Em uma das fotografia acima vemos uma cerimônia realizada no Cemitério do Alecrim em homenagem ao soldado Luís Gonzaga, considerado oficialmente o policial militar morto durante os combates ocorridos no antigo Quartel da Polícia, durante a Intentona Comunista de 23 de novembro de 1935.
Hoje, Luís Gonzaga é reconhecido pela Polícia Militar do Rio Grande do Norte como um de seus maiores símbolos. Seu nome batiza a principal condecoração da corporação e sua memória é reverenciada há décadas.
Publicada originalmente na Revista da Polícia, do Rio de Janeiro, edição de novembro de 1937, página 41.
Entretanto, existe uma controvérsia histórica que, embora pouco conhecida, nunca deixou de me chamar a atenção.
No livro Vertentes (1976), o desembargador João Maria Furtado dedica as páginas 128 e 129 a contestar a versão oficial. Segundo ele, Luís Gonzaga jamais teria sido soldado da Polícia Militar. Afirma que se tratava de um rapaz com deficiência mental, conhecido popularmente como “Doidinho”, que frequentava o quartel, utilizava peças antigas de uniforme e, durante o intenso tiroteio, acabou sendo atingido por uma bala, vindo a falecer.
Ainda segundo João Maria Furtado, embora diversos policiais tenham sido feridos naquele combate, nenhum integrante da corporação teria morrido em ação. Por essa razão, o então comandante da Polícia Militar, major Luiz Júlio, teria providenciado posteriormente o alistamento retroativo desse jovem, criando oficialmente a figura do soldado Luís Gonzaga como símbolo da resistência ao movimento comunista.
Essa interpretação não ficou restrita ao desembargador.
A capa e as páginas referentes ao caso no livro Vertentes, do desembargador João Maria Furtado.
Entre maio de 1984 e novembro de 1985, o jornalista Luiz Gonzaga Cortez publicou, no Diário de Natal, uma extensa série de reportagens sobre os acontecimentos políticos da década de 1930 no Rio Grande do Norte. Em diversos momentos, ele também questionou a narrativa oficial sobre Luís Gonzaga.
Essas reportagens motivaram forte reação do advogado João Medeiros Filho, que havia sido chefe de Polícia em 1935 e era autor do livro 82 Horas de Subversão (1980). Ele contestou energicamente as conclusões apresentadas por Gonzaga Cortez, mantendo viva uma discussão que já atravessava décadas.
Uma das páginas da séie de repotagens (um total de 20), publicadas pelo jornalista Luiz Gonzaga Cortez, no antigo jornal natalense O Poti, entre maio e novembro de 1985 sobre o comunismo e as lutas políticas no Rio Grande do Norte.
Entretanto, há um aspecto documental que torna essa discussão ainda mais interessante.
Há documentos oficiais da própria Polícia Militar que registram o alistamento de Luís Gonzaga como soldado em 30 de outubro de 1935. Também foram publicados boletins internos concedendo-lhe promoção post mortem ao posto de cabo por bravura, além do respectivo desligamento dos quadros da corporação em razão de sua morte. Há ainda um relato oficial sobre a ocorrência.
São justamente esses documentos que João Maria Furtado e Luiz Gonzaga Cortez consideravam ter sido produzidos posteriormente para oficializar, de forma retroativa, o ingresso de Luís Gonzaga na corporação.
Quartel da Força Policial, conhecido como “Quartel de Salgadeira”, em Natal, após ser metralhado durante a Intentona Comunista – Foto – toxina1.blogspot.com
Naturalmente, essa é uma interpretação historiográfica. Muitos a aceitam; outros a rejeitam completamente. Não possuo elementos para afirmar, de maneira categórica, qual dessas interpretações corresponde aos fatos. O que me chama a atenção é outro detalhe documental.
Tenho fotografada, em alta resolução, toda a coleção do jornal A República referente ao ano de 1935: página por página, edição por edição. Ao consultar a edição do dia 28 de novembro de 1935, página 8, que traz a nota oficial do Governo do Estado comentando os acontecimentos da Intentona Comunista, observo que não há qualquer referência ao soldado Luís Gonzaga. Há 41 anos o jornalista Luiz Gonzaga Cortez informou sobre isso nas páginas do jornal dominical natalense O Poti.
Foto da página do jornal A República, edição do dia 28 de novembro de 1935, página 8, que traz a nota oficial do Governo do Estado sobre os fatos ligados a Intentona Comunista e não há qualquer referência ao soldado Luís Gonzaga.
Em 1985 o jornalista Luiz Gonzaga Cortez também não encontrou nada!
Ora, se ele realmente foi o único policial militar morto durante a defesa do quartel, por que seu nome não aparece justamente na primeira manifestação oficial do Governo sobre aqueles acontecimentos?
Essa ausência documental, pelo menos para mim, levanta uma questão que merece ser considerada. Seria um simples equívoco de quem redigiu a nota no Palácio do Governo? Uma falha da tipografia do jornal? Ou haveria outra explicação?
Tudo isso é possível. Contudo, permanece a pergunta: por que o nome daquele que seria o único policial militar morto em combate somente aparece dias depois?
Foi justamente essa sequência de documentos que me levou a refletir sobre o tema. Não apresento estas observações para oferecer uma conclusão definitiva, mas para expor uma questão historiográfica que, ao meu ver, permanece aberta.
Detalhes da página 8 do jornal A República, edição de 29 de novembro de 1935, onde é apresentado um resumo dos fatos ocorridos a partir do dia 23 de novembro. Podemos ver uma relação das vítimas dos conflitos violentos, incluindo militares da polícia, mas não se menciona o soldado Luiz Gonzaga, mesmo passados seis dias do início dos acontecimentos.
Ao longo dos anos, percorri, em quatro oportunidades diferentes, o mesmo caminho utilizado por Lampião e seus cangaceiros durante o ataque a Mossoró. Nessas pesquisas, passei a conhecer melhor a atuação do soldado José Monteiro de Matos, cuja coragem sempre me impressionou profundamente.
Paralelamente, estudando os jornais da época, o livro de João Maria Furtado e as reportagens de Luiz Gonzaga Cortez, percebi que meus questionamentos sobre a história de Luís Gonzaga apenas aumentaram.
A História não é construída apenas por certezas. Ela também é feita de documentos, de versões conflitantes e de perguntas que atravessam gerações.
Intentona Comunista de 1935 – Chegada à Estação da Great Western, em Natal, do primeiro grupo de comunistas capturados, indo para o interior – Fonte Wikipédia.
Talvez Luís Gonzaga tenha sido exatamente o herói que a tradição da Polícia Militar preservou. Talvez João Maria Furtado e Luiz Gonzaga Cortez tenham identificado uma inconsistência documental que ainda merece ser investigada.
Não sei.
O que sei é que, enquanto existirem documentos apontando caminhos diferentes, essa controvérsia continuará fazendo parte da própria História.
E não há nada de errado nisso. Questionar documentos, confrontar versões e buscar compreender o passado sempre foi — e sempre será — a essência do trabalho de qualquer pesquisador.
UM HERÓI ESQUECIDO? – A HISTÓRIA DO SOLDADO DA PM DO RN QUE NÃO FUGIU DO COMBATE A LAMPIÃO E PAGOU COM A VIDA
No dia 10 de junho de 1927, Lampião e seu bando invadiram o Rio Grande do Norte com o objetivo de atacar a cidade de Mossoró.
Na pequena vila de Vitória — atual município de Marcelino Vieira —, o tenente Napoleão de Carvalho Agra organizava um destacamento de policiais potiguares para tentar interceptar os cangaceiros antes que eles alcançassem seu destino.
Entre aqueles homens havia um jovem recruta, negro, de baixa estatura e recém-incorporado à força policial. Era tão novo na corporação que sequer possuía farda. Chamava-se José Monteiro de Matos.
Na tentativa de disfarçar a tensão que antecedia o combate, alguns companheiros faziam brincadeiras às suas custas. Diziam que, por ser pequeno e inexperiente, provavelmente seria o primeiro a fugir quando começassem os tiros. A resposta do soldado ficou para a História.
— Eu morro, mas não corro..
Pouco depois, a tropa deixou a vila e seguiu em direção ao sul. Não demorou para que o encontro com os homens de Lampião acontecesse. O combate foi intenso.
A superioridade numérica e tática dos cangaceiros acabou obrigando os policiais a recuar. Foi nesse momento que José Monteiro de Matos transformou sua frase em realidade.
Igreja próxima ao setor onde foi morto o soldado José Monteiro de Matos, onde durante muitos anos, sempre no dia da sua morte, os moradores da região chamavam o padrre da cidade de Marcelino Vieira para rezar o que ficou conhecido como “A Missa do Soldado”. Quando estive pela primeira vez nesse local em 2010, essa celebração religiosa já não mais existia.
Mesmo ferido, permaneceu em sua posição, dando cobertura à retirada dos companheiros. Lutou até o último instante, matou o cangaceiro Azulão e acabou sendo cercado e brutalmente assassinado pelos homens de Lampião.
Foto do laudo cadavérico original do soldado José Monteiro de Matos.
Seu laudo cadavérico registrou que seu corpo foi submetido a sucessivas sevícias, revelando a violência com que foi tratado após sua morte.
Sou autor do livro 1927 – O Caminho de Lampião no Rio Grande do Norte (2019), pesquisa para a qual percorri, de motocicleta, todo o trajeto realizado pelos cangaceiros em território potiguar.
Ao longo dessa jornada, uma coisa me chamou profundamente a atenção. Mesmo em localidades muito distantes de Marcelino Vieira, encontrei pessoas que ainda se lembravam da história do soldado que havia prometido:
“Eu morro, mas não corro.”
Quase um século depois, sua coragem permanecia viva na memória popular. Talvez seja essa a mais verdadeira das homenagens.
Até onde consegui apurar, a única homenagem oficial prestada ao Soldado José Monteiro de Matos foi dar seu nome à quadra de esportes do quartel da Polícia Militar em Pau dos Ferros. Se existe outra, sinceramente a desconheço.
As instituições constroem naturalmente seus símbolos e preservam aqueles que consideram representativos de sua própria história. Como um pesquisador independente, porém, sinto que
também tenho um dever. O dever de registrar histórias como esta para que homens como José Monteiro de Matos não desapareçam das páginas do passado.
Porque existem heróis que recebem monumentos. Outros recebem medalhas. E existem aqueles cuja maior homenagem é continuar sendo lembrados.
Na minha opinião, o Soldado José Monteiro de Matos merece nunca ser esquecido.
Uma edificação que acompanhou mais de dois séculos da história do Rio Grande do Norte, foi sede de um governo revolucionário, quartel-general do Exército em Natal e hoje é um local dedicado a nossa cultura.Uma edificação que acompanhou mais de dois séculos da história do Rio Grande do Norte, foi sede de um governo revolucionário, quartel-general do Exército em Natal e hoje é um local dedicado a nossa cultura.
Quem passa pela Praça André de Albuquerque, no coração da Cidade Alta, geralmente presta atenção na Catedral Metropolitana, no obelisco comemorativo da Revolução de 1817 ou na estátua de Luís da Câmara Cascudo, diante de um antigo edifício de linhas neoclássicas.
Para muitos natalenses, especialmente os mais velhos, aquele prédio continua sendo simplesmente o “QG”, o antigo Quartel-General do Exército em Natal. Outros o conhecem apenas como Memorial Câmara Cascudo. Pouca gente imagina, entretanto, que aquelas paredes guardam uma história muito mais antiga.
Durante mais de duzentos anos, gerações de natalenses passaram por suas portas sem imaginar quantas histórias ali se acumularam. O edifício mudou de função inúmeras vezes, mas jamais deixou de ser um dos grandes protagonistas silenciosos da história do Rio Grande do Norte. E, felizmente, continua de pé.
Um Prédio Nascido no Tempo dos Reis
Embora não exista consenso sobre a data exata de sua construção, acredita-se que o edifício tenha sido erguido entre as décadas de 1780 e 1810, quando Natal ainda era uma pequena vila colonial de poucas ruas, concentrada ao redor da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação.
Naquela época, a cidade e a Capitania do Rio Grande do Norte possuíam reduzida — ou quase nenhuma — importância política e econômica dentro do Império Português. Mesmo assim, era necessário manter uma estrutura administrativa responsável pela arrecadação dos tributos destinados à Coroa.
Segundo a professora Jeanne Nesi, em seu livro Natal Monumental (2012, p. 58-61), houve uma ordem da Junta da Fazenda Real de Pernambuco, datada de 17 de outubro de 1788 — justamente o ano em que se iniciavam as articulações da Inconfidência Mineira — determinando a construção desse edifício. A obra ficou a cargo de Manoel Antônio de Azevedo, que somente iniciou os trabalhos no ano seguinte, após receber um conto e sessenta mil réis, de um total firmado de três contos e duzentos mil réis. Para a autora, a construção deve ter sido concluída entre 1810 e 1817.
Como sede da Fazenda Real da Capitania do Rio Grande do Norte, dali saíam ordens, conferiam-se contas, registravam-se receitas e despesas e administravam-se os recursos destinados ao governo colonial. Naturalmente, não era um dos lugares mais queridos pelos moradores. Afinal, sempre que o assunto era imposto, dificilmente havia simpatia por parte da população.
Embora muita gente utilize a expressão “Real Erário” para se referir ao prédio, tecnicamente o Real Erário era o órgão central das finanças do Reino de Portugal, sediado em Lisboa. Nas capitanias brasileiras funcionavam repartições fazendárias locais, subordinadas à administração régia. Ainda assim, para os natalenses daquela época, pouco importavam essas diferenças administrativas.
Quem aparecia para cobrar impostos representava, na prática, o mesmo poder da Coroa. E era exatamente daquele prédio que partiam muitas dessas determinações.
Quando a República Chegou a Natal
Poucos edifícios do Rio Grande do Norte tiveram o privilégio de testemunhar um dos acontecimentos mais importantes da história política da antiga Capitania.
Em março de 1817, as ideias republicanas vindas de Pernambuco chegaram a Natal. No dia 28 daquele mês, liderado por André de Albuquerque Maranhão, um grupo de revolucionários tomou o controle da administração local.
Foi justamente naquele prédio que passou a funcionar a Junta Governativa do novo governo republicano. Durante alguns dias, o edifício deixou de representar a autoridade do rei de Portugal para tornar-se símbolo de um governo inspirado nos ideais de liberdade, autonomia política e republicanismo. Era um sonho ousado, mas que, infelizmente, durou pouco.
As forças fiéis à Coroa reagiram rapidamente, e a revolução foi sufocada. André de Albuquerque acabou assassinado em circunstâncias extremamente violentas, tornando-se o maior mártir da Revolução de 1817 no Rio Grande do Norte. Seus restos mortais seriam posteriormente sepultados na igreja localizada exatamente em frente ao edifício onde havia instalado o governo republicano. Uma ironia da História.
O Império, a República e os Impostos
Com o fracasso do movimento republicano, o velho prédio voltou à rotina burocrática.
Mudaram os governantes após a Independência do Brasil, em 1822; mudaram as bandeiras; mudaram os nomes das repartições. Permaneceram, porém, a função arrecadadora e diversas outras atribuições administrativas. Ao longo do século XIX, a estrutura fazendária foi sendo reorganizada sucessivamente.
Sabe-se que o edifício passou por importantes reformas em 1875. Acredito que tenha sido nessa ocasião que adquiriu parte das características arquitetônicas que ainda hoje podem ser observadas.
Com a Proclamação da República, em 1889, o imóvel permaneceu exercendo funções fiscais, passando a sediar a Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional. Durante décadas, milhares de funcionários públicos, comerciantes, fazendeiros e cidadãos comuns frequentaram aquele edifício para resolver questões relacionadas aos tributos federais.
Em 1955, a Delegacia Fiscal transferiu-se para uma nova sede, construída na Ribeira. Pela primeira vez em muitos anos, o velho prédio ficou sem uma função administrativa definida. Não demorou, entretanto, para receber novos ocupantes.
Uma Nova Missão
O Exército Brasileiro instalou ali o Quartel-General da Guarnição de Natal, fazendo com que o edifício passasse a ser conhecido por praticamente toda a população como o famoso “QG”. Durante décadas, essa sigla tornou-se parte da memória dos natalenses. Especialmente para aqueles que viveram os anos da Ditadura Militar, o prédio adquiriu um significado que ia muito além da sua história ou sua arquitetura.
Para alguns, era apenas um quartel. Para outros, representava lembranças difíceis de um período marcado por perseguições políticas, interrogatórios e restrições às liberdades democráticas. O velho edifício, mais uma vez, assistia silenciosamente a outro capítulo da história brasileira.
Algumas pessoas afirmam que ali funcionou a sede da 7ª Região Militar. Entretanto, essa unidade de comando foi criada em 1923 e sempre teve sua sede em Recife. O prédio, na realidade, abrigou a sede da 7ª Divisão de Infantaria, que, por meio do Decreto nº 72.637, de 7 de novembro de 1973, passou a denominar-se 7ª Brigada de Infantaria Motorizada. Em 1977, o Exército deixou o imóvel.
O Renascimento Como Espaço Cultural
Poucos anos depois, entre 1982 e 1984, durante a gestão de Valério Mesquita à frente da Fundação José Augusto, foi realizada uma ampla restauração, financiada com recursos da ordem de 184 milhões de cruzeiros. A recuperação devolveu ao edifício parte de sua imponência. Inicialmente, passou a funcionar como Centro de Cultura. Depois, em 10 de fevereiro de 1987, foi criado ali o Memorial Câmara Cascudo.
Em 24 de agosto de 1989, o edifício foi oficialmente tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual. Foi um reconhecimento plenamente merecido. Afinal, poucos imóveis de Natal acompanharam tantas transformações políticas, administrativas e sociais.
Aquelas paredes testemunharam a administração colonial portuguesa, a Revolução de 1817, o trabalho das repartições fazendárias do Império e da República, a presença do Exército, a redemocratização do país e, finalmente, sua transformação em um espaço dedicado à preservação da memória potiguar.
Enquanto tantos edifícios históricos desapareceram sob o avanço da modernização urbana, e outros, mesmo oficialmente tombados, continuam “tombando” por abandono e falta de políticas efetivas de preservação, aquela construção permanece firme diante da Praça André de Albuquerque.
Mais do que um belo exemplar da arquitetura antiga de Natal, ela é uma testemunha silenciosa da história do Rio Grande do Norte. Talvez seja justamente isso que torne sua preservação tão importante.
Cada pedra, cada parede e cada janela parecem lembrar aos que passam por ali que uma cidade sem memória dificilmente compreenderá o seu próprio futuro.
Esta fotografia é extraordinária por diversos motivos.
Nela, vemos o Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille, o ás da aviação alemã da Segunda Guerra Mundial conhecido pelas Forças do Eixo como “A Estrela da África”, à extrema esquerda, e o Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu, um prisioneiro de guerra sul-africano que foi forçado a se tornar seu “batman” (assistente pessoal de um oficial) em 1942, mas que acabou se tornando seu amigo íntimo, à extrema direita da fotografia.
É bastante intrigante que Hans-Joachim Marseille tivesse um assistente sul-africano, por um lado, quando, por outro, ele era o piloto alemão mais temido na campanha do Norte da África, indiscutivelmente um dos melhores pilotos de combate que o mundo já viu. Ele acumulou um número considerável de aeronaves da Força Aérea Sul-Africana destruídas, totalizando mais de 100 aeronaves aliadas – principalmente da Força Aérea Real (RAF), da Força Aérea Real Australiana (RAAF) e da Força Aérea Sul-Africana (SAAF).
Hauptmann (Capitão) Hans-Joachim Marseille
É igualmente uma demonstração do caráter de Hans-Joachim Marseille como pessoa, visto que ele se opôs diretamente às políticas nazistas de segregação racial e fez amizade abertamente com um homem preto, o que é especialmente surpreendente considerando seu papel como oficial superior da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) e herói do Reich.
Com o tempo, Marseille e “Mathias” Letulu tornaram-se inseparáveis. Marseille estava preocupado com a forma como Letulu seria tratado por outras unidades da Wehrmacht e certa vez comentou:
“Para onde eu for, Mathias vai.”
Cabo Mathew ‘Mathias’ Letulu
Marseille obteve a promessa de seu comandant.e superior, Neumann, de que, caso algo lhe acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu permaneceria na unidade. Um comportamento incomum para um oficial alemão no Terceiro Reich, mas Marseille não era filiado ao partido nazista; na verdade, ele os desprezava.
Não Era Um Nazista
Em termos de personalidade, Hans-Joachim Marseille era o oposto de um oficial alemão altamente disciplinado; ele era “o engraçadinho” e quase foi expulso da Luftwaffe diversas vezes por suas travessuras. A única razão pela qual não foi expulso foi porque seu pai era um veterano de alta patente da Primeira Guerra Mundial e oficial do exército, e Hans-Joachim Marseille testou os limites dessa proteção.
Se você procurar “canalha desordeiro” no dicionário, deve encontrar uma foto do rosto sorridente de Hans ao lado. Em uma ocasião, ele chegou a metralhar o chão em frente à tenda de seu superior. Só por isso, ele poderia ter sido levado à corte marcial, mas a essa altura já estava demonstrando suas habilidades superiores de piloto, consolidando-se como um futuro ás da aviação de caça.
Comandante de esquadrão popular. Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille
Ele odiava os nazistas e desprezava a autoridade em geral, tendo sempre tido uma relação tensa com seu pai autoritário, que era o modelo de um oficial prussiano rigoroso. Hans era verdadeiramente o oposto de seu pai.
Seus biógrafos americanos, Colin Heaton e Anne-Marie Lewis, relembram em “A Estrela da África” que ele certa vez parou na Autobahn simplesmente para urinar. Cansado de seu comportamento indisciplinado, um oficial superior o transferiu para o Norte da África em 1941. Lá, ele prosperou, seu currículo brilhante lhe rendeu a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas e Diamantes, e aclamação em seu país. Mas os registros sugerem que ele não era um nazista fervoroso.
Durante o treino. Crédito da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille
Ele ouvia abertamente música jazz proibida, bebia muito e às vezes aparecia para o serviço com cheiro de álcool e de ressaca; era um notório mulherengo, indo contra a ideologia nazista de todas as maneiras possíveis – e saindo impune.
Aconteceu um incidente que realmente demonstra a fibra e a atitude do homem. Ocorreu quando Hans-Joachim Marseille foi convocado a Berlim, pois Hitler queria lhe entregar condecorações. Como pianista talentoso, Marseille foi convidado a tocar uma peça na casa de Willy Messerschmitt, industrial e projetista do caça Messerschmitt Bf 109, com o qual Marseille havia obtido tanto sucesso.
Entre os convidados da festa estavam Adolf Hitler, o presidente do partido, Martin Borman, o vice de Hitler e comandante-em-chefe da Luftwaffe, Hermann Göring, o chefe da SS, Heinrich Himmler, e o ministro da Propaganda do Reich, Joseph Goebbels. Depois de impressioná-los com uma apresentação de piano de mais de uma hora, incluindo a obra “Für Elise”, de Ludwig van Beethoven, Marseille passou a tocar jazz americano, considerado degenerado pela ideologia nazista. Hitler se levantou, ergueu a mão e disse: “Acho que já ouvimos o suficiente” e saiu da sala.
Magda Goebbels achou a brincadeira divertida e Artur Axmann lembrou como seu “sangue gelou” ao ouvir aquela música “Ragtime” sendo tocada na frente do Führer.
Mas um episódio ainda mais revelador sobre sua atitude em relação ao nazismo estava por vir. Em uma ocasião, quando foi convocado à Alemanha, ele notou que judeus haviam sido removidos de sua vizinhança (incluindo o médico de sua família, que o havia trazido ao mundo) e questionou seus colegas oficiais sobre o que havia acontecido com eles – o que ele então ouviu foram os planos para a Solução Final – o extermínio dos judeus da Europa. Isso o chocou profundamente e ele desertou, tornando-se um desertor de fato e indo para a Itália, onde se escondeu na clandestinidade.
O Messerschmitt Bf-109F-4, do esquadrão JG27, pilotado por Hans-Joachim Marseille – Quadro de Arkadiusz Wróbel
A Gestapo (Polícia Secreta) nazista alemã, no entanto, conseguiu localizá-lo e o obrigou a retornar à sua unidade, onde outros pilotos notaram que ele parecia profundamente deprimido e preocupado, completamente diferente da pessoa alegre a que estavam acostumados.
Amizade Com o Cabo Mathew Letulu
A amizade de Marseille com seu “batman” (ajudante pessoal) também é usada para mostrar seu caráter antinazista. Em 1942, Marseille fez amizade com um prisioneiro de guerra do Exército Sul-Africano, o cabo Mathew Letulu. Marseille o acolheu como ajudante pessoal em vez de permitir que ele fosse enviado para um campo de prisioneiros de guerra na Europa.
“Mathias” era o apelido dado ao cabo Mathew Letulu por seus captores. O cabo Letulu fazia parte do Corpo Militar Nativo Sul-Africano e foi feito prisioneiro de guerra pelos alemães na manhã de 21 de junho de 1942, quando Tobruk e as tropas sul-africanas que a defendiam, sob o comando do General Klopper, foram invadidas pelo Marechal de Campo Erwin Rommel.
Marseille com um Hawker Hurricane MkIIB do Esquadrão 274 da RAF, Norte da África – 30 de março de 1942. Fonte da imagem: samilhistory.com
Os prisioneiros de guerra pretos recebiam tratamento diferenciado dos prisioneiros de guerra brancos pela Alemanha nazista. Em vez de serem simplesmente confinados conforme as convenções, os prisioneiros africanos eram submetidos a “trabalho” não remunerado, auxiliando a causa nazista, cuja resistência resultava em um desfecho terrível. Letulu foi colocado para trabalhar pelos alemães – inicialmente como motorista. O veículo pertencia ao 3º Esquadrão da Jagdgeschwader – ou Ala de Caça – 27 (JG 27), baseado em Gazala, 80 km a oeste de Tobruk. Lá, Letulu chamou a atenção do audacioso e romântico Hans-Joachim Marseille.
Nessa altura, Letulu já tinha progredido um pouco na sua carreira, tornando-se ajudante no casino do clube do 3º Esquadrão, onde desenvolveu uma afeição especial por Marseille. Como os oficiais alemães precisavam de assistentes pessoais (conhecidos no meio militar como “batman”), alguns prisioneiros de guerra foram recrutados, e com Hans-Joachim Marseille não foi diferente. O cabo Letulu foi inicialmente contratado como seu batman, mas rapidamente se tornou um amigo próximo.
Marseille sabia que, à medida que seu número de mortes aumentava, a chance de ser retirado da linha de frente crescia a cada dia, e se isso acontecesse, o cabo “Mathias” Letulu, que por ser preto, poderia estar em perigo devido à filosofia racial nazista. Com a maior seriedade, ele fez com que seu colega piloto, Ludwig Franzisket, prometesse se tornar o protetor de Mathias caso Marseille perdesse a capacidade de desempenhar essa função.
O cabo Letulu também sabia que, permanecendo com Marseille, teria uma chance maior de sobreviver à guerra e, eventualmente, escapar. Além disso, como ambos tinham uma relação extremamente positiva, Letulu fez o possível para que a vida de Marseille na zona de combate fosse a mais confortável possível.
O seguinte trecho sobre o vínculo único entre eles foi extraído de “German Fighter Ace – Hans-Joachim Marseille, The life story of the Star of Africa” de Franz Kurowksi.
Por algumas estranhas reviravoltas do destino, Hans designou Mathew como seu assistente pessoal, mas o tratou em todos os sentidos como um amigo, tendo longas conversas com ele e possivelmente até compartilhando bebidas alcoólicas e ouvindo música juntos, simplesmente passando tempo como dois amigos que por acaso estavam em uma guerra e em lados opostos.
Além de Mathew, Hans frequentemente encontrava outros pilotos aliados capturados e conversava com eles em inglês, socializando. Hans também desobedecia a ordens diretas de não informar o inimigo sobre o destino de seus pilotos – ele decolava sozinho com um bilhete de paraquedas explicando os nomes dos pilotos capturados e que estavam vivos e bem. Ao sobrevoar aeródromos inimigos para lançar esses bilhetes, ele era atacado por fogo antiaéreo, arriscando assim a própria vida para informar às famílias dos pilotos inimigos que eles estavam vivos e bem – ou mortos, removendo assim o status de MIA (Desaparecidos em Ação). Segundo diversas fontes, ele era assim: uma pessoa que acreditava na cavalaria e cujo país foi ocupado pelos nazistas.
Com o tempo, Hans se tornaria ainda mais protetor com Mathew, especialmente contra os nazistas.
Fonte da Imagem – giftedsofia.com
A “Estrela da África”
O recorde de Hans-Joachim Marseille de 151 vitórias no Norte da África foi nada menos que impressionante – ele destruiu esquadrões Aliados (RAF, SAAF e RAAF) abatendo cento e um (101) caças Curtiss P-40 Tomahawk/Kittyhawk, 30 caças Hawker Hurricane, 16 caças Supermarine Spitfire, dois bombardeiros Martin A-30 Baltimore, um bombardeiro Bristol Blenheim e um bombardeiro Martin Maryland.
Como piloto de caça, Marseille sempre se esforçou para aprimorar suas habilidades. Ele trabalhou para fortalecer as pernas e os músculos abdominais, para ajudá-lo a tolerar as forças G extremas do combate aéreo. Marseille também bebia uma quantidade anormal de leite e evitava usar óculos de sol, para melhorar sua visão.
Apresentado com um Volkswagen Kübelwagen pintado com a inscrição “Otto” (Otto = oito) . Fonte da imagem: facebook.com/pages/category/Public-Figure/Hans-Joachim-Marseille
Para neutralizar os ataques dos caças alemães, os pilotos aliados voavam em “círculos de Lufbery” (nos quais a cauda de cada aeronave era coberta pela aeronave amiga atrás). A tática era eficaz e perigosa, pois um piloto que atacasse essa formação podia se encontrar constantemente na mira dos pilotos inimigos. Marseille frequentemente mergulhava em alta velocidade no meio dessas formações defensivas, tanto por cima quanto por baixo, executando uma curva fechada e disparando um tiro de deflexão de dois segundos para destruir uma aeronave inimiga.
Marseille atacou em condições consideradas desfavoráveis por muitos, mas sua pontaria permitiu que ele se aproximasse com rapidez suficiente para escapar do fogo de resposta das duas aeronaves que voavam em cada flanco do alvo. A excelente visão de Marseille possibilitou que ele avistasse o oponente antes de ser avistado, permitindo-lhe tomar as medidas apropriadas e manobrar para a posição de ataque.
Em combate, os métodos pouco ortodoxos de Marseille o levaram a operar em uma pequena unidade líder/ala, que ele acreditava ser a maneira mais segura e eficaz de lutar nas condições de alta visibilidade dos céus do Norte da África. Marseille “trabalhava” sozinho em combate, mantendo seu ala a uma distância segura para que não colidisse com ele ou atirasse nele por engano.
Hans-Joachim Marseille com Erwin Rommel e outros, Líbia, 16 de setembro de 1942. Fonte da imagem: Pinterest
Em combates aéreos, especialmente ao atacar aeronaves aliadas em círculo de Lufbery, Marseille frequentemente preferia reduzir drasticamente a potência e até mesmo baixar os flaps para diminuir a velocidade e encurtar o raio de curva, em vez do procedimento padrão de usar potência máxima o tempo todo. Emil Clade afirmou que nenhum dos outros pilotos conseguia fazer isso com eficácia, preferindo mergulhar sobre oponentes isolados em alta velocidade para escapar caso algo desse errado.
As ligações de Marseille com a África do Sul iam além de seu vínculo com o Cabo “Mathias” Letulu e eram muito mais letais em relação aos pilotos sul-africanos. Nas semanas anteriores ao encontro dos dois, Marseille é creditado por ter abatido três pilotos da Força Aérea Sul-Africana a oeste de Bir-el Harmat, em 31 de maio, incluindo o Major Andrew Duncan, ex-aluno da Bishops (que morreu em combate), e três dias depois, outros seis pilotos da Força Aérea Sul-Africana em apenas 11 minutos, três dos quais eram ases da aviação. Um deles, Robin Pare, morreu em combate.
Morte do Capitão Hans-Joachim Marseille
Em 30 de setembro de 1942, o brilhante recorde de Marseille, com um total de 158 vitórias na carreira, chegou ao fim (151 delas com o JG 27 no Norte da África).
Messerschmitt Bf 109F-4, Hans Joachim Marseille, imagem colorizada. Fonte da imagem: samilhistory.com
Após o motor de seu caça Bf 109G apresentar sérios problemas, ele saltou de paraquedas próximo a território amigo, sob o olhar atento de seus companheiros de esquadrão. Para horror deles, o caça de Marseille caiu inesperadamente em um ângulo acentuado no momento do salto, com o estabilizador vertical atingindo-o no peito e no quadril. Ele morreu instantaneamente ou ficou inconsciente; em ambos os casos, seu paraquedas não abriu e ele caiu a cerca de 7 quilômetros ao sul de Sidi Abdel Rahman, no Egito.
Seu amigo e companheiro piloto da JG 27, o capitão Ludwig Franzisket, condecorado com a Cruz de Cavaleiro, juntamente com o cirurgião do esquadrão, Dr. Winkelmann, foram os dois primeiros a chegar ao local, trazendo os restos mortais de Marseille de volta à base.
Mathias foi o primeiro a cumprimentá-los, e o relato a seguir foi extraído das memórias de Wilhelm Ratuszynski.
Local da queda da aeronave de Marseille, chamado Memorial Pirâmide Hans Joachim Marseille (Bf 109 G-2/trop WK-Nr. 14256). Fonte da imagem: tracesofwar.com
Embora o calor não incentivasse nenhuma atividade, algo dizia a Mathias para lavar as roupas de Hans. Hans gostava de vestir um uniforme limpo depois do voo. Ele sempre gostava de estar apresentável. Mathias optou por usar gasolina desta vez. As roupas secariam em poucos minutos.
Normalmente, isso era feito esfregando os uniformes com areia para remover o sal, o óleo e a sujeira. Tudo era escasso. Ser ordenança pessoal de Hans-Joachim Marseille, o piloto mais famoso da Luftwaffe, tinha suas vantagens. Por exemplo, ele recebia um pouco de combustível de avião para lavar os uniformes. Mathias gostava de ser servo de Jochen e gostava do próprio Jochen.
Fonte da imagem: findagrave.com/memorial/81058613/hans_joachim-marseille
Eles eram amigos. Mathias mal havia começado sua tarefa quando o som de aeronaves se aproximando sinalizou para a equipe de solo que era hora de trocar a letargia pela atividade. Mathias colocou a tampa nos uniformes encharcados e começou a caminhar em direção à aeronave que estava pousando. Ele procurava um avião familiar que deveria ter o número 14 pintado em amarelo visível na fuselagem. Era para ser o último a pousar. Ele notou que três aviões estavam faltando e que o último a tocar o solo tinha um número diferente.
Sem se alarmar, ele se virou para Rudi, que já havia saltado da asa de seu 109. Viu Mathias se aproximando e interrompeu a conversa com seu mecânico. Seu rosto estava sombrio quando olhou para Mathias e balançou a cabeça lentamente. E Mathias entendeu imediatamente. Continuou olhando fixamente para o rosto de Rudi por mais alguns segundos, virou-se devagar e foi embora. Percebeu uma sensação estranha. Nenhuma raiva, tristeza, pesar ou resignação. Estava calmo, mas algo lhe apertava a garganta. Os músculos do pescoço se contraíram e ele teve dificuldade para engolir. Caminhou por alguns minutos sem notar os outros que o observavam. Chegou ao colorido Volkswagen de Jochen, chamado “Otto”, e sentou-se ao volante. Por um instante, pareceu querer ir a algum lugar, mas saiu do carro e se aproximou dos uniformes encharcados.
Marseille tocou jazz americano no piano de Messerschmitt na frente de Adolf Hitler. Crédito da imagem: samilhistory.com
Ele olhou para a sacola de lona com as iniciais HJ.M. ao lado. Levou a mão ao bolso do peito em busca de fósforos. Lentamente, mas sem hesitar, acendeu um fósforo e o jogou sobre a roupa. As chamas que irromperam aumentaram o calor já escaldante. Nesse instante, os últimos fogos de artifício começaram a cair. Mathias instintivamente ergueu a cabeça, acompanhando-os. O nó em sua garganta aumentou.
Embora todo o esquadrão estivesse devastado com a perda de um ás da aviação tão importante, Mathias, apesar de conhecer Marseille há pouco tempo, ficou profundamente deprimido com a perda de um querido amigo.
Marseille foi inicialmente sepultado em um cemitério militar alemão em Derna, na Líbia, durante uma cerimônia que contou com a presença de líderes como Albert Kesselring e Eduard Neumann. Posteriormente, seus restos mortais foram transferidos para Tobruk, também na Líbia.
Pirâmide de Marselha vista do oeste, Sidi Abd el-Rahman, Egito. Fonte da imagem: wikimedia.org
A Proteção de Ludwig Franzisket
Após a morte de Marseille, conforme prometido ao amigo, o Hauptmann Ludwig Franzisket acolheu o Cabo Letulu, que por sua vez se tornou seu assistente pessoal. O Cabo Letulu permaneceu no Esquadrão mesmo depois de Franzisket ter sido forçado a saltar de paraquedas, ocasião em que também atingiu o estabilizador vertical, fraturando uma perna. Após se recuperar, Franzisket retornou ao seu Esquadrão e o Cabo Letulu continuou a servi-lo na Tunísia, Sicília e, finalmente, na Grécia.
No verão de 1944, a situação na Grécia tornou-se crítica, com a iminente invasão britânica do continente grego. Surgiu então a oportunidade de “contrabandear” o cabo “Mathias” Letulu para um dos campos de prisioneiros de guerra improvisados, onde ele poderia ser “libertado” pelos britânicos. Franzisket planejou esse golpe em conjunto com o capitão Buchholz. “Mathias” voltou a ser “Mathew” e tornou-se cabo na Divisão Sul-Africana. Tudo correu sem problemas. Ele foi libertado pelas tropas britânicas em setembro de 1944 e autorizado a retornar para casa após o fim das hostilidades.
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Reunião em 1984
Por coincidência, após a guerra, antigos membros da JG 27 descobriram que o Cabo “Mathias” Letulu ainda estava vivo. Imediatamente enviaram-lhe um convite, pagaram a viagem e outras despesas e, finalmente, no décimo reencontro do Deutsches Afrikakorps, no outono de 1984, reencontraram-se com o seu antigo amigo sul-africano.
Os antigos pilotos ficaram radiantes ao vê-lo e os convites choveram de todos os lados. As palavras a seguir, proferidas em alemão como uma homenagem a Hans-Joachim Marseille por “Mathias” Letulu, no feliz desfecho de sua jornada, oferecem uma ideia do vínculo que uniu Letulu a seu amigo alemão:
“O Hauptmann Marseille era um grande homem e uma pessoa sempre disposta a ajudar. Ele era sempre bem-humorado e amigável. E foi muito bom para mim. ”
Em 1989, uma nova lápide e uma nova placa foram colocadas em seu túmulo; os camaradas sobreviventes da Luftwaffe de Marseille compareceram ao evento, incluindo seu amigo aliado – Mathew “Mathias” Letulu, que voou da África do Sul especialmente para participar da cerimônia.
Um extremista, radical e pesquisador, Jack London nunca foi destinado a envelhecer. Em 22 de novembro de 1916, London, autor de Chamado Selvagem, morreu aos 40 anos. Sua curta vida foi controversa e contraditória.
Nascido em 1876, o ano da Batalha de Little Bighorn e da morte do general George Amstrong Custer, o escritor prolífico morreria no ano em que John T. Thompson inventou a submetralhadora. A vida de London personificava a frenética modernização dos Estados Unidos da América entre a Guerra Civil e a Primeira Guerra Mundial. Com sua sede de aventura, sua história de sucesso e suas ideias políticas progressistas,os seus escritos espelhavam a transformação do poder global urbano-industrial.
Com um olhar atento e um senso inato, London reconheceu que um crescente número de leitores do país estava pronto para um tipo diferente de escrita. O estilo precisava ser direto,robusto e vívido. E ele tinha um forte atrativo para os leitores americanos, que eram propensos à nostalgia criativa. Notavelmente, as suas histórias endossavam reciprocidade, cooperação, adaptabilidade e determinação. Em seu universo fictício, lobos solitários morrem e machos alfas abusivos nunca vencem no final.
Local de Memória de London
O Parque Histórico Estadual Jack London, de 566 hectares, fica no coração da região vinícola de Sonoma Valley, a cerca de 100 quilômetros ao norte de San Francisco, em Glen Ellen, Califórnia.
Originalmente essa terra era o local do Beauty Ranch, onde Jack London buscava realizar pesquisas em agricultura científica e na criação de animais, mas também servia para suas inspirações. “Eu saio do meu lindo rancho”, escreveu London. “Entre minhas pernas está um lindo cavalo. O ar é vinho. As uvas são vermelhas com chamas de outono. Do outro lado da montanha Sonoma, neblinas do mar estão volteando. O sol da tarde arde no céu sonolento. Eu tenho tudo para me fazer feliz por estar vivo”.
A variada paisagem bucólica do parque ainda exala essa mesma vibração cativante. Os terrenos oferecem quase 47 quilômetros de trilhas, bosques de sequoias, prados, vinhedos, paisagens deslumbrantes, um museu e exposições. Uma recompensa idílica da paisagem intocada do norte da Califórnia está em plena exibição. Para um viajante em busca de uma fuga distintamente pastoral, fortificada com uma dose rústica da história cultural da Califórnia, o Parque Histórico Estadual Jack London é um local intenso. Também não faz mal o fato do parque estar rodeado por uma infinidade de importantes vinícolas do mundo.
Início Difícil
London cresceu nas ruas mais agitadas de San Francisco e Oakland, em uma família de trabalhadores. Sua mãe era uma espiritualista, que ganhava uma vida conduzindo sessões e ensinando música. Seu padrasto era um veterano incapacitado da Guerra Civil, que trabalhava como fazendeiro, merceeiro e vigia noturno. O provável pai biológico de London, um astrólogo viajante, saiu abruptamente do local antes da chegada do futuro autor.
Quando criança London trabalhava na fazenda, vendia jornais, entregava gelo e levantava pinos em uma pista de boliche. Aos 14 anos ele ganhava dez centavos por hora como operário de uma fábrica de conservas. As miscelâneas e o tédio da vida de trabalho eram sufocantes para um garoto durão, mas imaginativo, que descobrir ao tesouro de livros na Biblioteca Livre de Oakland. Obras de Herman Melville,Robert Louis Stevenson e Washington Irving fortificaram-no para as perigosas delícias da orla de Oakland, onde se aventurou aos 15 anos de idade.
Usando seu pequeno veleiro,o “Razzle-Dazzle”, para pescar ostras e vendê-las a restaurantes e bares locais, ele passou a ganhar mais dinheiro em uma única noite, do que ele poderia trabalhar um mês inteiro na fábrica de conservas. Aqui, na orla decadente entre um submundo de vagabundos e delinquentes, ele rapidamente se juntou a uma tripulação mal-humorada de marinheiros e perdulários.
O roubo, o deboche e a camaradagem eram totalmente estimulantes – pelo menos por um tempo. Mas London queria ver mais do mundo. Então ele embarcou em uma expedição de caça às focas a bordo da escuna “Sophia Sutherland” e viajou pelo Oceano Pacífico até o Japão e as Ilhas Bonin. Ele retornou a San Francisco,trabalhou em uma usina de juta como um aquecedor de carvão, depois partiu para andar nos trilhos, onde caminhou por toda a América e viveu um tempo para a vagabundagem. Tudo antes dos 20 anos de idade.
“Eu nasci na classe operária”,lembrou ele, “e eu estava agora com dezoito anos, abaixo do ponto em que comecei. Eu estava no porão da sociedade, nas profundezas subterrâneas da miséria. Eu estava no abismo, no abismo, na fossa humana, na desordem e no cemitério da nossa civilização. Eu estava com medo de pensar”. Ele então resolveu parar de depender de sua força muscular e se tornar um “comerciante de cérebros”.
De volta à Califórnia, London matriculou-se no ensino médio e ingressou no Partido Trabalhista Socialista. Em 1896 ele entrou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, onde durou um semestre antes do seu dinheiro acabar. Em seguida, em julho de 1897, fugiu para o Klondike, Alasca, quando teve a chance de se juntar à famosa “Corrida do Ouro”. Ele passou onze meses mergulhando na vibração sublime das terras do norte, com seu elenco único de garimpeiros e viajantes.
Os silvestres congelados proporcionavam a paisagem agourenta que inflamava suas energias criativas. “Foi no Klondike que me encontrei”, disse London. “Lá ninguém fala muito. Todo mundo pensa. Lá você tem sua perspectiva. Eu tenho a minha”.
Em 1899 ele havia aperfeiçoado seu ofício e grandes revistas começaram a abocanhar suas histórias vigorosas. Quando se tratava de evocar sensações elementares, ele era um perito literário. Se você quiser saber como é congelar até a morte, leia a história contida em Para fazer fogo.Se você quiser saber como é um trabalhador de fábrica se transformar em uma máquina, leia O Apóstata. Se você quiser saber como é sentir o êxtase da vida em seu corpo, leia Chamado Selvagem. E se quiser saber como é viver livre ou morrer, leia Koolau,o Leproso.
A publicação de suas primeiras histórias do Klondike lhe garantiu uma vida de classe média segura. Em 1900 ele se casou com sua ex-professora de matemática Bess Maddern e eles tiveram duas filhas. A aparição de Chamado Selvagem em 1903 fez do autor de 27 anos de idade uma enorme celebridade. Revistas e jornais frequentemente publicaram fotografias mostrando sua aparência robusta, que exalava um ar de vitalidade juvenil. Suas viagens, ativismo político e proezas pessoais contribuíram bastante para os repórteres políticos e colunistas de fofocas.
Intelectual Intenso
London se tornou subitamente um ícone da masculinidade e um importante intelectual público. Ainda assim, a escrita continuou sendo a atividade dominante de sua vida. O novelista E. L. Doctorow descreveu-o apropriadamente como “um grande palavrão do mundo,física e intelectualmente, o tipo de escritor que foi a um lugar e escreveu seus sonhos nele, o tipo de escritor que encontrou uma ideia e girou sua mente sobre isto”.
Em suas histórias, London simultaneamente ocupa perspectivas opostas. Às vezes, por exemplo, o darwinismo social parece ultrapassar o seu igualitarismo declarado, mas em outro trabalho (ou mais tarde no mesmo) seu idealismo político se reafirmará,apenas para ser desafiado novamente mais tarde.
London flutua e se contradiz,fornecendo uma série de pontos de vista que mudam dialeticamente e que resistem à fácil resolução. Ele foi um dos primeiros escritores a enfrentar seriamente, embora nem sempre com sucesso, as multiplicidades singulares do modernismo. A raça continua sendo um tópico agitado nos estudos sobre London. Angustiantemente, como outros intelectuais importantes do período,suas visões raciais foram moldadas pelas teorias predominantes do racismo científico, que falsamente propagavam uma hierarquia racial e valorizavam os anglo-saxões.
Ao mesmo tempo ele escreveu muitas histórias que eram antirracistas e anticoloniais e que exibiam caracteres não brancos excepcionalmente capazes. Earle Labor, estudioso de Jack London e seu biógrafo oficial descreve as visões raciais do autor como”um feixe de contradições”, e suas inconsistências na raça certamente exigem um exame minucioso.
Uma curiosidade insaciável impeliu London a investigar e escrever sobre uma ampla gama de tópicos e questões. Muito do seu trabalho menos conhecido permanece altamente legível e intelectualmente envolvente. O Tacão de Ferro (1908) é um romance despótico, pioneiro, que prevê a ascensão do fascismo nascido a partir da desigualdade de renda do capitalismo. Esse romance, o mais explicitamente político do autor, foi um precursor crucial para o livro de George Orwell com 1984, e Sinclar Lewis com Não vai acontecer aqui.
Dada a turbulência econômica dos últimos anos, os leitores do O Tacão de Ferro compreenderam prontamente a representação londoniana de uma oligarquia totalitária que constitui “nove décimos de um por cento” da população dos Estados Unidos, detentora de 70% da riqueza total do país.
Seus colegas socialistas criticaram o livro quando ele saiu, porque a utopia coletivista do romance leva 300 anos para surgir – não exatamente a revolução que os compatriotas radicais de London imaginavam. Um realista político, neste caso, ele reconheceu como os mestres capitalistas eram realmente arraigados, astutos e venais.
Jack London também produziu uma exposição do mercado literário em seu romance de 1909, Martin Eden, que critica a loucura da celebridade moderna. Intimamente modelado em sua própria ascensão ao estrelato, a história traça a ascensão de um autor aspirante que, depois de escrever sobre sua saída da classe trabalhadora e alcançar renome, descobre a complexidade estética em um mundo inclinado ao brilho e ao lucro. Tematicamente, o romance antecipa O Grande Gatsby, de Fitzgerald e sempre foi uma espécie de clássico underground entre os escritores, incluindo Vladimir Nabokov, Jack Kerouac e Susan Sontag.
London se tornou ainda mais pessoal em seu livro de memórias confessional de 1913, Memóriasde umalcoólico – John Barleycor, onde ele relata o significado pesado que o álcool – personificado como John Barleycorn – desempenha em sua vida. London parece ciente de que abusa de álcool com muita frequência, mas também proclama que continuará a beber quando necessário. Para muitos esse livro é um estudo de caso clássico de negação pessoal, enquanto outros o veem como uma descida existencial e honesta em direção à essência da autoconsciência.
O problema com John Barleycorn para London (e o resto de nós) é que ele dá e tira. A bebida abre caminho para a camaradagem, oferece um antídoto à monotonia da vida e aumenta as aventuras do ser exaltado. Mas o preço é a debilidade, a dependência e um desânimo niilista que ele chama de “lógica branca”. Notavelmente desprotegida e franca,London revela como a difundida disponibilidade de bebida cria uma cultura de vício.
Como jornalista os artigos de London sobre política, esportes e guerra frequentemente apareciam nos principais jornais. Especializado em fotografia documental e fotojornalismo,tirou milhares de fotografias ao longo dos anos, desde as favelas do lado leste de Londres, até as ilhas do Pacífico Sul. Em 1904 viajou como correspondente de guerra na Coréia para relatar a Guerra Russo-Japonesa.
No ano seguinte London comprou o primeiro pedaço de terra em Glen Ellen, Califórnia, que acabaria se tornando o seu Beauty Ranch. Naquele mesmo ano ele também embarcou por um tour de palestras socialista em todo o país.
Depois do colapso do seu casamento, em 1904, London casou com Charmian Kittrege, o epítome da progressista “New Woman” — atlética e independente —com quem teve um caso durante o seu primeiro casamento. Eles permaneceriam juntos até a morte de London.
Após a publicação de dois romances que se tornariam clássicos, O Lobo do Mar e Caninos Brancos, London começou a projetar seu próprio veleiro de 45 pés, o Snark. Em 1907 partiu para o Havaí e os mares do sul com sua esposa. Uma série de doenças tropicais iria aterrá-lo em um hospital australiano, quando ele foi forçado a terminar a viagem no mês de dezembro seguinte. Embora ele projetasse enorme energia pessoal e carisma, Jack London teve problemas frequentes de saúde ao longo dos anos e seu consumo excessivo de bebidas e cigarros, associados a uma dieta ruim, só pioraram as coisas.
O Fim
London estava bem à frente no jogo imobiliário em 1905, quando começou a comprar terras agrícolas exaustas ao redor de Glen Ellen. Sua intenção era restaurar a terra usando métodos agrícolas inovadores, como terraços e fertilizantes orgânicos. Hoje,docentes conduzem turnês mostrando as práticas agrícolas progressistas e agrícolas sustentáveis de London.
O chalé do autor foi meticulosamente restaurado. O espaço de trabalho, a escrivaninha e a maior parte da mobília é original. A arte e os acessórios de London estão expostos. Os visitantes podem aprender muito sobre a vida repleta de ação de London e a sua visão agrária. “Eu vejo a minha fazenda”, declarou ele, “em termos do mundo e do mundo em termos da minha fazenda”.
Mas London tirou um tempo de sua fazenda para excursões prolongadas. Em 1911, ele e sua esposa dirigiram uma carroça de quatro cavalos em uma viagem de quase 2.500 quilômetros pelo Oregon. Em 1912 eles navegaram de Baltimore para Seattle, passando pelo temível Cabo Horn como passageiros a bordo do navio “Dirigo”.
No ano seguinte, London passou por uma apendicectomia, e os médicos descobriram seus rins gravemente doentes. Semanas depois a nova casa da fazenda de London, apelidada de Wolf House, foi incendiada pouco antes de sua construção ser concluída. Construída a partir de rochas vulcânicas nativas, era para ser o cume rústico do Beauty Ranch e o avatar arquitetônico de Jack London. Ele ficou arrasado com o fogo e prometeu reconstruir o local, mas nunca teria a chance.
Fotografias tardias mostram London desengonçado e notavelmente inchado – efeitos de seus rins doentes. Apesar de sua saúde se deteriorar, ele continuou produtivo e também permaneceu politicamente engajado.
Nos últimos dois anos de sua vida ele sofreu crises de disenteria, distúrbios gástricos e reumatismo. Ele e sua esposa fizeram duas viagens de recuperação prolongadas para o Havaí, mas London morreu no Beauty Ranch em 22 de novembro de 1916 de intoxicação urêmica e um provável derrame cerebral. Em 18 anos, ele escreveu 50 livros, 20 deles romances.