sentido do consumidor criar seu próprio “paraíso artificial”. Mas principalmente para se matar!

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Nos periódicos brasileiros do limiar do século XX, o que não faltam são inúmeras notícias de homens e mulheres, jovens ou velhos, ricos e principalmente os mais pobres, que utilizavam a cocaína pura, ou misturada com todo tipo de material, para simplesmente dar fim a suas vidas.

E a imprensa da época era de uma sutileza de fazer dó e piedade. Nas páginas antigas lemos que estes desesperados eram os “decaídos”, os “desgraçados”, os “transloucados” (isso quando eram pobres), que buscavam no suicídio o fim a uma vida sem perspectivas. Este tipo de notícia era um “ótimo” incentivo para quem estava em depressão.

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Nos jornais antigos das décadas de 1900 e 1910 percebemos que a quantidade de suicídios chegou a um ponto tal que virou uma espécie de “moda” se matar com cocaína.

Não podemos esquecer quanto era terrível a situação das mulheres nesta época. Criadas para serem exemplares donas de casa, servir aos maridos, trabalharem pesado pelos filhos e pela casa, em uma sociedade onde trabalhar fora, ou ser separada, era uma distância mínima para ser considerada uma puta. A perda da virgindade sem que houvesse a consumação do casamento, ou um filho indesejado, era um verdadeiro suplício, principalmente para as mulheres mais pobres e negras. Então não é nenhuma surpresa que o grupo majoritário de pessoas que recorriam a cocaína para dar cabo de suas vidas fossem de mulheres.

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Em relação a maneira de morrer com cocaína, chama atenção o fato dos antigos jornais comentarem que os suicidas faleciam ingerindo quantidades que poucas vezes ultrapassam cinco gramas da droga. Não tenho base de conhecimento para saber se esta quantidade de cocaína na atualidade é capaz de matar uma pessoa, mas no passado era normal misturar a cocaína com outros produtos, até mesmo benzina. Era uma overdose bem explosiva.

Pelo que pude compreender não havia a figura clássica do traficante. O comércio era exercido pelos funcionários das farmácias, ou por algum um farmacêutico, certamente com a anuência e o beneplácito do proprietário.

Venda e Consumo da Cocaína no Rio de Janeiro

Em 4 de janeiro de 1913, jornalistas do periódico carioca “A Noite”, em um interessante trabalho investigativo, apresentaram os processos do consumo de cocaína na primeira metade da década de 1910 na cidade do Rio de Janeiro. Foi noticiado que sem maiores problemas, sem exigirem uma receita médica, vários jornalistas compraram em meia hora 37 gramas de cocaína.

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Consta na reportagem o preço dos frascos variou de 1$000 a 2$500 réis (um mil a dois mil e quinhentos réis).

Para efeitos de comparação, no mesmo exemplar do jornal carioca “A Noite” encontramos o anúncio da “Cervejaria Tolle”, instalada na Rua Riachuelo, 92, onde cada garrafa da cerveja neozelandesa “Bismarck Brown” custava $300 réis (trezentos réis).

Ou seja, pelo preço médio de um frasco com uma grama de cocaína, se comparava de três a cinco garrafas de cerveja importadas da Nova Zelândia (não esqueçam que quase todos os produtos industrializados vendidos no Brasil desta época eram importados). Por isso era tão fácil morrer com cocaína.

Típica farmácia, ou drogaria, nos Estados Unidos em 1905. No Brasil elas não eram muito diferentes - Fonte - Wikipédia.org
Típica farmácia, ou drogaria, nos Estados Unidos em 1905. No Brasil elas não eram muito diferentes – Fonte – Wikipédia.org

Para os jornalistas, do pessoal das farmácias que trabalhavam corretamente, só se salvavam “uns 20 %”. O resto vendia cocaína aos cariocas sem problemas.

Junto aos profissionais dos estabelecimentos farmacêuticos trabalhavam os “rápidos”, que pelo que pude compreender é atualmente o que a crônica policial denomina de “vapor”. Ou seja, a figura que no organograma do tráfico de drogas entrega o produto ao cliente. E tinha que ser entregue rapidamente, daí o nome!

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A reportagem escancarou geral. Deu nome das farmácias que venderam a droga e quem não vendeu. Foi publicado os endereços dos estabelecimentos, as quantidades vendidas em cada local e, num verdadeiro escândalo, até uma criança na Rua do Estácio comprou, a pedido dos jornalistas, a droga sem nenhum problema.

Em uma farmácia um atendente afirmou que vendia de setenta a cem gramas da droga por dia.

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As matérias de “A Noite” era bem denunciativas, mas pareceu não ter maiores resultados.

Ampliação e Declínio do Uso da Cocaína

Nesta História toda descobri que a repressão não era tanto pelo lado policial, mas era praticada pelo pessoal da Saúde Pública. Eram os funcionários desta repartição que fiscalizavam os estabelecimentos farmacêuticos e a atuação dos funcionários destes locais.

A polícia participava quando havia denúncia de venda e consequente morte de alguém, mas era difícil provar a participação deste pessoal neste tráfico. Quem comprava cocaína para se matar, se sobrevivesse, a vergonha era tanta que pouco interesse tinha em denunciar. Normalmente estes suicidas, como já foi dito aqui, eram das classes mais humildes da sociedade carioca e ninguém os escutava. Se morressem, eram enterrados e ficava por isso mesmo!

A pena maior, pelo que pude compreender, estava mais focada na aplicação de multas, que podiam chegar a 100$000 (cem mil réis). Mas parece-me que o judiciário não tinha muita gana de ver estes vendedores atrás das grades, conforme podemos ver na foto seguinte. Talvez porque tinha pessoas graúdas ganhando com a venda?

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Mas tudo leva a crer que de um pseudo modismo para se alcançar a morte, logo o consumo de cocaína no Rio de Janeiro passou a ser algo que deixou os ambientes privados e passou a chamar atenção do dia a dia da sociedade carioca.

Provavelmente como um resultado paralelo da investigação jornalística de “A Noite” contra o consumo de cocaína, são publicadas algumas cartas denunciando o uso de cocaína em locais públicos. No dia 12 de abril de 1913, “A Noite” trouxe na sua segunda página o relato enviado por carta, de um leitor que apontava a condição de mulheres viciadas em cocaína, que se prostituíam pela droga nas praças do centro do Rio de Janeiro, de como estas mulheres eram aliciadas e como se encontravam em franca decadência física e moral devido a droga e a prostituição.

Uma carta denúncia de 1913, incomodamente atual
Uma carta denúncia de 1913, incomodamente atual

Concluía o leitor pedindo aos jornalistas de “A Noite” que realizassem um trabalho investigativo.

Estranhamente, mesmo depois de 100 exatos anos, o relato desta denúncia é bastante similar ao que ocorre atualmente com as jovens que se prostituem para consumir cocaína e o seu nefasto “filhote”, o crack.

Percebemos através da leitura dos jornais antigos que entre as décadas de 1910 e 1920 passou a existir uma maior preocupação, um maior debate, até mesmo uma maior repressão a compra e venda de cocaína no Brasil.

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No início da década de 1920 o consumo de cocaína começou a diminuir no Brasil. Mas não foi por campanhas governamentais, ou pelo endurecimento da repressão e combate ao consumo da droga. A farra diminuiu porque simplesmente o produto foi escasseando no mercado externo.

Para os pesquisadores do tema os fatores deste declínio estavam no surgimento de leis restritivas e punitivas que baniram a cocaína e a heroína do mercado livre em vários países, principalmente nos Estados Unidos. Maior controle da importação e exportação desta droga, perseguição aos médicos que prescreviam tais substâncias indiscriminadamente, além do surgimento na Europa de medidas socioeducativas e de saúde pública, visando à prevenção e ao tratamento desses pacientes. O próprio advento da depressão econômica, com a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, deixou o mundo com menos dinheiro para gastos supérfluos. E por fim, o surgimento das anfetaminas em 1932, como um novo e potente estimulante de longa duração.

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Mas aparentemente estas situações não significaram o fim total da vinda e consumo da cocaína no Brasil antes da Segunda Guerra Mundial. Tanto assim que o popular cantor Francisco Alves intitulou a sua música para o carnaval de 1937 como “Cocaína”.

Olha, se a música foi lançada eu não sei! Mas só em intitular desta maneira uma música de carnaval é algo que chama atenção.

Não Baixem a Guarda, esta Epidemia Está Aí e Não vai Acabar tão Cedo

Sabemos que foi ao longo do século XX que os Estados Unidos assumiram a dianteira da cruzada antidrogas, impondo aos demais países na Europa e na América convenções que dariam origem à chamada guerra às drogas. Mas foi a convenção internacional realizada pela Organização das Nações Unidas em 1961, que se estabeleceu as regras que pautariam as políticas sobre drogas em vários países. O critério era proibir drogas que não tinha uso médico. As substâncias que não foram consideradas como de uso médico passaram, a partir de então, a ter seu uso proibido ou submetido a controle. A chamada “guerra às drogas” foi declarada pelos Estados Unidos em 1972, fortalecendo assim a deflagração explícita de combate ao tráfico, com operações internacionais de alcance cada vez maior.

Combate a fabricação de cocaína na Colômbia
Combate a fabricação e tráfico de cocaína

Na virada dos anos de 1960 para os 70, a cocaína voltou à cena como estimulante em um mercado de trabalho cada vez mais frenético. A economia do tráfico, então, assumiu um novo circuito. Tradicionais regiões de plantação de coca na Bolívia e Peru aumentaram sua produção para o mercado ilícito; a pasta produzida era repassada a vendedores colombianos, que a transformavam a folha na droga, encaminhada aos centros consumidores nos Estados Unidos, Europa e América Latina. Países como o Brasil serviam apenas de entreposto logístico da droga e eram centros de consumo de menor importância. Mas com o crescimento econômico brasileiro, o país já não mais despontava apenas como um corredor para o tráfico internacional de drogas, mas como um grande mercado consumidor.

Os jovens com poucas oportunidades foram atraídos pelo poder e dinheiro de ser traficantes de cocaína, crack, armas e muitos foram assassinados em guerras de gangues de drogas que se seguiram e que conhecemos bem.

Amigos, quer vocês queiram ou não, as drogas como a cocaína, crack, heroína, anfetaminas, maconha, lança perfume, álcool e outras desgraças estão nas ruas, nas portas das escolas, nas casas de espetáculo, na porta da sua casa, nos locais de trabalho e por aí vai. Não conheço outra maneira de livrar nossos filhos deste problema do que sendo seus maiores amigos, confidentes, tendo tempo para estar ao lado deles.

E não custa nada conhecer o que são estas drogas através de leituras e de outras formas de informação, assim é possível debater melhor com seus filhos sobre os maleficios que estes produtos geram..

Não baixem a guarda, esta epidemia está nas ruas e não vai acabar tão cedo.

A História assim mostra.

Veja também – https://tokdehistoria.wordpress.com/2013/05/22/cocaina-caico-caicoina/

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