QUEM FOI MANOEL DUARTE MACHADO?  

Manuel Duarte Machado

Lembrado Basicamente Como Um Rico Comerciante e o Marido da “Viúva Machado”, Esse Imigrante Português Marcou a História do Rio Grande do Norte. Em 1927 Ele Quando Doou Um Pequeno Terreno Perto de Um Rio Chamado Parnamirim, Para a Construção de Um Campo de Pouso. Durante a Segunda Guerra Mundial Esse Local Se Transformou em Uma Das Maiores Bases Aéreas do Mundo.

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Em Natal se fala muito na famosa “Viúva Machado”, bem como do seu belo palacete localizado próximo à Igreja do Rosário, na parte antiga da cidade. Mas a Senhora Machado era viúva de quem? 

Apenas aqueles mais informados sobre temas históricos, sabem que seu esposo era um português chamado Manuel Duarte Machado, certamente um dos maiores empreendedores que o Rio Grande do Norte conheceu na primeira metade do século XX. 

Segundo um texto de Orlando Correia, escrito na época do falecimento de Manuel Machado, ele nasceu em Santarém, Portugal, em 21 de junho de 1881, em uma década onde o seu país viveu um período de relativa tranquilidade política, mas a industrialização, a modernização da agricultura e a ampliação da educação da população eram situações que em Portugal seguiram de forma muito mais lenta do que em qualquer outro país na Europa Ocidental. 

Talvez isso possa explicar porque Manuel Machado veio muito jovem para Natal, onde se tornou empregado no comércio de um tio chamado José Maria Machado, que por aqui vivia e, aparentemente, já tinha uma certa idade. Consta que o jovem Manuel trabalhou nesse comércio durante algum tempo, mas logo compreendeu as limitações de como seu tio tocava o negócio e ele decidiu buscar novos horizontes. 

Sabemos que em 1906 Manuel Machado adquiriu um comércio de um cidadão chamado José Chaves e que este ficava na Ribeira. Segundo a propaganda acima, esse negócio nada mais era que uma mercearia e ele a chamou de “A Despensa Natalense”. 

Essas mesmas propagandas mostram que ele não perdeu todos seus vínculos com a “Terrinha”, pois sua loja trabalhava bastante com produtos recebidos de Portugal. Tudo indica que esse caminho de importação de produtos portugueses pode ter diferenciado seu trabalho em relação a outros vendedores na cidade. 

Uma situação que não descobri foi se o seu irmão Cláudio Duarte Machado chegou a Natal nesse período, ou se veio junto com Manuel. O certo é que vamos encontrar informações que eles trabalhavam juntos. E trabalharam bastante, pois é muito claro nos jornais natalenses o progresso daqueles portugueses no comércio da cidade. Uma situação que parece mostrar a prosperidade dos irmãos está no jornal A República (Ed. 17/01/1917-Pág. 2), quando vemos o nome de Manuel D. Machado como um dos sócios fundadores do Sport Club Natalense, uma agremiação social e esportiva, junto com figuras como Juvenal Lamartine, Alberto Maranhão, os irmãos Henrique e Elói de Souza e outros. 

Orlando Correia deixou registrado que em determinado momento de sua vida Machado conheceu Antônio Loureiro, dono de uma das mais importantes firmas comerciais de Recife. Esse encontro se deu em uma ocasião que Loureiro veio a Natal, a negócios de sua casa comercial. Machado aproximou-se dele e falou de seus propósitos de negociar mais amplamente. O senhor Loureiro ouviu atentamente, certificou-se de suas aptidões e como um homem de negócio experiente, estava habituado a ajuizar o valor dos indivíduos com quem tratava. Logo ao primeiro contato Loureiro convenceu-se de que Manoel Machado possuía as grandes qualidades que asseguraram a mais completa vitória na área do comércio local e lhe deu a mão. Essa ajuda foi fundamental para Manoel e Cláudio Machado progredirem mais e mais. 

Os dois irmãos, muito amigos e sócios, delimitaram as respectivas atribuições no negócio. A Manuel Machado coube a chefia da empresa, onde exercia as suas atividades no escritório. Já Cláudio ficava na gerência autônoma do grande armazém de estivas, que chegou mais tarde a ser nesse ramo o maior estabelecimento de Natal e talvez do Rio Grande do Norte. Várias fontes apontam de maneira repetitiva que Machado e seu irmão não davam trégua à morosidade e eram verdadeiros abnegados do trabalho. Talvez eles seriam vistos hoje como “workaholics”. 

Logo nos primeiros anos atingiram um tal grau de prosperidade, que no primeiro balanço regular realizado eles se surpreenderam com os recursos que já possuíam. Diante dessa situação ampliaram mais o campo de ação, fazendo com que sua empresa passasse a realizar operações de maior vulto no alto comércio de importação e exportação, adicionando sessões de representações, comissões e consignações. Machado passou a atuar junto às repartições públicas para fornecimento de materiais necessários para construção de estradas de ferro, obras contra o flagelo da seca, a ampliação do porto de Natal e outras. Consta que apesar do prejuízo de centenas de contos de réis junto a governos mal pagadores, a empresa pôde vencer as dificuldades resultantes. Seus principais empregados eram Hermínio Fernandes e Aníbal Correia.

Em Natal o luso Manoel Machado casou com uma mulher de origem simples, cujo nome após o matrimônio ficou registrado como Amélia Duarte Machado. 

Amélia Duarte Machado, a “Viúva Machado”.

Amélia, que ficou conhecida como Dona Amelinha, mas que hoje em dia é lembrada apenas e tão somente como a “Viúva Machado”, nasceu em Mossoró, sendo filha do agricultor Ovídio Benevides de Melo e de Maria Benevides. Buscando novas perspectivas seus pais vão para Fortaleza, Ceará, onde a jovem estuda em um colégio local. Depois seguem para a cidade litorânea potiguar de Areia Branca, onde a família montou uma pensão. Provavelmente fruto de certa prosperidade dessa atividade empresarial, Ovídio desembarca com sua família em Natal para montar uma nova pensão no bairro da Ribeira, na Rua das Virgens, atual Câmara Cascudo.

Não demorou para Ovídio se entrosar com os comerciantes locais e foi através da amizade do seu pai com o lusitano de Santarém que começou o namoro dele com a jovem Amélia. O casório ocorreu na Igreja Bom Jesus das Dores, em 22 de outubro de 1903. Depois da cerimônia, os nubentes e os convidados seguiram a pé para a casa do pai da noiva e certamente festejaram com um bom vinho do Porto. 

Apesar de muitas tentativas, a união do português com a mossoroense não gerou filhos e nem isso aparentemente criou qualquer tipo de rompimento do casal e eles continuaram juntos até a morte de Manuel. 

A casa de Manuel e Amelinha Duarte – Foto – Rostand Medeiros.

Em 1920 o português e Amelinha se mudaram da Ribeira para um palacete na Cidade Alta, construído dez anos antes por Jorge Barreto de Albuquerque Maranhão, considerado um dos mais ricos da cidade e sobrinho do governador Alberto Maranhão. Jorge vendeu o belo imóvel ao casal quando se mudou para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1946. 

Dada a prosperidade dos negócios de Manoel e Cláudio Machado, eles passaram a adquirir propriedades não muito distantes de Natal, como a fazenda Pitimbu, na qual introduziram grandes melhoramentos agrícolas, ou a Salina Carnaubinha, que na década de 1930 era a maior e mais bem aparelhada das que existiam nas margens do Rio Potengi. Além das fazendas Guarapes, Peixe-boi, Ferreiro Torto (onde existe um histórico casarão) e Queimadas, essa última para exploração de gado.  

Em relação à questão se as empresas e as terras eram divididas igualitariamente entre os irmãos Manuel e Cláudio Duarte Machado eu realmente nada sei. Mas sabemos também que eles desenvolveram uma fábrica de bebidas na Rua Chile e que a “Despensa Natalense” se tornou a grande mercearia que atendia aos moradores da Ribeira e arredores. 

Em 4 de maio de 1928 a empresa M. Machado e Cia. perdeu um dos seus sócios, quando faleceu Cláudio Duarte Machado. Além do óbvio, não temos informações de como essa notícia repercutiu junto a Manuel, mas em relação aos negócios seu irmão liquidou a M. Machado e Cia., assumindo a responsabilidade pelo ativo e o passivo da firma extinta. Passou então a negociar sozinho com a razão M. Machado e os negócios continuaram a prosperar consideravelmente. 

Sabemos que os efeitos da grande crise mundial ocasionada pelo Crash da Bolsa de Nova York de 1929, bem como as secas periódicas que assolaram o Rio Grande do Norte entre as décadas de 1920 e 1930, atingiram o comércio de  Manuel Machado, mas ele continuou progredindo.  

Machado possuiu importantes armazéns situados no cais do porto de Natal, várias casas e muitos terrenos, alguns de grande valor nos bairros da pequena capital Potiguar. Uma das áreas que ele possuía, devido a quantidade de árvores existentes, ficou conhecido como a “Mata de Manuel Machado”, ou “Mata de Petrópolis”, devido a sua localização. Essa área verde, onde predominava o pau-ferro, praticamente deixou de existir com a expansão do bairro após a Segunda Guerra e grande parte da madeira serviu para abastecer os fornos dos motores que geravam energia elétrica da empresa Força e Luz. 

O Dornier DO-X.

Ele nunca esqueceu as suas origens portuguesas e quando podia fazia questão de lembrar aos natalenses os grandes feitos dos portugueses. Uma maneira de lembrar isso ocorreu em 5 de junho de 1931, quando amerissou nas tranquilas águas do rio Potengi o maior hidroavião do mundo naquela época. Era o monstruoso Dornier DO-X, sendo esse “X” indicativo do décimo número do alfabeto romano. Mas aqui em Natal essa máquina com doze motores ficou mesmo conhecido como “DOX”. Esse monstrengo da engenharia alemã chamou a atenção de Manuel Machado não pelo seu país de origem, mas por um passageiro que seguia a bordo. Era o aviador português Carlos Viegas Gago Coutinho, seguramente a figura mais emblemática da história da aviação de Portugal, cujo o início do corajoso voo de Lisboa ao Rio de Janeiro, atravessando pioneiramente o Atlântico Sul na companhia de Sacadura Cabral, completou 100 anos em 5 de abril de 2022. Consta que Manuel Machado recebeu em seu palacete com toda pompa e circunstância Gago Coutinho e a tripulação do “DOX”. (Ver – https://tokdehistoria.com.br/2013/08/20/1931-o-grande-hidroaviao-do-x-em-natal/ ).

No momento em que suas empresas estavam no auge, Manuel Machado foi acometido de um câncer na boca. Ele se transferiu para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de tratamento, onde ficou internado na Casa de Saúde Dr. Eiras, no bairro de Botafogo. Faleceu no dia 20 de novembro de 1934, aos 53 anos de idade. Seu corpo foi enterrado primeiramente no cemitério São João Batista e depois transladado para Natal de navio, onde repousa no tradicional Cemitério do Alecrim. 

Justamente em uma de suas propriedades adquiridas, a Pitimbu, Manoel Duarte Machado realizou aquilo que eu considero seu grande e mais marcante feito protagonizado em sua vida. E esse feito não foi a compra de um maravilhoso carro importado, ou de um potente avião, ou a construção de um palácio suntuoso, ou ainda a criação de uma grande indústria que o deixaria muito mais rico do que era e que mataria de inveja a pobre e burra elite que existia (existia?) em Natal. Para mim seu grande feito foi uma doação! 

Em 1927, devido a sua privilegiada posição estratégica, Natal entrou definitivamente na mira dos aviadores em todo o mundo e dos governos dos países que ajudavam a expansão da sua aviação comercial. Através de representantes na cidade, a empresa aérea francesa Aéropostale buscou Manuel Machado para construir em uma faixa de 1.000 por 1.000 metros, um campo de pouso na área da fazenda Pitimbu. O Lugar ficava perto de um rio chamado Parnamirim, a dezoito quilômetros do centro de Natal e possuía as características ideais para o pouso e decolagem de aviões.

Bem, Manuel Machado poderia ter dado a resposta que quisesse, pois a terra era sua, mas ele decidiu doar o terreno aos franceses. Mesmo compreendendo que nessa doação certamente estava embutida, pelo menos a curto prazo, a ideia de valorizar os terrenos que o proprietário tinha na região, creio que Manuel Machado também compreendeu o que significava o desenvolvimento da aviação em solo potiguar, ligado a questão da sua privilegiada posição estratégica e de como isso poderia ser bom para seus negócios e para a região de uma maneira geral. 

A base de apoio dos aviadores franceses no Campo de Parnamirim.

Manuel Machado não viveu para ver o que aquela faixa de terra doada se transformou. Na Segunda Guerra Mundial o lugar ficou conhecido como Parnamirim Field, sendo uma das maiores bases aéreas do hemisfério sul e importante ferramenta da máquina da vitória dos Aliados naquele conflito. E não foi só a terra de Manuel Machado que ajudou no desenvolvimento daquela base. Em um texto escrito em 1945 por Orlando Correia, para rememorar a vida de Manuel Machado, ele afirmou que foi da pedreira que fazia parte do antigo terreno do Ferreiro Torto, tida com a maior e mais próxima de Natal, de onde saiu muita pedra para ajudar na construção daquele imenso complexo aeronáutico. 

Detalhe da casa de Manuel Duarte e Amelinha – Foto – Rostand Medeiros.

O interessante foi que com o passar do tempo, de forma gradativa, a sua figura foi sendo eclipsada pela da esposa Amélia Duarte, que faleceu discretamente em 17 de outubro de 1981, aos 99 anos de idade, no casarão adquirido pelo seu esposo em 1920 e que continua até hoje altivo e marcando a paisagem do centro da cidade.

Ainda sobre esse patrimônio, vale comentar que com o passar do tempo e diante da ferocidade das construtoras e do meio imobiliário na capital potiguar, cada vez mais essa residência se torna uma das mais raras e interessantes edificações privadas do século XX preservadas em Natal.

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1937 – O DIA EM QUE UM VIOLINISTA RUSSO E UM FORD V8 ESTIVERAM NO PALCO DO PRINCIPAL TEATRO DE NATAL

Dizem que Natal é uma cidade onde seu povo tem uma adoração intensa pelos veículos motorizados. Se observarmos nos dias atuais o número de carros de passeio bastante novos circulando pelas nossas atravancadas ruas, provavelmente deve ser verdade. Fala-se que por mês mais de 2.000 veículos novos, 0 km, são desovados nas congestionadas vias de circulação da capital potiguar.

Harry Brounstein, gerente da Ford no Rio, no palco do Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão, abrindo o recital ao lado de um Ford V 8.

Ainda se comenta que este gosto surgiu durante a Segunda Guerra Mundial, com a presença de tropas estadunidenses em nossas terras.

Existe a ideia que após o conflito, as tropas de Tio Sam despejaram nas nossas ruas potentes e reluzentes Lincons e Studebakers que não quiseram levar de volta para casa e isso ficou nas mentes dos natalenses. Até já tratei disso em nosso TOK DE HISTÓRIA (Ver em – https://tokdehistoria.com.br/2013/11/30/o-prazer-nosso-pelo-carro-novo-sao-os-militares-americanos-os-responsaveis-por-isso/ ).

Na época da visita da trupe, Natal tinha uma população com pouco mais de 30.000 habitantes. Na foto vemos o então Teatro Carlos Gomes, atual Teatro Alberto Maranhão – Fonte – Coleção TOK DE HISTÓRIA

Provavelmente a intensa adoração dos natalenses por veículos movidos a gasolina surgiu bem antes da Segunda Guerra e tudo aponta que se deveu muito mais a bem planejadas ações de propaganda desenvolvidas pelos fabricantes de veículos, do que uma pretensa ação das tropas americanas por aqui. 

Nova Forma de Propagandas 

Na segunda metade da década de 1930 os dois principais agentes que vendiam veículos em Natal eram a M. Martins & Cia., pela Ford, cujo um dos seus sócios era José Alves dos Santos e pela Chevrolet a empresa de Severino Alves Bila.

José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia.

Como a Natal daquele tempo tinha pouco mais de 50.000 habitantes, onde praticamente toda elite se conhecia, é provável que os proprietários destas firmas tivessem amizade (ou quem sabe até parentesco pelo sobrenome comum). Mas nas páginas amareladas dos velhos periódicos temos uma verdadeira “guerra” de propagandas destes fabricantes de veículos sendo apresentada ao público natalense.

Não é incomum encontrarmos anúncios de página inteira, que eram publicadas por semanas, com maravilhosos desenhos de novos e potentes veículos. E vale ressaltar que a propaganda de carros nos jornais era bem diferente das atuais. Enquanto hoje não faltam produções suntuosas para gerar fotos fantásticas, muita imagem trabalhada no computador, participação de modelos fenomenais e pouca informação prática (normalmente só umas letrinhas miudinhas no final da propaganda), naquelas priscas eras a coisa era muito mais informativa.

Mas em 1937 houve uma mudança nesta estratégia de propaganda que chamou muita atenção em Natal.

The Cherniavsky Trio 

Em fins de 1936 o experiente violinista Leo Cherniavsky estava realizando concertos em Nova York, no prestigiado Carnegie Hall, quando foi contratado pela Ford Motors Company para se apresentar no início de abril de 1937 em Fortaleza, Natal, Recife e Salvador. A ideia destes recitais era comemorar 25 milhões de veículos da marca Ford manufaturados.

Leo Cherniavsky teria durante suas apresentações na região a companhia do pianista pernambucano Alberto Figueiredo, do Conservatório de Recife. Já quem comandava o grupo era Harry Brounstein, da Associação Comercial do Rio de Janeiro, membro do Touring Club do Brasil e gerente da Ford no Rio.

Leo Cherniavsky nasceu em 1890, na grande comunidade judaica da cidade de Odessa, na época parte do Império Russo (atualmente pertencente à Ucrânia). Sua família possuía uma grande tradição musical e junto com seus irmãos Jan (piano) e Mischel (violoncelo) formaram um trio de jovens músicos e realizaram sua primeira apresentação em 1901, quando o mais jovem do grupo tinha apenas dez anos de idade.

Mischel, Jan e Leo, “The Cherniavsky Trio”.

O primeiro show fora da Rússia foi realizado três anos depois em Berlim, Alemanha, onde os garotos receberam críticas mistas. Ainda naquele ano, sob o patrocínio das abastardas famílias judaicas Rothchild e Sassoon, o trio fez sua estreia britânica no Aeolian Hall, em Londres, onde as opiniões dos críticos foram mais animadoras. Chegaram a realizar uma turnê por outros países da Europa com relativo sucesso e tiveram proveitosos encontros com personalidades musicais famosas e respeitadas da época (além de serem pessoas bem mais velhas que os três garotos) – incluindo o russo Misha Elman, o francês Eugène Ysaÿe, o tcheco David Popper e o húngaro Joseph Joachim.

Em 1905, diante das tensões contra os judeus em Odessa, que levou a realização de uma perseguição que resultou na morte de 400 pessoas, a família Cherniavsky se mudou para a Áustria e de lá os jovens seguiram para o Canadá, onde conseguiram a cidadania neste país. Depois começaram a atuar nos Estados Unidos, onde o grupo ficou conhecido como “The Cherniavsky Trio”.

Os jovens músicos ganharam experiência, desenvolveram um conjunto musical de primeira classe e se apresentaram em cinco continentes. Continuaram realizando apresentações e produzindo discos até 1934, quando cada um seguiu seu rumo. Assim Leo Cherniavsky chegou a Natal em abril de 1937. 

Um Gringo Tocar Rabeca 

O paquete “Pará” veio de Fortaleza trazendo a Caravana Ford para a Natal. Na capital cearense o músico estrangeiro e o pianista pernambucano se apresentaram no Teatro José de Alencar. Cherniavsky foi recebido no desembarque no cais da Tavares de Lira pelo maestro Valdemar de Almeida, diretor do Instituto de Música, Edgar Barbosa, então diretor da Imprensa Oficial, José Alves dos Santos, da M. Martins e Cia., Moyses Wanistain, representando a comunidade judaica que então existia em Natal, Carlos Lamas, Cônsul do Chile na cidade, além de Luís da Câmara Cascudo, Sérgio Severo e outros membros da comunidade natalense.

Propagando sobre o recita de Lei Cherniavsky publicado em jornais natalenses.

Como era comum na época, apesar de existirem hotéis, algumas pessoas ilustres que visitavam Natal, principalmente estrangeiros, normalmente ficavam hospedados no palacete da rica comerciante Amélia Duarte Machado, a conhecida Viúva Machado. Com Leo Cherniavsky não foi diferente e ele estava ali acomodado junto com os outros membros da Caravana Ford.

O palco escolhido foi o melhor que Natal poderia oferecer – o Teatro Carlos Gomes, no bairro da Ribeira e atual Teatro Alberto Maranhão. Os jornais da época informam que desde o momento do anúncio do recital do violinista de Odessa, a elite local buscou avidamente a agência M. Martins e Cia. atrás dos 300 ingressos postos a disposição dos futuros compradores de carros novos.

Certamente deve ter chamado atenção dos trabalhadores braçais do cais do porto, dos comerciários da Ribeira, dos que trabalhavam nos depósitos de algodão da Rua Chile, dos pescadores das Rocas e outras pessoas do povo, a intensa movimentação na Rua Frei Miguelinho, nº 133, sede da M. Martins e Cia. Eram muitas “pessoas gradas”, da mais fina flor da sociedade potiguar, com sobrenomes consagrados, agitados atrás de conseguirem um ingresso para ver “um gringo tocar rabeca”. 

Quem Não foi ao Recital Não Era Gente em Natal! 

E o tradicional teatro ficou lotado na noite de 2 de abril de 1937, uma sexta-feira. Natal, por não possuir uma rádio ativa na época, foi a única das capitais nordestinas que não transmitiu o recital pelas ondas do éter.

Leo Cherniavsky, Alberto Figueiredo e o Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas no palco do principal teatro de Natal.

Uma situação interessante e peculiar ocorreu nesta apresentação – eu não sei como foi feito, mas as fotos aqui apresentadas (apesar da baixa qualidade) provam que, de alguma forma, os organizadores colocaram no palco do tradicional Carlos Gomes um veículo Ford V 8, modelo Tudor sedam de luxo, de quatro portas. Os músicos teriam de tocar ao lado da possante máquina e não foram registrados problemas no teatro. Mas eu duvido que hoje isso acontecesse novamente!

Quando foi exatamente as 21:00, quem subiu ao palco foi Harry Brounstein, seguido de várias personalidades locais com seus longos discursos, situação essa que nunca deixava de acontecer nestes eventos. Depois o violinista nascido em Odessa e o pianista pernambucano subiram no palco do Teatro Carlos Gomes e iniciaram a sessão musical.

Público natalense no recital de 2 de abril de 1937

Infelizmente os jornais da época aos quais tive acesso, tanto o A República de Natal, quanto o Diário de Pernambuco de Recife, nada informaram do que foi apresentado nos recitais apresentados no Teatro Alberto Maranhão e nem no principal teatro da capital pernambucana, o Santa Izabel.

Mas é inegável o evento foi um grande sucesso. Vamos encontrar varias referências sobre o recital de Leo Cherniavsky e de Alberto Figueiredo no jornal A República durante vários dias. Causou enorme impressão a versatilidade dos músicos, da participação da sociedade no evento e, evidentemente, da beleza do novo Ford V 8 no palco.

Foto de um modelo Ford V 8 de 1937 e preservado na Alemanha

O burburinho foi tanto que parece até que quem não foi ao recital não era gente em Natal!

Pessoalmente nunca acreditei que esta dita “adoração por carros” seja uma exclusividade dos natalenses. Como o texto e as fotos apontam, certamente foram as ações de propaganda como as apresentadas em 2 de abril de 1937 que ajudaram a criar na mente da maioria dos brasileiros o gosto pelo carro.

E é um gosto bem estranho e um prazer bem esquisito. Já que até hoje a maioria dos brasileiros não se importa de pagar financiamentos exorbitantes e nem reclamam de impostos gigantescos que são cobrados por um bem que se desvaloriza em até 30% após sair da loja.

O RICO MANUEL MACHADO E A SUA VIÚVA

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

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Amélia Duarte Machado, a viúva Machado.

No início do século XX, o comerciante Manuel Machado, nascido em Portugal era o homem mais rico de Natal. Consta que sua prosperidade econômica vinha principalmente do seu comércio.

Pela propaganda que vemos mais adiante, dá para ver que ele trabalhava com importação e exportação de uma grande gama de produtos, muitos de primeira necessidade, e ainda tinha uma participação em negócios marítimos.

Logicamente que apenas esta propaganda não explica o poder econômico deste comerciante. Aparentemente são os investimentos em terras, onde ele tinha muita visão na hora das aquisições, que fez aumentar seus rendimentos. Era casado com a natalense Amélia Duarte Machado, que lhe proporcionou uma longa união, mas que não deixou filhos.

Manuel Machado faleceu na metade da década de 1930 e começa uma interessante história envolvendo a sua mulher, que passa a ser conhecida apenas como a Viúva Machado.

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Ela se torna muito rica, que vive de uma polpuda renda deixada pelo espólio do marido. Mas que ao invés de abrir seu suntuoso palacete (construído em 1910) para a provinciana sociedade natalense, localizado próximo a Igreja do Rosário, ela se fecha em sua residência. Consta que ela recebia poucas visitas, saia muito pouco de casa (até porque tinha uma igreja na porta) e ainda sofria de uma estranha doença, onde se comentavam que suas orelhas eram muito grandes.

Daí as pessoas de Natal associavam este estranho fato ao de não ter filhos, dela ser viúva e diziam que isto tudo seria um “castigo divino”. Outros comentavam que a Viúva Machado teria realizado um “pacto com o cão” para ficar rica e agora pagava pelos seus erros com esta doença.

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Em meio à ignorância reinante, as pessoas tolas e invejosas perceberam que a Viúva Machado, talvez para compensar a ausência de filhos naturais, adorava conviver com crianças dos poucos amigos e dos seus parentes.  Não demorou muito e se espalhou na cidade ela comia o fígado (ou o “fígo”) de crianças. Consta que Amélia teria sido até mesmo agredida verbalmente e sido alvo de chacota publicamente.

Muitas mães de Natal, ao longo de muitos anos, aproveitaram a deixa para espalhar o terror entre seus rebentos, dizendo que se eles não se aquietassem, “a Viúva Machado vinha comer seu fígado, para evitar que suas orelhas crescessem”. A coitada da viúva passou a ser conhecida como “papafigo” e isso só aumentou seu isolamento. Amélia Duarte Machado faleceu no início da década de 1960.

Se é verdade essa história das alterações em suas orelhas, provavelmente ela sofria de uma rara doença denominada Síndrome de Treacher Collins. Esta nada mais é que um distúrbio genético que gera defeitos no crânio e nas características faciais do seu portador. Descrita em 1900 pelo cirurgião inglês Edward Treacher Collins, esta doença afeta o tamanho e o formato das orelhas, pálpebras, maças do rosto, maxilar inferior e superior. A Síndrome de Treacher Collins pode ser grave em alguns casos e a maioria dos que são afetados não possuem problemas mentais.

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Pessoalmente acredito que além de sua rara doença, Amélia Duarte Machado padeceu de duas enfermidades típicas existentes entre a sociedade de Natal; a inveja e a eterna mania de dar conta da vida alheia.

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