A MILITÂNCIA E O SOFRIMENTO DO COMUNISTA MAIS FAMOSO DE NATAL

Doutor Vulpiano Cavalcanti de Araújo.

EM UMA ENTREVISTA CONCEDIDA EM 1984 AOS JORNALISTAS MARCO AURÉLIO DE SÁ, OSAIR VASCONCELOS E TICIANO DUARTE, O DR. VULPIANO LEMBROUA SUA LONGA MILITÂNCIA E O FAMOSO CASO EM QUE FOI OBRIGADO A FUGIR DE UMA MULTIDÃO EM JUAZEIRO DO NORTE, QUE ACREDITAVA QUE ELE E OUTROS COMUNISTAS ESTAVAM NA CIDADE PARA ROUBAR OS OSSOS DO PADRE CÍCERO.

Vulpiano Cavalcanti, cearense, 74 anos, médico ginecologista e obstetra, é militante do Partido Comunista Brasileiro desde os anos 20, quando se empolgou com a “Coluna Prestes” e começou a conviver nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro com os precursores do comunismo no Brasil. Nesses longos anos, à exceção de um curto período entre 1945 e 1946, o seu exercício político tem sido praticado sempre na clandestinidade. E por conta de suas ideias foi preso inúmeras vezes e até torturado. Neste depoimento, ele narra toda a sua trajetória política, principalmente no Rio Grande do Norte, para onde veio há mais de 30 anos, inicialmente para Areia Branca, Mossoró e Macau, e depois para Natal. Detalhes inéditos sobre a atuação do PC, revelação de sofrimento e de torturas físicas que enfrentou nos tempos de maior repressão ao comunismo, nomes de pessoas que perderam a vida em nome da causa em que acreditavam, e até nomes de alguns torturadores que agiram no Rio Grande do Norte são relembrados aqui por Vulpiano, um septuagenário que não se julga velho, mas apenas “usado e maltratado”. Confiante no processo de abertura democrática do país, nas eleições diretas para presidente da República e na legalização do PC, ele – que faz parte do Comitê dos Dirigentes Comunistas – espera que dentro em breve o partido possa levar sua mensagem às massas sem que os seus militantes estejam expostos às represálias e à violência.

MARCOS — Como e quando o sr. decidiu-se a ingressar no Partido Comunista?

VULPIANO — Isto é uma questão de gênese. Meu avô. Melo César, por parte de minha mãe, teve um irmão que morreu na revolução pernambucana, esquartejado. Meu avô por parte de pai foi nomeado comendador do Império, mas era um republicano. De maneira que ele esteve cotado para barão, mas morreu republicano. Ele era um sujeito liberal. Houve uma seca no Ceará e ele construiu um açude lá no Boqueirão de Arara, ao qual os pobres tinham livre acesso a água, que era uma coisa difícil. Por isso que eu digo: sempre fui revolucionário por uma questão de gênese, pois sou descendente de revolucionários.

OSAIR — Mas houve influências que o conduziram ao Comunismo? Os livros, os amigos. . .

VULPIANO — A principio, eu era “prestista”. E quem não era naquela época? Isso foi no tempo da “Coluna Prestes”, aí por 1922. Então, quando estudante de Medicina, eu fui da Aliança Nacional Libertadora, onde fiz grandes amigos e conheci grandes figuras. Na primeira vez que fui preso, tive notícia de que Carlos Lacerda que pertencia à “Juventude comunista” da época, chegou a chorar porque havia publicado um artigo numa revista onde ele mencionava praticamente todos os comunistas daquela época….

MARCOS — E quando foi a sua adesão?

VULPIANO — Eu passei a ler livros comunistas. Por exemplo: “O ABC do Comunismo”, de Bukarin Isso me indicou a direção. A convivência também me ajudou. Comecei a estudar Medicina na Bahia, depois me transferi para o Rio. Fiz amizade com Isnard Teixeira, com Simões de Menezes, e outros, e fui aceitando cada vez mais as ideias do Comunismo. Foi por esse tempo também que Carlos Prestes se decidiu pelo Partido. Desta forma, posso dizer que sou um militante da velha guarda.

TICIANO — O Sr. tem quantos anos de militância?

VULPIANO — Desde 1922, praticamente, até hoje. E nesse tempo todo, se o Partido passou dois anos na legalidade, foi muito!

MARCOS — Então, o Sr. formado em Medicina, militante do PC, como veio parar no Rio Grande da Norte?

VULPIANO — Eu me formei em 1929 e era um dos mais novos estudantes de Medicina, pois entrei na faculdade com apenas 17 anos. Concluído o curso, eu segui para Fortaleza, pois sou cearense. Lá procurei entrar para o Partido Comunista quando ele entrou para a legalidade, mais ou menos pelo ano de 1946. A partir daí, passei a ser membro de um partido legalizado. Depois, veio o problema do fechamento. O Presidente Dutra resolveu fazer uma tragédia por causa da prisão de um bêbado lá em Moscou. O nosso embaixador na Rússia, que era um beberrão, envolveu-se num incidente por lá e terminou sendo preso por desordem. “O Jornal”, de Chateaubriand, publicou então a fotografia do embaixador deitado no chão, apanhando dos cossacos. Isto serviu de pretexto para o nosso país cortar relações com Moscou. Mesmo na ilegalidade, continuei ainda no Partido Comunista. Foi nessa clandestinidade que eu terminei vindo para o Rio Grande do Norte, porque me perguntaram onde é que eu gostaria de servir. Como existia um parente meu — Nestor Falcão, tio do ex-ministro Armando Falcão — que me sugeriu que em Areia Branca havia uma oportunidade para mim, eu me instalei lá, onde venci como médico com uma facilidade incrível. Como Mossoró fica próximo a Areia Branca, eu ia muito até lá. E numa dessas vezes fui procurado por um dos médicos do hospital da cidade que me pediu ajuda. Ele me disse: “Colega, você é do Ceará, venha me dar aqui uma explicação. Estou com uma cliente que está perdendo muito sangue e eu não sei se o seu caso é um aborto ou se é uma gravidez”. Depois de ver o caso, eu disse que a mulher tinha de ser operada de urgência. E ele ponderou: “Mas não tem quem faca esta operação aqui!” Aí olhei para ele e respondi: “Eu faço”. “Mas toda cesariana que se faz aqui, morre mãe e filho” — afirmou o colega. Eu então disse que gostaria de tentar. E deu tudo certo. Com isso, correu logo o boato de que tinha chegado um médico em Mossoró que operava cesariana e não morria nem mãe nem filho. . . Assim foi a minha chegada em Mossoró! Porém quem fez mais propaganda minha mesmo foi o bispo Dom João Batista Porto Carrero Costa. . . Ele fez um sermão na igreja de Mossoró em que avisava às mães cristãs da cidade sobre a minha presença. Dizia ele: “Acaba de chegar a essa cidade um médico hábil, inteligente e culto, e por isto mesmo escolhido a dedo por Moscou para pregar o comunismo no Rio Grande do Norte”! Isto me deu um cartaz imenso e a minha clinica disparou. Eu já não dava vencimento à procura. Eu atendia muito em Areia Branca, mas operava em Mossoró, pois em Areia Branca não havia hospital. E interessante era o seguinte: como um automóvel era muito caro, ficava mais barato viajar de avião. Nessa época. Vieira, que era um ótimo piloto lá em Mossoró, era quem me transportava para Açu, Macau e diferentes cidades daquela área, onde eu atendia. Então, correu o boato de que “tinha chegado um médico, Dr. Vulpiano, que era enviado por Deus e que vinha voando atender as doentes”. E é verdade que eu ia mesmo voando, mas de teco-teco.

TICIANQ — E quando se deu a sua primeira prisão?

VULPIANO — Foi mais ou menos em 1952, quando eu me encontrava em Areia Branca. Chegando à cidade, fui me hospedar numa casa do Sindicato dos Salineiros. Então, por perversidade ou não, picharam na frente do prédio a frase “Viva o Partido Comunista”. Com isto, me botaram para fora do prédio. Ai houve um gesto muito bacana: os salineiros se reuniram e disseram: “Botaram o Dr. Vulpiano para fora. . . Pois a agora ele vai ser o nosso médico, o médico das nossas famílias”. E me contrataram me pagando um salário muito grande! Eu me senti reabilitado pela solidariedade. E eu atendia a todo mundo, até de graça.

MARCOS — E aí veio a prisão?. . .

VULPIANO — Eu estava em Macau… Já era o “assombro” do Rio Grande do Norte, com “a foice e o martelo na testa”, quando prepararam a minha prisão. Havia um sargentinho por lá que bebia muito… Ele reuniu o Tiro de Guerra e mandou me cercar, prendendo-me. Eu estava nessa ocasião com um plano de trabalho do Partido, onde constava exatamente uma greve dos trabalhadores das salinas. Mas eu escrevia tudo com uma letra muito miúda, que não se lia facilmente. Se letra de médico é ruim, vocês imaginem a gente querendo fazê-la ainda pior! Pegaram meus documentos.  Ai o sargento disse “Depois eu vejo. . .” e colocou-os de lado. No meio deles, estava o plano da greve. E eu fiquei pensando como tirar aquilo das mãos dele. Aí fixei os olhos em algum objeto do outro lado e ele acompanhou meu olhar. Enquanto isto eu passei a mão no papel e botei-o na boca. E foi aí que eu vi como é difícil a gente engolir papel. Lutei mas não consegui engolir. Depois, fui ao banheiro e o cuspi lá, dando descarga. Bom, essa foi a minha prisão de estreia. Eu me encontrava na companhia de Luiz Maranhão e mais dois outros companheiros de Partido.

TICIANO — Passou quanto tempo preso?

VULPIANO — Fiquei preso no Tiro de Guerra em Macau e depois me mandaram para Natal, com um pelotão de soldados me escoltando. Nesse momento eu disse a Luiz Maranhão: “Não estou gostando disto. É bem possível que sejamos mortos e digam depois que tentamos fugir”. Mas viemos sem problemas, a ponto de numa parada a meio do caminho, em João Câmara, eu informar a uma senhora que estava seguindo preso para Natal e ela dizer que não acreditava. Aí me voltei para os oficiais e perguntei “Vou ou não preso para Natal”? “Vai”. Aí a mulher acreditou e disse: “Ah, o Sr. é que é o Dr. Vulpiano? Já ouvi falar muito do seu nome e queria que o Sr. examinasse a minha filha que vai ser submetida a uma operação de fibroma. “Eu tive permissão de ir fazer o exame. Fui e vi que em vez de um fibroma, era um “filhoma”. . . E eu disse à mãe que não deixasse operar a moça, pois em três ou quatro meses o “fibroma” sairia naturalmente. . . (Risos). Então, vim para Nata! e não me lembro que tempo eu passei na prisão. Sei que estive preso aqui em Natal várias vezes. Numa das vezes um tenente da Aeronáutica — que depois foi servir no Canadá — criou um sistema de celas que tinham apenas uns quatro palmos de largura por sete de altura. E eu fui colocado numa dessas, nu, sem agasalho, com dois alto-falantes desses de rua, voltados para dentro da cela. Esses autofalantes ficavam a irradiar músicas.Não sei se vocês se lembram de uma música que imitava toda a bicharada? Que imitava o pato, o porco, o boi? Aquilo não tinha quem aguentasse ouvir três vezes, tão chata era a música. E eu tinha de ouvir aquilo dia e noite, a todo volume. A cela era de cimento armado, sem grades, e para o sujeito não morrer sufocado havia uma porta de ferro com uns furinhos que não dava para passar um dedo. Era um negócio chatérrimo. O Tenente Bravo da Câmara chegou algumas vezes a urinar por um desses buracos da porta, caindo a urina sobre meu rosto. Em me lembro de que eles aplicavam vários tipos de tortura. Um deles era o rádio relógio. Hoje, o rádio relógio é muito diferente: tem notícias, tem músicas. Naquele tempo era só aquele barulho: tum, rum, rum, tum . Tantos minutos para seis horas… tum, tum, tum. Passa um minuto de seis horas.  Tum, tum, tum . . . Aquilo era de lascar! O único momento de alívio que eu tinha ali em Parnamirim era quando eles chamavam a gente para o banho. Aquela aguazinha fria me fazia sentir retemperado para começar de novo. . . Eram proibidas as visitas. Eu ficava sem poder ver até a minha mulher. . . Havia do lado de fora um pássaro que repetia as primeiras notas da “Sonata Aurora” de Beethoven. Eu que sempre apreciei a música erudita, me deliciava com o canto da ave, mas ao mesmo tempo me revoltava mais com a prisão, vendo o pássaro em liberdade.

MARCOS — Mas o que ocasionou as suas prisões? Havia algum movimento a ser deflagrado?

 VULPIANO — Nunca houve movimento preparado aqui no Rio Grande do Norte. Se houve movimento aqui, preparado peles comunistas, foi no tempo de Getúlio, em 1935. O meu trabalho era apenas o de arregimentar. Eu, por exemplo, saía à noite com outro companheiro, para visitar algumas pessoas. Havia uma vigilância tremenda! Eu arranjei uma cabocla, filha do dono de uma casa para onde a gente ia, e saí de braço com ela, tentando despistar. Mas, quando vi, estava diante de um carro da Aeronáutica, do qual desceram os soldados para me prenderem. 0 interessante nessa ocasião foi que a Aeronáutica deu uma nota pelo jornal “tranquilizando as famílias norte-rio-grandenses” e dizendo que a Aeronáutica estava preparada para repelir qualquer movimento Comunista. Só que esse movimento nunca houve.

MARCOS — Havia que tipos de torturas físicas?

VULPIANO — Vejam com os seus próprios olhos. . . Esta grande cicatriz no meu braço esquerdo foi causada por pontas de cigarro. A água fervendo, chega a 100 graus. A chama de um cigarro vai a 600 graus. Enquanto eu era interrogado, na presença do major Hipólito da Costa, do capitão Souza Mendes e do tarado sargento Correia, eles queriam que eu dissesse os nomes da outros membros do Partido. E, diante do meu silêncio, eles encostavam o cigarro no meu braço e pelo corpo inteiro e gritavam “Responda, seu filho da… ” Como eu não nasci para ser dedo-duro, eu não falava. No auge das torturas, eu me lembrava dos nomes de alguns que já estavam presos e os citava, mas nunca denunciei ninguém, é claro! Outra tortura que eu recebi foi quando me pegaram uma vez no consultório, quando eu já morava em Natal e tinha o meu consultório numa sala ali na Avenida Rio Branco, no primeiro andar da Galeria Olímpio. Eu estava examinando uma senhora, quando chega o major Hipólito. Naquele tempo, a Aeronáutica usava uma farda caqui e eu pensei que fosse um- “mata mosquito”, um daqueles guardas da malária. Quando vi o sujeito empurrando a porta do consultório, eu disse: “Não é possível! O Sr. vai entrar aqui desta maneira?” Ele me deu voz de prisão e perguntou se eu ia reagir. Eu respondi que não e que estava ali realizando um atendimento médico a uma paciente. A mulher ficou lá tendo um ataque, fazendo o maior alarde. Então, o major Hipólito me arrastou escada abaixo e me levou preso em um jipe. Fui posto naquela mesma cela que eu já descrevi. Eu fui na ilusão de que não demoraria muito a ser liberado. Levei a minha identidade de oficial da reserva, joguei em cima da mesa com toda elegância, e o filho da mãe só fez olhar para mim, rasgar o documento e atirar na minha cara. Aí eu perdi qualquer ilusão. Essa prisão, as torturas, além dos alto-falantes, tinha uma sessão noturna de charanga, quando vinham aquelas pessoas com tambores bater nas portas das celas, para chacoalhar, acabar com os meus nervos. Mas não conseguiram não.

MARCOS — Quanto tempo o Senhor esteve preso?

VULPIANO — Eu sofri quatro prisões. A última, em 1964, me durou dois anos e dois meses. É preciso que vocês vejam o seguinte: pela legislação da época, eles só tinham direito de me prender pelo prazo de 60 dias, que era o período de averiguações. Mas isto foi esquecido! Depois de um ano e um mês, eu ouvi um boato de que ia sersolto. A empregada da minha casa ia me levar almoço no quartel e então mandei dizer à minha mulher que havia o boato da minha soltura, embora eu ainda não estivesse acreditando. São coisas que eu nunca consegui compreender. . . Eu tenho impressão de que um juiz, naquela época, queria me libertar. Eles não deixaram. Então, resolveram me botar num avião e me levaram para Pernambuco. Passei lá dois dias, fui muito bem tratado, bem alimentado e tive condições de cortar minhas unhas, fazer minha barba. Voltei de novo para cá, novinho.

TICIANO — Durante esse período o Senhor voltou a ser torturado?

VULPIANO — Não. Não digo que tenham me tratado bem, mas me trataram com respeito.

TICIANO — Mas o Senhor voltou ainda a ser preso outras vexes, não foi?

VULPIANO — Sim, a Polícia Federal. Sofri ainda duas ou três prisões pela Polícia Federal, mas não fui mais torturado. Fui bem tratado. Não sei se é porque eu sou maçon. Eu fiz os sinais maçônicos de socorro, que a gente faz sempre, e não me trataram mal. Pelo contrário!

OSAIR — Ao longo da sua trajetória profissional e política, o Senhor sofreu alguma discriminação da sociedade por ter uma ideologia diferente?

VULPIANO — Não. Jamais notei esse tipo de discriminação.

OSAIR — Embora o Senhor seja um comunista, nós estamos vendo aqui na sua biblioteca um exemplar da Bíblia.

VULPIANO — Esta Bíblia pertence à minha filha. Ê um dos maiores livros da humanidade. É um livro muito interessante. Se todo mundo lesse a Bíblia, a humanidade seria melhor, mas é um livro muito interessante.

TICIANO — Qual é a imagem que hoje você faz de Carlos Prestes?

VULPIANO — Eu já disse uma vez que tinha uma verdadeira adoração pelo “Cavaleiro da Esperança”. Eu tenho na minha biblioteca um livro de Prestes, que me foi oferecido por ele. Mas eu não gostei do livro, que é um negócio muito pessoal. O pessoal da direção do Partido chamou várias vezes Prestes para fazer crítica, autocrítica, e ele sempre recusou. Eu percebia que estava havendo alguma coisa, mas não podia imaginar que ia chegar à profundidade que chegou. Acabaram afastando, eu não diria expulsando Prestes do Partido. Ele continuou como um patrimônio histórico e não era possível expulsar um cara daquele, como os jornais geralmente afirmam. Giocondo Dias assumiu a secretario geral do Partido. Um amigo meu, Dr. Sarinho, uma vez me perguntou: “Com quem você está? Com Giocondo ou com Prestes?” Eu respondi: “Continuo com o Partido, Sarinho”.

TICIANO — E sua impressão de Giocondo?

VULPIANO — Eu conversei muito com Giocondo Dias, inclusive sobre um episódio que se comenta aqui no Rio Grande do Norte que teria ocorrido logo depois da revolução de 35, quando ele era cabo e liderou o movimento em Natal. Dizem que, depois da revolução, ele refugiou-se em Lages e lá teria tentado conquistar a mulher de um fazendeiro que o escondia. Ele nega o assunto completamente. Diz ele que naquele tempo tinha a ilusão da pureza do Partido. A mulher insistia para ter relações com ele. Com raiva da sua resistência, a mulher foi dizer ao marido que ele estava tentando conquistá-la. A coisa foi mais ou menos assim.

MARCOS — Por que o Partido Comunista nunca conseguiu um apoio popular mais amplo no Brasil?

VULPIANO — Em primeiro lugar, ainda não nos deram oportunidade de mobilização, não é? Se o Partido passou dois anos na legalidade, passou muito! E nesse curto espaço de tempo, Carlos Prestes se elegeu senador com 600 mil votos! Para fazer um proselitismo como nós desejaríamos, o tempo foi muito curto. Eu não creio que o Partido, apesar dos erros que tem — incontestavelmente tem e são sérios — não tenha capacidade de atrair o povo. Entre os maiores erros eu cito, por exemplo: o Partido Comunista, no chamado “manifesto de agosto”, preconizou o que nós chamávamos de preparação para a guerrilha, na esperança de que aqui no Brasil nós devíamos fazer como na China. Isto, mas ganhou em Natal. Natal ficou até conhecida com o “moscouzinho”.

MARCOS — Mas o que eu dizia é o seguinte; a nível nacional, talvez o PC não tenha influído na eleição de ninguém, mas a nível estadual os comunistas já deram valiosas contribuições na eleição de diversos governadores. Aqui mesmo no Rio Grande do Norte nós sabemos que em 1960, Aluízio contou com a simpatia dos comunistas.

VULPIANO — Um dia desses, até Ticiano escreveu uma história interessante, sobre o relacionamento de Aluízio com os comunistas. Quando eu estava preso em 1964, quiseram que eu informasse quanto Aluízio tinha dado ao Partido Comunista , e eu disse : “Ele até prometeu dar algum a contribuição, mas dizem que ele não gosta muito d e cumprir seus compromissos” .

MARCOS — O Senhor poderia relatar algo mais sobre sua militância comunista?

VULPIANO — Vou contar alguns episódios da época da legalidade. Uma vez eu saí de Fortaleza para o interior do Crato, de Juazeiro. Ia com Jeová Mota, Luiz Mendes e outro s companheiros. Estávamos tomando café num a pensão lá em Juazeiro quando entrou um matuto e cravou o punhal na mesa, declarando: “Quem for homem, diga que é comunista! “Quem é que ia ter coragem de dizer que era”? Nós íamos fazer um comício na cidade e mandamos distribuir uns panfletos. 0 padre então reuniu as “Filhas de Maria” dizendo-lhes que os comunistas iam roubar os ossos do Padre Cícero para mandá-los para Moscou. E insuflou-as contra nós. Nós estávamos na casa de um camarada que dizia ter muitos votos, mas terminamos vendo que ele só tinha conversa. E vimos aquela massa avançando em nossa direção. A sorte é que a casa tinha fundos para outra rua e nós tivemos tempo de correr. A massa ignara nos perseguia, entrando de casa em casa, revistando tudo , abrindo guarda-roupas . Fomos salvos por um maçon que despistou o pessoal, indicando que nós tínhamos fugido numa direção oposta à que nós realmente seguimos.

MARCOS — Com o Senhor pessoalmente está vendo essa luta da sociedade pelas liberdades, pela eleição democrática, por uma nova constituição, pelas diretas? Isto tudo pode acabar num novo fechamento do regime, ou a gente tende mesmo a encontrar uma saída democrática para o país?

VULPIANO — Incontestavelmente, o presidente é presidente só porque está cercado por alguns que o forçam a fazer certas coisas. Vejam por exemplo a saída do ministro Maximiano. Ele pediu demissão. Você s deve m ter percebido — e eu vi aqui pela televisão — a solidariedade que recebeu da própria Marinha. Quinhentos oficiais de alta patente foram recebê-lo no aeroporto. Não houve discurso, houve nada. Mas só a presença era como se eles estivessem dizendo “conte conosco”.

MARCOS — E a emenda que o governo deve estar mandando ao Congresso, propondo eleição direta para presidente só e m 1990?

VULPIANO — Eu vejo isto como uma coisa feita para atender a Figueiredo, mas não creio que isto aconteça não. Diante da campanha do país inteiro pelas eleições diretas-já , eles vão ter muita dificuldade de impor essa solução.

MARCOS — O Senhor acredita que saia a curto prazo a legalização do Partido Comunista no Brasil?

VULPIANO — Não só acredito como afirmo que não há democracia sem o funcionamento do Partido Comunista. No s Estados Unidos existe o Partido Comunista. Embora seja considerada uma entidade estrangeira, mas está lá! Vai haver a legalização no Brasil. É o povo que quer. Podem surgir ainda muitas dificuldades, mas essa luta será vitoriosa.

TICIANO — Cite uma figura importante do Comunismo no Rio Grande, do Norte, uma figura de sua admiração, a quem você atribua importância na luta pelos ideais comunistas no Rio Grande do Norte.

VULPIANO — Há quem diga que o Rio Grande do Norte teve dois mártires : Frei Miguelinho e Luiz Maranhão, sendo que este último morreu pela causa socialista.

MARCOS — O Senhor poderia enumerar alguns membros do Partido Comunista no Rio Grande do Norte que perderam a vida a o longo dessas lutas na clandestinidade?

VULPIANO — Daqui morreu bastante gente. Cito, por exemplo, aquele guerrilheiro macauense Migue l Moreira. Num livro sobre a Intentona Comunista, João Medeiros Filho conta como morreu Miguel Moreira. Ele convidou um companheiro para acompanhá-lo num assalto que ia fazer — assalto politico! — e o companheiro o seguiu, indo sempre atrás. Quando viu que ele estava a uma distância segura, matou- o pelas costas com um tiro de revólver. Tratava-se de um elemento infiltrado. Agora, dizer quem são os outros que perderam a vida, eu prefiro não dizer. Há tanta gente importante no meio disso. E o Dr. Vulpiano não é o único a saber.

ATENÇÃO – AS FOTOS AQUI APRESENTADAS FORAM REALIZADAS NO DIA 14 DE JUNHO DE 1984, NA CÂMARA MUNICIPAL DE NATAL, NA OCASIÃO EM QUE O DR. VULPIANO RECEBEU O TÍTULO DE CIDADÃO NATALENSE. INFELIZMENTE NÃO DESCOBRI A AUTORIA DESSAS FOTOS.

A POTÊNCIA DO NÃO: NISE DA SILVEIRA E MARY WOLLSTONECRAFT

Em 1944, após oito anos de perseguição política e afastamento, a médica Nise da Silveira tinha acabado de ser readmitida no serviço público quando se negou a realizar a prática da lobotomia. O não de Nise a um tratamento que seria considerado intolerável na psiquiatria seria um verdadeiro marco. Mesmo assim, Nise da Silveira só alcançou um reconhecimento maior depois que o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung legitimou o seu trabalho.

untitled

“Fala-se na fonte da sabedoria e na fonte da loucura. Mas elas não são duas. Não há fontes separadas, está tudo muito próximo.”
– NISE DA SILVEIRA

Autora – Daniela Lima

“A senhora vai aprender as novas técnicas de tratamento. Vamos começar pelo eletrochoque”, o psiquiatra apertou o botão e um jovem paciente entrou em convulsão. A expressão de terror foi se aprofundando no rosto dele, até que seu olhar ficasse parado. Vítreo. Vazio de tudo. Antes que ele pudesse se recuperar, foi levado para a enfermaria. Logo trouxeram outro paciente para outra aplicação de choque. O psiquiatra se virou para a senhora a quem pretendia ensinar e disse: “aperte o botão!”. Ao que ela respondeu: “não aperto!”. Era 1944 e Nise da Silveira tinha acabado de ser readmitida no serviço público após oito anos de perseguição e afastamento.

Durante esses anos todos que passei afastada, entrou em voga na psiquiatria uma série de tratamentos e medicamentos novos que antes não se usavam. Aquele miserável daquele português, Egas Moniz, que ganhou o prêmio Nobel, tinha inventado a lobotomia. Outras novidades eram o eletrochoque, o choque de insulina e o de Cardiazol. (SILVEIRA apud MELLO, 2014, p. 89)

Carl Jung
Carl Gustav Jung (1875 – 1961) – Foto Douglas Glass/Paul Popper/Popperfoto/Getty Images – Fonte – http://pablo.deassis.net.br/tag/carl-jung/

O não irredutível de Nise mostrou os primeiros contornos daquilo que seria considerado intolerável no tratamento psiquiátrico por todos aqueles que vieram depois dela – de Foucault a Basaglia. Mesmo assim, Nise só alcançou um reconhecimento maior depois que Jung legitimou o seu trabalho. O que fala muito de uma sociedade que ainda reduz a reverberação, ou até mesmo silencia, as vozes femininas que não são amplificadas por vozes masculinas.

A doutora vermelha

Nise chegou ao Rio de Janeiro em 1927, movida pela vontade de estudar neurologia. Ela e o marido, Mário Magalhães da Silveira, alugaram um quarto em Santa Teresa e foram surpreendidos pela vista da Baia da Guanabara e pela vizinhança que deixava ao alcance dos olhos a vida de escritores e militantes políticos. Certo dia, Nise percebeu um jovem batendo insistentemente na porta de Manuel Bandeira. Da janela, disse: “ele acabou de pegar o bonde”. Nise sabia que Bandeira estava em casa, mas a pequena mentira rendeu uma amizade com o poeta que, no dia seguinte, entregou a ela um livro com uma dedicatória em agradecimento. Esses encontros inesperados pareciam guardar um potencial explosivo para produção do novo.

Com o pouco dinheiro que me restava (…) aluguei um pequeno quarto no Curvelo, em Santa Teresa, quarto modesto, mas de onde eu gozava de uma paisagem maravilhosa. Rua muito pobre. Porém, tive a sorte de ter vizinhos extraordinários. De um lado, a família do líder comunista, muito culto, Octávio Brandão (…). Para enriquecer ainda mais essa rua, morava ali o poeta Manuel Bandeira. (Silveira apud Mello, 2014, p. 61)

830
A jovem Nise da Silveira – Fonte – http://semana.mct.gov.br/index.php/content/view/3546/Nise_da_Silveira_.html

Esse encontro inesperado entre a medicina, a poesia e a política abriram janelas para que Nise se tornasse quem era: ela não se atinha a livros, tratados e convenções, estava sempre questionando o saber estabelecido. Começou a estudar Marx e frequentar reuniões do Partido Comunista Brasileiro, também fez parte da ala médica da União Feminina Brasileira (UFB), que defendia os interesses de mulheres que viviam em situação precária.

Eu era interessada nas coisas políticas do país, mas sempre tive muita dificuldade em me acomodar em organizações. Eu não me acomodava dentro do Partido Comunista. Eu queria fazer concurso para medicina e os companheiros de partido não se conformavam que eu me dedicasse tanto tempo a esse concurso. Eu estudava dia e noite e, naturalmente, faltava muito às reuniões. Acabaram me expulsando acusada de trotskista. (Idem, p. 67)

Em outubro de 1932, Nise foi morar no Hospital da Praia Vermelha como médica residente. Ficava num pequeno quarto com mesa, cama e uma pia. Ela trabalhava no Instituto de Neurologia, mas estava sempre caminhando entre os pacientes internados no hospício que funcionava num prédio próximo.

I0020934-3Alt=005340Lar=003684LargOri=004912AltOri=007120
Jornal Correio da Manhã, 7 de março de 1934, p. 7 – Médica recém formada, Nise da Silveira não fugia dos embates públicos. Na foto uma resposta pública de Nise da Silveira ao Dr. Henrique Britto de Belford Roxo (1877 — 1969), médico psiquiatra, sobre a repercussão da morte de uma interna.

Nos livros lia-se que os esquizofrênicos não possuíam afetividade. Comecei a desconfiar dos livros. Morando no hospício, compreendi que não havia nada disso. Eles possuíam afetividade. O problema era como vir à tona. (…) A própria palavra hospício já criava um clima apavorante. Eu andava muito por ali e observava as mulheres internadas. E gostava muito delas. Comecei a me interessar por aquele mundo. (…) Não tive dúvidas iria me especializar em psiquiatria. (…) Desde cedo não concordava com os livros. Via a realidade dos doentes mentais e achava que os médicos da psiquiatria convencional, oficial, não estavam certos. Eram rígidos e partiam de princípios errados. (Idem, p. 70)

Encontrei uma moça que andava de um lado para o outro, como um azougue. Ela não conseguia construir uma frase. Tentei me comunicar (…). Ela não respondeu. Logo em seguida, veio a funcionária da lavanderia, que começou a preencher um rol de roupas e escreveu a palavra peignoir de maneira errada. Qual não foi a minha surpresa ao ver a moça parar, deter-se sobre aquela folha de papel e corrigir a palavra. Nesse momento, compreendi que tinha tentado me comunicar com ela de maneira muito limitada, muito clara, óbvia para mim, mas sem procurar entendê-la. Talvez ela andasse de um lado para outro exatamente para esquecer aquele mundo exterior, que eu vim lembrar a ela, achando que seria o único caminho para nos entendermos. (…) Você não pode querer compreender alguém estabelecendo apenas uma maneira de se aproximar dele. O importante não é a linguagem, é saber se comunicar com o outro. Se não, é como falar português com um árabe. (Idem, p. 71)

Menos de um ano depois de chegar ao Hospital da Praia Vermelha, Nise foi aprovada no concurso para médica psiquiatra da Divisão Nacional de Saúde Mental.

foto_05_1254277515._nise_da_silveira
Fonte – http://www.cultura.rj.gov.br/artigos/dez-anos-sem-a-dama-do-inconsciente

Em fevereiro de 1936, início da Ditadura Vargas, a União Feminina Brasileira (UFB) foi fechada. Nise foi presa pela primeira vez por trabalhar como médica voluntária da UFB. Essa prisão durou apenas algumas horas. No entanto, um mês depois, Nise foi presa novamente e levada para o DOPS, sendo transferida para o Presídio Frei Caneca, onde permaneceu até junho de 1937. O mais curioso da prisão de Nise é que ela foi acusada de “pertencer a um círculo de ideias incompatíveis com a democracia” (MELLO, 2014, p. 75).

Uma enfermeira do hospital [da Praia Vermelha] denunciou Nise ao diretor, acusando-a de ter em seu quarto “literatura comunista” em meio a livros de psiquiatria. (…) Enquanto Nise ficou presa, ela permaneceu na famosa Sala Quatro, o cárcere das presas políticas. (MELLO, 2014, p. 13)

Depois que me transferiram para a famosa Sala Quatro onde estavam, entre outras, Olga Prestes, grávida, e Elisa Berger (…). Elisa era fantástica! O marido, Harry Berger, também estava preso e sofreu até enlouquecer. Eles torturavam Berger de uma maneira terrível. (…) Ouvir aquilo tudo me atingiu muito. (…) a prisão foi uma experiência decisiva para a minha vida. (SILEVEIRA apud MELLO, 2014, p. 76)

I0040234-3Alt=005247Lar=003674LargOri=004899AltOri=006996
Um fato pouco conhecido foi que durante a prisão de Nise da Silveira, intercedeu ao seu favor João Café Filho, então deputado federal pelo Rio Grande do Norte e futuro Presidente da República.

Na prisão, Nise conheceu também o escritor Graciliano Ramos, que descreveu o encontro dos dois no livro Memórias do Cárcere: “noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos” (RAMOS apud MELLO, 2014, p. 77).

Mais de um ano depois, já em liberdade, Nise soube que Luiza, uma paciente com quem conversava muito e que costumava fazer café para as duas, derrubou a enfermeira delatora com um soco. Luiza era considerada “completamente embotada afetivamente e desligada da realidade” e, no entanto, agia com um extraordinário – e violento – senso de justiça. Esse episódio voltou à cabeça de Nise nos oito anos de afastamento do serviço público: o louco extrapolava o livro e os diagnósticos que pareciam querer aprisioná-lo tanto quanto o tratamento. A experiência do cárcere trouxe não só um possível paralelo entre a prisão e o hospício como também mostrou a Nise que a criatividade e o afeto têm potencial de cura. Era nas leituras e nas longas conversas com os companheiros de prisão que ela se sentia livre.

Um encontro possível: Nise e Wollstonecraft

Nise da Silveira nasceu em 1905, em Maceió. Com apenas 16 anos, foi aprovada no exame para a Faculdade de Medicina da Bahia. Era a única mulher numa turma de 157 homens.

terreirodejesus5
Faculdade de Medicina depois de 1905 – Fonte – http://www.medicina/ufba/br

Houve um episódio que mostra bem o preconceito (…) em relação ao fato de Nise, uma mulher, estar “ousando” estudar medicina… Numa das primeiras aulas, o professor de parasitologia, Pirajá da Silva, falou que ia ser criado um serpentário na faculdade. Em seguida, entrou na sala seu assistente com uma serpente dentro de um vidro. O professor pinçou-a e pediu que Nise segurasse o animal diante da turma. Ela imediatamente estendeu os braços e segurou o animal. Ela comentava comigo que neste instante percebeu nos olhos do professor a representação do mal, mas que se manteve firme. (MELLO, 2014, p. 52)

untitled
Nise da Silveira é a única mulher na foto – Fonte – https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/02/a-potencia-do-nao-nise-da-silveira-e-mary-wollstonecraft/

Mais de um século após a publicação de Reivindicação dos Direitos da Mulher, Nise via erguerem-se em tono de si muros semelhantes aos que separavam Mary Wollstonecraft de conquistar a cidadania plena. A conquista dos direitos pelas mulheres nunca é permanente. É necessário um estado de constante vigilância diante dos possíveis retrocessos. Nise não foi enviada à guilhotina, como aconteceu com Olympe de Gouges, mas teve que estremecer o muro tão sólido quanto invisível da falsa razão.

Empregam a razão para justificar preconceitos, assimilados quase sem saber como, em vez de desarraigá-los. Prevalece uma espécie de covardia intelectual que faz com que muitos homens recuem diante da tarefa ou simplesmente façam pela metade. No entanto, as conclusões imperfeitas a que chegam são, com muita frequência, muito plausíveis, porque se constroem a partir de uma experiência parcial e de pontos de vista justificados, ainda que estreitos. (WOLLSTONECRAFT, 2016, p. 32)

Mary_Wollstonecraft_cph.3b11901
Mary Wollstonecraft (1759 – 1797) – Fonte – http://www.thehistoryvault.co.uk/iconic-texts-dr-jenny-mcauley-on-vindication-of-the-rights-of-woman-by-mary-wollstonecraft/

A luta de Nise contra “a incompreensão dos psiquiatras e a violência dos tratamentos” (MELLO, 2014, p. 20) parece ter se apoiado nas palavras de Wollstonecraft. Um dos maiores símbolos dessa luta – e das terríveis perdas que Nise enfrentou pelo caminho – foi a lobotomia de um de seus pacientes.

Lúcio frequentava o Serviço de Terapêutica Ocupacional, fundada por Nise em 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional. Esculpia guerreiros que, segundo ele, o protegeriam na sua “luta cósmica contra as forças do mal” e chegou a participar de uma exposição do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

untitled2
Fonte – https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/02/a-potencia-do-nao-nise-da-silveira-e-mary-wollstonecraft/

Ele foi lobotomizado na mesma época da exposição, apesar de todas as investidas de Nise contra a tal cirurgia. “Vão decapitar um artista”, ela dizia. Nise publicou na revista Medicina, Cirurgia Farmácia de janeiro de 1955 a produção plástica de Lúcio antes e depois da operação. Seus trabalhos se tornaram irreconhecíveis, regredindo à mais primária condição. Esse exemplo de destruição da criatividade e da inteligência de um ser humano foi denunciado por Nise de diversas maneiras: em livros, palestras e no Primeiro Congresso Mundial de Psiquiatria, em Paris. (MELLO, 2014, p.20)

A lobotomia, hoje considerada um dos episódios mais bárbaros da história da psiquiatria, rendeu um Nobel a Egas Moniz. Fato que poderia ser confrontado com as seguintes palavras de Wollstonecraft: “até a verdade se perde em um emaranhado de palavras, a virtude se perde nas formas e o conhecimento se transforma em um sonoro nada por causa dos preconceitos enganadores que assumem seu nome”.

02_1
Nise da Silveira mudou a maneira como os pacientes psiquátricos eram tratados. (Foto: Reprodução/TV Gazeta) – Fonte – http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/03/confira-lista-de-grandes-mulheres-que-marcaram-historia-do-rio-veja-10.html

A atualidade do pensamento de Nise e Mary nos lembra de que, mesmo os direitos já conquistados, não são permanentes. Seja para a Luta Antimanicomial, recentemente ameaçada pela nomeação de Valencius Wurch para a Coordenação Nacional de Saúde Mental; seja para o feminismo, que sofre duros ataques do atual Congresso.

Para evitar essas sucessivas “decapitações” e “reconstruções de velhos muros”, é necessário transformar o “não” das mulheres que vieram antes de nós em força coletiva. Nas palavras de Wollstonecraft: “trabalhar reformando a si mesma para reformar o mundo”.

FONTE – https://blogdaboitempo.com.br/2016/05/02/a-potencia-do-nao-nise-da-silveira-e-mary-wollstonecraft/


Bibliografia:

MELLO, Luiz Carlos. Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Automática, 2014.
SILVEIRA, Nise da. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 2015.
WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos Direitos da Mulher. São Paulo: Boitempo, 2015.