A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE

Rostand Medeiros https://pt.wikipedia.org/wiki/Rostand_Medeiros

Desde que comecei a ler livros e a me interessar pelas envolventes histórias dos cangaceiros nordestinos, uma passagem em particular sempre me chamou muito a atenção. Foram as circunstâncias envolvendo um intenso tiroteio entre um antigo cangaceiro do bando de Lampião, conhecido como Meia-Noite, que enfrentou praticamente sozinho, durante mais de cinco horas de fogo cerrado, um grupamento policial que chegou a ter mais de oitenta homens.

Ocorrido em uma data incerta, mas que se situa em algum dia da segunda quinzena de agosto ou início de setembro de 1924, este desigual combate se desenrolou em uma propriedade rural chamada Tataíra, em meio às serras do então município paraibano de Princesa, na fronteira com Pernambuco.

Cangaceiro, de Portinari

O que chama atenção neste caso, além do imenso volume de fogo, foi a capacidade de resistência deste cangaceiro que, mesmo acuado em uma pequena casa rural e ferido, ainda conseguiu, em um primeiro momento, fugir, sendo morto apenas alguns dias depois, através de uma emboscada perpetrada por dois homens, um dos quais o ajudava em seu restabelecimento.

Ao ler estes fatos, no começo pensei ser mais uma das muitas fantasias que pululam nos inúmeros livros escritos sobre o cangaço. Pensava que, no caso de a história ser verdadeira, certamente esta casa deveria ter sido derrubada há muitos anos e que, após mais de oitenta anos, não haveria ninguém que pudesse narrar algo deste incrível episódio.

Não sabia o quanto estava enganado.

AS ORIGENS DO CONFLITO

Segundo a literatura relativa ao assunto, o tiroteio no sítio Tataíra tem origem em 27 de julho de 1924, quando um forte grupo de cangaceiros atacou com sucesso a cidade paraibana de Sousa, uma das mais importantes daquele estado.

Chico Pereira

O fazendeiro que vivia a alguns quilômetros de Sousa, em uma propriedade denominada Jacu, no então distrito de Nazareth, atual município de Nazarezinho, chamava-se Francisco Pereira Dantas, conhecido como Chico Pereira.

Seu pai, o afamado coronel João Pereira, foi assassinado em meio a disputas políticas. O comentário na região era de que os mandantes seriam pessoas importantes de Sousa. Entre os prováveis articuladores, constava o nome de Otávio Mariz.

O clima na cidade estava pesado, na iminência de ocorrerem novas ações violentas. Logo, este membro da influente família Mariz envolveu-se em uma briga na feira da cidade, onde chicoteou severamente uma pessoa ligada a Chico Pereira.

Estado atual da Casa Grande da Fazenda Jacu, Nazarezinho, Paraíba – Fonte – http://nazarezinho.informecapital.com.br

Em sua fazenda, ao saber do ocorrido, Chico Pereira exaltou-se. Ele teria então enviado um portador para dialogar diretamente com o famoso chefe cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, solicitando seu apoio para a realização de um decisivo ataque contra seus inimigos em Sousa.

Após ouvir o portador vindo de Sousa, Lampião teria dado o aval para que dois de seus irmãos, Antônio e Levino Ferreira, além de certa quantidade de cangaceiros, seguissem para o Jacu, unissem forças com o grupo de homens em armas mantidos por Chico Pereira e atacassem a cidade.

O coronel José Pereira, no destaque de gravata.

Por esta época, Lampião convalescia de um forte ferimento, ocasionado inicialmente em um combate no lugar conhecido como Lagoa do Vieira, na zona rural do atual município pernambucano de São José de Belmonte.

O mais importante cangaceiro brasileiro recuperava-se na área da propriedade denominada Saco dos Caçulas, na zona rural da cidade de Princesa, na fronteira da Paraíba com Pernambuco. Esta propriedade pertencia a Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes de José Pereira de Lima, líder político e verdadeiro “dono” de Princesa.

Segundo relatos coletados na região, Marcolino Diniz, através da anuência de seu parente José Pereira, aparentemente firmou um acordo tácito com Lampião. O chefe cangaceiro estava protegido por estes homens poderosos na região da fazenda Saco dos Caçulas. Em contrapartida, seus cangaceiros não deveriam criar problemas em suas áreas de interesse.

Rodrigues de Carvalho, autor do livro “Serrote Preto” (Rio de Janeiro, 1974), afirma, na página 273, que Sousa ficava distante “35 léguas” de Princesa, equivalente a 210 quilômetros. Provavelmente Lampião imaginou que o ataque àquela cidade não traria problemas junto aos seus protetores e, assim, ficaria mantido o pretenso acordo.

Entre os homens que Lampião cedeu a Chico Pereira estava a “fina flor” do cangaceirismo da época. Homens como Sabino, José Cachoeira, Lua Branca e um homem negro, alto e forte, conhecido como Meia-Noite.

O cangaceiro Meia Noite

Segundo o escritor Érico de Almeida, no livro “Lampeão – Sua História” (págs. 63 a 68), publicado em 1926, o cangaceiro Meia-Noite chamava-se Antonio Augusto Feitosa. Teria, em 1924, a idade de 22 anos, sendo originário da região de Olho D’Água do Casado, próximo a Paulo Afonso, Alagoas, e possuía a fama de ser extremamente valente.

Diante de uma horda composta por um número de cangaceiros que superava os oitenta homens, todos dispostos e bem armados, o assalto a Sousa foi um sucesso para o bando.

Foto do bando de Lampião nos primeiros anos da década de 1920.

O saque foi tão desenfreado que até mesmo os aliados de Chico Pereira sofreram nas mãos dos cangaceiros. Casas comerciais, residências e qualquer local onde houvesse algo de valor foram “visitados”. A situação chegou a tal ponto que, durante o ataque, Chico Pereira deixou a função de chefe cangaceiro para tentar controlar as feras que ele mesmo havia incentivado a atacar a cidade.

João Gomes de Lira, que foi oficial da Polícia do Estado de Pernambuco, antigo perseguidor de Lampião e autor do livro “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” (Recife, 1990), afirma, na página 143, que Chico Pereira foi “quem muito defendeu Sousa de piores desatinos”.

Até hoje perdura o desconforto em relação a esta página negra da história daquela cidade. Em nossas pesquisas na região, ao entrarmos em contato com filhos daqueles que vivenciaram os fatos, é facilmente perceptível o constrangimento dessas pessoas em tecer algum comentário sobre este assunto.

Enquanto o grupo de atacantes retornava para Princesa, a repercussão do ocorrido espalhava-se pela Paraíba e pelo Nordeste.

Logo após tomar conhecimento dos estragos em Sousa, Lampião percebeu que enfrentaria a polícia paraibana e que dificilmente Marcolino Diniz e José Pereira continuariam a lhe oferecer a mesma proteção e o apoio de outrora.

Marcolino Diniz e seus cabras

Justamente nesta hora, quando o horizonte se mostrava repleto de nuvens negras, ocorreu, no seio do bando de Lampião, a saída de um dos seus mais destemidos membros.

Após retornarem para junto do chefe, durante um pernoite em uma fazenda denominada “Bruscas”, pertencente à família Lacerda, o intrépido Meia-Noite percebeu que algum companheiro havia lhe surrupiado a quantia de nove contos de réis, tão “arduamente” conseguida como “fruto do seu labor”.

Logo se iniciou uma discussão. Sem medo de nada, o cangaceiro enganado pelos companheiros apontou o dedo diretamente para os irmãos de Lampião, que, por sua vez, afirmavam inocência. O clima esquentou. Meia-Noite logo se colocou pronto para o que viesse a ocorrer, empunhando seu fuzil Mauser.

Lampião, em pessoa, interveio no conflito, mas naturalmente se posicionou a favor dos irmãos, e a situação quase chegou a um desfecho trágico.

Lampião tinha enorme respeito pelo cangaceiro Meia-Noite

Sabendo o tipo de homem que Meia-Noite era, a quem conhecia há alguns anos, Lampião decidiu então pagar os nove contos ao terrível cangaceiro.

Após a entrega do dinheiro, Lampião impôs uma condição: seu companheiro teria de entregar suas armas para outros membros do bando. Meia-Noite percebeu que, estando desarmado, fatalmente seria novamente roubado e morto.

O valente negro não se fez de rogado. Colocou uma bala na câmara de seu fuzil, apontou a arma para Lampião e “convidou” o chefe e quem mais o acompanhava a vir tomar seu armamento.

Segundo relatos obtidos por Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 274 e 275) junto ao fazendeiro Zuza Rodrigues — que anteriormente ouviu a história do cangaceiro Lua Branca, presente à cena —, nesse momento todos ficaram quietos, admirados ante a valentia do negro, que mantinha o fuzil apontado diretamente para Lampião. O chefe sempre admirava os valentes e, apesar de consternado diante da afronta, baixou a guarda. Além do mais, não havia muito o que fazer, pois, se Meia-Noite atirasse, Lampião sabia que dali seu destemido cangaceiro não sairia vivo, mas provavelmente ele, Lampião, também não. O cangaceiro negro foi, então, expulso do bando e seguiu viagem pelas estradas do sertão.

Região da Serra do Pau Ferrado – Foto – Rostand Medeiros

Em sua juventude o Senhor Antônio Antas Dias, que vive na cidade paraibana de Manaíra e não muito distante de Princesa, conviveu e conheceu na intimidade Marcolino Pereira Diniz, filho do poderoso Marçal Florentino Diniz, todos parentes do “dono” de Princesa, José Pereira. Além de Marcolino, Antônio Antas conviveu igualmente com Luiz Nunes de Souza, que ficou conhecido como o mítico cangaceiro “Luís do Triângulo”, com Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso”, e com outro homem conhecido como “Tocha”. Todos eles eram homens de extrema valentia e de total confiança de José Pereira e Marcolino Diniz.

Altivo, tranquilo e prestativo, Antônio Antas foi quem me fez conhecer aspectos interessantes da região, onde já estive em quatro ocasiões. Em uma delas, perguntei ao amigo Antônio sobre o combate da Tataíra. Para minha surpresa, ele afirmou que a história da valentia de Meia-Noite era muito conhecida na região, que a casa ainda estava de pé, servindo de moradia até hoje (2008), e que aparentemente não tinha sido drasticamente reformada. O mais importante: havia pessoas, filhas daqueles que vivenciaram os fatos, que poderiam transmitir de forma correta aquilo que seus pais e parentes relataram do tiroteio de 1924.

O amigo Antônio Antas, apontando os caminhos da história da Tataíra

Parti junto com Antônio Antas para visitar o local e resgatar, junto aos filhos das testemunhas — pessoas que atualmente se situam na faixa dos sessenta a oitenta anos e que continuam lúcidas —, a memória desse acontecimento. Essas pessoas, mesmo não sendo testemunhas diretas, ouviram as narrativas em um ambiente mais tranquilo, anterior à massificação do rádio e da televisão, que era mais propício para que a lembrança dos fatos ocorridos fosse transmitida de forma rica em detalhes. O resultado foi muito animador.

A TRANQUILIDADE NO SACO DOS CAÇULAS

O agricultor Anastácio de Souza de Moraes, de 69 anos à época de minha entrevista (2008) e morador do sítio Bandeira, vizinho a Tataíra, narrou-me que seu pai, Manuel Moraes, assistiu de sua casa (onde até hoje Anastácio reside) a todo o conflito ocorrido em setembro de 1924. Anastácio, homem calmo, tranquilo e calejado nas lides do campo, comentou que, para as pessoas da região, o apelido Meia-Noite não tinha origem apenas no fato de ele ser negro, mas porque o valente cangaceiro possuía o hábito de circular pela região sempre à noite.

Casa Grande dos Patos

Segundo o nosso entrevistado, nos dias em que Meia-Noite circulou por aquele setor, ainda junto a Lampião e seu bando, os cangaceiros consideravam aquele local o seu melhor refúgio. Percebemos isso ao circular na estrada de barro que liga a cidade de São José de Princesa à fronteira de Pernambuco, pois em nenhum momento é possível visualizar, mesmo estando em altitude, a atual comunidade do Saco dos Caçulas ou as casas da propriedade Tataíra. São elevações se sobrepondo a elevações, criando no meio delas uma área quase fechada, um verdadeiro “saco”.

Além do apoio de Marcolino Diniz, outra razão positiva para a região do Saco dos Caçulas ser considerada um ótimo esconderijo era a existência de um afamado armeiro e ferreiro chamado Zé André. Este sempre calibrava as armas, ajeitava uma agulha, um gatilho, trocava uma mola ou uma coronha. Anastácio e Antônio Antas o conheceram em plena atividade e são unânimes em afirmar que André era um verdadeiro artista.

É conhecido na região que, muitas vezes, Lampião saiu de seus esconderijos, acompanhado de seus homens de maior confiança, como seus irmãos e Luís Pedro do Retiro, para jogar cartas com Marcolino Diniz no casarão da fazenda Patos de Irerê. A tônica dessas jogatinas eram as apostas com altas somas de dinheiro.

Os cangaceiros não ficavam fixos em uma única casa; estavam sempre passando de um refúgio para outro. A residência que eles mais apreciavam, segundo relatos do pai de Anastácio, era uma velha vivenda situada no sítio Pedra, cujo proprietário era conhecido como “Domingos da Pedra” e era muito ligado a Marcolino Diniz.

Nesse refúgio, era comum a presença de um sanfoneiro chamado Joaquim Preto, que vinha do sítio Covão, local onde bailes eram frequentemente realizados. O agricultor Manoel Moraes, pai do nosso entrevistado, frequentou muitas dessas festas ao lado de outras pessoas da região.

Segundo ele, sempre existiu muito respeito por parte dos cangaceiros em relação à população local, sendo provável que tenha sido em um desses bailes que o afamado Meia-Noite conheceu Zulmira.

Igreja de Patos do Irerê

Sobre essa sertaneja, ela era natural da área da fazenda Saco dos Caçulas, onde morava com sua família. Segundo Anastácio, os pais da jovem posicionaram-se contrários ao relacionamento. Mas quem iria contra Meia-Noite? Logo, ela fugiu com seu cangaceiro.

A REGIÃO SE TORNA PERIGOSA

Mas, depois do ataque a Sousa, tudo mudou.

Lampião foi avisado de que deveria deixar a região do Saco dos Caçulas. Logo, ele e seus homens passaram a ser tenazmente acossados pela polícia e por homens contratados por José Pereira.

Diante da nova situação e do seu retorno à região, Meia-Noite passou a circular com muito cuidado. Ele nunca dormia no mesmo local; seguia para vários esconderijos diferentes, levando a amada a reboque.

Consta que Meia-Noite era visto circulando abertamente com um fuzil Mauser, uma pistola e um punhal. Já Zulmira transportava um rifle modelo Winchester.

Manoel Moraes informou a seu filho que, pela proteção e pelo silêncio do povo da região, Meia-Noite desembolsava certas quantias em dinheiro, que satisfaziam aqueles que lhe davam abrigo e deixavam outros se roendo de inveja.

Para o pai de Anastácio, foi na ocasião em que o valente cangaceiro se encontrava homiziado em uma das casas do sítio Tataíra, pertencente a um fazendeiro conhecido como Tibúrcio Barreto, que provavelmente algum proprietário vizinho se dirigiu a Princesa e delatou ao coronel José Pereira o local onde Meia-Noite se encontrava.

A antiga Pincesa Isabel

Segundo Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280), o coronel ordenou a um de seus homens de confiança, Manoel Virgulino, que fosse a Tataíra com doze homens, trazendo a ordem de:

“– Trazer o negro de qualquer maneira, na corda ou no pau”.

Esta ordem significava que deveriam trazê-lo amarrado vivo ou, caso estivesse morto, transportá-lo amarrado a uma vara, carregada por dois homens.

Às nove da noite, Manoel Virgulino segue de Princesa junto com seu grupo. Demoram quatro horas em marcha discreta e ininterrupta. Anastácio Moraes informou que o grupo de captura passou por várias casas perguntando sobre o cangaceiro e logo chegou à casa do ferreiro e armeiro Zé André. Este acordou com a movimentação ao redor de sua residência e com homens batendo à sua porta. Ao abrir, Zé André se assustou com as pessoas armadas, que lhe perguntaram de forma ríspida se Meia-Noite estava homiziado em sua casa ou se ele sabia de seu paradeiro. Ele negou conhecer a localização do cangaceiro; os homens aceitaram a informação e seguiram em direção às casas do sítio Tataíra.

Zé André não foi molestado, mas não teve dúvidas em relação ao que iria ocorrer e tratou de abandonar sua pequena vivenda em busca de refúgio na casa de parentes.

Casa do sítio Tataíra, onde ocorreu o feroz tiroteio. Na época a casa tinha uma divisão.

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 280) informa que, realmente, a volante bateu de casa em casa, recebendo sempre respostas negativas, e que o grupo já estava desanimando com o resultado, pronto para retornar a Princesa.

Em uma das últimas tentativas, o grupo encontrou duas casas lado a lado no sítio Tataíra, com uma grande palmeira na parte frontal. Não eram residências muito grandes; possuíam telhados típicos do sertão, em forma de “V” invertido, tipo conhecido como “duas águas”. Suas paredes eram bem rígidas, feitas com grandes tijolos maciços e aparentes. Perceberam que uma das casas servia de moradia e a outra funcionava como local de transformação de mandioca em farinha, pois possuía uma chaminé no alto e apenas uma porta e uma janela na parte frontal. As casas estavam situadas em uma pequena elevação, o que deixava os atacantes em desvantagem, pois quem estava no interior tinha o campo de tiro completamente aberto e facilitado.

O grupo passou a interpelar os que ali habitavam. Não obtiveram uma resposta rápida, mas ouviram barulhos e aguardaram. Logo, uma voz de mulher se fez ouvir. Os membros da volante pediram para entrar, mas a voz feminina afirmou ser de uma mulher idosa, que estava sozinha e não iria abrir. Os homens de José Pereira voltaram à carga, batendo com mais força na porta. A voz feminina perguntou: “— Se são homens do coronel?”. Diante da resposta afirmativa, Meia-Noite deixou de lado o disfarce e abriu fogo, em meio a uma série de impropérios, palavrões e baixarias.

Lateral da casa do sítio Tataíra

Manoel Virgulino interpelou o cangaceiro para que se entregasse, pois iriam pegá-lo “vivo ou morto”. O cangaceiro, segundo Anastácio, respondeu: “— Nem morto nem vivo, e quem entrar leva tiro!”.

Teve início, então, aquele que é considerado um dos mais intensos, desiguais, longos e ferozes combates ocorridos no período do cangaço.

O INCRÍVEL “FOGO” DA TATAÍRA

Os membros do grupo atacante perceberam que estavam diante de um combatente destemido e preparado. Era tal a quantidade de disparos que saíam do interior da casa que ficava difícil acreditar que apenas uma arma era disparada por vez. Tanto as narrativas dos moradores da região quanto a literatura existente são taxativas em afirmar que Zulmira não atirou, mas municiava as armas do companheiro.

O esperto Meia-Noite tinha certeza de que os homens de José Pereira desconheciam sua saída do bando de Lampião e passou a admoestar os atacantes com o blefe de que seus companheiros os atacariam pela retaguarda. Não é difícil imaginar que, diante da possibilidade de seu grupo sofrer uma emboscada, Manoel Virgulino tenha dividido o contingente de ataque, e essa atitude ajudou a prolongar o cerco.

Outra vista da casa

O combate se prolongava. A madrugada estava findando e os atacantes certamente sabiam que, com o eco do tiroteio se expandindo pelas serras, logo outros companheiros das volantes estariam chegando.

Em dado momento, Meia-Noite pediu garantia de vida para sua companheira. Para a sertaneja Zulmira, aquela zoada, aquela tensão, eram demais. Os homens de Manoel Virgulino informaram que ela estava garantida, que nada de mal ocorreria à jovem e que, se Meia-Noite quisesse, ele também teria sua vida poupada para seguir para sua cela em Princesa.

Valentão e ousado, ir para a cadeia era a máxima das desonras para Meia-Noite, e sua resposta foi outra série de impropérios e mais chumbo.

Mas, diante da situação da jovem e das palavras de seus inimigos, que diziam que ele era covarde por manter a mulher dentro da casa, houve uma trégua, e Zulmira deixou a casa de farinha levando alguns poucos pertences.

Após a saída de sua amada, Meia-Noite despejou fogo e novos insultos contra seus inimigos.

Tenente Manuel Benício

Já eram quatro horas de troca de tiros quando ecoou na serra o toque de uma corneta. Segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 66), era a volante do tenente Manuel Benício, acrescida do pessoal de Clementino Quelé e Francisco Oliveira, que estavam aquartelados no alto da serra do Pau Ferrado.

Já Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 284) informa que este grupo se encontrava em um sítio denominado Baixio, a 15 quilômetros de Tataíra e próximo à fazenda Patos, cujo proprietário era Marcolino Diniz. O autor narra as inúmeras dificuldades enfrentadas pelo grupo de policiais para alcançar a região do conflito e, neste aspecto, estava correto.

Visitando a região, esplendorosa em sua beleza serrana, não foi difícil perceber o enorme grau de dificuldade que os policiais enfrentaram para chegar a Tataíra.

Segundo o mapa em escala de 1:100.000, produzido pela SUDENE, a altitude onde se localiza o sítio Baixio é de quase 900 metros. O grupo, então, desceu em torno de 400 a 450 metros até o vale onde se situa o antigo casarão da fazenda Patos e tornou a subir para uma cota superior a 800 metros, seguindo em direção à casa onde se encontrava o terrível e valente cangaceiro. Tudo isso em uma época em que a cobertura vegetal era bem mais cerrada.

Entrevistado de 2008 apontando onde a polícia estava. A casa da Tataíra está nas costas do fotógrafo – Foto – Rostand Medeiros

Certamente, nesta hora, o cangaceiro Meia-Noite deve ter se imaginado perdido, pois sabia que aquela corneta significava a chegada de uma força policial que, segundo Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67), chegava a 84 homens.

Para a população local, o número de combatentes contra o solitário Meia-Noite ficava em torno de 100 a 120 homens. Independentemente do número exato, a desproporção era enorme, e logo uma sinfonia de disparos ecoava pelas serras.

Mesmo assim, nem com a chegada dos reforços policiais o valente alagoano refreou seu ímpeto, continuando a dizer todos os palavrões que conhecia e mandando bala. Logo, dois membros da polícia foram feridos.

Manoel Moraes informou a seu filho que, depois do “fogo”, os policiais comentaram na região que:

“– O negro tanto atirava como dizia baixarias, recitava versos e até cantava”.

Provavelmente Meia-Noite, sozinho dentro da casa, cantava, dizia palavrões e recitava versos populares para suportar o cansaço, a tensão e encontrar forças para continuar a luta.

Outra área onde se posicionou as tropas policiais – Foto – Rostand Medeiros

A noite se encerrava. Dentro da casa de farinha, Meia-Noite via as munições do fuzil, da pistola e do rifle escassearem rapidamente.

Só tinha duas saídas: ou se entregar ou sair para o “campo da honra” e lutar até a morte. No final das contas, Meia-Noite sabia que morreria de qualquer maneira.

Os atacantes atiravam incessantemente quando Meia-Noite gritou que iria sair. Certamente, um frêmito de vitória percorreu o meio da tropa e, possivelmente, alguns até comemoraram antecipadamente.

Ele ainda alertou que a polícia preparasse as armas:

“– Que ele iria sair”.

Durante cerca de dez a quinze minutos, o silêncio imperou no campo de luta. Os atacantes imaginaram que o cangaceiro estaria morto ou ferido.

Existem duas versões para o que ocorreu a seguir. Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que os atacantes, já perturbados com o silêncio prolongado e acreditando que Meia-Noite estava ferido ou morto, entraram no recinto e descobriram que ele havia sumido, desaparecido.

Região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

O autor afirma que a quantidade de tiros era tão grande que a fumaça produzida pelas armas foi “capaz de anular a visibilidade”. O cangaceiro teria aproveitado aquele momento para fugir, deixando um rastro de sangue.

Já as pessoas da região, como Anastácio, Antônio Antas e outros, são categóricas em afirmar que Meia-Noite, após anunciar que ia sair, deu um tempo e então atirou um objeto com certo volume diante da casa de farinha. Quem estava de arma pronta meteu bala no que se projetou para fora da casa. Para uns, o que Meia-Noite jogou foi uma mala; para outros, um caçuá; e, para terceiros, um saco.

Depois dos inúmeros disparos no objeto, o ágil alagoano de 22 anos aproveitou o momento em que o grupo de atacantes recarregava as armas e saiu da casa em desabalada carreira. O comentário na região foi que ele correu atirando, gritando, colocando nova munição na câmara do seu fuzil, atirando novamente, pulando no meio dos soldados e descendo o aclive onde se situa a casa da Tataíra. Manuel Moraes informou ao seu filho que dois soldados, vendo a figura de Meia-Noite se aproximar, abandonaram seus postos e fugiram.

Mesmo conseguindo furar o cerco inicial, o grupo de atacantes não era pequeno. Apesar de a visibilidade estar limitada pela pouca luz e de o alvo estar correndo, um policial mais atento fez pontaria com seu fuzil e abriu fogo. O tiro atingiu uma das pernas do cangaceiro. Ele caiu, mas logo se levantou, pulou uma cerca, caiu de novo e continuou a fuga em meio a outros disparos.

Outra vista da região do Saco dos Caçulas – Foto – Rostand Medeiros

Não encontrei na região ninguém para corroborar a afirmação de Rodrigues de Carvalho, mas todos são unânimes em comentar, sempre com uma ponta de espanto, a segunda versão da escapada de Meia-Noite.

Para os moradores locais, o sucesso inicial da fuga de Meia-Noite deveu-se ao fato de ele ter aproveitado espertamente o lusco-fusco da manhã, aquela hora em que a visibilidade ainda não é plena. Houve também um excesso de confiança dos atacantes em relação à sua superioridade numérica, o que os deixou desatentos. Outra causa possível pode estar no fato de que o grupo de Manoel Virgulino, assim como as tropas de Benício, Quelé e Oliveira, já estava muito cansado — uns pelo cerco prolongado e outros pelo sobe e desce de serras elevadas.

O certo é que, mesmo em grande vantagem numérica, a tropa não se movimentou para caçar o fugitivo, apesar de ele estar ferido.

A BUSCA POR UM ABRIGO

Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., págs. 286 e 287) afirma que, depois de baleado, em meio à fuga desesperada pelas serras, Meia-Noite teria quebrado um braço ao pular uma cerca. Após isso, ele teria se encontrado com um agricultor, a quem entregou uma pequena soma em dinheiro para ser repassada a Zulmira.

Foto – Rostand Medeiros

Já Anastácio Moraes afirma que foi um amigo de sua família quem realmente se encontrou com o fugitivo. Ele se chamava Olegário Bezerra, era conhecido do cangaceiro, proprietário de um pequeno sítio no lugar Bandeira e considerado uma pessoa humilde e honrada. Diante da situação vexatória, Meia-Noite entregou a Olegário grande parte do dinheiro que transportava e disse: “— Olegário, pegue esse dinheiro aí. Se eu voltar, eu pego novamente; se não voltar, é seu”, fugindo em seguida.

Zulmira, em um primeiro momento, foi levada para Princesa, onde ficou presa.

Na sequência, segundo a versão oficial apresentada por Érico de Almeida (Op. Cit., pág. 67) e Rodrigues de Carvalho (Op. Cit., pág. 288), Meia-Noite caminhou cerca de doze quilômetros até a casa de um agricultor, que aparentemente lhe dispensou todo o cuidado e apoio. O benfeitor avisou ao ferido que iria buscar uma pessoa de confiança, que trabalhava com ervas, para preparar algo que cuidasse de seus ferimentos. Mas, em vez de buscar ajuda para o rapaz, ele foi atrás do inspetor de quarteirão da povoação de Patos, o valente Manoel Lopes Diniz, conhecido como “Ronco Grosso”. Este teria, então, ido à casa do agricultor acompanhado de mais quatro homens e dado voz de prisão a Meia-Noite, que resistiu e acabou trucidado.

Manoel Lopes Filho e Antônio Antas – Foto – Rostand Medeiros

Para Anastácio e Antônio Antas, a história foi “mais ou menos assim”. Eles me aconselharam, então, a procurar uma fonte mais gabaritada e que fora muito próxima de Manoel “Ronco Grosso” Lopes: o seu próprio filho.

Morando perto da comunidade do Saco dos Caçulas, encontrei um homem chamado Manoel Lopes Filho. Ele tem mais de 1,80 m de altura, é magro, mas ágil de corpo, tem cara de poucos amigos, usa bigode e possui uma aparência que não deixa transparecer sua idade já superior a 70 anos.

No primeiro momento, ele me olhou de uma maneira que me pareceu desconfiada. Sua voz é de barítono, grave e forte como a de seu pai. À medida que conversávamos e ele percebia que eu tinha certo conhecimento dos fatos, foi relaxando e ficando mais à vontade. Minha sorte foi estar na companhia de Antônio Antas, amigo de longa data dele, pois Lopes Filho me confessou mais tarde que não gosta de falar sobre o pai com pessoas estranhas.

Manoel Lopes Diniz, o conhecido “Ronco Grosso” e sua esposa. Foto provavelmente da década de 1950 – Foto – Aldo Lopes

Mesmo estando em um local calmo, na “rua” de um vilarejo que não possui nem 500 habitantes, ele me disse que era melhor irmos para um bar mais afastado da pequena comunidade, onde poderíamos conversar mais à vontade, sem a presença de pessoas indiscretas. Ao chegarmos a um barzinho que mais parecia um depósito, sentamos em uma mesa simples de madeira com tamboretes velhos. Lopes Filho prontamente procurou ficar de costas para a parede e de frente para a porta.

Ele adiantou que, em várias ocasiões, seu pai lhe narrou diversos acontecimentos e diálogos que manteve com Lampião e outros cangaceiros. Não negou, de forma alguma, que “Ronco Grosso” foi homem de extrema confiança de José Pereira, para quem realizava “o que fosse necessário”. Sobre Meia-Noite, Lopes Filho comentou que seu pai o considerava o cangaceiro mais valente e perigoso de todo o bando de Lampião.

No dia do tiroteio, “Ronco Grosso” estava realizando tarefas em sua propriedade; logo soube do ocorrido na Tataíra e ficou alerta. Seu filho afirma que o velho Manuel Lopes não sabia da caçada a Meia-Noite ordenada por José Pereira e continuou sua lide normalmente. Nesse meio-tempo, o cangaceiro alagoano ferido chegou à casa do agricultor Zé Sabino, e este ajudou a levar Meia-Noite ao sítio de Manuel Lopes, que era relativamente próximo.

O valente combatente trazia um pano amarrado à perna para estancar o sangue, além do braço machucado. Manuel Lopes, no dizer de seu filho, era um “raizeiro”; logo começou a cuidar do ferimento em um barraco que existia nas proximidades. Fez uma mistura de farinha, mastruz e pimenta-malagueta para o ferimento na perna, que já estava ficando escuro, e entalou o braço de Meia-Noite. Gradativamente, com a aplicação dos remédios naturais, o cangaceiro foi melhorando.

Foto – Rostand Medeiros

O FIM DE UM VALENTE

Logo, Manuel Lopes tomou conhecimento de que a volante de Manuel Benício estava nas proximidades, rondando em busca do fugitivo. Sem saber que seu patrão estava interessado na eliminação do cangaceiro, Manuel Lopes levou Meia-Noite para uma pequena gruta existente nas proximidades, localizada no alto de um serrote.

Segundo Lopes Filho, coube a um amigo de seu pai, chamado João Bezerra, então um jovem de 18 anos, levar duas vezes por dia alimentação e água ao cangaceiro. Em 2008, mesmo debilitado, João Bezerra ainda estava vivo, aos 102 anos.

Manuel Benício soube, através de outras pessoas, que Manuel Lopes estava dando apoio a Meia-Noite. Seguiu então para a propriedade do homem de confiança de José Pereira, com a intenção de cercá-la e tentar capturar o fugitivo.

Em 2015, sete anos depois da primeira visita, voltei a região do saco dos Caçulas e reencontrei os amigo Antônio Antas e Manoel Lopes Filho, que junto com um guia buscamos ir até agruta onde o cangaceiro Meia Noite foi morto por Manoel Lopes e Tocha.

Antes de chegar à casa de Manuel Lopes, encontraram João Bezerra transportando uma bolsa com alimentos e uma cabaça d’água. Começaram a “arrochar” o jovem, e ele “abriu o bico” sobre o que estava fazendo.

Entre seguir diretamente para o esconderijo onde estava Meia-Noite ou obter informações com Manuel Lopes sobre o que estava ocorrendo, Benício optou pela segunda alternativa.

Lopes Filho informa que “Ronco Grosso”, ao saber da aproximação da volante, deixou sua casa e seguiu em direção a Princesa para dialogar com José Pereira e saber o que significava aquilo.

Aspecto do relevo da região íngreme do Saco dos Caçulas, onde Meia-Noite buscou abrigo após ficar ferido.

Para o filho de Manuel Lopes, se havia uma classe de pessoas que seu pai mais desprezava, de todas as maneiras, eram os policiais.

Em Princesa, no casarão de José Pereira, o chefe político informou-lhe toda a situação. Com relação à polícia, José Pereira foi enfático e disse que “Ronco Grosso” não se preocupasse, pois eles não lhe perturbariam.

Mas, em relação ao caso envolvendo Meia-Noite, José Pereira foi categórico:

“– Ele tinha que trazer as duas orelhas do cangaceiro e ponto final”.

Manuel Lopes nada tinha contra o cangaceiro alagoano. Pelo contrário, até o admirava pela valentia e coragem. Porém, desobedecer a uma ordem direta de José Pereira, principalmente em um caso como aquele, seria o mesmo que praticar um suicídio.

Entre esses dois grandes blocos de granito está a abertura da gruta onde morreu o cangaceiro Meia Noite. Infelizmente a sua entrada estava obstruida.

Sem outra alternativa, buscou o apoio de outro homem, conhecido como “Tocha”, tido como valente e disposto.

Cerca de cinco dias depois do “Fogo da Tataíra”, já durante a noite, os dois homens encarregaram-se de levar a comida e a água ao cangaceiro.

Ao chegarem à gruta, o arisco Meia-Noite estranhou a ausência de João Bezerra. Estranhou ainda mais a presença daqueles dois homens armados e, conhecendo quem eles eram, ficou bastante desconfiado.

“Ronco Grosso” e “Tocha” prontamente acalmaram o valente Meia-Noite. Comentaram que estavam juntos para se protegerem da polícia, mas o fugitivo não baixou a guarda. Colocou uma bala na câmara do fuzil e permaneceu à espreita.

Obstrução da entrada da gruta do cangaceiro Meia Noite.

Os dois homens preparavam-se para sair — ou assim diziam — quando perceberam um momento de distração de Meia-Noite. Sacaram suas armas e abriram fogo.

O cangaceiro ainda tentou um salto, empunhando uma pistola na mão, mas novas descargas o atingiram e o abateram.

Sem muita cerimônia, enterraram o cangaceiro na parte externa dos grandes blocos graníticos que formavam a pequena cavidade natural. Antes, porém, cortaram suas orelhas como prova.

Antonio Antas afirmou ter escutado muitas vezes Manuel Lopes comentar que foi “Tocha” quem realizou a primeira deflagração. Este, por sua vez, afirmava categoricamente que havia sido “Ronco Grosso” quem efetuara o primeiro disparo.

Em relação à “prestação de contas” a José Pereira, não apenas Lopes Filho e Antonio Antas, mas também outras pessoas da região, afirmaram que, na tarde posterior à morte de Meia-Noite, os dois matadores foram ao casarão do chefe político de Princesa.

José Pereira encontrava-se em uma reunião com “pessoas gradas” da sociedade local, todos sentados na sala principal da casa, entre eles algumas senhoras.

A HISTÓRIA DO TIROTEIO NO SÍTIO TATAÍRA E A INCRÍVEL RESISTÊNCIA DO CANGACEIRO MEIA-NOITE
Foto – Rostand Medeiros

Os dois homens valentes, porém simples nos gestos e no vestir, ficaram aguardando mais reservadamente o chefe, trazendo um pacote nas mãos.

José Pereira mandou que eles se aproximassem e perguntou, animadamente, diante de todos, o que desejavam. Eles permaneceram calados, um tanto acabrunhados.

O dono da casa, imaginando que o silêncio daqueles homens rudes fosse resultado da timidez por se encontrarem diante dos doutores do lugar e de suas senhoras, incentivou novamente para que falassem, mesmo diante de todos.

A partir daí, “Ronco Grosso” não se fez de rogado. Abriu o pacote, retirou um pano ensanguentado e foi desenrolando-o, apresentando a todos as orelhas de Meia-Noite.

O espanto foi geral, e o embaraço de José Pereira tornou-se evidente.

Mas eles haviam cumprido à risca aquilo que lhes fora mandado.

Foto – Rostand Medeiros

CONCLUSÃO

Após a saída de Lampião de Princesa, ele ainda circulou pela região por alguns anos. Em 1929, seguiu para a Bahia e pouco retornou à Paraíba. Provavelmente, até o fim de sua vida na Grota de Angico, em 1938, Lampião devotou um enorme ódio a José Pereira. Para alguns, parte desse sentimento estava ligado à morte de Meia-Noite, a quem o chefe cangaceiro sempre tratou com enorme respeito.

Existe uma versão na qual a razão da morte de Meia-Noite envolvia a raiva que José Pereira sentia do cangaceiro por este ter feito uma piada ou observações baixas e indecorosas sobre a esposa do líder político de Princesa. Entretanto, o próprio Lopes Filho considera essa versão falsa ou criada apenas para encobrir as verdadeiras intenções de José Pereira.

Para ele, o desejo do “dono” de Princesa com a eliminação de Meia-Noite, bem como com a expulsão de Lampião da região, era afastar essa gente para evitar que seus adversários na capital paraibana o tachassem de ser um reles “coiteiro de cangaceiros”. Outra situação que o entrevistado aponta, com razão, é o fato de Meia-Noite ser um arquivo vivo, de modo que sua eliminação teria sido efetuada para evitar problemas futuros.

Existe também outra versão, propagada por muitos pesquisadores do cangaço, na qual José Pereira e Marcolino Diniz teriam se compactuado com Lampião, dando-lhe proteção e apoio em troca de dividirem o apurado conseguido em roubos e assaltos, servindo como uma espécie de “banco”. Com a consequente expulsão do capitão da região, José Pereira e Marcolino teriam ficado com todo o dinheiro. Lopes Filho já havia ouvido falar sobre essa versão, mas de seu pai, que lhe contou muita coisa sobre aquela época, ele nunca ouviu nada que confirmasse tal situação.

Ao longo dos anos, a região de Princesa presenciou outros acontecimentos ligados ao cangaço. Mas o fato histórico mais importante ocorrido nessa cidade em todo o século XX ficou conhecido como a Revolta, Sedição ou Guerra de Princesa. Esse foi um curto, mas intenso conflito ocorrido no sertão paraibano, ocasionado basicamente por divergências entre o governador eleito da Paraíba em 1927, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, e os coronéis monopolizadores da economia e da política do interior do estado, encabeçados principalmente por José Pereira.

Um interessante visual do Saco dos Caçulas.

Durante cerca de quatro meses, com o apoio do Governo Federal e dos governadores de Pernambuco e do Rio Grande do Norte — respectivamente, Estácio de Albuquerque Coimbra e Juvenal Lamartine de Faria —, José Pereira sustentou um sangrento conflito contra as forças públicas estaduais comandadas por João Pessoa e pelo seu chefe de polícia, José Américo de Almeida. Além das pessoas ligadas diretamente por vários laços a José Pereira, inúmeros ex-cangaceiros e desertores da polícia paraibana formavam suas tropas. Marcolino Diniz, Manuel “Ronco Grosso” Lopes, “Tocha” e “Luiz do Triângulo” foram figuras de liderança e destaque nos combates. As narrativas obtidas na região sobre a participação desses homens nesse conflito dariam para escrever, no mínimo, três artigos como este.

Com a morte de João Pessoa em Recife e a deflagração da Revolução de 30 — que culminou com a chegada de Getúlio Vargas ao poder —, a maré mudou de lado e o conflito se encerrou. Logo, tropas do Exército ocuparam Princesa, e José Pereira fugiu, ficando incomunicável durante anos. Tempos depois, ele chegou a ocupar uma cadeira no legislativo estadual paraibano.

Não deixa de ser interessante observar como esses fatos ainda se mantêm vivos na memória da população local, mesmo entre os mais jovens. Fora dessa região, no entanto, esse conflito é praticamente desconhecido.

Sobre os participantes do caso Meia-Noite, sua amada Zulmira — razão de seu retorno para uma região tão perigosa, onde ele veio a morrer — foi em pouco tempo liberada da prisão e voltou para o convívio de sua família no Saco dos Caçulas. Logo, devido ao volume de sua barriga, ficou claro que ela estava grávida. Não sabemos exatamente o que ocorreu com a jovem, qual foi sua relação com a família e com as pessoas de seu lugar, nem o nome de seu filho. Poucos descendentes de seus familiares ainda vivem na região, e apenas apuramos que, após o nascimento da criança, ela se mudou para Campina Grande, onde se casou, teve outros filhos e viria a falecer anos mais tarde.

Marcolino Pereira Diniz não soube expandir as inúmeras riquezas recebidas como herança de seu pai, o coronel Marçal, e morreu na pobreza. Antes disso, teve seu amor pela amada esposa, conhecida como “Xandu”, imortalizado na música “Xanduzinha”, interpretada pelo inigualável Luiz Gonzaga.

Aproveitando o conhecimento dos mais experientes, junto com um doce de leita do sertão paraibano, na tranquila hospitalidade do nosso povo

Manuel Lopes, o “Ronco Grosso”, viveu inúmeras situações de perigo e atribulações. Mas Lopes Filho e Antônio Antas afirmam que ele prosperou, teve vários filhos, viu-os crescer, assistiu ao nascimento de vários netos e morreu na tranquilidade de sua velhice.

Sobre “Tocha”, sabe-se que ele seguiu para o sul do país, falecendo idoso na cidade paulista de Cubatão.

Segundo Anastácio Moraes e Antônio Antas, a única pessoa que realmente ganhou alguma coisa nessa história toda foi o humilde e honrado agricultor Olegário Bezerra, que seguiu à risca o que Meia-Noite lhe pediu.

  • TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOPG TOK DE HISTÓRIA EM 2008.

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HISTÓRIA MILITAR DO RIO GRANDE DO NORTE – PARTE 1 – AS LUTAS

Felipe Nery de Brito Guerra – Publicado originalmente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, 1927, Volumes XXIII e XXIV, páginas 218 a 228.

* Informação do Blog Tok de História – Busquei atualizar alguma coisa da ortografia do texto do Desembargador Felipe Guerra, escrito em agosto de 1920, sem, contudo, alterá-lo. Devido a sua extensão, foi necessário dividi-lo em duas partes, uma dedicada as lutas e outra aos combatentes potiguares, que será a nossa próxima publicação.

Escrever a história militar do Rio Grande do Norte desde o início de sua colonização, principiada em fins do século XVI seria, pelo menos até princípios do século XVIII, escrever a história do Rio Grande do Norte, porquanto esse espaço de tempo, abrangendo um período de cerca de dois séculos, foi preenchido por sangrentas agitações, lutas e guerras.

A dominação francesa, exercida então por piratas, aventureiros, desclassificados, sem outros ideais a não ser o lucro mercantil, sempre receosos e a espera de ataques dos portugueses. O que é certo, porém, é que essa permanência constante e demorada dos franceses, embora sem estabelecimento conhecido, representava um perigo para as vizinhas e próximas capitanias, principalmente a Paraíba, de onde haviam sido repelidos.

“O mal vem do Rio Grande”, dizia-se em Pernambuco e na Paraíba. E assim, para acabar com esse mal, foi resolvida a conquista do Rio Grande, da qual foi incumbido Manoel Mascarenhas Homem, tendo Jerônimo de Albuquerque alcançado melhor êxito na empresa.

Piratas franceses no Brasil – Fonte – httpswww.goianarte.com

Não tinham então os franceses regulares instalações. Viviam, entretanto, em estreitas relações com os selvagens, habitando mesmo suas aldeias. É o que se depreende da célebre “História do Brasil” de Frei Vicente do Salvador, escrita em 1627, e onde se lê que logo ao chegar Manoel Mascarenhas Homem “ali desembarcaram e se entrincheiraram de varas de mangue para começarem a fazer o forte e se defenderem dos Potiguaras que não tardaram muitos dias. Vieram uma madrugada, infinitos, acompanhados de cinquenta franceses, que haviam ficado das naus no porto dos Búzios e outros que ali estavam casados com Potiguaras”.

Manoel Mascarenhas Homem, que lutou no Rio Grande do Norte contra os franceses – Fonte – https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia

E assim ofereceriam os selvagens, auxiliados por seus aliados franceses, tenaz resistência. O que não impediu, entretanto, a fundação do “Forte dos Reys”, permitindo a criação da povoação do Natal dois anos depois — 25 de dezembro de 1599. Foi celebrada a paz com os Potiguaras, conseguida por Jerônimo de Albuquerque com a mediação de um selvagem “principal e feiticeiro”, chamado ILHA GRANDE.

A conquista do litoral brasileiro havia sido começada do norte para o sul, sendo depois continuada do sul para o norte, tendo, principalmente esta última, contado com eficaz cooperação dos naturais da terra, já representados por brancos, filhos de portugueses, por mestiços e pelos selvagens que, subjugados e pacificados pelos portugueses, eram aproveitados como seus aliados.

Os selvagens constituíam sempre o grosso das forças conquistadoras, embora não fossem, em regra, os elementos mais resistentes nos combates. Eram, entretanto, os mais resistentes às longas marchas, aos transportes e aos mais serviços exigidos em campanhas rudes e aventurosas, em que não podia se contar com auxílios minguadíssimos e retardados, senão impossíveis.

Forte dos Reis Magos, por Frans Post (1638)
– Fonte – http://noisnafolia.no.comunidades.net/pontos-turisticos

Os Potiguares, que dominavam o litoral do Rio Grande do Norte, uma vez pacificados, foram valiosos e fortes elementos para a conquista do norte. Não existindo mais o “mal vindo do Rio Grande», que passara para o Ceará e para o Maranhão, foi resolvida a conquista desses pontos, onde os franceses procuravam se firmar. Ainda foram os Potiguares elementos preponderantes para a conquista do primeiro daqueles territórios.

Expulsos os franceses do litoral, de Paraíba ao Maranhão, as novas populações que procuravam se estabelecer não ficaram na tranquilidade da paz. Nem todas as tribos haviam feito amizade com os colonizadores; e mesmo no meio daquelas tidas como amigas, surgiam ataques e desconfianças que traziam para a região um verdadeiro estado de guerra, rompendo a duvidosa paz, sempre de curta duração..

Veio depois a guerra holandesa. O Rio Grande do Norte foi duramente sacrificado na luta. Tomada a Fortaleza dos Reis Magos (12 de dezembro de 1533) por uma força holandesa guiada por Calabar, sofreu o Rio Grande do Norte com o invasor até o final da guerra holandesa no Brasil. Esteve assim esta terra dezenove anos sob o domínio batavo.

Florin holandês de ouro. Essa foi a primeira moeda a conter o nome Brasil e foi produzida pelos holandeses durante a ocupação de Recife – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Dutch_guilder

Calabar conseguira angariar para os holandeses a amizade dos Índios Janduís, que unidos aqueles praticaram horríveis massacres. Fácil é de imaginar o que seria a guerra movida por selvagens açulados por aventureiros da pior espécie, como parece que eram os holandeses enviados para o Rio Grande do Norte. Chegaram a negociar prisioneiros como animais para o corte, destinado a pasto dos antropófagos Janduís.

Finda a guerra holandesa pela expulsão dos invasores, continuou a luta no Rio Grande contra os Índios, sempre dispostos a defender sua vida selvagem e sem peias. Houve mesmo uma rebelião generalizada dos nativos que durou longos anos, nada respeitando, nem a vida nem os habitantes do Rio Grande, que já contava elementos de prosperidade. Foi calculado que os índios mataram “perto do trinta mil cabeças de gado grosso e mais de mil cavalgaduras”. Essa rebelião durou de 1688 a 1720, quer dizer, 32 anos, talvez mais, porquanto não se acha bem estudado esse ponto da história. Foi um movimento sério e perigoso. Pedidos insistentes de socorro partiram para Pernambuco, para a Bahia, e até diretamente seguiu um emissário para Lisboa, levando uma representação do Senado da Câmara ao Rei, tais as delongas do auxílio reclamado.

“Cena da Expedição do Tenente-Coronel Affonso Botelho”, aquarela do artista Joaquim José de Miranda (1771) que retrata o confronto entre indígenas e bandeirantes. Provavelmente cenas como essa ocorreram no Rio Grande do Norte – Fonte – https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/guerras-barbaras/

Do litoral ao alto sertão era grande o perigo que ameaçava a própria Natal, sendo, o ponto culminante da rebelião a ribeira do Assú. Vieram em excursões guerreiras tropas da Paraíba, de Pernambuco e da Bahia. Vieram os ”terços paulistas” que haviam lutado em Palmares, vieram companhias do Batalhão de Henrique Dias. Essas forças, os melhores elementos de luta então disponíveis pelo Governo do Brasil, subiram até as cabeceiras do rio Assú, foram às ribeiras do Seridó, do Apodi até ao Jaguaribe, em perseguição dos índios que foram afinal pacificados, isto é, aniquilados, escorraçados, sendo tomada a providência de aldear os restantes. Ainda em tais aldeamentos apareciam insurreições dos índios motivadas por excessivos rigores e injustiças. Nenhuma condescendência havia para o infeliz selvagem, a quem de fato era negado qualquer direito.

Seguramente Miguel Joaquim de Almeida Castro, o Padre Miguelinho, foi o potiguar que mais expresivamente tomou parte na revolução de 1817 e acabou sendo fuzilado. Em junho de 1906, no 89º aniversário do fuzilamento, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, promoveu uma série de homenagens em Natal . Houve uma sessão solene no então Teatro Carlos Gomes, atualmente Teatro Alberto Maranhão, na noite de 12 de junho de 1906, onde um coro feminino cantou o “Hino de Miguelinho”, letra de Henrique Castriciano e música de Luigi Maria Smido, cuja a capa da partitura apresentamos acima – Fonte – https://gamfrente.blogspot.com/2017/03/padre-miguelinho-luz-do-rio-grande-do.html

Na revolução de 1817, não é ignorado o papel que representou o Rio Grande do Norte. Pode-se dizer que essa página luminosa da história nacional se caracteriza no seu conjunto mais pela pureza de seus chefes, pelo estoico heroísmo dos que nela figuram, pela elevação dos ideais, pelo pendor doutrinário, do que por feitos militares e ação guerreira. E foi essa seguramente uma das causas que apressaram o fracasso da revolução.

Em agitações partidárias passou a Província as fases da Independência Nacional. Tomou parte na revolução da “República do Equador”.

Os corajosos e mal organizados destroços das forças revolucionárias de 1824 seguiram por terra, em dificultosa marcha por ínvios sertões de Pernambuco ao Ceará, procurando junção com as forças que nessa Província apoiavam o movimento revolucionário. Foi uma verdadeira retirada de cerca de três mil pessoas, conduzindo duas peças de artilharia, arrastadas por caminhos impraticáveis e arrostando todas as dificuldades que podem acompanhar forças sem disciplina, sem organização militar, sem recursos e sem alentadoras esperanças.

Quadro “Estudo para Frei Caneca”, de Antônio Parreiras (1918), mostrando o padre revolucionário em seu julgamento – Fonte – https://en.wikipedia.org/

Atravessaram o sertão do Rio Grande do Norte entrando pelo Seridó, seguindo para Pau dos Ferros pelos limites entre Rio Grande do Norte e a Paraíba. No Seridó, onde o presidente provisório da Paraíba deixou sua família, que com ele vinha acompanhando a expedição, da qual também fazia parte o nobre, elevado e culto espírito que era Frei Caneca, não foram hostilizadas as forças. Em Caicó, demoraram-se oito dias, concertando as carretas das peças que eram puxadas por bois. Em Patu de Fora, começou a expedição a sofrer hostilidades e também a hostilizar. Foram incendiadas algumas casas e fazendas.

Em Torrões (ou Torões), Patu, houve forte tiroteio, morrendo mais de trinta pessoas de parte a parte. Parece que batalhões irregulares de Portalegre organizaram guerrilhas, unindo-se depois com as forças legalistas do Rio do Peixe (PB).

Foto – Rostand Medeiros.

Serenada a luta pela submissão dos rebeldes, seguiram-se o martírio e as exageradas punições de infelizes chefes rebeldes, sonhadores antecipados dos ideais republicanos, vítimas da crueldade das juntas militares, tão tristemente célebres na história pátria.

Os habitantes do Rio Grande do Norte conservaram sempre prontos para qualquer emergência, chegando a formar batalhões de tropas irregulares, contra os reacionários de 1832, apoiando a política do então ministro da justiça e depois Regente do Império, padre Diogo Antônio Feijó.

Iniciada no Ceará em dezembro de 1831, com a proclamação de Joaquim Pinto Madeira, essa revolta obedecia aos ideais do Partido Restaurador, ou Caramuru, apoiado pelos portugueses. Formou-se no sertão do Rio Grande do Norte batalhões de tropas irregulares que marcharam para o Crato contra os revolucionários. De Martins e Portalegre seguiu um batalhão sob o comando do coronel Agostinho Pinto de Queirós. Conta-se que na primeira noite de marcha dois soldados de família do Martins, os irmãos Patrícios, tentaram voltar para casa, sendo por isso, ao amanhecer, sumariamente fuzilados. O comandante da tropa foi processado por esse fato e depois, por prescrição, isento da pena.

Pintura em azulejo de Armando Lopes Rafael (2010), representando Joaquim Pinto Madeira – Fonte – https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/a-guerra-dos-cacetes-bentos/

Sob o comando do coronel José Teixeira se organizou um batalhão no Seridó, do qual faziam parte os homens válidos das principais famílias. Incorporada à força combatente e reunida em Caicó, o padre Francisco de Britto Guerra, então vigário da cidade e representante da Província na Câmara Temporária, onde entrara como suplente, intimamente relacionado com o padre Feijó, e talvez o principal fator do movimento, promoveu uma grande solenidade cívico-religiosa por ocasião da partida da força. Seguiram todos montados para Pombal onde se uniram as forças da Paraíba, principiaram a receber instrução militar ministrada pelo alferes Canuto, de tropa de linha do Ceará.

Nas várzeas do Rio do Peixe (PB), houve o primeiro encontro entre esse batalhão do Seridó e as forças de Pinto Madeira, tendo estas atacado de surpresa, procurando tomar o valioso comboio dos víveres e munições dos seridoenses. O resultado foi as forças de Madeira retirando-se do combate com a perda de doze homens.

Manuel de Assis Mascarenhas, presidente da Província do Rio Grande do Norte ente 1838 a 1841, em cujo governo concedeu a patente de Coronel Comandante ao seridoense Joãop Gomes da Silva, pela sua capacidade de luta nos combates contra as forças de Pinto Madeira em 1831 – https://pt.wikipedia.org

O batalhão do Seridó continuou em marcha afim de reunir-se com as forças legalistas que no Ceará procuravam abafar a revolta, havendo pelo caminho alguns encontros. Terminada a luta, voltou a tropa ao Caicó, onde foi recebida com festas, aclamações, Te Deum na igreja, etc. Por ocasião dessas festas da chegada, foi aclamado pelos soldados o comandante das forças o quartel mestre João Gomes da Silva, que se havia distinguido na expedição, aclamação que anos depois no governo de Manoel de Assis Mascarenhas (1838 – 1841) foi confirmada com a patente de Coronel Comandante.

Muito é de notar que em todas essas lutas político-partidárias, os sertanejos do Rio Grande do Norte, serenados os ânimos, evitavam ódios inúteis, crueldades, perseguições e delações contra os vencidos.

A tradição narra mesmo o fato de haver Simão Gomes de Britto, capitão de milícias em Campo Grande, recebido ordem superior para prender o Coronel Cavalcante, implicado na revolução de 1817. Mas este apresentou a ordem de prisão ao seu amigo e pediu para que tomasse suas precauções. Acrescentou: — “Dê no que der, não o prenderei, porque sei que não cometeu crime”. E efetivamente não tentou fazer a prisão. Entretanto, o Coronel Cavalcante, ou porque se julgasse inocente, ou por altivez de caráter, ou ainda para evitar a responsabilidade do amigo, foi se entregar, e sofreu os rigores daqueles horríveis cárceres, onde foram martirizados os patriotas de 1817.

Óleo sobre tela de Eduardo de Martino, que retrata a troca de tiros que culminaram na primeira passagem de navios brasileiros por Passo de Tonelero em 1851, onde os argentinos construíram fortificações que bloqueavam a navegação no Rio Paraná. Domínio público, Revista de História da Biblioteca Nacional – Fonte – https://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/historia-do-brasil/brasil-monarquico/8979-quest%C3%B5es-platinas-a%C3%A7%C3%B5es-militares-no-segundo-imp%C3%A9rio

Nas guerras contra as repúblicas do Rio da Prata numerosos filhos do Rio Grande do Norte acudiram em defesa da pátria.

Quatro meses depois de declarada a Guerra do Paraguai, embarcou em Macau um contingente de mais de sessenta voluntários, dos quais trinta e três eram do Assú, além de onze de Campo Grande, que haviam seguido diretamente para a Capital. É conhecido o fato de haver o Dr. Olinto José Meira de Vasconcelos, então Presidente da Província (1863 – 1866), dirigido a palavra na capital, a grupos que se achavam em manifestações em frente ao quartel, apelando para o patriotismo de todos e pedindo dar um passo à frente aqueles que quisessem seguir para a guerra. Mais de 400 voluntários moveram-se para a frente. De todos os pontos da Província seguiram Voluntários da Pátria, sendo também crescido o número de recrutados. E o papel que na guerra desempenharam os rio-grandenses-do-norte ajudou ao merecido renome adquirido pela infantaria do norte.

O brasileiro Symphonio dos Santos uniformizado para combater na Guerra do paraguai – Fonte – http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=92142

Na proclamação da República, na revolução federalista do sul, na revolta da armada, em Canudos, os filhos do Rio Grande do Norte cumpriram sempre seu dever.

Sob as ordens de Plácido de Castro, nas lutas acreanas, encontraram-se também inúmeros rio-grandenses-do-norte, destemidos e audazes pioneiros da colonização e conquista das mais recuadas fronteiras da Pátria, os quais tangidos do torrão natal por atormentadoras secas, forneceram, com seus irmãos de outros Estados, por igual vítimas da calamidade, os elementos vitais, talvez os únicos possíveis para o colossal empreendimento da colonização da Amazônia.

De fato, outras populações vivendo certamente sob um clima mais doce e uma natureza mais amena, não estariam, como os nossos sertanejos, tão habituados a receber e aguentar o choque e a destruição das mortíferas forças da natureza amazônica, com a mesma resignação, com o mesmo esforço e coragem com que encaram e recebem as furiosas cargas das nossas devastadoras secas.

Na execução da recente lei do serviço militar (1916) raro é o sorteado dessa terra que deixa de acudir ao chamado: talvez nenhum listado da União apresente menor número de insubmissos.

Eis aqui, a largos traços, a vida militar do Rio Grande do Norte: lutas constantes durante dois séculos, sempre aceso o sentimento de patriotismo, de abnegação, de sofrimento. E por isso mesmo, apesar de uma bissecular educação guerreira, os filhos do Rio Grande do Norte têm acentuadamente o caráter pacífico: o banditismo, o caudilhismo, e as lutas por fanatismo nunca encontraram apoio entre eles.

Para conhecerem a biografia de Felipe Guerra é só acessar esse link – https://fatosdefelipeguerra.blogspot.com/2019/10/felipe-guerra_31.html