A BELA E INTERESSANTE “DEUSA DO ASSÚ”

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Sabemos que em março de 1828, em um dia que se perdeu no tempo, encalhou em um banco de areia na embocadura do rio Assú, um grande barco a vela e casco de madeira.

Quem assistiu o episódio, provavelmente deve ter ficado impressionado com o desembarque de um grande número de pessoas de pele clara, altos, cabelos loiros e falando uma língua estranha. Era um grupo de 122 colonos alemães, entre eles muitas mulheres e crianças, que migraram para ocupar terras no Brasil. Já o grande barco era um brigue holandês chamado Actief, ou Actif, mas que ficou conhecido por aqui como Ativo.

Brigue dos Estados Unidos chamado Salmon P. Chase, de três mastros. Talvez o barco holandês que encalhou próximo a Macau tivesse essas características.

A nave havia partido do porto de Amsterdã no dia 29 de abril de 1828 e, mesmo sem saber os detalhes, a viagem deve ter sido no mínimo horrível, pois levou quatro longos meses para atravessar o Oceano Atlântico. O destino era o Rio de Janeiro, mas a razão da chegada desse barco na embocadura do Rio Assú teria sido, supostamente, por problemas de alimentação a bordo, e aí teve seu itinerário alterado. Só que houve o acidente e o capitão desembarcou os imigrantes na costa.

O barco ficou destruído, mas foi possível salvar parte do seu carregamento de madeira de pinho de riga e pertences dos passageiros. Já os loiros colonos alemães descobriram que naquela praia ensolarada não havia barcos disponíveis para transportá-los para o seu destino. Eles então decidiram seguir a pé pela beira do mar até a pequena Natal, que provavelmente mal tinha 10.000 habitantes nessa época.

Jornal recifense comentando sobre os colonos alemães que chegaram no navio Ativo.

Não sabemos como foi a progressão pelas nossas belas praias dessa estranha e singular procissão de estrangeiros, em meio ao quente sol da terra potiguar. E nem ficou registro do contato desse pessoal com os moradores da capital, mas eles certamente foram aconselhados a seguir para Recife do mesmo jeito que chegaram a Natal, pois ficou registrado que surgiram na capital pernambucana caminhando. Uma verdadeira epopeia que chegou a quase 500 quilômetros de caminhada e durou vários dias e noites!

Em Recife, após as deliberações das autoridades, os alemães foram encaminhados para a região da Zona da Mata Norte, onde foi criado um núcleo de colonização chamado Santa Emília, em homenagem a princesa Amélia de Leuchtenberg, uma mulher de origem franco-bávara, segunda esposa do Imperador Pedro I e Imperatriz Consorte do Brasil de 1829 a 1831[1].

Amélia de Leuchtenberg – Obra da coleção Brasiliana Iconográfica – Fonte – Wikipédia.

Enquanto isso, em Macau o que restou do Ativo ficou sem uma destinação prática por doze anos, quando um leilão foi finalmente realizado em 1840.

Essa informação é interessante porque naqueles tempos, quando não existiam os aparelhos de GPS, fotos de satélite e sistemas de radar, era muito comum barcos encalharem nas praias, ou baterem em rochas desconhecidas e muitas vezes restava algo da embarcação para ser leiloado. Podia ser parte da carga que transportavam, o casco de madeira, velas, mastros, escaleres e outras coisas. Esse dinheiro servia como compensação para o dono do barco, ou para cobrir as despesas da tripulação e outras contas que surgiam. Só que pesquisando nos antigos jornais descobri que esses leilões eram realizados de maneira até célere, coisa de poucos dias ou semanas, com a ideia de arrecadar logo o dinheiro. Mas no caso desse brigue holandês eu não descobri a razão de toda essa demora!

Quem arrematou os salvados foi o italiano Antunino Campiello Maresco, um comerciante que morava no povoado Logradouro, próximo a Macau. Consta que Maresco utilizou a madeira do navio nos assoalhos de três casas e um sótão em Macau e no Logradouro[2].

A estátua de madeira de Ônfale, que chegou ao Rio Grande do Norte há quase 200 anos – Fonte – Ruben Fonseca

Mas havia algo mais nos salvados do navio – uma grande e bela estátua de madeira representando uma linda mulher. A mulher de um grande personagem da mitologia greco-romana!

Uma Bela Mulher do Reino da Lídia

Naqueles tempos, estátuas de madeira eram colocadas na frente dos antigos veleiros e eram chamadas de figuras de proa. Geralmente esculpidas em madeira e pintadas com cores vivas, eram muito comuns entre os séculos XVI e XIX, representavam figuras mitológicas, personagens históricos, animais ou símbolos, com o objetivo de proteger a embarcação e intimidar inimigos. Acreditava-se que as figuras de proa traziam boa sorte, proteção contra maus espíritos e indicavam o nome ou função do navio.

Consta que a estátua da figura de proa do Ativo foi esculpida em pinho de riga, com 2,40 metros de altura, mas existe graça nos gestos fixados: o braço esquerdo curvado onde existe um interessante detalhe de uma capa esculpida com uma figura de um leão, a perna direita está um pouco levantada, suas unhas perfeitíssimas e delicadas e sua cabeça era móvel. Os marinheiros, homens extremamente supersticiosos, giravam a cabeça da estátua em direção ao próximo porto e assim a viagem finalizava de maneira tranquila[3].

Já quem a estátua representava e sua origem foi motivo de muita discussão na Potyguarânia. Por conta de alguns detalhes existentes, acharam que ela podia ser de origem romana, nórdica, ou até seria de “antes do Descobrimento do Brasil”. Mas na entrevista concedida ao Diário de Pernambuco, Luís da Câmara Cascudo afirmou categoricamente que aquela majestosa obra em madeira era “Ônfale, uma das esposas de Hércules, que depois de conquistar seu amor, o obrigou a tecer uma capa e lhe tomou o manto feito de pele de leão”. Manto este que era reproduzido na estátua do navio Ativo e o felino era o mítico Leão de Nemeia, morto por Hércules no primeiro dos seus famosos doze trabalhos.

Em seu mito mais conhecido, Ônfale é a rainha (ou princesa) do reino da Lídia, na Ásia Menor, a quem Hércules foi escravizado como punição por ordem dos oráculos. Segundo a tradição, o valente herói aceita a ordem divina apenas para, no fim, sucumbir aos encantos de sua amada. A coragem e a vontade inabaláveis ​​do herói não resistem ao poder do amor e da beleza. Ele então oferece a Ônfale um dos seus atributos essenciais: a pele de leão.

Hércules and Ônfale (detalhe), de François Lemoyne, 1724, Mudeu do Louvre, Paris – Fonte – https://www.historytoday.com/archive/foundations/hercules-and-omphale

Dependendo da interpretação, este tema exalta tanto o dever da obediência, quanto a onipotência do amor. Essa narrativa também ofereceu a escritores e artistas a oportunidade de explorar papéis sexuais, temas eróticos e a submissão do herói ao poder do amor. Mas os gregos antigos não reconheciam Ônfale como uma deusa. Ainda segundo Cascudo, a estátua do navio era a segunda conhecida com a capa de Hércules, estando a primeira em um museu na França.

Mudando de Mãos

Não sabemos se o italiano Campiello Maresco conhecia essa história sobre a sua estátua, mas o certo foi que ele a levou para casa, onde as décadas seguintes chamava muita atenção dos membros da comunidade e dos visitantes. Aquele interessante objeto começou a ser conhecido como “Rainha da Costa D’África”, mas não descobri a razão disso. Havia também na sua casa portinholas e outros objetos do navio holandês.

Fonte – Ruben Fonseca

Edilson Siqueira, descendente do italiano Maresco, contou ao escritor Getúlio Moura que ouviu do seu avô e de sua mãe que havia uma segunda estátua no navio holandês. Era menor que a figura de proa e que seu antepassado a enviou para um amigo na Itália e o povo de Macau e região dizia que dentro dela “tinha muito ouro”.

A figura de proa do Ativo ficou por 135 anos com a família Campiello Maresco, passando de geração em geração nas mãos dos seus descendentes. Existe a informação que essa bela Ônfale de madeira teria servido de apoio de corte de macambira a facão. A reportagem do Diário de Pernambuco informou que faltava um pedaço do nariz e dois dedos de cada mão. Segundo Ruben Fonseca, o atual proprietário da antiga figura de proa do Ativo, lhe chegou a informação a sua estátua era utilizada para apoiar o corte de cana-de-açúcar e sua base também estava danificada.

A estátua de Ônfale e Ruben Fonseca

Então veio o ano de 1964, quando em Macau a Dona Pautilha Maresco fez negócio com o fazendeiro de Parnamirim Ezequiel Fonseca Neto, na sua casa com piso de pinho de riga. O negócio foi fechado por um milhão de cruzeiros e nessa época Ezequiel havia comprado uma bela residência na Rua Capitão Abdon Nunes, no bairro do Tirol. Ezequiel é o pai de Ruben.

Segundo o jornalista Paulo Macedo, na sua tradicional coluna social do extinto Diário de Natal, edição de quarta-feira, 16 de fevereiro de 1963, desde a chegada da estátua de Ônfale a Natal, muita gente, “mais de mil pessoas” segundo ele, esteve na casa de Ezequiel observando a beleza e a grandiosidade da antiga “Deusa do Assú”.

Fonte – Ruben Fonseca

Segundo Getúlio Moura, a última vez que essa estátua deixou a residência dos descendentes de Ezequiel Fonseca foi em 1999, quando seu filho Rubem e sua esposa Suzana exibiram a escultura na “Casa Bonita Brasil – Mostra Natal”, que fez parte do calendário de comemorações dos 400 anos da cidade de Natal. Atualmente essa bela estátua está em um local abrigado, completamente protegida e continua a ser admirada por Ruben, Suzana e seus familiares.

Um último detalhe. Porque a estátua ficou conhecida no Rio Grande do Norte como “Deusa do Assú”, se toda a sua relação histórica é ligada à cidade de Macau? A resposta é simples – Macau era uma povoação Em 1828, que então pertencia a vasta área territorial do município de Assú e só foi criado oficialmente pela Lei Provincial nº 158, de 2 de outubro de 1847, desmembrando-se de Angicos, que por sua vez havia se desmembrado de Assú em 11 de abril de 1833.

REFERÊNCIAS —————————————————————————————————————————————

[1] KONRAD ADENAUER STIFTUNG. O bicentenário da imigração alemã no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: 2024. p. 19, 34. Várias fontes informam que o número de colonos a bordo do Ativo era de 140 pessoas, mas nesse texto eu decidi utilizar o número fornecido por autoridades alemãs no livro do bicentenário da imigração alemã.

[2] MOURA, Getúlio. Um Rio Grande e Macau: cronologia da história geral. Natal: [s.n.], 2003. p. 140-141.

[3] FRANSINETTI, Paula, Deusa do Vale do Assú não é pré-histórica: Pertencia ao Ativo, naufragado em 1828. Diário de Pernambuco, Recife (PE), 16 de dezembro de 1964, p. 2.

1940 – O GLORIA COLITA E A HISTÓRIA REAL DE UM BARCO FANTASMA

AUTOR – Rostand Medeiros

No Mar do Caribe existe uma bela e interessante ilha chamada Bequia. Possui uma área estimada de dezoito quilômetros, pertencente politicamente a nação insular de São Vicente e Granadinas e atualmente com cerca de 5.000 habitantes.

Baía do Almirantado na Ilha de Bequia.

Nessa ilha existe a estonteante Baía do Almirantado, considerada há séculos um dos portos naturais mais seguros e tranquilos do Caribe, cujas águas são calmas e cristalinas. Ali as colinas verdejantes e arborizadas envolvem a baía num abraço acolhedor e a praia de areia fina contorna as águas turquesa como um cinto.

Não pela beleza, mas pela segurança da baía, que temidos piratas escolheram Bequia para ancorar suas embarcações.

Outra vista da Baía do Almirantado.

O notório pirata inglês Edward Teach, o conhecido Barba Negra, ancorou ali o navio mercante francês La Concorde em 28 de novembro de 1717, depois de o haver capturado perto da Ilha da Martinica. Esse barco veio com seus dezesseis canhões e dez quilos de ouro, além dos sobreviventes – uma tripulação francesa exausta e escravos africanos. Barba Negra usou a Baía do Almirantado para reformar o La Concorde, equipando-o com 40 canhões e deixando-o preparado para realizar seus temidos ataques. A nave passou a se chamar Queen Anne’s Revenge, tornando-se o mais forte e temido navio pirata do Caribe.

O Queen Anne’s Revenge de Barba Negra.

Segundo a lenda local, a região não era apenas a base de Teach, mas foi também o local onde Sir Francis Drake, explorador e corsário inglês, planejou seus ataques ao almirantado espanhol em Cartagena, sob o comando de Dom Blas de Lezo. Acredita-se também que o corsário galês Henry Morgan possa ter ancorado por lá para descansar dos muitos ataques que praticou aos navios mercantes na região.

Mapa com a localização da Ilha de Bequia.

No século XVIII Bequia se tornou o centro da construção naval no Caribe, principalmente na Baía do Almirantado, onde foram fabricados barcos a vela de vários tipos e tamanhos. A grande baía era ideal para esse tipo de atividade, pois além de ser bem protegida, com bom local para ancoragem e havia uma praia de areia que possuía naturalmente um declive suave, o que facilitava o lançamento dos barcos ao mar.

Ilha de Bequia na década de 1970.

O Gloria Colita

Séculos depois da passagem dos piratas pela Ilha de Bequia, vamos encontrar neste belo local a figura de Reginald Mitchell, um descendente de ingleses e aparentemente nascido na ilha.

Ele é descrito como um gigante ruivo e diziam que chegava a ter dois metros e treze centímetros de altura. Mas nada o deixava mais feliz do que construir barcos, já que era descendente de uma família de renomada construtores navais em Bequia e um capitão de habilidades excepcionais.

O Gloria Colita sendo colocado no Mar.

Em 1939 ele decidiu deixar sua marca construindo o maior barco já produzido na região das Pequenas Antilhas – o Gloria Colita. Era uma escuna de três mastros, com 165 pés de comprimento (cerca de 50 metros), 150 toneladas e uma tripulação de oito homens, além do capitão. Ele batizou o novo barco em homenagem à sua filha, Gloria Colita Mitchell, que nasceu em 1932.

O capitão Mitchell se especializou em transportar arroz, açúcar e madeira entre os Estados Unidos, Cuba, Guiana Britânica (atual Guiana) e a Venezuela. Mas esse intrépido comandante não apenas transportava cargas, ele igualmente comprava muito desses produtos e os vendia a quem desejasse. Era um trabalho árduo, mas lucrativo. 

Igreja na Ilha de Bequia, provavelmente na década de 1930.

No final de 1939, Mitchell comandou seu navio por uma rota de Cuba para a Venezuela e depois seguiu para a cidade de Mobile, no estado norte-americano do Alabama, já no Golfo do México.

Só que na Venezuela as coisas começaram a ficar estranhas!

Barco Fantasma

Por algum motivo ainda desconhecido, Mitchell demitiu toda a sua tripulação original nesse país e contratou uma nova tripulação que, segundo os jornais da época, “falavam espanhol”, mas não seriam venezuelanos. Fontes apontam que seriam provavelmente espanhóis que haviam deixado seu país devido à sangrenta guerra civil que assolava aquela nação.

Com a nova tripulação a postos, a ideia era que o Gloria Colita partisse de Mobile levando nos seus porões madeira para Cuba, mais precisamente para a Baía de Guantánamo. O certo é que a escuna deixou Mobile em 21 de janeiro de 1940 e essa foi a última vez que alguém viu Mitchell ou sua tripulação.

O hidroavião salva-vidas Douglas RD-4, matrícula 132, batizado como “Capella”, percorrendo as águas próximo a Estação Aérea da Guarda Costeira em Biloxi, Mississippi, pouco antes de um voo sobre o Golfo do México em missões de patrulha e resgate. Foto de Anthony V. Ragusin, Biloxi, Mississippi.

Em 4 de fevereiro de 1940, a Guarda Costeira dos Estados Unidos recebeu a notícia que o barco não havia chegado ao seu destino e foi iniciada uma extensa busca.

Foi então que uma aeronave de patrulha da Guarda Costeira, provavelmente um anfíbio Douglas RD-4, avistou o Gloria Colita. Nessa época havia anfíbios desse modelo na Estação Aérea da Guarda Costeira na cidade de Biloxi, Mississippi, distante cerca de 100 quilômetros de Mobile.

Barco patrulha da Guarda Costeira General Greene, do mesmo modelo do Cartigan.

O que a tripulação da aeronave viu foi um barco a cerca de 150 milhas, ou 240 quilômetros, ao sul da costa americana, visivelmente danificado, à deriva na Corrente do Golfo e sem nenhum sinal de vida a bordo. Então uma equipe de abordagem zarpou no barco patrulha Cartigan do Porto de Mobile até a escuna.

Como o Gloria Colita foi encontrado.

Segundo o livro Triangulo das Bermudas – Mistério desvendado (págs. 80 a 83, 1974), de Lawrence D. Kusche, os homens da Guarda Costeira ao chegarem ao barco sinistrado descreveram que “o convés era uma confusão de destroços”, que parte dos mastros e seus cordames haviam sido arrancados, além do leme ter desaparecido e uma das velas continuava içada, mas rasgada.

Duas informações não confirmadas afirmam que ainda havia comida na mesa da cabine e o barco estava completamente vazio, com exceção de um cachorro, talvez o mascote da tripulação. Conforme notícia publicada em 9 de fevereiro de 1940 pelo jornal Free Lance Star, do estado da Virgínia, “o barco apresentava extensos danos”.

Na sequência o barco danificado foi rebocado pelo Cartigan de volta para Mobile, enquanto outras equipes em três barcos de patrulha da Guarda Costeira vasculhavam o mar para localizar a tripulação, mas sem sucesso.

Então, o que aconteceu com os homens do Gloria Colita?

Teorias

Segundo o Free Lance Star, a razão do desaparecimento dos homens foi devido a “ventos repentinos que atingiram a escuna antes que uma das velas pudesse ser arriada, lançando a tripulação ao mar“. No livro de Lawrence D. Kusche existe a informação que jornais da época noticiaram que ocorreram tempestades na rota do Gloria Colita para Cuba, não sendo informada a gravidade dessas alterações climáticas.

Já um artigo de 13 de fevereiro do jornal Southeast Missourian, apresentou outra teoria: marinheiros experientes que examinaram os destroços acreditavam que ondas gigantescas — talvez com mais de 30 metros de altura — haviam atingido a embarcação, arrastando a tripulação para o mar.

Hoje se sabe que o fenômeno dessas ondas gigantes são basicamente ondas em mar aberto muito maiores do que as ondas circundantes, sendo grandes, imprevisíveis, que podem ser extremamente perigosas para navios e estruturas isoladas como faróis. Elas são distintas dos tsunamis, que são ondas de grande comprimento, muitas vezes quase imperceptíveis em águas profundas e causadas pelo deslocamento de água devido a outros fenômenos (como terremotos). No passado essa ideia de ondas gigantes era considerada um mito dos marinheiros e pescadores e a primeira somente foi registrada oficialmente em 1995.

Um navio mercante navegando em mar agitado enquanto uma onda enorme se aproxima. Foto tirada no Golfo de Biscaia, ao largo da França, por volta de 1940. Publicado na edição do outono de 1993 do Mariner’s Weather Log.

Mas existem outras histórias sobre o capitão e o misterioso barco abandonado. E são histórias mais sombrias!

Uma teoria defende que a tripulação espanhola se rebelou e matou Mitchell para depois tentar desaparecer no barco salva vidas do Gloria Colita (que não estava a bordo) e talvez tenham morrido na tentativa de fuga.

Membros da tripulação do submarino U-50 exibem suas Cruzes de Ferro em Wilhelmshaven, na costa alemã do Mar do Norte, em 2 de Março de 1940. Este submarino era do Tipo VII B e era comandado pelo Kapitänleutnant Max-Hermann Bauer. Um mês e dois dias todos os 44 tripulantes morreram quando o U-50 bateu em uma mina no Mar do Norte. Nesse período da Segunda Guerra nenhum submarino nazista se encontrava no Mar do Caribe.

Já outra teoria envolve os nazistas. Um submarino alemão estaria patrulhando o Caribe e o Golfo do México durante esses primeiros meses da Segunda Guerra Mundial e poderia ter capturado Mitchell. Ele teria então sido forçado a servir de guia e a tripulação do submarino eliminaram os marujos do Gloria Colita. Essa história surgiu após relatos de que “alguém” teria visto um indivíduo alto, sem uniforme, na torre de um submarino alemão, enquanto sua embarcação era afundada pelo canhão de convés. Contudo essa versão não se sustenta, pois simplesmente nesse período da Guerra a Alemanha Nazista ainda tinha poucos submarinos em ação e seus ataques se concentravam principalmente no Mar do Norte e perto da costa britânica.

Local onde o barco abandonado foi localizado no Golfo do México.

A partir da década de 1970, passaram a relacionar o caso do Gloria Colita ao chamado “Mistério do Triângulo das Bermudas”, embora seja um pouco forçado incluir o Golfo do México nessa área do Oceano Atlântico. Outra hipótese, agora no campo do fantástico, é a de que os tripulantes foram abduzidos por alienígenas e levados em um disco voador. Sem comentários!!!

Para finalizar sabemos que os restos da escuna foram vendidos a um americano para ser desmontado e esse barco sumiu da História!

O que realmente aconteceu a bordo do Gloria Colita e sua tripulação? Provavelmente nunca saberemos, mas certamente algo de muito ruim se desenrolou naquele barco!

Como nunca se soube de nenhum vestígio ou notícia dessa escuna e dos seus homens, a trágica história do Gloria Colita se tornou parte do folclore marítimo, onde sua lenda e a de seu capitão com mais de dois metros de altura continuam a crescer.