UM HOMEM CARREGA HÁ 40 ANOS O DESPREZO DE SUA CIDADE
Autor – Roberto Vilanova
Fonte – Jornal do Brasil – Caderno B – 11 de maio de 1977, página 5.
Maceió – Hoje é dia de feira na cidade de Piranhas, a quase 400 quilômetros da Capital de Alagoas. É o dia do encontro semanal, muitas vezes cara a cara, das duas mais sacrificadas testemunhas da morte de Lampião: o coiteiro que traiu o cangaceiro e o único sobrevivente da família dizimada por Corisco, numa vingança resultante de uma segunda perfídia do traidor.
Os dois não se falam. Por trás, acusam-se mutuamente de covardia e mentira. Se até hoje não explodiram em violência física um contra o outro, isso se deve a um trabalho de catequese das famílias tradicionais daquela cidade do alto sertão alagoano, principal cenário do planejamento da morte de Lampião, há 39 anos. O coiteiro é Joca Bernardo; o sobrevivente é José Silvino Ventura.
Jornalista Roberto Vilanova.
Só um milagre terá feito Silvino escapar das mãos de Corisco – o segundo homem do bando de Lampião – quando o cangaceiro veio se vingar da morte do chefe e “sangrou” seu pai, sua mãe e quatro irmãos. Ele era o mais novo: tinha seis anos, idade que provavelmente o salvou.
“Corisco chegou lá em casa quase às sete da noite. Meu pai, Domingos Silvino, não sabia de nada e o recebeu alegremente. Corisco foi logo dizendo: – Domingos, vim te matar. Você vai morrer com toda a sua raça, para nunca mais trair homem. Já sei que foi você quem traiu Lampião. O Joca Bernardo me contou tudo.“
Silvino não conta detalhes da chacina. Só diz que foi muito cruel ter de levar, em um saco, as cabeças de seus pais e irmãos para entregá-las, em Piranhas, ao tenente José Bezerra, comandante da tropa que exterminou Lampião e seu bando. Revela também, agora por ouvir dizer, como se deu o encontro de Joca Bernardo com o cangaceiro e como a polícia, orientada pelo coiteiro, chegou à Grota do Angico, onde Lampião e alguns de seus comparsas estavam escondidos e foram mortos.
Continua Silvino – Corisco encontrou-se com Joca Bernardo uma semana depois da morte de Lampião – Queria vingar o chefe. Bernardo disse que meu pai, que era vaqueiro do sogro do tenente Bezerra, tinha sido o delator.
Mapa de Alagoas, com destaque para a região dos acontecimentos.
Corisco reuniu seu estado-maior e resolveu decidir a sorte de Domingos Silvino. Conta-se que Dadá, mulher de Corisco, advogou a honestidade de Bernardo, tal a segurança com que ele sustentava a culpabilidade de Silvino.
Continua Silvino – Corisco acreditou porque o Bernardo armou tudo direitinho. Eu não sei se ele tinha queixas de meu pai. Eu era criança e não sabia de nada.
Nas consultas que fez a seu estado maior. Corisco alinhou três argumentos para condenar Domingos Silvino:
Lampião, Maria Bonita e parte do seu bando na escadaria da Prefeitura de Piranhas, Alagoas, 1938.
1) parecia difícil que o coiteiro Bernardo fosse inventar, sem mais nem menos, o nome de outra pessoa:
2) Domingos era vaqueiro na fazenda do Senhor Antônio Brito, sogro do tenente Bezerra;
3) o Tenente Bezerra comanda tropa policial na invasão do esconderijo de Angico.
O coiteiro traidor vive hoje de uma aposentadoria pelo Funrural. Tem uma casa de taipa, esburacada, e um burrico no qual vai a Piranhas nas quartas-feiras. Depois de ajeitar o cigarro de palha, molhando-o com saliva para fechá-lo adequadamente, ele concorda em falar.
O cangaceiro Corisco.
– É verdade que o senhor denunciou Domingos Silvino como o homem que traiu Lampião?
– Isso é história. Eu não faria uma coisa dessas.
– Mas senhor se encontrou com Corisco, não foi?
– Isso é verdade.
– Como se deu esse encontro?
José Bezerra.
– Eu tinha acabado de juntar o gado, aqui perto, em Entremontes, quando ele pulou na estrada, a fumaçar pelo nariz que nem um touro. Aí eu disse: “O que é que há, camarada?” Ele respondeu: “É verdade que mataram Lampião?”. Aí eu afirmei que tinha ouvido falar.
– Foi esse o diálogo?
– Só isso. Aí ele foi embora, me parece chorando.
Bernardo está cercado, os olhares são de desprezo. Ele está acostumado a ser olhado assim até por pessoas que combatiam veementemente o cangaço. Julgava ter contribuído para o sossego público em Piranhas, a cidade alagoana mais sobressaltada no tempo dos cangaceiros, que vinham repousar no até então inexpugnável esconderijo do Angico. Seu degredo começou quando não cumpriram a professa de pagamento pelo serviço prestado. Prometeram-lhe cinco contos de réis, mas só lhe deram pouco mais de um. Se tivesse aceito a patente de sargento da polícia alagoana, que lhe foi oferecida, estaria hoje na reserva remunerada da corporação, no posto de coronel.
– Quem lhe prometeu cinco contos de réis para trair Lampião?
– A polícia.
Belo Rio São Francisco – Foto Rostand Medeiros.
– Por que não aceitou a patente de sargento?
– Prá morrer de fome, prefiro ficar no sertão cuidando do gado. Eu tinha onze filhos. Um sargento de polícia ganha quanto? E ainda tem de viver aqui e acolá, por onde ordena o Governador. E eu só sei tratar de gado e plantar. Por isso, não aceitei.
Por não ter aceito a patente de sargento, Joca Bernardo perdeu a mulher e os 11 filhos, que lhe abandonaram. Segundo conta, a mulher fez muita força para que ele aceitasse as divisas. Quando viu que não conseguiria convencê-lo, forçou-o a uma decisão: aceitar a patente ou ficar sem mulher e sem filhos.
– Então o senhor preferiu perder a mulher e os meninos?
– Na minha casa quem manda sou eu. Não quer viver comigo? Então que se dane.
O desprezado Joca Bernardo na feira de Piranhas.
– Por que o senhor aceitou trair Lampião?
– Eu não trai Lampião. O que eu queria, na verdade, era que um coiteiro dele, Pedro de Cândido, levasse uma surra da polícia.
– O que teve a ver uma coisa com outra?
-O Pedro de Cândido sabia que eu fabricava queijos. Uma vez chegou em casa e me disse que compraria todos os queijos que eu fabricasse. Pudesse guardar que ele comprava tudo. No outro dia, lá vem ele atrás de queijo. Eu disse que não tinha. Ele olhou para uns queijos que eu ia entregar, de encomenda, e disse: “E esses aí, cabra safado, de quem são?” Respondi que eram do juiz de Pão de Açúcar e que não poderia vendê-los. Al ele disse: “Juiz coisa nenhuma”. E levou tudo.
-E dai?
1938 – Curiosos diante dos corpos dos cangaceiros.
– Fiquei com raiva. Logo arranjei um jeito de me vingar de Pedro. Descobri que os queijos eram para Lampião e seu bando. Aí procurei o Sargento Aniceto, em Piranhas, e disse a ele que não sabia onde estava Lampião, mas que ele apertasse o Pedro de Cândido que o Pedro diria tudo. Assim foi feito.
Pedro recebeu o aperte e disse onde Lampião estava. Acabou agraciado com as divisas de cabo da polícia alagoana, e, mais tarde, ganhou uma delegacia no sertão. No posto de delegado, foi assassinado.
Joca Bernardo estava, afinal, vingado. Silvino não quis vingança. Parece considerar que está se consuma toda quarta-feira, quando Joca Bernardo é hoje olhado com desprezo por todos os que estão na feira de Piranhas.
SEMANÁRIO DESAFIO, ALAGOAS – Antigo e extinto periódico de circulação semanal. Infelizmente não consegui a data em que foi publicada essa entrevista.
O prêmio máximo seria a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. No mínimo cinco contos de réis ou o seu equivalente hoje a Cr$50 mil. Em troca pedia-se a cabeça de um homem: Virgulino Ferreira — O Lampião — exaustivamente caçado pelas caatingas do sertão de vários Estados. Mas a pessoa que aceitou a oferta, o antigo coiteiro Joca Bernardo, recusou ser sargento. E declara, nessa reportagem de Roberto Vilanova, que nunca pensou trair Lampião, mas fazer outro coiteiro, Pedro de Cândido, levar uma surra da Polícia. Joca vive, hoje, no Piau, distrito de Piranhas, a mais de 320 Km de Maceió, com a aposentadoria do Funrural. Não gosta de falar sobre o assunto, mas teve de quebrar o silêncio porque carrega, nas costas, a responsabilidade pelo massacre de uma família, dizimada por Corisco por culpa sua.
Jornalista Roberto Vilanova.
A história não reservou para Joca Bernardo, quase 80 anos de idade, uma linha sequer. Mas é bem melhor assim, porque ele entrou para a história íntima do sertão como traidor de Virgulino Ferreira – o Lampião, e, talvez por arrependimento, recusou receber o prêmio maior pela delação: a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas. Por causa disso sua esposa, desde essa época, lhe abandonou depois de argumentar e tentar convencê-lo de que não deveria jogar fora a sorte. Como jogou, ela preferiu ir embora para São Paulo no primeiro pau-de-arara que cortou as estradas secas do sertão, não lhe dando mais notícias.
A bela cidade de Piranhas, Alagoas, a margem do Rio São Francisco – Foto – Rostand Medeiros.
Mas não é fácil encontrar Joca, apesar dele viver discretamente no distrito do Piau, pertencente a Piranhas, a mais de 350 quilômetros de Maceió, porque o sertanejo é, também, antes e tudo, muito desconfiado. Aliás, a sua própria existência só é sabida por quem conhece a fundo a história de Lampião, como o presidente da ARENA (Aliança Renovadora Nacional) de Piranhas, Antônio Rodrigues, que lhe descobriu para essa reportagem.
Medo de Morrer
A troca de identidade, complementada pelos cumprimentos à mão estendida, durou pouco, mas Joca Bernardo mantinha-se olhando por baixo dos olhos, como se estivesse diante de um Tribunal. À pergunta se escondia com medo de morrer, respondeu que não. E explicou que era para evitar comentários que, na certa, iria lhe trazer recordações. E ele não desejava recordar as inconveniências naturais de um traidor.
Joca Bernardo em 1977 – Foto – Hélder Monteiro.
Nesse pé a conversa se expandiu e tomou gosto, porque se Joca se manteve, durante todo esse tempo calado, chega mesmo um momento, principalmente na sua idade, em que o peso da consciência rompe a barreira do silêncio que se impõe por conveniências. Silêncio que é quebrado também pelo conflito interno que Joca passou a viver logo depois da morte de Lampião. Não porque traiu o bandido, mas porque, para escapar da morte que Corisco espalhou como vingança, acabou delatando um inocente.
Ou seja, disse a Corisco, com quem se encontrou mais tarde, que o vaqueiro Domingos Silvino, empregado do sogro do tenente Bezerra, é quem havia delatado Lampião à polícia. Corisco foi à casa de Josias e matou ele, a mulher, uma visita, três filhos e deixou vivo apenas o de menor idade, Antônio Silvino, que mora hoje em Piranhas e não quer ver Joca na sua frente. Foi o próprio Antônio Silvino quem relatou o massacre aos seus familiares e, conforme Corisco disse a seu pai, Joca é o único responsável.
A casa extremada era a residência do tenente José Bezerra, para onde a criança Silvino Ventura trouxe as cabeças ensanguentadas de seus familiares dentro de um caçuá, transportado por um animal – Foto -Rostand Medeiros.
Silvino falou que um dos cangaceiros chegou a puxar o punhal para matá-lo, mas Corisco o conteve. Nessa época Antônio tinha seis anos de idade e recebeu a missão de conduzir um burro com as cabeças de toda a sua família, que deveria ser entregue ao tenente Bezerra em Piranhas, com um bilhete atrevido. “Quando eu passei pelas ruas de Piranhas era dia de feira. O Corisco juntou as cabeças dentro de um caçuá e mandou eu tanger o burro. Nas ruas o povo pensava que o sangue que escorria era carne de boi. E quando eu parei na porta do tenente Bezerra foi que juntou gente”, conta Silvino.
Nega Tudo
Joca Bernardo nega a delação ao vaqueiro Domingos Silvino, mas confirma que se encontrou com Corisco. Até o seu relato do encontro – surpresa e, até mesmo, as circunstâncias dele, Joca parece não mentir. Mas na reprodução do diálogo ele acaba revelando uma certa frieza:
Silvino Ventura tinha seis anos de idade quando viu sua família ser covardemente trucidada pelo famigerado Corisco na Fazenda Patos e foi obrigado a transportar em um animal as cabeças cortadas de seus familiares para a casa do tenente José Bezerra, em Piranhas. Faleceu de um acidente em Piranhas, no dia 30 de julho de 1985, aos 54 anos de idade – Foto – Hélder Monteiro..
“Eu estava juntando o gado quando o Corisco pulou de cima de um lajedo. O Corisco e mais uns cinco cabras, inclusive a Dadá, que foi a minha salvação. Aí o Corisco falou se era verdade que tinham matado Lampião? Eu respondi que ouvi dizer. Aí ele disse: vou matar muita gente para vingar a morte. E vou começar logo por você. Aí a Dadá disse – “óxente, home. Que história é essa? A gente mata quem tem culpa, inocente não”.
A História é bem diferente, segundo conta o Senhor Antônio Rodrigues, de tradicional família de Piranhas e político influente na região.
Ruínas da propriedade Patos, onde a família Ventura foi trucidada – Foto – Rostand Medeiros.
“Corisco soube que Joca havia traído Lampião e foi procurá-lo. No encontro, disse que ia matá-lo e Joca, com medo, falou que se morresse seria inocente. E lamentou que tivesse servido de coiteiro para Lampião e, agora, qual o pagamento que recebia?”.
Corisco titubeou, principalmente diante da interferência de Dadá, e resolveu tirar a história a limpo. Foi então que Joca Bernardo lembrou, maliciosamente, “onde Lampião teria passado antes de ir para Angico”, seu até então inexpugnável esconderijo.
Corisco
Lampião, antes de atravessar o rio São Francisco, passou na fazenda do sogro do tenente Bezerra (o fazendeiro Antônio Brito). Com isso, Joca quis insinuar que o vaqueiro Domingos Silvino Ventura, sempre à disposição para cumprir ordens e fazer recado do bando, teria denunciado os planos de Lampião de se alojar em Angico por alguns dias.
A verdade é que Corisco aceitou a justificativa, se não teria evitado o massacre da família Silvino Ventura, de quem sobrou, a propósito, apenas Antônio Silvino, o filho mais novo na época.
Foto – Rostand Medeiros.
Traição a Lampião
Na verdade, Joca Bernardo não tinha nada contra Lampião – a quem ajudava, na medida do possível, para poder ir levando a vida sem ser molestado pelo seu bando. Se bem que tivesse de enfrentar as inconveniências da polícia que sempre se confundia, pelas arbitrariedades cometidas, com os cangaceiros, muitas vezes praticando horrores em nome da Lei, que a bem da verdade era material, porque estava simbolizada na mira de um fuzil “bem azeitado e municiado”.
Assim, dentro do possível ou de acordo com os conformes, Joca e tantos outros coiteiros se prestavam ao serviço de acoitar Lampião e seu bando porque não tinha mesmo escolha. E entre ser morto pelos cangaceiros ou pela polícia, o que no fundo dá no mesmo, era preferível morrer tentando ser fiel a Deus e ao diabo, mesmo sem saber quem era quem. Ou seja, quem era Deus e quem era o diabo.
Pedro de Cândido
Mas como a miséria só quer começo, um dos maiores coiteiros de Lampião, Pedro de Cândido – que ninguém duvidava da sua ligação com Lampião e vivia imune em Piranhas – foi comprar queijo que Joca fabricava no dia em que os cangaceiros se arrancharam em Angico. E apesar de Pedro sempre levar dinheiro suficiente dado por Lampião, acabava usurpando o chefe e não pagava as mercadorias, o que criava, naturalmente, um clima de animosidade não só para ele, como para o bando.
Tiro Fatal
Naquele dia, porém, Pedro de Cândido, inadvertidamente, engatilhou a arma que desfechou em Lampião o tiro fatal.
Utilizando-se da fama de valente, talvez imposta pela condição de coiteiro chefe de Lampião, Pedro bateu à casa de Joca Bernardo para comprar “todos os que queijos que tivesse na hora ou a fazer durante os próximos 15 dias”, que era o tempo de descanso dos cangaceiros.
Manchete do jornal natalense A República sobre a morte de Lampião.
Joca respondeu que tinha uma encomenda de queijo do juiz da cidade de Pão de Açúcar e não podia ceder o volume que já se encontrava pronto. O argumento não foi levado em consideração, porque Pedro de Cândido retrucou abusado:
“Cabra safado, eu estou pedindo o queijo e não quero saber de história. Vou levar tudo agorinha mesmo”, recordou Joca.
Apesar de se saber que Pedro era coiteiro de Lampião, Joca ainda duvidou para quem seria tamanho carregamento de queijo. Até que descobriu:
“Eu pensei assim” – conta ele – “o Pedro não negocia e se quer tanto queijo só pode ser pra muita gente. Se é para muita gente, Lampião tá por aqui.”
Manchete do jornal natalense A República sobre a morte de Lampião.
Joca não reagiu e Pedro de Cândido levou todo o carregamento de queijo que havia sido encomendado pelo juiz de Pão de Açúcar. Mas naquele mesmo dia o sargento Aniceto foi informado da situação. Ele tinha ficado em Piranhas, enquanto o coronel Lucena, o tenente Bezerra e o aspirante Chico Ferreira saíram em diligência atrás de Lampião na localidade de Pedra, atual município alagoano de Delmiro Gouveia. O relato ainda é de Joca:
“Eu fui procurar o tenente Bezerra, mas ele não estava. Encontrei o sargento Aniceto, que me perguntou se sabia sobre algo, e lhe contei: sargento, eu não sei o que o senhor quer, mas se o senhor quiser saber onde Lampião tá escondido, aperta o Pedro de Cândido que ele diz. Agora só digo uma coisa ao senhor: Lampião está aqui por perto e não veio com pouca gente não. Têm uns 100 homens com ele. E contei também o caso dos queijos que o Pedro me tomou.”
A partir daquele momento começou a contagem regressiva da vida de Lampião e seu bando.
Mas como o próprio Joca admite a delação não tinha a intenção de trair Lampião porque, do jeito que até hoje alguém afirma que o cangaceiro não morreu, naquele tempo acreditava-se na sua imortalidade, pelo menos à bala ou à faca. Joca desejava que Pedro levasse uma surra através do “aperto” da polícia, e não admitia que a polícia desse fim a Lampião, porque o bandido sempre escapava aos cercos ilesos. Mas não foi assim que aconteceu: o cangaceiro morreu mesmo.
Recusa
O sargento Aniceto se encarregou de assegurar junto ao tenente Bezerra e ao coronel Lucena o trabalho decisivo de Joca Bernardo, ajudando à Polícia. Aí os dois oficiais chamaram Joca a Piranhas e anunciaram o prêmio: cinco contos de réis e a patente de sargento da Polícia Militar de Alagoas, que lhe seria dada pelo Governo do Estado.
Sargento José Bezerra.
Joca recusou as divisas e aceitou apenas o dinheiro, que acabou não recebendo em toda sua totalidade.
“Eu acho que o Governador mandou o dinheiro todo, mas o portador ficou com um pedaço. Eu só recebi um conto de réis”, relembra.
Ele recusou as divisas de sargento, porque teria de vir morar em Maceió e um sargento naquela época não ganhava suficiente para sustentar uma família. Então Joca preferiu continuar tangendo gado e fazendo queijo, sem pagar aluguel de casa e sem ter outros gastos que naturalmente teria de assumir se mudasse de cidade e de vida.
Entrada na propriedade Patos. – Foto – Rostand Medeiros.
Mas sua mulher não aceitou a argumentação e como não pôde fazê-lo receber a patente, preferiu abandonar a casa. Foi morar em São Paulo. Por ironia, quem recebeu as divisas foi o Pedro de Cândido.
Joca, que pensava em se vingar da sua violência, não só proporcionou a Pedro sua reaproximação com as autoridades de Piranhas e de Alagoas, como lhe deu a própria chance de ser autoridade, porque logo em seguida foi incorporado à polícia como sargento e nomeado delegado no sertão. E morreu assassinado por culpa, ao que se sabe, de seus dotes de “Dom Juan”, sem que lhe respeitassem, ao menos, a posição de delegado.
Bela região do Rio São Francisco – Foto – Ricardo Trigueiro Morais.
Joca amargou a fama de traidor – na verdade o traidor é ele mesmo e se não fosse a aposentadoria do Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural), engordada pelo frete que consegue tangendo um burro carregado de água, estaria na miséria.
Sequer Joca conseguiu o intento de fazer Pedro de Cândido levar uma surra dos policiais, porque este ao ser preso não reagiu e nem criou maiores dificuldades para contar aonde era o esconderijo de Lampião.
Felipe Nery de Brito Guerra – Publicado originalmente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte – IHGRN, 1927, Volumes XXIII e XXIV, páginas 218 a 228.
* Informação do Blog Tok de História – Busquei atualizar alguma coisa da ortografia do texto do Desembargador Felipe Guerra, escrito em agosto de 1920, sem, contudo, alterá-lo. Devido a sua extensão, foi necessário dividi-lo em duas partes, uma dedicada as lutas e outra aos combatentes potiguares, que será a nossa próxima publicação.
Escrever a história militar do Rio Grande do Norte desde o início de sua colonização, principiada em fins do século XVI seria, pelo menos até princípios do século XVIII, escrever a história do Rio Grande do Norte, porquanto esse espaço de tempo, abrangendo um período de cerca de dois séculos, foi preenchido por sangrentas agitações, lutas e guerras.
A dominação francesa, exercida então por piratas, aventureiros, desclassificados, sem outros ideais a não ser o lucro mercantil, sempre receosos e a espera de ataques dos portugueses. O que é certo, porém, é que essa permanência constante e demorada dos franceses, embora sem estabelecimento conhecido, representava um perigo para as vizinhas e próximas capitanias, principalmente a Paraíba, de onde haviam sido repelidos.
“O mal vem do Rio Grande”, dizia-se em Pernambuco e na Paraíba. E assim, para acabar com esse mal, foi resolvida a conquista do Rio Grande, da qual foi incumbido Manoel Mascarenhas Homem, tendo Jerônimo de Albuquerque alcançado melhor êxito na empresa.
Piratas franceses no Brasil – Fonte – httpswww.goianarte.com
Não tinham então os franceses regulares instalações. Viviam, entretanto, em estreitas relações com os selvagens, habitando mesmo suas aldeias. É o que se depreende da célebre “História do Brasil” de Frei Vicente do Salvador, escrita em 1627, e onde se lê que logo ao chegar Manoel Mascarenhas Homem “ali desembarcaram e se entrincheiraram de varas de mangue para começarem a fazer o forte e se defenderem dos Potiguaras que não tardaram muitos dias. Vieram uma madrugada, infinitos, acompanhados de cinquenta franceses, que haviam ficado das naus no porto dos Búzios e outros que ali estavam casados com Potiguaras”.
E assim ofereceriam os selvagens, auxiliados por seus aliados franceses, tenaz resistência. O que não impediu, entretanto, a fundação do “Forte dos Reys”, permitindo a criação da povoação do Natal dois anos depois — 25 de dezembro de 1599. Foi celebrada a paz com os Potiguaras, conseguida por Jerônimo de Albuquerque com a mediação de um selvagem “principal e feiticeiro”, chamado ILHA GRANDE.
A conquista do litoral brasileiro havia sido começada do norte para o sul, sendo depois continuada do sul para o norte, tendo, principalmente esta última, contado com eficaz cooperação dos naturais da terra, já representados por brancos, filhos de portugueses, por mestiços e pelos selvagens que, subjugados e pacificados pelos portugueses, eram aproveitados como seus aliados.
Os selvagens constituíam sempre o grosso das forças conquistadoras, embora não fossem, em regra, os elementos mais resistentes nos combates. Eram, entretanto, os mais resistentes às longas marchas, aos transportes e aos mais serviços exigidos em campanhas rudes e aventurosas, em que não podia se contar com auxílios minguadíssimos e retardados, senão impossíveis.
Os Potiguares, que dominavam o litoral do Rio Grande do Norte, uma vez pacificados, foram valiosos e fortes elementos para a conquista do norte. Não existindo mais o “mal vindo do Rio Grande», que passara para o Ceará e para o Maranhão, foi resolvida a conquista desses pontos, onde os franceses procuravam se firmar. Ainda foram os Potiguares elementos preponderantes para a conquista do primeiro daqueles territórios.
Expulsos os franceses do litoral, de Paraíba ao Maranhão, as novas populações que procuravam se estabelecer não ficaram na tranquilidade da paz. Nem todas as tribos haviam feito amizade com os colonizadores; e mesmo no meio daquelas tidas como amigas, surgiam ataques e desconfianças que traziam para a região um verdadeiro estado de guerra, rompendo a duvidosa paz, sempre de curta duração..
Veio depois a guerra holandesa. O Rio Grande do Norte foi duramente sacrificado na luta. Tomada a Fortaleza dos Reis Magos (12 de dezembro de 1533) por uma força holandesa guiada por Calabar, sofreu o Rio Grande do Norte com o invasor até o final da guerra holandesa no Brasil. Esteve assim esta terra dezenove anos sob o domínio batavo.
Florin holandês de ouro. Essa foi a primeira moeda a conter o nome Brasil e foi produzida pelos holandeses durante a ocupação de Recife – Fonte – https://en.wikipedia.org/wiki/Dutch_guilder
Calabar conseguira angariar para os holandeses a amizade dos Índios Janduís, que unidos aqueles praticaram horríveis massacres. Fácil é de imaginar o que seria a guerra movida por selvagens açulados por aventureiros da pior espécie, como parece que eram os holandeses enviados para o Rio Grande do Norte. Chegaram a negociar prisioneiros como animais para o corte, destinado a pasto dos antropófagos Janduís.
Finda a guerra holandesa pela expulsão dos invasores, continuou a luta no Rio Grande contra os Índios, sempre dispostos a defender sua vida selvagem e sem peias. Houve mesmo uma rebelião generalizada dos nativos que durou longos anos, nada respeitando, nem a vida nem os habitantes do Rio Grande, que já contava elementos de prosperidade. Foi calculado que os índios mataram “perto do trinta mil cabeças de gado grosso e mais de mil cavalgaduras”. Essa rebelião durou de 1688 a 1720, quer dizer, 32 anos, talvez mais, porquanto não se acha bem estudado esse ponto da história. Foi um movimento sério e perigoso. Pedidos insistentes de socorro partiram para Pernambuco, para a Bahia, e até diretamente seguiu um emissário para Lisboa, levando uma representação do Senado da Câmara ao Rei, tais as delongas do auxílio reclamado.
“Cena da Expedição do Tenente-Coronel Affonso Botelho”, aquarela do artista Joaquim José de Miranda (1771) que retrata o confronto entre indígenas e bandeirantes. Provavelmente cenas como essa ocorreram no Rio Grande do Norte – Fonte – https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/guerras-barbaras/
Do litoral ao alto sertão era grande o perigo que ameaçava a própria Natal, sendo, o ponto culminante da rebelião a ribeira do Assú. Vieram em excursões guerreiras tropas da Paraíba, de Pernambuco e da Bahia. Vieram os ”terços paulistas” que haviam lutado em Palmares, vieram companhias do Batalhão de Henrique Dias. Essas forças, os melhores elementos de luta então disponíveis pelo Governo do Brasil, subiram até as cabeceiras do rio Assú, foram às ribeiras do Seridó, do Apodi até ao Jaguaribe, em perseguição dos índios que foram afinal pacificados, isto é, aniquilados, escorraçados, sendo tomada a providência de aldear os restantes. Ainda em tais aldeamentos apareciam insurreições dos índios motivadas por excessivos rigores e injustiças. Nenhuma condescendência havia para o infeliz selvagem, a quem de fato era negado qualquer direito.
Seguramente Miguel Joaquim de Almeida Castro, o Padre Miguelinho, foi o potiguar que mais expresivamente tomou parte na revolução de 1817 e acabou sendo fuzilado. Em junho de 1906, no 89º aniversário do fuzilamento, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, promoveu uma série de homenagens em Natal . Houve uma sessão solene no então Teatro Carlos Gomes, atualmente Teatro Alberto Maranhão, na noite de 12 de junho de 1906, onde um coro feminino cantou o “Hino de Miguelinho”, letra de Henrique Castriciano e música de Luigi Maria Smido, cuja a capa da partitura apresentamos acima – Fonte – https://gamfrente.blogspot.com/2017/03/padre-miguelinho-luz-do-rio-grande-do.html
Na revolução de 1817, não é ignorado o papel que representou o Rio Grande do Norte. Pode-se dizer que essa página luminosa da história nacional se caracteriza no seu conjunto mais pela pureza de seus chefes, pelo estoico heroísmo dos que nela figuram, pela elevação dos ideais, pelo pendor doutrinário, do que por feitos militares e ação guerreira. E foi essa seguramente uma das causas que apressaram o fracasso da revolução.
Em agitações partidárias passou a Província as fases da Independência Nacional. Tomou parte na revolução da “República do Equador”.
Os corajosos e mal organizados destroços das forças revolucionárias de 1824 seguiram por terra, em dificultosa marcha por ínvios sertões de Pernambuco ao Ceará, procurando junção com as forças que nessa Província apoiavam o movimento revolucionário. Foi uma verdadeira retirada de cerca de três mil pessoas, conduzindo duas peças de artilharia, arrastadas por caminhos impraticáveis e arrostando todas as dificuldades que podem acompanhar forças sem disciplina, sem organização militar, sem recursos e sem alentadoras esperanças.
Quadro “Estudo para Frei Caneca”, de Antônio Parreiras (1918), mostrando o padre revolucionário em seu julgamento – Fonte – https://en.wikipedia.org/
Atravessaram o sertão do Rio Grande do Norte entrando pelo Seridó, seguindo para Pau dos Ferros pelos limites entre Rio Grande do Norte e a Paraíba. No Seridó, onde o presidente provisório da Paraíba deixou sua família, que com ele vinha acompanhando a expedição, da qual também fazia parte o nobre, elevado e culto espírito que era Frei Caneca, não foram hostilizadas as forças. Em Caicó, demoraram-se oito dias, concertando as carretas das peças que eram puxadas por bois. Em Patu de Fora, começou a expedição a sofrer hostilidades e também a hostilizar. Foram incendiadas algumas casas e fazendas.
Em Torrões (ou Torões), Patu, houve forte tiroteio, morrendo mais de trinta pessoas de parte a parte. Parece que batalhões irregulares de Portalegre organizaram guerrilhas, unindo-se depois com as forças legalistas do Rio do Peixe (PB).
Foto – Rostand Medeiros.
Serenada a luta pela submissão dos rebeldes, seguiram-se o martírio e as exageradas punições de infelizes chefes rebeldes, sonhadores antecipados dos ideais republicanos, vítimas da crueldade das juntas militares, tão tristemente célebres na história pátria.
Os habitantes do Rio Grande do Norte conservaram sempre prontos para qualquer emergência, chegando a formar batalhões de tropas irregulares, contra os reacionários de 1832, apoiando a política do então ministro da justiça e depois Regente do Império, padre Diogo Antônio Feijó.
Iniciada no Ceará em dezembro de 1831, com a proclamação de Joaquim Pinto Madeira, essa revolta obedecia aos ideais do Partido Restaurador, ou Caramuru, apoiado pelos portugueses. Formou-se no sertão do Rio Grande do Norte batalhões de tropas irregulares que marcharam para o Crato contra os revolucionários. De Martins e Portalegre seguiu um batalhão sob o comando do coronel Agostinho Pinto de Queirós. Conta-se que na primeira noite de marcha dois soldados de família do Martins, os irmãos Patrícios, tentaram voltar para casa, sendo por isso, ao amanhecer, sumariamente fuzilados. O comandante da tropa foi processado por esse fato e depois, por prescrição, isento da pena.
Sob o comando do coronel José Teixeira se organizou um batalhão no Seridó, do qual faziam parte os homens válidos das principais famílias. Incorporada à força combatente e reunida em Caicó, o padre Francisco de Britto Guerra, então vigário da cidade e representante da Província na Câmara Temporária, onde entrara como suplente, intimamente relacionado com o padre Feijó, e talvez o principal fator do movimento, promoveu uma grande solenidade cívico-religiosa por ocasião da partida da força. Seguiram todos montados para Pombal onde se uniram as forças da Paraíba, principiaram a receber instrução militar ministrada pelo alferes Canuto, de tropa de linha do Ceará.
Nas várzeas do Rio do Peixe (PB), houve o primeiro encontro entre esse batalhão do Seridó e as forças de Pinto Madeira, tendo estas atacado de surpresa, procurando tomar o valioso comboio dos víveres e munições dos seridoenses. O resultado foi as forças de Madeira retirando-se do combate com a perda de doze homens.
Manuel de Assis Mascarenhas, presidente da Província do Rio Grande do Norte ente 1838 a 1841, em cujo governo concedeu a patente de Coronel Comandante ao seridoense Joãop Gomes da Silva, pela sua capacidade de luta nos combates contra as forças de Pinto Madeira em 1831 – https://pt.wikipedia.org
O batalhão do Seridó continuou em marcha afim de reunir-se com as forças legalistas que no Ceará procuravam abafar a revolta, havendo pelo caminho alguns encontros. Terminada a luta, voltou a tropa ao Caicó, onde foi recebida com festas, aclamações, Te Deum na igreja, etc. Por ocasião dessas festas da chegada, foi aclamado pelos soldados o comandante das forças o quartel mestre João Gomes da Silva, que se havia distinguido na expedição, aclamação que anos depois no governo de Manoel de Assis Mascarenhas (1838 – 1841) foi confirmada com a patente de Coronel Comandante.
Muito é de notar que em todas essas lutas político-partidárias, os sertanejos do Rio Grande do Norte, serenados os ânimos, evitavam ódios inúteis, crueldades, perseguições e delações contra os vencidos.
A tradição narra mesmo o fato de haver Simão Gomes de Britto, capitão de milícias em Campo Grande, recebido ordem superior para prender o Coronel Cavalcante, implicado na revolução de 1817. Mas este apresentou a ordem de prisão ao seu amigo e pediu para que tomasse suas precauções. Acrescentou: — “Dê no que der, não o prenderei, porque sei que não cometeu crime”. E efetivamente não tentou fazer a prisão. Entretanto, o Coronel Cavalcante, ou porque se julgasse inocente, ou por altivez de caráter, ou ainda para evitar a responsabilidade do amigo, foi se entregar, e sofreu os rigores daqueles horríveis cárceres, onde foram martirizados os patriotas de 1817.
Nas guerras contra as repúblicas do Rio da Prata numerosos filhos do Rio Grande do Norte acudiram em defesa da pátria.
Quatro meses depois de declarada a Guerra do Paraguai, embarcou em Macau um contingente de mais de sessenta voluntários, dos quais trinta e três eram do Assú, além de onze de Campo Grande, que haviam seguido diretamente para a Capital. É conhecido o fato de haver o Dr. Olinto José Meira de Vasconcelos, então Presidente da Província (1863 – 1866), dirigido a palavra na capital, a grupos que se achavam em manifestações em frente ao quartel, apelando para o patriotismo de todos e pedindo dar um passo à frente aqueles que quisessem seguir para a guerra. Mais de 400 voluntários moveram-se para a frente. De todos os pontos da Província seguiram Voluntários da Pátria, sendo também crescido o número de recrutados. E o papel que na guerra desempenharam os rio-grandenses-do-norte ajudou ao merecido renome adquirido pela infantaria do norte.
Na proclamação da República, na revolução federalista do sul, na revolta da armada, em Canudos, os filhos do Rio Grande do Norte cumpriram sempre seu dever.
Sob as ordens de Plácido de Castro, nas lutas acreanas, encontraram-se também inúmeros rio-grandenses-do-norte, destemidos e audazes pioneiros da colonização e conquista das mais recuadas fronteiras da Pátria, os quais tangidos do torrão natal por atormentadoras secas, forneceram, com seus irmãos de outros Estados, por igual vítimas da calamidade, os elementos vitais, talvez os únicos possíveis para o colossal empreendimento da colonização da Amazônia.
De fato, outras populações vivendo certamente sob um clima mais doce e uma natureza mais amena, não estariam, como os nossos sertanejos, tão habituados a receber e aguentar o choque e a destruição das mortíferas forças da natureza amazônica, com a mesma resignação, com o mesmo esforço e coragem com que encaram e recebem as furiosas cargas das nossas devastadoras secas.
Na execução da recente lei do serviço militar (1916) raro é o sorteado dessa terra que deixa de acudir ao chamado: talvez nenhum listado da União apresente menor número de insubmissos.
Eis aqui, a largos traços, a vida militar do Rio Grande do Norte: lutas constantes durante dois séculos, sempre aceso o sentimento de patriotismo, de abnegação, de sofrimento. E por isso mesmo, apesar de uma bissecular educação guerreira, os filhos do Rio Grande do Norte têm acentuadamente o caráter pacífico: o banditismo, o caudilhismo, e as lutas por fanatismo nunca encontraram apoio entre eles.
AUTOR – Antônio Luís de Medeiros – São João do Sabugi – RN
Se os portugueses discriminavam os índios, muito mais faziam com a raça negra. Então este casamento de um português com uma sua escrava foi um fato raríssimo ocorrido no nosso Seridó há mais de dois séculos.
Nosso saudoso Olavo de Medeiros Filho comentava conosco esse ineditismo. Ele fazia a comparação com o romance Iracema, de José de Alencar, sendo este a miscigenação do português com o índio enquanto o consórcio matrimonial de José Antônio da Costa com Rita Maria, sua ex-escrava seria a união de sangue ibérico com sangue africano.
Ao primeiro dia do mês de julho de mil oitocentos e dezoito, pelas oito horas da noite, nessa Matriz do Seridó, em minha presença e das testemunhas o Reverendo Manoel Teixeira da Fonseca e o Capitão Tomaz de Araújo Pereira, casado, se receberam em matrimônio por palavras de presente José Antônio Costa, europeu, natural de Santarém e Rita Maria, parda, que havia sido sua escrava. Natural da Vila de Icó, Ceará, donde justificam o estado de livre e desimpedidos e igualmente da naturalidade do contraente confinada aos banhos por faculdade do Ilustríssimo Senhor Provedor e Governador do Bispado Manoel Vieira de Lemos aos vinte e seis de maio do corrente ano, como consta dos papéis que ficam emaçados, e declarava o contratante ser filho legitimo de Antônio Pereira de Amorim e de Teresa Maria Maciel, moradores na dita Freguesia de Santarém, de Nossa Senhora das Maravilhas, no Patriarcado de Lisboa, e logo lhe dei as bênçãos de que para tudo constar fia este assento que com as ditas testemunhas assino.
O Vigr° Francisco de Brito Guerra
Pe. Manoel Teixeira da Fonseca – Tomaz de Araújo Pereira
Fonte: 2º Livro de Casamento da Freguesia da Senhora Santana do Seridó, período de 1809/1821, fls. 124 / 125.
Documento de 1818.
Neste modesto trabalho, de poucas linhas, nossa intenção é comentar, superficialmente, a convivência harmoniosa de nossos antepassados com seus poucos escravos na região seridoense. Sendo a atividade pastoril a principal fonte de renda da população, poucas posses dos fazendeiros e dificuldade de sobrevivência era grande a desigualdade patrimonial entre a região litorânea e sertaneja nordestinas.
Com as agruras do meio enfrentadas tanto pelo senhor quanto pelos escravos formava-se um sentimento fraterno e mais humano entre ambos. Os escravos casavam religiosamente, moravam em suas casas, com suas esposas e os filhos, iguais aos “moradores livres”. Nunca encontramos resquícios de senzalas no Seridó. Só nos engenhos do brejo e outras regiões distantes. Nas grandes secas seus senhores passavam as mesmas privações que eles.
Casa Grande da Fazenda Dinamarca, Serra Negra do Norte – RN. Foto meramente iliustrativa – Fonte – Antônio Luís de Medeiros.
João Paulino, da fazenda Pitombeira, em São João do Sabugi, parecia ter mais escravos que bois. Diziam que ele e seu irmão o Ten. Cel. José Evangelista, da fazenda Ipueira, nunca venderam um só escravo.
Coma libertação da escravatura no Brasil, em 13 de maio de 1888, os antigos escravos permaneceram morando na mesma casa, plantando o mesmo roçado de miunças (ovelhas e cabras), com terreiro de galinhas, porco no chiqueiro e um jumento cargueiro para as suas necessidades.
Contrastando com todas as dificuldades do meio e da época, encontramos a maior fortuna do Seridó do século XIX, em Serra Negra, no inventário de Maria Jesus José da Rocha, pernambucana de Pau D’alho, falecida em 1854, esposa de Manoel Pereira Monteiro (o 3º), pais de Antônio Pereira Monteiro – Cangalha. Só para citar alguns dados: 62 peças em ouro, 41 em prata, 52 escravos, 50 bois mansos, 1.338 vacas paridas, 55 touros, 1.200 bois criados, 136 cavalos, extensas fazendas nas Províncias de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, 18 contos de réis em dinheiro e muitos outros bens.
Esperidião Medeiros com a família, cerca de 1918 a 1920 – Fonte – Antônio Luís de Medeiros.
Em antigas fotografias aparece sempre uma negra fazendo parte da família como mostra o registro acima de Esperidião Medeiros com a sua esposa e seus 12 filhos, possivelmente entre 1918 e 1920.
Quando faleceu a preta Irene, que havia sido sua ama na infância de Manoel Bandeira ele dedicou-lhe o poema, Irene no céu.
Irene Preta.
Irene boa.
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
– Licença meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entre, Irene. Você não precisa pedir licença.
Gentilmente após a publicação desse material, recebi no Facebook, de “Literatura do Seridó”, a informação que essa senhora da foto é Aureliana Aurélia de Albuquerque, ou, como era mais conhecida, “Dedé”.Agregada à família, cuja a criançada a consideravam como uma segunda mãe. Nasceu em Caicó no dia 16 de junho de 1876, e faleceu na mesma cidade, no dia 18 de janeiro de 1953, aos 77 anos de idade. E segundo o autor do texto a criança da foto é Aldo Medeiros, que foi casado com Dona Mili, filha do casal Dinarte de Medeiros Mariz e Dona Diva. Aldo e Dona Mili casaram no ano de 1940.
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Fonte – Revista O Cruzeiro, Edição de 05 de dezembro de 1964, págs. 28 a 33.
Esse material que transcrevemos foi produzido em 1964 pelo falecido jornalista Audálio Dantas, quatro anos antes da finalização da construção do açude Cocorobó, uma obra do Governo Federal que cobriu a antiga Canudos. Audálio foi até o sertão baiano para conhecer aspectos e fatos do lugar antes da obra ficar pronta e percebeu que aquela barragem não conseguiria apagar a História de um dos maiores e mais sangrentos conflitos brasileiros. Quando ele lá chegou haviam se passados 67 anos do final da Guerra de Canudos, mas o jornalista Audálio conseguiu interessantes relatos de poucos sobreviventes ainda vivos e até mesmo de um ex-combatente, um menino na época da guerra, chamado Antônio Bruega. Realmente um relato muito interessante.
No ano 1896, meados de novembro, o Governo, que morava e dava presença somente nas “terras grandes” de perto do mar, chegou pela primeira vez às terras do sertão de Canudos, num ranger de dentes, para combater o povo de lá, que andava de cabeça virada por causa de um certo Antônio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como “O Conselheiro”.
O governo era a República, há pouco nascida; e, até então, como no “tempo do Rei”, o sertão vivia ignorado. Foi preciso que um homem de longos cabelos desgrenhados, vestido num camisolão azul atado à cintura por um cordão de frade franciscano, gritasse por todo o sertão o seu grito louco de “enviado de Deus”, a anunciar terríveis profecias e depois amaldiçoar a República — a “Lei do Cão” — para que o Governo desse presença no sertão de Canudos, síntese de muitos sertões.
Antigo cruzeiro de Canudos na década de 1940.
Só que aquele sertão estava em pé de guerra “de nação contra a mesma nação” — a guerra mais terrível que já se travou em terras do Brasil. Tenente Pires Ferreira, com 104 soldados, foi quem primeiro chegou lá, em nome da República, para dar combate ao grupo de “fanáticos monarquistas” de Antônio Conselheiro, gente que do rei só ouvira falar. Chegar a Canudos, que ficava, com seus cinco mil casebres, no meio do sertão mais brabo da Bahia, os soldados não chegaram. Voltaram de Uauá, depois de uma batalha terrível; a tropa fora assaltada de surpresa por um bando de jagunços que até ali chegara de madrugada, numa fantástica procissão em que se misturavam aos estandartes religiosos as espingardas, os facões, os chuços de vaqueiros, as foices — as armas que possuíam para enfrentar a “força do governo”, bem aparelhada com armas de repetição. Foi uma luta desigual, muita gente do sertão caiu, dez soldados também. O chão do Uauá ficou encharcado de sangue — o primeiro sangue que correu na guerra fratricida. E muito mais sangue correria, do ano 1896 ao 1897, mês de outubro, quando Canudos — Jerusalém cabocla, tapera mártir — foi arrasada a ferro e fogo sem se render, porque homem nenhum de lá ficou de pé. Lutando por um Deus vingativo que lhes anunciava Antônio Conselheiro e vagamente por um regime de governo que para eles fora sempre uma abstração, aqueles sertanejos broncos escreveram páginas incomparáveis de heroísmo. Durante quase um ano, a guerra ensanguentou o chão seco do sertão, para onde convergiram forças militares de todo o país. E, depois de sucessivos reveses sofridos pela “força do governo”, que os jagunços, diante de suas vitórias, já chamavam de “fraqueza do governo”, houve o grande cerco final, a fulminante investida de milhares de soldados contra a fortaleza de Canudos. E não restou pedra sobre pedra: ficaram “muitos chapéus e poucas cabeças”, conforme anunciara muitas vezes, em suas delirantes profecias, Antônio Conselheiro.
Foto de Audálio Dantas em Canudos, cujas edificações e ruínas aqui mostradas se encontram cobertas pelas águas do Açude de Cocorobó. O que as fotos desse texto mostram é na verdade a segunda vila de Canudos, pois a primeira foi arrasada pelo Exército Brasileiro após a vitória sobre os seguidores de Conselheiro.
A República, que ignorava aquele povo e não soubera julgar as verdadeiras razões de sua loucura coletiva, cometera o que Euclides da Cunha, o grande intérprete dos sertões, tão bem classificou de “crime da nacionalidade”. Mas a honra da República fora salva. Canudos, a imensa tapera que se erguera à beira do rio Vaza-Barris como uma cidade sagrada, para acolher o “povo escolhido de Deus”, transformou-se num montão de ruínas e de cadáveres insepultos. Os “monarquistas fanáticos” haviam finalmente sido exterminados. Mas um dia, poucos anos depois da tragédia, gente daquele mesmo povo voltou e ergueu no mesmo local — o imenso cemitério em que se transformou Canudos — outro povoado. De gente pacata, talvez a mais pacata desta nossa vasta República.
Canudos viveu, desde o seu ressurgimento, por volta de 1907, até 1951, a sua vida “sem muita vida”, a modorrar sob a soalheira que faz o mundo tremer. Vida igualzinha à de centenas de outros povoados dos sertões. Continuava esquecida pelo governo da República.
Gente de lá só era lembrada de vez em quando, após a passagem de um repórter ou de um turista mais contemplativo. Ainda se encontrava jagunço brigador com nome bem grande gravado na História, como Pedrão e Manuel Ciríaco, que saíram antes do extermínio. E poetas sertanejos, contando e cantando em versos as histórias dos Belos Montes do Conselheiro e das lutas ferozes que se travaram nas caatingas. Gente de lá, basicamente a mesma dos tempos do Conselheiro, só não sabia era explicar aquelas histórias. Os mais velhos, no seu jeito desconfiado, ainda evocavam a figura do grande místico com uma simpatia mal disfarçada. Alguns deles até se lembravam de frases pronunciadas pelo Conselheiro nos sermões pregados na igreja nova, que também foi fortaleza e terminou sendo destruída por balaços de canhão. Palavras que têm também assentamento fiel na História, como aquela profecia, que escreveu assim: “Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão, então o certão viverá praia, e a praia viverá certão”.
Foto de Audálio Dantas em Canudos.
O sertão do Conselheiro, pregador inculto que se abeberara nuns poucos livros litúrgicos, como Horas marianas e Missão abreviada, era ainda mais sertão, assim escrito: “certão”. Um sertão que seria redimido no dia em que o rebanho de gente das “terras grandes” de perto do mar visse a grande transformação e corresse para lá, terra que deixaria de ser “certão”.
Pois o povo mais velho de Canudos contava essas histórias, a olhar para os lados do Vaza-Barris, rio que corre por lá, quando o governo da República chegou pela segunda vez e anunciou: “Canudos será destruída”. Acreditaram uns, não acreditaram outros: só se fosse ainda por castigo. Mas a sorte de Canudos estava selada, escrita nuns papéis trazidos por um doutor engenheiro — o projeto de uma barragem para represar as águas do Vaza-Barris, na garganta de Cocorobó, e sepultar sob as águas todo aquele trágico pedaço de chão.
Canudos na década de 1940.
Quase certo, gente mais velha de lá deve ter pensado que a profecia do Conselheiro estava por se cumprir e que chegada estava a hora de o sertão virar praia. Um poeta sertanejo logo escreveu versos saudando as águas que viriam, purificadoras, para matar a sede e criar vida e para fazer praias enfeitadas com muita fartura de legumes nos lugares onde só há mandacaru e xiquexique. As águas que chegariam “procurando dar aos sertanejos agasalho e dos mortos de Canudos apagando o pó”. E outros versos compôs o poeta, chamado José Aras, enquanto os engenheiros faziam os primeiros estudos no local destinado à barragem:
O vasto cemitério de Canudos
Coberto d’água será um dia
A lua melancólica e os astros mudos
Glorificarão os mortos em harmonia.
Foto Audálio Dantas.
Foi assim, em alvoroço sertanejo, que o povo do sertão de Canudos recebeu os homens do governo que lá chegaram com a missão de destruir pela segunda vez o arraial. A República se fizera novamente presente, só que agora a missão era de paz. Em lugar de canhões e das “manulichas”, vieram máquinas de escavar terra, que logo começaram, como enormes e estranhos bichos, a roncar nas margens do Vaza-Barris, na garganta do Cocorobó, exato lugar onde os jagunços comandados por Pedrão lutaram uma luta terrível contra cinco batalhões comandados pelo General Savaget. Pedrão, a quem Euclides da Cunha chamou de “o terrível defensor de Cocorobó”, ainda estava vivo (morreu em 1958) e foi muitas vezes assistir àquela invasão. Olhava, com admiração quase infantil, o trabalho daquelas máquinas — a nova “força do governo” — que roncavam na beira do Vaza-Barris, cujas águas vira muitas vezes tintas de sangue.
Pedrão morreu e não viu o açude, as águas claras da paz a fazer o sertão virar mar.
Porque a missão de paz do governo em Canudos foi, aos poucos, transformando-se numa guerra contra o povo de lá. Dessa vez, apenas uma irritante guerra burocrática, de marchas e contramarchas, enquanto se joga dinheiro na garganta do Cocorobó e — diz o povo, voz de Deus — também em gargantas muito maiores, de gente que manobra com ele.
Foto Audálio Dantas.
Em 1954, três anos depois de iniciadas as obras da barragem, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas — Dnocs — já promovia desapropriações de casas e roças no povoado de Canudos e em toda a área prevista para ser inundada (26 quilômetros quadrados). Pela casa de Maria Mendes, irmã de Manuel Ciríaco, sobrevivente da guerra anterior, deram 2.600 cruzeiros, que terminaram se reduzindo a 1.900, porque um tal de procurador que foi receber o dinheiro em Salvador cobrou 700 pelo trabalho. Quem tinha roça de beira de rio, com muito legume crescendo, também recebeu seus “poucos contos de réis” e ficou desorientado, sem saber se continuava ou não, pois, enquanto uns diziam que “o açude vai ficar pronto no ano que vem”, o pessoal do governo não informava nada com precisão. Muitos abandonaram casas e roças, antes que um dia vissem a inundação. Em muitos casos o dinheiro recebido a título de indenização não deu nem para as despesas da mudança. Desse jeito, em verdade, o açude de fazer o sertão virar mar não era construído para o povo de Canudos, indiretamente expulso do seu pedaço de chão — o chão seco e triste da caatinga, mas o chão amado de sempre.
Há os que ficaram, à espera da água (Canudos ficará sob 11 metros de água), e há os que vieram ocupar casas vazias, gente retirante de outros sertões. Enquanto isso, a barragem subia, a barragem descia, porque primeiro ia ser uma barragem em curva, mas depois os técnicos descobriram que era melhor uma barragem reta. E recomeçaram tudo, entra engenheiro, sai engenheiro, obras param e obras recomeçam, até hoje, treze anos depois daquele dia em que o governo da República chegou a Canudos em missão de paz.
Ruínas de casas de Canudos na década de 1940.
Nem um engenheiro nascido nas mesmas terras de Canudos, chamado Accioly, conseguiu levantar a barragem. Saiu de lá em julho deste ano e foi responder a um inquérito, acusado de desvio de verbas e material. Agora, lá estão dois novos engenheiros — Waldemar Correia Lopes e Antônio Carlos de Mello — em nome do governo atual. São moços e estão com vontade de trabalhar. Mas não sabem — nem podem dizer — quando o açude estará terminado. Tudo dependerá, naturalmente, da boa vontade (e das verbas) do pessoal das “terras grandes” de perto do mar e agora também das terras de outro sertão — Brasília.
O açude que o povo de Canudos espera será possível quando estiver concluída a barragem reta, a última a ser projetada, de 1.300 metros de extensão, 32 metros de altura e 196 metros de largura (na base). Os dois novos engenheiros encontraram as obras na seguinte situação: prontas as fundações e iniciados os trabalhos de construção de um enrocamento de sustentação da barragem, que será de terra. Atualmente se processa também o tratamento de rocha das fundações, por meio de injeção de cimento. Isso feito, a barragem poderá ser erguida acima do nível do rio. Se houver os recursos necessários, será possível barrar as águas do Vaza-Barris no próximo ano, aproveitando-se o período entre duas enchentes (o rio é seco praticamente durante dez meses). Se isso for conseguido, em janeiro de 1966, quando se comemora o centenário de nascimento de Euclides da Cunha, as terras de Canudos começarão a ser cobertas pelas águas que apagarão, simbolicamente, uma imensa nódoa em nossa História. Os senhores das verbas poderão prestar essa homenagem ao nosso grande escritor, ao mesmo tempo que acabarão com a angústia do povo que tão bem ele soube interpretar. Depois, o açude não será só “um mar no meio do sertão”; será, principalmente, fator de melhoria para o povo de lá. A Várzea do Canché, de terras planas e boas a se estenderem até os limites de Jeremoabo, está incluída no plano de irrigação (10.000 hectares) que empregará as águas represadas. Não se destruirá Canudos em vão.
Construção do Açude de Cococrobó em 1964 – Foto – Audálio Dantas.
A Canudos da espera, do sai não sai, é uma cidade que morre aos poucos, por causa desse açude que o governo mandou fazer em Cocorobó. Uma agonia que se prolonga há treze anos. Gente de lá, hoje, vive como o próprio lugar: bocejando à espera do último dia, que poderá ser daqui a um ano, ou dois, ou dez, quem sabe?
São umas noventa casas, a maioria em ruínas. Umas vinte e poucas famílias têm morada lá, umas vivendo de plantar em tempo de chuva e criar bode; outras, do trabalho na estrada que passa perto ou nas obras do açude (em Cocorobó moram umas 2.000 pessoas, gente dos trabalhadores nas obras); e outras, “do que Deus for servido”. Ao sol, presença constante de todos os dias, Canudos é já uma cidade morta. A paradeira, o mormaço a tudo encobrem — casas e gentes. Vez ou outra, uma velha de xale negro à cabeça atravessa a praça, em pleno tremer do sol sobre o chão avermelhado e seco. Mas passa como uma sombra, quase irreal, e logo desaparece, engolida por uma porta qualquer.
Sinal de vida, vida, que ainda há são os meninos que aparecem quando o sol se faz menos presente, nos fins de tarde, a brincar no vazio da praça ou por entre as ruínas do que já foi casa de moradia. Esses meninos, que se misturam aos bodes saltadores em seus brinquedos, ignoram a agonia de Canudos, como ignoram o drama terrível que ali se desenrolou. Essas casas que restam intactas e as ruínas em meio às quais eles brincam foram edificadas com o barro embebido de sangue e sobre os ossos dos que tombaram, indomáveis. Essas crianças e esses bodes pulam, alegres, no chão do maior cemitério nacional. Um cemitério que se fez um povoado e agora agoniza. Até o dia de ser sepultado para sempre sob as águas.
Memória de Antônio Bruega, que dá testemunho de tudo
E disse Antônio Bruega, que foi menino de olhos e ouvidos abertos para tudo o que aconteceu:
Tudo aquilo foi uma “ordem”, muito alta, que tinha de ser cumprida, umaprofecia que corria o Mundo dando o aviso: neste sertão vai ter uma guerra deirmão contra irmão.
E disse mais Antônio Bruega, ao começar a dar seu testemunho, na sala de chão batido de sua casa, no meio da caatinga, três léguas distante de Canudos:
A verdade eu falo; gosto da verdade e não piso nela, senão escorrego e caio.
Do apóstolo Antônio Conselheiro e do que veio depois por via dele, nos espantos do sertão, é que Antônio Bruega, de nome verdadeiro Antônio Ferreira Mattos, dá testemunho de muito valimento, porque dele nunca antes se ocupou repórter perguntador nenhum. Não foi ele nenhum jagunço brigador, que idade para isso não tinha nos tempos da guerra. Mas viu e sentiu tudo — o desenrolar daquele drama sem paralelo na História.
Antônio Bruega, ex-combatente da Guerra de Canudos, clicado por Audálio Dantas.
Só sei que eu tinha treze anos em 1897, porque assim falou meu pai dentrodum piquete, uns dias antes do fim de tudo. Agora, o senhor faça a conta econfira: já vou entrando nos oitenta. Mas memória boa eu tenho e vou contartudo, exato como foi.No princípio, pelos 1893, quando o Conselheiro chegou nos Canudos, já foipor via de um destempero que houve no lugar Bom Conselho, onde ele serevoltou e disse pro povo não pagar os impostos pra Lei da República. Saiu delá já sabendo que vinha força atrás dele. E levou muita gente, no rumo deCanudos, mas parou no Massetê, e lá a força o alcançou, e houve briga, e houvesangue.Era a “ordem” que principiava a ter cumprimento, vigie o senhor.
Contar esse pedaço de história, de que não foi testemunha de vista, Antônio Bruega conta porque ouvia tudo da boca dos mais velhos, “dentro do Canudo”, antes e durante a guerra que lhe matou pai, mãe e seis irmãos. Dentro de Canudos, mesmo, ele viveu e sobreviveu para contar tudo. Foi no tempo que durou a guerra. O pai tinha roça ali perto, nos lados do Angico, uma légua retirada. A gente dele ia quase todo dia ouvir sermão do Conselheiro e, quando começou a chegar tropa do governo, foi toda morar “dentro da rua”, onde havia mais proteção.
Como era o Conselheiro?
Ah! Era ver um dos apóstolos. O trajamento era comprido, batendo nos pés, eo cabelo batia no ombro. E dizia pra ninguém aceitar a Lei da República, quede Deus não era. Quem estava do lado de Deus Bom Jesus não morria; só faziase mudar pro céu.
Antônio Bruega.
O menino Bruega, como toda a gente que lá vivia, acreditava em verdade que o Conselheiro era santo mesmo. E hoje, pelo sim, pelo não, há a dúvida, Bruega nega e afirma. E a justifica:
Naquele tempo todo mundo dizia que ele era santo, e eu também acreditava.
Não era o Santo Conselheiro figura que se mostrasse a toda hora, não senhor. Vivia quase sempre dentro da casa dele, com guardas e beatos. Bruega o viu nos sermões e quando, já a guerra tomando conta do sertão, mandava fazer fogueira com o dinheiro maldito da República. E quando, um dia, uma tropa tomando chegada, os homens foram ouvi-lo sobre o que fazer. Quem mandar para receber a “fraqueza do governo”? E respondeu-lhes o Conselheiro:
João Abade ou qualquer outro desses homens de vergonha.
Canudos no final da década de 1960, próximo do momento que o local seria coberto pelas águas do Cocorobó.
Menino Bruega viu muito e ouviu muito, da igreja nova, na beira do Vaza-Barris, na Rua da Caridade, num dos extremos da cidadela de Canudos. E muitos foram os seus espantos, nesse ver e ouvir. Um foi no dia em que as tropas do Major “Febrone” (Febrônio de Brito) chegaram à serra do Cambaio, já esperadas pelos jagunços entrincheirados. Bruega faz um parêntese na sua história e diz que “na obra deles (a história escrita fora do sertão) escreveram que era 8 mil jagunços, mas não era, não”. Pois naquele dia, bem cedinho, o pai mandou-o à roça, no Angico, a ver se a chuva (caíra trovoadão na véspera) não enchera demais o riacho das Umburanas e invadira as plantações. Foi e voltou, numa carreira. Quando estava numa baixada, perto do Alto do Mário, ouviu o estrondo de um trovão. Olhou pro céu, estava limpo, sem nuvem nem jeito nenhum de chuva. Houve o segundo estrondo, e “então eu conheci que não era trovão, era o fogo da tropa, era o fogo da ‘peça’ (canhão) de que tanto o povo falava na rua”. Quando chegou a Canudos, viu o alvoroço, que um aviso tinha vindo do Cambaio — “morreu muita gente nossa”. O irmão mais velho dele estava lá, e o menino pensou com mais intensidade na morte. Mandaram um reforço — “uns 50 homens, que não mandavam de muitos, não”. João Abade era quem escolhia os combatentes e dizia: “Vão vocês, se tiver precisão, vai mais”.
Naquele fogo morreu gente muita, gente da Rua do Canudo, no combate quese deu na Lagoa do Cipó, lugar de acampamento do Major “Febrone”. Água dalagoa, depois, ficou uma vermelhidão e ficou sendo aquele lugar chamado aLagoa do Sangue.
O mesmo local da foto anterior no ano de 1964 – Foto – Audálio Dantas.
Bruega dá testemunho, bem dado, e tudo confere com a História, com pequenas diferenças, principalmente de pontos de vista, que o dele é o do povo de Canudos, já se vê. Major “Febrone”, militar de muita correção, viu que a luta, naquelas condições encontradas na caatinga, que seus soldados não conheciam, com gente braba como aqueles jagunços, seria um inútil derramamento de sangue. E ordenou a retirada. Arma de soldado, ficou por lá, na caatinga, e serviu para os combates que vieram depois. Como o de Moreira César, que chegou “num cavalo pampa do tamanho desta casa”, querendo acabar com Canudos num instante e terminou se acabando ele, quando já ia entrando na rua. Foi um tiro que um jagunço deu, e o comandante ferido foi a desgraça da tropa, que terminou numa debandada de fazer dó, a correr pela caatinga, “os macacos na frente, os jagunços atrás deles”. Na debandada deixaram até o corpo do comandante ferido no caminho.
E disse Bruega:
Foi muita gente fidalga correndo de pé no chão!
E veio o fim, depois, quando chegaram forças de tudo que era lugar, mais de 5 mil soldados, para acabar tudo de uma vez, cercando Canudos por todos os lados. Quem tinha saído antes, muito bem; quem não, jeito nenhum tinha mais “nem que a gente voasse, mesmo assim era derrubado; quanto mais andando no chão”. O cerco durou muitos dias, pra deixar o pessoal sem remissão de comida e de água. E quem não morreu de fome e de sede morreu no grande incêndio final. Restavam poucos homens para a luta, assim mesmo com fome e sem munição. Nem respondiam a tiro de soldado, pra não ficar sem bala na hora de uma precisão maior. E o bombardeio era de manhã a noite, sem paradeiro. Mulher e menino ficavam dentro da igreja toda de pedra ou não davam presença na rua.
Foi em Canudos que o gênio de Euclides da Cunha criou a frase “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. E é mesmo!
No dia do fim de tudo, o menino Bruega estava num piquete, junto com o pai. Quem comandava era um Antônio Félix do Campo Alegre, morador na rua que lhe dava o nome. A força foi apertando o cerco, assim “como quem fecha a boca de uma mochila”. Do piquete, o menino via “o mundo fervendo”. O tiroteio era tão grande “que tomava as oiças da gente e estremecia a terra”. Assim ele considerava quando veio um portador, com aviso:
Vamos socorrer a igreja, que os soldados estão entrando!
Os que estavam na Rua do Campo Alegre eram os últimos defensores de Canudos. E desceram na direção da igreja-fortaleza, mas não tiveram valia, que os soldados já a haviam tomado. Gente de Canudos brigava como podia, no ferro frio, que munição já não tinha.
Canudos na década de 1940.
Antônio Félix do Campo Alegre descobrira uma trincheira, buraco no chão, e lá ficou. Foi quando um beato do Conselheiro levantou uma bandeira branca e desceu na direção da igreja, para pedir paz. Depois voltou dizendo que todos se entregassem, mas ninguém quis isso, não. Antônio Félix do Campo Alegre disse, o menino Bruega ouviu e agora dá testemunho:
Se esse beato vier aqui, o primeiro a atirar nele sou eu!
Antônio Félix do Campo Alegre morreu no seu buraco, com outros companheiros, a ferro frio. O irmão do menino Bruega, Evaristo, foi apanhado vivo naquele dia, mas morreu no outro, degolado, como todos que escaparam do fogo vingativo da República. A mãe morreu sob os escombros da igreja nova, e ele ficou na casa de uma tia, de nome Rufina, até que a fome e a sede o levaram aos vencedores. Queria se entregar de noite, mas a tia disse que não, porque soldado, embriagado pela vitória, andava abusando de mulher que pegava de noite na rua. Por isso, muitas delas se jogavam nos incêndios dos casebres, com os filhos, para não sofrerem a afronta.
Foto Audálio Dantas.
Com Antônio ficara o irmão menor, chamado Pedro, de 6 anos. E foram, junto com as mulheres e outros meninos, para um campo de prisioneiros no riacho do Papagaio. Deitaram-se na areia, exaustos, mas soldado não deixava ninguém dormir, não, senhor. Obrigavam a gente jagunça a dar vivas à República vitoriosa.
Viu soldado procurar arma enfiando a mão em seio de mulher. E pensou, lembrando os sermões do Conselheiro, que aquilo era a Lei da República, “Lei do Cão”!
Depois foi a marcha dos prisioneiros — só mulheres e crianças, que os homens morreram todos — no rumo de Monte Santo. E a ordem era matar quem parasse no caminho. Dividiram os prisioneiros em grupos, cada qual vigiado — aqueles infelizes rotos e mortos de fome — por 10 ou mais soldados.
Como se encontrava na década de 1940 o canhão inglês Withworth de 32 libras, a famosa “Matadeira”, utilizado pelo Exército em Canudos e destruído corajosamente pelos seguidores de Antônio Conselheiro.
No grupo que ia ele, uma mulher ferida na perna, de nome Juana, não aguentou, apesar de todo o esforço. Foi quando pararam para beber água no Calumbi que Juana disse: “Não aguento mais, valha-me Nossa Senhora”, mas as companheiras a animaram, e ela conseguiu ir até o lugar chamado Boa Esperança e lá caiu. E então três soldados descarregaram as carabinas nela. Menino Bruega olhou pra trás, mandaram que ele olhasse para a frente. Ele mesmo tinha ferimentos (nas mãos e na clavícula), cujas marcas tem até hoje, mas olhou sempre para a frente. Até chegar a Monte Santo, prisioneiro da República.
Logo a República perdoou àquele menino o crime de haver nascido em sertão de tão longe. E ele voltou ao chão de Canudos, para ser pastor de bodes. Hoje, sem querer e sem dizer, é ainda jagunço — na paz de sua caatinga. Quando dava o seu testemunho, dividia bem o seu povo (“nós”) e os de fora (“eles”).
— Quando os “macacos” vieram aqui…
— No tempo da guerra?
— Não, senhor, outro dia mesmo.
Velho Bruega falava de uma comissão militar que estivera há poucos dias em Canudos.