A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE

Rostand Medeiros https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Desde que comecei a ler livros e a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular sempre me chamou muito a atenção. Foram as circunstâncias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.

Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.

Cangaceiro, de Portinari

O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural e ferido, ainda conseguiu, em um primeiro momento, fugir, sendo morto apenas alguns dias depois, através de uma emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais o ajudava em seu restabelecimento.

Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam nos inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que, no caso de a história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.

Não sabia o quanto estava enganado.

AS ORIGENS DO CONFLITO

Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.

Chico Pereira

O fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho, chamava-se Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.

Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região era de que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa. Entre os prováveis articuladores, constava o nome de Otávio Mariz.

O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas. Logo, este membro da influente família Mariz envolveu-se em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.

Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba – Fonte – http://nazarezinho.informecapital.com.br

Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira exaltou-se. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra seus inimigos em Sousa.

Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois de seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.

O coronel José Pereira, no destaque de gravata.

Por esta época, Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte.

O mais importante cangaceiro brasileiro recuperava-se na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.

Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas. Em contrapartida, seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro, 1974), afirma, na página 273, que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque àquela cidade não traria problemas junto aos seus protetores e, assim, ficaria mantido o pretenso acordo.

Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro, alto e forte, conhecido como Meia-Noite.

O cangaceiro Meia Noite

Segundo o escritor Érico de Almeida, no livro “Lampeão – Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite chamava-se Antonio Augusto Feitosa. Teria, em 1924, a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas, e possuía a fama de ser extremamente valente.

Diante de uma horda composta por um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.

Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.

O saque foi tão desenfreado que até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a tal ponto que, durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para tentar controlar as feras que ele mesmo havia incentivado a atacar a cidade.

João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor do livro “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” (Recife, 1990), afirma, na página 143, que Chico Pereira foi “quem muito defendeu Sousa de piores desatinos”.

Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história daquela cidade. Em nossas pesquisas na região, ao entrarmos em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, é facilmente perceptível o constrangimento dessas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.

Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do ocorrido espalhava-se pela Paraíba e pelo Nordeste.

Logo após tomar conhecimento dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam a lhe oferecer a mesma proteção e o apoio de outrora.

Marcolino Diniz e seus cabras

Justamente nesta hora, quando o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu, no seio do bando de Lampião, a saída de um dos seus mais destemidos membros.

Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.

Logo se iniciou uma discussão. Sem medo de nada, o cangaceiro enganado pelos companheiros apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, que, por sua vez, afirmavam inocência. O clima esquentou. Meia-Noite logo se colocou pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser.

Lampião, em pessoa, interveio no conflito, mas naturalmente se posicionou a favor dos irmãos, e a situação quase chegou a um desfecho trágico.

Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite

Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem conhecia há alguns anos, Lampião decidiu então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.

Após a entrega do dinheiro, Lampião impôs uma condição: seu companheiro teria de entregar suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que, estando desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto.

O valente negro não se fez de rogado. Colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais o acompanhava a vir tomar seu armamento.

Segundo relatos obtidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 274 e 275) junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues — que anteriormente ouviu a história do cangaceiro Lua Branca, presente à cena —, nesse momento todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião. O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado diante da afronta, baixou a guarda. Além do mais, não havia muito o que fazer, pois, se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não. O cangaceiro negro foi, então, expulso do bando e seguiu viagem pelas estradas do sertão.

Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros

Em sua juventude o Senhor Antônio Antas Dias, que vive na cidade paraibana de Manaíra e não muito distante de Princesa, conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antônio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, com Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”, e com outro homem conhecido como “Tocha”. Todos eles eram homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.

Altivo, tranquilo e prestativo, Antônio Antas foi quem me fez conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões. Em uma delas, perguntei ao amigo Antônio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa, ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje (2008), e que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada. O mais importante: havia pessoas, filhas daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.

O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra

Parti junto com Antônio Antas para visitar o local e resgatar, junto aos filhos das testemunhas — pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos e que continuam lúcidas —, a memória desse acontecimento. Essas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas em um ambiente mais tranquilo, anterior à massificação do rádio e da televisão, que era mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos fosse transmitida de forma rica em detalhes. O resultado foi muito animador.

A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS

O agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos à época de minha entrevista (2008) e morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, narrou-me que seu pai, Manuel Moraes, assistiu de sua casa (onde até hoje Anastácio reside) a todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio, homem calmo, tranquilo e calejado nas lides do campo, comentou que, para as pessoas da região, o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato de ele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular pela região sempre à noite.

Casa Grande dos Patos

Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isso ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa à fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, a atual comunidade do Saco dos Caçulas ou as casas da propriedade Tataíra. São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase fechada, um verdadeiro “saco”.

Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerada um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé André. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola ou uma coronha. Anastácio e Antônio Antas o conheceram em plena atividade e são unânimes em afirmar que André era um verdadeiro artista.

É conhecido na região que, muitas vezes, Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado de seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica dessas jogatinas eram as apostas com altas somas de dinheiro.

Os cangaceiros não ficavam fixos em uma única casa; estavam sempre passando de um refúgio para outro. A residência que eles mais apreciavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e era muito ligado a Marcolino Diniz.

Nesse refúgio, era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, local onde bailes eram frequentemente realizados. O agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas dessas festas ao lado de outras pessoas da região.

Segundo ele, sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que tenha sido em um desses bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.

Igreja de Patos do Irerê

Sobre essa sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem posicionaram-se contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo, ela fugiu com seu cangaceiro.

A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA

Mas, depois do ataque a Sousa, tudo mudou.

Lampião foi avisado de que deveria deixar a região do Saco dos Caçulas. Logo, ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e por homens contratados por José Pereira.

Diante da nova situação e do seu retorno à região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local; seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque.

Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, uma pistola e um punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.

Manoel Moraes informou a seu filho que, pela proteção e pelo silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro, que satisfaziam aqueles que lhe davam abrigo e deixavam outros se roendo de inveja.

Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, pertencente a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira o local onde Meia-Noite se encontrava.

A antiga Pincesa Isabel

Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280), o coronel ordenou a um de seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, trazendo a ordem de:

“– Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”.

Esta ordem significava que deveriam trazê-lo amarrado vivo ou, caso estivesse morto, transportá-lo amarrado a uma vara, carregada por dois homens.

Às nove da noite, Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro e logo chegou à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e com homens batendo à sua porta. Ao abrir, Zé André se assustou com as pessoas armadas, que lhe perguntaram de forma ríspida se Meia-Noite estava homiziado em sua casa ou se ele sabia de seu paradeiro. Ele negou conhecer a localização do cangaceiro; os homens aceitaram a informação e seguiram em direção às casas do sítio Tataíra.

Zé André não foi molestado, mas não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.

Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão.

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280) informa que, realmente, a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas, e que o grupo já estava desanimando com o resultado, pronto para retornar a Princesa.

Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram residências muito grandes; possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “duas águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com grandes tijolos maciços e aparentes. Perceberam que uma das casas servia de moradia e a outra funcionava como local de transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, o que deixava os atacantes em desvantagem, pois quem estava no interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.

O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não obtiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo, uma voz de mulher se fez ouvir. Os membros da volante pediram para entrar, mas a voz feminina afirmou ser de uma mulher idosa, que estava sozinha e não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força na porta. A voz feminina perguntou: “— Se são homens do coronel?”. Diante da resposta afirmativa, Meia-Noite deixou de lado o disfarce e abriu fogo, em meio a uma série de impropérios, palavrões e baixarias.

Lateral da casa do sítio Tataíra

Manoel Virgulino interpelou o cangaceiro para que se entregasse, pois iriam pegá-lo “vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu: “— Nem morto nem vivo, e quem entrar leva tiro!”.

Teve início, então, aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longos e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.

O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA

Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saíam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região quanto a literatura existente são taxativas em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.

O esperto Meia-Noite tinha certeza de que os homens de José Pereira desconheciam sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com o blefe de que seus companheiros os atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que, diante da possibilidade de seu grupo sofrer uma emboscada, Manoel Virgulino tenha dividido o contingente de ataque, e essa atitude ajudou a prolongar o cerco.

Outra vista da casa

O combate se prolongava. A madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que, com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.

Em dado momento, Meia-Noite pediu garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira, aquela zoada, aquela tensão, eram demais. Os homens de Manoel Virgulino informaram que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também teria sua vida poupada para seguir para sua cela em Princesa.

Valentão e ousado, ir para a cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite, e sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.

Mas, diante da situação da jovem e das palavras de seus inimigos, que diziam que ele era covarde por manter a mulher dentro da casa, houve uma trégua, e Zulmira deixou a casa de farinha levando alguns poucos pertences.

Após a saída de sua amada, Meia-Noite despejou fogo e novos insultos contra seus inimigos.

Tenente Manuel Benício

Já eram quatro horas de troca de tiros quando ecoou na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 66), era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado.

Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros de Tataíra e próximo à fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades enfrentadas pelo grupo de policiais para alcançar a região do conflito e, neste aspecto, estava correto.

Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra.

Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros. O grupo, então, desceu em torno de 400 a 450 metros até o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornou a subir para uma cota superior a 800 metros, seguindo em direção à casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro. Tudo isso em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.

Entrevistado de 2008 apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente, nesta hora, o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma força policial que, segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67), chegava a 84 homens.

Para a população local, o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite ficava em torno de 100 a 120 homens. Independentemente do número exato, a desproporção era enorme, e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.

Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo, dois membros da polícia foram feridos.

Manoel Moraes informou a seu filho que, depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que:

“– O negro tanto atirava como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”.

Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares para suportar o cansaço, a tensão e encontrar forças para continuar a luta.

Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros

A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha, Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente.

Só tinha duas saídas: ou se entregar ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas, Meia-Noite sabia que morreria de qualquer maneira.

Os atacantes atiravam incessantemente quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente, um frêmito de vitória percorreu o meio da tropa e, possivelmente, alguns até comemoraram antecipadamente.

Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas:

“– Que ele iria sair”.

Durante cerca de dez a quinze minutos, o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.

Existem duas versões para o que ocorreu a seguir. Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado e acreditando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, desaparecido.

Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

O autor afirma que a quantidade de tiros era tão grande que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”. O cangaceiro teria aproveitado aquele momento para fugir, deixando um rastro de sangue.

Já as pessoas da região, como Anastácio, Antônio Antas e outros, são categóricas em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala; para outros, um caçuá; e, para terceiros, um saco.

Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou o momento em que o grupo de atacantes recarregava as armas e saiu da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele correu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximar, abandonaram seus postos e fugiram.

Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Apesar de a visibilidade estar limitada pela pouca luz e de o alvo estar correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros disparos.

Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.

Para os moradores locais, o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite deveu-se ao fato de ele ter aproveitado espertamente o lusco-fusco da manhã, aquela hora em que a visibilidade ainda não é plena. Houve também um excesso de confiança dos atacantes em relação à sua superioridade numérica, o que os deixou desatentos. Outra causa possível pode estar no fato de que o grupo de Manoel Virgulino, assim como as tropas de Benício, Quelé e Oliveira, já estava muito cansado — uns pelo cerco prolongado e outros pelo sobe e desce de serras elevadas.

O certo é que, mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, apesar de ele estar ferido.

A BUSCA POR UM ABRIGO

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que, depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso, ele teria se encontrado com um agricultor, a quem entregou uma pequena soma em dinheiro para ser repassada a Zulmira.

Foto – Rostand Medeiros

Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família quem realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira e considerado uma pessoa humilde e honrada. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse: “— Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se eu voltar, eu pego novamente; se não voltar, é seu”, fugindo em seguida.

Zulmira, em um primeiro momento, foi levada para Princesa, onde ficou presa.

Na sequência, segundo a versão oficial apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo o cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas, para preparar algo que cuidasse de seus ferimentos. Mas, em vez de buscar ajuda para o rapaz, ele foi atrás do inspetor de quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, conhecido como “Ronco Grosso”. Este teria, então, ido à casa do agricultor acompanhado de mais quatro homens e dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e acabou trucidado.

Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros

Para Anastácio e Antônio Antas, a história foi “mais ou menos assim”. Eles me aconselharam, então, a procurar uma fonte mais gabaritada e que fora muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes: o seu próprio filho.

Morando perto da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem chamado Manoel Lopes Filho. Ele tem mais de 1,80 m de altura, é magro, mas ágil de corpo, tem cara de poucos amigos, usa bigode e possui uma aparência que não deixa transparecer sua idade já superior a 70 anos.

No primeiro momento, ele me olhou de uma maneira que me pareceu desconfiada. Sua voz é de barítono, grave e forte como a de seu pai. À medida que conversávamos e ele percebia que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais à vontade. Minha sorte foi estar na companhia de Antônio Antas, amigo de longa data dele, pois Lopes Filho me confessou mais tarde que não gosta de falar sobre o pai com pessoas estranhas.

Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes

Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais à vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.

Ele adiantou que, em várias ocasiões, seu pai lhe narrou diversos acontecimentos e diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou, de forma alguma, que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, para quem realizava “o que fosse necessário”. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.

No dia do tiroteio, “Ronco Grosso” estava realizando tarefas em sua propriedade; logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio-tempo, o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sítio de Manuel Lopes, que era relativamente próximo.

O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer de seu filho, era um “raizeiro”; logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez uma mistura de farinha, mastruz e pimenta-malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando escuro, e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.

Foto – Rostand Medeiros

O FIM DE UM VALENTE

Logo, Manuel Lopes tomou conhecimento de que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades, rondando em busca do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades, localizada no alto de um serrote.

Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai, chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água ao cangaceiro. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra ainda estava vivo, aos 102 anos.

Manuel Benício soube, através de outras pessoas, que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite. Seguiu então para a propriedade do homem de confiança de José Pereira, com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo.

Em 2015, sete anos depois da primeira visita, voltei a região do saco dos Caçulas e reencontrei os amigo Antônio Antas e Manoel Lopes Filho, que junto com um guia buscamos ir até agruta onde o cangaceiro Meia Noite foi morto por Manoel Lopes e Tocha.

Antes de chegar à casa de Manuel Lopes, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem, e ele “abriu o bico” sobre o que estava fazendo.

Entre seguir diretamente para o esconderijo onde estava Meia-Noite ou obter informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.

Lopes Filho informa que “Ronco Grosso”, ao saber da aproximação da volante, deixou sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo.

Aspecto do relevo da região íngreme do Saco dos Caçulas, onde Meia-Noite buscou abrigo após ficar ferido.

Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas que seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.

Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe político informou-lhe toda a situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse, pois eles não lhe perturbariam.

Mas, em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico:

“– Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.

Manuel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano. Pelo contrário, até o admirava pela valentia e coragem. Porém, desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como aquele, seria o mesmo que praticar um suicídio.

Entre esses dois grandes blocos de granito está a abertura da gruta onde morreu o cangaceiro Meia Noite. Infelizmente a sua entrada estava obstruida.

Sem outra alternativa, buscou o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.

Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já durante a noite, os dois homens encarregaram-se de levar a comida e a água ao cangaceiro.

Ao chegarem à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou ainda mais a presença daqueles dois homens armados e, conhecendo quem eles eram, ficou bastante desconfiado.

“Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda. Colocou uma bala na câmara do fuzil e permaneceu à espreita.

Obstrução da entrada da gruta do cangaceiro Meia Noite.

Os dois homens preparavam-se para sair — ou assim diziam — quando perceberam um momento de distração de Meia-Noite. Sacaram suas armas e abriram fogo.

O cangaceiro ainda tentou um salto, empunhando uma pistola na mão, mas novas descargas o atingiram e o abateram.

Sem muita cerimônia, enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formavam a pequena cavidade natural. Antes, porém, cortaram suas orelhas como prova.

Antonio Antas afirmou ter escutado muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” quem realizou a primeira deflagração. Este, por sua vez, afirmava categoricamente que havia sido “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.

Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho e Antonio Antas, mas também outras pessoas da região, afirmaram que, na tarde posterior à morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa.

José Pereira encontrava-se em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre eles algumas senhoras.

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE
Foto – Rostand Medeiros

Os dois homens valentes, porém simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe, trazendo um pacote nas mãos.

José Pereira mandou que eles se aproximassem e perguntou, animadamente, diante de todos, o que desejavam. Eles permaneceram calados, um tanto acabrunhados.

O dono da casa, imaginando que o silêncio daqueles homens rudes fosse resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentivou novamente para que falassem, mesmo diante de todos.

A partir daí, “Ronco Grosso” não se fez de rogado. Abriu o pacote, retirou um pano ensanguentado e foi desenrolando-o, apresentando a todos as orelhas de Meia-Noite.

O espanto foi geral, e o embaraço de José Pereira tornou-se evidente.

Mas eles haviam cumprido à risca aquilo que lhes fora mandado.

Foto – Rostand Medeiros

CONCLUSÃO

Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929, seguiu para a Bahia e pouco retornou à Paraíba. Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico, em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte desse sentimento estava ligado à morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.

Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia a raiva que José Pereira sentia do cangaceiro por este ter feito uma piada ou observações baixas e indecorosas sobre a esposa do líder político de Princesa. Entretanto, o próprio Lopes Filho considera essa versão falsa ou criada apenas para encobrir as verdadeiras intenções de José Pereira.

Para ele, o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como com a expulsão de Lampião da região, era afastar essa gente para evitar que seus adversários na capital paraibana o tachassem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo, de modo que sua eliminação teria sido efetuada para evitar problemas futuros.

Existe também outra versão, propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz teriam se compactuado com Lampião, dando-lhe proteção e apoio em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos e assaltos, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão do capitão da região, José Pereira e Marcolino teriam ficado com todo o dinheiro. Lopes Filho já havia ouvido falar sobre essa versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada que confirmasse tal situação.

Ao longo dos anos, a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados ao cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nessa cidade em todo o século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa. Esse foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionado basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e da política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.

Um interessante visual do Saco dos Caçulas.

Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte — respectivamente, Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria —, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas por João Pessoa e pelo seu chefe de polícia, José Américo de Almeida. Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha” e “Luiz do Triângulo” foram figuras de liderança e destaque nos combates. As narrativas obtidas na região sobre a participação desses homens nesse conflito dariam para escrever, no mínimo, três artigos como este.

Com a morte de João Pessoa em Recife e a deflagração da Revolução de 30 — que culminou com a chegada de Getúlio Vargas ao poder —, a maré mudou de lado e o conflito se encerrou. Logo, tropas do Exército ocuparam Princesa, e José Pereira fugiu, ficando incomunicável durante anos. Tempos depois, ele chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.

Não deixa de ser interessante observar como esses fatos ainda se mantêm vivos na memória da população local, mesmo entre os mais jovens. Fora dessa região, no entanto, esse conflito é praticamente desconhecido.

Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira — razão de seu retorno para uma região tão perigosa, onde ele veio a morrer — foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que ela estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, qual foi sua relação com a família e com as pessoas de seu lugar, nem o nome de seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região, e apenas apuramos que, após o nascimento da criança, ela se mudou para Campina Grande, onde se casou, teve outros filhos e viria a falecer anos mais tarde.

Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança de seu pai, o coronel Marçal, e morreu na pobreza. Antes disso, teve seu amor pela amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha”, interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.

Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo

Manuel Lopes, o “Ronco Grosso”, viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antônio Antas afirmam que ele prosperou, teve vários filhos, viu-os crescer, assistiu ao nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.

Sobre “Tocha”, sabe-se que ele seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.

Segundo Anastácio Moraes e Antônio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nessa história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu à risca o que Meia-Noite lhe pediu.

  • TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOPG TOK DE HISTÓRIA EM 2008.

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JESSE JAMES – O GRANDE BANDOLEIRO AMERICANO

Rostand Medeiros – Escritor e Pesquisador.

É ponto praticamente passivo a afirmação que o maior bandoleiro da história do Brasil foi Virgulino Ferreira da Silva, o conhecido Lampião.

Já nos Estados Unidos este título vai certamente para Jesse Woodson James, o Jesse James.

Para muitos este bandoleiro ganhou reconhecimento como um guerrilheiro, o último rebelde da Guerra Civil Americana, um símbolo que trouxe esperança para aqueles que ainda acreditavam na causa dos estados do Sul dos Estados Unidos. Mas para outros ele foi tão somente um assaltante de bancos, trens e carruagens, além de um impiedoso assassino a sangue frio.

Jesse Woodson James

Apesar de serem pontos de vista divergentes, ambos são verdadeiros.

Embora seja verdade que grande parte da história de Jesse James é puro mito, também é verdade que muito do que se sabe sobre esta figura é baseada em fatos reais. Mas com a ficção e a realidade agora enredada – é quase impossível separá-los.

Então, quem era Jesse James?

O Homem e Sua Guerra

Jesse Woodson James nasceu em 5 de setembro de 1847. Era filho de um pastor que morreu quando ele tinha apenas dois anos, e de uma mãe de personalidade forte, Zerelda, que se tornou a matriarca da família. Ele foi criado em um ambiente extremamente escravocrata, onde negro era comparado a um bicho de carga e consta que sua família tinha orgulho do sistema escravista. Morava em uma propriedade perto da cidade de Kearney, no estado do Missouri. Tinha um irmão mais velho chamado Frank, que com ele pegaria em armas, e uma irmã mais nova, Susan, e quatro meio-irmãos, frutos de um novo casamento de sua mãe com o Dr. Ruben Samuels.

Zerelda James – Casada com Robert James aos 16 anos, viúva aos 25, a mãe de Jesse, Zerelda, casou-se novamente aos 30 com o Dr. Reuben Samuel. 
Ela era uma figura dominante, uma feroz separatista com nervos de aço, uma língua dilacerante e um intelecto vigoroso.

Na época que Jesse James nasceu o seu mundo era extremamente maculado pela violência. Em 1850 o Missouri era um estado onde guerras de fronteira com os habitantes do vizinho estado do Kansas eram normais e tornou a vida muito perigosa para os que viviam no oeste do Missouri – vizinhos lutaram contra vizinhos e cada ataque brutal ocasionava ainda mais represálias brutais.

Mas o problema não era apenas com os vizinhos do Kansas. O Missouri era um estado com muitas facções armadas, mantidas por ricos fazendeiros, os “coronéis” deles, que lutavam por terra, dinheiro e poder. Ninguém foi poupado. Apenas arar seu campo poderia trazer a morte – e a noite não era difícil alguma casa ser queimada e o gado de algum proprietário ser roubado ou abatido a tiros. Mas também ocorriam contínuas batalhas internas e conflitos de fronteira por parte de pessoas que eram contra a escravidão – chamados de “Jayhawkers” (os nossos abolicionistas), que lutavam contra aqueles que eram pró-escravidão, chamados “Bushwhackers”. Sobre todos os aspectos, era um prelúdio sinistro e localizado do que seria a futura Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão.

Fazenda da família James em 1877.

Quando o grande conflito entre os estados do norte e do sul dos Estados Unidos oficialmente estourou, em 12 de abril de 1861, muitos habitantes do Missouri deixaram suas terras para lutar pelo exército do Sul, os chamados Confederados. Estes estavam com medo que suas famílias e propriedades fossem atacadas pelas forças da União, os do Norte. Para evitar isso, milícias armadas foram criadas para proteger os que ficaram. Frank James juntou-se a um destes grupos de proteção em 1861.

Um dos líderes desses grupos era um jovem de 24 anos chamado William Quantrill. Este organizou várias centenas de homens sob a sua liderança, oferecendo seus serviços para a Confederação. Eles foram empossados ​​em serviço no ano de 1862 e foram reconhecidos como uma parte importante da causa do Sul no Missouri (este reconhecimento é causa de extremas controvérsias até hoje nos Estados Unidos).

William Quantrill

Valente, astuto, um verdadeiro guerrilheiro, mas igualmente um sanguinário, William Quantrill e seus homens realizaram diversos ataques em várias localidades. Muitos de seus combates eram para a defesa dos habitantes do Missouri, mas muitas outras de suas ações não passaram de carnificina em massa, roubo desenfreado, estupros em quantidade e destruição massiva de patrimônio. O mais famoso  (ou infame) sucesso de Quantrill ocorreu na madrugada de 21 de agosto de 1863, quando seu grupo composto por mais de 300 homens, realizou um ataque contra a cidade de Lawrence, Kansas. Quando eles terminaram, mais de 150 habitantes foram mortos, 200 casas e empresas estavam destruídas. Frank James estava na incursão a Lawrence.

O ataque a Lawrence, Kansas, em 21 de agosto de 1863, foi a pior atrocidade contra civis na Guerra da Secessão.

Em represália as ações de guerrilha de Quantrill, as milícias pró-União invadiram as propriedades das famílias dos membros do bando, incluindo a fazenda da família James.

No sertão nordestino de Lampião, nas décadas de 1920 e 1930, quando a polícia (em grupos conhecidos como volantes) realizavam perseguições aos cangaceiros, não tinham nenhuma piedade para conseguir informações junto aqueles que acreditavam ajudar estes bandoleiros nordestinos (os chamados coiteiros). Sessenta ou setenta anos antes, a família de Jesse James sofreu da mesma maneira nas mãos das milícias pró-União. Um dos meio irmãos do futuro bandoleiro quase foi enforcado para abrir alguma informação sobre Frank. O próprio Jesse foi chicoteado impiedosamente e sua mãe Zerelda apanhou bastante, mesmo estando grávida. Consequentemente Jesse, então com 16 anos, passou a andar com Quantrill e mais tarde com o seu sucessor, Willian “Bloody (sangrento) Bill” Anderson. Este último era conhecido por cortar as cabeças de seus inimigos com uma típica espada de pirata e levava os escalpos de muitas de suas vítimas em seu alforje.

Em Combate 

Em agosto de 1864 Jesse estava com os guerrilheiros, quando ele foi baleado no peito, mas salvou-se e logo voltou à luta. Ele levou esta bala em seu corpo para o resto de sua vida. Em um ataque à cidade de Centralia, no Missouri, o bando de Bloody Bill Anderson matou 25 soldados da União desarmados e roubaram seus uniformes. Mais tarde uma tropa da União ao saber o que aconteceu, saiu em busca de Bill e seus homens. Quando eles foram encontrados, os guerrilheiros mataram mais de 100 dos seus perseguidores, em uma bem montada emboscada. Jesse foi identificado como aquele que matou o comandante dos soldados.

William “Bloody Bill” Anderson – Foi um chefe guerrilheiro cuja campanha de terror ao longo do rio Missouri em 1864 é amplamente considerada uma das mais brutais da história americana. Jesse James o seguiu durante essa época e nos anos posteriores falou com orgulho da filiação a esse homem.

Este seria o maior engajamento da carreira de Jesse como um guerrilheiro confederado. Dois meses após esta batalha, Bloody Bill foi morto em uma emboscada. Os dias dos guerrilheiros foram chegando ao fim, com muitos dos irregulares fugindo para os estados da Louisiana e Texas. Após a morte de Quantrill, os seus homens ou foram capturados, fuzilados, ou fugiram, incluindo neste último grupo Frank James.

Jesse James como um jovem guerrilheiro. Esta foto foi tirada em Platte City, Missouri, em 10 de julho de 1864, mostra o bandoleiro aparece com três revólveres modelo Colt Navy.

Enquanto Frank tinha ido para Kentucky, Jesse seguiu para o Texas, onde ficou até 1865. Após um tempo nesta inatividade, Jesse e alguns outros guerrilheiros decidiram voltar para o Missouri e se entregar. No caminho alguns soldados da União abriram fogo sobre eles e, pela segunda vez, Jesse foi baleado no peito. O ferimento era grave e ele foi levado para a casa de um tio, onde recuperou a saúde com a ajuda da prima Zee Mimms, por quem se apaixonou. Eles iriam se casar nove anos mais tarde.

O Guerrilheiro que se Transformou em Fora da Lei

Ressentimentos políticos, juntamente com dificuldades econômicas no Missouri, acrescentaram novas feridas a velhos problemas. Jesse e Frank James poderiam ter seguido para sua casa e objetivado levar uma vida pacífica, como fez a maioria dos outros guerrilheiros. Mas depois de uma vida tão “emocionante”, os dois irmãos logo se juntaram com alguns antigos guerrilheiros e começaram suas carreiras criminosas.

O líder guerrilheiro do Missouri Fletch Taylor (à esquerda), que mais tarde perderia seu braço direito, era o oficial comandante de Jesse James em 1864 antes dos James se juntarem ao grupo de “Bloody Bill” Anderson. Frank (no centro) e Jesse (direita) posaram para a rara foto em abril de 1864.

Salvo engano, Lampião passou 20 anos como cangaceiro, já Jesse e Frank James estiveram de armas na mão por 16 anos. Tal como Lampião, não se sabe quantos crimes os irmãos James cometeram, mas uma vez que eles tinham alcançado alguma notoriedade, foram acusados ​​de mais assassinatos e roubos do que poderiam ter realmente cometido. Coisas da fama!

Mas se Lampião visava atacar principalmente as casas dos proprietários rurais, onde ficavam suas economias pela falta de casas bancárias no sertão nordestino, nos Estados Unidos eram os bancos o principal alvo dos irmãos James.

Acredita-se que o primeiro banco que eles roubaram foi na cidade de Liberty, Missouri. O fato ocorreu em fevereiro de 1866, o bando tinha cerca de 12 homens, que entraram na cidade tranquilamente montados em seus corcéis. Deixaram o estabelecimento bancário com quase 60.000 dólares e dispararam contra dois espectadores, matando um. Outros roubos semelhantes ocorreram no Missouri e em estados vizinhos entre 1866 e 1867. Logo os irmãos James, juntamente com seus primos, os Youngers, são apontados como suspeitos dos assaltos. O bando passa a ser conhecido como quadrilha dos James/Youngers.

Jesse e Frank James

Qualquer que fosse a dúvida de que os James estavam envolvidos em assaltos a bancos, esta foi eliminada quando roubaram o Banco Davies, na cidade de Gallatin, Missouri, em dezembro de 1869. Depois disso, seus nomes, com recompensas por suas cabeças, seriam ligados a crimes no Missouri e em outros lugares.

Jesse entrou neste banco e pediu a John Sheets, um ex-capitão do exército União, caixa e principal proprietário do banco, para trocar uma nota de 100 dólares. Quando este se sentou para escrever o recibo, Jesse percebeu que aquele era um ex-oficial do Norte e, sem pestanejar, atirou na sua cabeça e no coração. Apesar de dois outros assaltantes terem disparado contra um funcionário do banco, este conseguiu escapar e alertou a cidade.

Jesse James

Seus habitantes se posicionaram e, como quase todo mundo no velho oeste tinha uma arma de fogo, dispararam impiedosamente sobre o bando na medida em que estes saiam do banco e tentavam pegar seus cavalos. Ao montar em seu alazão, Jesse James caiu e foi arrastado por cerca de 40 metros antes que pudesse retirar o pé do estribo. Ele então subiu na garupa do cavalo de Frank e fugiram. Só depois conseguiu tomar outro cavalo de assalto.

Logo a imprensa estampou que o assassinato do ex-oficial da União Sheets, teria sido uma “vingança política” e muitos sulistas aprovaram o assassinato cometido por Jesse.

O Nascimento de uma Lenda

Embora os membros da quadrilha dos James/Youngers afirmassem aos quatro ventos que roubavam dos ricos para dar aos pobres, não há registro de que eles tenham dado algo a alguém. O mais próximo disso foi pagando aos que os apoiavam durante suas fugas.

A quadrilha dos James/Youngers

A quadrilha então volta a sua atenção para outra fonte de dinheiro – as ferrovias. Eles atacaram o seu primeiro trem em uma noite de julho de 1873, em Iowa. A quadrilha também roubou diligências. Eles provavelmente teriam assaltado postos de gasolina e lojas de conveniência, se estas existissem na época.

Apesar de ser oferecido cada vez mais dinheiro pelas cabeças dos membros da quadrilha dos James/Youngers, eles seguiam tranquilos. Entre os roubos, os irmãos James se escondiam nas cidades médias e grandes. Jesse e Frank viveram em vários locais, junto com as suas respectivas famílias. Jesse e Zee Mimms tiveram um filho e uma filha. Frank também se casou e de sua união nasceu um filho. As duas famílias unidas, ajudavam os irmãos James a se esconderem nas áreas urbanas.

Jesse era vaidoso com sua aparência, fumava charutos e raramente bebia qualquer coisa alcoólica mais forte do que a cerveja. Apesar de algumas madames contestarem esta versão, consta que ele nunca traiu a mulher e jamais levantou a voz com crianças. Ele tinha duas marcas de balas no peito, outra na coxa e faltava um pedaço do seu dedo médio esquerdo. Ele também tinha um pé esquerdo ligeiramente torcido. Afirma-se que era canhoto, tinha uma voz de contralto. Lia a bíblia, podia recitar salmos e poderia cantar hinos religiosos se quisesse. Consta que nunca se arrependeu de seus roubos, ou de seus muitos assassinatos. Ele tinha uma grande necessidade de atenção, poderia ser muito gentil, muito educado e era bem versado sobre os acontecimentos do seu tempo.

Livros publicados no final do século XIX sobre Jesse James

Jesse e Frank James estavam nas páginas dos jornais de todo o país. Mas foi o jornalista John Edwards, um ex-oficial da Confederação, escritor e editor de vários jornais depois da guerra, que viu em Jesse uma oportunidade de criar um ponto de encontro para a oposição à opressão que os antigos militares do Sul sofriam daqueles que estavam no poder. Edwards tornou Jesse o símbolo de uma causa perdida.

Jesse gostava de seu novo status, tornando-se obcecado com sua imagem pública. Ele leu jornais e muitas vezes escrevia cartas para os jornalistas e até mesmo chegou a planejar assaltos com base em sua percepção da reação do público. Com a contínua campanha de propaganda, Jesse se tornou um herói para muitos.

O Fim da Gangue James/Youngers 

Os homens da famosa agência Pinkerton, de caçadores de bandidos, foram chamados várias vezes para capturar os membros da gangue James-Younger e não conseguiram. Em represália, numa noite de janeiro de 1875, várias bombas incendiárias foram lançadas na tradicional casa da fazenda da família James. Uma meia irmã de Jesse e Frank morreu e sua mãe Zerelda perdeu a mão.

Fazenda da família James, mantida totalmente original

O ataque pensado pelos agentes Pinkerton foi um fracasso, além de realizarem uma ação contra uma família indefesa, provocaram a morte de uma criança inocente, o que automaticamente trouxe simpatia e o apoio a quadrilha dos James/Youngers. Então veio o notório assalto ao banco em Northfield, Minnesota, em setembro de 1876.

Oito membros da gangue entraram na cidade, três ficaram em seus arredores, três entraram no First National Bank e dois ficaram do lado de fora. Quando o caixa do banco se recusou a abrir o cofre, sua garganta foi cortada e, em seguida, ele foi baleado – muito provavelmente por Jesse. Outro caixa fugiu para soar o alarme entre os moradores de Northfield. A rua foi imediatamente liberada pelos transeuntes e os habitantes da cidade começaram a atirar nos bandidos. Dois deles morreram, juntamente com um civil, e o resto da quadrilha fugiu.

Armas que pretensamente pertenceram a gangue James-Younger, em uma exibição na década de 1920.

Foi organizada uma caçada humana para rastrear os bandidos em fuga, esta acabou matando outro marginal e capturando Cole, Jim e Bob Younger. Jesse e Frank escaparam. O assalto foi um grande fracasso – três homens morreram, três foram presos (depois receberam sentenças de prisão perpétua), dois escaparam e nenhum dinheiro foi levado.

Hollywood aproveitou este fracasso do bando James/Younger na película “The Long Riders”, de 1980 (No Brasil foi intitulado “Cavalgada de Proscritos”), onde a cena deste assalto, apesar de certos exageros em relação ao fato real, é visualmente intensa (Veja a cena – http://www.youtube.com/watch?v=vr0MlCjzJak)

Bill Stiles e Clell Miller, do bando dos irmãos James, mortos no assalto de Northfield. Seus corpos foram fotografados em um estúdio. Embora pareça sombrio para os tempos atuais, fotos de bandidos mortos ou capturados e divulgados como lembranças. Isso também serviu ao propósito prático de ajudar em sua identificação.

A Morte de Jesse James por um Covarde

Depois de algum tempo, Frank decidiu sair do grupo e se aposentar. Já Jesse buscava montar um novo bando para continuar roubando por mais alguns anos. Mas os tempos e a política começaram a mudar. A eleição de Thomas T. Crittenden para governador do Missouri em 1880 foi o começo do fim para Jesse.

Na esperança de manter o grupo vivo, Jesse convidou os irmãos Robert (ou Bob) e Charles Ford para participar de um assalto ao banco da localidade de Platte City. Entretanto os irmãos já tinham decidido não participar de roubo algum, mas receber a recompensa de 10.000 dólares pela cabeça de Jesse. Ação que era patrocinada pelo governador Crittenden.

Robert Ford

O governador prometeu aos irmãos Fords um perdão completo pelo passado de crimes, mas eles teriam de matar Jesse, que era então o criminoso mais procurado dos Estados Unidos. Crittenden tinha elegido a captura dos irmãos James como sua prioridade política. Barrado por uma lei que não autorizava o oferecimento de uma recompensa vultosa pela captura de bandidos, o governador buscou apoio nas estradas de ferro e estes lhe cederam os 10.000 dólares.

Foto recentemente apresentada, que mostra Robert Ford (à esquerda) e Jesse James. A foto mostra o notório fora da lei americano e seu infame colega de gangue, que o trairia em troco da recompensa, matando-o a tiros em 1882. Ela pertence a uma família de fazendeiros do Texas, transferida de geração em geração. Eles passaram os últimos anos tentando provar que era legítima. A legista Lois Gibson, do Departamento de Polícia de Houston, confirmou sua autenticidade em 30 de setembro de 2015. Ela pode render muito dinheiro para a família.

Em 3 de abril de 1882, os irmãos Ford estavam junto com Jesse e sua família – a respeitável família Thomas Howard – em uma casa em Saint Joseph, Missouri. Depois de tomar café da manhã, os Fords e Jesse James entraram na sala de estar em preparação para a viagem para Platte City. De acordo com Robert Ford, tornou-se claro para ele que Jesse tinha percebido que ele e seu  irmão estavam lá para matá-lo.

Desenho mostrando o assassinato de Jesse James por Robert Ford

No entanto, em vez de xingar ou matar os Fords, Jesse atravessou a sala de estar, colocou seus revólveres em um sofá e depois subiu em uma cadeira para tirar a poeira de um quadro. Bob Ford vendo a oportunidade, tirou o seu revólver calibre 44 do coldre, apontou-o para a parte de trás da cabeça de um homem desarmado e puxou o gatilho. Jesse ouviu o barulho do engatilhamento da arma e foi virando a cabeça, quando a bala o atingiu.

Casa onde Jesse James foi morto, hoje um museu.

Após o assassinato, os Fords foram ao encontro do governador Crittenden para reivindicar sua recompensa. Eles se entregaram às autoridades legais, mas ficaram consternados ao descobrirem que foram acusados ​​de assassinato em primeiro grau. Em um dia, os irmãos Ford foram indiciados, se declararam culpado e foram condenados à morte por enforcamento. Duas horas depois, Crittenden lhes concedeu um perdão completo. Apesar do acordo, os irmãos Ford receberam apenas 500 dólares, uma fração do dinheiro originalmente prometido.

O corpo do bandoleiro Jesse James.

Por um tempo Bob Ford ganhou dinheiro posando para fotos como “o homem que matou Jesse James”. Junto com seu irmão reencenaram o assassinato em um espetáculo por várias cidades. Mas o desempenho dos Fords não foi bem recebido. A maneira como Bob havia assassinado Jesse James, enquanto ele estava de costas e desarmado, trouxe muitas inimizades em diversas cidades onde o espetáculo foi realizado.

Com tuberculose e viciado em morfina, Charles Ford se suicidou em 4 de maio de 1884. Quase dez anos depois do assassinato de Jesse James, no dia 8 de Junho de 1892, Robert Ford era dono de um saloon em Creede, no Colorado, quando foi morto com dois disparos de uma espingarda calibre 12 no peito. O assassino foi um homem que aparentemente tinha problemas mentais e desejava ficar famoso como “o homem que matou o homem que matou Jesse James”.

Vejam que ser famoso já não era fácil desde aquela época!

Propaganda de um show onde as atrações principais eram Frank James e seu primo Cole Younger

Propaganda de um show onde as atrações principais eram Frank James e seu primo Cole Younger

Depois que Jesse foi morto, seu irmão Frank se entregou às autoridades em 1882. Ele foi julgado e absolvido por um júri simpático. Nos últimos trinta anos de sua vida Frank trabalhou em vários empregos, inclusive como vendedor de sapatos e, em seguida, como um guarda de teatro em St. Louis. Durante algum tempo, junto com seu primo Cole Younger, participaram de shows itinerantes onde apresentavam as suas aventuras do passado. Em seus últimos anos, Frank James voltou para a tradicional fazenda da família James. Ele morreu em 18 de fevereiro de 1915, com a idade de 72 anos.

Legado – Jesse James, um Ícone da Cultura Pop 

Tal como ocorreu com Lampião no Brasil, tão rapidamente quanto os jornais anunciaram a sua morte, rumores da sobrevivência de Jesse James proliferaram. Alguns disseram que Robert Ford matou alguém parecido com Jesse, em uma trama elaborada para permitir-lhe escapar da justiça. Estes contos têm recebido pouca credibilidade e nenhum dos biógrafos deste bandoleiro famoso apoiaram as versões de sobrevivência como plausível.

Cartaz origina oferecendo uma recompensa pelos irmãos James.

Nos Estados Unidos já foram rodados mais de 70 filmes e programas de TV sobre Jesse, ou incluindo Jesse, e a saga cinematográfica deste fora da lei é longa. O primeiro filme sobre ele foi feito em 1920 e estrelado por seu filho, Jesse James Jr. Mais recentemente, Brad Pitt interpretou o fora da lei em “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”. Houve também várias apresentações de palco. Jesse James também foi o herói em muitos romances baratos e objeto de vários livros e inúmeros artigos.

Tal como Lampião no Brasil, Jesse James continua a ser um símbolo controverso, que sempre pode ser reinterpretado, de várias maneiras, de acordo com as tensões e necessidades culturais.

Fontes – http://clevelandcivilwarroundtable.com

http://en.wikipedia.org/wiki/Jesse_James

http://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/films/james/

http://www.civilwarstlouis.com/History/jamesgang.htm

http://www.jessejames.org/

http://www.jessejames.org/photo_gallery

http://deadbutdreamin.files.wordpress.com

http://www.legendsofamerica.com/we-jamesyoungergang3.html

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CANGACEIROS ATRÁS DAS GRADES – FIM DA ILUSÃO

Cangaceiros na penitenciãria

Autor – Rostand Medeiros 

Em 12 de dezembro de 1926, o advogado Estácio Coimbra assume o mais alto cargo no Poder Executivo de Pernambuco. Neste novo governo foi designado como Chefe de Polícia (cargo equivalente atualmente ao de Secretário de Segurança) o também advogado Eurico Souza Leão. Este nasceu em 1889, no Engenho Laranjeiras, interior pernambucano. Era filho de Manoel Arthur Souza Leão e Ernestina Freire Souza Leão, de tradicional família ligada à aristocracia da Zona da Mata Pernambucana. Eurico estudou na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, colando grau no dia 23 de dezembro de 1921. Quando assumiu seu cargo em 1926, o jovem de 37 anos tinha pela frente uma tarefa muito difícil; nada menos do que comandar a estrutura estadual e os homens que iriam perseguir o mais importante chefe de cangaceiros do Brasil, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

1931-Eurico Souza Leao (1)

Eurico, com o apoio do governador Coimbra, logo marcou uma reunião para promover convênios com os estados vizinhos, visando uma ação contra o cangaço. Ele reformulou o serviço policial volante, compondo os grupos de combate com soldados oriundos do sertão, com hábitos e resistência física semelhante às dos próprios cangaceiros. Outra ação importante foi a abertura de processos judiciais e até mesmo prisões de pessoas que apoiavam e davam guarida aos bandidos, os chamados coiteiros. Muitos destes eram ligados ao próprio partido do governo estadual.

Logo a ação trouxe resultados de maneira extremamente positiva, ajudando a destruir o elo que unia os cangaceiros aos poderosos chefes do interior e enfraquecendo a ação dos bandidos.

Uma caricatura apresenta o medo do sertanejo em relação ao cangaço
Uma caricatura apresenta o medo do sertanejo em relação ao cangaço

As medidas aplicadas foram avassaladoras e provocaram muitas baixas entre os cangaceiros, principalmente entre os membros do grupo de Lampião, conquistando também a opinião pública. Nesta empreitada o Chefe de Polícia Eurico Sousa Leão teve como um dos principais elementos ao seu lado o major Teófanes Ferraz Torres, que comandou as unidades policiais nas cidades e vilas do interior[1]

Resultados Imediatos 

Dos cangaceiros capturados pela ação do governo pernambucano, antes do episódio de Mossoró, sem dúvida que a maior “estrela” foi Arthur José Gomes da Silva, o conhecido Beija Flor. Ele havia sido capturado na região de Jatobá de Tacaratu pela volante do tenente Amadeu[2].

O cangaceiro Beija Flor
O cangaceiro Beija Flor

Chegou ao Recife em 13 de março fortemente escoltado por dez policiais, desembarcando em um trem da Great Western. Os jornais propalavam que ele falava desembaraçadamente e com tranquilidade, apesar de analfabeto. Jovem, tinha cabelos claros e foi pessoalmente interrogado por Eurico. Afirmou que era chefe de um bando de cangaceiros independentes, que ocasionalmente se reunia com Lampião para realizar assaltos, sendo considerado responsável por “mais de 30 mortes” e assaltos ao longo de sua vida como bandoleiro. Finalizou informando que desde janeiro não se encontrava com Lampião e sabia que este tinha ido “para o norte”[3].

Segundo os pesquisadores Frederico Bezerra Maciel e Bismarck Martins de Oliveira, o cangaceiro Arthur José Gomes da Silva, o Beija Flor, era pernambucano, filho do ex-praça da polícia pernambucana Arsênio José Gomes e de Maria Tereza da Conceição, além de ser irmão de Euclides José Gomes, o cangaceiro Cacheado. Ele teria acompanhado seu irmão e o bando de Lampião durante a ida deste a cidade cearense de Juazeiro, quando em 6 de março de 1926 houve o encontro de Lampião e Padre Cícero. Os autores apontam que os irmãos Gomes participaram da maior batalha da história do cangaço, a da Serra Grande, próximo a Vila Bela, em 26 de novembro de 1926.

Bando de Lampião em Juazeiro, 1926
Bando de Lampião em Juazeiro, 1926

Beija Flor sempre andava com uma ostensiva medalha de Nossa Senhora das Graças no peito, tendo sido preso no dia 3 de fevereiro de 1927, aos 21 anos de idade. Devido à ação mais enérgica da polícia pernambucana, tencionava seguir para a região de Uauá, na Bahia.

Dias depois da sua chegada a capital de Pernambuco, os jornais locais divulgavam, até com certa surpresa, que Beija Flor havia constituído um advogado para ser libertado. Seu causídico logo requereu um habeas corpus junto ao Superior Tribunal de Justiça. Através do Desembargador Arthur da Silva Rêgo, solicitou ao Chefe de Polícia Eurico Sousa Leão maiores informações sobre aquele prisioneiro que tinha a alcunha de um pequeno pássaro e estava doido para “bater asas” de novo. A resposta de Eurico não utilizou palavras positivas. Informou que o cangaceiro era “perigoso”, sendo considerado “um problema seu livramento”.

Beija Flor havia cometido crimes em Água Branca, Alagoas, onde estava pronunciado nos artigos 294 e 356 (assassinato e roubo), do Código Penal de 1890, então vigente na época. Já no município pernambucano de Vila Bela, atual Serra Talhada, ele também estava pronunciado no mesmo artigo 294 e nos artigos 136 (incêndio a edificação) e 304 (lesão corporal). Para complicar a situação de Beija Flor, o Chefe de Polícia ainda aguardava novas comunicações do major Ferraz sobre outros crimes que ele havia cometido. Dias depois o pedido de habeas corpus foi negado[4].

Antiga Cadeia Pública de Recife - Fonte - ideiasembalsamadas.blogspot.com
Antiga Cadeia Pública de Recife – Fonte – ideiasembalsamadas.blogspot.com

Logo outros cangaceiros foram chegando para a grande Casa de Detenção do Recife[5]

Mais de 100 Cangaceiros Capturados ou Mortos 

Sempre com certo estardalhaço, quando novas prisões e mortes de cangaceiros ocorridas no sertão eram divulgadas em profusão na imprensa recifense.

Na noite de 11 de abril de 1927, uma segunda feira, um homem negro, alto, procurou o major Ferraz no quartel da polícia em Vila Bela. Disse que seu nome era Francisco Miguel, que era acusado de assassinato no município pernambucano de Floresta, havia andado como membro do grupo de Lampião, era conhecido como Pássaro Preto e deixou o bando a cerca de dois meses. Logo este cangaceiro, que também participou do grande combate de Serra Grande, veio para Recife[6].

Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro
Lampião e seu irmão Antônio em Juazeiro

Em 19 de abril, no lugarejo São João do Barro Vermelho, perto de Vila Bela, foi morto o cangaceiro Cícero Nogueira em um tiroteio com as volantes dos tenentes Antônio Francisco e Alfredo Alexandre. Mesmo sem maiores detalhes, consta que os policiais passaram pelo lugar Poço Ferro e tiveram a notícia que este bandoleiro, também participante do combate de Serra Grande, estava próximo a São João do Barro Vermelho.

Major Teófanes Ferraz Torres
Major Teófanes Ferraz Torres

Ali foi capturado pelo soldado Augusto Gouveia. Mesmo detido e cercado, em um dado momento este cangaceiro pediu para palestrar com seu captor, no que foi atendido. No meio da conversa Cícero Nogueira aproveitou um momento de distração do militar e bateu com seu chapéu de couro na cabeça de Gouveia. Na correria que se seguiu o cangaceiro foi alvejado e morto[7].

Quando completava seis meses a frente do cargo, no dia 11 de junho de 1927, através da imprensa pernambucana, Eurico Sousa Leão, junto com o major Ferraz, divulgaram uma lista com o nome, alcunha e fatos ligados a captura ou morte de 100 cangaceiros de diversos bandos que infestavam o sertão[8].

Esta lista impressionante foi publicada no mesmo dia que Lampião e seus homens se encontravam no Rio Grande do Norte, com o objetivo de realizar o ataque a Mossoró, o que ocorreria dois dias depois. O fato do “Rei do Cangaço” está em terras potiguares, buscando novas paragens para praticar suas rapinagens e crimes, é um quadro claro da feroz perseguição que sofria em solo pernambucano. 

Dias Maravilhosos Para os Policiais 

Ao longo do segundo semestre de 1927 outros cangaceiros foram sendo continuamente mortos e capturados pelas forças policiais de Pernambuco e de outros estados nordestinos. Dentre estes estavam alguns que estiveram no ataque dos cangaceiros ao Rio Grande do Norte.

Lampião e seu bando após a derrota em Mossoró
Lampião e seu bando após a derrota em Mossoró

Na sexta-feira, 22 de julho de 1927, o telégrafo estalou em Recife com a notícia da captura naquele mesmo dia do cangaceiro Serra do Umã, também alcunhado Mão Foveira. Ele se chamava Domingos dos Anjos de Oliveira, era negro, jovem, tido como valente e natural da grande Serra do Umã, uma elevação natural do sertão pernambucano cheia de histórias[9].

Região da Serra do Umã na atualidade - Foto - G. dos Anjos
Região da Serra do Umã na atualidade – Foto – G. dos Anjos

Já o bandoleiro Serra do Umã era irmão do cangaceiro alcunhado Azulão, morto no dia 10 de junho de 1927 pelo soldado da polícia potiguar José Monteiro de Matos, no lugar Caiçara, próximo a povoação de Vitória, durante a primeira resistência ocorrida contra Lampião e seus homens no Rio Grande do Norte[10].

Cangaceiro Serra do Umã preso em Recife
Cangaceiro Serra do Umã preso em Recife

Além de Azulão, o pai e outro irmão do cangaceiro Serra do Umã  também já haviam andado com Lampião de arma na mão e chapéu de couro na cabeça. Estes dois, Raimundos dos Anjos (o pai) e Rufino (o irmão), foram presos nos primeiros dias de agosto pela volante do tenente Arlindo Rocha, na localidade Serrote, município de Floresta[11].

Cangaceiro Andorinha
Cangaceiro Andorinha

Ao observar os jornais antigos e livros sobre o tema cangaço, é inegável que aqueles dias de agosto de 1927 foram maravilhosos para a luta das forças de segurança do governo pernambucano contra os cangaceiros e outros bandidos que infestavam o sertão. Até o fim do mês foram presos 16 destes foras da lei, alguns capturados nos contrafortes da própria Serra do Umã. Entre estes figuravam cangaceiros como José Alves de Lima, o José Guida, e João Alves Mariano, o Andorinha, respectivamente com 52 e 30 anos de idade e que haviam acompanhado o mítico chefe cangaceiro Sinhô Pereira[12].

Também estavam detidos os antigos companheiros de Lampião como Antônio Quelé Alves Bezerra, ou Antônio Guilé, alcunhado Candeeiro, Camilo Domingos de Farias, o Pirulito, e seus parentes Fortunato Domingos de Farias, o Guará, e Benedito Domingos de Farias. Consta que Candeeiro e Benedito Domingos estiveram em Mossoró no dia 13 de junho de 1927[13].

Benedito Domingos de Farias preso. Ele também participou do ataque a Mossoró
Benedito Domingos de Farias preso. Ele também participou do ataque a Mossoró

Nestas capturas o tenente Arlindo Rocha certamente usou de violência para alcançar os seus intentos, inclusive contra os coiteiros da Serra do Umã. Após capturar Pirulito (e depois de certamente apertá-lo) o tenente Arlindo esteve junto aos coiteiros conhecidos como David Dudu, Manoel Domingos e Manoel Lucindo, membros ou ligados a família Domingos. Com estes conseguiu encontrar três fuzis Mauser e um rifle Winchester. Mesmo discretamente, um jornal recifense afirma que o tenente Arlindo conseguiu este material bélico depois de colocar os coiteiros “debaixo de rigor”[14].

Em setembro, no dia 11, um domingo, quem se entregou na cadeia de Vila Bela foi outro cangaceiro que causou sensação na imprensa quando chegou à casa de Detenção do Recife. Era o famoso Zabelê.

Considerado de alta periculosidade pela polícia, seu nome verdadeiro era Isaias Vieira dos Santos e quem o recebeu foi o delegado A. Xavier. O cangaceiro declarou que havia tomado parte em vários tiroteios, estando envolvido em um crime na Serra Grande e que nos últimos 14 dias ele estava sem alimentação regular devido à perseguição policial, vivendo de plantas do mato. Aí não teve jeito e decidiu se entregar[15].

Zabelê
Zabelê

Na década de 1960, já velho, morando em um casebre em Serra Talhada, desassistido e muito pobre, Isaias Vieira dos Santos declarou a pesquisadora Aglae Lima de Oliveira que no passado havia sido um pequeno vendedor nas caatingas e seus melhores clientes eram os bandidos. A polícia soube quem era a sua clientela preferencial, o classificou como coiteiro, prometeu surrá-lo e prendê-lo. Isaias decidiu então seguir junto com Lampião. Nesta mesma entrevista, destinada a fornecer dados para o desenvolvimento do livro “Lampião, Cangaço e Nordeste”, o ex-cangaceiro Zabelê afirmou a Aglae de Lima que se entregou aos policiais porque soube que “-Tava garantido pelo coroné Corneio Luare”.

Ou houve um erro gráfico na impressão do livro. Ou a transcrição da fala tradicional do velho cangaceiro ficou muito a desejar. Ou a pesquisadora não quis colocar textualmente que a pessoa que supostamente garantia a entrega de Zabelê à polícia era o comerciante e político serra-talhadense Cornélio Soares[16]

Quem Podia Pagava. Quem não Podia Ficava… 

O ano de 1928 se iniciou e mais cangaceiros chegavam ao Recife.

Em 28 de março, vindo de Rio Branco (atual Arcoverde), chegava a Recife um trem com 15 cangaceiros e uma escolta de 30 policiais.

Camilo Domingos de Farias, o Pirulito
Camilo Domingos de Farias, o Pirulito

Na gare da estação desembarcaram Camilo Domingos de Farias, o Pirulito, Antônio Bernardo Silva, Adriel Ananias Pereira, Manoel Othon Alencar, o Seu Né, Benedito Domingos Farias, Manuel Torquato Amorim, Antônio Quelé Bezerra, o Candeeiro, Domingos dos Anjos de Oliveira, o Serra do Umã, Fortunato Domingos de Farias, o Guará, Rufino dos Anjos Oliveira, Manoel Cornélio de Alencar, o Sinhô Piano, José Bernardo da Silva, Antônio Serafim da Silva, o Antônio de Ernestina e Cícero Flor da Silva[17].

Para quem estava preso os dias passavam lentos, como se passa em todo local de detenção. Para evitar este problema, quem podia tratava de sair da cadeia pelos meios legais.

Este foi o caso do comerciante Emiliano Novaes. Membro de uma proeminente família da cidade de Floresta, tido como amigo e coiteiro de Lampião, consta que chegou a cavalgar de arma na mão ao lado de cangaceiros. No livro de Luiz Bernardo Pericás, “Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica” existe a reprodução de um telegrama policial enviado pelo tenente Sólon Jardim, de Vila Bela para Recife.

O Casca Grossa
O Casca Grossa

Informava o oficial que Emiliano Novaes estava chamando cangaceiros de várias partes para atacar a vila de Nazaré, onde viviam e se concentravam alguns dos maiores inimigos e mais tenazes perseguidores de Lampião.

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O grupo de Emiliano Novaes era superior a 100 cangaceiros e entre suas ações consta que no dia 29 de julho de 1926, no lugar Ingazeira, eles mataram o Soldado Cândido de Souza Ferraz, de número 386, lotado na 1ª companhia, do 3º Batalhão de Vila Bela. Consta que o Soldado Ferraz estava com a saúde debilitada e seguia para o quartel quando foi covardemente assassinado.

Pelo crime Emiliano Novaes foi preso. Mas em agosto de 1928, através do renomado Dr. Caetano Galhardo, seu advogado, conseguiu o desaforamento de seu processo para o município do Cabo, próximo a capital pernambucana. Depois o Dr. Galhardo impetrou uma ordem de habeas corpus. Esta foi julgada em 21 de agosto, sendo o processo anulado “Ab initio” e concedendo a liberdade ao acusado, que foi imediatamente solto[18].

Já os cangaceiros sem recursos, nem advogados, pagavam seus crimes na cadeia. 

Um Intelectual Visita os Cangaceiros 

Na Casa de Detenção de Recife, os agora ex-cangaceiros trabalhavam principalmente na sapataria, alguns eram alfaiates e um era serralheiro. Eles eram muito respeitados pelos outros presos, mas raramente recebiam alguma visita de parentes.

Cangaceiro Capão
Cangaceiro Capão

Entretanto entre as décadas de 1920 e 1930 era normal a visita de estudiosos e jornalistas ávidos para descobrir os aspectos ligados aos cangaceiros e ao cangaço. Mas a maioria só procurava conversar com o velho e respeitado Manoel Baptista de Morais, o famoso cangaceiro Antônio Silvino.

Fotos de cangaceiros presos na Casa de Detenção de Recife, estampada na primeira página de um jornal da capital pernambucana
Fotos de cangaceiros presos na Casa de Detenção de Recife, estampada na primeira página de um jornal da capital pernambucana

Mas os antigos guerreiros de chapéu de couro não ficavam fora dos holofotes. O Chefe de Polícia Eurico Sousa Leão, não criava nenhum tipo de problema quando algum jornalista de Recife e de outras cidades queriam entrevistar e fotografar os cangaceiros. Era uma ótima propaganda da ação “saneadora” do governo pernambucano contra a violência no sertão.

Outra foto dos cangaceiro na reportagem de "O Malho" de dezembro de 1928
Outra foto dos cangaceiro na reportagem de “O Malho” de dezembro de 1928

Uma grande reportagem, que trazia como principal fotografia que abre este artigo, foi realizada pela revista carioca “O Malho”, edição de 29 de dezembro de 1928, cujo autor foi o respeitado Ribeiro Couto. E este fez diferente, nem sequer falou com Antônio Silvino e foi direto conversar com os “cabras” de Lampião[19].

Aproveitando uma parada de quatro horas do vapor Bagé em Recife, Ribeiro Couto deu um jeito de ir à Casa de Detenção. Ali quem lhe apresentou o ambiente foi o delegado Maurício Pinheiro Guimaraes.

Aqueles antigos cangaceiros, sem suas impressionantes roupas e armas, envergando seus claros uniformes azuis de presidiários não causavam medo ao visitante.

Entre maravilhado e um tanto repugnado, o paulista de Santos primeiramente tentou contato com Beija Flor, mas soube que ele estava em uma audiência no interior do estado. Mas se impressionou com Serra do Umã, que para ele era “um cafuzo que os próprios companheiros temiam pelos instintos ferozes”.

Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto
Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto

Ribeiro Couto foi até a oficina da sapataria, onde cerca de 80 homens realizavam seus ofícios na maior tranquilidade, mas a maioria deles estava condenada a 30 anos de reclusão. Ali foi apresentado a Genésio Vaqueiro, um negro risonho, mas discreto. Era conhecido no cangaço como Mourão, disse ter andado com Lampião só por alguns “dias”, que era agricultor, se iludira com o cangaço e que não tinha nenhuma morte nas costas.

Baraúna, o cangaceiro que Couto considerou "um índio"
Baraúna, o cangaceiro que Couto considerou “um índio”

Já em relação a Antônio Gregório da Silva, o Baraúna (ou Braúna), Couto o considerou sua aparência como a de um “índio” e soube que era um dos mais perigosos homens que andou com Lampião. Mas também um verdadeiro artista na “arte de engraxar botas”, seu ofício na Casa de Detenção.

Já de Ventania, que não tinha ainda vinte anos, cujo nome verdadeiro era José Pereira da Cunha, foi o único dos detentos que expressou uma opinião negativa sobre Lampião, por ele ter desrespeitado uma prima sua. Ribeiro Couto sugeriu então se não seria o caso de incorporá-lo nas volantes que no final de 1928 caçavam Lampião nos sertões da Bahia.

Para Ribeiro Couto aqueles rapazes, que um dia viveram apenas da agricultura, ao andarem com Lampião se tornaram “famosos”, mas que também aquilo havia sido a perdição de todos[20]

Anos Atrás das Grades 

O tempo ia passando, seguindo o ritmo da justiça.

No começo de dezembro de 1929, em seção presidida no Fórum de São Lourenço pelo juiz José Julião R. Pinto de Souza, sendo promotor o Dr. Nogueira Vilela, o ex-cangaceiro Serra do Umã foi pela segunda vez absolvido. Não sei dizer quando ocorreu seu primeiro júri, mas sabemos que o seu processo foi desaforado da Comarca de Floresta e que, mesmo com a segunda absolvição, o Dr. Vilela apelou novamente. Mas o antigo companheiro de Lampião não desistiu[21].

1930-Beija FRlor em Noronha

Não sabemos quando, mas temos a notícia que Beija Flor foi julgado e condenado a 30 anos de reclusão no presídio do então Território Federal de Fernando de Noronha. Em fevereiro deste mesmo ano ele chegava do temido arquipélago no vapor Corcovado, junto com mais 90 detidos, para ir depor em Salgueiro, no interior de Pernambuco. Foi notícia em todos os jornais recifenses[22].

O cangaceiro Guará
O cangaceiro Guará

Ao longo dos anos vários dos antigos bandoleiros participavam de seus julgamentos, alguns deles por vezes seguidas, com resultados que chamam atenção. No primeiro julgamento da 4ª Seção do Júri de Recife, presidido pelo Dr. João Tavares, no dia 25 de outubro de 1933 foram absolvidos Benedito Domingos de Farias (que havia feito parte do bando de Lampião durante o ataque de Mossoró), Fortunato Domingos de Farias, o Guará, e Domingos dos Anjos de Oliveira, o Serra do Umã. Para Domingos era terceira vez que pisava em um tribunal e pela terceira vez ocorria a sua absolvição. Mas tal como das outras vezes, pela terceira vez o promotor recorreu. A partir daí não sabemos o que aconteceu com ele e seus companheiros[23].

Passados 30, 40 anos depois, vamos ter algumas notícias destes antigos cangaceiros que andaram com Lampião no período anterior a 1928. Entretanto o destino de muitos requer pesquisa mais acentuada, mas com possibilidades de se conseguir poucas informações. E a causa é relativamente simples!

Em outra reportagem de "O Malho" vemos, da esq. para dir. os cangaceiros Cobra Verde, Cocada e Recruta em 1929
Em outra reportagem de “O Malho” vemos, da esq. para dir. os cangaceiros Cobra Verde, Cocada e Recruta em 1929

Estigmatizados, perseguidos e marcados, para muitos que sobreviveram ao cangaço e o cárcere, o melhor na vida pós-cadeia era a discrição. Evitar falar sobre este tema. Evitar falar sobre a sua vida no cangaço e na cadeia até com os familiares.

Na década de 1920 a Casa de Detenção de Recife se caracterizava por haver grupos de trabalhos, como este da gráfica e encadernação.
Na década de 1920 a Casa de Detenção de Recife se caracterizava por haver grupos de trabalhos, como este da gráfica e encadernação.

Muitos deles até estavam vivos e lúcidos quando vários setores culturais brasileiros nas décadas de 1950 e 1960 voltaram seus focos para o tema cangaço e a sociedade brasileira passou a conhecer Mais do tema. Mas o Nordeste dessa época ainda era bem atrasado no sentido de absorção de informações e poucos foram até eles com material condizente para gerar bons registros.

Cangaceiro Cancão
Cangaceiro Cancão

Na década de 1970 pesquisadores começaram a percorrer os sertões em Fords Rurais em busca dos que participaram do cangaço antes de 1928. Buscavam histórias da época anterior a Lampião cruzar o “Velho Chico”, quando os bandos podiam ter mais de 100 “cabras” e antes das mulheres participarem ativamente do cangaço.

Antônio Quelé Alves Bezerra, ou Antônio Guilé, alcunhado Candeeiro
Antônio Quelé Alves Bezerra, ou Antônio Guilé, alcunhado Candeeiro

Chegaram aos rincões levando a tiracolo pesados gravadores de “Fitas K7” e máquinas fotográficas japonesas de ótima qualidade. Mas muitos dos que vivenciaram aquele momento do cangaço ou continuavam sem querer falar, ou já tinham morrido, ou estavam senis.

Mas com persistência e uma busca mais apurada alguns falaram e deram ótimos depoimentos sobre suas andanças de armas na mão.

Mas poucos falaram das experiências cadeia!

Dos que falaram temos o exemplo de Isaias Vieira dos Santos, o Zabelê.

No seu relato dado a pesquisadora Aglae Lima de Oliveira no final da década de 1960, comentou que quando andava com Lampião passava muito bem e vivia de “barriga cheia”. Mas aí veio o cárcere!

Sabemos que Zabelê passou 14 anos atrás das grades e que grande parte foi em Fernando de Noronha. Para ele este tempo de presídio lhe trazia muito arrependimento. Mas não pelos crimes cometidos, mas por ter se entregado as autoridades. Isaias reclamou que nunca achou “quem espiasse meus papé” para sair mais cedo da cadeia.

José Alves de Lima, o José Guida, que teria sido cangaceiro de Sinhô Pereira
José Alves de Lima, o José Guida, que teria sido cangaceiro de Sinhô Pereira

Ele confirmou que entrou no cangaço “empurrado pula puliça” e que não era ”home de leva surra de outro home”. A pesquisadora Aglae Lima acentuou em seu livro que Isaias Vieira dos Santos, na época do seu relato “passava fome”[24].

Talvez para ele fosse melhor morrer lutando!


REFERÊNCIAS

[1] Sobre a biografia e o trabalho policial de Eurico de Sousa Leão ver – http://blogvivendoaguapreta.blogspot.com.br/p/noticias.html e http://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_de_Sousa_Le%C3%A3o

[2] Este lugar atualmente se chama Petrolândia, está localizado na região do Médio São Francisco, na fronteira entre Pernambuco e Bahia e possui cerca de 25.000 habitantes.

[3] Beija Flor afirmou também que estava atuando com seu pequeno bando de cangaceiros na fronteira entre Pernambuco e a Bahia, quando caiu em uma cilada e foi capturado. Mais sobre Beija Flor ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição de 15 de março de 1927, pág. 2. Sobre a saída de Lampião de Pernambuco devido à atuação das forças volantes ver TORRES FILHO, G. F. de S. Pernambuco no tempo do Cangaço : Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira “Lampião” : Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar – Volume II (1926-1933): Recife-PE: Edições Bagaço, 2003, págs. 170 a 174.

[4] Ver Jornal de Recife, Recife-PE, edições de 8 de abril de 1927, pág. 2 e 28 de abril de 1927, pág. 5. Sobre a íntegra do Código Penal de 1890 ver http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=66049,

MACIEL, F. B. Lampião, seu tempo e seu reinado: A Guerra de Guerrilhas (fase de domínio): Petrópolis-RJ: Editora Vozes Ltda, 1986, págs. 171 e OLIVEIRA, B. M. O Cangaceirismo no Nordeste, 2ª Ed.: João Pessoa-PB, 2002, pág. 209.

[5] Em 6 de agosto de 1848, através da Lei provincial 213, foi autorizada a construção de uma cadeia pública em Recife. A construção se iniciou em 1850 e sua conclusão só ocorreu em 1867, apesar da sua inauguração oficial ter sido realizada 25 de abril de 1855. O prédio da Casa de Detenção do Recife, em estilo neoclássico, foi construído em forma de cruz, ficando as celas dispostas em alas que podiam ser vigiadas facilmente a partir de uma sala central. Em 1973, depois de 118, o presídio foi desativado e o local transformado na Casa de Cultura de Pernambuco, onde até hoje funciona um centro de artesanato, com lojas de pintura, bordado, joias, confecções etc. Ver www.casadaculturape.com.br/aCasa.php

[6] Ver o periódico Jornal Pequeno, Recife-PE, edição do dia 12 de abril de 1927, 1ª pág.

[7] Cícero Nogueira é apontado nos jornais como sendo tanto coiteiro que apoiava Lampião, quanto cangaceiro que andou com o grande chefe do cangaço e, aparentemente, formou um pequeno bando que perturbava a paz na região de São João do Barro Vermelho, atualmente denominada Tauapiranga e ainda hoje um distrito de Serra Talhada. Ver os periódicos Jornal Pequeno, Recife-PE, edição do dia 12 de abril de 1927, 1ª pág, A Província, Recife-PE, edição do dia 20 de abril de 1927, pág. 5 e o livro de TORRES FILHO, G. F. de S. Pernambuco no tempo do Cangaço : Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira “Lampião” : Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar – Volume II (1926-1933): Recife-PE: Edições Bagaço, 2003, págs. 194 e 195.

[8] Ver jornal A Província, Recife-PE, edições dos dias 11 e 12 de junho de 1927, págs. 2 e 3 respectivamente.

[9] Com altitudes que chegam a quase 1.000 metros, está localizada entre as cidades pernambucanas de Floresta, Salgueiro e Serra Talhada, mas a cidade mais próxima é Carnaubeira da Penha, com quase 13.000 habitantes. Durante o período do Cangaço a Serra Umã foi um verdadeiro baluarte dos bandoleiros e considerada quase inexpugnável. Em 1920 o então capitão Teófanes Ferraz Torres subiu a serra atrás de bandidos, junto com uma volante e levou um tiro no rosto dos chamados “Caboclos da serra”. Estes eram os descendentes de indígenas e de antigos escravos fugitivos que buscaram refúgio naquela grande elevação. Já a presença dos indígenas na Serra do Umã data provavelmente do século XIX. Segundo documentos de 1801, esses índios, sob a denominação de Umãs juntamente com outras tribos, foram aldeados no local onde permaneceram até 1819, quando a aldeia foi abandonada após vários conflitos. Em 1824, houve a dispersão de diversos grupos indígenas pelo sertão de Pernambuco, tendo os Umã se dirigido para região da Serra Negra. As primeiras visitas de representantes do extinto SPI – Serviço de Proteção ao Índio àquele grupo ocorreram entre 1943 e 1945, conforme depoimento de índios Aticum, quando funcionários desse órgãoestiveram na área para assisti-los dançarem o “toré”. A realização do “toré” seria o Indicador de que os habitantes daquela serra do sertão pernambucano eram “índios”, o que Ihes  então  daria o direito de receberem assistência do SPI. Em 1949 foi criado o Posto Indígena Aticum, posteriormente denominado Padre Nelson, na aldeia Alto da Serra. A presença dos antigos escravos é caracterizada também pela adoção de elementos da religiosidade de matriz africana entre os índios Aticum. Sobre a prisão do cangaceiro Serra do Umã ver jornal A Província, Recife-PE, edição do dia 22 de julho de 1927, pág. 2. Sobre as populações indígenas que habitam a Serra do Umã ver  http://www.ufpe.br/nepe/povosindigenas/atikum.htm / http://www.ufpe.br/nepe/povosindigenas/atikum.htm. Sobre a fama da Serra doUmã ser um baluarte de cangaceiro ver TORRES FILHO, G. F. de S. Pernambuco no tempo do Cangaço : Antônio Silvino, Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira “Lampião” : Theophanes Ferraz Torres, um bravo militar – Volume II (1926-1933): Recife-PE: Edições Bagaço, 2003, págs. 218 e 219.

[10] A antiga povoação de Vitória é o atual município potiguar de Marcelino Vieira. Sobre o combate da Caiçara ver https://tokdehistoria.com.br/tag/marcelino-vieira/https://tokdehistoria.com.br/tag/o-grande-fogo-da-caicara/

[11] Sobre a prisão do pai e do irmão do cangaceiro Serra do Umã, ver jornal O Paiz, Rio de Janeiro-RJ, edição do dia 13 de agosto de 1927, pág. 4.

[12] Mais sobre José de Guida e Andorinha, ver Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 2º de maior de 1928, pág. 7.

[13] Segundo o pesquisador Bismarck Martins de Oliveira o cangaceiro Andorinha também havia estado com Lampião em Juazeiro, no dia 4 de março de 1926. Sobre Candeeiro este autor aponta que ele também acompanhou Lampião a Juazeiro, esteve no grande combate da Serra Grande e confirma que o mesmo esteve participando da invasão de Mossoró. Ver OLIVEIRA, B. M. O Cangaceirismo no Nordeste, 2ª Ed.: João Pessoa-PB, 2002, págs. 200 e 214.Ver também os jornais A Província, Recife-PE, edição do dia 19 de agosto de 1927, pág. 5. e Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 23 de agosto de 1927, 1ª pág.

[14] Ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 23 de agosto de 1927, pág. 9.

[15] A Província, Recife-PE, edição do dia 14 de setembro de 1927, pág. 3.

[16] Sobre o depoimento de Isaias Vieira dos Santos, ver OLIVEIRA, A. L. Lampião, Cangaço e Nordeste, 2ª Ed.: Rio de janeiro-RJ, 1970, págs. 420 e 421. Já em relação a Cornélio Aurélio Soares Lima, era mais conhecido como coronel Cornélio Soares, nasceu no dia 14 de setembro de 1886 na cidade de Salgueiro, era filho de Tibúrcio Valeriano Gomes Lima e Dona Lucinda Soares Lima. Ainda jovem contrai matrimônio com Cecília Diniz com quem forma uma prole de sete filhos. Em 1925 fica viúvo, e no ano de 1926 casa-se com Úrsula de Carvalho Soares que lhe dá mais nove filhos. Desde cedo demonstrou grande vocação para política, tomando sempre parte decisiva em todos os acontecimentos políticos e sociais da época. Com o advento da revolução de 1930, assume o comando político da então Vila Bela, que tinha como líder na política estadual o Dr. Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães. Foi prefeito de Serra Talhada no período de 1947 a 1951. Faleceu em 6 de agosto de 1955. Ver – http://www.fundacaocasadacultura.com.br/site/?p=materias_ver&id=268

[17] Ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 30 de março de 1928, pág. 5.

[18] Sobre o caso Emiliano Novaes ver PERICÁS, L. B. Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica: São Paulo-SP, 2010, Boitempo Editorial, págs. 214 e 215. Também o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 22 de agosto de 1928, pág. 3. Já “Ab initio” é uma expressão latina que significa desde o início, desde o começo.

[19] Rui Esteves Ribeiro de Almeida Couto (Santos, 12 de março de 1898 — Paris, 30 de maio de 1963), mais conhecido simplesmente como Ribeiro Couto, formou-se bacharel em Direito em 1919, no Rio de Janeiro RJ. Até 1922, colaborou nas revistas Brás Cubas e Careta, sob os pseudônimos de Antônio Simples e Zeca, e nos jornais Gazeta de Notícias, sob o pseudônimo de Eduardo Sancho, Diário do Rio de Janeiro, A Pátria e A Manhã. Em 1921 publicou O Jardim das Confidências, seu primeiro livro de poesia. Nas décadas seguintes foram publicados seus romances Cabocla e Prima Belinha e seus livros de contos Circo de Cavalinhos e O Crime do Estudante Batista, entre outros. Também produziu livros de ensaios, impressões de viagens e crônicas, além da peça de teatro Nossos Papás. Entre 1929 e 1955 serviu, com adido consular e embaixador, na França, em Portugal e na Iugoslávia. Em 1932 fundou a Editora Civilização Brasileira, com Gustavo Barroso e outro sócio. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1934. Sua obra poética inclui, entre outros, os livros Um Homem na Multidão (1926), Canções de Amor (1930), Noroeste e Outros Poemas do Brasil (1933), Cancioneiro do Ausente (1943) e Entre Mar e Rio (1952). A poesia de Ribeiro Couto pertence à segunda geração do Modernismo. De acordo com o crítico Rodrigo Octávio Filho – Ribeiro Couto opôs, aos temas nobres, os temas cotidianos, os temas da vida ao alcance do olhar de qualquer ‘homem da multidão’. E tudo isso em linguagem discreta e em meio tom.

[20] Ver Revista O Malho, Rio de Janeiro-RJ, ed. 29 de dezembro de 1928, págs. 23, 51 e 52.

[21] Sobre este caso, ver o jornal A Província, Recife-PE, edição do dia 4 de dezembro de 1929, pág. 2.

[22] Ver o periódico Jornal Pequeno, Recife-PE, edição do dia 2 de fevereiro de 1930, pág. 3.

[23] Ver o Jornal de Recife, Recife-PE, edição do dia 26 de outubro de 1933, pág. 2.

[24] Ver OLIVEIRA, A. L. Lampião, Cangaço e Nordeste, 2ª Ed.: Rio de janeiro-RJ, 1970, págs. 420 e 421.