QUEM FOI MANOEL DUARTE MACHADO?  

Manuel Duarte Machado

Lembrado Basicamente Como Um Rico Comerciante e o Marido da “Viúva Machado”, Esse Imigrante Português Marcou a História do Rio Grande do Norte. Em 1927 Ele Quando Doou Um Pequeno Terreno Perto de Um Rio Chamado Parnamirim, Para a Construção de Um Campo de Pouso. Durante a Segunda Guerra Mundial Esse Local Se Transformou em Uma Das Maiores Bases Aéreas do Mundo.

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Em Natal se fala muito na famosa “Viúva Machado”, bem como do seu belo palacete localizado próximo à Igreja do Rosário, na parte antiga da cidade. Mas a Senhora Machado era viúva de quem? 

Apenas aqueles mais informados sobre temas históricos, sabem que seu esposo era um português chamado Manuel Duarte Machado, certamente um dos maiores empreendedores que o Rio Grande do Norte conheceu na primeira metade do século XX. 

Segundo um texto de Orlando Correia, escrito na época do falecimento de Manuel Machado, ele nasceu em Santarém, Portugal, em 21 de junho de 1881, em uma década onde o seu país viveu um período de relativa tranquilidade política, mas a industrialização, a modernização da agricultura e a ampliação da educação da população eram situações que em Portugal seguiram de forma muito mais lenta do que em qualquer outro país na Europa Ocidental. 

Talvez isso possa explicar porque Manuel Machado veio muito jovem para Natal, onde se tornou empregado no comércio de um tio chamado José Maria Machado, que por aqui vivia e, aparentemente, já tinha uma certa idade. Consta que o jovem Manuel trabalhou nesse comércio durante algum tempo, mas logo compreendeu as limitações de como seu tio tocava o negócio e ele decidiu buscar novos horizontes. 

Sabemos que em 1906 Manuel Machado adquiriu um comércio de um cidadão chamado José Chaves e que este ficava na Ribeira. Segundo a propaganda acima, esse negócio nada mais era que uma mercearia e ele a chamou de “A Despensa Natalense”. 

Essas mesmas propagandas mostram que ele não perdeu todos seus vínculos com a “Terrinha”, pois sua loja trabalhava bastante com produtos recebidos de Portugal. Tudo indica que esse caminho de importação de produtos portugueses pode ter diferenciado seu trabalho em relação a outros vendedores na cidade. 

Uma situação que não descobri foi se o seu irmão Cláudio Duarte Machado chegou a Natal nesse período, ou se veio junto com Manuel. O certo é que vamos encontrar informações que eles trabalhavam juntos. E trabalharam bastante, pois é muito claro nos jornais natalenses o progresso daqueles portugueses no comércio da cidade. Uma situação que parece mostrar a prosperidade dos irmãos está no jornal A República (Ed. 17/01/1917-Pág. 2), quando vemos o nome de Manuel D. Machado como um dos sócios fundadores do Sport Club Natalense, uma agremiação social e esportiva, junto com figuras como Juvenal Lamartine, Alberto Maranhão, os irmãos Henrique e Elói de Souza e outros. 

Orlando Correia deixou registrado que em determinado momento de sua vida Machado conheceu Antônio Loureiro, dono de uma das mais importantes firmas comerciais de Recife. Esse encontro se deu em uma ocasião que Loureiro veio a Natal, a negócios de sua casa comercial. Machado aproximou-se dele e falou de seus propósitos de negociar mais amplamente. O senhor Loureiro ouviu atentamente, certificou-se de suas aptidões e como um homem de negócio experiente, estava habituado a ajuizar o valor dos indivíduos com quem tratava. Logo ao primeiro contato Loureiro convenceu-se de que Manoel Machado possuía as grandes qualidades que asseguraram a mais completa vitória na área do comércio local e lhe deu a mão. Essa ajuda foi fundamental para Manoel e Cláudio Machado progredirem mais e mais. 

Os dois irmãos, muito amigos e sócios, delimitaram as respectivas atribuições no negócio. A Manuel Machado coube a chefia da empresa, onde exercia as suas atividades no escritório. Já Cláudio ficava na gerência autônoma do grande armazém de estivas, que chegou mais tarde a ser nesse ramo o maior estabelecimento de Natal e talvez do Rio Grande do Norte. Várias fontes apontam de maneira repetitiva que Machado e seu irmão não davam trégua à morosidade e eram verdadeiros abnegados do trabalho. Talvez eles seriam vistos hoje como “workaholics”. 

Logo nos primeiros anos atingiram um tal grau de prosperidade, que no primeiro balanço regular realizado eles se surpreenderam com os recursos que já possuíam. Diante dessa situação ampliaram mais o campo de ação, fazendo com que sua empresa passasse a realizar operações de maior vulto no alto comércio de importação e exportação, adicionando sessões de representações, comissões e consignações. Machado passou a atuar junto às repartições públicas para fornecimento de materiais necessários para construção de estradas de ferro, obras contra o flagelo da seca, a ampliação do porto de Natal e outras. Consta que apesar do prejuízo de centenas de contos de réis junto a governos mal pagadores, a empresa pôde vencer as dificuldades resultantes. Seus principais empregados eram Hermínio Fernandes e Aníbal Correia.

Em Natal o luso Manoel Machado casou com uma mulher de origem simples, cujo nome após o matrimônio ficou registrado como Amélia Duarte Machado. 

Amélia Duarte Machado, a “Viúva Machado”.

Amélia, que ficou conhecida como Dona Amelinha, mas que hoje em dia é lembrada apenas e tão somente como a “Viúva Machado”, nasceu em Mossoró, sendo filha do agricultor Ovídio Benevides de Melo e de Maria Benevides. Buscando novas perspectivas seus pais vão para Fortaleza, Ceará, onde a jovem estuda em um colégio local. Depois seguem para a cidade litorânea potiguar de Areia Branca, onde a família montou uma pensão. Provavelmente fruto de certa prosperidade dessa atividade empresarial, Ovídio desembarca com sua família em Natal para montar uma nova pensão no bairro da Ribeira, na Rua das Virgens, atual Câmara Cascudo.

Não demorou para Ovídio se entrosar com os comerciantes locais e foi através da amizade do seu pai com o lusitano de Santarém que começou o namoro dele com a jovem Amélia. O casório ocorreu na Igreja Bom Jesus das Dores, em 22 de outubro de 1903. Depois da cerimônia, os nubentes e os convidados seguiram a pé para a casa do pai da noiva e certamente festejaram com um bom vinho do Porto. 

Apesar de muitas tentativas, a união do português com a mossoroense não gerou filhos e nem isso aparentemente criou qualquer tipo de rompimento do casal e eles continuaram juntos até a morte de Manuel. 

A casa de Manuel e Amelinha Duarte – Foto – Rostand Medeiros.

Em 1920 o português e Amelinha se mudaram da Ribeira para um palacete na Cidade Alta, construído dez anos antes por Jorge Barreto de Albuquerque Maranhão, considerado um dos mais ricos da cidade e sobrinho do governador Alberto Maranhão. Jorge vendeu o belo imóvel ao casal quando se mudou para o Rio de Janeiro, onde faleceu em 1946. 

Dada a prosperidade dos negócios de Manoel e Cláudio Machado, eles passaram a adquirir propriedades não muito distantes de Natal, como a fazenda Pitimbu, na qual introduziram grandes melhoramentos agrícolas, ou a Salina Carnaubinha, que na década de 1930 era a maior e mais bem aparelhada das que existiam nas margens do Rio Potengi. Além das fazendas Guarapes, Peixe-boi, Ferreiro Torto (onde existe um histórico casarão) e Queimadas, essa última para exploração de gado.  

Em relação à questão se as empresas e as terras eram divididas igualitariamente entre os irmãos Manuel e Cláudio Duarte Machado eu realmente nada sei. Mas sabemos também que eles desenvolveram uma fábrica de bebidas na Rua Chile e que a “Despensa Natalense” se tornou a grande mercearia que atendia aos moradores da Ribeira e arredores. 

Em 4 de maio de 1928 a empresa M. Machado e Cia. perdeu um dos seus sócios, quando faleceu Cláudio Duarte Machado. Além do óbvio, não temos informações de como essa notícia repercutiu junto a Manuel, mas em relação aos negócios seu irmão liquidou a M. Machado e Cia., assumindo a responsabilidade pelo ativo e o passivo da firma extinta. Passou então a negociar sozinho com a razão M. Machado e os negócios continuaram a prosperar consideravelmente. 

Sabemos que os efeitos da grande crise mundial ocasionada pelo Crash da Bolsa de Nova York de 1929, bem como as secas periódicas que assolaram o Rio Grande do Norte entre as décadas de 1920 e 1930, atingiram o comércio de  Manuel Machado, mas ele continuou progredindo.  

Machado possuiu importantes armazéns situados no cais do porto de Natal, várias casas e muitos terrenos, alguns de grande valor nos bairros da pequena capital Potiguar. Uma das áreas que ele possuía, devido a quantidade de árvores existentes, ficou conhecido como a “Mata de Manuel Machado”, ou “Mata de Petrópolis”, devido a sua localização. Essa área verde, onde predominava o pau-ferro, praticamente deixou de existir com a expansão do bairro após a Segunda Guerra e grande parte da madeira serviu para abastecer os fornos dos motores que geravam energia elétrica da empresa Força e Luz. 

O Dornier DO-X.

Ele nunca esqueceu as suas origens portuguesas e quando podia fazia questão de lembrar aos natalenses os grandes feitos dos portugueses. Uma maneira de lembrar isso ocorreu em 5 de junho de 1931, quando amerissou nas tranquilas águas do rio Potengi o maior hidroavião do mundo naquela época. Era o monstruoso Dornier DO-X, sendo esse “X” indicativo do décimo número do alfabeto romano. Mas aqui em Natal essa máquina com doze motores ficou mesmo conhecido como “DOX”. Esse monstrengo da engenharia alemã chamou a atenção de Manuel Machado não pelo seu país de origem, mas por um passageiro que seguia a bordo. Era o aviador português Carlos Viegas Gago Coutinho, seguramente a figura mais emblemática da história da aviação de Portugal, cujo o início do corajoso voo de Lisboa ao Rio de Janeiro, atravessando pioneiramente o Atlântico Sul na companhia de Sacadura Cabral, completou 100 anos em 5 de abril de 2022. Consta que Manuel Machado recebeu em seu palacete com toda pompa e circunstância Gago Coutinho e a tripulação do “DOX”. (Ver – https://tokdehistoria.com.br/2013/08/20/1931-o-grande-hidroaviao-do-x-em-natal/ ).

No momento em que suas empresas estavam no auge, Manuel Machado foi acometido de um câncer na boca. Ele se transferiu para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de tratamento, onde ficou internado na Casa de Saúde Dr. Eiras, no bairro de Botafogo. Faleceu no dia 20 de novembro de 1934, aos 53 anos de idade. Seu corpo foi enterrado primeiramente no cemitério São João Batista e depois transladado para Natal de navio, onde repousa no tradicional Cemitério do Alecrim. 

Justamente em uma de suas propriedades adquiridas, a Pitimbu, Manoel Duarte Machado realizou aquilo que eu considero seu grande e mais marcante feito protagonizado em sua vida. E esse feito não foi a compra de um maravilhoso carro importado, ou de um potente avião, ou a construção de um palácio suntuoso, ou ainda a criação de uma grande indústria que o deixaria muito mais rico do que era e que mataria de inveja a pobre e burra elite que existia (existia?) em Natal. Para mim seu grande feito foi uma doação! 

Em 1927, devido a sua privilegiada posição estratégica, Natal entrou definitivamente na mira dos aviadores em todo o mundo e dos governos dos países que ajudavam a expansão da sua aviação comercial. Através de representantes na cidade, a empresa aérea francesa Aéropostale buscou Manuel Machado para construir em uma faixa de 1.000 por 1.000 metros, um campo de pouso na área da fazenda Pitimbu. O Lugar ficava perto de um rio chamado Parnamirim, a dezoito quilômetros do centro de Natal e possuía as características ideais para o pouso e decolagem de aviões.

Bem, Manuel Machado poderia ter dado a resposta que quisesse, pois a terra era sua, mas ele decidiu doar o terreno aos franceses. Mesmo compreendendo que nessa doação certamente estava embutida, pelo menos a curto prazo, a ideia de valorizar os terrenos que o proprietário tinha na região, creio que Manuel Machado também compreendeu o que significava o desenvolvimento da aviação em solo potiguar, ligado a questão da sua privilegiada posição estratégica e de como isso poderia ser bom para seus negócios e para a região de uma maneira geral. 

A base de apoio dos aviadores franceses no Campo de Parnamirim.

Manuel Machado não viveu para ver o que aquela faixa de terra doada se transformou. Na Segunda Guerra Mundial o lugar ficou conhecido como Parnamirim Field, sendo uma das maiores bases aéreas do hemisfério sul e importante ferramenta da máquina da vitória dos Aliados naquele conflito. E não foi só a terra de Manuel Machado que ajudou no desenvolvimento daquela base. Em um texto escrito em 1945 por Orlando Correia, para rememorar a vida de Manuel Machado, ele afirmou que foi da pedreira que fazia parte do antigo terreno do Ferreiro Torto, tida com a maior e mais próxima de Natal, de onde saiu muita pedra para ajudar na construção daquele imenso complexo aeronáutico. 

Detalhe da casa de Manuel Duarte e Amelinha – Foto – Rostand Medeiros.

O interessante foi que com o passar do tempo, de forma gradativa, a sua figura foi sendo eclipsada pela da esposa Amélia Duarte, que faleceu discretamente em 17 de outubro de 1981, aos 99 anos de idade, no casarão adquirido pelo seu esposo em 1920 e que continua até hoje altivo e marcando a paisagem do centro da cidade.

Ainda sobre esse patrimônio, vale comentar que com o passar do tempo e diante da ferocidade das construtoras e do meio imobiliário na capital potiguar, cada vez mais essa residência se torna uma das mais raras e interessantes edificações privadas do século XX preservadas em Natal.

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100 ANOS – A IMPROVÁVEL HISTÓRIA DE JACKSON DO PANDEIRO, O MENINO NEGRO E POBRE QUE GRAVARIA CERCA DE 140 DISCOS

Texto – Eduardo Vessoni*

Fonte – https://oglobo.globo.com/cultura/musica/a-improvavel-historia-de-jackson-do-pandeiro-menino-negro-pobre-que-gravaria-cerca-de-140-discos-23901865

ALAGOA GRANDE — José Gomes Filho foi de tudo um pouco. Zé, Jack, José Jackson e Zé Jack, por conta do fascínio pelos filmes de faroeste, cujo ídolo era o ator Jack Perrin. Mas o que esse homem miúdo de bigode estreito e mãos malabaristas melhor soube ser foi Jackson do Pandeiro. O Rei do Ritmo, que chegaria aos 100 anos no próximo sábado, dia 31, começou a carreira pelas beiradas, acompanhando a mãe Flora Mourão em rodas de coco, morando em casa de taipa, nos arredores de um engenho do brejo paraibano.

Jackson do Pandeiro – Fonte – Arquivo Nacional.

— Jackson tinha tudo contra si. Um cara que foi alfabetizado aos 35 anos, negro, pobre, em tese não teria condições de chegar aonde chegou — analisa Fernando Moura, coautor da biografia “Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo”.

Encontrei apenas essa indicação, de forma alguma conclusiva como se pode ler, que Jackson do Pandeiro e Almira Castilho podem ter vindo tocar no auditório da Rádio Poti, na Avenida Deodoro, junto com outros artistas em dezembro de 1956 – Fonte – Jornal natalense O Poti, edição de 06/12/1956, pág. 6.

Debruçar-se sobre sua discografia é ver um desfile de gêneros musicais, em seus quase 140 discos. Em 1953, estreia com um compacto com duas faixas que seriam hits por longa temporada: “Forró em Limoeiro” e “Sebastiana”.

Fonte – Arquivo Nacional.

Embora seu nome esteja associado ao forró, o ritmo que o músico mais gravou foi samba. Foram 117 músicas deste gênero, seguidas por rojão (72), baião (42) e marcha (40), segundo pesquisa levantada por Sandrinho Dupan, assistente de curadoria musical do Museu de Arte Popular Paraibana (MAPP), em Campina Grande. Em 1964, por exemplo, lança o disco “Coisas nossas” com uma sequência de afro-sambas, dois anos antes do trabalho sincrético com o qual Vinicius de Moraes e Baden Powell, acompanhados do Quarteto em Cy, dariam novos tons à MPB.

Desde junho, o MAPP, mais conhecido como Museu dos 3 Pandeiros, abriga “Jackson é 100, Jackson é Pop”, exposição que conta a história do músico com fotografias, objetos como o pandeiro original e letras inéditas. Ali perto, a Universidade Estadual da Paraíba guarda raridades como a letra “Marco emocional”, registrada com a caligrafia do próprio músico.

Sugestiva e interessante entrada da cidade paraibana de Alagoa Grande, homenageando seu ilustre filho Jackson do Pandeiro – Fonte – https://oreversodomundo.com/2018/03/02/brejo-paraibano/

Em Alagoa Grande, onde Jackson nasceu, a relação com o filho ilustre não é simples. Ele parece ter sido apagado da lembrança daquela gente que carrega uma certa mágoa pelo distanciamento do compositor. “Acho que faz mais de 900 anos que eu saí de lá. Passei uma fome da bexiga, por isso não quero voltar lá”, confessou no programa “Ensaio” em 1973.

Jackson do Pandeiro e Almira Castilho – Fonte – Arquivo Nacional.

Lá, o Memorial Jackson do Pandeiro, localizado em uma casa de 1898, guarda fotos, capas de discos, os inconfundíveis chapéus e camisas estampadas, jornais de Almira Castilho (a ex-esposa, morta em 2011) e um violão de Jackson, assinado por Juscelino Kubitschek.

— A gente está plantando Jackson na terra em que ele nasceu, a fim de que ele floresça — explica Gabriele Nunes, monitora do espaço inaugurado há uma década.

1957 – Tendo a sua direita Almira e cercado por vários artistas do rádio na época, Jackson do Pandeiro observa o Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira assinar um violão que está hoje no Memorial Jackson do pandeiro, em Alagoa Grande, Paraíba.

— Aproveitemos o centenário e ouçamos mais Jackson do Pandeiro. É preciso ouvir o lado B, o C e o Z de Jackson para que a gente tenha noção da importância dele — diz o biógrafo Fernando Moura.

‘Invasão estrangeira’

Não foi uma carreira estável. No início dos anos 1970, ele se queixava em entrevista ao GLOBO: “Não tem lugar pra trabalhar, tudo isso por causa da invasão da música estrangeira”. Em 1976, o disco “É sucesso” traz faixas como ““Iê, iê, iê no Cariri”.

— Jackson tocava no pandeiro dele qualquer música dos Beatles, fazendo na base um coco, e provava que, assim como o reggae, o coco tem essa capacidade de ter alma própria — descreve o pernambucano Lenine, que compôs “Jack soul brasileiro” em homenagem (e sampleando) o mestre.

Jackson chegou a ir da fama ao esquecimento, mas nunca saiu do repertório de artistas consagrados, de Gilberto Gil a Zeca Pagodinho. Paradoxalmente, os mesmos cabeludos dos anos 1970 que pareciam ameaçar a música regional com suas novas batidas o trariam de volta à cena musical. A mistura promovida pela Tropicália ressuscitava o paraibano em gravações como a versão jazzística que Gal Costa gravou para “Sebastiana”, em 1969, e a versão “bosseada” de “Chiclete com banana”, no antológico “Expresso 2222” que Gil lançou em 1972.

O tempero extra viria naquele ano, quando Alceu Valença e Geraldo Azevedo bateram à porta de Jackson, para convidá-lo para defender com eles “Papagaio do futuro”, no Festival da Canção.

Cultura Racional

Naquela década, um reformado Jackson do Pandeiro compõe samba e forró inspirado na Cultura Racional. É dessa experiência curta, de 1973 a 1978, que o músico grava faixas como “Mundo de paz e amor” e “Alegria minha gente”, cuja capa tem Jackson com um colar com a imagem que ilustra a série de livros “Universo em desencanto” que fundamentam a seita, fundada pelo médium Manoel Jacintho Coelho e que também inspiraria Tim Maia.

— Não são beatas nem religiosas. São músicas que falam de questões universais com que todo mundo se identifica, de paz, amor e consciência — analisa o músico Arthur Pessoa, líder da Cabruêra, banda que, em 2019, toca com Os Fulano o lado B de Jackson, em um repertório só com canções da temporada Racional e músicas inspiradas nos terreiros de candomblé que o compositor frequentou no Recife, como o batuque “Pai Orixá”.

Mas Jackson gostava mesmo era de mulher. Desde o início, sua obra foi marcada por algumas canções impensáveis para a época, como mudança de sexo, em pleno início da década de 1960 (o forró “A mulher que virou homem” é considerado uma das primeiras músicas brasileiras a tratar do assunto).

Fonte – http://farolnews.com.br/cultura/jo-miranda-faz-tributo-a-jackson-do-pandeiro-no-forro-do-talco/

Cantou não só a mulher que “topa parada” (“Forró em Limoeiro”, 1953) mas também a enalteceu em faixas como “História de Lampião” (1977), em que defende que o Rei do Cangaço deveria pagar pelo que fez no sertão, mas Maria Bonita, não.

Exceto por um primeiro casamento forçado, a mulher sempre foi uma espécie de arrimo em sua vida pessoal e profissional. Almira Castilho, elegante e bem formada, foi a mulher que lhe ensinou as letras; Neuza Flores, a última esposa, é a ex-metalúrgica que largou tudo para acompanhar o ídolo que viraria marido. A primeira esteve ao lado dele, em tempos de sucesso e dinheiro rápido — apareceu em alguns dos nove filmes que ele fez, por exemplo); a segunda foi a fisioterapeuta particular após um acidente em 1968, e viu o Rei do Ritmo desaparecer dos palcos, aos poucos.

*Especial para O Globo

A PUBLICIDADE NOS JORNAIS DE NATAL A 100 ANOS

COMO ERA A PROPAGANDA NOS NOSSOS ANTIGOS JORNAIS 

Autor – Rostand Medeiros

Recentemente fiz uma pesquisa sobre os 100 anos da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte para o Dr. Carlos de Miranda Gomes. Este grande advogado, é amigo do meu pai e da nossa família, a quem tenho muito apreço.

Para realizar este prazeroso trabalho me debrucei sobre jornais natalenses do mês de junho de 1911, exatamente há 100 anos passados. Enquanto buscava os dados da criação da Liga de Ensino, fui me deliciando com as velhas propagandas de uma cidade que tinha cerca de 25.000 mil habitantes, de poucos bairros, cheia de problemas ligados a saúde, mas de vida tranquila, onde o povo ainda andava no lombo de animais e haviam vários jornais para dar conta de tudo.

Uma olhadinha nestas propagandas ajuda a entender o que era um pouco desta Natal perdida no tempo.

Quando comento que a população da Natal de 1911 tinha inúmeros problemas com a saúde, é porque grande parte das propagandas dos jornais “A Republica” e “Diário do Natal” é sobre medicamentos e farmácias. Dos estabelecimentos que atendiam as mazelas da saúde da nossa gente escolhi duas boticas. Uma que mostra a do competente farmacêutico Joaquim Torres (acima) e outra da Farmácia Popular (abaixo).

Já as propagandas dos remédios têm para escolher a vontade. Estes anúncios apontam as virtudes dos produtos que curavam as verminoses, as coceiras e principalmente a tuberculose, a AIDS de 1911.  Muitos destes medicamentos vinham de fora, principalmente do Rio de Janeiro e Recife. Mas havia a “prata da casa”, como o “Antiasthmatico Torres”, produzido na botica do Sr. Joaquim Torres (abaixo).

Tinha espaço dedicado a remédios que chegaram as prateleiras das atuais farmácias (melhor, das “Drugstore”), como o Bromil.

Realmente a saúde na pequena Natal não era brincadeira. Não podemos esquecer os remédios que melhoravam e davam jeito em quase tudo; de resfriado a espinhela caída, todo tipo de verme, passando pela sífilis, gonorréia e muito mais. Vejam aqui alguns destes.

Mas está bom de remédios, boticas, boticários e doenças. Vamos a quem passava as receitas.

Percebi poucos, muito poucos anúncios de médicos enaltecendo suas especialidades. Ou eles eram realmente poucos, ou a saúde pública funcionava (Duvido), ou a concorrência das rezadeiras e raizeiros ainda era grande.

É bem verdade que havia poucos médicos e além do mais estes atendiam a quem pagava (afora quando algum deles era uma alma caridosa). Para os mais pobres o jeito era ir para as rezadeiras e o pessoal que trabalhava com plantas medicinais, que ainda resistem cem anos depois no populoso bairro do Alecrim.

Deixando as questões sociais da época de lado, vamos ao único anúncio de um “Dotô” que encontrei em junho de 1911 e o interessante é que este era um oftalmologista. Certamente seus serviços eram importantes porque se lia muito mais livros e jornais em 1911 do que agora. Sei que tô chutando, mas pode até ser.

Encontrei um anúncio com dois odontólogos e com uma propaganda bem interessante sobre um anestésico (abaixo).

Uma ocasião, conversando com uma idosa e muito lúcida senhora, da mais fina elite política da nossa terrinha, no alto dos seus bem vividos 95 anos, me comentou que uma amiga sua, lá pelos idos da década de 1930, comemorou muito quando arrancou o último dente e podia então usar a sua “chapa” sem problemas.

Os odontólogos da época, com seus poucos recursos, normalmente só tinham a horrível tenaz de arrancar molares e caninos, para passar a dor de dente dos natalenses.

Detalhe; creio que não era todo mundo que tinha gaita suficiente para pagar o tal anestésico vindo da Europa. Para a maioria das pessoas da Natal de 1911, arrancar dente era no cru, na força bruta, com o sangue espirrando para todo lado. Valha-me minha nossa Senhora!

Para estragar os dentes tinha de ter comida. Nesta época pré-supermercados, Shopping Centers e McDonald’s, a grande maioria dos natalenses comparavam mesmo era nas feiras livres. A do Alecrim já existia e, se não me engano, havia uma no Passo da Pátria.

Evidentemente que feira livre não precisava de anúncio em jornal. Mas encontrei o de uma “Mercearia”, na rua Frei Miguelinho, número 42, na Ribeira. Interessante era que o proprietário misturava comida com tinta e ferragens (abaixo). Numa época pré disseminação de geladeiras e congeladores, essa mistura não era, por assim dizer, a ideal. Apesar que até hoje eu acho que ainda existem locais por aí que misturam de tudo no mesmo ambiente.

Mas havia casas comerciais de exportação para o mercado estrangeiro, de produtos típicos de nossa região, conforme podemos ver no anúncio da empresa do pernambucano de descendência holandesa Julius von Sohsten, que tinha fortes ligações com o Rio Grande do Norte.

Julius von Sohsten era igualmente representante de empresas de transporte marítimo. Inclussive em nosso blog eu já fiz um artigo sobre uma empresa holandesa que ele representava (ver https://tokdehistoria.wordpress.com/2011/03/17/khl-ir-de-natal-para-a-europa-em-alto-estilo/).

Mas voltando para 1911, quando se tinha a informação que um navio atracaria em nosso complicado porto cheio de pedras na entrada, com destino ao exterior, o representante da mítica empresa “Lloyd Brasileiro” sapecava com antecedência um anúncio nos jornais , para que os exportadores se preparassem para mandar de tudo para os gringos. Veja abaixo um destes anúncios que, pelo menos nesta época, não eram muito comuns.

Já que comentamos sobre transporte marítimo, a mais importante forma de locomoção para longe da terra potiguar naquelas priscas eras, era através dos vapores de cargas e passageiros. Estes eram os anúncios mais visados e importantes nos nossos jornais. Pois era a hora de saber quando partir e de quem estava chegando.

Vejam abaixo um anúncio da então poderosa Lloyd Brasileiro, para chegadas e saídas de vapores do porto de Natal.

O navio era para ir para bem longe. Para quem ia para o interior, para o nosso sertão, o jeito ou era o trem, ou em lombo de animais.

Do transporte ferroviário trago duas informações sobre as principais empresas que atendiam o Rio Grande do Norte, a Estrada de Ferro Central e a The Great Western Railway Company Limited. Naquele junho de 1911, as empresas estavam tratando de situações relativas a desapropriação de terras e o cancelamento de horários de trens pela baixa quantidade de material a ser transportado. Detalhe; o destino ferroviário denominado “Independência” é a atual cidade paraibana de Guarabira.

 Como comentei anteriormente, um dos principais meios de transporte na época eram as alimárias.  Todos sabem que cavalo, burro e jumento não são iguais as motos CG-125 (Que substituiu a todos no sertão), onde é só colocar gasolina no tanque, dar no pedal e rodar. Tinham de botar comida, marcar e colocar remédios quando o animal ficava doente. Vejam o anúncio abaixo de uma loja de produtos veterinários de Recife, sendo divulgada na Natal de 1911.

Para andar em um cavalo alazão de porte, o condutor tinha de estar a altura, então a vestimenta era fundamental. E nesta época de poucas roupas no armário, que passavam do irmão mais velho para o mais novo, onde muitas eram feitas para as “quatro festas do ano”, as casas de vender tecidos tinham importância fundamental em nossa sociedade. Vejam esta que era instalada no bairro da Ribeira.

Se as lojas de tecidos tinham importância, os alfaiates então eram dos profissionais mais requisitados e respeitados na cidade. Como os da “Alfaiataria Fenix”, no centro da cidade.

Ninguém poderia sair de roupa nova pela antiga Natal, em cima de um cavalo ou burro e depois ficar com cheiro de curral. Isso valia tanto para homens como para mulheres (Sim, elas andavam no lombo de animais). Para isso a “Casa Londres” tinha como resolver este problema.

Esta loja vendia na Ribeira, toda uma gama de perfumes para homens e mulheres. Elas podiam dispor de produtos da afamada empresa “Coty” (Vejam no final do anúncio da casa comercial de Julius von Sohsten) e de outros tipos de perfumes, conforme vemos abaixo.

Para passear de cavalo era bom dar uma olhadinha na previsão do tempo, que diariamente saia no jornais. Havia na cidade uma estação meteorológica bem equipada. Vejam dois exemplos, que mostram em dias alternados, o tempo em junho de 1911…

Se dava para sair na rua, não é de hoje que as pessoas que podem gostam de ostentar relógios e joias.

O anúncio abaixo é de um “caixeiro viajante”, que aqui esteve em junho de 1911, vendendo todo tipo de joias, ouro e outras coisas cintilantes. É bem verdade que naquele tempo dava para circular pela cidade com pingentes, correntes e braceletes sem medo de ser roubado.

Como este comerciante ambulante chegou a nossa cidade eu não sei, mas certamente ele deve ter procurado algum dos locais de hospedagem existentes na Natal de junho de 1911. Vejam abaixo o que o afamado Hotel Internacional oferecia em termos de alimentação, bebidas e outros mimos vindos do exterior.

Mas vai que o cidadão, apesar de vender ouro, não quisesse gastar muito dinheiro, então o jeito era ir para a Pensão de seu João Santos.

E se ele estivesse pensando em vender seus brilhantes e reluzentes produtos em Macau, o negócio era ir para o estabelecimento de Dona Innocencia Cacho, que anunciava seus serviços no principal jornal de Natal.

Para acalmar a mente, a ideia comum na época era fumar. Para isso havia a fábrica de cigarros “Vigilante”, que provavelmente devido ao seu alto teor de nicotina, deixava o fumante “ligado”.

Não vi muitos anúncios sobre temas políticos, ao menos no mês de junho. Mas encontrei um anúncio da Liga Operária, mostrando que os trabalhadores potiguares a muito se organizavam.

Em uma época onde a saúde era precária, onde poucas mulheres trabalhavam, onde o tempo médio de vida das pessoas era de maneira geral era mais baixo, onde as incertezas eram muitas e a previdência pública ainda era um sonho (E ainda é!), havia o medo do desamparo financeiro com a morte de um chefe de família. Isso se reflete em muitos anúncios de empresas que negociavam “pensões vitalícias”, ou seja, aposentadoria. Todas as que vi eram de outros estados, principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo.

E, logicamente, como a coisa mais certa que temos depois de nascermos, as pessoas em junho de 1911 morriam. Vejam um anúncio da época.

Este artigo, mais visual que escrito, é uma maneira simples e direta de se conhecer através das propagandas dos jornais, um pouco da realidade da cidade do Natal a 100 anos atrás. Ele não mostra todos os aspectos da realidade da nossa cidade naquela época e nem era esta a minha intenção. Mas mostra o quanto de diferenças existem em relação ao nosso tempo.

Destas diferenças, a mais significativa em minha opinião, foi ter encontrado poucos anúncios de serviços advocatícios.

Será que éramos mais evoluídos e não sabíamos?

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