UMA FOTO DO ANTIGO PORTO DE MACAU

UMA FOTO DO ANTIGO PORTO DE MACAU

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

A história de Macau, no Rio Grande do Norte, está profundamente ligada ao sal, e a exploração salineira na região possui raízes antigas. Durante o período colonial, entretanto, o monopólio português sobre o comércio do sal dificultou o desenvolvimento de uma produção brasileira de maior escala. A situação começou a mudar no início do século XIX, especialmente após o fim do monopólio em 1801, e, posteriormente, a atividade salineira encontrou em Macau condições naturais particularmente favoráveis.

Os colonizadores portugueses que chegaram à região habitavam inicialmente na ilha de Manuel Gonçalves, mas as constantes invasões do Oceano Atlântico, que começaram a se intensificar por volta de 1825, tornaram a permanência impossível. Em 1829, os moradores transferiram-se para outro local, escolhendo a ilha de Macau, na foz do rio Açu. A antiga ilha de Manuel Gonçalves acabou sendo completamente submersa pelo mar anos depois. Esses colonizadores se dedicavam à exploração e ao comércio do sal e, com a transferência, estabeleceram-se na área que daria origem à cidade de Macau. Em 1847, o povoado foi elevado à categoria de vila e desmembrado de Angicos; em 1875, recebeu foros de cidade.

Durante o século XIX, o sal produzido na região passou a atrair embarcações nacionais e estrangeiras. Nestor dos Santos Lima, em sua obra Municípios do Rio Grande do Norte (1942, Tipografia Santo Antônio), registrou Macau como um dos grandes empórios de sal do Brasil e destacou que o comércio do produto atraía numerosas embarcações ao porto local.

O Sal e a Transformação da Economia Potiguar

Um momento decisivo ocorreu em 1886, quando o Governo brasileiro aumentou a tributação sobre o sal estrangeiro. A medida protecionista favoreceu a produção nacional e estimulou a expansão das salinas potiguares.

Poucos anos depois, através do Decreto Imperial nº 10.413, de 26 de outubro de 1889, praticamente nos últimos dias do Império, foi concedida a Antônio Coelho Ribeiro Roma, ou à companhia que por ele fosse organizada, permissão para estabelecer e explorar salinas e fábricas destinadas à purificação do sal em terrenos devolutos do Estado, pelo prazo de 30 anos. A concessão ficou conhecida como “Concessão Roma” e se tornou um dos capítulos mais importantes e polêmicos da história econômica do Rio Grande do Norte, contribuindo para modificar profundamente a estrutura da atividade salineira.

Foto do moinho de sal existente na entrada de Macau – Fonte – Essa foto se encontra no hall de entrada dpo Hotel Gamboa Premium Macau, mas sem indicação do autor..

A Companhia Nacional de Salinas Mossoró-Açu passou a dispor de capital e embarcações e adquiriu diversas pequenas salinas, contribuindo para a concentração da exploração e para a transformação da atividade em um negócio de maiores dimensões. A concentração provocou forte reação entre os produtores locais e, após anos de disputas, a Justiça determinou, em 1914, a anulação do contrato da companhia, encerrando uma etapa importante da chamada Concessão Roma.

Macau estava, portanto, inserida em um processo mais amplo de transformação da economia brasileira, no qual capitais, empresas, mercadorias e trabalhadores passaram a circular por redes comerciais cada vez mais abrangentes.

Macau: Um Porto Diferente

O antigo porto de Macau não possuía profundidade suficiente para permitir a aproximação direta dos maiores navios à margem. O sistema portuário era formado por canais e barras interligados ao estuário do Rio Açu. No início do século XX, o engenheiro civil Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, pai do famoso poeta modernista Manuel Bandeira, que atuava na área de portos e canais, produziu um relatório detalhado sobre a região. Em 1918, esse documento informava que o sistema desembocava no oceano por três bocas: o Açu, ou Amargoso, o Rio dos Cavalos e o Rio das Conchas. Os dois últimos eram ligados por gamboas — canais estreitos em zonas de manguezais ou estuários que facilitavam a comunicação entre os rios, especialmente durante a maré alta.

Estrada de acesso a Macau, vendo uma carreta carregada de sal e salinas nas laterais – Fonte – Rostand Medeiros.

A costa de Macau sempre foi caracterizada por águas rasas e bancos de areia móveis na foz de seus rios. Isso dificultava que os maiores navios mercantes, os chamados “vapores”, chegassem perto dos trapiches da cidade para carregar o sal diretamente. Os navios de maior porte permaneciam afastados, enquanto a carga era transportada por embarcações menores até o “Lamarão”, um ancoradouro natural situado a algumas milhas da costa. Por possuir maior profundidade, o Lamarão era o ponto onde os vapores nacionais e estrangeiros ficavam fundeados, aguardando o carregamento. Navios de menor calado, entretanto, podiam penetrar nos canais do sistema portuário.

Em 1918, registros da época confirmavam que Macau possuía numerosas barcaças, mantidas especialmente pelos industriais salineiros para transportar o produto dos aterros até os navios ancorados no Lamarão. Das salinas, o sal chegava aos aterros e dali seguia em barcaças até os vapores. Essa engrenagem logística deu origem a categorias profissionais diretamente ligadas à atividade portuária, como os barcaceiros, estivadores e conferentes.

Um documento preservado pelo Arquivo da Justiça Federal registra que, em 1900, a barca brasileira Victoria transportou um carregamento de sal de Macau para uma empresa de sal e navegação. O processo conserva, inclusive, o Despacho Marítimo da Mesa de Rendas Federais de Macau, também de 1900.

Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Macau, eregida em  19 de agosto de 1854 – Fonte – Rostand Medeiros..

Esse documento é uma pequena janela para uma realidade muito maior.

O sal de Macau circulava por via marítima e alcançava outros mercados brasileiros. O porto era, portanto, uma das portas de saída de uma das riquezas naturais mais importantes do Rio Grande do Norte.

E a presença da Mesa de Rendas demonstra que aquela movimentação possuía também uma dimensão fiscal e administrativa. Em documentação do próprio Estado, referente ao ano de 1900, aparece o cargo de administrador da Mesa de Rendas de Macau.

O Que Essa Fotografia nos Conta

Na imagem, vemos trabalhadores, mercadorias, estruturas de embarque e diferentes tipos de embarcações. Ao fundo, a paisagem de mangues e águas rasas ajuda a compreender as características naturais que condicionavam a navegação local.

À direita, destaca-se um grande edifício cuja fachada possui um mastro. Trata-se da antiga Mesa de Rendas Estaduais, repartição pública intimamente ligada à atividade portuária e à fiscalização das atividades comerciais e das cargas que movimentavam a economia local, especialmente o sal. Essa efervescência também se aplica aos barcos. A fotografia permite reconhecer pequenas embarcações à vela e outras de maior porte, movidas a vapor. Embora não seja possível atribuir nomes específicos a cada uma delas apenas pela imagem, sabemos, por meio de documentação da época, que a atividade portuária utilizava botes, barcaças, lanchas, cúteres e hiates.

Ao observarmos esta fotografia mais de um século depois, o aspecto mais impressionante é perceber quantas profissões e formas de trabalho desapareceram ou foram profundamente modificadas. O porto dependia do conhecimento de homens que dominavam as águas, as marés, os canais e as barras: os barcaceiros que conduziam as embarcações, os estivadores que movimentavam as cargas, os conferentes que controlavam os produtos e os salineiros que trabalhavam nas salinas.

Estrada de acesso a Macau ao pôr do sol – Foto – Rostand Medeiros.

Era uma economia baseada na força humana, na navegação tradicional e no conhecimento prático acumulado por gerações. Décadas mais tarde, a mecanização das salinas e a modernização dos sistemas de transporte modificariam radicalmente essa realidade. Em 1910, contudo, esse mundo tradicional ainda estava plenamente vivo e atuante.

Por isso, esta não é simplesmente uma fotografia antiga de Macau. É o registro de uma engrenagem econômica vital que interligava as salinas do Rio Grande do Norte aos navios, aos grandes mercados e a outras partes do Brasil. É, acima de tudo, um testemunho histórico dos homens e mulheres que viveram do sal, do mar e do labor portuário — uma Macau de velas, mangues e trabalhadores, cujo passado moldou a própria história econômica potiguar.

O SAL NO RIO GRANDE DO NORTE

Fonte http://naesquinadobrasil.blogspot.com.br/
Fonte http://naesquinadobrasil.blogspot.com.br/

O sal foi um dos primeiros produtos a ser explorado comercialmente no Rio Grande do Norte. A exploração normal e extensiva das salinas de Mossoró, litoral de Areia Branca, Açu e Macau data de 1802. Mas o conhecimento de jazidas espontâneas na região já era conhecida desde o início da colonização.

A primeira referência que se tem sobre sal no Rio Grande do Norte, encontra-se registrado no documento que Jerônimo d’Albuquerque escreveu a seus filhos Antônio e Matias em 20 de agosto de 1605, onde fala de salinas formadas espontaneamente a aproximadamente 40 léguas ao norte, o que corresponde hoje as salinas de Macau. Desse fato, voltamos a ter notícias quando consultamos o “Alto de repartição das terras” feito em Natal em fevereiro de 1614, onde está escrito que Jerônimo de Albuquerque dera aos filhos Antônio e Matias, em 20 de agosto de 1605, umas salinas que estariam a quarenta léguas para o norte (aproximadamente 240 km), mas que nunca foram cultivadas nem feitas benfeitorias.

Salinas na década de 1920
Salinas na década de 1920

Em 1627, frei Vicente do Salvador registrou a colonização Norte-rio-grandense. Notou que “as salinas onde naturalmente se coalha o sal em tanta quantidade que se podem carregar grandes embarcações”.

Outro registro que encontramos nos velhos livros de história fala que em janeiro de 1644, alguns Tapuias, de volta do Outeiro da Cruz (Maranhão), onde tinham estado em combate, entraram nas salinas de Mossoró e degolaram alguns trabalhadores que ali se encontravam.

Em 1808 os salineiros da região foram beneficiados, quando o rei de Portugal, D. João VI, impossibilitado de receber carregamentos de sal de Portugal, assinou a carta régia que liberava de quaisquer imposições a extração do sal favorecendo, sobremaneira, o comércio interno.

Tradicional catavento para extração de sal na década de 1920
Tradicional catavento para extração de sal na década de 1920

Em 1844/45, setenta e oito barcos carregaram em Macau 59.895 alqueires de sal. No entanto, embora o sal extraído no Rio Grande do Norte fosse superior pela sua qualidade intrínseca, perdia essa qualidade pela rudeza como era produzido, de modo que nos anos seguintes perdia mercado para o sal europeu que era mais barato e melhor preparado. Um dos fatores que onerava o preço do sal produzido no Rio Grande do Norte era a dificuldade no transporte por causa do assoreamento das barras dos rios Mossoró e Açu.

Em 1886 é criado um imposto protecionista para tributar o sal estrangeiro. Dessa forma, o sal produzido no Rio Grande do Norte passa a ser competitivo, e isso impulsiona decisivamente o desenvolvimento da nossa indústria salineira.

No período de 1941/45, houve uma retração na extração do sal, motivada pela diminuição da navegação de cabotagem durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, o sal continuou sendo o principal produto comercializado por Mossoró e região, sofrendo oscilações que não comprometeram o mercado de forma mais acentuada.

Os municípios do Rio Grande do Norte produtores de sal são os seguintes: Galinhos, Guamaré, Macau, Areia Branca, Grossos e Mossoró.

Barco tradicional utilizado no transporte de sal
Barco tradicional utilizado no transporte de sal

Depois de toda essa explicação, o leitor poderia perguntar: como Mossoró está entre os municípios produtores de sal se não fica no litoral? Para responder a essa pergunta, temos que dá outras explicações: o clima predominante em Mossoró é semiárido quente, com temperatura oscilando entre 24o e 35o centígrados, temperatura essa que dura a maior parte do ano. O ar apresenta baixo teor de umidade, elevada evaporação, apresentando uma média de 2.850mm. As precipitações ocorrem ao redor de 450 mm anuais e a evaporação líquida é de 2.400, sendo que a intensidade de irradiação solar varia entre 120 e 320 horas/mês, com ventos que apresentam velocidade média entre 3,8 e 4,4 m/s. Junto a isso temos ainda um solo impermeável, o que assegura condições ideais para a cristalização e colheita do sal, com um grau de pureza que atin ge até 98 Baumé (Graus de Baumé é uma escala hidrométrica criada pelo farmacêutico francês Antoine Baumé em 1768 para medição de densidade de líquidos.).

Local de extração de sal
Local de extração de sal

E onde estão localizadas as salinas? Poderia perguntar ainda o atencioso leitor. As salinas de Mossoró estão localizadas na várzea estuarina dos rios Mossoró e do Carmo. Essa várzea é inundada, ora pelas águas do mar, ora pelas águas das enchentes dos rios, que quando cessam as chuvas formam salinas naturais, onde o relevo é plano e baixo, estreitando-se para o litoral, onde a água do mar chega a alcançar até 35 Km do litoral. Essa série de fenômenos naturais é que faz com que Mossoró possa figurar entre os municípios produtores de sal do Rio Grande do Norte.

Fonte do texto – http://salnautico.com.br/historia.php

Fotos – Coleção do proprietário do Blog Tok de História