ENCONTRANDO O SOLDADO TOM: DESVENDANDO O MISTÉRIO DE UM PRISIONEIRO DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Olga Ivshina – BBC News Rússia

Fonte – https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Em mais de 80 anos ninguém soube o que aconteceu com um prisioneiro de guerra soviético que escapou dos nazistas nas ilhas do Canal e passou o resto da Segunda Guerra Mundial escondido dos alemães na casa de uma família local.

Conhecido apenas pelo seu primeiro nome, Bokejon, ou simplesmente Tom, ele foi um dos cerca de 2.000 prisioneiros soviéticos e trabalhadores forçados trazidos para a ilha de Jersey para construir fortificações nazistas.

Um oficial da Luftwaffe (Força Aérea Nazista) conversa com um policial britânico em St. Helier, capital da ilha de Jersey, durante a ocupação alemã das ilhas do Canal. As ilhas foram a única parte das Grã-Bretanha a ser invadida pelos alemães em 1941 – Fonte – https://worldwartwo.filminspector.com/2014/09/channel-islands.html

Essa ilha se localiza no Canal da Mancha, mais próximo da costa francesa do que da inglesa, faz parte do arquipélago conhecido como ilhas do Canal e foram ocupadas por tropas nazistas entre 1940 e 1945. Durante esse período esses prisioneiros vieram para a ilha de muitos países diferentes que então estavam ocupados pelos alemães e foram utilizados como mão de obra escrava para construírem diversas fortificações.

Após a libertação, Tom e os outros prisioneiros de guerra sobreviventes foram enviados de volta à URSS, a sigla da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, atual Federação Russa. Embora Tom tenha prometido manter contato, depois de seu retorno nunca mais se teve notícias dele.

Mapa das Ilhas do Canal, bem próximas a costa francesa – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/German_occupation_of_the_Channel_Islands

Isso até que equipes da BBC localizarem seus descendentes bem longe das ilhas, no extremo leste do Uzbequistão, um país localizado na Ásia Central.

Foi em 1943 que Tom escapou de um dos campos de trabalhos forçados nazistas em Jersey. Exausto, faminto e desesperado, ele bateu à porta dos fazendeiros locais John e Phyllis Le Breton. Eles sabiam do risco, mas o acolheram e salvaram a sua vida.

As condições nos campos eram duras.

Prisioneiros levados para trabalhos forçados na ilha de Jersey – Fonte – https://guernseydonkey.com/alderneys-war/

Estávamos trabalhando em uma pedreira, das seis da manhã às seis da noite, e nossa alimentação consistia em sopa ao meio-dia, uma porção muito pequena de pão e um pouco de manteiga na hora do chá. Não tomávamos café da manhã“, escreveu Tom mais tarde em seu diário.

Por qualquer coisa, éramos brutalmente espancados. Se não conseguíssemos trabalhar, éramos privados de comida e espancados novamente; eles nunca acreditavam que estávamos doentes.”

Como parte do Muro do Atlântico, uma barreira de fortificações construidas para tentar deter as tropas Aliadas, as forças de ocupação alemãs construíram fortificações ao redor da costa das ilhas do Canal, como esta torre de observação na Bateria Moltke – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/German_occupation_of_the_Channel_Islands

Durante mais de dois anos, ele ficou escondido no lar dos Le Bretons.

O perigo era real. Outra moradora de Jersey, Louisa Gould, foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück e assassinada em uma câmara de gás por abrigar um fugitivo soviético chamado Fyodor Burriy. Seus vizinhos à denunciaram às autoridades alemãs.

John e Phyllis Le Breton confiavam tanto em seu soldado fugitivo que permitiram que ele lesse para seus filhos e brincasse com eles, inclusive com sua filha Dulcie.

O casal Le Breton na época da Segunda Guerra – Fonte – https://www.gazeta.uz/en/2026/05/01/award/

Nosso querido tio Tom, nós o amávamos muito. Ele é minha principal lembrança da guerra e sua foto ainda está ao lado da minha cama“, disse Dulcie, que completa 90 anos em junho próximo. “Mas continuo intrigada com o que aconteceu com ele depois da guerra.”

Após a libertação das Ilhas do Canal em maio de 1945, Tom, assim como outros prisioneiros de guerra soviéticos sobreviventes, foi enviado de volta à URSS. Três cartas chegaram a Jersey enquanto ele era levado de volta para casa, atravessando a Europa, mas depois disso, silêncio.

Um soldado da ocupação alemã na costa da Ilha de Jersey, no verão de 1940 – Fonte https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Os ex-prisioneiros que retornavam à União Soviética eram normalmente submetidos a triagem e interrogatórios nos chamados campos de filtragem da NKVD, sigla do temido Comissariado do Povo para Assuntos Internos, a polícia secreta da União Soviética. As autoridades frequentemente interpretavam a sua captura como um sinal de possível deslealdade, covardia, ou colaboração com o inimigo.

Alguns eventualmente tiveram permissão para retornar à vida normal. Mas muitos foram tachados de não confiáveis, enfrentaram muitas barreiras para conseguir emprego, progredir em suas carreiras e viveram sob uma constante nuvem de suspeita.

Multidões vibram com a libertação das ilhas do Canal em 1945 – Fonte –https://en.wikipedia.org/wiki/Channel_Islands

Alguns foram condenados e enviados para campos de trabalho forçado dentro da URSS. Mesmo após a morte do ditador soviético Josef Stalin em 1953, o estigma associado aos ex-prisioneiros de guerra não desapareceu da noite para o dia.

Tom assinava suas cartas aos Le Bretons como “Bokijon Akram“, mas nem eles nem os historiadores de Jersey sabiam o seu nome completo ou exatamente de onde ele vinha.

Em seguida, uma equipe da BBC Rússia juntou-se às buscas.

Embora tenhamos trabalhado durante anos com arquivos soviéticos e de tempos de guerra, este caso apresentou um desafio particular.

Soldados soviéticos em uma pausa, enquanto um colega armado com uma metralhadora Degtyaryov DP-27 está vigilante ante um ataque alemão. Foto obtida na frente da Bielorússia em 1944 – Fonte – https://origins.osu.edu/read/living-ghosts-second-world-war-and-russian-invasion-ukraine

Tom havia assinado seu nome em inglês e não estava claro como isso teria sido traduzido para o russo, idioma usado em documentos oficiais em toda a URSS na época.

Consultamos dezenas de registros e centenas de variações ortográficas, restringindo gradualmente a busca com base em detalhes que ele havia anotado em seu diário. Lembrar que o Uzbequistão era parte integrante do território da URSS e só conseguiu a sua indepêndenncia total em 31 de agosto de 1991, quase dois anos após a Queda do Muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989.

A partir desses registros, parece que Bokejon tinha cerca de 30 anos quando foi mobilizado em 1941, lutou e foi capturado no território da atual Ucrânia e pode ter tido origens na Ásia Central.

A busca foi então restringida a uma correspondência provável: Bokejon Akramov, nascido em 1910 e mobilizado em Namangã, ou Namagan, cidade do atual Uzbequistão com mais de 600.000 habitantes.

Encontramos um registro que mostrava que ele havia sido condecorado com a Ordem da Guerra Patriótica décadas depois. Crucialmente, esse registro incluía um endereço residencial.

Nesse momento, uma equipe da BBC Uzbeque se juntou às buscas e viajou até Namangã para verificar o endereço, na esperança de que alguém lá se lembrasse de Bokejon ou o reconhecesse pelas fotografias preservadas pela família Le Breton.

Atualmente na casa de Dulcie Le Breton as fotos de seus pais estão junto a foto de Bokejon Akramov, o “Soldado Tom”. – Fonte – https://www.instagram.com/p/DYCdbzdl1Dq/?img_index=5

Como é que vocês têm as fotos do meu avô? Onde as conseguiram?“, perguntou um homem que abriu a porta da BBC.

Seu nome era Shamsiddin Ahunbayev e ele era neto de Bokejon Akramov.

Ao ouvir a história por trás das fotografias de guerra, Ahunbayev se emocionou até às lágrimas.

De acordo com a família, Bokejon raramente falava sobre suas experiências na Segunda Guerra Mundial.

A família de Bokejon Akramov – Fonte – https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Mas uma coisa sempre os intrigava. Apesar de ser claramente inteligente e capaz, ele tinha repetidamente recusado trabalhos especializados ou que exigiam atenção aos detalhes. Durante muitos anos, ele trabalhou como jardineiro em uma fábrica em Namangã.

Agora parece possível que seu cativeiro durante a guerra tenha lançado uma sombra também sobre sua vida profissional.

Bokejon Akramov morreu em 1996, após o que sua família descreveu como uma vida longa e feliz. Sua filha também faleceu posteriormente.

Chamada de vídeo de Dulcie Le Breton e a família de Bokejon Akramov no Uzbequistão – Fonte – https://www.bailiwickexpress.com/news/jersey-family-honoured-by-uzbekistan-for-occupation-bravery/

A BBC ajudou a organizar uma chamada de vídeo entre a família dele no Uzbequistão e Dulcie Le Breton, que ainda mora em Jersey.

Querida Dulcie, agradecemos à sua família pela coragem e bondade“, disse Shamsiddin Ahunbayev. “Nosso avô sobreviveu à guerra e nos deu a vida apenas por sua causa. Estamos muito felizes por tê-la encontrado. Convidamos você para o Uzbequistão e sempre a esperaremos em nossa casa.”

Meus pais fizeram o que fizeram simplesmente porque era a coisa certa a fazer“, respondeu Dulcie Le Breton. “E eles estavam longe de ser as únicas pessoas em Jersey que ajudaram soldados soviéticos. Havia dezenas de histórias como essa, e eu gostaria muito que as pessoas as conhecessem e se lembrassem de todas elas.”

Dulcie (de vermelho) e Alan Le Breton recebendo em nome de John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade da República do Uzbequistão. A cerimônia ocorreu na Ilha de Jersey em 6 de maio de 2026 – Fonte – https://www.instagram.com/p/DYCdbzdl1Dq/?img_index=5

Após tomarem conhecimento da história, as autoridades do Uzbequistão decidiram conceder postumamente a John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade – uma das mais altas condecorações do Estado – por sua “coragem e compaixão“.

O PREÇO DA GUERRA

A ucraniana Ada é operadora de UAV das Forças Armadas da Ucrânia. Após passar por cima de uma mina antitanque inimiga em setembro de 2024, a mulher perdeu a perna esquerda, enquanto várias operações complexas a aguardam para salvar o calcanhar quebrado da perna direita. Foto: Konstantyn & Vlada Liberov / Superhumans Center -Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/?photo=58399

Enquanto as negociações sobre um cessar-fogo na Ucrânia estão a todo vapor, o bombardeio massivo de Kiev pela Rússia mais uma vez lançou dúvidas sobre a real disposição de Vladimir Putin em negociar. No entanto, é um padrão familiar: pouco antes de um cessar-fogo acordado, os combates se intensificam novamente para melhorar a posição do oponente e enfraquecer a infraestrutura militar do lado oposto. Esse comportamento cínico também pôde ser observado antes do cessar-fogo na guerra de Gaza no início do ano. Uma coisa é certa: guerras são difíceis de terminar, especialmente quando elas duram muito tempo e nenhuma das partes aceita a derrota. Entretanto, se a continuação da guerra não promete mais vantagens para nenhum dos lados, mas sim prejuízo para ambos, uma janela para negociações inevitavelmente se abre.

Uma voluntária das Bruxas de Bucha, o grupo móvel feminino de defesa aérea, durante um treinamento de combate. As Bruxas de Bucha operam perto de Bucha, na região de Kiev, para abater drones russos que atacam a capital. 3 de agosto de 2024. Foto: Efrem Lukatsky/AP – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/2/?photo=56307

Uma situação dessas existe agora mesmo. Não é só Kiev que deve ter um interesse vital em acabar com a guerra — por mais dolorosas que sejam as conquistas territoriais da Rússia — devido aos seus próprios problemas de recrutamento e à iminente cessação da ajuda militar americana. Também é improvável que a Rússia tenha qualquer interesse em uma guerra perpétua: as perdas persistentemente altas de pessoal e material, sem perspectiva de mudança de regime em Kiev, estão minando a estabilidade do regime de Putin a longo prazo. O Kremlin poderia usar um cessar-fogo para se preparar para outro grande ataque contra Kiev e possivelmente também contra estados europeus da OTAN. Mas há muito a ser dito contra essa suposição. É preciso ter em mente qualObjetivos de guerra russos na Ucrânia e além, e quais recursos de poder Moscou tem à disposição para implementar esses objetivos.

Treinamento da organização feminina “Ukrainian Walkyrie”: participantes aprendem noções básicas sobre armas e kits de primeiros socorros. Março de 2024, Kiev. Por Roman Pilipey para a AFP Photo – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/6/?photo=52455

O objetivo estratégico de longo prazo da Rússia desde a década de 1990 tem sido ser reconhecida novamente como uma grande potência preeminente em uma ordem mundial multipolar – isto é, em um sistema sem hegemonia ocidental.

Na sua opinião, a voz da Rússia foi repetidamente ignorada em questões-chave – por exemplo, na guerra do Kosovo ou na expansão da OTAN e da UE. Constitutiva dessa reivindicação ao status de grande potência é a reivindicação a esferas exclusivas de influência e a reivindicação de “resolver” problemas globais em conjunto com outras grandes potências. A guerra contra a Ucrânia está no centro da luta da Rússia pelo status de grande potência. Oficialmente, o Kremlin fala de uma “desnazificação” e “desmilitarização” da Ucrânia. Isso significa uma mudança de regime em Kyiv – em favor de uma elite governamental pró-Rússia. De uma perspectiva cultural, geoestratégica e geoeconômica, Moscou considera a Ucrânia uma parte indispensável de sua própria esfera de influência – portanto, ela tem um status diferente do que, por exemplo, os Estados Bálticos ou a Polônia.

Etapa final do curso de treinamento de cinco dias da Resistência Nacional para civis ucranianos. 11 de agosto de 2023, região de Kiev. Por Yevhenii Zavhorodnii – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/20/?photo=46850

Forçar toda a Ucrânia a entrar na esfera de influência russa – pela força militar ou, possivelmente, por eleições fraudadas – parece cada vez mais irrealista. A Ucrânia se tornou um baluarte anti-Rússia. Mesmo com meios brutais de repressão, como tortura, sequestros e assassinatos arbitrários, a Rússia tem considerável dificuldade em manter o controle sobre os territórios ocupados em Donbass. Uma subjugação completa do país provavelmente só seria possível com uma mobilização geral e o estabelecimento de um regime repressivo de violência, o que, no entanto, ocuparia enormes recursos e não traria nenhuma vantagem para Moscou. O resultado seria um êxodo em massa, imensa resistência e, devido à resistência ucraniana, uma população economicamente improdutiva.

Militares da 128ª Brigada Separada de Assalto em Montanha de Zakarpattia em treinamento. Instrutores ensinam os membros da brigada recriando diversos cenários de combate semelhantes às situações da linha de frente. 15 de julho de 2023. Por Ercin Erturk / Agência Anadolu / Getty Images – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/22/?photo=46440

Uma tática de desgaste através da continuação da guerra de agressão também não pode ser do interesse de Moscou a longo prazo. Embora o exército ucraniano seja inferior ao russo em muitas áreas, ele se tornou uma força testada em batalha e, graças à sua própria produção de drones, também tecnicamente qualificada, que mantém relações de segurança estreitas com os países da UE e da OTAN. Ao mesmo tempo, a insatisfação com as consequências negativas da guerra está crescendo na Rússia. O plano original de simplesmente usurpar o estado ucraniano se transformou em uma custosa guerra de posição e atrito que durou três anos. Apenas dois meses após a invasão total no final de fevereiro de 2022, um impasse estava surgindo. Naquela época, a Rússia ocupava cerca de 15% do território ucraniano – hoje, três anos depois, é cerca de 18% .

Alina (indicativo de chamada “Nika”) é comandante de artilharia das Forças Armadas da Ucrânia. Sua unidade militar defende os flancos das forças ucranianas no eixo Bakhmut.
Por Kostiantyn Liberov e Vlada Liberova
– Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/27/?photo=44549

Embora a Rússia não tenha esgotado seu potencial militar, Putin está ciente de que a ofensiva em larga escala contra a Ucrânia não é popular. Isso é ressaltado, principalmente, pelos muitos desertores que se seguiram à mobilização parcial em setembro de 2022. Até hoje, o Kremlin fala de uma “operação militar especial” e tenta manter a realidade da guerra longe do público russo o máximo possível. Nesse sentido, grupos marginalizados da sociedade eram recrutado preferencialmente – como prisioneiros ou homens de baixa renda de regiões remotas que eram recrutados com altos salários. Para evitar uma mobilização geral, o exército russo chegou a recorrer a milícias e mercenários de países como Iêmen, Cuba, Nepal, Cazaquistão, Quirguistão e Uzbequistão, além de cerca de 50.000 soldados norte-coreanos. No entanto, a guerra não pode ser apagada da realidade social da Rússia. A guerra causou pesadas perdas – cerca de 800.000 baixas militares, incluindo cerca de 170.000 mortes. Além disso, cerca de metade dos tanques de batalha (aproximadamente 10.000 ) e veículos blindados ( aproximadamente 19.000 ), bem como cerca de 21.000 sistemas de artilharia e 300 aeronaves e helicópteros, foram destruídos.

Um casal de médicos de combate ucranianos com os codinomes “Pion” e “Frits”. Eles se conhecem há sete meses e estão casados ​​há quatro. Região de Donetsk. Por Kostiantyn Liberov e Vlada Liberova – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/32/?photo=43216

Embora a Rússia use predominantemente armas da era soviética e possua sistemas mais modernos, a substituição dos equipamentos destruídos provavelmente levará muitos anos.

O dano econômico também é considerável. Moscou conseguiu mitigar parcialmente o impacto das sanções ocidentais – por meio da substituição de importações, do comércio por meio de terceiros países e da venda de petróleo e gás para a China, Índia e Turquia. No entanto, as exportações de combustíveis fósseis caíram para cerca de metade dos níveis pré-guerra. Apesar de uma frota paralela considerável e do aumento temporário dos preços do petróleo, as receitas de exportação de petróleo caíram cerca de 120 bilhões de euros. Após o colapso drástico das exportações de gás natural para a Europa, Pequim pagou apenas cerca de metade do que os países da UE pagavam anteriormente por metro cúbico. Como resultado, a Gazprom registrou prejuízo pela primeira vez em sua história em 2023. Resultado: a Rússia está se tornando cada vez mais dependente da China, o que não pode de forma alguma ser do interesse de Putin. O fato de a economia russa ter crescido dois anos após o início da invasão em grande escala se deve principalmente ao alto nível de investimento no complexo militar-industrial – um fenômeno conhecido como “keynesianismo militar”. Isso funciona como um pacote de estímulo econômico, do qual setores não militares da economia e da sociedade em geral também se beneficiam direta ou indiretamente.

A zagueira ucraniana Ruslana Danilkina, de 19 anos, perdeu a perna na linha de frente. 27 de fevereiro de 2023. Por Konstantyn e Vlada Liberov – Fonte – https://war.ukraine.ua/photos/page/35/?photo=42239

Para financiar as despesas, o governo russo tomou emprestado e usou 67% das reservas líquidas do Fundo Nacional de Riqueza. No final de 2024, restavam apenas 33,6 mil milhões de euros; O fundo poderá estar completamente esgotado até ao final de 2026. O aumento do orçamento de defesa estimulou a economia – atingiu os 100 mil milhões de euros em 2024;  Em 2025, subirá para 130 bilhões , o que corresponde a cerca de 300 bilhões de euros ajustados ao poder de compra. Ao mesmo tempo, a desvalorização do rublo russo tornou as importações mais caras, incluindo os chamados bens de dupla utilização da China, necessários para a indústria de armas russa. A atual recuperação econômica é, portanto, insustentável, pois o setor de petróleo e gás continua sendo a espinha dorsal do sistema econômico russo baseado em aluguel. De acordo com o Instituto de Estudos Econômicos Internacionais de Viena, o crescimento econômico, que foi de 3,6% em 2023 e 3,8% em 2024 , cairá pela metade em 2025 e diminuirá ainda mais em 2026. A inflação estava em dez por cento em 2024, razão pela qual o Banco Central Russo aumentou a taxa básica de juros para 21% , o que por sua vez está prejudicando as empresas russas. Cerca de um milhão de russos, em sua maioria jovens, educados e ricos, já deixaram seu país desde 2022. Para uma das sociedades mais antigas do mundo, esse é um grande problema que não pode ser compensado pela imigração.

Militares ucranianas com cestas de Páscoa perto de Zaporizhzhya. 24 de abril. Por Andriy Dubchak – Fonte https://war.ukraine.ua/photos/page/56/?photo=17786

A Rússia está se rearmando, expandindo e modernizando seu exército, mas está sofrendo mais do que admite. A continuação da guerra traz o risco de que o regime de Putin — que se baseia no contrato social de troca de liberdade por prosperidade e segurança — se torne mais instável e só possa ser mantido com repressão cada vez maior. Saudações do Irã.

*Lukas Theinert é doutorando na Universidade Martin Luther em Halle-Wittenberg. Ele está escrevendo seu doutorado sobre a política externa revisionista comparativa da Rússia e da Turquia.