A MILITÂNCIA E O SOFRIMENTO DO COMUNISTA MAIS FAMOSO DE NATAL

Doutor Vulpiano Cavalcanti de Araújo.

EM UMA ENTREVISTA CONCEDIDA EM 1984 AOS JORNALISTAS MARCO AURÉLIO DE SÁ, OSAIR VASCONCELOS E TICIANO DUARTE, O DR. VULPIANO LEMBROUA SUA LONGA MILITÂNCIA E O FAMOSO CASO EM QUE FOI OBRIGADO A FUGIR DE UMA MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE, QUE ACREDITAVA QUE ELE E OUTROS COMUNISTAS ESTAVAM NA CIDADE PARA ROUBAR OS OSSOS DO PADRE CÍCERO.

Vulpiano Cavalcanti, cearense, 74 anos, médico ginecologista e obstetra, é militante do Partido Comunista Brasileiro desde os anos 20, quando se empolgou com a “Coluna Prestes” e começou a conviver nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro com os precursores do comunismo no Brasil. Nesses longos anos, à exceção de um curto período entre 1945 e 1946, o seu exercício político tem sido praticado sempre na clandestinidade. E por conta de suas ideias foi preso inúmeras vezes e até torturado. Neste depoimento, ele narra toda a sua trajetória política, principalmente no Rio Grande do Norte, para onde veio há mais de 30 anos, inicialmente para Areia Branca, Mossoró e Macau, e depois para Natal. Detalhes inéditos sobre a atuação do PC, revelação de sofrimento e de torturas físicas que enfrentou nos tempos de maior repressão ao comunismo, nomes de pessoas que perderam a vida em nome da causa em que acreditavam, e até nomes de alguns torturadores que agiram no Rio Grande do Norte são relembrados aqui por Vulpiano, um septuagenário que não se julga velho, mas apenas “usado e maltratado”. Confiante no processo de abertura democrática do país, nas eleições diretas para presidente da República e na legalização do PC, ele – que faz parte do Comitê dos Dirigentes Comunistas – espera que dentro em breve o partido possa levar sua mensagem às massas sem que os seus militantes estejam expostos às represálias e à violência.

MARCOS — Como e quando o sr. decidiu-se a ingressar no Partido Comunista?

VULPIANO — Isto é uma questão de gênese. Meu avô. Melo César, por parte de minha mãe, teve um irmão que morreu na revolução pernambucana, esquartejado. Meu avô por parte de pai foi nomeado comendador do Império, mas era um republicano. De maneira que ele esteve cotado para barão, mas morreu republicano. Ele era um sujeito liberal. Houve uma seca no Ceará e ele construiu um açude lá no Boqueirão de Arara, ao qual os pobres tinham livre acesso a água, que era uma coisa difícil. Por isso que eu digo: sempre fui revolucionário por uma questão de gênese, pois sou descendente de revolucionários.

OSAIR — Mas houve influências que o conduziram ao Comunismo? Os livros, os amigos. . .

VULPIANO — A principio, eu era “prestista”. E quem não era naquela época? Isso foi no tempo da “Coluna Prestes”, aí por 1922. Então, quando estudante de Medicina, eu fui da Aliança Nacional Libertadora, onde fiz grandes amigos e conheci grandes figuras. Na primeira vez que fui preso, tive notícia de que Carlos Lacerda que pertencia à “Juventude comunista” da época, chegou a chorar porque havia publicado um artigo numa revista onde ele mencionava praticamente todos os comunistas daquela época….

MARCOS — E quando foi a sua adesão?

VULPIANO — Eu passei a ler livros comunistas. Por exemplo: “O ABC do Comunismo”, de Bukarin Isso me indicou a direção. A convivência também me ajudou. Comecei a estudar Medicina na Bahia, depois me transferi para o Rio. Fiz amizade com Isnard Teixeira, com Simões de Menezes, e outros, e fui aceitando cada vez mais as ideias do Comunismo. Foi por esse tempo também que Carlos Prestes se decidiu pelo Partido. Desta forma, posso dizer que sou um militante da velha guarda.

TICIANO — O Sr. tem quantos anos de militância?

VULPIANO — Desde 1922, praticamente, até hoje. E nesse tempo todo, se o Partido passou dois anos na legalidade, foi muito!

MARCOS — Então, o Sr. formado em Medicina, militante do PC, como veio parar no Rio Grande da Norte?

VULPIANO — Eu me formei em 1929 e era um dos mais novos estudantes de Medicina, pois entrei na faculdade com apenas 17 anos. Concluído o curso, eu segui para Fortaleza, pois sou cearense. Lá procurei entrar para o Partido Comunista quando ele entrou para a legalidade, mais ou menos pelo ano de 1946. A partir daí, passei a ser membro de um partido legalizado. Depois, veio o problema do fechamento. O Presidente Dutra resolveu fazer uma tragédia por causa da prisão de um bêbado lá em Moscou. O nosso embaixador na Rússia, que era um beberrão, envolveu-se num incidente por lá e terminou sendo preso por desordem. “O Jornal”, de Chateaubriand, publicou então a fotografia do embaixador deitado no chão, apanhando dos cossacos. Isto serviu de pretexto para o nosso país cortar relações com Moscou. Mesmo na ilegalidade, continuei ainda no Partido Comunista. Foi nessa clandestinidade que eu terminei vindo para o Rio Grande do Norte, porque me perguntaram onde é que eu gostaria de servir. Como existia um parente meu — Nestor Falcão, tio do ex-ministro Armando Falcão — que me sugeriu que em Areia Branca havia uma oportunidade para mim, eu me instalei lá, onde venci como médico com uma facilidade incrível. Como Mossoró fica próximo a Areia Branca, eu ia muito até lá. E numa dessas vezes fui procurado por um dos médicos do hospital da cidade que me pediu ajuda. Ele me disse: “Colega, você é do Ceará, venha me dar aqui uma explicação. Estou com uma cliente que está perdendo muito sangue e eu não sei se o seu caso é um aborto ou se é uma gravidez”. Depois de ver o caso, eu disse que a mulher tinha de ser operada de urgência. E ele ponderou: “Mas não tem quem faca esta operação aqui!” Aí olhei para ele e respondi: “Eu faço”. “Mas toda cesariana que se faz aqui, morre mãe e filho” — afirmou o colega. Eu então disse que gostaria de tentar. E deu tudo certo. Com isso, correu logo o boato de que tinha chegado um médico em Mossoró que operava cesariana e não morria nem mãe nem filho. . . Assim foi a minha chegada em Mossoró! Porém quem fez mais propaganda minha mesmo foi o bispo Dom João Batista Porto Carrero Costa. . . Ele fez um sermão na igreja de Mossoró em que avisava às mães cristãs da cidade sobre a minha presença. Dizia ele: “Acaba de chegar a essa cidade um médico hábil, inteligente e culto, e por isto mesmo escolhido a dedo por Moscou para pregar o comunismo no Rio Grande do Norte”! Isto me deu um cartaz imenso e a minha clinica disparou. Eu já não dava vencimento à procura. Eu atendia muito em Areia Branca, mas operava em Mossoró, pois em Areia Branca não havia hospital. E interessante era o seguinte: como um automóvel era muito caro, ficava mais barato viajar de avião. Nessa época. Vieira, que era um ótimo piloto lá em Mossoró, era quem me transportava para Açu, Macau e diferentes cidades daquela área, onde eu atendia. Então, correu o boato de que “tinha chegado um médico, Dr. Vulpiano, que era enviado por Deus e que vinha voando atender as doentes”. E é verdade que eu ia mesmo voando, mas de teco-teco.

TICIANQ — E quando se deu a sua primeira prisão?

VULPIANO — Foi mais ou menos em 1952, quando eu me encontrava em Areia Branca. Chegando à cidade, fui me hospedar numa casa do Sindicato dos Salineiros. Então, por perversidade ou não, picharam na frente do prédio a frase “Viva o Partido Comunista”. Com isto, me botaram para fora do prédio. Ai houve um gesto muito bacana: os salineiros se reuniram e disseram: “Botaram o Dr. Vulpiano para fora. . . Pois a agora ele vai ser o nosso médico, o médico das nossas famílias”. E me contrataram me pagando um salário muito grande! Eu me senti reabilitado pela solidariedade. E eu atendia a todo mundo, até de graça.

MARCOS — E aí veio a prisão?. . .

VULPIANO — Eu estava em Macau… Já era o “assombro” do Rio Grande do Norte, com “a foice e o martelo na testa”, quando prepararam a minha prisão. Havia um sargentinho por lá que bebia muito… Ele reuniu o Tiro de Guerra e mandou me cercar, prendendo-me. Eu estava nessa ocasião com um plano de trabalho do Partido, onde constava exatamente uma greve dos trabalhadores das salinas. Mas eu escrevia tudo com uma letra muito miúda, que não se lia facilmente. Se letra de médico é ruim, vocês imaginem a gente querendo fazê-la ainda pior! Pegaram meus documentos.  Ai o sargento disse “Depois eu vejo. . .” e colocou-os de lado. No meio deles, estava o plano da greve. E eu fiquei pensando como tirar aquilo das mãos dele. Aí fixei os olhos em algum objeto do outro lado e ele acompanhou meu olhar. Enquanto isto eu passei a mão no papel e botei-o na boca. E foi aí que eu vi como é difícil a gente engolir papel. Lutei mas não consegui engolir. Depois, fui ao banheiro e o cuspi lá, dando descarga. Bom, essa foi a minha prisão de estreia. Eu me encontrava na companhia de Luiz Maranhão e mais dois outros companheiros de Partido.

TICIANO — Passou quanto tempo preso?

VULPIANO — Fiquei preso no Tiro de Guerra em Macau e depois me mandaram para Natal, com um pelotão de soldados me escoltando. Nesse momento eu disse a Luiz Maranhão: “Não estou gostando disto. É bem possível que sejamos mortos e digam depois que tentamos fugir”. Mas viemos sem problemas, a ponto de numa parada a meio do caminho, em João Câmara, eu informar a uma senhora que estava seguindo preso para Natal e ela dizer que não acreditava. Aí me voltei para os oficiais e perguntei “Vou ou não preso para Natal”? “Vai”. Aí a mulher acreditou e disse: “Ah, o Sr. é que é o Dr. Vulpiano? Já ouvi falar muito do seu nome e queria que o Sr. examinasse a minha filha que vai ser submetida a uma operação de fibroma. “Eu tive permissão de ir fazer o exame. Fui e vi que em vez de um fibroma, era um “filhoma”. . . E eu disse à mãe que não deixasse operar a moça, pois em três ou quatro meses o “fibroma” sairia naturalmente. . . (Risos). Então, vim para Nata! e não me lembro que tempo eu passei na prisão. Sei que estive preso aqui em Natal várias vezes. Numa das vezes um tenente da Aeronáutica — que depois foi servir no Canadá — criou um sistema de celas que tinham apenas uns quatro palmos de largura por sete de altura. E eu fui colocado numa dessas, nu, sem agasalho, com dois alto-falantes desses de rua, voltados para dentro da cela. Esses autofalantes ficavam a irradiar músicas.Não sei se vocês se lembram de uma música que imitava toda a bicharada? Que imitava o pato, o porco, o boi? Aquilo não tinha quem aguentasse ouvir três vezes, tão chata era a música. E eu tinha de ouvir aquilo dia e noite, a todo volume. A cela era de cimento armado, sem grades, e para o sujeito não morrer sufocado havia uma porta de ferro com uns furinhos que não dava para passar um dedo. Era um negócio chatérrimo. O Tenente Bravo da Câmara chegou algumas vezes a urinar por um desses buracos da porta, caindo a urina sobre meu rosto. Em me lembro de que eles aplicavam vários tipos de tortura. Um deles era o rádio relógio. Hoje, o rádio relógio é muito diferente: tem notícias, tem músicas. Naquele tempo era só aquele barulho: tum, rum, rum, tum . Tantos minutos para seis horas… tum, tum, tum. Passa um minuto de seis horas.  Tum, tum, tum . . . Aquilo era de lascar! O único momento de alívio que eu tinha ali em Parnamirim era quando eles chamavam a gente para o banho. Aquela aguazinha fria me fazia sentir retemperado para começar de novo. . . Eram proibidas as visitas. Eu ficava sem poder ver até a minha mulher. . . Havia do lado de fora um pássaro que repetia as primeiras notas da “Sonata Aurora” de Beethoven. Eu que sempre apreciei a música erudita, me deliciava com o canto da ave, mas ao mesmo tempo me revoltava mais com a prisão, vendo o pássaro em liberdade.

MARCOS — Mas o que ocasionou as suas prisões? Havia algum movimento a ser deflagrado?

 VULPIANO — Nunca houve movimento preparado aqui no Rio Grande do Norte. Se houve movimento aqui, preparado peles comunistas, foi no tempo de Getúlio, em 1935. O meu trabalho era apenas o de arregimentar. Eu, por exemplo, saía à noite com outro companheiro, para visitar algumas pessoas. Havia uma vigilância tremenda! Eu arranjei uma cabocla, filha do dono de uma casa para onde a gente ia, e saí de braço com ela, tentando despistar. Mas, quando vi, estava diante de um carro da Aeronáutica, do qual desceram os soldados para me prenderem. 0 interessante nessa ocasião foi que a Aeronáutica deu uma nota pelo jornal “tranquilizando as famílias norte-rio-grandenses” e dizendo que a Aeronáutica estava preparada para repelir qualquer movimento Comunista. Só que esse movimento nunca houve.

MARCOS — Havia que tipos de torturas físicas?

VULPIANO — Vejam com os seus próprios olhos. . . Esta grande cicatriz no meu braço esquerdo foi causada por pontas de cigarro. A água fervendo, chega a 100 graus. A chama de um cigarro vai a 600 graus. Enquanto eu era interrogado, na presença do major Hipólito da Costa, do capitão Souza Mendes e do tarado sargento Correia, eles queriam que eu dissesse os nomes da outros membros do Partido. E, diante do meu silêncio, eles encostavam o cigarro no meu braço e pelo corpo inteiro e gritavam “Responda, seu filho da… ” Como eu não nasci para ser dedo-duro, eu não falava. No auge das torturas, eu me lembrava dos nomes de alguns que já estavam presos e os citava, mas nunca denunciei ninguém, é claro! Outra tortura que eu recebi foi quando me pegaram uma vez no consultório, quando eu já morava em Natal e tinha o meu consultório numa sala ali na Avenida Rio Branco, no primeiro andar da Galeria Olímpio. Eu estava examinando uma senhora, quando chega o major Hipólito. Naquele tempo, a Aeronáutica usava uma farda caqui e eu pensei que fosse um- “mata mosquito”, um daqueles guardas da malária. Quando vi o sujeito empurrando a porta do consultório, eu disse: “Não é possível! O Sr. vai entrar aqui desta maneira?” Ele me deu voz de prisão e perguntou se eu ia reagir. Eu respondi que não e que estava ali realizando um atendimento médico a uma paciente. A mulher ficou lá tendo um ataque, fazendo o maior alarde. Então, o major Hipólito me arrastou escada abaixo e me levou preso em um jipe. Fui posto naquela mesma cela que eu já descrevi. Eu fui na ilusão de que não demoraria muito a ser liberado. Levei a minha identidade de oficial da reserva, joguei em cima da mesa com toda elegância, e o filho da mãe só fez olhar para mim, rasgar o documento e atirar na minha cara. Aí eu perdi qualquer ilusão. Essa prisão, as torturas, além dos alto-falantes, tinha uma sessão noturna de charanga, quando vinham aquelas pessoas com tambores bater nas portas das celas, para chacoalhar, acabar com os meus nervos. Mas não conseguiram não.

MARCOS — Quanto tempo o Senhor esteve preso?

VULPIANO — Eu sofri quatro prisões. A última, em 1964, me durou dois anos e dois meses. É preciso que vocês vejam o seguinte: pela legislação da época, eles só tinham direito de me prender pelo prazo de 60 dias, que era o período de averiguações. Mas isto foi esquecido! Depois de um ano e um mês, eu ouvi um boato de que ia sersolto. A empregada da minha casa ia me levar almoço no quartel e então mandei dizer à minha mulher que havia o boato da minha soltura, embora eu ainda não estivesse acreditando. São coisas que eu nunca consegui compreender. . . Eu tenho impressão de que um juiz, naquela época, queria me libertar. Eles não deixaram. Então, resolveram me botar num avião e me levaram para Pernambuco. Passei lá dois dias, fui muito bem tratado, bem alimentado e tive condições de cortar minhas unhas, fazer minha barba. Voltei de novo para cá, novinho.

TICIANO — Durante esse período o Senhor voltou a ser torturado?

VULPIANO — Não. Não digo que tenham me tratado bem, mas me trataram com respeito.

TICIANO — Mas o Senhor voltou ainda a ser preso outras vexes, não foi?

VULPIANO — Sim, a Polícia Federal. Sofri ainda duas ou três prisões pela Polícia Federal, mas não fui mais torturado. Fui bem tratado. Não sei se é porque eu sou maçon. Eu fiz os sinais maçônicos de socorro, que a gente faz sempre, e não me trataram mal. Pelo contrário!

OSAIR — Ao longo da sua trajetória profissional e política, o Senhor sofreu alguma discriminação da sociedade por ter uma ideologia diferente?

VULPIANO — Não. Jamais notei esse tipo de discriminação.

OSAIR — Embora o Senhor seja um comunista, nós estamos vendo aqui na sua biblioteca um exemplar da Bíblia.

VULPIANO — Esta Bíblia pertence à minha filha. Ê um dos maiores livros da humanidade. É um livro muito interessante. Se todo mundo lesse a Bíblia, a humanidade seria melhor, mas é um livro muito interessante.

TICIANO — Qual é a imagem que hoje você faz de Carlos Prestes?

VULPIANO — Eu já disse uma vez que tinha uma verdadeira adoração pelo “Cavaleiro da Esperança”. Eu tenho na minha biblioteca um livro de Prestes, que me foi oferecido por ele. Mas eu não gostei do livro, que é um negócio muito pessoal. O pessoal da direção do Partido chamou várias vezes Prestes para fazer crítica, autocrítica, e ele sempre recusou. Eu percebia que estava havendo alguma coisa, mas não podia imaginar que ia chegar à profundidade que chegou. Acabaram afastando, eu não diria expulsando Prestes do Partido. Ele continuou como um patrimônio histórico e não era possível expulsar um cara daquele, como os jornais geralmente afirmam. Giocondo Dias assumiu a secretario geral do Partido. Um amigo meu, Dr. Sarinho, uma vez me perguntou: “Com quem você está? Com Giocondo ou com Prestes?” Eu respondi: “Continuo com o Partido, Sarinho”.

TICIANO — E sua impressão de Giocondo?

VULPIANO — Eu conversei muito com Giocondo Dias, inclusive sobre um episódio que se comenta aqui no Rio Grande do Norte que teria ocorrido logo depois da revolução de 35, quando ele era cabo e liderou o movimento em Natal. Dizem que, depois da revolução, ele refugiou-se em Lages e lá teria tentado conquistar a mulher de um fazendeiro que o escondia. Ele nega o assunto completamente. Diz ele que naquele tempo tinha a ilusão da pureza do Partido. A mulher insistia para ter relações com ele. Com raiva da sua resistência, a mulher foi dizer ao marido que ele estava tentando conquistá-la. A coisa foi mais ou menos assim.

MARCOS — Por que o Partido Comunista nunca conseguiu um apoio popular mais amplo no Brasil?

VULPIANO — Em primeiro lugar, ainda não nos deram oportunidade de mobilização, não é? Se o Partido passou dois anos na legalidade, passou muito! E nesse curto espaço de tempo, Carlos Prestes se elegeu senador com 600 mil votos! Para fazer um proselitismo como nós desejaríamos, o tempo foi muito curto. Eu não creio que o Partido, apesar dos erros que tem — incontestavelmente tem e são sérios — não tenha capacidade de atrair o povo. Entre os maiores erros eu cito, por exemplo: o Partido Comunista, no chamado “manifesto de agosto”, preconizou o que nós chamávamos de preparação para a guerrilha, na esperança de que aqui no Brasil nós devíamos fazer como na China. Isto, mas ganhou em Natal. Natal ficou até conhecida com o “moscouzinho”.

MARCOS — Mas o que eu dizia é o seguinte; a nível nacional, talvez o PC não tenha influído na eleição de ninguém, mas a nível estadual os comunistas já deram valiosas contribuições na eleição de diversos governadores. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte nós sabemos que em 1960, Aluízio contou com a simpatia dos comunistas.

VULPIANO — Um dia desses, até Ticiano escreveu uma história interessante, sobre o relacionamento de Aluízio com os comunistas. Quando eu estava preso em 1964, quiseram que eu informasse quanto Aluízio tinha dado ao Partido Comunista , e eu disse : “Ele até prometeu dar algum a contribuição, mas dizem que ele não gosta muito d e cumprir seus compromissos” .

MARCOS — O Senhor poderia relatar algo mais sobre sua militância comunista?

VULPIANO — Vou contar alguns episódios da época da legalidade. Uma vez eu saí de Fortaleza para o interior do Crato, de Juazeiro. Ia com Jeová Mota, Luiz Mendes e outro s companheiros. Estávamos tomando café num a pensão lá em Juazeiro quando entrou um matuto e cravou o punhal na mesa, declarando: “Quem for homem, diga que é comunista! “Quem é que ia ter coragem de dizer que era”? Nós íamos fazer um comício na cidade e mandamos distribuir uns panfletos. 0 padre então reuniu as “Filhas de Maria” dizendo-lhes que os comunistas iam roubar os ossos do Padre Cícero para mandá-los para Moscou. E insuflou-as contra nós. Nós estávamos na casa de um camarada que dizia ter muitos votos, mas terminamos vendo que ele só tinha conversa. E vimos aquela massa avançando em nossa direção. A sorte é que a casa tinha fundos para outra rua e nós tivemos tempo de correr. A massa ignara nos perseguia, entrando de casa em casa, revistando tudo , abrindo guarda-roupas . Fomos salvos por um maçon que despistou o pessoal, indicando que nós tínhamos fugido numa direção oposta à que nós realmente seguimos.

MARCOS — Com o Senhor pessoalmente está vendo essa luta da sociedade pelas liberdades, pela eleição democrática, por uma nova constituição, pelas diretas? Isto tudo pode acabar num novo fechamento do regime, ou a gente tende mesmo a encontrar uma saída democrática para o país?

VULPIANO — Incontestavelmente, o presidente é presidente só porque está cercado por alguns que o forçam a fazer certas coisas. Vejam por exemplo a saída do ministro Maximiano. Ele pediu demissão. Você s deve m ter percebido — e eu vi aqui pela televisão — a solidariedade que recebeu da própria Marinha. Quinhentos oficiais de alta patente foram recebê-lo no aeroporto. Não houve discurso, houve nada. Mas só a presença era como se eles estivessem dizendo “conte conosco”.

MARCOS — E a emenda que o governo deve estar mandando ao Congresso, propondo eleição direta para presidente só e m 1990?

VULPIANO — Eu vejo isto como uma coisa feita para atender a Figueiredo, mas não creio que isto aconteça não. Diante da campanha do país inteiro pelas eleições diretas-já , eles vão ter muita dificuldade de impor essa solução.

MARCOS — O Senhor acredita que saia a curto prazo a legalização do Partido Comunista no Brasil?

VULPIANO — Não só acredito como afirmo que não há democracia sem o funcionamento do Partido Comunista. No s Estados Unidos existe o Partido Comunista. Embora seja considerada uma entidade estrangeira, mas está lá! Vai haver a legalização no Brasil. É o povo que quer. Podem surgir ainda muitas dificuldades, mas essa luta será vitoriosa.

TICIANO — Cite uma figura importante do Comunismo no Rio Grande, do Norte, uma figura de sua admiração, a quem você atribua importância na luta pelos ideais comunistas no Rio Grande do Norte.

VULPIANO — Há quem diga que o Rio Grande do Norte teve dois mártires : Frei Miguelinho e Luiz Maranhão, sendo que este último morreu pela causa socialista.

MARCOS — O Senhor poderia enumerar alguns membros do Partido Comunista no Rio Grande do Norte que perderam a vida a o longo dessas lutas na clandestinidade?

VULPIANO — Daqui morreu bastante gente. Cito, por exemplo, aquele guerrilheiro macauense Migue l Moreira. Num livro sobre a Intentona Comunista, João Medeiros Filho conta como morreu Miguel Moreira. Ele convidou um companheiro para acompanhá-lo num assalto que ia fazer — assalto politico! — e o companheiro o seguiu, indo sempre atrás. Quando viu que ele estava a uma distância segura, matou- o pelas costas com um tiro de revólver. Tratava-se de um elemento infiltrado. Agora, dizer quem são os outros que perderam a vida, eu prefiro não dizer. Há tanta gente importante no meio disso. E o Dr. Vulpiano não é o único a saber.

ATENÇÃO – AS FOTOS AQUI APRESENTADAS FORAM REALIZADAS NO DIA 14 DE JUNHO DE 1984, NA CÂMARA MUNICIPAL DE NATAL, NA OCASIÃO EM QUE O DR. VULPIANO RECEBEU O TÍTULO DE CIDADÃO NATALENSE. INFELIZMENTE NÃO DESCOBRI A AUTORIA DESSAS FOTOS.

CORRESPONDÊNCIA DE LUÍS CARLOS PRESTES ESTÁ SOB DISPUTA

Filha do líder comunista e de Olga Benário vai à Justiça para barrar leilão de 320 cartas escritas para ele nos anos 30 e 40 e achadas no lixo

Roberta Pennafort/Rio, O Estado de S. Paulo – https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,correspondencia-de-luis-carlos-prestes-esta-sob-disputa,70002614898

S11 ARQUIVO 20/11/2018 PRESTES/CARTASCADERNO2 Cartas endereçadas a Luís Carlos Prestes e escritas por sua mulher, mãe, filha e irmãs entre 1936 e 1941 vão a leilão na 5a feira no Rio FOTO Escritório de Arte Soraia Cals.

Encontradas no lixo, 320 cartas escritas pela família ao líder comunista Luís Carlos Prestes (1898-1990) nos anos 1930 e 1940 integram um leilão a ser realizado quinta, 22, à noite, no Rio. O lance mínimo para o lote é R$ 350 mil. 

Mas a venda pode acabar suspensa caso seja bem-sucedida uma ação judicial proposta pela filha de Prestes e Olga Benário, a historiadora e escritora Anita Leocádia Benário Prestes. Ela defende que a correspondência fique num arquivo público,aberta a consultas, e não seja comercializada. 

O conjunto chegou a Prestes na cadeia, após o fracasso do levante comunista durante o primeiro governo Getúlio Vargas. Partiu da mulher, da mãe, da própria Anita Leocádia e de outros parentes. Prestes não leu os originais agora à venda; ele só teve acesso a cópias feitas pela polícia política do governo.


Olga Benário

Em bom estado, o material tem marca de catalogação, o que indica que pertencia a um arquivo público. Em parte, o conteúdo já é conhecido; foi publicado pela própria Anita e na biografia Olga, de Fernando Morais, de 1985.A mais surpreendente talvez seja a missiva em que Olga, presa, conta ao marido estar grávida. “Enfim, nós teremos uma expressão viva de todo o bom e doce que existe entre nós”, ela escreveu. 

O caminho dos documentos até aqui é uma incógnita. Um coletor as encontrou numa mala descartada numa rua de Copacabana. Sem saber do que se tratava, as ofereceu a um vendedor de antiguidades. Este pagou R$ 500 por elas; ao se dar conta do tesouro que tinha, procurou a organizadora de leilões Soraia Cals. As cartas teriam sido guardadas por causa dos selos antigos – o coletor não sabia da importância de Prestes.

Publicada no jornal O Globo, a notícia do leilão desagradou a Anita, que falou ao Estado por intermédio de seu advogado, João Tancredo, na terça. Segundo ele, existe uma“quase certeza” de que as cartas são do Arquivo Público do Estado do Rio. 

Ficha de Olga Benário, ou Maria Prestes, conforme ela assinava.

“Anita não quer nada para si. Esse é um patrimônio da sociedade, não é para ficar com uma pessoa só. Quem acha algo na rua não é proprietário. A história está mal contada”, acredita Tancredo. O Arquivo Público também deverá recorrer à Justiça para tentar barrar a venda.

Soraia Cals disse que o leilão acontecerá “sob reserva de direitos”. O dono das cartas terá 60 dias para se manifestar e provar que o material lhe pertence. “Ainda vamos clarear quem é o verdadeiro proprietário. As cartas só serão entregues depois disso. Esperamos que alguma instituição compre, ou que alguém compre e doe para uma. É um arquivo riquíssimo, valioso, todo original.”

O VAGABUNDO DO MAR

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Desenho de Carlos Arthur Thiré.

A HISTÓRIA DO NAVEGADOR SOLITÁRIO INGLÊS QUE NAUFRAGOU EM UMA REMOTA ILHA BRASILEIRA, FOI SALVO POR UM TRANSATLÂNTICO ITALIANO E ACABOU PRESO NO RIO SUSPEITO DE SER COMUNISTA

Rostand Medeiros – Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte 

Era uma terça feira, 28 de março de 1939, e o transatlântico italiano MS Augustus navegava tranquilo em pleno Oceano Atlântico, a cerca de 530 milhas náuticas a nordeste de Natal. A bela nave seguia em direção ao Mar Mediterrâneo em meio a um mar calmo, com poucas ondas e muito sol típico de uma zona tropical.

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O MS Augustus

Por volta de uma e meia da tarde muitos passageiros percorriam tranquilos os decks da nave de 215 metros de comprimento, descansando depois do almoço. Alguns estavam sentados em cadeiras dobráveis se dedicando a leitura, outros conversavam em pequenos grupos e muitos observavam o mar na expectativa de avistarem algum peixe, uma baleia e os Rochedos de São Pedro e São Paulo. Eles haviam sido informados que este remoto local surgiria em breve a estibordo, ou seja, a direita do navio.

Conhecido hoje como Arquipélago de São Pedro e São Paulo, o local é uma parte pequena e bem isolada parte do território brasileiro, sendo um dos poucos lugares na Terra onde um cume oceânico subaquático rompe a superfície do mar. Formado por um pequeno grupo de ilhas que está apenas 18 metros acima das águas oceânicas e com uma extensão total de meros 4,5 hectares, era conhecido dos homens dos mares desde 1511, quando uma frota portuguesa com seis caravelas seguindo em direção as Índias, topou com o lugar sem querer. Deste encontro a caravela São Pedro bateu nas rochas e afundou e a caravela São Paulo salvou os sobreviventes do barco sinistrado e daí surgiu a sua denominação.

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Arquipélago de São Pedro e São Paulo na atualidade – Fonte – http://aurelioschmitt.blogspot.com.br

Perdidos no meio do grande Oceano Atlântico, ao longo dos séculos aquelas rochas não chamaram a atenção de exploradores, mas sim de grandes cientistas, entre eles o inglês Charles Darwin, que lá esteve na manhã de 16 de fevereiro de 1832, na primeira etapa de sua viagem ao redor do mundo a bordo do HMS Beagle.

Esquecidos e isolados em 1939 os então denominados Rochedos de São Pedro e São Paulo serviam, quando avistados durante o dia, como ponto de referência para verificação do posicionamento de navios através das cartas náuticas, bússolas e sextantes e, no caso de transatlânticos como o Augustus, um motivo de distração para seus normalmente entediados passageiros.

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Logo o transatlântico ficou a menos de dez milhas náuticas de distância e as rochas negras surgiram no horizonte. Alguns passageiros munidos de lunetas e pequenos binóculos se colocaram na amurada para observar aquele amontoado de pedras batidos pelas ondas. Em pouco tempo um burburinho em diferentes idiomas surgiu e braços apontavam em direção aos rochedos. De lá sinais luminosos provocados por um espelho nas mãos de um homem nu, que também agitava os braços intensamente, chamaram atenção de várias pessoas.

Quem era aquela pessoa?

Perdido nos Rochedos dos Santos

Na ponte de comando do Augustus a figura solitária naquelas rochas também chamou atenção dos oficiais que estranharam o fato. Eles sabiam que dificilmente alguém estaria ali praticando naturismo em num ponto tão isolado do Globo e também sabiam que a última missão oficial de qualquer espécie ocorrida nos Rochedos de São Pedro e São Paulo fora realizada em 1930.

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Naquele ano membros da Marinha do Brasil estiveram no local a bordo do navio tender Belmonte para a instalação de um pequeno farol aero marítimo e já fazia algum tempo que ele estava apagado. Tanto assim que a oficialidade do Augustus e de outros navios de cargas e passageiros que passavam pela região só se aproximavam do local durante o dia e com tempo bom, pois além de tudo as correntezas na área eram fortes.

Logo o comandante do Augustus enviou uma mensagem telegráfica para a Capitania dos Portos de Recife, para a Polícia Marítima e para o Presídio Político de Fernando de Noronha para informar sobre o fato.

O coronel Nestor Veríssimo, diretor do presídio, informou que nenhum detento havia se evadido da instituição que comandava e o comandante Humberto Areia Leão, capitão do porto de Recife, imediatamente comunicou ao então Ministério da Marinha. Mas foi Renato Medeiros, inspetor da Polícia Marítima, que conseguiu a informação de que o transatlântico italiano MS Conte Grande era esperado para os próximos dias em Recife e, como normalmente acontecia com os navios que faziam esta rota entre o Brasil e a Europa, passaria próximo aos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Através da ajuda de Etelvino Lins, então Secretário de Segurança Pública, o inspetor Renato Medeiros conseguiu enviar uma mensagem urgente ao Conte Grande para que investigasse o caso.

Mas foram os membros da imprensa recifense que conseguiram informações mais seguras sobre o solitário homem nos rochedos.

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O transatlântico italiano MS Conte Grande

Um oficial do paquete nacional Santarém, da empresa Lloyd Brasileiro e que se encontrava há uma semana no porto de Recife, informou que na sua última travessia vindo de Lisboa havia encontrado no meio do mar um pequeno barquinho a vela, com pouco mais de cinco metros e meio de comprimento e uma pequena bandeira britânica no diminuto mastro. O capitão do Santarém parou sua nave mista de passageiros e cargas e procurou ajudar o navegador solitário. Este agradeceu o apoio, informou que se dirigia para Natal e alegou que nada lhe faltava naquela verdadeira casca de noz que enfrentava os mares. O velejador parecia com saúde, aparentava está com as faculdades mentais corretas e o Santarém continuou seu rumo em direção a capital pernambucana.

Seria o homem nos Rochedos de São Pedro e São Paulo o mesmo navegador solitário?

Salvo

O Conte Grande era uma nave muito conhecida no Brasil e extremamente respeitada pela nossa sociedade, que nessa época utilizava intensamente o transporte marítimo.

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Saída do escaler para busca o náufrago.

A nave possuía muito luxo nos seus 200 metros de comprimento e desde 1932 fazia a linha entre a Itália e a América do Sul. A oficialidade do navio italiano acatou o recebimento das mensagens transmitidas pelas autoridades de Recife e pelo Augustus e informou que realizaria uma parada nos rochedos.

Por volta das cinco e meia da manhã de 31 de março os motores do Conte Grande ficaram girando em baixa rotação para manter a posição, enquanto um escaler era baixado com quatro marinheiros, um enfermeiro de bordo e sob o comando de um oficial do transatlântico.  Houve um fato narrado nos jornais que mostra bem as características das questões relativas ao pudor existente na época – Devido ao estado de nudez do náufrago o navio foi deixado a uma distância relativamente grande dos Rochedos de São Pedro e São Paulo e o pessoal a bordo do escaler teve de remar dobrado, mas conseguiram realizar a tarefa.

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Retorno do escaler.

Para surpresa geral aquele homem jovem e cabeludo falou em perfeito italiano. Ele estava muito fraco e foi examinado, teve sua nudez coberta com um roupão branco e foi levado para o Conte Grande. Sua chegada causou verdadeiro frenesi a bordo, mas ele foi mantido isolado devido ao seu estado de saúde.

Logo se soube que o estranho se chamava Michel Formosa, era filho do inglês Francis Reynold Formosa e mãe italiana, havia nascido em Paris, morava na ilha mediterrânea de Malta, era técnico de rádio e falava fluentemente cinco idiomas. Formosa contou que havia feito economias para realizar o sonho de adquirir um pequeno barco e conhecer o mundo singrando os mares.

Sozinho no Atlântico

O solitário navegador conseguiu seu intento no ano anterior, batizando a pequena nave de O. K. e partiu da ilha de Malta, na época parte do Império Britânico, no dia 2 de outubro de 1938.

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Percorreu com certa dificuldade a parte da costa africana banhada pelo Mar Mediterrâneo, mas ultrapassou o Estreito de Gibraltar e passou a navegar no Oceano Atlântico. Sua primeira parada foi na cidade marroquina de Tânger, depois Las Palmas, (Arquipélago das Canárias), na sequência Bathurst (Atual Banjul, capital da Gâmbia), Bissau (Atual capital da República da Guiné-Bissau) e outros locais da África Ocidental.

Partiu em março na direção do Brasil com a ideia de chegar a Natal, cidade que comumente aparecia em noticiários de jornais e revistas que comentavam feitos e realizações aeronáuticas na Europa.

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Para Formosa o porto de Natal lhe aparecia como um ponto de apoio pequeno, limitado, mas muito bem localizado no extremo nordeste da América do Sul. Para ele pouco importava as dimensões do nosso porto, ou o tamanho de Natal. Para quem buscava atravessar o Oceano Atlântico em um veleiro com apenas cinco metros e meio de comprimento, o que importava era chegar vivo!

Durante sua travessia atlântica o navegador Formosa passou uma parte do tempo apreciando o mar, noutra dormindo, ou lendo livros sobre o Novo Mundo. Enfrentou dois dias de forte tempestade, mas o O. K.  suportou bem a pressão. Em outro momento um nevoeiro muito forte, acompanhado de uma calmaria intensa o deixou em meio a um mundo com poucas referências visuais e um intenso silêncio.

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Um dia viu um navio brasileiro de carga e passageiros chamado Santarém, que veio em sua direção e aconteceu o contato narrado anteriormente. Para Formosa o melhor deste encontro no meio do mar foi saber que seguramente estava na rota certa. Mas no rápido encontro o navegador solitário britânico esqueceu-se de perguntar aos oficiais do Santarém se o farol dos Rochedos de São Pedro e São Paulo estava funcionando.

Queria Vir a Natal

Na madrugada de 26 de março o mar engrossou, e o vento se tornou mais e mais forte. As vagas invadiam continuamente o deck do barquinho a vela e tornava a navegação muito difícil. À noite a situação só piorou e a visibilidade se tornou mínima. Por volta da meia noite, já bastante cansado, Formosa vislumbra no meio da chuva o que lhe pareceu ser o cume de uma montanha. Ele sabia que o continente estava ainda muito longe e não havia visto a luz do farol de São Pedro e São Paulo. Logo escutou as ondas batendo nas pedras e tentou mudar o rumo, mas foi tarde demais.

Uma forte onde lhe arrancou o lema e o pequeno O. K. bateu forte em uma pedra e começou a afundar. Com o impacto Michel Formosa foi jogado para fora do veleiro e só não morreu por um impacto contra as rochas porque, de alguma forma, foi levado para um ponto no meio das pedras onde pode se agarrar e sobreviver sem maiores problemas. Ele saiu da água em meio a uma forte escuridão, muito frio e percebeu que estava nu.

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O fim do O.K. nas pedras de São Pedro e São Paulo.

Horas depois a chuva e o vento amainaram e o sol começou a despontar no horizonte trazendo luz e calor. Logo começou a compreender a natureza hostil dos Rochedos de São Pedro e São Paulo, onde água doce só era encontrada em pequenas frestas. Havia muitos pássaros e seus ovos, mas isso não daria para muita coisa.

Conforme o sol foi subindo no horizonte ele conseguiu divisar através das águas muito transparentes, a cerca de 10 metros de profundidade, o casco do O. K. e achou que valia a pena mergulhar para trazer coisas que pudessem lhe ajudar a sobreviver. Conseguiu chegar ao casco, mas logo percebeu a presença de tubarões rondando a área e se assustou.

Na superfície começou a explorar a maior das ilhotas, denominada Belmonte em honra ao navio da Marinha do Brasil que trouxe os construtores do pequeno farol em 1930.

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Michel Formosa com marcas no rosto das bicadas dos pássaros dos Rochedos de São Pedro e São Paulo. Luta pela sobrevivência.

Encontrou alguma madeira podre e um interessante pedaço grosso de espelho do agora inútil farol, que se estivesse em funcionamento teria evitado em todo o problema que agora vivia. Refletindo raios do sol conseguiu fazer uma fogueira e assou algumas aves marinhas que capturou em meio a uma luta que lhe deixaram feias marcas no rosto. Comeu também alguns ovos destas aves e esta foi sua única alimentação.

Quatro dias depois de chegar aquele esquecido local, viu surgir no horizonte um grande navio de passageiros. Com o coração aos pulos foi atrás do espelho do velho farol e ficou refletindo a luz do sol em direção ao navio, que foi passando, passando, diminuindo de tamanho, até que sumiu. Nessa hora, já debilitado pela falta de alimentação adequada e do medo de morrer a míngua naquele fim de mundo, Formosa se desesperou.

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O que ele não sabia era que seu esforço de visualização obteve êxito e sua presença nos rochedos desencadeou várias mensagens telegráficas que culminaram na chegada do Conte Grande e no seu salvamento.

No Rio e na Delegacia do Caçador de Comunistas

Depois de se recuperar, ser barbeado, ter o cabelo cortado, Michel Formosa foi contemplado com muito apoio e atenção a bordo do transatlântico italiano.

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Ele recebeu roupas, cigarros e já passou a dar entrevistas a alguns jornalistas que estavam a bordo e retornavam da Europa. Como todo bon vivant europeu que se prezasse naquela época, Formosa passou a curtir o momento plenamente. Por conta da empresa de navegação passou a tomar uns drinkzinhos no restaurante do navio, conversou com meio mundo de pessoas que estavam a bordo narrando sua epopeia e dizendo que o objetivo de sua viagem solitária era “dar a volta ao mundo”, com ideias de chegar até no Japão. Apareceu sorridente em fotos, com um cigarro pendurado no canto da boca, em uma imagem típica de ator canastrão francês.

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Logo, no dia 4 de abril, surgiu diante do Conte Grande a figura emblemática do Pão de Açúcar e a bela Baía da Guanabara.

Após o navio ancorar, já previamente avisados, subiram a bordo dois agentes da Polícia Marítima e Michel Formosa saiu escoltado para o conhecido Palácio da Polícia, na Rua da Relação, no centro da cidade. Ali ficava a sede da 2ª Delegacia Auxiliar, sob o comando do Dr. Linneu Chagas d’Almeida Cotta, muito conhecido por participar das investigações que culminaram na prisão de vários envolvidos na conhecida Intentona Comunista de 1935. Entre estes detidos figuravam os alemães Henry Berger e Olga Benário, além do então estudante baiano Carlos Marighella, este último detido em maio de 1936.

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O estrangeiro Formosa não estava entendendo nada sobre a razão de está ali. Na sua mente, sem deixar de ter certa lógica, ele era um ex-náufrago, que havia perdido tudo que tinha nos Rochedos de São Pedro e São Paulo e não poderia resolver aqueles problemas burocráticos apresentando o que não tinha.

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Michel Formose, já não tão sorridente, prestado declarações.

Para piorar a situação, certamente irritado com tudo aquilo, o inglês primeiramente se negou a responder qualquer coisa sobre si mesmo, falando apenas “No Entiendo” aos questionamentos feitos. Depois, sem saber o tamanho do perigo em que estava se metendo, partiu para responder com certa dose de ironia as perguntas do Dr. Linneu Cotta.

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Michel Formosa entre policiais.

Um jornalista narrou que a muito custo o estrangeiro comentou que era inglês e o delegado, depois de participar das investigações contra Henry Berger e Olga Benário, estava considerando tudo que Formosa dizia como sendo mentira, já o enquadrando como “extremamente suspeito” de ser comunista e ele acabou preso.

Ao ser informado da situação do ex-náufrago, a Embaixada Britânica no Rio, que na época ficava na praça XV de novembro, através do Vice Consul Noel Cameron Robinson, tratou de enviar com extrema urgência um telegrama para a legação britânica em Bathurst e saber a real situação de Michel Formosa.

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O ex-náufrago em liberdade.

Mesmo em uma época de comunicações limitadas, para sorte do súdito britânico preso, Bathurst confirmou no mesmo dia que o navegador solitário havia estado lá em 2 de fevereiro e que a sua situação era legal.

Sabedores do extremo perigo que o imprudente súdito de sua majestade corria se fosse acusado oficialmente de ser comunista no Brasil, os diplomatas britânicos prontamente entregaram um documento oficial sobre a situação do preso ao delegado Cotta, que soltou Formosa.

O Destino do “Vagabundo do Mar” na Guerra

Após sair do xilindró o navegador solitário inglês ainda foi notícia dos jornais cariocas por algum tempo, principalmente em “A Noite”. Inclusive durante semanas este periódico publicou uma serie de quadrinhos, produzidas pelo renomado cartunista Carlos Arthur Thiré, trazendo as aventuras de Michel Formosa.

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Comentou-se que através da “Editora S.A. A Noite” seria publicado o livro “O Vagabundo do Mar”, onde Formosa narraria sua epopeia marítima.

Notícias posteriores sobre Michel Formosa, que muitos periódicos afirmaram se chamar Michel Formose, comentou que através da ajuda do pessoal da equipe de remo do Fluminense Football Club seria conseguido um barco para ele continuar sua viagem. Mas parece que tudo ficou só nas promessas, pois as notícias sobre Michel Formosa desapareceram dos jornais cariocas.

Certamente a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 3 de setembro de 1939, mudou tudo na vida deste homem. Em algum momento ele retornou a Europa, onde embarcou a serviço em navios de carga e em um deles, pouco mais de dois anos depois de sua aventura nos Rochedos de São Pedro e São Paulo, encontrou a morte.

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S.S. Kingston Hill

No dia 8 de junho de 1941 o S.S. Kingston Hill seguia solitariamente no Oceano Atlântico. Com quase 130 metros de comprimento era um navio novo, lançado no mar pelo estaleiro escocês William Hamilton & Co. apenas seis meses antes. Transportava naquela viagem 8.300 toneladas de carvão e 400 toneladas de carga geral e pouco depois de uma da manhã este navio foi atingido por dois torpedos vindos do submarino alemão U-38.

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O U-38 preparando-se para partir.

Esta nave de guerra era comandada pelo Korvettenkapitän (capitão de corveta) Heinrich Liebe, um dos quinze melhores comandantes de submarinos alemães, com um total de 34 navios afundados e um danificado durante seu tempo como comandante. Apenas para efeito de comparação em toda Segunda Guerra o Brasil teve 35 navios afundados e danificados por submarinos nazifascistas.

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Placa com os nomes dos mortos do navio Kingston Hill.

O Kingston Hill levou quase uma hora e meia para afundar, onde catorze membros da tripulação morreram e 48 sobreviveram. Entre os mortos constavam o capitão do barco e os bombeiros de bordo Daniel Taylor e Michel Formosa, que lutaram arduamente para tentar extinguir o fogo e salvar a nave. O nome de Michel Formosa consta em uma placa de bronze no memorial de Tower Hill, em Londres, junto com outros treze companheiros do seu barco que tiveram o mar como túmulo.

Ironicamente este ataque ocorreu a cerca de 520 milhas náuticas ao norte dos Rochedos de São Pedro e São Paulo.

NATAL, 1935: QUATRO DIAS SOVIÉTICOS

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A bandeira de Natal com a estrela, a foice e o martelo | Crédito: Montagem Fabio Marton

A capital do Rio Grande do Norte viveu sob um breve regime comunista

Autor – Marcus Lopes

Fonte – http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/terra-brasilis/natal-1935-dois-dias-sovieticos.phtml#.WEyVPYWcHIV

Durante quatro dias, o Brasil viveu a experiência de um governo comunista. Foi em 1935, em Natal, no Rio Grande do Norte. Após um levante militar ocorrido no Batalhão do Exército, a capital potiguar caiu nas mãos dos rebeldes, que destituíram os governantes locais dos seus cargos – incluindo o governador do estado e a Assembleia – e assumiram o poder com apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), liderado por Luís Carlos Prestes. Sob o lema “pão, terra e liberdade”, os revolucionários almejavam dar o pontapé inicial para a instalação de um regime soviético no Brasil.

O levante começou na manhã de 23 de novembro, um sábado. O dia em Natal, que contava com cerca de 40 mil habitantes, começou calmo e prometia poucas novidades. A principal notícia era uma formatura no Teatro Carlos Gomes, à noite, que contaria com a presença do governador Rafael Fernandes.

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Cais da Tavares de Lira, no bairro da Ribeira, em Natal. Uma provinciana capital do Nordeste do Brasil.

No quartel militar do 21º Batalhão de Caçadores (21º BC) o dia também corria tranquilo até que chegou a informação de que o general Manuel Rabello, comandante da 7ª Região Militar, no Recife, havia autorizado o licenciamento de alguns cabos, soldados e tenentes que estavam com tempo vencido na carreira militar e a expulsão de outros, acusados de envolvimento em incidentes de rua ocorridos dias antes em Natal, incluindo assaltos a bondes.

O documento com a ordem de expulsão precipitou um movimento que estava sendo articulado havia vários dias entre lideranças militares e sindicatos locais junto com membros do PCB estadual. O objetivo era apoiar a revolução nacional que estava sendo preparada pela Aliança Nacional Libertadora (ANL), no Rio.

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O 21º Batalhão de Caçadores

“Havia uma preparação para o levante sob a direção do Partido Comunista, que atuava no 21º Batalhão de Caçadores e em vários sindicatos locais. Eles apenas aguardavam as orientações do comitê central”, afirma Homero de Oliveira Costa, professor de ciências políticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e estudioso da insurreição de Natal. Somando-se a isso, Costa lembra que a cidade já vivia momentos de tensão política desde o ano anterior. “O Rio Grande do Norte teve uma das mais tumultuadas eleições do país, com diversos conflitos de ruas, assassinatos, prisões e repressão. Isso criou uma situação muito tensa no Estado, e em Natal em particular”, diz.

Erro de comunicação

Os acontecimentos daquele sábado se precipitaram de tal maneira que não houve tempo nem de avisar a ANL, cujos líderes (incluindo Prestes) aguardavam o melhor momento para eclodir a revolução em nível nacional. Em função das expulsões ordenadas pelo comando militar no Recife, o PCB estadual e os integrantes do Batalhão decidiu dar início ao motim naquele mesmo dia.

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Luís Carlos Prestes – Bundesarchiv; BArch

Por volta das 19h30, um grupo de militares rebeldes, liderados pelo sargento Quintino Clementino de Barros, rendeu os oficiais de plantão do quartel e, com fuzis apontados para a cabeça dos soldados, ordenaram: “Os senhores estão presos em nome do capitão Luís Carlos Prestes”. Não houve resistência e, a partir daí, os revolucionários, liderados por Quintino e apoiados por grupos civis organizados (como o sindicato dos estivadores, que era muito forte na cidade), tomaram o quartel e ocuparam locais estratégicos: o palácio do governo, a Vila Cincinato – residência oficial do governador -, a central elétrica, a estação ferroviária e as centrais telefônica e telegráfica.

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Resultado do ataque comunista ao Quartel da Salgadeira, no Centro de Natal.

Informado sobre a confusão e a organização dos amotinados ainda na cerimônia dos contabilistas, o governador e demais autoridades civis e militares fugiram e se esconderam na casa de aliados. No quartel da Força Pública, cuja sede ficava próxima ao batalhão rebelado, ensaiou-se uma resistência legalista com policiais fiéis ao governo, vencida pelos militares rebeldes, no momento mais organizados e bem armados.

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Quintino Clementino de Barros, militar e músico do 21º Batalhão de Caçadores, presidente do Comitê Popular Revolucionário, quando já preso pelas forças do governo.

Na manhã seguinte, Natal estava completamente dominada. Na residência do governador, sede dos rebelados, formou-se uma junta provisória de governo, autodenominada Comitê Popular Revolucionário, que era formada pelo sapateiro José Praxedes (secretário de Abastecimento); sargento Quintino Barros (Defesa); Lauro Lago (Interior e Justiça); estudante João Galvão (Viação); e José Macedo (Finanças), este último funcionário dos Correios e Telégrafos.

Em seguida, o Comitê Revolucionário começou a tomar medidas práticas. A primeira foi um decreto com a destituição do governador do cargo e a dissolução da Assembleia Legislativa “por não consultar mais os interesses do povo”. As tarifas de bondes foram extintas e o transporte coletivo tornou-se gratuito.

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De cigarro vemos Mário Lago, ex-diretor da Casa de Detenção de Natal e Mário Paiva, comissários do Comité Revolucionário, quando detidos.

Na segunda-feira, o comércio e os bancos não abriram. À tarde, foi ordenado o saque dos cofres da agência do Banco do Brasil e Recebedoria de Rendas. O dinheiro foi confiscado em nome do governo revolucionário e parte dele distribuído à população, que adorou a novidade, mesmo sem ter muita noção do que estava acontecendo.

Pura farra

“A população confraternizava com os rebeldes. Era mais uma festa popular ou um carnaval exaltado, do que uma revolução”, explica o historiador Hélio Silva em seu livro 1935 – A Revolta Vermelha. “Casas comerciais foram despojadas de víveres, roupas e utensílios domésticos que aquela gente não podia comprar. Houve populares que, pela primeira vez, comeram presunto”, de acordo com o historiador.

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Da esquerda para direita vemos o ex-sargento Diniz, do 21º Batalhão de Caçadores, José Macedo, ex-tesoureiro dos Correios e Telégrafos e João Baptista Galvão, considerados “figuras salientes” do governo comunista instalado em Natal em novembro de 1935.

Um dos líderes do movimento, João Galvão, relatou posteriormente o que aconteceu naqueles dias: “O povo de Natal topou a revolução de pura farra. Saquearam o depósito de material do 21º BC e todos passaram a andar fantasiados de soldado. Minha primeira providência como ‘ministro’ foi decretar que o transporte coletivo seria gratuito. O povo se esbaldou de andar de bonde sem pagar”.

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Líderes comunistas do levante natalense presos pelas forças legalistas.

Para se comunicar com a população, um avião foi confiscado no aeroporto e sobrevoou a cidade despejando milhares de folhetos. No curto período em que se mantiveram no poder, os revolucionários também distribuíram o primeiro e único número do jornal A Liberdade, impresso nas oficinas da Imprensa Oficial do Estado. Nele, foi publicado o expediente do novo governo e um manifesto, inspirado no programa do PCB e sob o lema “todo poder à ANL”.

Cada um por si

Segundo o professor Homero Costa, o pouco tempo em que permaneceram no poder impediu que os revolucionários tomassem outras medidas práticas. “Houve boatos de que na Vila Cincinato estavam distribuindo alimentos à população, o que levou muita gente a se deslocar para lá, mas não era verdade”, diz Costa.

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Foto que mostra os efeitos do arrombamento do cofre da agência do Banco do Brasil em Natal.

Mesmo assim, algumas medidas típicas de regimes de exceção foram tomadas naquele começo de semana, como salvo-condutos para circulação nas ruas e ordens para que o comércio e os bancos funcionassem normalmente, o que, claro, não aconteceu. “Os comerciantes foram orientados a negociar como de costume, sem estocarem alimentos para elevar os preços. Caso isso ocorresse, os estoques seriam confiscados pelo governo”, diz Elias Feitosa, professor de história do Brasil do Cursinho da Poli, lembrando que alguns gêneros alimentícios, como o pão, também tiveram o preço reduzido.

O levante não ficou restrito a Natal. Houve uma interiorização do movimento no Rio Grande do Norte. “Foram formadas três ‘colunas guerrilheiras’ que ocuparam 17 dos 41 municípios do estado, destituindo prefeitos e nomeando outros”, diz Homero Costa.

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“Foi bala muita” – Fachada do Quartel da Salgadeira, atingido por disparos efetuados pelos comunistas.

Pequenas localidades, como São José de Mipibu, Ceará Mirim e Baixa Verde (atual município de João Câmara) foram ocupados sem resistência e os prefeitos substituídos por simpatizantes da ANL. Agências bancárias e do governo (as coletorias de renda) foram saqueadas e o dinheiro enviado para a capital. Na terça-feira, a intentona potiguar começou a revelar sua fragilidade com a movimentação de tropas do Exército da Paraíba e de Pernambuco rumo a Natal para debelar o movimento e restabelecer a ordem.

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Sargentos legalistas do Exército Brasileiro, que ficaram prisioneiros dos comunistas no quartel do 21º Batalhão de Caçadores.

Em uma localidade chamada Serra do Doutor, um dos grupos da ANL foi preso por tropas leais a Getúlio Vargas. Informados de que tropas federais entrariam em Natal e com a possibilidade de bombardeamento aéreo, os líderes do “governo revolucionário” fugiram na base do cada um por si. Um deles, Praxedes, viveu foragido durante anos. Os demais foram capturados e enviados para o Rio de Janeiro com outros presos políticos, como o escritor Graciliano Ramos.

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De chapéu de palha vemos Dinarte Mariz, tendo ao seu lado Enoch Garcia, considerados os idealizadores da resistência ao avanço comunista no Seridó Potiguar, que se efetivou com o combate na Serra do Doutor. Certamente que politicamente Dinarte foi um dos que mais usufruiu politicamente da sua suposta ação de resistência contra as forças comunistas, chegando a se tornar governador e senador pelo Rio Grande do Norte.

O mesmo aconteceu nas cidades do interior. Com a fuga, os militares enviados pelo governo federal não tiveram dificuldades de controlar a situação. O governador Rafael Fernandes foi reconduzido ao cargo e, a partir de quarta-feira, dia 27 de novembro, a vida voltou ao normal na cidade que, durante cerca de 90 horas, abrigou, como escreveu Hélio Silva, “o primeiro, único e fugaz governo soviete na história do Brasil.”

Intentona comunista

No mesmo dia em que o “governo comunista” era encerrado no Rio Grande do Norte, o movimento tenentista deflagrava, no Rio de Janeiro, uma insurreição para derrubar o presidente Getúlio Vargas e instaurar um regime comunista no Brasil. Liderado por Luís Carlos Prestes, o levante ficou conhecido como Intentona Comunista, ou Revolta Vermelha. Os amotinados se rebelaram em vários regimentos e batalhões do Rio, mas foram rapidamente sufocados pelas forças de segurança nacional.

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A insurreição estava sendo preparada desde o ano anterior. No final de 1934, Prestes, que estava na União Soviética havia três anos, retornou ao Brasil para organizar a revolução comunista. Acompanhado de sua mulher, Olga Benário, militante do partido comunista alemão, eles desembarcaram clandestinamente com os nomes falsos de Antônio Villar e Maria Villar. Além do casal, vieram outros estrangeiros para ajudar na revolução. Entre eles, o argentino Rodrigo Ghioldi e sua mulher, Carmen; o casal alemão Elisa Sabarowski e Arthur Ewert; os belgas Lion Valle e sua mulher, Alphonsine; o alemão Franz Gruber e o norte-americano Victor Allen Baron.

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Intentona Comunista de Natal de 23 de novembro de 1935 foi notícia em todo mundo, como neste material publicado em um jornal dos Estados Unidos.

Todos, incluindo Prestes, eram militantes da Internacional Comunista, que via no Brasil um terreno fértil para a revolução. “O PCB era uma seção da Internacional Comunista e estava inserido no que a entidade chamava de ‘países coloniais e semicoloniais’, para os quais havia estratégias revolucionárias distintas. No caso, ao contrário dos países capitalistas ‘avançados’, a estratégia era a via insurrecional”, explica o cientista político Homero Costa, da UFRN, sobre a participação do Komintern no movimento de 1935, que registrou ações em Natal, Recife e no Rio. Após a rebelião em Natal, ocorreu um efeito dominó em outras praças que também estavam sendo preparadas e treinadas para a revolução.

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“O que ocorreu em Natal pegou todos de surpresa, inclusive o comitê central. Os levantes no Recife, no dia seguinte ao de Natal, e no Rio de Janeiro, foram em consequência dessa precipitação”, diz Costa, lembrando que a insurreição nacional estava planejada apenas para o início de 1936.

“O levante de Natal fez parte do contexto da Intentona Comunista. A ideia era que a revolução fosse em escala nacional. Porém, nem todas as guarnições envolvidas se engajaram ao mesmo tempo”, diz o historiador Elias Feitosa. A ação da Internacional serviu como justificativa para que Getúlio Vargas instaurasse o Estado Novo, em 1937.

O “CINE JORNAL”, DE 1924

O PRIMEIRO LONGA-METRAGEM REALIZADO NO RIO GRANDE DO NORTE FOI UM DOCUMENTÁRIO

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Sou um entusiasta pela sétima arte, onde, obrigatoriamente, busquei no excelente livro do jornalista potiguar Anchieta Fernandes, “Écran Natalense”, conhecer a história do cinema no Rio Grande do Norte.

Desejava que uma curiosidade fosse satisfeita ao ler este livro; qual foi o primeiro longa-metragem produzido em terras potiguares?

Em uma das páginas, uma pequena nota apontava para um documentário produzido pelo governo do estado, no início dos anos de 1920. Busquei maiores detalhes sobre este projeto cinematográfico e encontrei uma interessante história: Em uma edição do jornal “A Republica”, de 25 de julho de 1924, temos uma reportagem sobre a criação de um “film” que mostrava a “vida actual” e “as possibilidades econômicas do Rio Grande do Norte”. Informava “que o Dr. Amphilóquio Carlos Soares da Câmara estava com a missão de dirigir, e naquele momento, acompanhava no Rio de Janeiro a conclusão do material para posterior exibição”.

Ligação com um Livro

Lendo a reportagem detalhada sobre a película, me recordei que já tinha tido oportunidade de ler um livro chamado “Scenarios Norte-Riograndenses”, de 1923, de autoria do mesmo Amphilóquio Câmara, que mostrava as diversas regiões, os potenciais econômicos, as cidades, as características e particularidades do Rio Grande do Norte dos anos 20 do século passado. Este livro fora preparado visando mostrar aos potiguares o que o estado possuía e como as nossas riquezas foram vistas na Exposição Nacional do Centenário da Independência, em 1922, quando o próprio Amphilóquio havia sido designado delegado do Rio Grande do Norte para este evento.

Palácio do Governo. 

Comparando a descrição e as fotos existentes no livro, e lendo a reportagem sobre o documentário existente em “A República”, pude perceber que o livro e a película tinham ligação concreta. Mostrando como os conhecimentos de Amphilóquio Câmara estavam sendo utilizados na execução deste projeto cinematográfico.

O então governador José Augusto Bezerra de Medeiros apoiou a ideia de Amphilóquio, que buscou contratar um dos melhores cinegrafistas existentes no país, o mineiro Aristides Junqueira, autor do curta-metragem “Reminiscências”, hoje considerado o filme brasileiro mais antigo (1909) ainda disponível. Ficou decidido que o título da película seria, “Cine-Jornal do Rio Grande do Norte”.

Iniciam as Filmagens

Junqueira e Amphilóquio iniciaram o trabalho no final de 1923, tendo sido rodados quatro mil metros de película. Foram feitas, segundo o relato existente no jornal, imagens da capital com seus bairros, avenidas principais, igrejas, praças, a vida cotidiana, vistas do mar e imagens do dia-a-dia. Um dos exemplos foi uma panorâmica em 360° da cidade, feita a partir da torre da Igreja Matriz, na Praça André de Albuquerque, então o ponto mais elevado de uma Natal que possuía uma população em torno de 25.000 pessoas.

Praça André de Albuquerque.

Como a principal área urbanizada da cidade, praticamente se restringia ao Centro e a Ribeira, provavelmente nesta tomada, Junqueira filmou toda a área da capital potiguar.

Igualmente foram filmados ações de governo, prédios públicos, escolas, obras de saneamento da cidade, hospitais, sanatórios e outros.

Fatos sociais foram mostrados, um deles foi o desembarque de José Augusto em Natal, na manhã de 24 de dezembro de 1923. Foi um evento concorrido, onde várias autoridades e figuras sociais estavam presentes no cais da Tavares de Lyra.

José Augusto chegava do Rio de Janeiro, então Capital Federal, para tomar posse como governador. Toda a solenidade foi filmada tanto fora, como dentro do palácio de governo. Outro evento mostrado foi à inauguração da sede da Associação dos Escoteiros de Natal.

O governador decidiu que seriam realizadas filmagens no interior do estado. Para esta empreitada, além de Amphilóquio e Junqueira, uniu-se ao grupo o advogado Dioclécio Duarte. Estes seguiram visitando e filmando aspectos sociais e econômicos de Macaíba, Ceará-Mirim, a praia de Muriú, Macau, Mossoró, Areia Branca e Grossos. Em Macaíba, as lentes de Junqueira apontaram para o então Campo de Demonstração Agrícola.

Em Ceará-Mirim, o alvo foi a produção de cana-de-açúcar, onde uma das tomadas foi realizada em um ponto elevado do engenho “Villa Bella”. No engenho “União” foram realizadas cenas da moagem da cana, do trabalho tradicional e da casa do seu proprietário, o “coronel” Felismino Dantas.

Em Muriú, a saída dos pescadores em tradicionais jangadas, foi apresentada para o grupo que realizava o documentário.

Salinas.

Em Macau foram filmadas solenidades na cidade, os aspectos da indústria salineira, com imagens da salina “Conde Pereira Carneiro” e o transporte do sal para os barcos salineiros impulsionados pela força dos ventos. Na povoação de “Independência” (atual Pendências), foi apresentado ao grupo à cultura da carnaúba e alguns vastos carnaubais.

Mossoró era apresentado como o “maior empório comercial do estado, com sua população de 20.000 habitantes”. Foi realizada uma panorâmica da cidade, feita a partir da torre da igreja de São Vicente. Praças, igrejas, ruas, prédios públicos, com destaque para a Escola Normal, foram capturados pela lente de Junqueira.
Já Grossos e Areia Branca tiveram destaques pelas salinas e o porto. Segundo as notícias, as fortes chuvas ocorridas no primeiro semestre de 1924, impossibilitaram que fossem filmadas outras cidades do interior do Estado.

Além das notícias publicadas no jornal “A Republica”, uma referência sobre este filme pode ser lida na própria mensagem governamental de José Augusto, no ano de 1924, onde nas páginas 67 e 68, no tópico “Museu Agrícola e Commercial”, o governador afirmava a necessidade de se fazer propaganda dos recursos do Estado, utilizando esta película, neste museu que estava sendo criado pelo Governo Federal.

Outros Trabalhos de Junqueira

O trabalho do cinegrafista Aristides Junqueira parece ter-se prolongado mais tempo no Rio Grande do Norte. Na edição de 12 de novembro de 2000 da “Tribuna do Norte”, em uma reportagem sobre pesquisas e catalogação do material relativo a Intentona Comunista, existente no próprio Arquivo Público do Estado, existem cartas de Junqueira comentando sobre o levante de 1935. Na reportagem, a então diretora do Arquivo, Vanilde de Souza Rêgo, comenta que o cineasta fez relatos de como ocorreu o movimento comunista na região salineira, algo então desconhecido para muitos. Em uma das cartas, Junqueira afirmava estar “cavando com a machina cinematographica o pão nosso de cada dia…”, onde ele filmaria “as salinas para os meus jornalecos quando estourou o movimento comunista em Natal”.

Teria o cinegrafista Junqueira continuado trabalhando frequentemente com filmagens no Rio Grande do Norte? Ou este

Cine Royal.

cineasta mineiro teria retornado ao estado, apenas para uma nova refilmagem da região salineira e, coincidentemente, estava na área quando ocorreu a Intentona Comunista? Haveria outros antigos documentários sobre o Rio Grande do Norte?

Esta película é certamente o primeiro trabalho cinematográfico, em longa-metragem, no formato de um documentário, realizado de forma profissional no Rio Grande do Norte e desenvolvido por um dos melhores cinegrafistas existentes no Brasil da década de 1920. Foi um projeto executado como uma ação de governo, apresentando a nossa realidade social e econômica, em meio a um país eminentemente agrícola.

È difícil, mas é possível acreditar na possibilidade de que existam alguns fotogramas desta película, talvez algo mais completo do filme, bastando para isto pesquisar de forma correta e trabalhar sério.

Encontrar o que sobrou deste material é rever uma Natal e um Rio Grande do Norte que não existem mais.

Não é necessário muito esforço para imaginar a importância que a descoberta material desta película teria para a história iconográfica do Rio Grande do Norte e para nossa história de maneira geral.

Apresentações

Após as filmagens, foi realizada a preparação das imagens no Rio de Janeiro, onde houve uma primeira exibição do “Cine-Jornal do Rio Grande do Norte” e a película volta ao estado. No dia 18 de outubro de 1924, o documentário começou a ser anunciado nos jornais locais. Era informado que este seria um “filme que interessa a todo riograndense do norte”.

A exibição ocorreu nas duas principais salas de exibição existentes em Natal, o Royal e o Polytheama, onde o material cinematográfico foi dividido em duas exibições, em 13 partes distintas. Na primeira apresentação foram expostas seis partes, no dia posterior, outras sete partes foram exibidas, tendo sido a película repetida por mais uma semana e de forma contínua.

Na primeira exibição o valor da entrada foi de 1$100 (um mil e cem réis), na segunda exibição o valor foi de 2$000 (dois mil réis).

Ainda segundo a opinião dos redatores de “A Republica”, o filme causou uma boa impressão na cidade. Entretanto, Américo Gentile, o proprietário das duas salas de projeção, baixou o preço da entrada para 1$000 réis.

Após estas apresentações, não se encontram notícias sobre outras exibições do documentário nos jornais e ele é esquecido.

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