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O COMPASSO DO MUNDO: TUDO SOBRE A MAÇONARIA

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Fonte – https://openclipart.org/download/245371/Freemasonry-Masonic-Masonry.svg

Como a mais célebre sociedade secreta moldou a história dos últimos três séculos

AUTOR – Tiago Cordeiro

O primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, era maçom. Depois dele, outros 16 líderes da nação mais poderosa do mundo também foram: a lista inclui John Edgar Hoover, diretor do FBI por 45 anos, e Harry Truman, o homem que autorizou o ataque com bombas atômicas sobre o Japão. Também fizeram parte da sociedade secreta dois políticos decisivos para a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Eram maçons alguns dos mais importantes líderes da Revolução Francesa, como Jean-Paul Marat e La Fayette. O revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi e os libertadores da América espanhola, o argentino José de San Martín e o venezuelano Simon Bolívar, também. O articulador da independência do Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva, pertencia à ordem, assim como o duque de Caxias e nosso primeiro presidente republicano, marechal Deodoro da Fonseca.

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Fonte – http://xn--jl-3sulen-z2a.de/freimaurer-in-der-neuen-zuercher-zeitung/

Por tudo isso, não é exagero afirmar que o mundo em que vivemos foi definido por essa sociedade secreta, que por três séculos vem reunindo a elite política e militar (e cultural) do Ocidente em rituais cheios de códigos misteriosos.

Mas o que é maçonaria? Existem várias versões para a criação da organização. A mais confiável remete à Idade Média, quando o controle do comércio era feito pelas guildas, corporações de ofício que reuniam artesãos do mesmo ramo e funcionavam como um antepassado dos sindicatos. Um dos grupos mais poderosos era o dos pedreiros (em inglês, masons). Que era um trabalho de alto status então, pois eram responsáveis pela engenharia e pela construção de castelos e catedrais. Pedreiros tinham acesso aos reis e ao clero e circulavam livremente entre os feudos. Apelidados de free masons (pedreiros livres), se reuniam nos canteiros de obras e trocavam segredos da profissão. Um dos documentos mais antigos sobre essas guildas é a carta de regulamentos de Londres, 1356. Na época, era só um conjunto de regras para pedreiros. 

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Fonte – https://www.star-of-africa.de/was-wissen-sie-%C3%BCber-freimaurerei/

Para se identificarem em locais públicos e evitarem o vazamento de suas conversas, criaram um sistema de gestos e códigos. Durante o Renascimento, os pedreiros livres ficaram na moda. Seus encontros passaram a acontecer em salões, chamados de lojas, que geralmente ficavam sobre bares e tavernas das grandes cidades, onde a conversa continuava depois. Intelectuais e membros da nobreza engrossaram a turma. Por influência deles, os debates passaram a abranger religião e filosofia. Em 24 de junho de 1717, numa reunião das quatro maiores lojas de Londres (então o maior centro maçom europeu), na taverna The Goose and Gridiron nasceu uma federação, a Grande Loja de Londres. Era o início oficial da maçonaria.

A Marselhesa

Em apenas três décadas, a organização já tinha se espalhado por toda a Europa ocidental e havia alcançado a Índia, a China e a América do Norte. Passou a ser conhecida, respeitada, mas, principalmente, temida. Não era para menos. Ficava difícil confiar em um grupo de homens ricos e poderosos, de diferentes áreas, que se reuniam a portas fechadas, usavam símbolos esquisitos (veja explicações ao longo da reportagem) e faziam juramentos de fidelidade à tal organização e ainda voto de silêncio. Também não ajudou muito o tanto de lendas que surgiu sobre a origem da maçonaria (em 1805, o historiador francês Charles Bernardin pesquisou 39 diferentes). Tinha para todos os gostos: alguns integrantes da ordem diziam que Noé era maçom, outros transformaram o rei Salomão ou os antigos egípcios em fundadores. Nem os templários escaparam (leia ao final). A Igreja Católica se incomodou tanto que, em 1738, divulgou uma bula papal atacando a ordem, que décadas depois foi perseguida pela Inquisição.

Mistérios revelados  Os principais símbolos da maçonaria

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Fonte – http://www.pnp900.de/freimaurerei.html

Compasso

Um dos instrumentos dos pedreiros. Representa a racionalidade científica. Por desenhar círculos perfeitos, também simboliza a busca pela perfeição moral

Esquadro

Outro instrumento da construção civil que lembra a capacidade transformadora do homem sobre a natureza. Seu ângulo reto é uma indicação para os homens de que eles devem ser honestos

Letra G

Vem de God, Deus em inglês. Os integrantes da fraternidade também o chamam de GAU, sigla para Grande Arquiteto do Universo

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Maçons ingleses – Fonte – http://www.freemasonrytoday.com/magazine

Olho

Geralmente representado dentro de um triângulo, tem o mesmo significado da letra G. É Deus, que tudo vê

Triângulo

Refere-se ao lema liberdade, igualdade e fraternidade, às virtudes fé, esperança e caridade, e nascimento, vida e morte. Por isso, os maçons também fazem três pontos em suas assinaturas

Martelo

Pequeno, simboliza o trabalho dos pedreiros que inspiraram a fraternidade, e também a força material que muda o mundo. É usado pelo grão-mestre durante as cerimônias

Sol/Lua

Como o chão de mosaico preto e branco (veja no rodapé da reportagem), usado nas lojas, simboliza a dualidade entre bem e mal, espírito e corpo, luz e trevas.

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Templo maçônico da Filadélfia (EUA) construído em 1873 – Fonte – https://pamasonictemple.org/temple/

Além do sigilo, o que perturbava era a atitude sempre à frente de seu tempo. Setenta anos antes da Revolução Francesa, esses homens cultos e influentes já defendiam a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Tratavam-se sem distinção e aceitavam todos os credos religiosos, uma atitude tremendamente avançada para a época. Os ateus, porém, eram barrados. Não formamos uma religião, mas somos um grupo de pessoas religiosas.

Nosso lema é fazer os homens bons ficarem melhores, diz o maçom paulistano Cassiano Rampazzo, advogado de 35 anos. Com ele concorda a historiadora mineira Françoise Jean de Oliveira, coautora do livro O Poder da Maçonaria. A maçonaria não é religião, não tem dogmas. É um grupo que defende a liberdade de consciência e o progresso. Isso não quer dizer que cada participante possa agir como bem entende. Ao entrar na ordem, o membro é instruído sobre a moral universal, um conjunto de virtudes obrigatórias, como bondade, lealdade, honra, honestidade, amizade, tranquilidade e obediência, diz Françoise.

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Membros de uma loja maçônica no oeste canadense em 1890 – Fonte – http://freemasonry.bcy.ca/textfiles/history.html

A falta de preconceito se restringia a diferenças políticas e religiosas. A fraternidade vetava analfabetos, deficientes e homens que não se sustentavam. As mulheres até hoje não são bem-vindas (com exceção da França).

Além disso, no passado como no presente, só entra na ordem quem for convidado e passar por uma avaliação rigorosa: nada de gente indiscreta, protagonistas de escândalos, bêbados, brigões e adúlteros notórios.

Ainda assim, para os aprovados, a maçonaria foi a primeira entidade a funcionar de acordo com os preceitos da democracia moderna. Eles estimulavam debates abertos, em que todos podiam participar, além das eleições livres e diretas. Nada disso estava na moda no século 18. E, muito por influência dos próprios maçons, tornou-se corriqueiro no século 21, afirma o historiador alemão Jan Snoek, professor da Universidade de Heidelberg e especialista no assunto.

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Grande ritual maçônico em Hamburgo, Alemanha – Fonte – http://www.abendblatt.de/hamburg/article109558266/1500-Freimaurer-bei-Ritual-im-Michel.html

Assim, nada mais natural que os líderes da Revolução Francesa de 1789 aderissem à maçonaria. Nos anos que antecederam a queda do Antigo Regime, os adeptos se multiplicaram. A influência foi tanta que uma canção composta e cantada na loja de Marselha foi batizada de A Marselhesa e transformada no hino do país. Nem todos os ideólogos da revolução foram maçons. Marat e La Fayette eram, Robespierre e Danton, não. Mas, entre os inimigos da monarquia, mesmo quem não participava da ordem tinha sido influenciado por suas ideias, afirma o historiador americano W. Kirk MacNulty, maçom há mais de 40 anos.

Nas verdinhas

Além de divulgar ideias que atraíam a elite progressista de seu tempo, a maçonaria era também um espaço propício à conspiração política. Ao ingressar na ordem, os integrantes prometiam (e até hoje prometem) não divulgar seus segredos e nem mesmo revelar a nenhum profano (como são chamados os não iniciados) o que é dito nas reuniões.

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Trajes maçônicos – Fonte – al-prudens.de

As lojas maçônicas eram o lugar ideal para membros da elite de diferentes pensamentos políticos se encontrarem, diz o pesquisador Jesus Hortal, reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Além disso, quanto mais a maçonaria era acusada de ser um local de conspiração política, mais ela era procurada por conspiradores. A proteção das lojas ajudou a garantir o sucesso de um dos movimentos históricos mais influenciados pela organização: a independência americana, episódio que muitos historiadores chamam de revolução maçônica.

Grandes maçons – Algumas figuras centrais que se juntaram à ordem

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George Washington – Fonte – https://www.star-of-africa.de/was-wissen-sie-%C3%BCber-freimaurerei/

George Washington (1732-1799)

Juntou-se bem jovem, enquanto ainda era soldado do Exército britânico, em 1752. Ocupado com sua luta, nunca foi muito ativo. Recusou o cargo de Grande Mestre na Virgínia em 1777, para se dedicar à luta contra a dominação britânica. Deram o cargo mesmo assim, sem seu consentimento, em 1788. Washington gostava do programa iluminista dos maçons, e também do fato de, nos EUA, serem menos anticlericais que na Europa. 

Voltaire (1694-1778)

O filósofo iluminista atacava a monarquia francesa e defendia princípios maçons. Acabou sendo iniciado em uma loja de Paris em abril de 1778, só dois meses antes de morrer. Voltaire, que tinha 83 anos, entrou no local apoiado no braço do americano Benjamin Franklin.

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Johann Wolfgang von Goethe – Fonte – https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0e/Goethe_%28Stieler_1828%29.jpg

Goethe (1749-1832)

O escritor e poeta alemão foi aceito em uma loja de Weimar em 1780. Escreveu vários poemas em homenagem à maçonaria. Os mais famosos são A Loja Maçônica e Symbolum (composto quando seu único filho, Auguste, foi iniciado).

Mozart (1756-1791)

O compositor austríaco entrou para a ordem em Viena, aos 28 anos. Compôs várias peças para serem executadas durante cerimônias maçônicas. Sua última ópera, A Flauta Mágica, tem tantas referências à ordem que Mozart foi acusado de revelar segredos maçons.

Gustave Eiffel (1832-1923)

Além de projetar a Torre Eiffel, em Paris, o engenheiro francês desenhou a Estátua da Liberdade, enviada como presente de comemoração dos 100 anos da independência americana . O projeto foi executado em parceria com o escultor Frederick Bartholdi (1834-1904), que também era maçom.

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Charles Lindbergh – Fonte – https://www.usnews.com/photos/famous-freemasons?slide=8

Charles Lindberg (1902-1974)

O aviador foi aceito por uma loja de Saint Louis em 1926. No ano seguinte, tornou-se o primeiro homem a fazer um voo solitário transatlântico sem escalas. Durante a viagem, ele teria levado consigo um distintivo com os símbolos da régua e do compasso.

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O segundo homem a pisar na Lua em 1969, após Neil Armstrong, pertence a uma loja maçônica no Texas. Queria ter levado um anel maçom de seu avô para a Lua, mas o perdeu antes da viagem. Mas ninguém sabe se ele teria mesmo levado uma bandeira com símbolos da ordem para lá.

Benjamin Franklin, um dos grandes responsáveis pela criação dos Estados Unidos da América, era grão-mestre (o líder máximo na hierarquia) na Filadélfia e responsável pela publicação no país do livro Constituições, escrito pelo britânico James Anderson em 1723 e considerado a declaração de princípios da entidade. O líder dos rebeldes, George Washington, e o principal autor da Declaração de Independência, Thomas Jefferson, também eram membros ativos, assim como um terço dos 39 homens que aprovaram a primeira Constituição do país. Os três usaram seus contatos com as maçonarias de outras nações, em especial da Inglaterra, para garantir o sucesso da rebelião.

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Trajes maçônicos na Europa – Fonte – http://www.katholisches.info/2013/04/freimaurer-suchen-neuen-grosmeister-geht-es-logen-wirklich-nur-um-ethik-oder-auch-um-politik/

Há quem diga que a nota de 1 dólar, com seu olho solitário, é inteiramente marcada por símbolos maçons o olho, por exemplo, simbolizaria Deus (leia sobre os símbolos no decorrer da reportagem), coisa que os autores da cédula nunca confirmaram. Reza a lenda que George Washington teria vestido um avental da ordem durante a inauguração da capital, em 16 de julho de 1790, batizada em sua homenagem. Ele ainda teria orientado os engenheiros a encher a cidade de símbolos secretos da entidade. Por exemplo: algumas pessoas identificam o desenho de um compasso unindo a cúpula do Capitólio, a Casa Branca e o Memorial Thomas Jefferson.

Pelo mundo

No século 19, a maçonaria deu outras provas de sua capacidade de mudar a história. Por volta de 1810, um grupo de defensores da unificação italiana se reuniu com o nome de Carbonária. Inspirado nas estratégias e na hierarquia maçons, a sociedade secreta, que continuou atuante até 1848, tentava estimular uma rebelião espontânea dos trabalhadores, que implantariam os ideais liberais. Dois dos maiores heróis da construção da Itália unificada participaram desse grupo e depois foram aceitos pela maçonaria. Um deles, Giuseppe Mazzini (1805-1872), acabou rompendo com os maçons por acreditar que a ordem mais debatia que agia. Outro, Giuseppe Garibaldi (1807-1882), seria mais tarde condecorado o primeiro maçom do novo país.

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Giuseppe Garibaldi – Fonte – https://br.pinterest.com/pin/116038127878095348/

Depois de participar de um levante malsucedido em Gênova, Garibaldi fugiu para o Rio de Janeiro em 1835. Encontrou um grupo de carbonários exilados que mantinha contatos com a maçonaria brasileira. Através deles conheceu o maçom Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha. Em 1840, Garibaldi instalou-se no Uruguai, onde se tornou oficialmente participante da sociedade secreta. Quando morreu, em seu país, deu nome a lojas no Uruguai, Brasil, França, Estados Unidos, Inglaterra e Itália. Nas décadas seguintes, os democratas italianos de esquerda, cujos integrantes cerrariam fileiras na maçonaria, se destacaram pela defesa do sufrágio universal, da educação gratuita de qualidade e da independência do Estado com relação à Igreja.

É fácil entender como Garibaldi se tornou maçom na América do Sul. Desde o começo do século 19, a ordem cresceu a ponto de ser fundamental para a independência dos países da região. Nos países de língua espanhola, um dos precursores do pensamento pela soberania foi o venezuelano Francisco de Miranda (1750-1816), que, depois de participar da Revolução Francesa, foi iniciado na maçonaria por George Washington. Miranda fundou uma loja em Londres, batizada de Gran Reunión Americana.

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Fonte – http://www.idea.de/gesellschaft/detail/ezw-die-freimaurer-in-deutschland-legen-zu-92634.html

Ali, atuou na formação de três libertadores da América: o chileno Bernardo O’Higgins (1778-1842), o venezuelano Simon Bolívar (1783-1830) e o argentino José de San Martín (1778-1850). Eles frequentavam a mesma loja, Latauro, com sede em Cádiz, Espanha, e filiais latino-americanas. Seus membros se denominavam cavaleiros da razão e previam a independência, o fim da escravidão e a proclamação de repúblicas. Estima-se que a iniciação de Bolívar tenha ocorrido na Europa, entre 1803 e 1806. San Martín, adepto desde 1808, fundou lojas no Chile, no Peru e na Argentina (que já abrigava casas maçônicas desde 1775). O’Higgins frequentava a de Mendoza.

Em terras brasileiras

A fraternidade existia em nosso país desde o início do século 19 e contava com confrades de altos cargos da colônia. Entre os maçons decisivos para a separação de Portugal estava José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). A ideia de conceder o título Defensor Perpétuo e Imperador do Brasil ao príncipe herdeiro da coroa portuguesa surgiu na própria Latauro, mesmo lugar que organizou as primeiras festas de rua pela independência, no Rio, em 12 de outubro de 1822.

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Fonte – http://robertomacom.blogspot.com.br/2015_02_01_archive.html

O envio de emissários às grandes províncias brasileiras para articulação da Independência foi organizado pelo Grande Oriente do Brasil, a federação maçônica nacional fundada em 17 de junho do mesmo ano, de onde José Bonifácio foi grão-mestre. Em 2 de agosto de 1822, o próprio dom Pedro I entrou para a entidade, sob o codinome Pedro Guatimozim, uma homenagem ao último rei asteca. Apenas três dias depois de iniciado, ele já tinha sido alçado a mestre. Mais dois meses e já era o grão-mestre do país. Passados apenas 17 dias da promoção, Pedro, já imperador, abandonou a fraternidade e proibiu suas atividades no Brasil. A melhor explicação dos especialistas para a atitude é a insatisfação do monarca com uma entidade onde a hierarquia era submetida a regras e podia ser questionada.

Em 1831, de volta legalmente à ativa, após a renúncia de dom Pedro e seu retorno a Portugal, a maçonaria brasileira se multiplicou. Em 1861, a ordem se mobilizou em apoio ao movimento abolicionista. No Ceará, lojas se reuniram para comprar e libertar escravos. Eusébio de Queiroz (1812-1868), que batizou a lei que proibia o tráfico de escravos, era maçom. O visconde do Rio Branco (1819-1880), abolicionista e chefe de Gabinete Ministerial entre 1871 e 1875, foi grão-mestre. Quando a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel (1846-1921), em 1888, o presidente do Conselho de Ministros era o grão-mestre João Alfredo Correa de Oliveira (1835-1919). Das lojas também veio o apoio à mudança no regime de governo. Em 1889, a República foi proclamada pelo confrade marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), que formou um ministério só com maçons. Dos 12 chefes de Estado até 1930, oito eram maçons; dos 17 governadores de São Paulo durante a República Velha, 13 pertenciam à ordem.

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Fonte – http://www.mundodastribos.com/entenda-os-significados-dos-simbolos-maconicos.html

Caça aos bruxos

A partir de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder, a maçonaria brasileira passou a ser estigmatizada. Os delírios do integralista Gustavo Barroso (1888-1959), de que a entidade unira-se ao judaísmo para controlar a humanidade, faziam sucesso. O mesmo surto ocorreu em outros países. Na União Soviética, Leon Trótski (1879-1940) denunciou um suposto complô maçom-judaico para dominar o planeta. Adolf Hitler (1889-1945), que dizia que a maçonaria era uma arma dos judeus, mandou fechar todas as lojas alemãs, prendeu líderes e, em 1937, organizou a Exposição Antimaçônica. Aberta em Munique pelo ministro da propaganda, Joseph Goebbels, a mostra reunia peças de lojas invadidas. Na Espanha, em 1940, o general Francisco Franco (1892-1975) proibiu a existência dos grupos e condenou seus membros a seis anos de prisão.

Nem só a perseguição fez organização perder poder. A maçonaria não se adaptou aos novos tempos, diz Françoise Souza. Ela foi poderosa enquanto era um local único de reunião de pessoas. Com a consolidação da sociedade civil, surgiram outros espaços associativos, como partidos, sindicatos e organizações não governamentais. Além disso, causas clássicas da maçonaria, como a liberdade religiosa, viraram direitos. Mas ainda existem locais onde a segurança e a valorização da liberdade de expressão são fundamentais. É o caso de Israel. Em Jerusalém, as lojas reúnem cristãos, judeus e muçulmanos, que conversam abertamente, trocam experiências e sabem que podem confiar uns nos outros, afirma o historiador Jan Snoek. Em lugares assim a maçonaria continua, como era em suas origens, uma organização inovadora.

Fundadores legendários  Estes seriam os primeiros maçons, segundo as lendas

Adão

Alguns integrantes da ordem defendem que Deus foi o primeiro maçom afinal (como um bom pedreiro) ele construiu o mundo inteiro em seis dias. Para outros, esse cargo cabe a Adão. Ao ser expulso do paraíso, ele teve de encontrar uma forma de construir abrigo. Seus ensinamentos teriam sido levados adiante por seu filho Caim.

Noé

De acordo com a Bíblia, depois de construir um barco e escapar do grande dilúvio com um casal de cada espécie animal, Noé precisou começar tudo do zero. Para alguns maçons, isso faz dele um pioneiro na arte da construção logo, um fundador da maçonaria.

Egípcios

Só mesmo grandes engenheiros seriam capazes de construir as pirâmides do Egito antigo. Por isso, não falta quem diga que entre os egípcios também estavam os primeiros maçons. Por essa versão, eles teriam criado ritos ocultos, os mesmos que teriam usado na construção da Grande Pirâmide de Quéops.

Hiram Abiff

Segundo a Bíblia, o rei Salomão teria contratado um outro rei, chamado Hiram Abiff, para ser o engenheiro-chefe de seu templo. De acordo com a maçonaria, Hiram foi morto por funcionários que queriam roubar os segredos de Salomão. Assim, Hiram acabou virando um mártir e também um exemplo de discrição.

Pitágoras

Além de fundador da Matemática como disciplina de estudos, o grego fundou a escola pitagórica, que tratava seus seguidores como uma irmandade sem superiores e seguia rígidos princípios religiosos e de comportamento. Assim, não é difícil entender a ligação que fizeram entre ele e a maçonaria.

Templários

Os sobreviventes da poderosa ordem, destruída em 1312 a mando do papa Clemente V, teriam continuado a se reunir em segredo até voltar a público em 1717, na forma da maçonaria. Algumas palavras em código dos maçons seriam inspiradas nas senhas usadas pelos templários.

SAIBA MAIS:

►A Maçonaria Símbolos, Segredos, Significado, W. Kirk MacNulty, Martins Fontes, 2007
►Arquivos Secretos do Vaticano e a Franco-Maçonaria, José Ferrer Benimeli, Madras, 2007
►O Poder da Maçonaria, Françoise Jean de Oliveira e Marco Morel, Nova Fronteira, 2008

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/o-compasso-do-mundo-tudo-sobre-a-maconaria.phtml#.WL39T4WcHIW

DILÚVIO – A DESTRUIÇÃO ATRAVÉS DAS ÁGUAS NA MITOLOGIA

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Arca de Noé – Fonte – gif15.blogspot.com

FONTE – http://historiablog.wordpress.com/

De um lado pesquisadores, do outro, religiosos – ambos empenhados em conseguir provas para demonstrar que a Bíblia não é apenas um apanhado de lendas. E foi com esse espírito que muita coisa do tempo de Jesus e da antiga Jerusalém conseguiu sair do papel e ser provada. Porém, quando as pesquisas se voltam a algum episódio do Antigo Testamento, parte da Bíblia que também remete à história dos judeus, o caminho das pedras torna-se um pouco mais difícil. Para os cientistas apenas provas materiais os convenceriam de que aquelas personagens bíblicas realmente existiram, mas para os historiadores os registros escritos já são pistas preciosas, suficientes para investigar o que aconteceu no passado remoto das civilizações antigas.

Entre as figuras bíblicas do Antigo Testamento que mais chamam a atenção dos pesquisadores históricos, duas se sobressaem: Abraão e Noé. E mesmo entre esses dois há muito mais chance de descobrirmos a verdade sobre o primeiro do que sobre o segundo. O que se sabe basicamente sobre Noé é que ele construiu uma arca e tornou-se o último dos patriarcas antes do famoso dilúvio. Mas, ao contrário do que costumamos imaginar, o dilúvio não é uma histórica tipicamente hebréia. Até hoje foram obtidas cerca de cem narrativas místicas consagradas ao evento cataclísmico, a versão do Gênesis (capítulos 6 a 9), portanto, é apenas mais uma.

Fonte - fatoecuriosidademundial.blogspot.com
Fonte – fatoecuriosidademundial.blogspot.com

De acordo com o livro Terras e Povos Desconhecidos, da Time-Life americana, as narrações do dilúvio bíblico não contêm nenhuma descrição completa. Nesse sentido, a passagem bíblica seria apenas um conto um tanto quanto confuso, complexo e heterogêneo, que traria a compilação de duas versões conhecidas, uma de origem javeísta (mais tradicional e mais antiga) e outra sacerdotal (mais acessível e recente). Para os estudiosos isso não seria de se espantar, já que os hebreus passaram um longo tempo como escravos na Babilônia. “É muito difícil você passar qualquer período de tempo em um lugar sem absorver, consciente ou inconscientemente, seus hábitos”, diz Armando Calvo Laslis, do Departamento de Estudos Históricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Se a linha de raciocínio de Laslis estiver correta, a tarefa de descobrir a primeira matriz histórica sobre esse tema torna-se mais árdua ainda, pois lendas sobre o dilúvio são encontradas na literatura e na tradição oral de povos do mundo inteiro.

Para se ter uma ideia, a catástrofe aquática tem registro entre os nativos de Gales, do Irã, da índia, da Austrália e até mesmo dos Mares do Sul. Isso sem falar das versões nórdica, lituana, inuíte, apache e indonésia – muitas origens para um mesmo assunto. Seria esse um indicador de que o dilúvio é muito mais do que uma lenda? Pouco se sabe sobre o mundo antes dessa catástrofe, mas o fascínio pela história encanta os arqueólogos e cientistas do mundo inteiro.

Noé

 Antes de seguirmos o rastro de todas essas lendas, vale relembrar a versão do dilúvio que é mais conhecida pelo mundo Ocidental, a de Noé. Pesquisadores, como o historiador Renée Noorberger, acreditam tanto  em sua veracidade que o  estabelecem como ponto de partida em busca do chamado mundo ante-diluviano (época anterior ao registro bíblico) que estaria misturado a relatos de   civilizações   perdidas, afogadas nas águas, como Atlântida e as terras de Mu e Lemúria.

O diluvio - Antonio Marziale Carracci - óleo sobre tela - 166 x 247 cm - 1616 - (Musée du Louvre (Paris, França) - Fonte - http://pt.wahooart.com/@@/8Y3VLN-Antonio-Marziale-Carracci-O-Dil%C3%BAvio-(3)
O diluvio – Antonio Marziale Carracci – óleo sobre tela – 166 x 247 cm – 1616 – (Musée du Louvre (Paris, França) – Fonte – http://pt.wahooart.com/@@/8Y3VLN-Antonio-Marziale-Carracci-O-Dil%C3%BAvio-(3)

A história bíblica conta que, após o estabelecimento dos patriarcas do período, o ser humano caiu em pecado. Deus então decidiu eliminar a raça humana e escolheu Noé para que salvasse não só a sua família, como também todos os animais da Terra. Então, Noé recebeu orientações para a construção de uma arca que os manteria em segurança e, assim que a embarcação ficou pronta e um casal de cada espécie animal subiu a bordo, as águas irromperam e dominaram a Terra por quarenta dias e quarenta noites. Quando finalmente a situação se acalmou, Noé conduziu sua arca para o monte Ararat e de lá recebeu novas instruções de Deus para construir uma sociedade mais justa que a anterior. Após um breve período de calmaria, os descendentes do patriarca se reuniram na Torre de Babel que depois de muito se desentenderem, espalharam-se pelos quatro cantos da Terra.

Livre adaptação

Uma prova de que o mito do dilúvio pode ter sido assimilado pelos hebreus de seus captores babilônicos é a antiga lenda de Gilgamesh. Trata-se de uma história que não deve nada aos poemas épicos de Homero e que é considerada um dos textos mais antigos já preservados. Nessa história há uma passagem que conta como um patriarca babilônico, de nome Utnapishtim, recebeu também o aviso de seus deuses sobre uma catástrofe iminente que destruiria toda a humanidade. Assim, ele construiu uma embarcação que salvou sua família, alguns animais e diversos artesãos. A tempestade durou aqui sete dias e, quando as coisas se acalmaram, o patriarca enviou três pássaros em busca de terra seca. Uma pomba, que voltou para ele; uma andorinha, que também retornou e um corvo, que não voltou, o que foi considerado um sinal de que já era seguro desembarcar.

Gilgamesh encontra Utnapishtim, o noé sumério - Fonte - http://eden-saga.com/fr/deluge-arche-gilgamesh-enki-viracocha-atrahasis-ziusudra.html
Gilgamesh encontra Utnapishtim, o noé sumério – Fonte – http://eden-saga.com/fr/deluge-arche-gilgamesh-enki-viracocha-atrahasis-ziusudra.html

Estudiosos britânicos e alemães, que se envolveram com escavações arqueológicas em terras turcas e nos arredores do que seria o Monte Ararat, mostraram-se intrigados com alguns restos de madeira encontrados no cume que seriam, segundo eles, da Arca de Noé. Porém as autoridades do local não cedem autorizações para estudos mais conclusivos, o que só faz aumentar a polêmica. E esses mesmos pesquisadores afirmam que a incidência em diversas culturas lenda sobre o dilúvio deve ser levada em alta consideração, pois não se trata mais de uma coincidência, já que as variações encontradas podem ter se originado de uma única fonte, ou seja, do episódio da Torre de Babel. Renée Noorbergen é um dos pesquisadores que mais defendem essa tese, principalmente depois que estudou a tradição chinesa e descobriu uma lenda que narrava os esforços de Nuwah, progenitor daquele povo que havia escapado de um dilúvio com sua mulher e filhos.

Immanuel Velikovsky foi um psiquiatra russo-judeu, mais conhecido como o autor de uma série de livros controversos que reinterpretam acontecimentos da história antiga, em particular o livro Mundos em Colisão, publicado em 1950 - Fonte - www.velikovsky.de
Immanuel Velikovsky foi um psiquiatra russo-judeu, mais conhecido como o autor de uma série de livros controversos que reinterpretam acontecimentos da história antiga, em particular o livro Mundos em Colisão, publicado em 1950 – Fonte – http://www.velikovsky.de

Outro acadêmico, o russo Immanuel Velikovsky, divulgou em 1955 registros de fósseis que comprovavam que a Terra já havia sofrido um cataclismo como o dilúvio, nos moldes do descrito nas lendas. Cardumes inteiros de peixes foram encontrados em amplas áreas com sinais de morte em estado de agonia. Mas, para o pesquisador, o cataclismo teria sido originado quando um cometa proveniente de Júpiter passou rente ao planeta, o que teria mexido com o eixo terrestre e provocado o transbordamento de rios, mares e oceanos, “assim não há como falar em intervenção divina”, explicou.

O mito nórdico

 Odin era filho de Bôer e da giganta Besta e neto de um homem chamado Buri, que era feito de um bloco de sal. Ele tinha dois irmãos, Vila e Vá, com os quais dava-se maravilhosamente bem e com os quais realizava as maiores aventuras possíveis. Um dia, cansados de tantas artimanhas em que estavam constantemente envolvidos, os três resolveram formar o globo terrestre e chegaram à conclusão de que tudo que necessitavam para criar o Inundo estava contido no corpo de um gigante.

"As últimas palavras de Odin a Baldr "(1908) por WG Collingwood
“As últimas palavras de Odin a Baldr “(1908) por WG Collingwood

Com esse objetivo, os filhos de Bôer e Besta mataram o gigante Ymer e com seu corpo formaram o globo terrestre assim: os ossos originaram as montanhas, os dentes os rochedos, o crânio a abóbada celeste. Mas ao morrer o gigante espalhou sobre a terra todo o seu sangue, que se tornou um imenso dilúvio e fez com que toda a raça dos gigantes morresse afogada, exceto Belgemer e sua mulher, que conseguiram se salvar agarrados a uma arca de pão.

Odin e seus irmãos resolveram então criar um casal humano com os troncos de um freixo e com uma faia do norte que crescia no mar Báltico, dessa forma, garantiram o repovoamento do planeta.

O mito védico

Manú, filho semi-humano dos deuses, considerado o pai da raça humana, era tão bom que o deus Vishnu o salvou do ‘dilúvio, uma catástrofe que feriu todos os semidivinos que se tornaram ruins. Manú, como agradecimento, ofereceu a Vishnu um bolo de leite coalhado, creme e manteiga depois de esse deus o haver salvo do dilúvio universal.

No dilúvio Hindu, nas escrituras védicas da índia, Svayambuva Manu foi avisado sobre o dilúvio por uma encarnação de Vishnu - Fonte - http://nathalie-pachecomoradadadeusa.blogspot.com.br/2013/01/nefilins-anjos-caidos-ou-rebeliao.html
No dilúvio Hindu, nas escrituras védicas da índia, Svayambuva Manu foi avisado sobre o dilúvio por uma encarnação de Vishnu – Fonte – http://nathalie-pachecomoradadadeusa.blogspot.com.br/2013/01/nefilins-anjos-caidos-ou-rebeliao.html

Vishnu em retribuição fez surgir desse bolo uma mulher, bela e doce chamada Ida (ou lia). Os Acvins, elegantes cavaleiros, filhos do Sol e da Égua Saranyou, que as nuvens simbolizavam quando corriam ligeiras pelos céus, apaixonaram-se por ela e desejaram-na. Mas Ida repeliu-os violentamente exclamando: “Eu sou daquele que me criou”. Assim a criação da mulher está intimamente ligada ao dilúvio, e, o repovoamento do mundo, da união de Manú e Ida.

O mito mexicano

Mesmo no Novo Mundo podem ser encontradas lendas que falam sobre um dilúvio, como a de Cox cox Tezpi. Tezpi era um homem muito justo e bom, temente a Deus e que via com olhos tristes a corrupção dos homens, seus irmãos. Estes puseram de lado os princípios com que tinham sido criados, que pertenciam a seus antepassados, e não queriam compartilhar os benefícios de Deus na Terra – desde as águas que refrescavam seus corpos até a companhia de seus irmãos. A ganância dos homens e a mesquinhez das mulheres eram características comuns, assim a humanidade caminhava para um fim pouco animador.

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Tezpi começou a compreender que alguma coisa de anormal estava por acontecer e, temendo a justiça divina, começou a fazer uma embarcação para sua salvação. Aqui temos uma diferença: não há intervenção divina no sentido de que Tezpi tenha sido avisado da catástrofe nem que tenha tido qualquer intenção de salvar os animais. Mas escavações mexicanas recentes nos arredores da Cidade do México descobriram pinturas antigas que retratavam a cena surpreendente de uma arca flutuando sobre as águas com Tezpi, suas mulheres, filhos e alguns animais. Essas mesmas pinturas contam que, depois que as águas baixaram, Tezpi soltou um beija-flor para que fosse verificar se era seguro sair da embarcação. Assim, quando a ave retornou com um ramo verde de planta no bico, Tezpi e sua família acompanhado dos animais saíram da arca e começaram o processo de repovoamento do mundo.

O mito hindu

 Quando o deus Brama saiu de sua imobilidade para animar o universo, a princípio criou os Devas, os espíritos e os anjos que * iriam povoar o céu. Alguns deles, porém, ao chegarem lá em cima, viram lugares na Terra muito bonitos, cheios de frutos, flores, águas límpidas e lagoas. Começaram, então, a imaginar como seria viver em tais paisagens. Assim tornaram-se Rclasas, gênios malfeitores que se ocupam em perturbar os humanos. Essas entidades maldosas corromperam-se tanto que se dividiram em diversas e poderosas categorias de malfeitores. Tornaram o Mal o domínio absoluto sobre a humanidade corrompida. Brama, entretanto, era bom e ficou perturbado com o trabalho daqueles espíritos. Mas ele guardava em segredo um outro mundo, desconhecido dos demônios. O objetivo do deus era transportar os homens e os anjos do primeiro mundo para o segundo, mais perfeito. Porém não queria que o antigo mundo ficasse contaminado e assim aconteceu o dilúvio. Apenas um homem bom, chamado Waivaswata, foi prevenido da catástrofe iminente. Ele construiu um navio e juntou sua família e um casal de todos os animais disponíveis para, depois, repovoar o mundo.

20 FATOS SOBRE A HISTÓRIA DO SEXO

Sexo-Mesopotamia

O sexo acompanha o ser humano em toda a evolução. Apesar de nossos antepassados e todos nós termos nascidos a partir de um ato sexual, o tema ainda é motivo de polêmica e taboo em várias culturas e/ou religiões ocidentais e orientais. Com o objetivo de conhecermos a forma como nossos ancestrais encaravam o tema, confira 20 fatos sobre a história do sexo.

– Estudos feitos por arqueólogos em objetos e pinturas rupestres indicam que os seres humanos na Pré-História já distinguiam sexo de reprodução, usavam cosméticos naturais para incrementar a paquera, faziam sexo em posições diferentes e usavam até mesmo métodos anticoncepcionais.

– As posições sexuais variavam. Uma imagem encontrada em Ur, na Mesopotâmia, datada de 3200 a.C., mostra a mulher por cima, posição também encontrada em obras de arte da Grécia, do Peru, da China e da Índia. Uma outra imagem mostra a mulher sentada com as pernas levantadas para facilitar a penetração.

– No Paleolítico, os machos dominantes se casavam com várias mulheres, seguindo o comportamento de animais polígamos, como bisão e veado. Já no Neolítico, a monogamia passa a ser predominante. Observando o estilo de vida dos animais domesticados, os homens passaram à monogamia.

– Não faltam exemplos da prática da masturbação na Pré-História: há de estátuas a bastões fálicos talhados em madeira ou em pedra. Uma das estátuas, de Malta, mostra uma mulher se masturbando de pernas abertas por volta de 4000 a.C. Outra retrata um homem no ato em 5000 a.C.

– Os homens usam plantas medicinais há pelo menos 40 mil anos. Arqueólogos desconfiam que plantas do gênero Aneilema eram usadas para evitar a gravidez, enquanto a borragem provavelmente já era usada para amenizar os sintomas da tensão pré-menstrual nas mulheres e como afrodisíaco para os homens.

Sexo-Venus-Willendorf

– Pesquisadores apontam que a atividade homossexual masculina e feminina é comum em mais de 200 espécies de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes e insetos, o que poderia indicar que também era praticada pelos homens pré-históricos.

– O sexo entre homens e animais – a zoofilia – também era praticada. Há uma pintura rupestre de cerca de 3000 a.C., em Val Camonica, na Itália, que mostra um homem copulando com um asno! Já na Sibéria aparecem imagens de homens copulando com alces.

– Os homens faziam estátuas eróticas que podem ser consideradas ancestrais da pornografia. A mais famosa é conhecida como Vênus de Willendorf: uma mulher de nádegas e peitos grandes com traços de corante vermelho, encontrada em uma região ocupada há 40 mil anos atrás.

– Na hora da paquera, o homem pré-histórico já tinha à disposição cosméticos feitos de plantas, como a hena, usada nos cabelos. Sabe-se que extratos de beladona eram usados para dilatar as pupilas e, assim, chamar mais a atenção. Havia ainda pigmentos avermelhados, que destacavam partes da pele.

– Quando o homem virou bípede, o corpo passou a ter novos focos de atração sexual. Os peitos das mulheres, únicas fêmeas entre os primatas que têm seios permanentemente grandes, passaram a ser tão atrativos quanto a bunda. O ser humano passou a ser um dos poucos animais que fazem sexo cara a cara.

Sexo-Roma-Antiga

– Na Antiguidade, a prostituição era regulamentada, o divórcio começou a existir e havia até deuses do sexo! Os romanos, por exemplo, prezavam tanto o sexo que havia uma lei para desincentivar o celibato: a solteirice e a falta de filhos eram punidos, e as pessoas cheias de herdeiros tinham privilégios.

– Os conhecimentos sobre a atividade sexual começaram a se aprimorar com Hipócrates, considerado o pai da medicina. Os romanos também estudavam o corpo humano e já conheciam algumas doenças venéreas, como a gonorreia, termo cunhado por Galeno no século 2.

– Os gregos e romanos eram monogâmicos – no império de Diocleciano, em Roma, a bigamia foi declarada ofensa civil. Mas os greco-romanos descobriram que o amor nem sempre é eterno: foi nessa época que surgiu o divórcio. As mulheres adúlteras podiam ser condenadas à morte.

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– Em Roma, as posições sexuais apareciam em pinturas, mosaicos e objetos de uso cotidiano, como lamparinas, taças e até moedas. Em uma face, ficava a posição sexual, e, na outra, um número. Para alguns historiadores, as moedas eram fichas de bordel, e as posições com penetração tinham números maiores.

– na Grécia e na Roma antigas, a masturbação era vista como natural. No Egito, a masturbação era até parte do mito da criação. Um dos ditos piramidais afirma que Aton, o deus do Sol, teria criado o deus Shu e a deusa Tefnut através do sêmen de sua masturbação!

– Casais de homem com homem e mulher com mulher eram comuns na Grécia. Havia até mitos para explicar a origem da pederastia, a relação entre homens maduros e jovens: o primeiro dizia que Orfeu, um dos seres da mitologia grega, acabou se apaixonando por adolescentes depois que sua mulher, Eurídice, morreu.

– O grego Hipócrates achava que o útero poderia deslocar-se pelo corpo da mulher em busca de umidade e poderia chegar até o fígado! Mas ele também deu bolas dentro: calculou a duração da gravidez em 10 meses lunares (cerca de 290 dias do nosso calendário), tempo parecido com os 9 meses atuais.

Orfeu-Euridice

– Os galanteios dos romanos seguiam um manual: o livro A Arte de Amar, do poeta Ovídio, escrito entre 1 a.C. e 1 d.C. Entre as dicas, estava o uso do goró: “O vinho prepara os corações e os torna aptos aos ardores amorosos”. Recomendava: “Esconda os defeitos e, o quanto possível, dissimule suas imperfeições físicas”.

– A legislação sexual romana era polêmica! Eram puníveis com a morte: adultério cometido pela esposa, incesto e relação sexual entre uma mulher e um escravo. No estupro, a punição sobrava até para a vítima – se não gritasse por socorro, a virgem poderia ser queimada viva.

– Em Roma, as prostitutas eram registradas e pagadoras de impostos, se vestiam com tecidos floridos ou transparentes, e, por lei, não podiam usar a estola, veste das mulheres livres, nem a cor violeta. Os cabelos deviam ser amarelos ou vermelhos.

Pintura da Idade Média
Pintura da Idade Média

– Na Idade Média, o orgasmo não tinha nada a ver com um prazer racional; era considerado uma força incontrolável. O corpo feminino era considerado mais suscetível ao pecado e à corrupção, necessitando da vigilância maculina. Não se costumava ficar completamente nu, nem para fazer sexo.

– O centro de uma casa nobre era um casal procriador, cercado de filhos solteiros, parentes e agregados. Porém, o adultério era comum nas famílias nobres e a poligamia era praticada e até admitida. Segundo a literatura, numa casa repletas de irmãs, sogras, tias, primas e cunhadas, só podia rolar incesto.

– A noite de núpcias poderia acontecer antes da cerimônia oficial do casamento, porque os noivos já estavam comprometidos pelo desponsatio, a partir do qual a noiva se tornava responsabilidade do marido e se mudava para o novo lar.

– No período medieval, um único leito não servia apenas ao casal, mas também a filhos e parentes. Ou seja, era cama famliar e não de casal, o que causava grandes preocupações morais. Cortinas podiam isolar a área destinada ao senhor. Quem tinha mais riqueza e poder, mantinha seus criados íntimos num quarto vizinho.

– O rapto de mulheres era corriqueiro até o século XII. Frequentemente, era feito com a concordância da mulher ou instigado por ela. Tratava-se de um modo de fazer valer a vontade dos pombinhos contra um casamento arranjado ou um meio de uma mulher se livrar de um mau marido.

Espartilho

– Os cabelos longos eram obrigatórios para as mulheres. Porém, como as longas madeixas tinham grande poder erótico, deveriam sempre ser trançadas. Todas as mulheres que não fossem prostitutas ou meninas, bem como as casadas quando saíam do quarto, deveriam cobrir as tranças com touca.

– Os costumes medievais recatados continuaram na Idade Moderna, mas a Reforma Protestante ajudou a tornar alguns deles menos rígidos. O divórcio, por exemplo, que era proibido pelo catolicismo, passou a ser aceito na Igreja Anglicana.

– A partir deste período, mudarm os padrões de beleza – mulheres com cinturas fina e seios fartos passaram a ser as mais desejadas. No século XVI, surgiu o espartilho, peça de roupa que projetava o peito da mulherada para cima e afinava suas cinturas.

Sexo-Cortesas

– De 1545 a 1563, o Concílio de Trento tornou a Igreja a responsável pelo casamento – antes, os casamentos eram só civis, e aconteciam em casa mesmo. A partir daí, passaram a acontecer diante de um membro da igreja.

– No século XVI, o pintor italiano Giulio Romano pintou uma série de 16 desenhos para um livro de sonetos obscenos de Pietro Arentino, retratando várias posições sexuais. Em um dos quadros, um homem de joelhos segura uma mulher, que está na diagonal e com uma das pernas sobre seu pescoço.

– As pinturas de Giulio Romano são fichinha comparadas ao Kama Sutra, que foi escrito provavelmente entre os séculos 3 e 4, mas só foi popularizado no Ocidente a partir de 1883, quando ganhou uma tradução em inglês. O livro contém a descrição de 529 posições sexuais.

– Mesmo com a pena de morte por enforcamento, os homossexuais não deixavam de sair do armário. No século 18, começaram a surgir vário bordéis masculinos na Inglaterra, as “molly houses” (“molly” era a palavra em inglês para “efeminado”).

Imagem do livro Les Bijoux Indiscrets, de Diderot.
Imagem do livro Les Bijoux Indiscrets, de Diderot.

– As prostitutas eram chamadas de cortesãs e seus quartos eram cheios de pentes, caixas de pó e frascos de perfume. Havia dois tipos de cortesãs. Algumas atendiam em casa e tinham uma agente, a alcoviteira, que buscava clientes nas ruas. Havia ainda as que trabalhavam em bordéis, tabelados pelo estado.

– A paquera às moças solteiras tinha data para acontecer. Nas noites de 30 de abril, árvores parecidas com pinheiros, chamadas maio, eram plantadas diante das casas das moças. Plantas espinhosas eram dedicadas às garotas orgulhosas e o sabugueiro, que exala mau odor, era uma forma de debochar das pobrezinhas.

– Os casamentos por amor, e não apenas por interesse, passaram a se tornar mais comuns, assim como o hábito de trocar cartas entre apaixonados. Muitas cartas tinham códigos secretos – o rei Henrique IV, que governou a Inglaterra de 1399 a 1413, usava, por exemplo, o $ em seus textos quando queria esconder algo.

– Na escola, todos já ouviram falar de Rousseau e Voltaire. Esses intelectuais do Iluminismo também escreviam pornografia. Na era moderna, tornaram-se comuns livros de contos eróticos. Voltaire escreveu o livro Candide, que tem alguns textos eróticos, enquanto Diderot fala de sexo em Les Bijoux Indiscrets.

– As leis mais humilhavam que puniam. O adultério, por exemplo, era punido na França com um desfile dos maridos traídos e das mulheres traidoras. Os homens eram obrigados a montar um asno e passear pela cidade usando chifres, enquanto as mulheres adúlteras tinham que montar em um asno, cobertas de penas.

– Em 1495, os soldados franceses em Nápoles dão sinais de tumores genitais. É o início da sífilis na Europa, uma das piores doenças sexuais modernas. Só em 1527,  é empregada pela primeira vez a expressão doença venérea, por Jacques Bethercourt.

– Por volta de 1550, o médico italiano Gabriel Fallopius descreveu os órgãos reprodutivos femininos, e um deles ganhou seu nome: as trompas de Falópio, hoje chamadas de tubas uterinas. A invenção da camisinha moderna também é creditada a Fallopius e ocorreu nessa década.

– Em 1554, o médico alemão Johannes Lange descreve uma doença bizarra: a clorose, que atacava quem não fizesse sexo. Entre os sintomas, letargia e palidez. O tratamento para curar a doença, obviamente, era a prática sexual.

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Se você gostou desta lista, sugerimos a leitura do livro Uma breve história do Sexo, de Claudio Blanc, mostra ao leitor como a sociedade encarou o sexo desde os tempos mais longínquos da Pré-História, acompanhando as diferentes alterações passadas pelas concepções no decorrer da linha do tempo.

FONTES – http://www.historiadigital.org/curiosidades/20-fatos-sobre-a-historia-do-sexo-parte-i/ – http://www.historiadigital.org/curiosidades/20-fatos-sobre-a-historia-do-sexo-parte-ii/

A BUSCA PELOS CAÇAS SPITFIRES ENTERRADOS NA ÁSIA

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A PESQUISA PARA ENCONTRAR 140 CAÇAS INGLESES SPITFIRES ENTERRADOS EM MYANMAR E O QUE ISSO TEM HAVER COM A ARQUEOLOGIA DE ARTEFATOS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL EM NATAL

Em dezembro de 1941, a invasão japonesa da Birmânia iniciou aquela que seria a mais longa campanha terrestre da Grã-Bretanha em toda a Segunda Guerra Mundial.

Após o ataque japonês as ilhas Havaí, em 7 de dezembro de 1941, os japoneses avançavam inexoravelmente em praticamente toda a Ásia. Em pouco tempo derrotaram os britânicos em Cingapura e os norte-americanos nas Filipinas. Não demorou muito para os nipônicos se voltassem para a Birmânia, então uma província da Índia Britânica. A capital birmanesa era Rangoon, que caiu nas mãos dos japoneses em março de 1942. Britânicos, indianos e seus aliados chineses retrocederam para a Índia.

Ingleses se rendem aos japoneses na Ásia
Ingleses se rendem aos japoneses na Ásia

O verdadeiro problema para os Aliados nesta frente de combate foi o meio ambiente. A Birmânia, um país situado no sudeste da Ásia, é uma região onde existem selvas, montanhas, planícies, rios, lagos e mangues, tudo isso sempre em meio a muita umidade e constantes doenças, onde a malária predominava.

O único vislumbre de esperança veio das chamadas forças “Chindits”, grupos de penetração de longo alcance, que travaram uma exitosa guerra de guerrilhas contra os japoneses na selva birmanesa.

Forças britânicas na Birmânia observam a ação do inimigo.
Forças britânicas na Birmânia observam a ação do inimigo.

Ao longo de 1943 o horizonte parecia sombrio para os britânicos, que não tinha os recursos e a organização para recapturar a Birmânia. Mas em breve eles vão constituir o XIV Exército Britânico, a mais cosmopolita força de combate do Comando do Sudeste Asiático, composto de ingleses, indianos e africanos ocidentais.

Em meio a muitas batalhas, derrotas e vitórias, as forças da Comunidade Britânica conseguiram colocar os japoneses em retirada; dos seus 85.000 soldados, 30.000 foram mortos.

Finalmente, em 6 de maio de 1945, uma operação anfíbia ambiciosa permitiu ao XIV Exército entrar em Rangoon. Embora este tenha sido efetivamente o fim da campanha, as forças japoneses restantes na Birmânia só vão se render em 28 de agosto de 1945.

C-47 Dakota, o "burro de carga aliado", em uma base na Birmânia. A maioria destes aviões que serviram no oriente passaram por Natal, vindos dos Estados Unidos.
C-47 Dakota, o “burro de carga aliado”, em uma base na Birmânia. A maioria destes aviões que serviram no oriente passaram por Natal, vindos dos Estados Unidos.

Um dos fatores fundamentais da derrota dos japoneses na Birmânia foi contínua utilização do reabastecimento aéreo junto às tropas Aliadas. Este apoio foi fornecido principalmente por aviões bimotores de carga norte-americanos C-47 Dakota, versão militar do mítico Douglas DC-3. A maioria das aeronaves que participaram do esforço para derrotar os japoneses na Birmânia, bem como as cargas por eles transportadas e suas tripulações, passaram por Natal e Parnamirim Field.

Em um campo de pouso vemos no primeiro plano o nariz de um Spitfire e ao fundo um caça japonês abatido e queimando.
Em um campo de pouso vemos no primeiro plano o nariz de um Supermarine Spitfire e ao fundo um caça japonês abatido e queimando.

Na área de atuação do XIV Exército foram utilizados caças, como o monomotor Supermarine Spitfire, o mais famoso avião de combate britânico. Esta é a mesma aeronave que os ingleses utilizaram para derrotar ondas de bombardeiros alemães durante a fase inicial da Segunda Guerra Mundial, na famosa Batalha da Inglaterra. Cerca de 20.000 Spitfires foram construídos.

A Pesquisa em Busca dos Aviões Perdidos

David J. Cundall, um fazendeiro e entusiasta da aviação de Lincolnshire, Inglaterra, foi informado que em 1996 raros caças Spitfires Mk XIV tinha sido declarados excedentes no final da guerra e foram enterrados em caixas na Birmânia.

David J. Cundall (esq.), o homem que sonhou desenterrar 140 aviões da Segunda Guerra Mundial
David J. Cundall (esq.), o homem que sonhou desenterrar 140 aviões da Segunda Guerra Mundial

Cundall pesquisou e reuniu o testemunho de oito militares sobreviventes. Pouco antes da retirada da maioria das tropas britânicas ali estacionadas, estas aeronaves foram desmontadas, lubrificadas, acondicionadas em grandes caixas de madeira recobertas com teca e secretamente enterrados em solo birmanes. O trabalho teria sido realizado por ordens de Lorde Louis Mountbatten, comandante em chefe britânico na região, com a ajuda de engenheiros norte-americanos.

Um grande aliado de Cundall foi Stanley Coombe, um veterano de guerra de 91 anos de idade e um dos oito ex-militares britânicos que diz ter testemunhado o “sepultamento” das aeronaves. Coombe estava estacionado em Rangoon enquanto servia no Regimento Real de Berkshire. Conta que ao ver os enormes caixotes de madeira, ele perguntou a um capitão da RAF (Royal Air Force) o que havia ali e ele disse: “Você não vai acreditar, mas eles são Spitfires” e informou que logo seriam enterrados. Ao espantado Coombe o oficial afirmou que “Era mais barato enterrá-los do que levá-los para casa e assim evitariam que eles caiassem em mãos erradas”. Os relatos apontavam que os aviões foram depositados a uma profundidade de até 10 metros e que o número de Spitfires poderia chegar a 140 unidades enterradas.

Seria desta maneira que se encaixotavam aviões Spitfire.
Seria desta maneira que se encaixotavam aviões Spitfire.

Cundall informou que conseguiu pretensas evidências no Arquivo Nacional Britânico, que apoiavam a alegação que os caças haviam sido enterrados ao invés de repatriados.

Em entrevista a jornalistas, o fazendeiro admirador de antigos aviões disse que a prática de enterrar aviões, tanques e jipes era comum após a guerra “Basicamente, ninguém tinha conseguido ordens para levar esses aviões de volta a Grã-Bretanha. Eles eram apenas excesso e uma forma de dar um destino a estas máquinas era enterrá-los”. Comentou ainda de maneira bem simplista que “Temos que entender que a guerra havia acabado, todo mundo queria ir para casa, ninguém queria nada, então era só enterrar e voltar para casa. Foi isso.”

Encontrar Um Caça Magistral Enterrado em um País complicado

Independente disso, com o passar dos anos o legado histórico do Spitfire só fez crescer.

Associado à divulgação no cinema, na literatura e outras formas de artes, este antigo avião de combate da Segunda Guerra Mundial se tronou um objeto de adoração popular.

Vocês sabiam que existe um Spitfire em um museu no Brasil? Ele está muiton bem preservado e se encontra no Museu da TAM, em São Carlos, no interior do estado de São Paulo.
Vocês sabiam que existe um  autêntico Supermarine Spitfire em um museu no Brasil? Ele está muito bem preservado e se encontra no Museu da TAM, em São Carlos, no interior do estado de São Paulo.

A maioria destas verdadeiras relíquias aéreas se encontram estáticos em museus, mas alguns, em meio a um grande esforço de abnegados, continuam voando. Principalmente na Europa e nos Estados Unidos estas velhas máquinas são as grandes atrações em festivais aéreos e alguns exemplares destes chamados “Warbirds” chegam a valer milhares de dólares. Atualmente ainda existem mais de 50 Spitfires voando.

Um Supermarine Spitfire nos dias atuais.
Um Supermarine Spitfire nos dias atuais.

Os britânicos permaneceram na Birmânia até 1948, quando foi concedida a independência no dia 4 de janeiro daquele ano. Com o passar dos anos a Birmânia se transformou no atual Myanmar. Mas não foram apenas estas mudanças que David Cundall encontrou naquele país. Desde 1962 a situação política era no mínimo caótica.

Em Myanmar foi criado um dos regimes mais sangrentos, fechados, militarizados e opressores, cuja política ditatorial assombrou o mundo. Isso tudo em meio a uma violenta guerrilha oposicionista, uma tentativa de democratização em fins da década de 80 e o reinício do governo militar autoritário na década seguinte. Para completar o caldo de problemas a população de Mianmar é divida entre muitas etnias, várias religiões (apesar da predominância do budismo), muitos idiomas e continua a ser um dos países mais pobres da Ásia.

Aung San Suu Kyi é a principal ativista pela redemocratização de Myanmar. Já foi agraciada com o Prêmio Nobel e até Bono, da banda U2 compôs a música “Walk On” em sua homenagem.
Aung San Suu Kyi é a principal ativista pela redemocratização de Myanmar. Já foi agraciada com o Prêmio Nobel e até Bono, da banda U2, compôs a música “Walk On” em sua homenagem.

Somente nos últimos anos começou um novo processo de abertura e distensão política no país e isso possibilitou que David Cundall seguisse adiante na sua empreitada.

Euforia

Durante a primeira fase do projeto, os pesquisadores esperavam recuperar 60 aviões enterrados em vários locais de Myanmar: 36 aviões na antiga base da RAF de Mingaladon, atual aeroporto internacional de Yangon (nome como Rangoon é conhecida atualmente), seis em Meikthila no centro de Mianmar, e 18 em Myitkyina, no estado de Kachin. Outros seriam recuperados em uma segunda fase.

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O acordo com o complicado regime de Myanmar contou inclusive com a participação e cooperação do atual primeiro-ministro britânico David Cameron, que em abril de 2012 conseguiu a autorização para que a equipe de pesquisadores britânicos visitasse o país asiático para aprofundar os trabalhos e o definitivo sinal verde para o início das escavações veio em outubro de 2012.

Sobre o acordo ficou definido que o governo de Myanmar teria um avião para exibição em um museu, bem como metade do total restante. A empresa privada dirigida por Cundall (DJC) receberia 30 por cento do total recuperado e a empresa Shwe Taung Por Group (STP), parceiro local de Cundall, receberia 20 por cento.

Logo surgiu o apoio financeiro de Victor Kislyi, de 36 anos, um rico empreendedor da Bielorrússia, dono da empresa de jogos virtuais Wargaming.net.

Ceticismo

Apesar da grande euforia entre os entusiastas de história militar em todo o mundo, alguns observadores na Grã-Bretanha e em Myanmar estavam prá lá de céticos com toda esta situação.

Escavações ao lado da pista do aeroporto.
Escavações ao lado da pista do aeroporto.

O jornalista U Sein Win, de Yangon, questionou: “É difícil acreditar que estes Spitfires foram enterrados aqui. Nós queremos saber como os britânicos e americanos enterraram sem ninguém saber, em uma época em que não havia tantas máquinas de escavação pesada nestas localidades e para que enterrar caças novos?”.

Em janeiro último uma carta foi publicada no conceituado jornal londrino The Times, onde Lionel Timmins, um veterano mecânico de voo na época da guerra, baseado na Base da RAF de Mingalardon, lançou mais dúvidas sobre a história: “Eu não vi nada de enterros de Spitfires, nem ouvi qualquer rumor e saberia se algo assim houvesse acontecido”.

Outro veterano, Stanley Ross, de 87 anos, subtenente do Royal Army Ordnance Corps (RAOC), responsável pelo parque de veículos ao lado do campo de pouso durante a rendição japonesa, que também estava estacionado em Mingaladon, comentou que ali havia principalmente aviões C-47 Dakota e quando a guerra terminou também chegaram Spitfires. Para ele “A base era muito básica, nós vivíamos em tendas ao lado do aeródromo e do outro lado tinha o parque de veículos”. E afirmou que: “Eu nunca tinha visto ou ouvido nada sobre Spitfires enterrados, até ler sobre o trabalho deste cara (Cundall)”.

Cundall (de óculos) observa a evolução dos trabalhos.
Cundall (de óculos) observa a evolução dos trabalhos.

Para entornar mais o caldo um porta-voz do Ministério da Defesa britânico em Londres, simplesmente informou a jornalistas do The Times que não havia registros no ministério do envio de Spitfires para a Birmânia, nem ordens de enterramentos destes aviões em 1945.

Mas Cundall não parou e de Myanmar chegaram às primeiras notícias.

Decepção

Em janeiro de 2013 diferentes locais começaram a ser escavados por equipes distintas de 21 entusiastas da aviação e três arqueólogos independentes: Martin Brown, de 47 anos, Rod Scott, de 49 anos e Andy Brockman, de 51 e líder dos arqueólogos. Além destes faziam parte do grupo geofísicos da Universidade de Leeds e o Dr. Adam Booth, um geofísico do Imperial College, de Londres.

Preparação do terreno.
Preparação do terreno.

Logo foi noticiado que uma grande caixa de madeira foi encontrada em Myitkyina. Foi informado aos jornalistas que a equipe de pesquisa inseriu uma câmera na caixa e encontrou muita água barrenta. O que mais havia dentro não foi possível ser visto e se afirmou que para bombear a água para fora seria um trabalho de semanas.

Cundall comentou que o público esperava que as aeronaves estivessem em perfeitas condições, mas diante da realidade climática e geológica da região, era possível ser encontrada uma massa de metal corroído e peças de aviões enferrujados.

O próprio arqueólogo Andy Brockman afirmou que provavelmente o local era apenas um antigo bunker japonês abandonado.

Um monge budista para abençoar as escavações,,,
Um monge budista para abençoar as escavações,,,

Na antiga base da RAF em Mingaladon, agora Yangon International Airport, após as primeiras escavações, os arqueólogos esbarraram em feixes de cabos elétricos e tubulações de água e o trabalho parou. Ventilou-se a possibilidade deste material está acima das caixas enterradas.

Stanley Coombe, o veterano de guerra de 91 anos de idade e aliado de David Cundall, foi ao local de escavações e afirmou que viu as grandes caixas sendo enterrado a poucos metros de onde hoje é a pista principal do aeroporto. Foi passado o sonar de análise do terreno e detectado altas concentrações de metal, o que animou a todos. Até mesmo um monge budista veio abençoar a escavação para trazer bons fluidos.

Se esta situação fosse no Brasil, certamente o gringo teria chamado um Pai de Santo!

,,Mas o resultado foram apenas placas perfuradas, utilizadas para pistas de pouso temporárias na época da guerra.
,,Mas o resultado foram apenas placas perfuradas, utilizadas para pistas de pouso temporárias na época da guerra.

A equipe cavou um enorme buraco, mas apesar de toda expectativa e do apoio religioso, tudo o que foi encontrado foram apenas partes de placas de aço perfuradas, material utilizado para construir uma pista temporária de pouso durante a guerra.

No meio desta situação a imprensa sensacionalista britânica fez a festa. Logo começou uma intensa troca de informações nada positivas entre o sonhador David Cundall, arqueólogos e o representante da empresa Bielorrussa envolvida no projeto.

Então no final de janeiro de 2013, em meio a um intenso calor tropical e tensão crescente, a coisa toda começou a degringolar.

Outro ângulo das escavações.
Outro ângulo das escavações.

Foi publicada uma declaração de Cundall que afirmou; “Há provas contundentes, muitas testemunhas oculares, mas os arqueólogos não confiam em testemunhas oculares”.

Cundall acrescentou que a falta de registros documentais poderia ser explicado pelo possível extravio de papeis em algum lugar entre a antiga Birmânia e Londres, e pelo fato da RAF estar querendo enterrar os Spitfires em silêncio, em vez de deixar provas escritas do que tinham feito.

No meio de toda esta situação confusa logo veio a pá de cal. As autoridades locais revogaram a autorização de escavação, pois temiam que cavar tão perto de pista poderia enfraquecê-la e causar algum colapso.

Dentro de um avião decolando, é possível ver a extensão das escavações ao lado da pista do aeroporto, que se encerraram em fevereiro de 2013.
Dentro de um avião decolando, é possível ver a extensão das escavações ao lado da pista do aeroporto, que se encerraram em fevereiro de 2013.

Em 15 de fevereiro de 2013 a Wargaming.net anunciou que estava retirando o seu apoio ao projeto, afirmando categoricamente que “Não havia aviões enterrados”.

“Loucura de Homem Branco”

Evidências levantadas por outros pesquisadores, baseados em documentos, apontam que em 1945 as terríveis condições climáticas e a escassez de equipamentos de trabalho de escavação pesada em Mingaladon, mostram que teria sido impossível para a RAF enterrar aeronaves em caixas de madeira a 10 metros de profundidade.

Equipe de trabalho.
Equipe de trabalho.

Além disso, a ideia que 140 Spitfires Mk XIV pudessem ser considerados “supérfluos” pela RAF e enterrados como peças inúteis, é no mínimo contraditória. Em 1950 vários destes aviões, incluindo modelos Mk XIV, estavam sendo vendidos a Força Aérea da Índia, a Força Aérea Francesa para a sua luta na Indochina, para a Força Aérea Holandesa combater nas Índias Orientais e para outras forças aéreas na região. Não podemos esquecer que a própria RAF ainda utilizou estes aviões por um bom tempo em Cingapura, na Malásia e Hong Kong. A Força Aérea Birmanesa chegou a ter vários Spitfires, alguns deles comprados de segunda mão de Israel.

Cundaal (ao centro) em uma coletiva de imprensa  para explicar o que aconteceu.
Cundaal (ao centro) em uma coletiva de imprensa para explicar o que aconteceu.

No final isso nunca foi uma busca por Spitfires, foi sempre a busca de um sonho.

Um sonho que provavelmente (e infelizmente) nunca vai se tornar realidade. Seria uma “Loucura de homem branco” conforme palavras de um dos escavadores nativos.

Quem Sabe um Dia Ocorra em Natal

Apesar deste caso ter ocorrido lá em Myanmar, não duvido que um dia venha acontecer algo parecido aqui em Natal.

É certo que durante a Segunda Guerra Mundial, próximo a capital potiguar e a Base de Parnamirim, vários aviões americanos caíram, principalmente no mar. Muitos restos destas aeronaves foram resgatados por mergulhadores, que encontravam as carcaças principalmente através da informação de pescadores.

B-25 danificada na Pista de Parnamirim Field
B-25 danificada na Pista de Parnamirim Field

Estes homens do mar encontravam estas velhas máquinas no dia a dia de suas pescarias. Era uma rede que se enroscava, uma fateixa que prendia no fundo, uma linha de espera que enganchava. Aí o pescador descia para soltar seu material de trabalho e esbarrava em algo metálico.

Muitos destes materiais estão com empresários da cidade que colecionam artefatos da época da guerra.

Aqui em Natal também não é difícil serem descobertas velho artefatos sem cargas explosivas, lançadas por aeronaves em seus treinamentos. Muitas desapareceram nas areias macias das dunas que cercam Natal e a Base de Parnamirim e são desenterradas com a expansão urbana.

Dizem que antes dos americanos entregarem Parnamirim para os brasileiros, jogaram nas águas da lagoa da base uma boa quantidade de materiais. Fala-se também que muito material aéreo e terrestre foi enterrado pelos americanos na área da base e que no fundo das águas da lagoa do Bonfim tem um hidroavião PB5Y Catalina intacto, que afundou parado, pelo erro de um tripulante que abriu uma escotilha que não devia.

Bom, que esta história na antiga Birmânia sirva de lição.

Em foto recente, o trabalho de resgate de uma B-17 E  em Papua-Nova Guiné
Em foto recente, o trabalho de resgate de uma B-17 E em Papua-Nova Guiné

Um trabalho arqueológico, que sempre chama atenção da mídia, começa com uma extensa, às vezes complicada, chata e difícil pesquisa histórica. Continua com várias horas de análise de muita documentação com cheiro de mofo, conhecimento da tradição oral e tudo isso cobra muito esforço de qualquer pesquisador sério.

E mesmo assim esta trabalheira toda arrisca a dar em nada.

Fontes – http://www.huffingtonpost.com/2013/01/09/myanmar-spitfire-recovery-water-filled-crate_n_2439276.html#slide=1881565

– http://sg.news.yahoo.com/crate-lifts-hopes-myanmar-spitfire-hunters-071317494.html

– http://www.mmtimes.com/index.php/national-news/3771-doubts-over-spitfire-find.html

– http://www.warhistoryonline.com/tag/spitfires

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