O PRIMEIRO HISTORIADOR DA TERRA POTIGUAR – NOTÍCIA SOBRE MANOEL FERREIRA NOBRE

AUTOR – LUÍS DA CÂMARA CASCUDO

FONTE – REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE, PÁGINAS 5 a 10, VOLUME — LV — 1962 – 1963.

FONTE DA FOTO PRINCIPAL – LIVRO – NATUREZA E HISTÓR4IA DO RIO GRANDE DO NORTE, DE JOÃO ALVES DE MELO, NATAL, 1950, PÁGINA 515.

— I —

Manoel Ferreira Nobre foi o primeiro norte-rio-grandense a publicar um volume sobre sua Província. É a BREVE NOTICIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, impresso na Tipografia Espírito-Santense, rua de São Diogo, n. 3, Vitória, em 1877.

São 208 páginas, contando as de rosto, dedicatória (ao Conselheiro João José de Oliveira Junqueira, Senador do Império e antigo Presidente do Rio Grande do Norte em outubro de 1859 a abril de 1860). Foi impresso à custa do autor e custava dois mil réis.

Resta (em 1962-1963), de toda edição, apenas UM EXEMPLAR, pertencente à Biblioteca do nosso Instituto Histórico.

Merece reedição anotada porque os enganos e erros atingem boa percentagem.

Tavares de Lira era o meu único informante. Ferreira Nobre nascera em Natal em 1833 e falecera no “começo de 1889, si não ha engano nas informações de que dispomos”, concluía, prudente, o historiador.

Comecei a caçada nos arquivos. Descobri o batismo do homem, 21 de março de 1824, pelo padre Feliciano José Dornelas. Era o nosso primeiro historiador nascido em Natal e filho do Alferes Manoel Ferreira Nobre e Dona Inácia Joaquina de Almeida, neto paterno do capitão Vicente Ferreira Nobre e Dona Ana Rosa da Apresentação, e materno do capitão José do Rego Bezerra e Dona Antônia Úrsula da Costa, todos da freguesia de Nossa Senhora da Apresentação, exceto o avô materno que era de São Lourenço da Mata, em Pernambuco. Padrinhos, o avô paterno e a avó materna.

Não teve estudos maiores e creio que os menores bastaram à sua inquieta, buliçosa e viva personalidade. Foi político filiado ao Partido Liberal.

O Desembargador Antônio Soares descobriu a data do casamento de Ferreira Nobre, 6 de maio de 1842. Casara com Olímpia Gerarda de Andrade, filha natural de Inês Cipriana Gerarda de Andrade. Testemunhas, o doutor Basílio Quaresma Torreão, juiz de direito da capital, e o professor Antônio José de Moura. Oficiou o Vigário Bartolomeu da Rocha Fagundes. Há descendência deste matrimônio. Ainda o desembargador Antônio Soares identificou a data do falecimento da esposa de Ferreira Nobre. Enviuvara este a 30 de maio de 1875. Voltou a casar-se, sendo sua mulher Dona Inácia de Oliveira Sucupira de quem não houve filhos.

Rastejei Ferreira Nobre em suas andanças e percalços.

Oficial-Menor da Assembleia Legislativa a 6 de fevereiro de 1852, com 400$ anuais.

Ajudante de Ordens do Presidente da Província Antônio Francisco Pereira de Carvalho em 1853.

Oficial-Maior da Assembleia em 29 de julho de 1856, com 1.100$ por ano.

Deputado Provincial no biênio de 1860-61, com ação movimentada, figurando em discussões, projetos, comissões. Segundo Secretário da Assembleia.

Ajudante de Ordens do Presidente Pedro Leão Veloso, acompanhou-o em sua viagem pelo interior da Província em julho e agosto de 1861.

Demitido a 17 de junho de 1864 em pleno domínio do seu Partido.

Foi capitão da Guarda Nacional, sendo comandante da Segunda Companhia do Primeiro Corpo de Voluntários da Pátria, que combateu na Guerra do Paraguai. Partiu de Natal para a Capital do Império a 9 de junho de 1865, onde Ferreira Nobre foi julgado incapaz pela junta de Saúde e dispensado do serviço militar a 4 de janeiro de 1866.

Renomeado Oficial-Maior da Assembleia em 4 de março de 1868. Permutou seu cargo a 12 do mesmo mês com Francisco Bezerra Cavalcanti da Rocha Marajá que era Bibliotecário Público Provincial. Nesse posto aposentou-se, não sei quando.

Com os conhecimentos e prática que sua inteligência orientava agilmente dedicou-se à advocacia nos municípios próximos à Capital. Ceará-Mirim, São José de Mipibu, Vila Imperial de Papari, Arês, Goianinha, Canguaretama, defendendo os interesses de seus constituintes.

— II —

Aposentado, parece Ferreira Nobre haver ido residir em São José de Mipibu onde foi interino do 1° tabelionato de agosto a outubro de 1889 e serviu de secretário lavrando a ata da proclamação da República a 18 de novembro do mesmo ano.

Quando e onde faleceu? Este é o problema maior. Comecei a pesquisa arrastada anos e anos sempre que surgia oportunidade. Monsenhor Celso Cicco, vigário do Ceará-Mirim e o Doutor João Vicente da Costa, seu Juiz de Direito, fizeram buscas. Monsenhor Paulo Herôncio de Melo e o saudoso Doutor Joaquim Manoel de Meiroz Grilo repetiram a façanha em São José de Mipibu, inutilmente.

Em julho de 1940 revirei em Papari, pessoalmente, arquivos paroquiais e civis, perguntando aos velhos e moços. As estórias eram unânimes sobre a elegância do historiador. Ardileza e manha do advogado, orador excelente no júri e famoso na arte de enganar credores. Chamavam-no comumente “Fereira”.

Voltei em meados de 1942 a São José de Mipibu, Papari e Arês teimando em procurar o que se escondia no plano documental.

Em 1889 não falecera o ilustre Ferreira. Em 4 de outubro de 1890 assumira interinamente a Promotoria Pública de S. José de Mipibu. Foi nomeado pelo Juiz de Direito e requerendo os vencimentos a 9 de maio de 1891.

Advogara num Júri em Papari a 25 de fevereiro de 1893 e voltou a funcionar em 18 de julho de 1895.

O desembargador Antônio Soares escolhera Ferreira Nobre seu patrono da cadeira número VII na Academia Norte-rio-grandense de Letras e, com a meticulosidade, paciência e brilho que lhe conhecemos, debalde pesquisou a data do óbito de quem tão alto homenageava (“Revista da Academia”, n. 3,páginas 250-267, Natal, 1955).

A Senhora Maria das Dores de Barros Tinoco, neta de Ferreira Nobre, por intermédio de um amigo, informou-me ter seu avô falecido em Papari a 15 de agosto de 1902. O Senhor José Marcelino, funcionário da Prefeitura, dava a data de 15 de agosto de 1896. Rastejara, de perto, a verdadeira história.

Em Papari conversei o Senhor Cândido Freire Navarro, “Seu” Cândido, nascido a 13 de agosto de 1856 e filho do profesdsor Manoel Laurentino Freire Navarro, aposentado em 1878, falecido a 5 de novembro de 1899, com 84 anos. Foi a vida inteira professor em Papari.

Cândido Freire contou-me que Ferreira adoecera gravemente em Arês e o presidente da Intendência de Papari, coronel José Joaquim de Carvalho Araújo, mandara buscá-lo, sendo carinhosamente transportado numa rede. Em Papari falecera, num domingo, sendo dado sepultura no cemitério local. Também inútil uma visita no cemitério de Papari. Nenhuma lápide trazia o nome procurado.

Ferreira era de estatura mediana, robusto, simpático, de voz agradável, cabelo ondeado, castanho e fino, olhos claros. Usava óculos, conservando barba suíça.

Por um simples acaso deparei a data do complicado óbito.

No jornal natalense A REPUBLICA de 20 de agosto de 1897 publica-se o “Expediente do Governo” do dia 17 do mesmo agosto. Para alegria de um pesquisador obstinado encontrei o registro num ofício do Governador para o Inspetor do Tesouro: — “Para os devidos efeitos, comunico-vos que, em data de 15 do corrente, faleceu na Vila de Papari o major Manoel Ferreira Nobre, empregado aposentado estadual, segundo participou-me o Presidente da Intendência daquele município”.

Manoel Ferreira Nobre faleceu em Papari, hoje Nísia Floresta, a 15 de agosto de 1897.

Acabou-se o problema…

— III —

Em 21 de março de 1954, Manoel Ferreira Nobre, nascido naquele dia e mês de 1824, completava 130 anos! Bonita data para uma comemoração ao irrequieto Ferreira que escrevera e publicara a nossa primeira História em 1877.

Não é bem história, mas crônica breve e sucinta, tendo informações corográficas e mesmo econômicas e administrativas.

O autor, oficial-maior da Secretaria da Assembleia Legislativa, e mesmo antigo deputado provincial, tinha à mão documentário excelente que lhe cabia fornecer às Comissões da casa.

Estava, como poucos, habilitado a conhecer o Rio Grande do Norte em seu aspecto diário de funcionamento normal.

Por isso escreveu a BREVE NOTICIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, que ele declara ser “baseada nas leis, informações e fatos consignados na Historia antiga e moderna”.

O volume, 208 páginas, foi impresso bem distante: “Na Tipografia Espírito-Santense, rua de São Diogo, n. 3, Vitória”. Creio que foi o primeiro livro norte rio-grandense impresso nos prelos capixabas.

O desembargador Antônio Soares, titular da cadeira FERREIRA NOBRE na Academia Norte-rio-grandense de Letras, e eu, temos dado ao velho cronista muito tempo, atenção e carinho de nossa vida. Deus sabe quanto procuramos reunir os escondidos e ralos elementos de sua atribulada existência. Hoje, mercê de Deus, como gostava de dizer Eloy de Souza, possuímos a biografia mais ou menos completa de Ferreira Nobre.

Um volume, vendido pelo alto preço de dois mil réis, foi desaparecendo das estantes e terminou sendo obra rara, tão rara, tão difícil e tão oculta que dela existe apenas um único exemplar, oferecido por Augusto Bezerra Cavalcanti ao Instituto Histórico e Geográfico. O volume pertencera ao Padre João Alípio da Cunha, gente de prol e mando em Goianinha.

Nem mais outro exemplar resta.

Em fins de 1953, propus a Nestor Lima, presidente do Instituto Histórico, que fizesse reeditar a BREVE NOTICIA, homenagem dos contemporâneos ao 130° aniversário do nascimento do autor.

Adiantei que não valia a pena, e menos o esforço, atualizar o livro porque perderia seu sabor arcaico, a graça de sua velhice conversadeira e saborosa.

Incluísse o estudo do desembargador Antônio Soares e eu cederia o resultado de minhas pesquisas para um posfácio, ajudando as pesquisas de Antônio Soares.

Nestor Lima concordou. Não me competia dar passo para a publicação, uma vez que a confiara ao Instituto Histórico, CASA DA MEMÓRIA do Rio Grande do Norte.

O livro continuou na sua edição de 1877, esgotado e fora do alcance dos olhos atuais.

Muita noticia sobre os municípios que existiam em 1877 vivem no BREVE NOTICIA de Ferreira Nobre.

Foi o nosso primeiro escritor a publicar volume na intenção de história.

Antes dele, nada existe. Começou a série…

Por que não reeditar Ferreira Nobre para informação e documento dos nossos e alheios estudos econômicos, políticos, históricos e geográficos?

Uma pequena edição bastaria para fazer circular um livro de que só resta o derradeiro exemplar…

EM TEMPO – A SEGUNDA EDIÇÃO DE BREVE NOTICIA SOBRE A PROVÍNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE, TÃO PEDIDA POR CÂMARA CASCUDO, FOI FINALMENTE PUBLICADA EM 1971, PELA EDITORA PONGETTI, DO RIO DE JANEIRO.

HISTÓRIA MILITAR DO RIO GRANDE DO NORTE – PARTE 1 – AS LUTAS

Felipe Nery de Brito Guerra – Publicado originalmente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, 1927, Volumes XXIII e XXIV, páginas 218 a 228.

* Informação do Blog Tok de História – Busquei atualizar alguma coisa da ortografia do texto do Desembargador Felipe Guerra, escrito em agosto de 1920, sem, contudo, alterá-lo. Devido a sua extensão, foi necessário dividi-lo em duas partes, uma dedicada as lutas e outra aos combatentes potiguares, que será a nossa próxima publicação.

Escrever a história militar do Rio Grande do Norte desde o início de sua colonização, principiada em fins do século XVI seria, pelo menos até princípios do século XVIII, escrever a história do Rio Grande do Norte, porquanto esse espaço de tempo, abrangendo um período de cerca de dois séculos, foi preenchido por sangrentas agitações, lutas e guerras.

A dominação francesa, exercida então por piratas, aventureiros, desclassificados, sem outros ideais a não ser o lucro mercantil, sempre receosos e a espera de ataques dos portugueses. O que é certo, porém, é que essa permanência constante e demorada dos franceses, embora sem estabelecimento conhecido, representava um perigo para as vizinhas e próximas capitanias, principalmente a Paraíba, de onde haviam sido repelidos.

“O mal vem do Rio Grande”, dizia-se em Pernambuco e na Paraíba. E assim, para acabar com esse mal, foi resolvida a conquista do Rio Grande, da qual foi incumbido Manoel Mascarenhas Homem, tendo Jerônimo de Albuquerque alcançado melhor êxito na empresa.

Piratas franceses no Brasil – Fonte – httpswww.goianarte.com

Não tinham então os franceses regulares instalações. Viviam, entretanto, em estreitas relações com os selvagens, habitando mesmo suas aldeias. É o que se depreende da célebre “História do Brasil” de Frei Vicente do Salvador, escrita em 1627, e onde se lê que logo ao chegar Manoel Mascarenhas Homem “ali desembarcaram e se entrincheiraram de varas de mangue para começarem a fazer o forte e se defenderem dos Potiguaras que não tardaram muitos dias. Vieram uma madrugada, infinitos, acompanhados de cinquenta franceses, que haviam ficado das naus no porto dos Búzios e outros que ali estavam casados com Potiguaras”.

Manoel Mascarenhas Homem, que lutou no Rio Grande do Norte contra os franceses – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia

E assim ofereceriam os selvagens, auxiliados por seus aliados franceses, tenaz resistência. O que não impediu, entretanto, a fundação do “Forte dos Reys”, permitindo a criação da povoação do Natal dois anos depois — 25 de dezembro de 1599. Foi celebrada a paz com os Potiguaras, conseguida por Jerônimo de Albuquerque com a mediação de um selvagem “principal e feiticeiro”, chamado ILHA GRANDE.

A conquista do litoral brasileiro havia sido começada do norte para o sul, sendo depois continuada do sul para o norte, tendo, principalmente esta última, contado com eficaz cooperação dos naturais da terra, já representados por brancos, filhos de portugueses, por mestiços e pelos selvagens que, subjugados e pacificados pelos portugueses, eram aproveitados como seus aliados.

Os selvagens constituíam sempre o grosso das forças conquistadoras, embora não fossem, em regra, os elementos mais resistentes nos combates. Eram, entretanto, os mais resistentes às longas marchas, aos transportes e aos mais serviços exigidos em campanhas rudes e aventurosas, em que não podia se contar com auxílios minguadíssimos e retardados, senão impossíveis.

Forte dos Reis Magos, por Frans Post (1638)
– Fonte – http://noisnafolia.no.comunidades.net/pontos-turisticos

Os Potiguares, que dominavam o litoral do Rio Grande do Norte, uma vez pacificados, foram valiosos e fortes elementos para a conquista do norte. Não existindo mais o “mal vindo do Rio Grande», que passara para o Ceará e para o Maranhão, foi resolvida a conquista desses pontos, onde os franceses procuravam se firmar. Ainda foram os Potiguares elementos preponderantes para a conquista do primeiro daqueles territórios.

Expulsos os franceses do litoral, de Paraíba ao Maranhão, as novas populações que procuravam se estabelecer não ficaram na tranquilidade da paz. Nem todas as tribos haviam feito amizade com os colonizadores; e mesmo no meio daquelas tidas como amigas, surgiam ataques e desconfianças que traziam para a região um verdadeiro estado de guerra, rompendo a duvidosa paz, sempre de curta duração..

Veio depois a guerra holandesa. O Rio Grande do Norte foi duramente sacrificado na luta. Tomada a Fortaleza dos Reis Magos (12 de dezembro de 1533) por uma força holandesa guiada por Calabar, sofreu o Rio Grande do Norte com o invasor até o final da guerra holandesa no Brasil. Esteve assim esta terra dezenove anos sob o domínio batavo.

Florin holandês de ouro. Essa foi a primeira moeda a conter o nome Brasil e foi produzida pelos holandeses durante a ocupação de Recife – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Dutch_guilder

Calabar conseguira angariar para os holandeses a amizade dos Índios Janduís, que unidos aqueles praticaram horríveis massacres. Fácil é de imaginar o que seria a guerra movida por selvagens açulados por aventureiros da pior espécie, como parece que eram os holandeses enviados para o Rio Grande do Norte. Chegaram a negociar prisioneiros como animais para o corte, destinado a pasto dos antropófagos Janduís.

Finda a guerra holandesa pela expulsão dos invasores, continuou a luta no Rio Grande contra os Índios, sempre dispostos a defender sua vida selvagem e sem peias. Houve mesmo uma rebelião generalizada dos nativos que durou longos anos, nada respeitando, nem a vida nem os habitantes do Rio Grande, que já contava elementos de prosperidade. Foi calculado que os índios mataram “perto do trinta mil cabeças de gado grosso e mais de mil cavalgaduras”. Essa rebelião durou de 1688 a 1720, quer dizer, 32 anos, talvez mais, porquanto não se acha bem estudado esse ponto da história. Foi um movimento sério e perigoso. Pedidos insistentes de socorro partiram para Pernambuco, para a Bahia, e até diretamente seguiu um emissário para Lisboa, levando uma representação do Senado da Câmara ao Rei, tais as delongas do auxílio reclamado.

“Cena da Expedição do Tenente-Coronel Affonso Botelho”, aquarela do artista Joaquim José de Miranda (1771) que retrata o confronto entre indígenas e bandeirantes. Provavelmente cenas como essa ocorreram no Rio Grande do Norte – Fonte – https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/guerras-barbaras/

Do litoral ao alto sertão era grande o perigo que ameaçava a própria Natal, sendo, o ponto culminante da rebelião a ribeira do Assú. Vieram em excursões guerreiras tropas da Paraíba, de Pernambuco e da Bahia. Vieram os ”terços paulistas” que haviam lutado em Palmares, vieram companhias do Batalhão de Henrique Dias. Essas forças, os melhores elementos de luta então disponíveis pelo Governo do Brasil, subiram até as cabeceiras do rio Assú, foram às ribeiras do Seridó, do Apodi até ao Jaguaribe, em perseguição dos índios que foram afinal pacificados, isto é, aniquilados, escorraçados, sendo tomada a providência de aldear os restantes. Ainda em tais aldeamentos apareciam insurreições dos índios motivadas por excessivos rigores e injustiças. Nenhuma condescendência havia para o infeliz selvagem, a quem de fato era negado qualquer direito.

Seguramente Miguel Joaquim de Almeida Castro, o Padre Miguelinho, foi o potiguar que mais expresivamente tomou parte na revolução de 1817 e acabou sendo fuzilado. Em junho de 1906, no 89º aniversário do fuzilamento, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, promoveu uma série de homenagens em Natal . Houve uma sessão solene no então Teatro Carlos Gomes, atualmente Teatro Alberto Maranhão, na noite de 12 de junho de 1906, onde um coro feminino cantou o “Hino de Miguelinho”, letra de Henrique Castriciano e música de Luigi Maria Smido, cuja a capa da partitura apresentamos acima – Fonte – https://gamfrente.blogspot.com/2017/03/padre-miguelinho-luz-do-rio-grande-do.html

Na revolução de 1817, não é ignorado o papel que representou o Rio Grande do Norte. Pode-se dizer que essa página luminosa da história nacional se caracteriza no seu conjunto mais pela pureza de seus chefes, pelo estoico heroísmo dos que nela figuram, pela elevação dos ideais, pelo pendor doutrinário, do que por feitos militares e ação guerreira. E foi essa seguramente uma das causas que apressaram o fracasso da revolução.

Em agitações partidárias passou a Província as fases da Independência Nacional. Tomou parte na revolução da “República do Equador”.

Os corajosos e mal organizados destroços das forças revolucionárias de 1824 seguiram por terra, em dificultosa marcha por ínvios sertões de Pernambuco ao Ceará, procurando junção com as forças que nessa Província apoiavam o movimento revolucionário. Foi uma verdadeira retirada de cerca de três mil pessoas, conduzindo duas peças de artilharia, arrastadas por caminhos impraticáveis e arrostando todas as dificuldades que podem acompanhar forças sem disciplina, sem organização militar, sem recursos e sem alentadoras esperanças.

Quadro “Estudo para Frei Caneca”, de Antônio Parreiras (1918), mostrando o padre revolucionário em seu julgamento – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Atravessaram o sertão do Rio Grande do Norte entrando pelo Seridó, seguindo para Pau dos Ferros pelos limites entre Rio Grande do Norte e a Paraíba. No Seridó, onde o presidente provisório da Paraíba deixou sua família, que com ele vinha acompanhando a expedição, da qual também fazia parte o nobre, elevado e culto espírito que era Frei Caneca, não foram hostilizadas as forças. Em Caicó, demoraram-se oito dias, concertando as carretas das peças que eram puxadas por bois. Em Patu de Fora, começou a expedição a sofrer hostilidades e também a hostilizar. Foram incendiadas algumas casas e fazendas.

Em Torrões (ou Torões), Patu, houve forte tiroteio, morrendo mais de trinta pessoas de parte a parte. Parece que batalhões irregulares de Portalegre organizaram guerrilhas, unindo-se depois com as forças legalistas do Rio do Peixe (PB).

Foto – Rostand Medeiros.

Serenada a luta pela submissão dos rebeldes, seguiram-se o martírio e as exageradas punições de infelizes chefes rebeldes, sonhadores antecipados dos ideais republicanos, vítimas da crueldade das juntas militares, tão tristemente célebres na história pátria.

Os habitantes do Rio Grande do Norte conservaram sempre prontos para qualquer emergência, chegando a formar batalhões de tropas irregulares, contra os reacionários de 1832, apoiando a política do então ministro da justiça e depois Regente do Império, padre Diogo Antônio Feijó.

Iniciada no Ceará em dezembro de 1831, com a proclamação de Joaquim Pinto Madeira, essa revolta obedecia aos ideais do Partido Restaurador, ou Caramuru, apoiado pelos portugueses. Formou-se no sertão do Rio Grande do Norte batalhões de tropas irregulares que marcharam para o Crato contra os revolucionários. De Martins e Portalegre seguiu um batalhão sob o comando do coronel Agostinho Pinto de Queirós. Conta-se que na primeira noite de marcha dois soldados de família do Martins, os irmãos Patrícios, tentaram voltar para casa, sendo por isso, ao amanhecer, sumariamente fuzilados. O comandante da tropa foi processado por esse fato e depois, por prescrição, isento da pena.

Pintura em azulejo de Armando Lopes Rafael (2010), representando Joaquim Pinto Madeira – Fonte – https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/a-guerra-dos-cacetes-bentos/

Sob o comando do coronel José Teixeira se organizou um batalhão no Seridó, do qual faziam parte os homens válidos das principais famílias. Incorporada à força combatente e reunida em Caicó, o padre Francisco de Britto Guerra, então vigário da cidade e representante da Província na Câmara Temporária, onde entrara como suplente, intimamente relacionado com o padre Feijó, e talvez o principal fator do movimento, promoveu uma grande solenidade cívico-religiosa por ocasião da partida da força. Seguiram todos montados para Pombal onde se uniram as forças da Paraíba, principiaram a receber instrução militar ministrada pelo alferes Canuto, de tropa de linha do Ceará.

Nas várzeas do Rio do Peixe (PB), houve o primeiro encontro entre esse batalhão do Seridó e as forças de Pinto Madeira, tendo estas atacado de surpresa, procurando tomar o valioso comboio dos víveres e munições dos seridoenses. O resultado foi as forças de Madeira retirando-se do combate com a perda de doze homens.

Manuel de Assis Mascarenhas, presidente da Província do Rio Grande do Norte ente 1838 a 1841, em cujo governo concedeu a patente de Coronel Comandante ao seridoense Joãop Gomes da Silva, pela sua capacidade de luta nos combates contra as forças de Pinto Madeira em 1831 – https://pt.wikipedia.org

O batalhão do Seridó continuou em marcha afim de reunir-se com as forças legalistas que no Ceará procuravam abafar a revolta, havendo pelo caminho alguns encontros. Terminada a luta, voltou a tropa ao Caicó, onde foi recebida com festas, aclamações, Te Deum na igreja, etc. Por ocasião dessas festas da chegada, foi aclamado pelos soldados o comandante das forças o quartel mestre João Gomes da Silva, que se havia distinguido na expedição, aclamação que anos depois no governo de Manoel de Assis Mascarenhas (1838 – 1841) foi confirmada com a patente de Coronel Comandante.

Muito é de notar que em todas essas lutas político-partidárias, os sertanejos do Rio Grande do Norte, serenados os ânimos, evitavam ódios inúteis, crueldades, perseguições e delações contra os vencidos.

A tradição narra mesmo o fato de haver Simão Gomes de Britto, capitão de milícias em Campo Grande, recebido ordem superior para prender o Coronel Cavalcante, implicado na revolução de 1817. Mas este apresentou a ordem de prisão ao seu amigo e pediu para que tomasse suas precauções. Acrescentou: — “Dê no que der, não o prenderei, porque sei que não cometeu crime”. E efetivamente não tentou fazer a prisão. Entretanto, o Coronel Cavalcante, ou porque se julgasse inocente, ou por altivez de caráter, ou ainda para evitar a responsabilidade do amigo, foi se entregar, e sofreu os rigores daqueles horríveis cárceres, onde foram martirizados os patriotas de 1817.

Óleo sobre tela de Eduardo de Martino, que retrata a troca de tiros que culminaram na primeira passagem de navios brasileiros por Passo de Tonelero em 1851, onde os argentinos construíram fortificações que bloqueavam a navegação no Rio Paraná. Domínio público, Revista de História da Biblioteca Nacional – Fonte – https://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/historia-do-brasil/brasil-monarquico/8979-quest%C3%B5es-platinas-a%C3%A7%C3%B5es-militares-no-segundo-imp%C3%A9rio

Nas guerras contra as repúblicas do Rio da Prata numerosos filhos do Rio Grande do Norte acudiram em defesa da pátria.

Quatro meses depois de declarada a Guerra do Paraguai, embarcou em Macau um contingente de mais de sessenta voluntários, dos quais trinta e três eram do Assú, além de onze de Campo Grande, que haviam seguido diretamente para a Capital. É conhecido o fato de haver o Dr. Olinto José Meira de Vasconcelos, então Presidente da Província (1863 – 1866), dirigido a palavra na capital, a grupos que se achavam em manifestações em frente ao quartel, apelando para o patriotismo de todos e pedindo dar um passo à frente aqueles que quisessem seguir para a guerra. Mais de 400 voluntários moveram-se para a frente. De todos os pontos da Província seguiram Voluntários da Pátria, sendo também crescido o número de recrutados. E o papel que na guerra desempenharam os rio-grandenses-do-norte ajudou ao merecido renome adquirido pela infantaria do norte.

O brasileiro Symphonio dos Santos uniformizado para combater na Guerra do paraguai – Fonte – http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=92142

Na proclamação da República, na revolução federalista do sul, na revolta da armada, em Canudos, os filhos do Rio Grande do Norte cumpriram sempre seu dever.

Sob as ordens de Plácido de Castro, nas lutas acreanas, encontraram-se também inúmeros rio-grandenses-do-norte, destemidos e audazes pioneiros da colonização e conquista das mais recuadas fronteiras da Pátria, os quais tangidos do torrão natal por atormentadoras secas, forneceram, com seus irmãos de outros Estados, por igual vítimas da calamidade, os elementos vitais, talvez os únicos possíveis para o colossal empreendimento da colonização da Amazônia.

De fato, outras populações vivendo certamente sob um clima mais doce e uma natureza mais amena, não estariam, como os nossos sertanejos, tão habituados a receber e aguentar o choque e a destruição das mortíferas forças da natureza amazônica, com a mesma resignação, com o mesmo esforço e coragem com que encaram e recebem as furiosas cargas das nossas devastadoras secas.

Na execução da recente lei do serviço militar (1916) raro é o sorteado dessa terra que deixa de acudir ao chamado: talvez nenhum listado da União apresente menor número de insubmissos.

Eis aqui, a largos traços, a vida militar do Rio Grande do Norte: lutas constantes durante dois séculos, sempre aceso o sentimento de patriotismo, de abnegação, de sofrimento. E por isso mesmo, apesar de uma bissecular educação guerreira, os filhos do Rio Grande do Norte têm acentuadamente o caráter pacífico: o banditismo, o caudilhismo, e as lutas por fanatismo nunca encontraram apoio entre eles.

Para conhecerem a biografia de Felipe Guerra é só acessar esse link – https://fatosdefelipeguerra.blogspot.com/2019/10/felipe-guerra_31.html 

1875 – UM INFORMATIVO ESPÍRITA EM TERRAS POTIGUARES

Rostand Medeiros – Escritor e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte

Na metade da década e 1870, ainda nos tempos do Império do Brasil, a cidade de Natal era uma pequena capital de uma província verdadeiramente insignificante no cenário político e social brasileiro da época.

Antes que alguém fique chateado com esta minha colocação, para se ter uma ideia do que escrevo, segundo o resumo publicado nas páginas 37 e  39, do livro “População do Brazil”, publicado no Rio de Janeiro em 1922, pela “Directoria Geral de Estatistica”, do então “Ministério da Agricultura, Indústria e Commercio”,  informa que em  1872, a população potiguar alcançava a cifra de 273.979 almas e a capital então era possuidora de uma população de 20.392 pessoas. Mas esta pequenez populacional não impedia que existissem na nossa cidade pessoas e grupos com ideias interessantes e diferenciadas do quadro geral reinante.

Espiritismo no Brasil

No Brasil, desde a década de 1840, que existiam grupos de pessoas que buscavam o entendimento relativo às questões do espiritismo, principalmente a possibilidade de comunicação com os espíritos através de médiuns. O movimento cresce e vinte anos depois grandes jornais do Rio de Janeiro debatiam em suas páginas aspectos desta Doutrina. Logo são criados centros espíritas na Bahia e Rio de Janeiro.

Em 1869, Luiz Olímpio Teles de Menezes publica o jornal “O Eco D’além Túmulo-Monitor do Espiritismo no Brasil”, considerado o primeiro jornal espirita do país. Em 1873, vinte anos após o lançamento do “Livro dos Espíritos”, ele é traduzido e publicado no país. De autoria do pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, que adotou o pseudônimo de Allan Kardec, é o primeiro livro sobre a doutrina espirita e foi o primeiro de uma série de cinco livros editados pelo pedagogo sobre o mesmo tema.

Apenas dois anos depois do lançamento do “Livro dos Espíritos” no Brasil e quase nove anos antes da fundação da Federação Espírita Brasileira, pessoas em Natal decidem fundar um jornal exclusivamente dedicado a debater e propagar a doutrina espiírita na capital potiguar. Em uma quarta feira, 1 de setembro circulou “O Espirita”.

“Informativo Espiritista”

O informativo dizia-se “Informativo Espiritista”, sendo um jornal pequeno, com apenas quatro páginas e era editada em uma redação a Rua Santo Antônio, provavelmente na casa do seu diretor, Manoel Gomes da Silva. O pesquisador Manoel Rodrigues de Melo, em seu livro “Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte 1909 – 1987”, página 139, comenta que Manoel Gomes da Silva era poeta e prosador. O jornal era impresso na “Typographia Liberal”, conforme está na capa e custavam um mil réis.

É composto de cinco artigos, alguns datados de agosto daquele ano, e um longo poema denominado “Virgem Santíssima”, de autoria de Manoel Gomes da Silva. Aparentemente a maioria dos artigos é de autoria do mesmo autor do poema anteriormente comentado. Em apenas um deles encontramos um autor assinando com o pseudônimo de “Sensus”.

Os artigos vão desde uma apresentação e saudação ao espiritismo, doutrinamento e uma severa crítica aos representantes da igreja católica. Este artigo em particular, intitulado “O Espiritismo e o Padre”, chama a atenção pela virulência das letras, que bem poderia ser um reflexo do clima reinante no Brasil da época.

Área da Santa Cruz da Bica no início do século XX, região próxima a redação de “O Espirita”. Foto Manoel Dantas.

É inegável que neste período a igreja católica predominava como força religiosa em Natal e em todo o Brasil imperial. Mas contestações e conflitos ocorriam desafiando este poderio e o mais importante foi sem dúvida a chamada Questão Religiosa.

Momento de Conflitos Religiosos

No passado as relações entre o Estado e o clero católico sempre foram muito próximos. A Constituição do ano de 1824 estabelecia expressamente que a religião oficial do Estado era o catolicismo e existia uma relação formal entre a Igreja e a Coroa, que atendia aos interesses de ambos. Chegava ao ponto dos membros do clero ter as mesmas vantagens e tratamentos dos funcionários públicos da época, recebendo seus salários através da Coroa.

No final da década de 1860 houve uma forte reação da direção da igreja católica contra instituições que defendiam a secularização e o anticlericalismo, como a Maçonaria, que possuía grande prestígio no Brasil, onde o Imperador Pedro II e vários clérigos da própria igreja católica eram maçons.

Não demorou muito para altos dirigentes da igreja católica atacarem os religiosos ligados à Maçonaria, ameaçando-os

omo um caricaturista viu o conflito entre a Coroa e a Igreja católica. Fonte-http://imagohistoria.blogspot.com

de desligamento de suas  atividades religiosas e até de absolvição sacramental. O caso chegou a tal ponto de ruptura que os Bispos de Belém do Pará e de Olinda, respectivamente Dom Antônio de Macedo Costa e Dom Vital, foram processados, presos e condenados a quatro anos de prisão.

Como sempre ocorre entre as classes dirigentes no Brasil, foi conseguida uma acomodação entre o Império e a Santa Sé. Mesmo não estando relacionado diretamente ao fim do Império em 1889, este conflito de ideias criou sérias rupturas entre o Império do Brasil e a igreja católica.

Talvez o momento brasileiro da década de 1870 explique a acidez do artigo de “O Espirita”.

Independente desta questão a existência deste jornal aponta que mesmo Natal sendo uma capital com pouca expressividade no cenário brasileiro do final do século XIX, setores de parte de sua sociedade mostrava que possuíam um pensamento independente da maioria.

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