ENCONTRANDO O SOLDADO TOM: DESVENDANDO O MISTÉRIO DE UM PRISIONEIRO DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Olga Ivshina – BBC News Rússia

Fonte – https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Em mais de 80 anos ninguém soube o que aconteceu com um prisioneiro de guerra soviético que escapou dos nazistas nas ilhas do Canal e passou o resto da Segunda Guerra Mundial escondido dos alemães na casa de uma família local.

Conhecido apenas pelo seu primeiro nome, Bokejon, ou simplesmente Tom, ele foi um dos cerca de 2.000 prisioneiros soviéticos e trabalhadores forçados trazidos para a ilha de Jersey para construir fortificações nazistas.

Um oficial da Luftwaffe (Força Aérea Nazista) conversa com um policial britânico em St. Helier, capital da ilha de Jersey, durante a ocupação alemã das ilhas do Canal. As ilhas foram a única parte das Grã-Bretanha a ser invadida pelos alemães em 1941 – Fonte – https://worldwartwo.filminspector.com/2014/09/channel-islands.html

Essa ilha se localiza no Canal da Mancha, mais próximo da costa francesa do que da inglesa, faz parte do arquipélago conhecido como ilhas do Canal e foram ocupadas por tropas nazistas entre 1940 e 1945. Durante esse período esses prisioneiros vieram para a ilha de muitos países diferentes que então estavam ocupados pelos alemães e foram utilizados como mão de obra escrava para construírem diversas fortificações.

Após a libertação, Tom e os outros prisioneiros de guerra sobreviventes foram enviados de volta à URSS, a sigla da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, atual Federação Russa. Embora Tom tenha prometido manter contato, depois de seu retorno nunca mais se teve notícias dele.

Mapa das Ilhas do Canal, bem próximas a costa francesa – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/German_occupation_of_the_Channel_Islands

Isso até que equipes da BBC localizarem seus descendentes bem longe das ilhas, no extremo leste do Uzbequistão, um país localizado na Ásia Central.

Foi em 1943 que Tom escapou de um dos campos de trabalhos forçados nazistas em Jersey. Exausto, faminto e desesperado, ele bateu à porta dos fazendeiros locais John e Phyllis Le Breton. Eles sabiam do risco, mas o acolheram e salvaram a sua vida.

As condições nos campos eram duras.

Prisioneiros levados para trabalhos forçados na ilha de Jersey – Fonte – https://guernseydonkey.com/alderneys-war/

Estávamos trabalhando em uma pedreira, das seis da manhã às seis da noite, e nossa alimentação consistia em sopa ao meio-dia, uma porção muito pequena de pão e um pouco de manteiga na hora do chá. Não tomávamos café da manhã“, escreveu Tom mais tarde em seu diário.

Por qualquer coisa, éramos brutalmente espancados. Se não conseguíssemos trabalhar, éramos privados de comida e espancados novamente; eles nunca acreditavam que estávamos doentes.”

Como parte do Muro do Atlântico, uma barreira de fortificações construidas para tentar deter as tropas Aliadas, as forças de ocupação alemãs construíram fortificações ao redor da costa das ilhas do Canal, como esta torre de observação na Bateria Moltke – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/German_occupation_of_the_Channel_Islands

Durante mais de dois anos, ele ficou escondido no lar dos Le Bretons.

O perigo era real. Outra moradora de Jersey, Louisa Gould, foi deportada para o campo de concentração de Ravensbrück e assassinada em uma câmara de gás por abrigar um fugitivo soviético chamado Fyodor Burriy. Seus vizinhos à denunciaram às autoridades alemãs.

John e Phyllis Le Breton confiavam tanto em seu soldado fugitivo que permitiram que ele lesse para seus filhos e brincasse com eles, inclusive com sua filha Dulcie.

O casal Le Breton na época da Segunda Guerra – Fonte – https://www.gazeta.uz/en/2026/05/01/award/

Nosso querido tio Tom, nós o amávamos muito. Ele é minha principal lembrança da guerra e sua foto ainda está ao lado da minha cama“, disse Dulcie, que completa 90 anos em junho próximo. “Mas continuo intrigada com o que aconteceu com ele depois da guerra.”

Após a libertação das Ilhas do Canal em maio de 1945, Tom, assim como outros prisioneiros de guerra soviéticos sobreviventes, foi enviado de volta à URSS. Três cartas chegaram a Jersey enquanto ele era levado de volta para casa, atravessando a Europa, mas depois disso, silêncio.

Um soldado da ocupação alemã na costa da Ilha de Jersey, no verão de 1940 – Fonte https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Os ex-prisioneiros que retornavam à União Soviética eram normalmente submetidos a triagem e interrogatórios nos chamados campos de filtragem da NKVD, sigla do temido Comissariado do Povo para Assuntos Internos, a polícia secreta da União Soviética. As autoridades frequentemente interpretavam a sua captura como um sinal de possível deslealdade, covardia, ou colaboração com o inimigo.

Alguns eventualmente tiveram permissão para retornar à vida normal. Mas muitos foram tachados de não confiáveis, enfrentaram muitas barreiras para conseguir emprego, progredir em suas carreiras e viveram sob uma constante nuvem de suspeita.

Multidões vibram com a libertação das ilhas do Canal em 1945 – Fonte –https://en.wikipedia.org/wiki/Channel_Islands

Alguns foram condenados e enviados para campos de trabalho forçado dentro da URSS. Mesmo após a morte do ditador soviético Josef Stalin em 1953, o estigma associado aos ex-prisioneiros de guerra não desapareceu da noite para o dia.

Tom assinava suas cartas aos Le Bretons como “Bokijon Akram“, mas nem eles nem os historiadores de Jersey sabiam o seu nome completo ou exatamente de onde ele vinha.

Em seguida, uma equipe da BBC Rússia juntou-se às buscas.

Embora tenhamos trabalhado durante anos com arquivos soviéticos e de tempos de guerra, este caso apresentou um desafio particular.

Soldados soviéticos em uma pausa, enquanto um colega armado com uma metralhadora Degtyaryov DP-27 está vigilante ante um ataque alemão. Foto obtida na frente da Bielorússia em 1944 – Fonte – https://origins.osu.edu/read/living-ghosts-second-world-war-and-russian-invasion-ukraine

Tom havia assinado seu nome em inglês e não estava claro como isso teria sido traduzido para o russo, idioma usado em documentos oficiais em toda a URSS na época.

Consultamos dezenas de registros e centenas de variações ortográficas, restringindo gradualmente a busca com base em detalhes que ele havia anotado em seu diário. Lembrar que o Uzbequistão era parte integrante do território da URSS e só conseguiu a sua indepêndenncia total em 31 de agosto de 1991, quase dois anos após a Queda do Muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989.

A partir desses registros, parece que Bokejon tinha cerca de 30 anos quando foi mobilizado em 1941, lutou e foi capturado no território da atual Ucrânia e pode ter tido origens na Ásia Central.

A busca foi então restringida a uma correspondência provável: Bokejon Akramov, nascido em 1910 e mobilizado em Namangã, ou Namagan, cidade do atual Uzbequistão com mais de 600.000 habitantes.

Encontramos um registro que mostrava que ele havia sido condecorado com a Ordem da Guerra Patriótica décadas depois. Crucialmente, esse registro incluía um endereço residencial.

Nesse momento, uma equipe da BBC Uzbeque se juntou às buscas e viajou até Namangã para verificar o endereço, na esperança de que alguém lá se lembrasse de Bokejon ou o reconhecesse pelas fotografias preservadas pela família Le Breton.

Atualmente na casa de Dulcie Le Breton as fotos de seus pais estão junto a foto de Bokejon Akramov, o “Soldado Tom”. – Fonte – https://www.instagram.com/p/DYCdbzdl1Dq/?img_index=5

Como é que vocês têm as fotos do meu avô? Onde as conseguiram?“, perguntou um homem que abriu a porta da BBC.

Seu nome era Shamsiddin Ahunbayev e ele era neto de Bokejon Akramov.

Ao ouvir a história por trás das fotografias de guerra, Ahunbayev se emocionou até às lágrimas.

De acordo com a família, Bokejon raramente falava sobre suas experiências na Segunda Guerra Mundial.

A família de Bokejon Akramov – Fonte – https://www.bbc.com/news/articles/cdjpdzvzy41o

Mas uma coisa sempre os intrigava. Apesar de ser claramente inteligente e capaz, ele tinha repetidamente recusado trabalhos especializados ou que exigiam atenção aos detalhes. Durante muitos anos, ele trabalhou como jardineiro em uma fábrica em Namangã.

Agora parece possível que seu cativeiro durante a guerra tenha lançado uma sombra também sobre sua vida profissional.

Bokejon Akramov morreu em 1996, após o que sua família descreveu como uma vida longa e feliz. Sua filha também faleceu posteriormente.

Chamada de vídeo de Dulcie Le Breton e a família de Bokejon Akramov no Uzbequistão – Fonte – https://www.bailiwickexpress.com/news/jersey-family-honoured-by-uzbekistan-for-occupation-bravery/

A BBC ajudou a organizar uma chamada de vídeo entre a família dele no Uzbequistão e Dulcie Le Breton, que ainda mora em Jersey.

Querida Dulcie, agradecemos à sua família pela coragem e bondade“, disse Shamsiddin Ahunbayev. “Nosso avô sobreviveu à guerra e nos deu a vida apenas por sua causa. Estamos muito felizes por tê-la encontrado. Convidamos você para o Uzbequistão e sempre a esperaremos em nossa casa.”

Meus pais fizeram o que fizeram simplesmente porque era a coisa certa a fazer“, respondeu Dulcie Le Breton. “E eles estavam longe de ser as únicas pessoas em Jersey que ajudaram soldados soviéticos. Havia dezenas de histórias como essa, e eu gostaria muito que as pessoas as conhecessem e se lembrassem de todas elas.”

Dulcie (de vermelho) e Alan Le Breton recebendo em nome de John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade da República do Uzbequistão. A cerimônia ocorreu na Ilha de Jersey em 6 de maio de 2026 – Fonte – https://www.instagram.com/p/DYCdbzdl1Dq/?img_index=5

Após tomarem conhecimento da história, as autoridades do Uzbequistão decidiram conceder postumamente a John e Phyllis Le Breton a Ordem da Amizade – uma das mais altas condecorações do Estado – por sua “coragem e compaixão“.

HISTÓRIA MILITAR DO RIO GRANDE DO NORTE – PARTE 2 – OS COMBATENTES

Felipe Nery de Brito Guerra – Publicada originalmente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, 1927, Volumes XXIII e XXIV, páginas 228 a 239.

* Informação do Blog Tok de História – Como comentado anteriormente, busquei atualizar o centenário texto do Desembargador Felipe Guerra, sem, contudo, alterá-lo. Foi necessário também dividi-lo em duas partes, uma dedicada as lutas e outra aos combatentes potiguares, que será a nossa próxima publicação.. 

Entre seus filhos que mais se distinguiram por feitos militares é preciso citar que nos dois primeiros séculos da conquista, os Potiguares ILHA GRANDE, JACAÚNA, e o maior de tolos eles, Dom Antônio Felipe Camarão, chefe dessa valorosa tribo que, já em 1603, havia fornecido 800 guerreiros para pacificar os Aimorés, que se revoltaram na Bahia, e para dar fim aos Quilombos, que infestavam a região do Itapecuru, na mesma Capitania.

Retrato anônimo de Felipe Camarão, do século XVII, no Museu do Estado de Pernambuco– Fonte – Wikipedia.

Inquestionavelmente na grande crise da luta holandesa, o mais sério e grave perigo que ameaçou a integridade do Brasil, na frase de Silvio Romero, foi Camarão um dos mais valorosos generais, e o completo conhecimento que tinha, do teatro da luta, pode-se bem avaliar quão decisivo foi o papel que desempenhou na campanha. Não é esta a ocasião de escrever a vida de Camarão, já proficientemente estudada pelo desembargador Luiz Fernandes.

Cabe, porém, citar ligeiramente alguns episódios.

Camarão recebera ordens para estabelecer guerrilhas contra os holandeses entre Goiana e Itamaracá. “O terror que incutia o seu nome era tal que o general holandês Arciszewski (Krzysztof Arciszewski) saiu de propósito do Recife com mil soldados para destruir esse punhado de valentes guerrilheiros e prender seu chefe”.

Krzysztof Arciszewski- Fonte – Wikipedia.

Sobre o resultado da empresa disse o próprio general holandês: “Há mais de quarenta anos que milito na Polônia, na Alemanha e em Flandres, ocupando sem interrupção postos honrosos; mas só o índio Camarão veio abater-me o orgulho”.

Logo depois, seguiu Camarão para Alagoas guiando, através de 70 léguas de território dominado pelo inimigo, milhares de pessoas até Porto Calvo, onde se achavam as forças do general em chefe de então. Sob o comando do conde da Torre, auxiliou eficazmente a defesa da Bahia, recebendo ordens dele para percorrer os sertões hostilizando os holandeses. Portou-se de tal forma nessa excursão que, referindo se a ele, o inimigo chamou-o Anjo do extermínio.

Juntou-se depois as forças de Luiz Barbalho, que haviam desembarcado em Touros, no Rio Grande do Norte, após a derrota sofrida pela esquadra do conde da Torre, guiando essas forças, com Vidal e Henrique Dias, por ínvios sertões em luta aberta contra os inimigos até a Bahia, onde chegaram “a tempo de poder livra-la de ser atacada e tomada pelas forças do almirante Lichthart (Jan Cornelisz Lichthart), já as suas portas“. Os holandeses haviam seguido de porto a coluna sem alcança-la, vingando-se cruelmente ao matar aqueles que, doentes ou estropiados, não podiam acompanhar a heroica retirada que assim caminhou cerca de quatrocentas léguas.

Quadro que mostra os fortes na foz do Rio Paraíba, capturados pelo almirante Lichthart em 1634 – Fonte – Wikipedia.

Regressando a Pernambuco ordenou Vital a Camarão que viesse prosseguir novas hostilidades no Rio Grande do Norte e vingar, nesta parte do Brasil, tantas crueldades não só dos selvagens, como dos próprios holandeses, que se bem que cristãos de nome, mais bárbaros se haviam mostrado que os índios.

Camarão cumpriu o seu mandato muito além do que se podia esperar; e conseguindo chamar a si um grande número de índios que estavam com o inimigo, chegou a dominar todo o sertão do norte até os confins do Ceará”. Assim se exprimiu o visconde de Porto Seguro, citado pelo desembargador Luiz Fernandes, que muito judiciosamente acrescenta: Acreditamos que esse fato reduzindo a força dos Tapuias, poderosos aliados dos holandeses, foi uma das causas determinantes do seu enfraquecimento e consequente perda das suas conquistas“.

Frota de guerra holandesa – Fonte – Wikipedia.

Esse homem superior ao cansaço, lutando da Bahia ao Ceará, esse general de gênio que soube aliar o esforço e a disciplina no cumprimento do dever à coragem do soldado, à estratégia do índio, gozando da férrea resistência do selvagem, pode ser colocado ao lado de Caxias, como um dos fatores da integridade nacional, sem desdouro para este general que ocupa o ponto culminante na história militar e política do Brasil.

Não houve uma só ação, diz Fernandes Pinheiro, em que se pleiteasse a causa da liberdade, em que os batavos não sentissem o peso do seu braço, empalidecendo ao ouvir seu nome aqueles mesmos que nas águas do Zuiderzee haviam submergido os brasões de Castela.

O indígena Antonio Felipe Camarão (ilustração de autor desconhecido/Domínio público) e, ao fundo, carta escrita por ele a Pedro Poti – Imagens: Arquivo de Eduardo Navarro.

Hoje, para bem se poder aquilatar o valor da intervenção de Camarão na guerra holandesa é suficiente refletir que, em uma época de arraigados preconceitos de raça, de nobreza e de religião, ele representante de selvagens, sobre os quais a qualidade de “humanos” havia sido objeto de controvérsias, recebia excepcionais distinções não só da parte dos que se achavam à frente da luta como também da parte da Côrte da Metrópole.

Assim, por carta regia de 1633 foi-lhe conferido brasão d’armas, 40$ de soldo e patente de Capitão-mor de todos os Índios do Brasil. Depois o rei da Espanha também lhe conferiu o Hábito de Cristo e o tratamento de Dom, e mais tarde foi recompensado cora a comenda lucrativa, na Ordem de Cristo dos Moinhos da Vila de Soure, em Portugal, com que eram galardoados os heróis lusitanos que se distinguiam por serviços em guerras na África, havendo excepção para Camarão, conforme diz o visconde de Porto Seguro: “Por faltarem serviços em África, ocorreram dúvidas e foi necessário dispensa da Cúria, de modo que a comenda só chegou a realizar-se a 3 de maio de 1641”.

De volta de suas excursões guerreiras, a junção de Camarão aos chefes da guerra era recebida como um desafogo. A sentinela, diz o historiador Southey, que teve a fortuna de anunciar a vinda de sete índios do regimento de Camarão, que traziam aviso da próxima chegada do seu comandante, deu Vieira dois escravos de alvissaras..

O indígena Antonio Felipe Camarão (ilustração de autor desconhecido/Domínio público) e, ao fundo, carta escrita por ele a Pedro Poti – Imagens: Arquivo de Eduardo Navarro.

O Brasil ainda está em dívida para com esse seu glorioso filho: falta-lhe um monumento digno, capaz de exteriorizar a gratidão nacional para com o mais genuíno representante da raça aborígene.

E Portugal? Os holandeses chegaram a dominar até Sergipe. A política portuguesa pensou seriamente — e manifestou em acordo — reconhecer o domínio holandês. Firmado essa dominação, teria a colonização portuguesa resistido a pressão holandesa do norte para o sul; a pressão espanhola ao sul; as ambições francesas?

E se a bela língua de Camões se estende hoje a uma região cem vezes maior que Portugal, e é falada por uma população cinco vezes maior do que a do seu país de origem, deve a expulsão dos holandeses do Brasil, para qual o gênio de Dom Antônio Felipe Camarão teve preponderante e decisivo valor. Portugal acha-se assim também em dívida para com o grande Poti.

Dona Clara Camarão era mulher do índio potiguara Antônio Felipe Camarão (na gravura da direita), herói decisivo na guerra dosbrasileiros e portugueses contra o invasor holandês. Fonte – https://auniao.pb.gov.br/noticias/caderno_diversidade/clara-camarao

Dona Clara Camarão, legitima esposa de Felipe Camarão, tomou parte nas lutas e acompanhou seu marido nas horas de extremo perigo, batendo-se denodadamente ao seu lado. Da grande emigração de Mathias de Albuquerque, diz a história: “Nesta penosa emigração distinguiram-se pelos seus grandes feitos militares Felipe Camarão e sua mulher Clara Camarão”.

Na revolução do 1817, como já ficou dito, não foram os feitos guerreiros que imortalizaram a gloriosa tentativa. Assim diz o Capitão Alípio Bandeira no seu completo estudo histórico — O Brasil Heroico de 1817 — “o que constitui a gloria dos heróis de 1817 é o esforço valoroso com que trabalharam pela nossa autonomia política, são as reformas verdadeiramente liberais que eles tentaram implantar no governo que estabeleceram, são a lisura e o desprendimento, a lhaneza e a tolerância, em suma — a honesta fraternidade com que invariavelmente procederam”.

Depois de abafado o movimento, nenhuma revolução no Brasil fez tantos mártires quanto a de 1817. Segundo a citada obra do Capitão Alípio Bandeira, foram fuzilados quatro patriotas, enforcados nove, supliciados em horrorosas prisões por mais de três anos e meio cerca de trezentos, e por mais de um ano cerca de duzentos!

Do Rio Grande do Norte, além do nobre chefe André de Albuquerque, estúpida e barbaramente assassinado em Natal, além de Miguelinho, o puro e evangélico mártir, ambos riograndenses, fornece a história numerosa lista de patriotas martirizados nos cárceres, sendo talvez João Francisco Fernandes Pimenta, com o ardor de seus vinte anos, a encarnação mais forte e mais ativa do guerrilheiro e lutador que, nos sertões do Rio Grande do Norte, durante meses, zombou de forças legalistas que o perseguiam.

Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, óleo sobre tela de Antônio Parreiras– Fonte – Wikipedia.

Estudando a história da revolução de 1817 no Rio Grande do Norte, fica-se certo de que se o governador de então, José Ignacio Borges, talvez inclinado aos ideais da revolução, tivesse os mesmos sentimentos ferozes e sanguinários daqueles que dirigiram a reação em Pernambuco e Bahia, muito mais elevado teria sido o número dos mártires riograndenses.

Considerando que grande número de pessoas de destaque daquele tempo, no sertão do Rio Grande do Norte, principalmente em Portalegre, Patu, Martins, Pau dos Ferros, Apodi e Campo Grande, estiveram implicados na revolução, em comunicação direta com os chefes do movimento em Recife, é de supor, com bons fundamentos, que duas causas concorreram para diminuir o número daqueles mártires riograndenses.

A primeira foi o espirito de benevolência, de camaradagem e amizade reinante entre os sertanejos do Rio Grande do Norte, naquela época principalmente, oriundos de pequeno número de famílias, já então ligados por entrelaçamentos e afinidades, formando quase que uma só família: não houve delações; o esforço de cada um e de todos foi salvar o amigo das garras tigrinas das Juntas Militares.

O Carmelita Miguel de Almeida e Castro, conhecido como Frei Miguelinho, era potiguar de Natal e teve participação ativa na revolta de 1817 em Pernambuco. O quadro mostra seu julgamento em Salvador, onde foi condenado a morte pelo fuzilamento e a pena cumprida no dia 12 de junho de 1817. É nome de cidade em Pernambuco e muito cultuado no Rio Grande do Norte– Fonte – Wikipedia.

A segunda causa deve ser procurada na coragem nobre e santa de Miguelinho, em seu elevado espirito.

Sabendo que no dia seguinte seria encarcerado, não se abateu, não se entregou a inúteis fraquezas; passou a noite queimando papeis e documentos capazes de comprometer a sorte de seus amigos. Ao entrar em casa disse Á sua irmã em lagrimas, as memoráveis palavras: “Mana, nada de choros; estás órfã. Tenho enchido os meus dias. Logo virão buscar me para a morte; entrego te à vontade de Deus, nele terás um pai que não morre mais aproveitemos a noite. Imita-me. Ajuda-me a salvar a vida de milhares de desgraçados”.

Miguelinho durante alguns anos fora professor no Seminário de Olinda. Muitos vigários do Rio Grande do Norte haviam sido seus discípulos e, naturalmente, continuavam amigos do mestre. O seminarista José Ferreira da Motta, de Portalegre, e que então cursava o seminário de Olinda, correspondeu-se diretamente com seu pai, capitão José Ferreira da Motta. Seguiu imediatamente, disfarçado em boiadeiro a entender-se com os chefes em Recife, o sargento Mór Manoel Fernandes Pimenta. Teve assim a revolução, que depois relacionou-se com os chefes do movimento em Natal, fortes ramificações pelo sertão. Não foram relativamente numerosos os sertanejos que padeceram nos cárceres. É de supor que a noite de vigília de Miguelinho, queimando papeis, o amargurado Horto da vítima votada ao sacrifício, tenha redimido muito sofrimento e evitado muita lagrima em seu torrão natal.

Quadro de um combate de forças de cavalaria, como os que ocorreram durante a Guerra do Paraguai – Fonte – Wikipedia.

Durante a guerra do Paraguai foram inúmeros os contingentes enviados do Rio Grande do Norte. Muitos de seus filhos lá cumpriram o seu dever, derramaram o sangue, perderam a vida. Entre os riograndenses, já mortos (em 1927), que ocuparam postos de destaque no Exército, acham-se:

– José Xavier Garcia de Almeida, engenheiro militar e brigadeiro José Correia Telles, natural do Assú, praça em 1856, fez toda a campanha do Paraguai a começar pela do Uruguai. Cavaleiro da Ordem de Aviz, recebeu a medalha argentina da comemoração da guerra. Fez parte da junta governativa de Alagoas em 1891, Coronel em 1894, foi reformado como general em 1897 e faleceu no mesmo ano.

Nota sobre José Pedro de Oliveira Galvão após a Guerra do Paraguai.

– José Pedro de Oliveira Galvão, praça em 1862. coronel efetivo em 1895. Fez a campanha do Paraguai. Senador pelo Rio Grande do Norte, por seis anos, faleceu em 1896.

Coronel Fonseca e Silva, anos após a Guerra do Paraguai– Fonte – Wikipedia.

– Francisco Victor da Fonseca e Silva, natural de São Gonçalo, praça em 1865, reformou-se com a graduação de general de divisão, vindo a falecer em 1905. Fez também a campanha do Paraguai. Como comandante da força policial da então Província do Rio de Janeiro foi um dos auxiliares da revolução de 15 de novembro de 1889. Foi deputado à Constituinte Republicana pelo Estado do Rio de Janeiro, e, ainda, deputado da primeira legislatura da Câmara Federal pelo mesmo Estado. Eleito, depois, deputado pelo Rio Grande do Norte, representou este Estado na quarta e quintas legislaturas.

– Antônio da Rocha Bezerra Cavalcante, fez com distinção, a campanha do Paraguai, falecendo no posto de general, reformado.

Foto de combatentes da Guerra do Paraguai. O terceiro sentado da esquerda para a direita, é o Coronel Joca Tavares e seus auxiliares imediatos, incluindo José Francisco Lacerda, mais conhecido como “Chico Diabo” (terceiro em pé, da esquerda para a direita), que matou o ditador paraguaio Solano Lopez. Imagem: Wikipedia, Domínio Público. In: Salles, Ricardo. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2003. ISBN 85-333-0264-9 (p.180)

– Francisco de Paula Moreira. Fez a campanha do Paraguai. Tomou parte na organização republicana do Estado, como deputado à Constituinte. Faleceu no posto de Coronel, reformado.

Antônio Florêncio Pereira do Lago

– Antônio Florêncio Pereira do Lago. Foi um distintíssimo rio-grandense-do-norte que morreu no posto de coronel, reformado. Nascido em 1827, bacharelou se em ciências físicas e matemáticas e pertenceu ao corpo do Estado-Maior de primeira classe. Oficial da Ordem da Rosa, cavaleiro da Ordem de Cristo e da de São Bento de Aviz, foi condecorado, ainda, com a medalha da campanha do Uruguay em 1851 e com a da guerra do Paraguai. Exerceu com brilho comissões do Ministério da Guerra e do da Agricultura. Por ordem do Governo fundou a colônia do Alto Uruguai.

Escreveu várias obras e trabalhos oficiais, entre os quais “Relatório dos estudos da comissão exploradora dos rios Tocantins e Araguaia”. Ilustre e esquecido brasileiro que honra a sua pátria e é uma legitima glória de sua corporação. O visconde de Taunay traçou o retrato de sua personalidade: “Lago, isto é, a prudência, a força, a reflexão, o sentimento apurado de dever; Lago, a personificação do bom senso, mas, ao mesmo tempo, a tenacidade levada ao extremo da teima. Alto, gordo, então simples capitão, mas com proporções para ser general, tem ele fisionomia, franca e simpática. Possui inteligência, ilustração e, sobretudo, consciência. Reto e leal, é amigo as deveras, mas também inimigo decidido”.

No posto de capitão de engenheiros fez parte do Corpo de Exercito que seguiu para Mato Grosso, e que escreveu a heroica e dolorosa pagina que é a Retirada de Laguna. O visconde de Taunay escreveu que a expedição de Mato Grosso escapou de completo aniquilamento devido á energia e ao estoicismo de Pereira do Lago que, nos momentos mais cheios de angustia, perigo e desalento, conseguia com seu exemplo, sua calma e coragem, levantar o espirito de todos. “Oficial do maior valor moral, nunca foi apreciado na medida de seus méritos”, ainda repetia Taunay, em 1896, em seu livro “Viagens de Outrora”.

Pereira do Lago faleceu na idade de 65 anos, no posto de coronel, reformado, 1º de janeiro de 1892.

– Padre Amaro Theó Castor Brasil, que seguiu de Campo Grande (RN) com mais dois irmãos e dois parentes para o Paraguai, onde fizeram toda a campanha como Voluntários da Pátria, e voltaram como oficiais. Um deles, José Lucas Barbosa prestou depois valiosos serviços nas3 lutas e na organização do Acre, onde foi comandante da Guarda Nacional.

– Ulysses Olegário Lins Caldas e João Percival Luiz Caldas, eram irmãos, ambos do Assú, seguiram como Voluntários da Pátria para o Paraguai. O primeiro, ardente e destemido jovem de 18 anos, encetou seus passos na campanha como herói, e assim continuou até cair fulminado por uma bala no coração, nas avançadas de Curuzu, em novembro de 1866. Galgando trincheiras inimigas, arrebatando canhões, morreu pouco depois de completar vinte anos e alcançara o posto de tenente e por distinção o Hábito de Cavalleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro. A ordem do dia do Exército em campanha, de 4 de setembro de 1866, referindo-se ao assalto de Curuzu, citando o nome de alguns oficiais, diz: “…que quais leões, se lançaram sobre as baterias inimigas, chegando ao ponto de subir sobre sua artilharia, como fez este último oficial, com uma intrepidez que a todos surpreendeu”. Este último oficial, que “a todos surpreendeu com sua intrepidez” era, na citação, Ulysses Caldas.

O Barão de Porto Alegre liderando as tropas em Curuzu, pintura de Victor Meirelles– Fonte – Wikipedia.

– Alexandre Baraúna Mossoró. Filho da cidade de Mossoró, humílimo e obscuro herói, soldado da quinta companhia do terceiro batalhão de infantaria, fez a campanha do Uruguai. Tomou parte no assalto de Paissandu. Ferido, continuou a bater-se encarniçadamente. Novo ferimento lhe vasou uma vista; mandam-no retirar-se do combate e ele continua a bater-se. Terceiro ferimento inutiliza-lhe o braço direito. Empunha então a arma com a mão esquerda, pois “com o canhoto ainda pôde dar uma lição aos gringos“, conforme grita ao comandante; escala a trincheira e cai lutando ainda, do lado oposto, em meio dos inimigos, sendo então morto! O seu comandante cerca de veneração o cadáver do herói. Ao espirar, vêm-lhe à lembrança sua mãe e seu torrão natal: “minha mãe… viva o Mossoró!…” Indômito filho do povo não menos herói, mais infeliz, porém, do que o corneta Jesus ainda não teve a consagração condigna, nem mesmo da poesia, a imortalizar lhe o nome!

– Ponciano Souto, natural do Assú, Voluntário da Pátria que fez toda a campanha do Paraguai, voltando como capitão, e faleceu em 1882, em Bananal, São Paulo, como tabelião vitalício.

João Mafaldo, do Martins, alferes, morto no assalto à cidadela de Canudos.

Nota sobre o batalhão de potiguares na Guerra de Canudos, no Jornal “A República”, 10 de dezembro de 1897.

José da Penha, de Angicos, sincero republicano, escritor, polemista e tribuno, absorvido e sacrificado, infelizmente, pela politicagem que o vitimou no posto de capitão, a 19 de fevereiro de 1914, em Iguatu (Ceará).

Theophilo Guerra, jornalista, e cronista das secas. Quando cadete em Minas Geraes, levantou uma “questão militar,’ não se sujeitando, em serviço local, ao cominando de oficial de polícia. Submetido, então, a conselho de guerra, foi absolvido. Faleceu no posto de alferes..

São esses os traços gerais da história militar do Rio Grande do Norte, que poderia comportar largo desenvolvimento, mas não é possível em ligeira “introdução” nomear todos aqueles, numerosos, que no cumprimento do dever, souberam honrar a Pátria.

As figuras culminantes desta história são — Camarão, Pereira do Lago e o obscuro soldado Baraúna Mossoró. Sofredores, incansáveis, superiores ao desalento e aos revezes, tenazes na luta, devotados, estoicos, são bem tipos representativos desta população martirizada pelas secas, oferecendo sempre sobre humana e tenaz resistência a desapiedados golpes da natureza, sem abandonar o ingrato e querido solo, que, afinal, será conquistado.

FELIPE GUERRA.

Agosto—1920. (Socio effectivo)