1940 – O GLORIA COLITA E A HISTÓRIA REAL DE UM BARCO FANTASMA

AUTOR – Rostand Medeiros

No Mar do Caribe existe uma bela e interessante ilha chamada Bequia. Possui uma área estimada de dezoito quilômetros, pertencente politicamente a nação insular de São Vicente e Granadinas e atualmente com cerca de 5.000 habitantes.

Baía do Almirantado na Ilha de Bequia.

Nessa ilha existe a estonteante Baía do Almirantado, considerada há séculos um dos portos naturais mais seguros e tranquilos do Caribe, cujas águas são calmas e cristalinas. Ali as colinas verdejantes e arborizadas envolvem a baía num abraço acolhedor e a praia de areia fina contorna as águas turquesa como um cinto.

Não pela beleza, mas pela segurança da baía, que temidos piratas escolheram Bequia para ancorar suas embarcações.

Outra vista da Baía do Almirantado.

O notório pirata inglês Edward Teach, o conhecido Barba Negra, ancorou ali o navio mercante francês La Concorde em 28 de novembro de 1717, depois de o haver capturado perto da Ilha da Martinica. Esse barco veio com seus dezesseis canhões e dez quilos de ouro, além dos sobreviventes – uma tripulação francesa exausta e escravos africanos. Barba Negra usou a Baía do Almirantado para reformar o La Concorde, equipando-o com 40 canhões e deixando-o preparado para realizar seus temidos ataques. A nave passou a se chamar Queen Anne’s Revenge, tornando-se o mais forte e temido navio pirata do Caribe.

O Queen Anne’s Revenge de Barba Negra.

Segundo a lenda local, a região não era apenas a base de Teach, mas foi também o local onde Sir Francis Drake, explorador e corsário inglês, planejou seus ataques ao almirantado espanhol em Cartagena, sob o comando de Dom Blas de Lezo. Acredita-se também que o corsário galês Henry Morgan possa ter ancorado por lá para descansar dos muitos ataques que praticou aos navios mercantes na região.

Mapa com a localização da Ilha de Bequia.

No século XVIII Bequia se tornou o centro da construção naval no Caribe, principalmente na Baía do Almirantado, onde foram fabricados barcos a vela de vários tipos e tamanhos. A grande baía era ideal para esse tipo de atividade, pois além de ser bem protegida, com bom local para ancoragem e havia uma praia de areia que possuía naturalmente um declive suave, o que facilitava o lançamento dos barcos ao mar.

Ilha de Bequia na década de 1970.

O Gloria Colita

Séculos depois da passagem dos piratas pela Ilha de Bequia, vamos encontrar neste belo local a figura de Reginald Mitchell, um descendente de ingleses e aparentemente nascido na ilha.

Ele é descrito como um gigante ruivo e diziam que chegava a ter dois metros e treze centímetros de altura. Mas nada o deixava mais feliz do que construir barcos, já que era descendente de uma família de renomada construtores navais em Bequia e um capitão de habilidades excepcionais.

O Gloria Colita sendo colocado no Mar.

Em 1939 ele decidiu deixar sua marca construindo o maior barco já produzido na região das Pequenas Antilhas – o Gloria Colita. Era uma escuna de três mastros, com 165 pés de comprimento (cerca de 50 metros), 150 toneladas e uma tripulação de oito homens, além do capitão. Ele batizou o novo barco em homenagem à sua filha, Gloria Colita Mitchell, que nasceu em 1932.

O capitão Mitchell se especializou em transportar arroz, açúcar e madeira entre os Estados Unidos, Cuba, Guiana Britânica (atual Guiana) e a Venezuela. Mas esse intrépido comandante não apenas transportava cargas, ele igualmente comprava muito desses produtos e os vendia a quem desejasse. Era um trabalho árduo, mas lucrativo. 

Igreja na Ilha de Bequia, provavelmente na década de 1930.

No final de 1939, Mitchell comandou seu navio por uma rota de Cuba para a Venezuela e depois seguiu para a cidade de Mobile, no estado norte-americano do Alabama, já no Golfo do México.

Só que na Venezuela as coisas começaram a ficar estranhas!

Barco Fantasma

Por algum motivo ainda desconhecido, Mitchell demitiu toda a sua tripulação original nesse país e contratou uma nova tripulação que, segundo os jornais da época, “falavam espanhol”, mas não seriam venezuelanos. Fontes apontam que seriam provavelmente espanhóis que haviam deixado seu país devido à sangrenta guerra civil que assolava aquela nação.

Com a nova tripulação a postos, a ideia era que o Gloria Colita partisse de Mobile levando nos seus porões madeira para Cuba, mais precisamente para a Baía de Guantánamo. O certo é que a escuna deixou Mobile em 21 de janeiro de 1940 e essa foi a última vez que alguém viu Mitchell ou sua tripulação.

O hidroavião salva-vidas Douglas RD-4, matrícula 132, batizado como “Capella”, percorrendo as águas próximo a Estação Aérea da Guarda Costeira em Biloxi, Mississippi, pouco antes de um voo sobre o Golfo do México em missões de patrulha e resgate. Foto de Anthony V. Ragusin, Biloxi, Mississippi.

Em 4 de fevereiro de 1940, a Guarda Costeira dos Estados Unidos recebeu a notícia que o barco não havia chegado ao seu destino e foi iniciada uma extensa busca.

Foi então que uma aeronave de patrulha da Guarda Costeira, provavelmente um anfíbio Douglas RD-4, avistou o Gloria Colita. Nessa época havia anfíbios desse modelo na Estação Aérea da Guarda Costeira na cidade de Biloxi, Mississippi, distante cerca de 100 quilômetros de Mobile.

Barco patrulha da Guarda Costeira General Greene, do mesmo modelo do Cartigan.

O que a tripulação da aeronave viu foi um barco a cerca de 150 milhas, ou 240 quilômetros, ao sul da costa americana, visivelmente danificado, à deriva na Corrente do Golfo e sem nenhum sinal de vida a bordo. Então uma equipe de abordagem zarpou no barco patrulha Cartigan do Porto de Mobile até a escuna.

Como o Gloria Colita foi encontrado.

Segundo o livro Triangulo das Bermudas – Mistério desvendado (págs. 80 a 83, 1974), de Lawrence D. Kusche, os homens da Guarda Costeira ao chegarem ao barco sinistrado descreveram que “o convés era uma confusão de destroços”, que parte dos mastros e seus cordames haviam sido arrancados, além do leme ter desaparecido e uma das velas continuava içada, mas rasgada.

Duas informações não confirmadas afirmam que ainda havia comida na mesa da cabine e o barco estava completamente vazio, com exceção de um cachorro, talvez o mascote da tripulação. Conforme notícia publicada em 9 de fevereiro de 1940 pelo jornal Free Lance Star, do estado da Virgínia, “o barco apresentava extensos danos”.

Na sequência o barco danificado foi rebocado pelo Cartigan de volta para Mobile, enquanto outras equipes em três barcos de patrulha da Guarda Costeira vasculhavam o mar para localizar a tripulação, mas sem sucesso.

Então, o que aconteceu com os homens do Gloria Colita?

Teorias

Segundo o Free Lance Star, a razão do desaparecimento dos homens foi devido a “ventos repentinos que atingiram a escuna antes que uma das velas pudesse ser arriada, lançando a tripulação ao mar“. No livro de Lawrence D. Kusche existe a informação que jornais da época noticiaram que ocorreram tempestades na rota do Gloria Colita para Cuba, não sendo informada a gravidade dessas alterações climáticas.

Já um artigo de 13 de fevereiro do jornal Southeast Missourian, apresentou outra teoria: marinheiros experientes que examinaram os destroços acreditavam que ondas gigantescas — talvez com mais de 30 metros de altura — haviam atingido a embarcação, arrastando a tripulação para o mar.

Hoje se sabe que o fenômeno dessas ondas gigantes são basicamente ondas em mar aberto muito maiores do que as ondas circundantes, sendo grandes, imprevisíveis, que podem ser extremamente perigosas para navios e estruturas isoladas como faróis. Elas são distintas dos tsunamis, que são ondas de grande comprimento, muitas vezes quase imperceptíveis em águas profundas e causadas pelo deslocamento de água devido a outros fenômenos (como terremotos). No passado essa ideia de ondas gigantes era considerada um mito dos marinheiros e pescadores e a primeira somente foi registrada oficialmente em 1995.

Um navio mercante navegando em mar agitado enquanto uma onda enorme se aproxima. Foto tirada no Golfo de Biscaia, ao largo da França, por volta de 1940. Publicado na edição do outono de 1993 do Mariner’s Weather Log.

Mas existem outras histórias sobre o capitão e o misterioso barco abandonado. E são histórias mais sombrias!

Uma teoria defende que a tripulação espanhola se rebelou e matou Mitchell para depois tentar desaparecer no barco salva vidas do Gloria Colita (que não estava a bordo) e talvez tenham morrido na tentativa de fuga.

Membros da tripulação do submarino U-50 exibem suas Cruzes de Ferro em Wilhelmshaven, na costa alemã do Mar do Norte, em 2 de Março de 1940. Este submarino era do Tipo VII B e era comandado pelo Kapitänleutnant Max-Hermann Bauer. Um mês e dois dias todos os 44 tripulantes morreram quando o U-50 bateu em uma mina no Mar do Norte. Nesse período da Segunda Guerra nenhum submarino nazista se encontrava no Mar do Caribe.

Já outra teoria envolve os nazistas. Um submarino alemão estaria patrulhando o Caribe e o Golfo do México durante esses primeiros meses da Segunda Guerra Mundial e poderia ter capturado Mitchell. Ele teria então sido forçado a servir de guia e a tripulação do submarino eliminaram os marujos do Gloria Colita. Essa história surgiu após relatos de que “alguém” teria visto um indivíduo alto, sem uniforme, na torre de um submarino alemão, enquanto sua embarcação era afundada pelo canhão de convés. Contudo essa versão não se sustenta, pois simplesmente nesse período da Guerra a Alemanha Nazista ainda tinha poucos submarinos em ação e seus ataques se concentravam principalmente no Mar do Norte e perto da costa britânica.

Local onde o barco abandonado foi localizado no Golfo do México.

A partir da década de 1970, passaram a relacionar o caso do Gloria Colita ao chamado “Mistério do Triângulo das Bermudas”, embora seja um pouco forçado incluir o Golfo do México nessa área do Oceano Atlântico. Outra hipótese, agora no campo do fantástico, é a de que os tripulantes foram abduzidos por alienígenas e levados em um disco voador. Sem comentários!!!

Para finalizar sabemos que os restos da escuna foram vendidos a um americano para ser desmontado e esse barco sumiu da História!

O que realmente aconteceu a bordo do Gloria Colita e sua tripulação? Provavelmente nunca saberemos, mas certamente algo de muito ruim se desenrolou naquele barco!

Como nunca se soube de nenhum vestígio ou notícia dessa escuna e dos seus homens, a trágica história do Gloria Colita se tornou parte do folclore marítimo, onde sua lenda e a de seu capitão com mais de dois metros de altura continuam a crescer.

JESSE JAMES – O GRANDE BANDOLEIRO AMERICANO

Rostand Medeiros – Escritor e Pesquisador.

É ponto praticamente passivo a afirmação que o maior bandoleiro da história do Brasil foi Virgulino Ferreira da Silva, o conhecido Lampião.

Já nos Estados Unidos este título vai certamente para Jesse Woodson James, o Jesse James.

Para muitos este bandoleiro ganhou reconhecimento como um guerrilheiro, o último rebelde da Guerra Civil Americana, um símbolo que trouxe esperança para aqueles que ainda acreditavam na causa dos estados do Sul dos Estados Unidos. Mas para outros ele foi tão somente um assaltante de bancos, trens e carruagens, além de um impiedoso assassino a sangue frio.

Jesse Woodson James

Apesar de serem pontos de vista divergentes, ambos são verdadeiros.

Embora seja verdade que grande parte da história de Jesse James é puro mito, também é verdade que muito do que se sabe sobre esta figura é baseada em fatos reais. Mas com a ficção e a realidade agora enredada – é quase impossível separá-los.

Então, quem era Jesse James?

O Homem e Sua Guerra

Jesse Woodson James nasceu em 5 de setembro de 1847. Era filho de um pastor que morreu quando ele tinha apenas dois anos, e de uma mãe de personalidade forte, Zerelda, que se tornou a matriarca da família. Ele foi criado em um ambiente extremamente escravocrata, onde negro era comparado a um bicho de carga e consta que sua família tinha orgulho do sistema escravista. Morava em uma propriedade perto da cidade de Kearney, no estado do Missouri. Tinha um irmão mais velho chamado Frank, que com ele pegaria em armas, e uma irmã mais nova, Susan, e quatro meio-irmãos, frutos de um novo casamento de sua mãe com o Dr. Ruben Samuels.

Zerelda James – Casada com Robert James aos 16 anos, viúva aos 25, a mãe de Jesse, Zerelda, casou-se novamente aos 30 com o Dr. Reuben Samuel. 
Ela era uma figura dominante, uma feroz separatista com nervos de aço, uma língua dilacerante e um intelecto vigoroso.

Na época que Jesse James nasceu o seu mundo era extremamente maculado pela violência. Em 1850 o Missouri era um estado onde guerras de fronteira com os habitantes do vizinho estado do Kansas eram normais e tornou a vida muito perigosa para os que viviam no oeste do Missouri – vizinhos lutaram contra vizinhos e cada ataque brutal ocasionava ainda mais represálias brutais.

Mas o problema não era apenas com os vizinhos do Kansas. O Missouri era um estado com muitas facções armadas, mantidas por ricos fazendeiros, os “coronéis” deles, que lutavam por terra, dinheiro e poder. Ninguém foi poupado. Apenas arar seu campo poderia trazer a morte – e a noite não era difícil alguma casa ser queimada e o gado de algum proprietário ser roubado ou abatido a tiros. Mas também ocorriam contínuas batalhas internas e conflitos de fronteira por parte de pessoas que eram contra a escravidão – chamados de “Jayhawkers” (os nossos abolicionistas), que lutavam contra aqueles que eram pró-escravidão, chamados “Bushwhackers”. Sobre todos os aspectos, era um prelúdio sinistro e localizado do que seria a futura Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão.

Fazenda da família James em 1877.

Quando o grande conflito entre os estados do norte e do sul dos Estados Unidos oficialmente estourou, em 12 de abril de 1861, muitos habitantes do Missouri deixaram suas terras para lutar pelo exército do Sul, os chamados Confederados. Estes estavam com medo que suas famílias e propriedades fossem atacadas pelas forças da União, os do Norte. Para evitar isso, milícias armadas foram criadas para proteger os que ficaram. Frank James juntou-se a um destes grupos de proteção em 1861.

Um dos líderes desses grupos era um jovem de 24 anos chamado William Quantrill. Este organizou várias centenas de homens sob a sua liderança, oferecendo seus serviços para a Confederação. Eles foram empossados ​​em serviço no ano de 1862 e foram reconhecidos como uma parte importante da causa do Sul no Missouri (este reconhecimento é causa de extremas controvérsias até hoje nos Estados Unidos).

William Quantrill

Valente, astuto, um verdadeiro guerrilheiro, mas igualmente um sanguinário, William Quantrill e seus homens realizaram diversos ataques em várias localidades. Muitos de seus combates eram para a defesa dos habitantes do Missouri, mas muitas outras de suas ações não passaram de carnificina em massa, roubo desenfreado, estupros em quantidade e destruição massiva de patrimônio. O mais famoso  (ou infame) sucesso de Quantrill ocorreu na madrugada de 21 de agosto de 1863, quando seu grupo composto por mais de 300 homens, realizou um ataque contra a cidade de Lawrence, Kansas. Quando eles terminaram, mais de 150 habitantes foram mortos, 200 casas e empresas estavam destruídas. Frank James estava na incursão a Lawrence.

O ataque a Lawrence, Kansas, em 21 de agosto de 1863, foi a pior atrocidade contra civis na Guerra da Secessão.

Em represália as ações de guerrilha de Quantrill, as milícias pró-União invadiram as propriedades das famílias dos membros do bando, incluindo a fazenda da família James.

No sertão nordestino de Lampião, nas décadas de 1920 e 1930, quando a polícia (em grupos conhecidos como volantes) realizavam perseguições aos cangaceiros, não tinham nenhuma piedade para conseguir informações junto aqueles que acreditavam ajudar estes bandoleiros nordestinos (os chamados coiteiros). Sessenta ou setenta anos antes, a família de Jesse James sofreu da mesma maneira nas mãos das milícias pró-União. Um dos meio irmãos do futuro bandoleiro quase foi enforcado para abrir alguma informação sobre Frank. O próprio Jesse foi chicoteado impiedosamente e sua mãe Zerelda apanhou bastante, mesmo estando grávida. Consequentemente Jesse, então com 16 anos, passou a andar com Quantrill e mais tarde com o seu sucessor, Willian “Bloody (sangrento) Bill” Anderson. Este último era conhecido por cortar as cabeças de seus inimigos com uma típica espada de pirata e levava os escalpos de muitas de suas vítimas em seu alforje.

Em Combate 

Em agosto de 1864 Jesse estava com os guerrilheiros, quando ele foi baleado no peito, mas salvou-se e logo voltou à luta. Ele levou esta bala em seu corpo para o resto de sua vida. Em um ataque à cidade de Centralia, no Missouri, o bando de Bloody Bill Anderson matou 25 soldados da União desarmados e roubaram seus uniformes. Mais tarde uma tropa da União ao saber o que aconteceu, saiu em busca de Bill e seus homens. Quando eles foram encontrados, os guerrilheiros mataram mais de 100 dos seus perseguidores, em uma bem montada emboscada. Jesse foi identificado como aquele que matou o comandante dos soldados.

William “Bloody Bill” Anderson – Foi um chefe guerrilheiro cuja campanha de terror ao longo do rio Missouri em 1864 é amplamente considerada uma das mais brutais da história americana. Jesse James o seguiu durante essa época e nos anos posteriores falou com orgulho da filiação a esse homem.

Este seria o maior engajamento da carreira de Jesse como um guerrilheiro confederado. Dois meses após esta batalha, Bloody Bill foi morto em uma emboscada. Os dias dos guerrilheiros foram chegando ao fim, com muitos dos irregulares fugindo para os estados da Louisiana e Texas. Após a morte de Quantrill, os seus homens ou foram capturados, fuzilados, ou fugiram, incluindo neste último grupo Frank James.

Jesse James como um jovem guerrilheiro. Esta foto foi tirada em Platte City, Missouri, em 10 de julho de 1864, mostra o bandoleiro aparece com três revólveres modelo Colt Navy.

Enquanto Frank tinha ido para Kentucky, Jesse seguiu para o Texas, onde ficou até 1865. Após um tempo nesta inatividade, Jesse e alguns outros guerrilheiros decidiram voltar para o Missouri e se entregar. No caminho alguns soldados da União abriram fogo sobre eles e, pela segunda vez, Jesse foi baleado no peito. O ferimento era grave e ele foi levado para a casa de um tio, onde recuperou a saúde com a ajuda da prima Zee Mimms, por quem se apaixonou. Eles iriam se casar nove anos mais tarde.

O Guerrilheiro que se Transformou em Fora da Lei

Ressentimentos políticos, juntamente com dificuldades econômicas no Missouri, acrescentaram novas feridas a velhos problemas. Jesse e Frank James poderiam ter seguido para sua casa e objetivado levar uma vida pacífica, como fez a maioria dos outros guerrilheiros. Mas depois de uma vida tão “emocionante”, os dois irmãos logo se juntaram com alguns antigos guerrilheiros e começaram suas carreiras criminosas.

O líder guerrilheiro do Missouri Fletch Taylor (à esquerda), que mais tarde perderia seu braço direito, era o oficial comandante de Jesse James em 1864 antes dos James se juntarem ao grupo de “Bloody Bill” Anderson. Frank (no centro) e Jesse (direita) posaram para a rara foto em abril de 1864.

Salvo engano, Lampião passou 20 anos como cangaceiro, já Jesse e Frank James estiveram de armas na mão por 16 anos. Tal como Lampião, não se sabe quantos crimes os irmãos James cometeram, mas uma vez que eles tinham alcançado alguma notoriedade, foram acusados ​​de mais assassinatos e roubos do que poderiam ter realmente cometido. Coisas da fama!

Mas se Lampião visava atacar principalmente as casas dos proprietários rurais, onde ficavam suas economias pela falta de casas bancárias no sertão nordestino, nos Estados Unidos eram os bancos o principal alvo dos irmãos James.

Acredita-se que o primeiro banco que eles roubaram foi na cidade de Liberty, Missouri. O fato ocorreu em fevereiro de 1866, o bando tinha cerca de 12 homens, que entraram na cidade tranquilamente montados em seus corcéis. Deixaram o estabelecimento bancário com quase 60.000 dólares e dispararam contra dois espectadores, matando um. Outros roubos semelhantes ocorreram no Missouri e em estados vizinhos entre 1866 e 1867. Logo os irmãos James, juntamente com seus primos, os Youngers, são apontados como suspeitos dos assaltos. O bando passa a ser conhecido como quadrilha dos James/Youngers.

Jesse e Frank James

Qualquer que fosse a dúvida de que os James estavam envolvidos em assaltos a bancos, esta foi eliminada quando roubaram o Banco Davies, na cidade de Gallatin, Missouri, em dezembro de 1869. Depois disso, seus nomes, com recompensas por suas cabeças, seriam ligados a crimes no Missouri e em outros lugares.

Jesse entrou neste banco e pediu a John Sheets, um ex-capitão do exército União, caixa e principal proprietário do banco, para trocar uma nota de 100 dólares. Quando este se sentou para escrever o recibo, Jesse percebeu que aquele era um ex-oficial do Norte e, sem pestanejar, atirou na sua cabeça e no coração. Apesar de dois outros assaltantes terem disparado contra um funcionário do banco, este conseguiu escapar e alertou a cidade.

Jesse James

Seus habitantes se posicionaram e, como quase todo mundo no velho oeste tinha uma arma de fogo, dispararam impiedosamente sobre o bando na medida em que estes saiam do banco e tentavam pegar seus cavalos. Ao montar em seu alazão, Jesse James caiu e foi arrastado por cerca de 40 metros antes que pudesse retirar o pé do estribo. Ele então subiu na garupa do cavalo de Frank e fugiram. Só depois conseguiu tomar outro cavalo de assalto.

Logo a imprensa estampou que o assassinato do ex-oficial da União Sheets, teria sido uma “vingança política” e muitos sulistas aprovaram o assassinato cometido por Jesse.

O Nascimento de uma Lenda

Embora os membros da quadrilha dos James/Youngers afirmassem aos quatro ventos que roubavam dos ricos para dar aos pobres, não há registro de que eles tenham dado algo a alguém. O mais próximo disso foi pagando aos que os apoiavam durante suas fugas.

A quadrilha dos James/Youngers

A quadrilha então volta a sua atenção para outra fonte de dinheiro – as ferrovias. Eles atacaram o seu primeiro trem em uma noite de julho de 1873, em Iowa. A quadrilha também roubou diligências. Eles provavelmente teriam assaltado postos de gasolina e lojas de conveniência, se estas existissem na época.

Apesar de ser oferecido cada vez mais dinheiro pelas cabeças dos membros da quadrilha dos James/Youngers, eles seguiam tranquilos. Entre os roubos, os irmãos James se escondiam nas cidades médias e grandes. Jesse e Frank viveram em vários locais, junto com as suas respectivas famílias. Jesse e Zee Mimms tiveram um filho e uma filha. Frank também se casou e de sua união nasceu um filho. As duas famílias unidas, ajudavam os irmãos James a se esconderem nas áreas urbanas.

Jesse era vaidoso com sua aparência, fumava charutos e raramente bebia qualquer coisa alcoólica mais forte do que a cerveja. Apesar de algumas madames contestarem esta versão, consta que ele nunca traiu a mulher e jamais levantou a voz com crianças. Ele tinha duas marcas de balas no peito, outra na coxa e faltava um pedaço do seu dedo médio esquerdo. Ele também tinha um pé esquerdo ligeiramente torcido. Afirma-se que era canhoto, tinha uma voz de contralto. Lia a bíblia, podia recitar salmos e poderia cantar hinos religiosos se quisesse. Consta que nunca se arrependeu de seus roubos, ou de seus muitos assassinatos. Ele tinha uma grande necessidade de atenção, poderia ser muito gentil, muito educado e era bem versado sobre os acontecimentos do seu tempo.

Livros publicados no final do século XIX sobre Jesse James

Jesse e Frank James estavam nas páginas dos jornais de todo o país. Mas foi o jornalista John Edwards, um ex-oficial da Confederação, escritor e editor de vários jornais depois da guerra, que viu em Jesse uma oportunidade de criar um ponto de encontro para a oposição à opressão que os antigos militares do Sul sofriam daqueles que estavam no poder. Edwards tornou Jesse o símbolo de uma causa perdida.

Jesse gostava de seu novo status, tornando-se obcecado com sua imagem pública. Ele leu jornais e muitas vezes escrevia cartas para os jornalistas e até mesmo chegou a planejar assaltos com base em sua percepção da reação do público. Com a contínua campanha de propaganda, Jesse se tornou um herói para muitos.

O Fim da Gangue James/Youngers 

Os homens da famosa agência Pinkerton, de caçadores de bandidos, foram chamados várias vezes para capturar os membros da gangue James-Younger e não conseguiram. Em represália, numa noite de janeiro de 1875, várias bombas incendiárias foram lançadas na tradicional casa da fazenda da família James. Uma meia irmã de Jesse e Frank morreu e sua mãe Zerelda perdeu a mão.

Fazenda da família James, mantida totalmente original

O ataque pensado pelos agentes Pinkerton foi um fracasso, além de realizarem uma ação contra uma família indefesa, provocaram a morte de uma criança inocente, o que automaticamente trouxe simpatia e o apoio a quadrilha dos James/Youngers. Então veio o notório assalto ao banco em Northfield, Minnesota, em setembro de 1876.

Oito membros da gangue entraram na cidade, três ficaram em seus arredores, três entraram no First National Bank e dois ficaram do lado de fora. Quando o caixa do banco se recusou a abrir o cofre, sua garganta foi cortada e, em seguida, ele foi baleado – muito provavelmente por Jesse. Outro caixa fugiu para soar o alarme entre os moradores de Northfield. A rua foi imediatamente liberada pelos transeuntes e os habitantes da cidade começaram a atirar nos bandidos. Dois deles morreram, juntamente com um civil, e o resto da quadrilha fugiu.

Armas que pretensamente pertenceram a gangue James-Younger, em uma exibição na década de 1920.

Foi organizada uma caçada humana para rastrear os bandidos em fuga, esta acabou matando outro marginal e capturando Cole, Jim e Bob Younger. Jesse e Frank escaparam. O assalto foi um grande fracasso – três homens morreram, três foram presos (depois receberam sentenças de prisão perpétua), dois escaparam e nenhum dinheiro foi levado.

Hollywood aproveitou este fracasso do bando James/Younger na película “The Long Riders”, de 1980 (No Brasil foi intitulado “Cavalgada de Proscritos”), onde a cena deste assalto, apesar de certos exageros em relação ao fato real, é visualmente intensa (Veja a cena – http://www.youtube.com/watch?v=vr0MlCjzJak)

Bill Stiles e Clell Miller, do bando dos irmãos James, mortos no assalto de Northfield. Seus corpos foram fotografados em um estúdio. Embora pareça sombrio para os tempos atuais, fotos de bandidos mortos ou capturados e divulgados como lembranças. Isso também serviu ao propósito prático de ajudar em sua identificação.

A Morte de Jesse James por um Covarde

Depois de algum tempo, Frank decidiu sair do grupo e se aposentar. Já Jesse buscava montar um novo bando para continuar roubando por mais alguns anos. Mas os tempos e a política começaram a mudar. A eleição de Thomas T. Crittenden para governador do Missouri em 1880 foi o começo do fim para Jesse.

Na esperança de manter o grupo vivo, Jesse convidou os irmãos Robert (ou Bob) e Charles Ford para participar de um assalto ao banco da localidade de Platte City. Entretanto os irmãos já tinham decidido não participar de roubo algum, mas receber a recompensa de 10.000 dólares pela cabeça de Jesse. Ação que era patrocinada pelo governador Crittenden.

Robert Ford

O governador prometeu aos irmãos Fords um perdão completo pelo passado de crimes, mas eles teriam de matar Jesse, que era então o criminoso mais procurado dos Estados Unidos. Crittenden tinha elegido a captura dos irmãos James como sua prioridade política. Barrado por uma lei que não autorizava o oferecimento de uma recompensa vultosa pela captura de bandidos, o governador buscou apoio nas estradas de ferro e estes lhe cederam os 10.000 dólares.

Foto recentemente apresentada, que mostra Robert Ford (à esquerda) e Jesse James. A foto mostra o notório fora da lei americano e seu infame colega de gangue, que o trairia em troco da recompensa, matando-o a tiros em 1882. Ela pertence a uma família de fazendeiros do Texas, transferida de geração em geração. Eles passaram os últimos anos tentando provar que era legítima. A legista Lois Gibson, do Departamento de Polícia de Houston, confirmou sua autenticidade em 30 de setembro de 2015. Ela pode render muito dinheiro para a família.

Em 3 de abril de 1882, os irmãos Ford estavam junto com Jesse e sua família – a respeitável família Thomas Howard – em uma casa em Saint Joseph, Missouri. Depois de tomar café da manhã, os Fords e Jesse James entraram na sala de estar em preparação para a viagem para Platte City. De acordo com Robert Ford, tornou-se claro para ele que Jesse tinha percebido que ele e seu  irmão estavam lá para matá-lo.

Desenho mostrando o assassinato de Jesse James por Robert Ford

No entanto, em vez de xingar ou matar os Fords, Jesse atravessou a sala de estar, colocou seus revólveres em um sofá e depois subiu em uma cadeira para tirar a poeira de um quadro. Bob Ford vendo a oportunidade, tirou o seu revólver calibre 44 do coldre, apontou-o para a parte de trás da cabeça de um homem desarmado e puxou o gatilho. Jesse ouviu o barulho do engatilhamento da arma e foi virando a cabeça, quando a bala o atingiu.

Casa onde Jesse James foi morto, hoje um museu.

Após o assassinato, os Fords foram ao encontro do governador Crittenden para reivindicar sua recompensa. Eles se entregaram às autoridades legais, mas ficaram consternados ao descobrirem que foram acusados ​​de assassinato em primeiro grau. Em um dia, os irmãos Ford foram indiciados, se declararam culpado e foram condenados à morte por enforcamento. Duas horas depois, Crittenden lhes concedeu um perdão completo. Apesar do acordo, os irmãos Ford receberam apenas 500 dólares, uma fração do dinheiro originalmente prometido.

O corpo do bandoleiro Jesse James.

Por um tempo Bob Ford ganhou dinheiro posando para fotos como “o homem que matou Jesse James”. Junto com seu irmão reencenaram o assassinato em um espetáculo por várias cidades. Mas o desempenho dos Fords não foi bem recebido. A maneira como Bob havia assassinado Jesse James, enquanto ele estava de costas e desarmado, trouxe muitas inimizades em diversas cidades onde o espetáculo foi realizado.

Com tuberculose e viciado em morfina, Charles Ford se suicidou em 4 de maio de 1884. Quase dez anos depois do assassinato de Jesse James, no dia 8 de Junho de 1892, Robert Ford era dono de um saloon em Creede, no Colorado, quando foi morto com dois disparos de uma espingarda calibre 12 no peito. O assassino foi um homem que aparentemente tinha problemas mentais e desejava ficar famoso como “o homem que matou o homem que matou Jesse James”.

Vejam que ser famoso já não era fácil desde aquela época!

Propaganda de um show onde as atrações principais eram Frank James e seu primo Cole Younger

Propaganda de um show onde as atrações principais eram Frank James e seu primo Cole Younger

Depois que Jesse foi morto, seu irmão Frank se entregou às autoridades em 1882. Ele foi julgado e absolvido por um júri simpático. Nos últimos trinta anos de sua vida Frank trabalhou em vários empregos, inclusive como vendedor de sapatos e, em seguida, como um guarda de teatro em St. Louis. Durante algum tempo, junto com seu primo Cole Younger, participaram de shows itinerantes onde apresentavam as suas aventuras do passado. Em seus últimos anos, Frank James voltou para a tradicional fazenda da família James. Ele morreu em 18 de fevereiro de 1915, com a idade de 72 anos.

Legado – Jesse James, um Ícone da Cultura Pop 

Tal como ocorreu com Lampião no Brasil, tão rapidamente quanto os jornais anunciaram a sua morte, rumores da sobrevivência de Jesse James proliferaram. Alguns disseram que Robert Ford matou alguém parecido com Jesse, em uma trama elaborada para permitir-lhe escapar da justiça. Estes contos têm recebido pouca credibilidade e nenhum dos biógrafos deste bandoleiro famoso apoiaram as versões de sobrevivência como plausível.

Cartaz origina oferecendo uma recompensa pelos irmãos James.

Nos Estados Unidos já foram rodados mais de 70 filmes e programas de TV sobre Jesse, ou incluindo Jesse, e a saga cinematográfica deste fora da lei é longa. O primeiro filme sobre ele foi feito em 1920 e estrelado por seu filho, Jesse James Jr. Mais recentemente, Brad Pitt interpretou o fora da lei em “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”. Houve também várias apresentações de palco. Jesse James também foi o herói em muitos romances baratos e objeto de vários livros e inúmeros artigos.

Tal como Lampião no Brasil, Jesse James continua a ser um símbolo controverso, que sempre pode ser reinterpretado, de várias maneiras, de acordo com as tensões e necessidades culturais.

Fontes – http://clevelandcivilwarroundtable.com

http://en.wikipedia.org/wiki/Jesse_James

http://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/films/james/

http://www.civilwarstlouis.com/History/jamesgang.htm

http://www.jessejames.org/

http://www.jessejames.org/photo_gallery

http://deadbutdreamin.files.wordpress.com

http://www.legendsofamerica.com/we-jamesyoungergang3.html

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FLYING DUTCHMAN – O MAIS FAMOSO NAVIO FANTASMA

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Rostand Medeiros

A forma mais comum ao qual o grande público em geral imagina um navio fantasma, é aquele tipo de barco que vaga sobre as ondas quase flutuando, quase sempre sem tripulantes, que desaparece nos nevoeiros, navega assustando aqueles que os avistam e sempre surge na forma de um antigo veleiro (engraçado, mas nunca li nada sobre alguém ter visto um navio fantasma sem velas, que fosse movido a diesel e soltasse fumaça).

Bem, dentre todas as histórias envolvendo naves do além, sem dúvida a mais famosa é a do veleiro supostamente holandês chamado Flying Dutchman. Ele é temido pelos navegantes como um presságio de desastre.

Consta que em 1680 um veleiro mercante partiu de Amsterdã em direção a Batávia (atual Jacarta, na Indonésia) sob o comando de um capitão sem escrúpulos chamado Hendrick Van der Decken. Durante uma tempestade, ao contornar o famoso Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África, os fortes ventos acabaram levando o barco para fora do curso marcado e, em um acesso de raiva, diz-se que o capitão Van der Decken amaldiçoou a Deus e murmurou que preferia navegar até o Juízo Final. Por causa disso ele foi forçado a continuar navegando pelos mares do mundo para sempre. Já outros relatos dizem que o Flying Dutchman só pode ser visto na área do Cabo da Boa Esperança, pois a maldição não permitiu que ele alterasse o seu curso.

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Independente desta questão, afirmasse que se alguém avistar o Flying Dutchman, pode preparar os galhinhos de arruda, arrume lá da Bahia umas velas “sete dias e sete noites”, separe uma boa quantidade de sal grosso de Macau e se ponha a rezar com todo fervor, pois algo terrível vai acontecer.

Possivelmente quem primeiro relatou publicamente ter visto o Flying Dutchman foi a tripulação de um veleiro britânico em 1835. Estes informaram terem visualizado um “navio fantasma” velejando em meio a uma tempestade severa. A guarnição britânica disse que o barco parecia estar em rota de colisão, mas então repentinamente desapareceu. Logo o tal barco fantasma foi visto por outras tripulações, principalmente na região do sul da África.

Para muitos o Flying Dutchman seria apenas uma lenda, um mito, ou puro folclóre. Mas houve informações transmitidas por pessoas que eram tidas como gente séria, de confiança na sua época e muitos destes relatos foram corroborados por testemunhas.

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Um dos mais famosos encontros ocorreu em 1881, quando o barco de guerra HMS Bacchante, na companhia de outras três belonaves, realizava um grande cruzeiro de adestramento e patrulha naval de três anos ao redor do mundo. Entre os tripulantes estavam dois jovens cadetes navais bem especiais, eram os príncipes George e Albert, netos da rainha Vitória.

Uma noite fria, o príncipe George (futuro rei George V) estava de guarda no passadiço do navio, quando ouviu o grito de um marinheiro que estava no alto de mastro, informando a presença de um “barco estranho”. O príncipe e outro oficial também viram a nave. No outro dia a história se espalhou no HMS Bacchante e logo o Flying Dutchman cobrou seu preço. Mas parece que a maldição do navio fantasma era bem seletiva, pois o futuro rei e o oficial de serviço morreram idosos, mas o pobre coitado do marinheiro que o viu morreu poucos dias depois ao cair do mastro principal.

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Consta que ainda em 1881 outro navio passou no caminho do Flying Dutchman. Este era um navio mercante sueco e outro pobre marinheiro, ao avistar o navio fantasma, igualmente despencou do seu posto no alto do mastro e morreu, mas não antes de dizer que o navio visto era o Flying Dutchman. Dois dias depois um segundo vigia deste mesmo barco foi enviado até o alto do mastro, viu a nave maldita e também morreu de uma queda.

Poucos anos depois a tripulação do barco americano Relentless, ao contornar o perigoso Cabo da Boa Esperança, viu o Flying Dutchman com consequências funestras. O capitão do barco americano ordenou ao seu timoneiro que se aproximasse do navio do além para que ele pudesse dar uma olhada melhor, mas o piloto morreu ao timão. Nas mesma noite três outros tripulantes morreram misteriosamente.

Este tipo de relatos, fossem mentirosos, ou não, continuou alimentando a lenda e nos anos posteriores o Flying Dutchman foi visto novamente. Em 1911 o barco inglês Orkney Belle se deparou com o navio fantasma e em 1914 este foi um dos primeiros navios britânicos afundados na Primeira Guerra Mundial.

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Existe o relato que em 1939, na praia sul-africana de Glencairn, em Cape Town, mais de sessenta pessoas que estavam tranquilamente a beira mar tomando banho de sol, viram o Flying Dutchman seguir célere em direção à uma barreira de pedras. Logo depois a nave desapareceu diante de todos os presentes.

Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, aqui e acolá o Flying Dutchman era visto pelos beligerantes de todos os lados do conflito. Em 1942, de acordo com o almirante alemão Karl Doenitz, algumas tripulações de submarinos sob seu comando, em patrulha na região do cabo da Boa Esperança, relataram o avistamento do Flying Dutchman.

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Neste mesmo ano, próximo a mesma área onde o príncipe George viu o Flying Dutchman em 1881, o famoso barco fantasmas foi visto por um oficial da nave de guerra inglesa HMS Jubilee. O tripulante em questão foi o tenente Nicholas John Turney Monsarrat, membro da Royal Naval Volunter Reserve (RNVR), que uma noite estava de vigia e sinalizou com iluminação para um estranho veleiro, mas não recebeu resposta. Ele escreveu no diário de bordo do seu navio que havia visto uma escuna de uma classe desconhecida, que a mesma estava se movendo com suas velas cheias, mas não havia vento. Após a guerra o tenente se tornou o escrito Nicholas Monsarrat, autor de vários livros de sucesso na Inglaterra, como “The Cruel Sea” (1951).

Bem, Monsarrat poderia até gostar de escrever, mas em um navio, principalmente em uma nave de guerra, o que se escreve em um diário de bordo deve ser a letra da verdade, pois se não for gera severas punições. Ao relatar no diário de bordo o avistamento do Flying Dutchman, o tenente Monsarrat tornou o relato oficial. Não sei o que seus superiores acharam dele ter visto e escrito sobre este navio fantasma, mas aparentemente a sua carreira não foi afetada.

Em 1943, novamente na África do Sul, novamente em Cape Town, de uma de suas praias, quatro pessoas viram o Flying Dutchman navegando e desaparecendo atrás de uma ilha.

Em 1959, a tripulação do navio cargueiro Staat Magelhaen viu um veleiro aparecer na popa, em uma rota de colisão, era o Flying Dutchman. Assim que as duas naves estavam prestes a bater, o veleiro desapareceu. Mas foi possível avistar uma pessoa no timão, este seria o capitão Van der Decken cumprindo a sua sentença de condenação.

Comenta-se que o Flying Dutchman ainda é visto, mesmo nesta época de radares, GPS, orientação por imagens de satélite etc. Principalmente pelo pessoal de serviço no convés das modernas naves, quase sempre as três da manhã, quase sempre perto do cabo da Boa Esperança, de preferência em meio a uma tempestade.

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E então amigos do nosso “Tok de História”, as histórias envolvendo o Flying Dutchman seriam reais? Mentiras deslavadas? Miragens?  Ilusão de ótica? Efeitos da fadiga por ficar visualizando o escuro mar tanto tempo na madrugada e em meio a uma tempestade?

Real ou não, são relatos como estes que alimentam o interesse das pessoas por fatos históricos ligados aos oceanos.

Fotos – Coleção do autor.

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