1940 – O GLORIA COLITA E A HISTÓRIA REAL DE UM BARCO FANTASMA

AUTOR – Rostand Medeiros

No Mar do Caribe existe uma bela e interessante ilha chamada Bequia. Possui uma área estimada de dezoito quilômetros, pertencente politicamente a nação insular de São Vicente e Granadinas e atualmente com cerca de 5.000 habitantes.

Baía do Almirantado na Ilha de Bequia.

Nessa ilha existe a estonteante Baía do Almirantado, considerada há séculos um dos portos naturais mais seguros e tranquilos do Caribe, cujas águas são calmas e cristalinas. Ali as colinas verdejantes e arborizadas envolvem a baía num abraço acolhedor e a praia de areia fina contorna as águas turquesa como um cinto.

Não pela beleza, mas pela segurança da baía, que temidos piratas escolheram Bequia para ancorar suas embarcações.

Outra vista da Baía do Almirantado.

O notório pirata inglês Edward Teach, o conhecido Barba Negra, ancorou ali o navio mercante francês La Concorde em 28 de novembro de 1717, depois de o haver capturado perto da Ilha da Martinica. Esse barco veio com seus dezesseis canhões e dez quilos de ouro, além dos sobreviventes – uma tripulação francesa exausta e escravos africanos. Barba Negra usou a Baía do Almirantado para reformar o La Concorde, equipando-o com 40 canhões e deixando-o preparado para realizar seus temidos ataques. A nave passou a se chamar Queen Anne’s Revenge, tornando-se o mais forte e temido navio pirata do Caribe.

O Queen Anne’s Revenge de Barba Negra.

Segundo a lenda local, a região não era apenas a base de Teach, mas foi também o local onde Sir Francis Drake, explorador e corsário inglês, planejou seus ataques ao almirantado espanhol em Cartagena, sob o comando de Dom Blas de Lezo. Acredita-se também que o corsário galês Henry Morgan possa ter ancorado por lá para descansar dos muitos ataques que praticou aos navios mercantes na região.

Mapa com a localização da Ilha de Bequia.

No século XVIII Bequia se tornou o centro da construção naval no Caribe, principalmente na Baía do Almirantado, onde foram fabricados barcos a vela de vários tipos e tamanhos. A grande baía era ideal para esse tipo de atividade, pois além de ser bem protegida, com bom local para ancoragem e havia uma praia de areia que possuía naturalmente um declive suave, o que facilitava o lançamento dos barcos ao mar.

Ilha de Bequia na década de 1970.

O Gloria Colita

Séculos depois da passagem dos piratas pela Ilha de Bequia, vamos encontrar neste belo local a figura de Reginald Mitchell, um descendente de ingleses e aparentemente nascido na ilha.

Ele é descrito como um gigante ruivo e diziam que chegava a ter dois metros e treze centímetros de altura. Mas nada o deixava mais feliz do que construir barcos, já que era descendente de uma família de renomada construtores navais em Bequia e um capitão de habilidades excepcionais.

O Gloria Colita sendo colocado no Mar.

Em 1939 ele decidiu deixar sua marca construindo o maior barco já produzido na região das Pequenas Antilhas – o Gloria Colita. Era uma escuna de três mastros, com 165 pés de comprimento (cerca de 50 metros), 150 toneladas e uma tripulação de oito homens, além do capitão. Ele batizou o novo barco em homenagem à sua filha, Gloria Colita Mitchell, que nasceu em 1932.

O capitão Mitchell se especializou em transportar arroz, açúcar e madeira entre os Estados Unidos, Cuba, Guiana Britânica (atual Guiana) e a Venezuela. Mas esse intrépido comandante não apenas transportava cargas, ele igualmente comprava muito desses produtos e os vendia a quem desejasse. Era um trabalho árduo, mas lucrativo. 

Igreja na Ilha de Bequia, provavelmente na década de 1930.

No final de 1939, Mitchell comandou seu navio por uma rota de Cuba para a Venezuela e depois seguiu para a cidade de Mobile, no estado norte-americano do Alabama, já no Golfo do México.

Só que na Venezuela as coisas começaram a ficar estranhas!

Barco Fantasma

Por algum motivo ainda desconhecido, Mitchell demitiu toda a sua tripulação original nesse país e contratou uma nova tripulação que, segundo os jornais da época, “falavam espanhol”, mas não seriam venezuelanos. Fontes apontam que seriam provavelmente espanhóis que haviam deixado seu país devido à sangrenta guerra civil que assolava aquela nação.

Com a nova tripulação a postos, a ideia era que o Gloria Colita partisse de Mobile levando nos seus porões madeira para Cuba, mais precisamente para a Baía de Guantánamo. O certo é que a escuna deixou Mobile em 21 de janeiro de 1940 e essa foi a última vez que alguém viu Mitchell ou sua tripulação.

O hidroavião salva-vidas Douglas RD-4, matrícula 132, batizado como “Capella”, percorrendo as águas próximo a Estação Aérea da Guarda Costeira em Biloxi, Mississippi, pouco antes de um voo sobre o Golfo do México em missões de patrulha e resgate. Foto de Anthony V. Ragusin, Biloxi, Mississippi.

Em 4 de fevereiro de 1940, a Guarda Costeira dos Estados Unidos recebeu a notícia que o barco não havia chegado ao seu destino e foi iniciada uma extensa busca.

Foi então que uma aeronave de patrulha da Guarda Costeira, provavelmente um anfíbio Douglas RD-4, avistou o Gloria Colita. Nessa época havia anfíbios desse modelo na Estação Aérea da Guarda Costeira na cidade de Biloxi, Mississippi, distante cerca de 100 quilômetros de Mobile.

Barco patrulha da Guarda Costeira General Greene, do mesmo modelo do Cartigan.

O que a tripulação da aeronave viu foi um barco a cerca de 150 milhas, ou 240 quilômetros, ao sul da costa americana, visivelmente danificado, à deriva na Corrente do Golfo e sem nenhum sinal de vida a bordo. Então uma equipe de abordagem zarpou no barco patrulha Cartigan do Porto de Mobile até a escuna.

Como o Gloria Colita foi encontrado.

Segundo o livro Triangulo das Bermudas – Mistério desvendado (págs. 80 a 83, 1974), de Lawrence D. Kusche, os homens da Guarda Costeira ao chegarem ao barco sinistrado descreveram que “o convés era uma confusão de destroços”, que parte dos mastros e seus cordames haviam sido arrancados, além do leme ter desaparecido e uma das velas continuava içada, mas rasgada.

Duas informações não confirmadas afirmam que ainda havia comida na mesa da cabine e o barco estava completamente vazio, com exceção de um cachorro, talvez o mascote da tripulação. Conforme notícia publicada em 9 de fevereiro de 1940 pelo jornal Free Lance Star, do estado da Virgínia, “o barco apresentava extensos danos”.

Na sequência o barco danificado foi rebocado pelo Cartigan de volta para Mobile, enquanto outras equipes em três barcos de patrulha da Guarda Costeira vasculhavam o mar para localizar a tripulação, mas sem sucesso.

Então, o que aconteceu com os homens do Gloria Colita?

Teorias

Segundo o Free Lance Star, a razão do desaparecimento dos homens foi devido a “ventos repentinos que atingiram a escuna antes que uma das velas pudesse ser arriada, lançando a tripulação ao mar“. No livro de Lawrence D. Kusche existe a informação que jornais da época noticiaram que ocorreram tempestades na rota do Gloria Colita para Cuba, não sendo informada a gravidade dessas alterações climáticas.

Já um artigo de 13 de fevereiro do jornal Southeast Missourian, apresentou outra teoria: marinheiros experientes que examinaram os destroços acreditavam que ondas gigantescas — talvez com mais de 30 metros de altura — haviam atingido a embarcação, arrastando a tripulação para o mar.

Hoje se sabe que o fenômeno dessas ondas gigantes são basicamente ondas em mar aberto muito maiores do que as ondas circundantes, sendo grandes, imprevisíveis, que podem ser extremamente perigosas para navios e estruturas isoladas como faróis. Elas são distintas dos tsunamis, que são ondas de grande comprimento, muitas vezes quase imperceptíveis em águas profundas e causadas pelo deslocamento de água devido a outros fenômenos (como terremotos). No passado essa ideia de ondas gigantes era considerada um mito dos marinheiros e pescadores e a primeira somente foi registrada oficialmente em 1995.

Um navio mercante navegando em mar agitado enquanto uma onda enorme se aproxima. Foto tirada no Golfo de Biscaia, ao largo da França, por volta de 1940. Publicado na edição do outono de 1993 do Mariner’s Weather Log.

Mas existem outras histórias sobre o capitão e o misterioso barco abandonado. E são histórias mais sombrias!

Uma teoria defende que a tripulação espanhola se rebelou e matou Mitchell para depois tentar desaparecer no barco salva vidas do Gloria Colita (que não estava a bordo) e talvez tenham morrido na tentativa de fuga.

Membros da tripulação do submarino U-50 exibem suas Cruzes de Ferro em Wilhelmshaven, na costa alemã do Mar do Norte, em 2 de Março de 1940. Este submarino era do Tipo VII B e era comandado pelo Kapitänleutnant Max-Hermann Bauer. Um mês e dois dias todos os 44 tripulantes morreram quando o U-50 bateu em uma mina no Mar do Norte. Nesse período da Segunda Guerra nenhum submarino nazista se encontrava no Mar do Caribe.

Já outra teoria envolve os nazistas. Um submarino alemão estaria patrulhando o Caribe e o Golfo do México durante esses primeiros meses da Segunda Guerra Mundial e poderia ter capturado Mitchell. Ele teria então sido forçado a servir de guia e a tripulação do submarino eliminaram os marujos do Gloria Colita. Essa história surgiu após relatos de que “alguém” teria visto um indivíduo alto, sem uniforme, na torre de um submarino alemão, enquanto sua embarcação era afundada pelo canhão de convés. Contudo essa versão não se sustenta, pois simplesmente nesse período da Guerra a Alemanha Nazista ainda tinha poucos submarinos em ação e seus ataques se concentravam principalmente no Mar do Norte e perto da costa britânica.

Local onde o barco abandonado foi localizado no Golfo do México.

A partir da década de 1970, passaram a relacionar o caso do Gloria Colita ao chamado “Mistério do Triângulo das Bermudas”, embora seja um pouco forçado incluir o Golfo do México nessa área do Oceano Atlântico. Outra hipótese, agora no campo do fantástico, é a de que os tripulantes foram abduzidos por alienígenas e levados em um disco voador. Sem comentários!!!

Para finalizar sabemos que os restos da escuna foram vendidos a um americano para ser desmontado e esse barco sumiu da História!

O que realmente aconteceu a bordo do Gloria Colita e sua tripulação? Provavelmente nunca saberemos, mas certamente algo de muito ruim se desenrolou naquele barco!

Como nunca se soube de nenhum vestígio ou notícia dessa escuna e dos seus homens, a trágica história do Gloria Colita se tornou parte do folclore marítimo, onde sua lenda e a de seu capitão com mais de dois metros de altura continuam a crescer.

O PREÇO DA GUERRA

A ucraniana Ada é operadora de UAV das Forças Armadas da Ucrânia. Após passar por cima de uma mina antitanque inimiga em setembro de 2024, a mulher perdeu a perna esquerda, enquanto várias operações complexas a aguardam para salvar o calcanhar quebrado da perna direita. Foto: Konstantyn & Vlada Liberov / Superhumans Center -Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/?photo=58399

Enquanto as negociações sobre um cessar-fogo na Ucrânia estão a todo vapor, o bombardeio massivo de Kiev pela Rússia mais uma vez lançou dúvidas sobre a real disposição de Vladimir Putin em negociar. No entanto, é um padrão familiar: pouco antes de um cessar-fogo acordado, os combates se intensificam novamente para melhorar a posição do oponente e enfraquecer a infraestrutura militar do lado oposto. Esse comportamento cínico também pôde ser observado antes do cessar-fogo na guerra de Gaza no início do ano. Uma coisa é certa: guerras são difíceis de terminar, especialmente quando elas duram muito tempo e nenhuma das partes aceita a derrota. Entretanto, se a continuação da guerra não promete mais vantagens para nenhum dos lados, mas sim prejuízo para ambos, uma janela para negociações inevitavelmente se abre.

Uma voluntária das Bruxas de Bucha, o grupo móvel feminino de defesa aérea, durante um treinamento de combate. As Bruxas de Bucha operam perto de Bucha, na região de Kiev, para abater drones russos que atacam a capital. 3 de agosto de 2024. Foto: Efrem Lukatsky/AP – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/2/?photo=56307

Uma situação dessas existe agora mesmo. Não é só Kiev que deve ter um interesse vital em acabar com a guerra — por mais dolorosas que sejam as conquistas territoriais da Rússia — devido aos seus próprios problemas de recrutamento e à iminente cessação da ajuda militar americana. Também é improvável que a Rússia tenha qualquer interesse em uma guerra perpétua: as perdas persistentemente altas de pessoal e material, sem perspectiva de mudança de regime em Kiev, estão minando a estabilidade do regime de Putin a longo prazo. O Kremlin poderia usar um cessar-fogo para se preparar para outro grande ataque contra Kiev e possivelmente também contra estados europeus da OTAN. Mas há muito a ser dito contra essa suposição. É preciso ter em mente qualObjetivos de guerra russos na Ucrânia e além, e quais recursos de poder Moscou tem à disposição para implementar esses objetivos.

Treinamento da organização feminina “Ukrainian Walkyrie”: participantes aprendem noções básicas sobre armas e kits de primeiros socorros. Março de 2024, Kiev. Por Roman Pilipey para a AFP Photo – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/6/?photo=52455

O objetivo estratégico de longo prazo da Rússia desde a década de 1990 tem sido ser reconhecida novamente como uma grande potência preeminente em uma ordem mundial multipolar – isto é, em um sistema sem hegemonia ocidental.

Na sua opinião, a voz da Rússia foi repetidamente ignorada em questões-chave – por exemplo, na guerra do Kosovo ou na expansão da OTAN e da UE. Constitutiva dessa reivindicação ao status de grande potência é a reivindicação a esferas exclusivas de influência e a reivindicação de “resolver” problemas globais em conjunto com outras grandes potências. A guerra contra a Ucrânia está no centro da luta da Rússia pelo status de grande potência. Oficialmente, o Kremlin fala de uma “desnazificação” e “desmilitarização” da Ucrânia. Isso significa uma mudança de regime em Kyiv – em favor de uma elite governamental pró-Rússia. De uma perspectiva cultural, geoestratégica e geoeconômica, Moscou considera a Ucrânia uma parte indispensável de sua própria esfera de influência – portanto, ela tem um status diferente do que, por exemplo, os Estados Bálticos ou a Polônia.

Etapa final do curso de treinamento de cinco dias da Resistência Nacional para civis ucranianos. 11 de agosto de 2023, região de Kiev. Por Yevhenii Zavhorodnii – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/20/?photo=46850

Forçar toda a Ucrânia a entrar na esfera de influência russa – pela força militar ou, possivelmente, por eleições fraudadas – parece cada vez mais irrealista. A Ucrânia se tornou um baluarte anti-Rússia. Mesmo com meios brutais de repressão, como tortura, sequestros e assassinatos arbitrários, a Rússia tem considerável dificuldade em manter o controle sobre os territórios ocupados em Donbass. Uma subjugação completa do país provavelmente só seria possível com uma mobilização geral e o estabelecimento de um regime repressivo de violência, o que, no entanto, ocuparia enormes recursos e não traria nenhuma vantagem para Moscou. O resultado seria um êxodo em massa, imensa resistência e, devido à resistência ucraniana, uma população economicamente improdutiva.

Militares da 128ª Brigada Separada de Assalto em Montanha de Zakarpattia em treinamento. Instrutores ensinam os membros da brigada recriando diversos cenários de combate semelhantes às situações da linha de frente. 15 de julho de 2023. Por Ercin Erturk / Agência Anadolu / Getty Images – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/22/?photo=46440

Uma tática de desgaste através da continuação da guerra de agressão também não pode ser do interesse de Moscou a longo prazo. Embora o exército ucraniano seja inferior ao russo em muitas áreas, ele se tornou uma força testada em batalha e, graças à sua própria produção de drones, também tecnicamente qualificada, que mantém relações de segurança estreitas com os países da UE e da OTAN. Ao mesmo tempo, a insatisfação com as consequências negativas da guerra está crescendo na Rússia. O plano original de simplesmente usurpar o estado ucraniano se transformou em uma custosa guerra de posição e atrito que durou três anos. Apenas dois meses após a invasão total no final de fevereiro de 2022, um impasse estava surgindo. Naquela época, a Rússia ocupava cerca de 15% do território ucraniano – hoje, três anos depois, é cerca de 18% .

Alina (indicativo de chamada “Nika”) é comandante de artilharia das Forças Armadas da Ucrânia. Sua unidade militar defende os flancos das forças ucranianas no eixo Bakhmut.
Por Kostiantyn Liberov e Vlada Liberova
– Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/27/?photo=44549

Embora a Rússia não tenha esgotado seu potencial militar, Putin está ciente de que a ofensiva em larga escala contra a Ucrânia não é popular. Isso é ressaltado, principalmente, pelos muitos desertores que se seguiram à mobilização parcial em setembro de 2022. Até hoje, o Kremlin fala de uma “operação militar especial” e tenta manter a realidade da guerra longe do público russo o máximo possível. Nesse sentido, grupos marginalizados da sociedade eram recrutado preferencialmente – como prisioneiros ou homens de baixa renda de regiões remotas que eram recrutados com altos salários. Para evitar uma mobilização geral, o exército russo chegou a recorrer a milícias e mercenários de países como Iêmen, Cuba, Nepal, Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, além de cerca de 50.000 soldados norte-coreanos. No entanto, a guerra não pode ser apagada da realidade social da Rússia. A guerra causou pesadas perdas – cerca de 800.000 baixas militares, incluindo cerca de 170.000 mortes. Além disso, cerca de metade dos tanques de batalha (aproximadamente 10.000 ) e veículos blindados ( aproximadamente 19.000 ), bem como cerca de 21.000 sistemas de artilharia e 300 aeronaves e helicópteros, foram destruídos.

Um casal de médicos de combate ucranianos com os codinomes “Pion” e “Frits”. Eles se conhecem há sete meses e estão casados ​​há quatro. Região de Donetsk. Por Kostiantyn Liberov e Vlada Liberova – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/32/?photo=43216

Embora a Rússia use predominantemente armas da era soviética e possua sistemas mais modernos, a substituição dos equipamentos destruídos provavelmente levará muitos anos.

O dano econômico também é considerável. Moscou conseguiu mitigar parcialmente o impacto das sanções ocidentais – por meio da substituição de importações, do comércio por meio de terceiros países e da venda de petróleo e gás para a China, Índia e Turquia. No entanto, as exportações de combustíveis fósseis caíram para cerca de metade dos níveis pré-guerra. Apesar de uma frota paralela considerável e do aumento temporário dos preços do petróleo, as receitas de exportação de petróleo caíram cerca de 120 bilhões de euros. Após o colapso drástico das exportações de gás natural para a Europa, Pequim pagou apenas cerca de metade do que os países da UE pagavam anteriormente por metro cúbico. Como resultado, a Gazprom registrou prejuízo pela primeira vez em sua história em 2023. Resultado: a Rússia está se tornando cada vez mais dependente da China, o que não pode de forma alguma ser do interesse de Putin. O fato de a economia russa ter crescido dois anos após o início da invasão em grande escala se deve principalmente ao alto nível de investimento no complexo militar-industrial – um fenômeno conhecido como “keynesianismo militar”. Isso funciona como um pacote de estímulo econômico, do qual setores não militares da economia e da sociedade em geral também se beneficiam direta ou indiretamente.

A zagueira ucraniana Ruslana Danilkina, de 19 anos, perdeu a perna na linha de frente. 27 de fevereiro de 2023. Por Konstantyn e Vlada Liberov – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/35/?photo=42239

Para financiar as despesas, o governo russo tomou emprestado e usou 67% das reservas líquidas do Fundo Nacional de Riqueza. No final de 2024, restavam apenas 33,6 mil milhões de euros; O fundo poderá estar completamente esgotado até ao final de 2026. O aumento do orçamento de defesa estimulou a economia – atingiu os 100 mil milhões de euros em 2024;  Em 2025, subirá para 130 bilhões , o que corresponde a cerca de 300 bilhões de euros ajustados ao poder de compra. Ao mesmo tempo, a desvalorização do rublo russo tornou as importações mais caras, incluindo os chamados bens de dupla utilização da China, necessários para a indústria de armas russa. A atual recuperação econômica é, portanto, insustentável, pois o setor de petróleo e gás continua sendo a espinha dorsal do sistema econômico russo baseado em aluguel. De acordo com o Instituto de Estudos Econômicos Internacionais de Viena, o crescimento econômico, que foi de 3,6% em 2023 e 3,8% em 2024 , cairá pela metade em 2025 e diminuirá ainda mais em 2026. A inflação estava em dez por cento em 2024, razão pela qual o Banco Central Russo aumentou a taxa básica de juros para 21% , o que por sua vez está prejudicando as empresas russas. Cerca de um milhão de russos, em sua maioria jovens, educados e ricos, já deixaram seu país desde 2022. Para uma das sociedades mais antigas do mundo, esse é um grande problema que não pode ser compensado pela imigração.

Militares ucranianas com cestas de Páscoa perto de Zaporizhzhya. 24 de abril. Por Andriy Dubchak – Fonte https://war.ukraine.ua/photos/page/56/?photo=17786

A Rússia está se rearmando, expandindo e modernizando seu exército, mas está sofrendo mais do que admite. A continuação da guerra traz o risco de que o regime de Putin — que se baseia no contrato social de troca de liberdade por prosperidade e segurança — se torne mais instável e só possa ser mantido com repressão cada vez maior. Saudações do Irã.

*Lukas Theinert é doutorando na Universidade Martin Luther em Halle-Wittenberg. Ele está escrevendo seu doutorado sobre a política externa revisionista comparativa da Rússia e da Turquia.