ENCONTRANDO O SOLDADO TOM: DESVENDANDO O MISTÉRIO DE UM PRISIONEIRO DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Olga Ivshina – BBC News Rússia

Fonte – https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Em mais de 80 anos ninguém soube o que aconteceu com um prisioneiro de guerra soviético que escapou dos nazistas nas ilhas do Canal e passou o resto da Segunda Guerra Mundial escondido dos alemães na casa de uma família local.

Conhecido apenas pelo seu primeiro nome, Bokejon, ou simplesmente Tom, ele foi um dos cerca de 2.000 prisioneiros soviéticos e trabalhadores forçados trazidos para a ilha de Jersey para construir fortificações nazistas.

Um oficial da Luftwaffe (Força Aérea Nazista) conversa com um policial britânico em St. Helier, capital da ilha de Jersey, durante a ocupação alemã das ilhas do Canal. As ilhas foram a única parte das Grã-Bretanha a ser invadida pelos alemães em 1941 – Fonte – https://worldwartwo.filminspector.com/2014/09/channel-islands.html

Essa ilha se localiza no Canal da Mancha, mais próximo da costa francesa do que da inglesa, faz parte do arquipélago conhecido como ilhas do Canal e foram ocupadas por tropas nazistas entre 1940 e 1945. Durante esse período esses prisioneiros vieram para a ilha de muitos países diferentes que então estavam ocupados pelos alemães e foram utilizados como mão de obra escrava para construírem diversas fortificações.

Após a libertação, Tom e os outros prisioneiros de guerra sobreviventes foram enviados de volta à URSS, a sigla da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, atual Federação Russa. Embora Tom tenha prometido manter contato, depois de seu retorno nunca mais se teve notícias dele.

Mapa das Ilhas do Canal, bem próximas a costa francesa – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/German_occupation_of_the_Channel_Islands

Isso até que equipes da BBC localizarem seus descendentes bem longe das ilhas, no extremo leste do Uzbequistão, um país localizado na Ásia Central.

Foi em 1943 que Tom escapou de um dos campos de trabalhos forçados nazistas em Jersey. Exausto, faminto e desesperado, ele bateu à porta dos fazendeiros locais John e Phyllis Le Breton. Eles sabiam do risco, mas o acolheram e salvaram a sua vida.

As condições nos campos eram duras.

Prisioneiros levados para trabalhos forçados na ilha de Jersey – Fonte – https://guernseydonkey.com/alderneys-war/

Estávamos trabalhando em uma pedreira, das seis da manhã às seis da noite, e nossa alimentação consistia em sopa ao meio-dia, uma porção muito pequena de pão e um pouco de manteiga na hora do chá. Não tomávamos café da manhã“, escreveu Tom mais tarde em seu diário.

Por qualquer coisa, éramos brutalmente espancados. Se não conseguíssemos trabalhar, éramos privados de comida e espancados novamente; eles nunca acreditavam que estávamos doentes.”

Como parte do Muro do Atlântico, uma barreira de fortificações construidas para tentar deter as tropas Aliadas, as forças de ocupação alemãs construíram fortificações ao redor da costa das ilhas do Canal, como esta torre de observação na Bateria Moltke – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/German_occupation_of_the_Channel_Islands

Durante mais de dois anos, ele ficou escondido no lar dos Le Bretons.

O perigo era real. Outra moradora de Jersey, Louisa Gould, foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück e assassinada em uma câmara de gás por abrigar um fugitivo soviético chamado Fyodor Burriy. Seus vizinhos à denunciaram às autoridades alemãs.

John e Phyllis Le Breton confiavam tanto em seu soldado fugitivo que permitiram que ele lesse para seus filhos e brincasse com eles, inclusive com sua filha Dulcie.

O casal Le Breton na época da Segunda Guerra – Fonte – https://www.gazeta.uz/en/2026/05/01/award/

Nosso querido tio Tom, nós o amávamos muito. Ele é minha principal lembrança da guerra e sua foto ainda está ao lado da minha cama“, disse Dulcie, que completa 90 anos em junho próximo. “Mas continuo intrigada com o que aconteceu com ele depois da guerra.”

Após a libertação das Ilhas do Canal em maio de 1945, Tom, assim como outros prisioneiros de guerra soviéticos sobreviventes, foi enviado de volta à URSS. Três cartas chegaram a Jersey enquanto ele era levado de volta para casa, atravessando a Europa, mas depois disso, silêncio.

Um soldado da ocupação alemã na costa da Ilha de Jersey, no verão de 1940 – Fonte https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Os ex-prisioneiros que retornavam à União Soviética eram normalmente submetidos a triagem e interrogatórios nos chamados campos de filtragem da NKVD, sigla do temido Comissariado do Povo para Assuntos Internos, a polícia secreta da União Soviética. As autoridades frequentemente interpretavam a sua captura como um sinal de possível deslealdade, covardia, ou colaboração com o inimigo.

Alguns eventualmente tiveram permissão para retornar à vida normal. Mas muitos foram tachados de não confiáveis, enfrentaram muitas barreiras para conseguir emprego, progredir em suas carreiras e viveram sob uma constante nuvem de suspeita.

Multidões vibram com a libertação das ilhas do Canal em 1945 – Fonte –https://en.wikipedia.org/wiki/Channel_Islands

Alguns foram condenados e enviados para campos de trabalho forçado dentro da URSS. Mesmo após a morte do ditador soviético Josef Stalin em 1953, o estigma associado aos ex-prisioneiros de guerra não desapareceu da noite para o dia.

Tom assinava suas cartas aos Le Bretons como “Bokijon Akram“, mas nem eles nem os historiadores de Jersey sabiam o seu nome completo ou exatamente de onde ele vinha.

Em seguida, uma equipe da BBC Rússia juntou-se às buscas.

Embora tenhamos trabalhado durante anos com arquivos soviéticos e de tempos de guerra, este caso apresentou um desafio particular.

Soldados soviéticos em uma pausa, enquanto um colega armado com uma metralhadora Degtyaryov DP-27 está vigilante ante um ataque alemão. Foto obtida na frente da Bielorússia em 1944 – Fonte – https://origins.osu.edu/read/living-ghosts-second-world-war-and-russian-invasion-ukraine

Tom havia assinado seu nome em inglês e não estava claro como isso teria sido traduzido para o russo, idioma usado em documentos oficiais em toda a URSS na época.

Consultamos dezenas de registros e centenas de variações ortográficas, restringindo gradualmente a busca com base em detalhes que ele havia anotado em seu diário. Lembrar que o Uzbequistão era parte integrante do território da URSS e só conseguiu a sua indepêndenncia total em 31 de agosto de 1991, quase dois anos após a Queda do Muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989.

A partir desses registros, parece que Bokejon tinha cerca de 30 anos quando foi mobilizado em 1941, lutou e foi capturado no território da atual Ucrânia e pode ter tido origens na Ásia Central.

A busca foi então restringida a uma correspondência provável: Bokejon Akramov, nascido em 1910 e mobilizado em Namangã, ou Namagan, cidade do atual Uzbequistão com mais de 600.000 habitantes.

Encontramos um registro que mostrava que ele havia sido condecorado com a Ordem da Guerra Patriótica décadas depois. Crucialmente, esse registro incluía um endereço residencial.

Nesse momento, uma equipe da BBC Uzbeque se juntou às buscas e viajou até Namangã para verificar o endereço, na esperança de que alguém lá se lembrasse de Bokejon ou o reconhecesse pelas fotografias preservadas pela família Le Breton.

Atualmente na casa de Dulcie Le Breton as fotos de seus pais estão junto a foto de Bokejon Akramov, o “Soldado Tom”. – Fonte – https://www.instagram.com/p/DYCdbzdl1Dq/?img_index=5

Como é que vocês têm as fotos do meu avô? Onde as conseguiram?“, perguntou um homem que abriu a porta da BBC.

Seu nome era Shamsiddin Ahunbayev e ele era neto de Bokejon Akramov.

Ao ouvir a história por trás das fotografias de guerra, Ahunbayev se emocionou até às lágrimas.

De acordo com a família, Bokejon raramente falava sobre suas experiências na Segunda Guerra Mundial.

A família de Bokejon Akramov – Fonte – https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Mas uma coisa sempre os intrigava. Apesar de ser claramente inteligente e capaz, ele tinha repetidamente recusado trabalhos especializados ou que exigiam atenção aos detalhes. Durante muitos anos, ele trabalhou como jardineiro em uma fábrica em Namangã.

Agora parece possível que seu cativeiro durante a guerra tenha lançado uma sombra também sobre sua vida profissional.

Bokejon Akramov morreu em 1996, após o que sua família descreveu como uma vida longa e feliz. Sua filha também faleceu posteriormente.

Chamada de vídeo de Dulcie Le Breton e a família de Bokejon Akramov no Uzbequistão – Fonte – https://www.bailiwickexpress.com/news/jersey-family-honoured-by-uzbekistan-for-occupation-bravery/

A BBC ajudou a organizar uma chamada de vídeo entre a família dele no Uzbequistão e Dulcie Le Breton, que ainda mora em Jersey.

Querida Dulcie, agradecemos à sua família pela coragem e bondade“, disse Shamsiddin Ahunbayev. “Nosso avô sobreviveu à guerra e nos deu a vida apenas por sua causa. Estamos muito felizes por tê-la encontrado. Convidamos você para o Uzbequistão e sempre a esperaremos em nossa casa.”

Meus pais fizeram o que fizeram simplesmente porque era a coisa certa a fazer“, respondeu Dulcie Le Breton. “E eles estavam longe de ser as únicas pessoas em Jersey que ajudaram soldados soviéticos. Havia dezenas de histórias como essa, e eu gostaria muito que as pessoas as conhecessem e se lembrassem de todas elas.”

Dulcie (de vermelho) e Alan Le Breton recebendo em nome de John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade da República do Uzbequistão. A cerimônia ocorreu na Ilha de Jersey em 6 de maio de 2026 – Fonte – https://www.instagram.com/p/DYCdbzdl1Dq/?img_index=5

Após tomarem conhecimento da história, as autoridades do Uzbequistão decidiram conceder postumamente a John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade – uma das mais altas condecorações do Estado – por sua “coragem e compaixão“.

É FATO QUE O EXÉRCITO BRASILEIRO PRODUZIU UM MATERIAL COM FOTOS E FILMES SOBRE NATAL E A BASE DE PARNAMIRIM DURANTE A SEGUNDA GUERRA? E ONDE SE ENCONTRA ESSE RARO MATERIAL?

Descobri Que o Exército Brasileiro Realizou em 1942 Todo um Trabalho Documental e Iconográfico, Com Fotos e Filmes Sobre Natal e a Base de Parnamirim. Mas onde está esse material???

Rostand Medeiros – https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Mesmo com muitos historiadores não aceitando essa situação, o tema sobre a cidade de Natal durante a Segunda Guerra Mundial sempre foi algo que chamou (e chama) bastante a atenção do povo dessa cidade, sendo os materiais produzidos sobre esse período da história local os mais consumidos. São livros, vídeos, histórias em quadrinhos, peças de teatro e outros produtos.

NATAL, BRASIL – JUNHO 1943: A view as US servicemen at the Parnamirim airport at the US Air Force base in Natal, Brazil. (Photo by Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images) *** Local Caption***

A presença de tropas estrangeiras na cidade, dos atos de espionagem nazifascista em Natal, a reação dos natalenses envolvidos nesse contexto, o que mudou na cidade, o que a população conseguiu de vantagem com tudo isso e também o que sofreu, são sempre pontos de interesse dos moradores da “Cidade do Sol”.

Enfim, devido a sua propalada posição estratégica, Natal foi seguramente a cidade mais envolvida na Segunda Guerra Mundial na América do Sul.

Parnamirim Field – Fonte – NARA.

Aqui existiu uma das maiores bases aéreas Aliadas envolvidas no conflito e daqui partiram milhares de aeronaves para atuarem em diversas frentes de combate, desde a África, passando pela Europa e chegando até a China.

Por aqui sempre chamou atenção quando surgem novos dados e materiais, principalmente iconográficos, sobre a cidade naqueles tempos turbulentos. Uma coleção de novas fotos, ou até mesmo uma simples foto, já é motivo de discussão entre aqueles que gostam de observar esse período da História da cidade.

E com muita satisfação eu descubro que o Exército Brasileiro realizou em 1942 todo um trabalho documental e iconográfico, com fotos e filmes sobre Natal e a Base de Parnamirim. Todo esse material foi destinado para a produção de uma palestra que se realizou nas primeiras semanas de janeiro de 1943, no antigo Palácio da Guerra, atual Palácio Duque de Caxias, ao lado da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Vejam abaixo!

Maravilha! Mas como foi produzido esse material? Quem o produziu? Quem foi o oficial que apresentou esse trabalho no Rio? E o mais importante – onde está esse material?

Sobre Quem Apresentou

Nos jornais brasileiros, não consta o nome de quem realizou e produziu o material iconográfico, mas como as notícias apontam o capitão Jefferson Cardim de Alencar Osorio como o palestrante do evento no Palácio Duque de Caxias e devido a sua patente, o mais provável é que ele tenha sido o responsável por essa pesquisa.

Mas quem era Jefferson Cardim e como ele veio parar em Natal?

O capitão Jefferson Cardim de Alencar Osorio na época da Segunda Guerra.

Sabemos que nasceu em 17 de fevereiro de 1912 no Rio de Janeiro, sendo filho do capitão de corveta Roberto de Alencar Osorio e da professora Corina Cardim de Alencar Osório.

Apesar de ter um pai oficial da Marinha, Cardim decidiu seguir a carreira militar no Exército. Entrou na Escola Militar do Realengo, sendo declarado aspirante a oficial em 25 de janeiro de 1934 (Turma Marechal José Pessoa) na arma de artilharia. Logo ô jovem oficial foi promovido a segundo tenente.

A sua primeira unidade foi o 6º Grupo de Artilharia de Costa (6º G. A. Co.), no Forte de Coimbra, no atual estado do Mato Grosso do Sul. Em 1936 estava no 4º Regimento de Artilharia Montado (4º R. A. M.), em Itu, interior de São Paulo, sendo depois transferido para Santa Maria, no Rio Grande do Sul, para atuar no 5º Regimento de Artilharia Montado (5º R. A. M.), conhecido como Regimento Mallet. Na sequência veio para Niterói, Rio de Janeiro, para servir no Forte de São Luiz, como oficial da 2ª Bateria Independente de Artilharia de Costa (2ª B. I. A. C.).

Canhão alemão antiaéreo de 88m.m. do I/3º R. A. A. Ae e utilizado em Natal.

Em dezembro de 1941, um dia antes do ataque japonês a base americana de Pearl Harbor, ele concluiu o curso de defesa antiaérea e logo foi transferido para o Primeiro Batalhão do 3º Regimento de Artilharia Antiaérea (I/3 R. A. A. Ae.) que estava aquartelado em Natal, tendo sido promovido a capitão.

Como Pode Ter Sido Realizado Esse Trabalho

Certamente trabalhando com outros militares e provavelmente devido ao volume de informações, o capitão Jefferson Cardim decidiu dividir o seu trabalho em duas partes. Em uma das partes ele trabalhou com dados sobre a topografia, clima, custo de vida (que estava subindo bastante em Natal com a presença dos militares americanos), saúde, alimentação, ambiente social e cultural.

NATAL, BRASIL – JUNHO 1943: A street view as servicemen talk with locals in Natal, Brazil. (Photo by Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images) *** Local Caption***

Na outra parte, segundo foi publicado nos jornais, foram basicamente contemplados os aspectos relativos a defesa militar de Natal, a defesa da Base de Parnamirim e finalizando havia o foco sobre os militares brasileiros e americanos na região. Foi visado o número de militares atuando na área e, provavelmente, nesse último quesito um dos pontos observados podem ter sido os aspectos da interação e convivência entre as forças do Brasil e dos Estados Unidos, algo que preocupava os dois governos.

NATAL, BRASIL – JUNHO 1943: US servicemen sit to have a drink at the Grande Hotel in NATAL, BRAZIl. (Photo by Ivan Dmitri/Michael Ochs Archives/Getty Images) *** Local Caption***

Outras coisas colocadas pelo capitão Jefferson Cardim nessa última parte dos estudos e da palestra são os chamados “pontos sensíveis importantes” como as vias de transporte em Natal, tanto terrestre como fluvial, nesse caso certamente o Rio Potengi. Outros pontos eram as “defesas naturais da cidade” uma parte específica sobre as dunas que cercam Natal. Havia ainda uma parte sobre “o moral da tropa” e outro sobre as “Secas na defesa do Nordeste”. Sobre essa última parte parece que esse militar e quem mais o tenha assessorado adentraram para o sertão potiguar.

Apresentação no Rio de Janeiro

Quando esse projeto teve início e quando se deu sua finalização não sabemos. Mas sabemos que o capitão Jefferson Cardim sofreu um acidente quando estava em Natal, mas não é comentado em nenhum local o que lhe aconteceu. Mas aparentemente foi algo grave, pois consta uma notícia publicada no jornal carioca Diário de Notícias, de 9 de agosto de 1942, que ele veio de Natal para o Rio de Janeiro para ficar internado no Hospital Central do Exército e estava acompanhado do soldado Antônio da Conceição, lotado no I/3 R. A. A. Ae.

Dois meses depois, dia 20 de novembro, é publicado no mesmo Diário de Notícias uma reprodução do Boletim Interno nº 269 da Diretoria de Artilharia, ordenando que Cardim fosse “inspecionado” pela Diretoria de Saúde para a conclusão da sua licença de saúde.

Jefferson Cardim quando era coronel, no início da década de 1960.

As próximas noticias sobre Cardim é a divulgação da palestra, que foi chamada “Conferência sobre a Defesa de Natal”.

Em um mesmo dia (03/12/1942) foram publicadas três notas explicativas sobre a conferência em jornais do Rio (Jornal do Brasil, Diário de Notícias e Gazeta de Notícias). Dois dias depois esse material foi repetido na imprensa natalense no jornal A Ordem. Todos esses jornais comentaram que a palestra iria ocorrer no dia 9 de dezembro, uma quarta feira, às duas da tarde. Depois surgiu outra nota informando que foi alterada para o dia 13, no mesmo horário.

Bem, se a conferência aconteceu, ou não, sinceramente eu não sei!

Como o evento se desenrolou e como foi apresentado, ou como foi visto e recebido pelos presentes e até quem estava por lá é um mistério!

Soldados dos Dragões da Indepêndencia no interior do Palácio Duque de Caxia em 1942.

E a razão foi porque não encontrei nenhuma indicação sobre isso nos jornais e revistas disponíveis no site da Biblioteca Nacional. Também fiz uma busca nos riquíssimos sites do Arquivo Nacional e nada. Mas eu não acredito que depois de tanta propaganda, tanta divulgação em alguns dos principais jornais do país, esse evento deixou de acontecer.

Evento no Palácio Duque de Caxias em 1945, com a participação do general Eurico Gaspar Dutra e o general norte-americano Mark Clark, comandante do 5º Exército dos Estados Unidos na Itália.

Mas no final das contas, o mais importante é saber o que foi feito desse importante material, que teoricamente foi apresentado pelo capitão Jefferson Cardim.

Guerrilha de Três Passos

Jefferson Cardim continuou no Exército Brasileiro, progrediu na carreira militar, mas adentrou bastante no aspecto político e houve consequências para ele e sua família.

O coronel Jefferson Cardim e sua esposa em uma solenidade.

Segundo os sites Memória da Democracia e Memória da Ditadura ( https://memorialdademocracia.com.br/card/ditaduras-se-unem-as-ordens-de-tio-sam e https://memoriasdaditadura.org.br/personagens/jefferson-cardim/  ), esses são os fatos envolvendo Cardim e a criação de um núcleo de guerrilheiros contra o Regime Militar em 1965.

Na noite de 26 de março de 1965, um grupo de camponeses, militares e profissionais liberais liderado pelo coronel do Exército Jefferson Cardim Osório e pelo sargento da Brigada Militar (PM) Albery Vieira dos Santos toma a cidade de Três Passos (RS).

Militares coletando informações na região de Três Passos, Rio Grande do Sul.

Depois de cortar a comunicação telefônica da localidade e levar armas, fardas e munição do destacamento policial, o comando invadiu a rádio local e transmitiu um manifesto contra a ditadura. Dali, o grupo partiu para os municípios de Tenente Portela e Barra do Guarita, no Rio Grande do Sul, e Itapiranga, em Santa Catarina, onde tomaram os postos da Polícia Militar.

A prisão dos guerrilheiros deu-se na cidade paranaense de Capitão Leônidas Marques dois dias mais tarde. O coronel Cardim fazia parte do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), grupo de militares ligados ao ex-governador Leonel Brizola, exilado no Uruguai. 

Jefferson Cardim preso.

Cardim é conhecido por ser o líder de um dos primeiros movimentos armados contra a ditadura. Filho de um oficial da Marinha, em diversas situações se posicionou contra as orientações do exército. Com o golpe, a ditadura cassou sua patente e o aposentou depois do Ato Institucional Nº 1 (AI-1).

Quando ele já estava no Uruguai, por auxílio de João Goulart, organizou o Movimento 26 de Março, também conhecido como Guerrilha de Três Passos. Da cidade do Rio Grande do Sul de mesmo nome, o grupo do coronel subiu em direção ao Paraná. Isso porque, no dia 26 de março de 1965, o presidente Castelo Branco estaria em Foz do Iguaçu para a inauguração da Ponte da Amizade, na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Solenidade no velório do sargento Carlos Argemiro de Carvalho, paranaense, única vítima da Guerrilha de Três Passos.

A ação foi frustrada pelas tropas do governo, resultando na dispersão e posterior prisão de todos os insurgentes. Preso e levado a Curitiba (PR), Cardim foi torturado e ficou detido até 1968, quando conseguiu fugir. Em 1970, foi sequestrado na Argentina, como uma das primeiras ações da Operação Condor”.

Em 1985, Jefferson Cardim teve a sua anistia cassada e foi viver fora do país como refugiado Através da ação de setores da Organização das Nações Unidas (ONU), o governo francês o acolheu e durante a sua permanência em Paris. lhe concederam uma ajuda de 3.600 francos, que, segundo Cardim declarou, dava para comer em restaurantes universitários e dormir em um quartinho de hotel no Quartier Latin.

Faleceu no Rio de Janeiro, em 29 de janeiro de 1995.

30 ANOS DA PROFISSÃO DE GUIA DE TURISMO: O QUE FAZER?

Fonte – httpwww.turistou.com.brguia-de-turismo

Jorge Breogan*

A única profissão regulamentada do setor de turismo está completando, no dia 28 de janeiro, trinta anos. Nesta data, trinta anos atrás, foi assinada a Lei no 8.623, que dispõe sobre a profissão de Guia de Turismo e dá outras providências. Nesse mesmo ano, foi aprovado o Decreto no 946, de 1o de outubro de 1993, que regulamentou a Lei.

De lá para cá, foram diversas deliberações normativas, lei e decreto-lei e inúmeras portarias do Ministério do Turismo (MTur). Não podemos dizer que não existem leis ou instrumentos jurídicos que nos dizem respeito e deveriam nos proteger, mas isso não ocorre, pois somos diariamente desrespeitados em nosso direito. Os órgãos competentes que possuem a atribuição delegada do MTur são ocupados por pessoas alheias ao trade turístico, que desconhecem a realidade sobre o que o setor representa para o país. São cargos políticos, arranjos de campanhas eleitorais e acomodações políticas, sem o compromisso com uma política pública para o setor. Daí a razão para não se fiscalizar os prestadores de serviços, que conduzem os turistaspelo país de forma ilegal.

A profissão de guia de turismo é regulamentada pela Lei 8.623/1993 e para exercer a atividade é necessário ser credenciado – Fonte – https://diariodocomercio.com.br/turismo/guias-de-turismo-se-reinventam-na-pandemia/

Os profissionais guias de turismo, que possuem formação e capacitação técnica para o exercício da profissão, são obrigados por lei a se cadastrarem no Cadastur, do MTur, enquanto criminosos, “pseudoguias” continuam livres a subtrair a boa vontade e o conhecimento dos turistas que circulam pelo país.

O profissional guia de turismo sabiamente é o elemento chave na composição do produto turístico, já que é o principal responsável pela intermediação entre a agência de turismo, o produto turístico e o turista. Ao contrário do que muita gente pensa, o profissional guia de turismo não é apenas a pessoa que recebe o pagamento para viajar. Ele está diretamente vinculado com o resultado de uma experiência de viagem.

Aula de campo do curso de Guis de Turismo no Rio de Janeiro em 1969.

Como surgiu o guia de turismo?

A profissão de Guia de Turismo surgiu na Antiguidade, descrita por Heródoto por volta de 440 a.c. Diferente dos guias atuais, os guias de Heródoto, em vez de orientar turistas em passeios por lugares pitorescos e de lazer, guiavam exércitos em território inimigo: a eles cabia também orientar os soldados em terreno desconhecido, servir de intérprete, providenciar acomodações, alimentação, meio de transporte, entre outras funções.

Afinal, quem é este profissional?

De acordo com a literatura, o guia de turismo é considerado um profissional com distintas referências. Requer-se dele vários atributos, como preparo físico, equilíbrio emocional, comunicação precisa e objetiva, espírito de aventura, disponibilidade para trabalhar em diversos dias e horários, gostar de viajar, gostar de trabalhar com pessoas e saber lidar com situações adversas.

Foto Monkey Business Images Shutterstock.com

Uma história de lutas permanentes

Os guias de turismo se reuniram pela primeira vez em um congresso brasileiro em 1980, em São Luiz do Maranhão, quando foram fundadas, em todo o país, as Associações dos Guias de Turismo (AGTURB), e foi criado então o Conselho Nacional das AGTURBs. Após a criação da lei, em 2003, sua sucessora legal, a Federação Nacional dos Guias de Turismo (FENAGTUR), foi criada com o objetivo de apoiar a organização sindical nos estados, promover campanhas de valorização profissional, entre outros.

Ocorre que nos últimos anos sua atividade foi praticamente paralisada pela destituição da antiga diretoria, cujo processo tramita na Justiça.

E na véspera de comemorarmos os trinta anos da profissão, fomos surpreendidos pelo Comunicado Oficial do SINGTUR-PE com a nota do cancelamento do XLI Congresso Brasileiro de Guias de Turismo, marcado para acontecer em Recife, entre maio e junho deste ano.

Como dá para notar, ainda temos um longo caminho a percorrer pela valorização e pelo reconhecimentoda profissão de Guia de Turismo.

*Ex-presidente do Conselho Nacional das AGTURBs, gestão de 1985-1989.

Guia de Turismo – Cadastur 25.734156.58-7

QUANDO A PREOCUPAÇÃO ERA ENGORDAR

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Pode parecer estranho em uma época onde o padrão de beleza feminino é a Gisele Bündchen (não para mim) e diante da verdadeira epidemia de obesidade que atinge a humanidade (entre eles eu), que houvesse uma época em que os jornais natalense publicavam anúncios de duvidosos remédios que prometiam engordar em tempo recorde.

Realmente no século passado a nossa população se sobressaia pelo excesso de pessoas magras. Na época da Segunda Guerra Mundial está comprovado que muitos dos nossos soldados tinham uma alimentação limitada na vida civil e ganhar uns quilinhos a mais era preciso.

Quem pesquisa jornais antigos encontra com perturbadora frequência a notícia de mulheres que morriam no parto. Logicamente que as más condições da saúde pública e da higiene sanitária nos hospitais explicam muito da razão desta situação, mas também as deficiências alimentares da época ajudaram a ceifar a vida de muitas mães de família.

Naquele tempo, uma mulher sem maior estrutura corporal, muito magra, era tida como “doente”, como não tendo as condições adequadas para procriar, de ser mãe. Visto ser este o papel principal das mulheres de uma época onde o mercado de trabalho feminino era limitadíssimo.

Na nossa sociedade muita coisa mudou para melhor neste tema. Certamente este anúncio publicado no jornal natalense “A República” em 3 de junho de 1939 deverá se tornar bem raro de ser repetido.

Rostand Medeiros