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NATAL, 1935: QUATRO DIAS SOVIÉTICOS

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A bandeira de Natal com a estrela, a foice e o martelo | Crédito: Montagem Fabio Marton

A capital do Rio Grande do Norte viveu sob um breve regime comunista

Autor – Marcus Lopes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/natal-1935-dois-dias-sovieticos.phtml#.WEyVPYWcHIV

Durante quatro dias, o Brasil viveu a experiência de um governo comunista. Foi em 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte. Após um levante militar ocorrido no Batalhão do Exército, a capital potiguar caiu nas mãos dos rebeldes, que destituíram os governantes locais dos seus cargos – incluindo o governador do estado e a Assembleia – e assumiram o poder com apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luís Carlos Prestes. Sob o lema “pão, terra e liberdade”, os revolucionários almejavam dar o pontapé inicial para a instalação de um regime soviético no Brasil.

O levante começou na manhã de 23 de novembro, um sábado. O dia em Natal, que contava com cerca de 40 mil habitantes, começou calmo e prometia poucas novidades. A principal notícia era uma formatura no Teatro Carlos Gomes, à noite, que contaria com a presença do governador Rafael Fernandes.

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Cais da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

No quartel militar do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) o dia também corria tranquilo até que chegou a informação de que o general Manuel Rabello, comandante da 7ª Região Militar, no Recife, havia autorizado o licenciamento de alguns cabos, soldados e tenentes que estavam com tempo vencido na carreira militar e a expulsão de outros, acusados de envolvimento em incidentes de rua ocorridos dias antes em Natal, incluindo assaltos a bondes.

O documento com a ordem de expulsão precipitou um movimento que estava sendo articulado havia vários dias entre lideranças militares e sindicatos locais junto com membros do PCB estadual. O objetivo era apoiar a revolução nacional que estava sendo preparada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), no Rio.

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O 21º Batalhão de Caçadores

“Havia uma preparação para o levante sob a direção do Partido Comunista, que atuava no 21º Batalhão de Caçadores e em vários sindicatos locais. Eles apenas aguardavam as orientações do comitê central”, afirma Homero de Oliveira Costa, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e estudioso da insurreição de Natal. Somando-se a isso, Costa lembra que a cidade já vivia momentos de tensão política desde o ano anterior. “O Rio Grande do Norte teve uma das mais tumultuadas eleições do país, com diversos conflitos de ruas, assassinatos, prisões e repressão. Isso criou uma situação muito tensa no Estado, e em Natal em particular”, diz.

Erro de comunicação

Os acontecimentos daquele sábado se precipitaram de tal maneira que não houve tempo nem de avisar a ANL, cujos líderes (incluindo Prestes) aguardavam o melhor momento para eclodir a revolução em nível nacional. Em função das expulsões ordenadas pelo comando militar no Recife, o PCB estadual e os integrantes do Batalhão decidiu dar início ao motim naquele mesmo dia.

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Luís Carlos Prestes – Bundesarchiv; BArch

Por volta das 19h30, um grupo de militares rebeldes, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros, rendeu os oficiais de plantão do quartel e, com fuzis apontados para a cabeça dos soldados, ordenaram: “Os senhores estão presos em nome do capitão Luís Carlos Prestes”. Não houve resistência e, a partir daí, os revolucionários, liderados por Quintino e apoiados por grupos civis organizados (como o sindicato dos estivadores, que era muito forte na cidade), tomaram o quartel e ocuparam locais estratégicos: o palácio do governo, a Vila Cincinato – residência oficial do governador -, a central elétrica, a estação ferroviária e as centrais telefônica e telegráfica.

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Resultado do ataque comunista ao Quartel da Salgadeira, no Centro de Natal.

Informado sobre a confusão e a organização dos amotinados ainda na cerimônia dos contabilistas, o governador e demais autoridades civis e militares fugiram e se esconderam na casa de aliados. No quartel da Força Pública, cuja sede ficava próxima ao batalhão rebelado, ensaiou-se uma resistência legalista com policiais fiéis ao governo, vencida pelos militares rebeldes, no momento mais organizados e bem armados.

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Quintino Clementino de Barros, militar e músico do 21º Batalhão de Caçadores, presidente do Comitê Popular Revolucionário, quando já preso pelas forças do governo.

Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada. Na residência do governador, sede dos rebelados, formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.

Em seguida, o Comitê Revolucionário começou a tomar medidas práticas. A primeira foi um decreto com a destituição do governador do cargo e a dissolução da Assembleia Legislativa “por não consultar mais os interesses do povo”. As tarifas de bondes foram extintas e o transporte coletivo tornou-se gratuito.

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De cigarro vemos Mário Lago, ex-diretor da Casa de Detenção de Natal e Mário Paiva, comissários do Comité Revolucionário, quando detidos.

Na segunda-feira, o comércio e os bancos não abriram. À tarde, foi ordenado o saque dos cofres da agência do Banco do Brasil e Recebedoria de Rendas. O dinheiro foi confiscado em nome do governo revolucionário e parte dele distribuído à população, que adorou a novidade, mesmo sem ter muita noção do que estava acontecendo.

Pura farra

“A população confraternizava com os rebeldes. Era mais uma festa popular ou um carnaval exaltado, do que uma revolução”, explica o historiador Hélio Silva em seu livro 1935 – A Revolta Vermelha. “Casas comerciais foram despojadas de víveres, roupas e utensílios domésticos que aquela gente não podia comprar. Houve populares que, pela primeira vez, comeram presunto”, de acordo com o historiador.

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Da esquerda para direita vemos o ex-sargento Diniz, do 21º Batalhão de Caçadores, José Macedo, ex-tesoureiro dos Correios e Telégrafos e João Baptista Galvão, considerados “figuras salientes” do governo comunista instalado em Natal em novembro de 1935.

Um dos líderes do movimento, João Galvão, relatou posteriormente o que aconteceu naqueles dias: “O povo de Natal topou a revolução de pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte coletivo seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar”.

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Líderes comunistas do levante natalense presos pelas forças legalistas.

Para se comunicar com a população, um avião foi confiscado no aeroporto e sobrevoou a cidade despejando milhares de folhetos. No curto período em que se mantiveram no poder, os revolucionários também distribuíram o primeiro e único número do jornal A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado. Nele, foi publicado o expediente do novo governo e um manifesto, inspirado no programa do PCB e sob o lema “todo poder à ANL”.

Cada um por si

Segundo o professor Homero Costa, o pouco tempo em que permaneceram no poder impediu que os revolucionários tomassem outras medidas práticas. “Houve boatos de que na Vila Cincinato estavam distribuindo alimentos à população, o que levou muita gente a se deslocar para lá, mas não era verdade”, diz Costa.

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Foto que mostra os efeitos do arrombamento do cofre da agência do Banco do Brasil em Natal.

Mesmo assim, algumas medidas típicas de regimes de exceção foram tomadas naquele começo de semana, como salvo-condutos para circulação nas ruas e ordens para que o comércio e os bancos funcionassem normalmente, o que, claro, não aconteceu. “Os comerciantes foram orientados a negociar como de costume, sem estocarem alimentos para elevar os preços. Caso isso ocorresse, os estoques seriam confiscados pelo governo”, diz Elias Feitosa, professor de história do Brasil do Cursinho da Poli, lembrando que alguns gêneros alimentícios, como o pão, também tiveram o preço reduzido.

O levante não ficou restrito a Natal. Houve uma interiorização do movimento no Rio Grande do Norte. “Foram formadas três ‘colunas guerrilheiras’ que ocuparam 17 dos 41 municípios do estado, destituindo prefeitos e nomeando outros”, diz Homero Costa.

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“Foi bala muita” – Fachada do Quartel da Salgadeira, atingido por disparos efetuados pelos comunistas.

Pequenas localidades, como São José de Mipibu, Ceará Mirim e Baixa Verde (atual município de João Câmara) foram ocupados sem resistência e os prefeitos substituídos por simpatizantes da ANL. Agências bancárias e do governo (as coletorias de renda) foram saqueadas e o dinheiro enviado para a capital. Na terça-feira, a intentona potiguar começou a revelar sua fragilidade com a movimentação de tropas do Exército da Paraíba e de Pernambuco rumo a Natal para debelar o movimento e restabelecer a ordem.

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Sargentos legalistas do Exército Brasileiro, que ficaram prisioneiros dos comunistas no quartel do 21º Batalhão de Caçadores.

Em uma localidade chamada Serra do Doutor, um dos grupos da ANL foi preso por tropas leais a Getúlio Vargas. Informados de que tropas federais entrariam em Natal e com a possibilidade de bombardeamento aéreo, os líderes do “governo revolucionário” fugiram na base do cada um por si. Um deles, Praxedes, viveu foragido durante anos. Os demais foram capturados e enviados para o Rio de Janeiro com outros presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos.

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De chapéu de palha vemos Dinarte Mariz, tendo ao seu lado Enoch Garcia, considerados os idealizadores da resistência ao avanço comunista no Seridó Potiguar, que se efetivou com o combate na Serra do Doutor. Certamente que politicamente Dinarte foi um dos que mais usufruiu politicamente da sua suposta ação de resistência contra as forças comunistas, chegando a se tornar governador e senador pelo Rio Grande do Norte.

O mesmo aconteceu nas cidades do interior. Com a fuga, os militares enviados pelo governo federal não tiveram dificuldades de controlar a situação. O governador Rafael Fernandes foi reconduzido ao cargo e, a partir de quarta-feira, dia 27 de novembro, a vida voltou ao normal na cidade que, durante cerca de 90 horas, abrigou, como escreveu Hélio Silva, “o primeiro, único e fugaz governo soviete na história do Brasil.”

Intentona comunista

No mesmo dia em que o “governo comunista” era encerrado no Rio Grande do Norte, o movimento tenentista deflagrava, no Rio de Janeiro, uma insurreição para derrubar o presidente Getúlio Vargas e instaurar um regime comunista no Brasil. Liderado por Luís Carlos Prestes, o levante ficou conhecido como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha. Os amotinados se rebelaram em vários regimentos e batalhões do Rio, mas foram rapidamente sufocados pelas forças de segurança nacional.

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A insurreição estava sendo preparada desde o ano anterior. No final de 1934, Prestes, que estava na União Soviética havia três anos, retornou ao Brasil para organizar a revolução comunista. Acompanhado de sua mulher, Olga Benário, militante do partido comunista alemão, eles desembarcaram clandestinamente com os nomes falsos de Antônio Villar e Maria Villar. Além do casal, vieram outros estrangeiros para ajudar na revolução. Entre eles, o argentino Rodrigo Ghioldi e sua mulher, Carmen; o casal alemão Elisa Sabarowski e Arthur Ewert; os belgas Lion Valle e sua mulher, Alphonsine; o alemão Franz Gruber e o norte-americano Victor Allen Baron.

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Intentona Comunista de Natal de 23 de novembro de 1935 foi notícia em todo mundo, como neste material publicado em um jornal dos Estados Unidos.

Todos, incluindo Prestes, eram militantes da Internacional Comunista, que via no Brasil um terreno fértil para a revolução. “O PCB era uma seção da Internacional Comunista e estava inserido no que a entidade chamava de ‘países coloniais e semicoloniais’, para os quais havia estratégias revolucionárias distintas. No caso, ao contrário dos países capitalistas ‘avançados’, a estratégia era a via insurrecional”, explica o cientista político Homero Costa, da UFRN, sobre a participação do Komintern no movimento de 1935, que registrou ações em Natal, Recife e no Rio. Após a rebelião em Natal, ocorreu um efeito dominó em outras praças que também estavam sendo preparadas e treinadas para a revolução.

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“O que ocorreu em Natal pegou todos de surpresa, inclusive o comitê central. Os levantes no Recife, no dia seguinte ao de Natal, e no Rio de Janeiro, foram em consequência dessa precipitação”, diz Costa, lembrando que a insurreição nacional estava planejada apenas para o início de 1936.

“O levante de Natal fez parte do contexto da Intentona Comunista. A ideia era que a revolução fosse em escala nacional. Porém, nem todas as guarnições envolvidas se engajaram ao mesmo tempo”, diz o historiador Elias Feitosa. A ação da Internacional serviu como justificativa para que Getúlio Vargas instaurasse o Estado Novo, em 1937.

A POTÊNCIA DO NÃO: NISE DA SILVEIRA E MARY WOLLSTONECRAFT

Em 1944, após oito anos de perseguição política e afastamento, a médica Nise da Silveira tinha acabado de ser readmitida no serviço público quando se negou a realizar a prática da lobotomia. O não de Nise a um tratamento que seria considerado intolerável na psiquiatria seria um verdadeiro marco. Mesmo assim, Nise da Silveira só alcançou um reconhecimento maior depois que o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung legitimou o seu trabalho.

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“Fala-se na fonte da sabedoria e na fonte da loucura. Mas elas não são duas. Não há fontes separadas, está tudo muito próximo.”
– NISE DA SILVEIRA

Autora – Daniela Lima

“A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque”, o psiquiatra apertou o botão e um jovem paciente entrou em convulsão. A expressão de terror foi se aprofundando no rosto dele, até que seu olhar ficasse parado. Vítreo. Vazio de tudo. Antes que ele pudesse se recuperar, foi levado para a enfermaria. Logo trouxeram outro paciente para outra aplicação de choque. O psiquiatra se virou para a senhora a quem pretendia ensinar e disse: “aperte o botão!”. Ao que ela respondeu: “não aperto!”. Era 1944 e Nise da Silveira tinha acabado de ser readmitida no serviço público após oito anos de perseguição e afastamento.

Durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de Cardiazol. (SILVEIRA apud MELLO, 2014, p. 89)

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Carl Gustav Jung (1875 – 1961) – Foto Douglas Glass/Paul Popper/Popperfoto/Getty Images – Fonte – http://pablo.deassis.net.br/tag/carl-jung/

O não irredutível de Nise mostrou os primeiros contornos daquilo que seria considerado intolerável no tratamento psiquiátrico por todos aqueles que vieram depois dela – de Foucault a Basaglia. Mesmo assim, Nise só alcançou um reconhecimento maior depois que Jung legitimou o seu trabalho. O que fala muito de uma sociedade que ainda reduz a reverberação, ou até mesmo silencia, as vozes femininas que não são amplificadas por vozes masculinas.

A doutora vermelha

Nise chegou ao Rio de Janeiro em 1927, movida pela vontade de estudar neurologia. Ela e o marido, Mário Magalhães da Silveira, alugaram um quarto em Santa Teresa e foram surpreendidos pela vista da Baia da Guanabara e pela vizinhança que deixava ao alcance dos olhos a vida de escritores e militantes políticos. Certo dia, Nise percebeu um jovem batendo insistentemente na porta de Manuel Bandeira. Da janela, disse: “ele acabou de pegar o bonde”. Nise sabia que Bandeira estava em casa, mas a pequena mentira rendeu uma amizade com o poeta que, no dia seguinte, entregou a ela um livro com uma dedicatória em agradecimento. Esses encontros inesperados pareciam guardar um potencial explosivo para produção do novo.

Com o pouco dinheiro que me restava (…) aluguei um pequeno quarto no Curvelo, em Santa Teresa, quarto modesto, mas de onde eu gozava de uma paisagem maravilhosa. Rua muito pobre. Porém, tive a sorte de ter vizinhos extraordinários. De um lado, a família do líder comunista, muito culto, Octávio Brandão (…). Para enriquecer ainda mais essa rua, morava ali o poeta Manuel Bandeira. (Silveira apud Mello, 2014, p. 61)

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A jovem Nise da Silveira – Fonte – http://semana.mct.gov.br/index.php/content/view/3546/Nise_da_Silveira_.html

Esse encontro inesperado entre a medicina, a poesia e a política abriram janelas para que Nise se tornasse quem era: ela não se atinha a livros, tratados e convenções, estava sempre questionando o saber estabelecido. Começou a estudar Marx e frequentar reuniões do Partido Comunista Brasileiro, também fez parte da ala médica da União Feminina Brasileira (UFB), que defendia os interesses de mulheres que viviam em situação precária.

Eu era interessada nas coisas políticas do país, mas sempre tive muita dificuldade em me acomodar em organizações. Eu não me acomodava dentro do Partido Comunista. Eu queria fazer concurso para medicina e os companheiros de partido não se conformavam que eu me dedicasse tanto tempo a esse concurso. Eu estudava dia e noite e, naturalmente, faltava muito às reuniões. Acabaram me expulsando acusada de trotskista. (Idem, p. 67)

Em outubro de 1932, Nise foi morar no Hospital da Praia Vermelha como médica residente. Ficava num pequeno quarto com mesa, cama e uma pia. Ela trabalhava no Instituto de Neurologia, mas estava sempre caminhando entre os pacientes internados no hospício que funcionava num prédio próximo.

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Jornal Correio da Manhã, 7 de março de 1934, p. 7 – Médica recém formada, Nise da Silveira não fugia dos embates públicos. Na foto uma resposta pública de Nise da Silveira ao Dr. Henrique Britto de Belford Roxo (1877 — 1969), médico psiquiatra, sobre a repercussão da morte de uma interna.

Nos livros lia-se que os esquizofrênicos não possuíam afetividade. Comecei a desconfiar dos livros. Morando no hospício, compreendi que não havia nada disso. Eles possuíam afetividade. O problema era como vir à tona. (…) A própria palavra hospício já criava um clima apavorante. Eu andava muito por ali e observava as mulheres internadas. E gostava muito delas. Comecei a me interessar por aquele mundo. (…) Não tive dúvidas iria me especializar em psiquiatria. (…) Desde cedo não concordava com os livros. Via a realidade dos doentes mentais e achava que os médicos da psiquiatria convencional, oficial, não estavam certos. Eram rígidos e partiam de princípios errados. (Idem, p. 70)

Encontrei uma moça que andava de um lado para o outro, como um azougue. Ela não conseguia construir uma frase. Tentei me comunicar (…). Ela não respondeu. Logo em seguida, veio a funcionária da lavanderia, que começou a preencher um rol de roupas e escreveu a palavra peignoir de maneira errada. Qual não foi a minha surpresa ao ver a moça parar, deter-se sobre aquela folha de papel e corrigir a palavra. Nesse momento, compreendi que tinha tentado me comunicar com ela de maneira muito limitada, muito clara, óbvia para mim, mas sem procurar entendê-la. Talvez ela andasse de um lado para outro exatamente para esquecer aquele mundo exterior, que eu vim lembrar a ela, achando que seria o único caminho para nos entendermos. (…) Você não pode querer compreender alguém estabelecendo apenas uma maneira de se aproximar dele. O importante não é a linguagem, é saber se comunicar com o outro. Se não, é como falar português com um árabe. (Idem, p. 71)

Menos de um ano depois de chegar ao Hospital da Praia Vermelha, Nise foi aprovada no concurso para médica psiquiatra da Divisão Nacional de Saúde Mental.

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Fonte – http://www.cultura.rj.gov.br/artigos/dez-anos-sem-a-dama-do-inconsciente

Em fevereiro de 1936, início da Ditadura Vargas, a União Feminina Brasileira (UFB) foi fechada. Nise foi presa pela primeira vez por trabalhar como médica voluntária da UFB. Essa prisão durou apenas algumas horas. No entanto, um mês depois, Nise foi presa novamente e levada para o DOPS, sendo transferida para o Presídio Frei Caneca, onde permaneceu até junho de 1937. O mais curioso da prisão de Nise é que ela foi acusada de “pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia” (MELLO, 2014, p. 75).

Uma enfermeira do hospital [da Praia Vermelha] denunciou Nise ao diretor, acusando-a de ter em seu quarto “literatura comunista” em meio a livros de psiquiatria. (…) Enquanto Nise ficou presa, ela permaneceu na famosa Sala Quatro, o cárcere das presas políticas. (MELLO, 2014, p. 13)

Depois que me transferiram para a famosa Sala Quatro onde estavam, entre outras, Olga Prestes, grávida, e Elisa Berger (…). Elisa era fantástica! O marido, Harry Berger, também estava preso e sofreu até enlouquecer. Eles torturavam Berger de uma maneira terrível. (…) Ouvir aquilo tudo me atingiu muito. (…) a prisão foi uma experiência decisiva para a minha vida. (SILEVEIRA apud MELLO, 2014, p. 76)

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Um fato pouco conhecido foi que durante a prisão de Nise da Silveira, intercedeu ao seu favor João Café Filho, então deputado federal pelo Rio Grande do Norte e futuro Presidente da República.

Na prisão, Nise conheceu também o escritor Graciliano Ramos, que descreveu o encontro dos dois no livro Memórias do Cárcere: “noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos” (RAMOS apud MELLO, 2014, p. 77).

Mais de um ano depois, já em liberdade, Nise soube que Luiza, uma paciente com quem conversava muito e que costumava fazer café para as duas, derrubou a enfermeira delatora com um soco. Luiza era considerada “completamente embotada afetivamente e desligada da realidade” e, no entanto, agia com um extraordinário – e violento – senso de justiça. Esse episódio voltou à cabeça de Nise nos oito anos de afastamento do serviço público: o louco extrapolava o livro e os diagnósticos que pareciam querer aprisioná-lo tanto quanto o tratamento. A experiência do cárcere trouxe não só um possível paralelo entre a prisão e o hospício como também mostrou a Nise que a criatividade e o afeto têm potencial de cura. Era nas leituras e nas longas conversas com os companheiros de prisão que ela se sentia livre.

Um encontro possível: Nise e Wollstonecraft

Nise da Silveira nasceu em 1905, em Maceió. Com apenas 16 anos, foi aprovada no exame para a Faculdade de Medicina da Bahia. Era a única mulher numa turma de 157 homens.

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Faculdade de Medicina depois de 1905 – Fonte – http://www.medicina/ufba/br

Houve um episódio que mostra bem o preconceito (…) em relação ao fato de Nise, uma mulher, estar “ousando” estudar medicina… Numa das primeiras aulas, o professor de parasitologia, Pirajá da Silva, falou que ia ser criado um serpentário na faculdade. Em seguida, entrou na sala seu assistente com uma serpente dentro de um vidro. O professor pinçou-a e pediu que Nise segurasse o animal diante da turma. Ela imediatamente estendeu os braços e segurou o animal. Ela comentava comigo que neste instante percebeu nos olhos do professor a representação do mal, mas que se manteve firme. (MELLO, 2014, p. 52)

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Nise da Silveira é a única mulher na foto – Fonte – https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/02/a-potencia-do-nao-nise-da-silveira-e-mary-wollstonecraft/

Mais de um século após a publicação de Reivindicação dos Direitos da Mulher, Nise via erguerem-se em tono de si muros semelhantes aos que separavam Mary Wollstonecraft de conquistar a cidadania plena. A conquista dos direitos pelas mulheres nunca é permanente. É necessário um estado de constante vigilância diante dos possíveis retrocessos. Nise não foi enviada à guilhotina, como aconteceu com Olympe de Gouges, mas teve que estremecer o muro tão sólido quanto invisível da falsa razão.

Empregam a razão para justificar preconceitos, assimilados quase sem saber como, em vez de desarraigá-los. Prevalece uma espécie de covardia intelectual que faz com que muitos homens recuem diante da tarefa ou simplesmente façam pela metade. No entanto, as conclusões imperfeitas a que chegam são, com muita frequência, muito plausíveis, porque se constroem a partir de uma experiência parcial e de pontos de vista justificados, ainda que estreitos. (WOLLSTONECRAFT, 2016, p. 32)

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Mary Wollstonecraft (1759 – 1797) – Fonte – http://www.thehistoryvault.co.uk/iconic-texts-dr-jenny-mcauley-on-vindication-of-the-rights-of-woman-by-mary-wollstonecraft/

A luta de Nise contra “a incompreensão dos psiquiatras e a violência dos tratamentos” (MELLO, 2014, p. 20) parece ter se apoiado nas palavras de Wollstonecraft. Um dos maiores símbolos dessa luta – e das terríveis perdas que Nise enfrentou pelo caminho – foi a lobotomia de um de seus pacientes.

Lúcio frequentava o Serviço de Terapêutica Ocupacional, fundada por Nise em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional. Esculpia guerreiros que, segundo ele, o protegeriam na sua “luta cósmica contra as forças do mal” e chegou a participar de uma exposição do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

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Fonte – https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/02/a-potencia-do-nao-nise-da-silveira-e-mary-wollstonecraft/

Ele foi lobotomizado na mesma época da exposição, apesar de todas as investidas de Nise contra a tal cirurgia. “Vão decapitar um artista”, ela dizia. Nise publicou na revista Medicina, Cirurgia Farmácia de janeiro de 1955 a produção plástica de Lúcio antes e depois da operação. Seus trabalhos se tornaram irreconhecíveis, regredindo à mais primária condição. Esse exemplo de destruição da criatividade e da inteligência de um ser humano foi denunciado por Nise de diversas maneiras: em livros, palestras e no Primeiro Congresso Mundial de Psiquiatria, em Paris. (MELLO, 2014, p.20)

A lobotomia, hoje considerada um dos episódios mais bárbaros da história da psiquiatria, rendeu um Nobel a Egas Moniz. Fato que poderia ser confrontado com as seguintes palavras de Wollstonecraft: “até a verdade se perde em um emaranhado de palavras, a virtude se perde nas formas e o conhecimento se transforma em um sonoro nada por causa dos preconceitos enganadores que assumem seu nome”.

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Nise da Silveira mudou a maneira como os pacientes psiquátricos eram tratados. (Foto: Reprodução/TV Gazeta) – Fonte – http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/03/confira-lista-de-grandes-mulheres-que-marcaram-historia-do-rio-veja-10.html

A atualidade do pensamento de Nise e Mary nos lembra de que, mesmo os direitos já conquistados, não são permanentes. Seja para a Luta Antimanicomial, recentemente ameaçada pela nomeação de Valencius Wurch para a Coordenação Nacional de Saúde Mental; seja para o feminismo, que sofre duros ataques do atual Congresso.

Para evitar essas sucessivas “decapitações” e “reconstruções de velhos muros”, é necessário transformar o “não” das mulheres que vieram antes de nós em força coletiva. Nas palavras de Wollstonecraft: “trabalhar reformando a si mesma para reformar o mundo”.

FONTE – https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/02/a-potencia-do-nao-nise-da-silveira-e-mary-wollstonecraft/


Bibliografia:

MELLO, Luiz Carlos. Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Automática, 2014.
SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2015.
WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos Direitos da Mulher. São Paulo: Boitempo, 2015.

O CONTRASTE DO CANGAÇO NO CAMINHO DO SERTÃO

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Por Regina Santana (nhyna19@gmail.com) Victória Damasceno (damascenovictoria@gmail.com)

FONTE – http://jpress.jornalismojunior.com.br/2015/08/contraste-cangaco-caminho-sertao/

O clima frio da capital paulista nos afasta da quente e seca realidade dos sertões nordestinos. Pensar em sertão traz à mente o cenário mostrado por Graciliano Ramos em “Vidas Secas”, cujas duras condições levam à animalização do homem. Se a arte imita a vida, esta certamente ilustrou bem o Nordeste de outros tempos – nem tão longínquos assim – em que  a fome e a seca assolavam a população e, no chão rachado da Caatinga, justiça era feita à ferro, fogo e sangue. É nesse contexto que se viu surgir, da canga presa ao pescoço dos bois que transportavam seus pertences e armas, os cangaceiros correndo às matas em suas vestes de couro. São a prova viva da resistência, da representação da cultura sertaneja, e que ao mesmo tempo foram figuras ambíguas, ora heróis, ora vilões.

“Hoje em dia até que tá melhor, mas na minha época [a vida no sertão] era muito difícil. A gente trabalhou de meeiro, sabe? Plantar na terra do outro pra ter o que comer não é bom, não”. Assim conta, de forma simples, Francisco de Assis Santana, de 56 anos, cuja vida poderia estar descrita nas páginas de Graciliano, nas obras de Guimarães Rosa ou nas canções de Luiz Gonzaga.

Fonte - http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Canga%C3%A7o+&ltr=c&id_perso=308
Fonte – http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Canga%C3%A7o+&ltr=c&id_perso=308

Nascido e criado em São Miguel, no interior do Rio Grande do Norte, Francisco só conheceu São Paulo aos 18 anos, quando saiu com os irmãos da cidade onde morava em busca de melhores condições de vida. Sua infância não foi muito diferente da de milhões de nordestinos, que, desde muito cedo, já conheciam as dificuldades da vida sertaneja. Quando perguntado a respeito dos estudos, Francisco, muito sério, responde: “Não tive muito não. Até a quarta ou quinta série, eu acho. Ou a gente trabalhava ou estudava.”

Ele lembra de sua infância na Caatinga com certo amargor. Não eram apenas as dívidas com os donos de terra que incomodavam. Alimentação, moradia, vestimenta, tudo era conseguido por intermédio de coronéis, que possuíam grande parte do comércio da região. Francisco há muito não trabalha no campo, mas sabe que por lá, onde nasceu, esse estilo de vida era exatamente como no tempo de seu pai e avô. “Quem manda não somos nós”, ele diz, o que prevalece é “a lei do mais rico”.

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As condições precárias de vida, o duro trabalho no campo e a incerteza do futuro não marcaram apenas a vida de Francisco, mas de gerações inteiras. A forte presença do coronelismo na República Velha (1889-1930) modificou as relações de trabalho e as estruturas sociais brasileiras, que se estenderam por muitos anos até a chegada da indústria no País. Enquanto nas grandes metrópoles a vida política e econômica crescia a todo vapor, nas áreas rurais parecia engessada no modelo semifeudal de vínculo com a terra, propiciando, assim como nas cidades, a exploração das classes mais pobres. No interior do Nordeste, onde o analfabetismo era muito presente, essa condição de exploração se tornava ainda mais evidente.

Perguntado se se lembra de alguma figura marcante na cultura nordestina que tenha lutado por mudanças sociais que quebrassem essa lógica de exploração, Francisco diz: “Assim, desse jeito, não lembro. Mas tinha o Lampião, que a gente ouvia os antigos falarem muito. Ele não era ‘ do bem’ mas ajudava a diminuir um pouco a injustiça”.

Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião - Figura maior do cangaço
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião – Figura maior do cangaço

Mesmo 77 anos após sua morte, o famoso cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, ainda é figura recorrente no imaginário social no que tange ao Cangaço. Foi o grande líder do bando fora-da-lei, que impunha medo aos inimigos e respeito por parte da população.

Oriundos do descaso dos governantes e do monopólio dos coronéis locais, os primeiros cangaceiros eram vaqueiros, lavradores e sertanejos que buscavam ascensão social e, principalmente, vingança. Equipados com cangas de madeira e utensílios de aço corriam as matas cortantes da Caatinga, pilhando comércios e trens, invadindo grandes fazendas e, quase sempre, confrontando seus inimigos. O que hoje é considerado um movimento social, na época, era um modo de vida alternativo para aqueles que não mais aceitavam se subordinar à hierarquia do sertão nordestino. Para o professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Carlos Tadeu Melo Botelho, “O cangaceiro era uma espécie de herói ambíguo. Eles não lutavam contra o governo em geral, lutavam contra autoridades locais, contra a perseguição direita às famílias deles, mas não tinham um projeto de modificação social”, afirma.

Cangaceiros do grupo de Lampião após o ataque deste bando a cidade de Mossoró.
Cangaceiros do grupo de Lampião após o ataque deste bando a cidade de Mossoró.

Entrar para o cangaço era uma forma de sobreviver à perseguição dos mais poderosos. Fazer parte do movimento significava a mudança da identidade social, a ponto de não mais poder voltar a ser um pacato fazendeiro. Nas palavras de Tadeu: “eles eram cangaceiros até a morte”. Não podiam existir em outro lugar que não ali, pois faziam parte daquela sociedade e dela eram fruto.

O espectro dos membros era muito variado, o que não garantia uma unidade de comportamento e propiciava divergência de interesses.  Em comum, tinham a legitimidade da cultura – as vestes típicas, a linguagem e os mitos –  e seus códigos de honra, que definiam a organização interna. Tadeu conta que, por serem frutos daquela sociedade, seus comportamentos e costumes também pertenciam àquele meio. “A conduta moral, o comportamento sexual, a religiosidade, tudo isso aparece representado de uma forma muito próxima ao povo deles. O cangaceiro não cai de paraquedas ali, ele não chega no sertão como muita gente chega na favela. Ali é o lugar dele.”

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Existe uma dualidade no imaginário popular quando o assunto é o cangaço: ora são subversores da ordem social, ora são heroificados. Muitas vezes, o paralelo com o herói que tirava dos ricos para dar aos pobres, Robin Hood, emerge nesta história. Mas nisso Lampião fica para trás. Quem se sobressai neste quesito é aquele que o antecedeu na liderança do cangaço, o bandoleiro Antônio Silvino, conhecido também como governador do sertão. Tadeu recorda-se do estudo sobre o bandoleiro de autoria da professora Linda Lewin, da Universidade da Califórnia, no qual afirma que os atos de Silvino eram muito mais robinhoodianos. “Estudando o cangaço, ela chegou à conclusão de que a semelhança com Robin Hood não era de Lampião, mas de Antônio Silvino. Ele usou a prática redistributiva: grilava trens e dividia o que tinha dentro com a população, como uma forma de agradar, esperando que assim o aceitassem.”

Lampião também dividia sua grilagem com a população local, mas sua prática era mais visceral. Tadeu afirma que o bando de Lampião era marcado pelo conflito e pela crueldade. “Não eram progressistas. Eles destruíam tudo aquilo que pudesse ser fator de perseguição.” Assim, enquanto apresentava uma face solidária, não deixava de expor seu lado sanguinário. “Sua imagem é ambígua. Lampião era o bem e o mal. Num ato de justiça estava embutida a injustiça. Ele é uma prova de que o bem e o mal não existem em estado puro. As coisas que ele fazia eram completamente ambíguas”, completa. Entretanto, o professor ressalta que não se pode ver o Cangaço como uma luta de classes. Ainda que trouxessem benefícios para as comunidades locais, suas ações não tinham qualquer intenção de revolucionar as estruturas socais de poder ou tornar o Nordeste uma região mais justa.

Corisco e seus cachorros
Corisco e seus cachorros

Com Lampião a realidade do cangaço também mudou em sua estética. Além das marcas características, foram incluídos adereços e indumentárias em suas roupas, reforçando ainda mais a hierarquia entre eles. “Quanto mais enfeitado, mais poderoso era o cangaceiro”, afirma Tadeu. Essa mudança na imagem não veio à toa, mas com a inserção das mulheres no bando. “Isso ocorreu na época de Lampião, pois de 1870 até 1928, ou seja, 80% do tempo de cangaço, não haviam esses enfeites. Mas com a entrada das mulheres em 1928, Dadá, Maria Bonita, os cangaceiros passam a se enfeitar e isso passa a ser um reflexo da hierarquia”

Embora sua presença tenha alterado a imagem representativa dos cangaceiros, as mulheres eram inferiorizadas nas relações de poderes. Com exceção de Dadá e Maria Bonita – esposas de grandes líderes – que chegaram a atuar diretamente como cangaceiras, boa parte das mulheres do bando foram raptadas de suas famílias unicamente para servir  aos interesses do grupo.  “O machismo dominava a cultura. Houve alguns assassinatos de mulheres dentro do cangaço, dois muito conhecidos por adultério. E apesar de terem sido violentos, as mulheres que assistiram as outras serem assassinadas concordaram.”

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No meio do bando, entre enfeites, mulheres e liderança, Lampião pensava muito bem em como desenvolveria a organização do grupo para que alcançasse todos os seus objetivos. Para o professor Tadeu, de todas as características de Lampião, a principal era ser um grande estrategista. Os documentos históricos provam sua valentia ao ir de encontro à polícia e travar batalhas sempre com muita precisão na condução da artilharia.

Durante os anos em que existiu, a vida cangaceira foi marcada pelo uso da violência e dos atos ilícitos, bem como pelo constante confronto com as autoridades. A pesquisa histórica revela um cenário repleto de ações criminosas e atrozes, incompreensíveis à primeira vista. Quando olhadas de fora, trazem o julgamento a priori dos cangaceiros como bandidos iguais a todos os outros. É preciso, no entanto, o olhar atento: o banditismo faz parte de uma relação bilateral entre indivíduo e sociedade e aparece como efeito colateral a uma série de desajustes. O cangaço está enraizado no cultura nordestina – seja como movimento social ou como parte do imaginário – e também cumpre a função de construir a identidade daquele povo e, de certa forma, dar unidade à sua história. Daí a ligação intrínseca entre a memória constituída por esses relatos e a atribuição de valores heroicos.

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Para Tadeu Botelho, “Lampião era herói ou bandido?” é uma pergunta meio falsa.“Como dizia Guimarães Rosa: não existem heróis de se pegar. O herói é uma criação do imaginário popular”, completa.Ainda que sua imagem esteja atrelada à violência, a memória do cangaceiro também compõe um quadro muito mais amplo, que diz respeito à afirmação identitária e representatividade. O nordestino não necessariamente apoia a violência quando se identifica com o cangaceiro; ele vê não apenas a história de Lampião retratada nas obras, mas a sua própria herança cultural.

A imagem do cangaceiro mais famoso das terras sertanejas carrega em si o paradoxo que o permite ser quem ele é. Enquanto ajudava sua gente, estava igualmente disposto a fertilizar a terra seca com o sangue de seus inimigos. Se herói ou vilão, não importa. A personagem viva no imaginário popular floresce o sentimento de medo e gratidão, que permite não somente a ele, mas aos reis do cangaço, a imortalidade na cultura popular nordestina.